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Academic year: 2021

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História Diversa

Atena Editora

2019

Danila Barbosa de Castilho

(Organizadora)

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2019 by Atena Editora Copyright da Atena Editora

Editora Chefe: Profª Drª Antonella Carvalho de Oliveira Diagramação e Edição de Arte: Geraldo Alves e Lorena Prestes

Revisão: Os autores Conselho Editorial

Prof. Dr. Alan Mario Zuffo – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul Prof. Dr. Álvaro Augusto de Borba Barreto – Universidade Federal de Pelotas Prof. Dr. Antonio Carlos Frasson – Universidade Tecnológica Federal do Paraná

Prof. Dr. Antonio Isidro-Filho – Universidade de Brasília Profª Drª Cristina Gaio – Universidade de Lisboa

Prof. Dr. Constantino Ribeiro de Oliveira Junior – Universidade Estadual de Ponta Grossa Profª Drª Daiane Garabeli Trojan – Universidade Norte do Paraná

Prof. Dr. Darllan Collins da Cunha e Silva – Universidade Estadual Paulista Profª Drª Deusilene Souza Vieira Dall’Acqua – Universidade Federal de Rondônia

Prof. Dr. Eloi Rufato Junior – Universidade Tecnológica Federal do Paraná Prof. Dr. Fábio Steiner – Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul Prof. Dr. Gianfábio Pimentel Franco – Universidade Federal de Santa Maria

Prof. Dr. Gilmei Fleck – Universidade Estadual do Oeste do Paraná

Profª Drª Girlene Santos de Souza – Universidade Federal do Recôncavo da Bahia Profª Drª Ivone Goulart Lopes – Istituto Internazionele delle Figlie de Maria Ausiliatrice

Profª Drª Juliane Sant’Ana Bento – Universidade Federal do Rio Grande do Sul Prof. Dr. Julio Candido de Meirelles Junior – Universidade Federal Fluminense Prof. Dr. Jorge González Aguilera – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul

Profª Drª Lina Maria Gonçalves – Universidade Federal do Tocantins Profª Drª Natiéli Piovesan – Instituto Federal do Rio Grande do Norte Profª Drª Paola Andressa Scortegagna – Universidade Estadual de Ponta Grossa Profª Drª Raissa Rachel Salustriano da Silva Matos – Universidade Federal do Maranhão

Prof. Dr. Ronilson Freitas de Souza – Universidade do Estado do Pará Prof. Dr. Takeshy Tachizawa – Faculdade de Campo Limpo Paulista Prof. Dr. Urandi João Rodrigues Junior – Universidade Federal do Oeste do Pará

Prof. Dr. Valdemar Antonio Paffaro Junior – Universidade Federal de Alfenas Profª Drª Vanessa Bordin Viera – Universidade Federal de Campina Grande Profª Drª Vanessa Lima Gonçalves – Universidade Estadual de Ponta Grossa

Prof. Dr. Willian Douglas Guilherme – Universidade Federal do Tocantins

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (eDOC BRASIL, Belo Horizonte/MG)

H673 História diversa [recurso eletrônico] / Organizadora Danila Barbosa de Castilho. – Ponta Grossa (PR): Atena Editora, 2019. Formato: PDF

Requisitos de sistema: Adobe Acrobat Reader Modo de acesso: World Wide Web

Inclui bibliografia

ISBN 978-85-7247-054-4 DOI 10.22533/at.ed.544192201

1. História – Estudo e ensino. 2. História – Filosofia. I. Castilho, Danila Barbosa de.

CDD 900.7 Elaborado por Maurício Amormino Júnior – CRB6/2422

O conteúdo dos artigos e seus dados em sua forma, correção e confiabilidade são de responsabilidade exclusiva dos autores.

2019

Permitido o download da obra e o compartilhamento desde que sejam atribuídos créditos aos autores, mas sem a possibilidade de alterá-la de nenhuma forma ou utilizá-la para fins comerciais.

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APRESENTAÇÃO

A história preocupa-se com o estudo do homem no tempo. O tempo é compreendido como algo complexo, não linear e os documentos produzidos no passado são vestígios que podem ser interpretados sob diferentes perspectivas.

O conhecimento histórico é construído num processo constante de reflexão com os autores, as fontes e as relações sociais. Essa construção torna-se uma tarefa atenta aos contextos e com rigor quando o pesquisador problematiza suas fontes.

Neste processo de construção o passado é lido a partir do presente utilizando fontes – que podem ser escritas, orais, fotográficas, entre outras – e em diálogo com outras ciências como a filosofia, a sociologia, a teologia, a antropologia e etc.

Essa diversidade de fontes, temas e diálogos estão presentes nos textos apresentados nesta coletânea. Diferente das ciências exatas a história está sempre em busca dos porquês.

Ao encontrar uma possível resposta o historiador pode modificar análises feitas anteriormente e provocar novas investigações sob outros pontos de vista. Assim espera-se que esta obra possa, além de divulgar textos recentes, estimular novas pesquisas.

Boa leitura! Danila Barbosa de Castilho

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SUMÁRIO

CAPÍTULO 1 ...8 AS LINGUAGENS DE LIDERANÇA EVANGÉLICA NA COMUNIDADE GÓLGOTA DE CURITIBA/PR NA CONTEMPORANEIDADE

Maralice Maschio

DOI 10.22533/at.ed.5441922011

CAPÍTULO 2 ...20 SINCRETISMO RELIGIOSO NO BRASIL (COLONIAL): UMA PERSPECTIVA DE ANÁLISE ATRAVÉS DA OBRA CASA GRANDE & SENZALA

Lidiana Gonçalves Godoy Zanati Ricardo Oliveira da Silva

DOI 10.22533/at.ed.5441922012

CAPÍTULO 3 ...27

PONTIFEX MAXIMUS E MONARQUIA INGLESA: BIPOLARIZAÇÃO E DISPUTA DE PODERES NA

ERA ELISABETANA

Giovana Eloá Mantovani Mulza DOI 10.22533/at.ed.5441922013

CAPÍTULO 4 ...43 SEM QUERER, QUERENDO: CATOLICISMO E POLÍTICA NA AUTOBIOGRAFIA DE ROBERTO GÓMEZ BOLAÑOS

Priscila de Andrade Rodrigues DOI 10.22533/at.ed.5441922014

CAPÍTULO 5 ...55 A AÇÃO POPULAR MARXISTA-LENINISTA E A PRODUÇÃO DE REVOLUCIONÁRIOS NA DÉCADA DE 1960

Olívia Candeia Lima Rocha DOI 10.22533/at.ed.5441922015

CAPÍTULO 6 ...67 A CONSTITUIÇÃO OUTORGADA BRASILEIRA DE 1824

William Geovane Carlos

DOI 10.22533/at.ed.5441922016

CAPÍTULO 7 ...75 A OCUPAÇÃO AMERICANA E A CONSTITUIÇÃO JAPONESA NO PÓS-GUERRA

Douglas Pastrello

DOI 10.22533/at.ed.5441922017

CAPÍTULO 8 ...86 BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE AS QUESTÕES COTIDIANAS DE VIDA E DE TRABALHO NO VARGUISMO E NO PERONISMO

Mayra Coan Lago

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CAPÍTULO 9 ...102 COM POUCOS TIJOLOS E MUITOS VOTOS: O CONJUNTO HABITACIONAL ITARARÉ E AS ELEIÇÕES DE 1978 (TERESINA-PI)

Marcelo de Sousa Neto

DOI 10.22533/at.ed.5441922019

CAPÍTULO 10 ... 119 FONTES ORAIS & HISTÓRIA POLÍTICA E OS ESTUDOS DE HISTÓRIA LOCAL E REGIONAL

Pere Petit

DOI 10.22533/at.ed.54419220110

CAPÍTULO 11 ...128 O EXÍLIO COMO PRÁTICA DO TERRORISMO DE ESTADO (TDE): O CASO DE UM GRUPO DE GAÚCHOS EXILADOS NO CHILE (1970 -1973)

Cristiane Medianeira Ávila Dias DOI 10.22533/at.ed.54419220111

CAPÍTULO 12 ...141 CONHECENDO AS COMUNIDADES, FORTALECENDO SABERES

Márcia Regina Bierhals Nóris Beatriz Costa Ney

DOI 10.22533/at.ed.54419220112

CAPÍTULO 13 ...149 EDUCAÇÃO DO CAMPO E AS CIÊNCIAS HUMANAS: A EXPERIÊNCIA DA ESCOLA POPULAR NA FAZENDA LARANJAL EM ITAPURANGA

Valtuir Moreira da Silva

DOI 10.22533/at.ed.54419220113

CAPÍTULO 14 ...161 O ESTAGIO SUPERVISIONADO NA FORMAÇAO DE PROFESSORES

Cristina Aparecida de Carvalho Michelle CastroLima

Marco Antônio Franco do Amaral DOI 10.22533/at.ed.54419220114

CAPÍTULO 15 ...175 O LÚDICO NO ENSINO DE ÁFRICA E DA CULTURA AFRO-BRASILEIRA NA EDUCAÇÃO BÁSICA: VALORIZAÇÃO DE NOSSAS RAÍZES

Vanessa Cristina Meneses Fernandes DOI 10.22533/at.ed.54419220115

CAPÍTULO 16 ...182 UMA EXPERIÊNCIA COM A HISTÓRIA ORAL NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE LÍNGUA PORTUGUESA À LUZ DO LETRAMENTO

Augusto José Savedra Lima Nilton Paulo Ponciano

Marta de Faria e Cunha Monteiro DOI 10.22533/at.ed.54419220116

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CAPÍTULO 17 ...190 MULHERES QUEER: CONSTRUÇÃO DAS IDENTIDADES DE MULHERES DJS

Edson Sucena Junior

DOI 10.22533/at.ed.54419220117

CAPÍTULO 18 ...202 “LAÇOS DE PAPEL”: AS RELAÇÕES DE AMIZADE, CONFIANÇA E RESSENTIMENTO ESTABELECIDAS ATRAVÉS DA ESCRITA DE CARTASDA BARONESA AMÉLIA PARA SUA FILHA AMÉLIA ENTRE OS ANOS DE 1885 A 1917 NA CIDADE DE PELOTAS/RS

Talita Gonçalves Medeiros

DOI 10.22533/at.ed.54419220118

CAPÍTULO 19 ...213 A MULHER, TAL QUAL O PANTANAL SOBREPÕE AOS SEUS LIMITES - MIRELE GELLER, LIMITES ROMPIDOS

Juliana Cristina Ribeiro da Silva DOI 10.22533/at.ed.54419220119

CAPÍTULO 20 ...229 A RELAÇÃO GÊNERO-RAÇA EM MARU DE BESSIE HEAD

Valdirene Baminger Oliveira DOI 10.22533/at.ed.54419220120

CAPÍTULO 21 ...241 AGREMIAÇÕES NEGRAS: CACUMBIS, RANCHOS, CORDÕES, BLOCOS CARNAVALESCOS E ESCOLAS DE SAMBA (FLORIANÓPOLIS, 1920-1955)

Karla Leandro Rascke

DOI 10.22533/at.ed.54419220121

CAPÍTULO 22 ...256 ENTRE O RELATO E A ESCRITA: ORALIDADE E TEXTUALIDADE EM O. G. REGO DE CARVALHO

Pedro Pio Fontineles Filho

DOI 10.22533/at.ed.54419220122

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Capítulo 2 20

História Diversa

CAPÍTULO 2

SINCRETISMO RELIGIOSO NO BRASIL (COLONIAL):

UMA PERSPECTIVA DE ANÁLISE ATRAVÉS DA OBRA

CASA GRANDE & SENZALA

Lidiana Gonçalves Godoy Zanati

Universidade Nova de Lisboa, FCSH Portugal-PT

Ricardo Oliveira da Silva

Universidade Federal Mato Grosso do Sul, CPNA Nova Andradina-MS

RESUMO: O sincretismo religioso é a presença

de vestígios de algumas crenças religiosas em outras e no Brasil esta característica é percebida desde a sua colonização. Esta pesquisa visa analisar o livro de Gilberto Freyre Casa Grande & Senzala no intuito de verificar como esse autor interpretou o sincretismo religioso na sociedade (colonial) brasileira, pois foi um dos principais teóricos da historiografia brasileira que tratou deste assunto. Neste caso, para análise teórica e metodológica da referida obra, trabalharemos com a história das ideias, enfatizando a abordagem dialógica do historiador Dominick LaCapra, fazendo a relação das fontes com a abordagem teórica do Gilberto Freyre.

PALAVRAS-CHAVE: Colonização. Sincretismo

Religioso. Gilberto Freyre.

ABSTRACT: The Religious syncretism is the

presence of vestiges of some religious beliefs in others and in Brazil this characteristic has been perceived since its colonization. This research

aims to analyze the book by Gilberto Freyre Casa Grande & Senzala in order to verify how this author interpreted religious syncretism in brazilian society (colonial), since he was one of the main theorists of brazilian historiography who dealt with this subject. In this case, for theoretical and methodological analysis of this work, we will work with the history of ideas, emphasizing the dialogical approach of the historian Dominick LaCapra, making the relation of the sources with the theoretical approach of Gilberto Freyre.

KEYWORDS: Colonization. Religious

Syncretism. Gilberto Freyre. 1 | INTRODUÇÃO

O nosso objetivo nesse trabalho será analisar a obra Casa Grande & Senzala de Gilberto Freyre, publicada originalmente no ano de 1933, no intuito de verificar como esse autor interpretou o sincretismo religioso na sociedade (colonial) brasileira, pois foi um dos principais teóricos da historiografia brasileira que tratou deste assunto, a partir da abordagem da história cultural.

Para análise teórica e metodológica da referida obra, trabalharemos com a história das ideias, enfatizando a abordagem dialógica

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História Diversa Capítulo 2 21

do historiador Dominick LaCapra. O historiador Ricardo Silva mostra que para Dominick LaCapra é necessária e primordial “ler e interpretar os textos complexos e a necessidade de formular o problema da relação destes textos com diversos contextos” (SILVA, 2015, p. 19). Neste caso, a perspectiva de LaCapra é que o historiador aborde a compreensão e a reconstrução do passado a partir do uso da linguagem, pensando no texto em relação aos contextos. Para esse processo, LaCapra sugere seis conceitos analógicos importantes para se relacionar com o texto, os quais são “[...] intenciones, motivaciones, sociedade, cultura, el corpus e la estrutura [.. ]” (LACAPRA, 2012, p. 252). Desta maneira, nossa intenção será articular a relação entre o modo do discurso do texto e a abordagem de Gilberto Freyre.

2 | A OBRA

Gilberto Freyre, natural de Recife, nasceu dia 15 de março de 1900. Fez bacharelado em Ciências e Letras e em Artes e especializou-se em política e sociologia. Ministrou aulas no Brasil e em diversas universidades na Europa e EUA. Sua vida foi dedicada a pesquisar e a escrever, assim realizou diversas viagens internacionais. Escreveu diversos livros e recebeu muitos prêmios importantes. Também teve vida política ativa como deputado federal. Faleceu no dia 18 de julho de 1987, com oitenta e sete anos.

Escreveu o livro: “Casa Grande & Senzala: formação da família sob o regime da economia patriarcal”, publicado em 1933, uma das obras mais representativas sobre os problemas e a formação da sociedade brasileira. Os pontos mais relevantes desta obra são a organização social e política a partir da casa-grande, a miscigenação, o convívio dos proprietários e dos escravos e a presença indígena, ou seja, delimita-se na formação do Brasil hibrido, com participação do branco, do índio e do negro.

A obra de Gilberto Freyre trata de assuntos voltados à formação da sociedade brasileira com a participação hibrida dos povos, neste caso o branco europeu, o índio nativo e o negro escravo. O livro está dividido em cinco capítulos, em que o primeiro se refere às características gerais da colonização portuguesa do Brasil: formação de uma sociedade agrária, escravocrata e híbrida. O segundo capítulo: O indígena na formação da família brasileira. O terceiro: O colonizador português: antecedentes e predisposições. O quarto: O escravo negro na vida sexual e familiar do brasileiro e o quinto como continuação do anterior.

Em síntese o primeiro capítulo levará ao leitor a organização econômica da sociedade brasileira em 1532, a qual era baseada na agricultura do açúcar. Focará na formação social e cultural em torno da casa-grande e das pessoas as quais moravam nela, como por exemplo, os senhores brancos e os padres e também sobre o convívio entre escravo negro e senhor branco na casa-grande e na senzala. A colonização como um empreendimento da família patriarcal. O autor mostrará a formação social em volta da casa-grande delimitando os aspectos religiosos, alimentares e de convívio. Com

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História Diversa Capítulo 2 22

a colonização também abordará a questão da miscigenação que gerou o hibridismo na sociedade brasileira focando na facilidade de adaptação dos colonizadores portugueses.

No segundo capítulo, o autor falará da chegada dos europeus na América e a degradação da sociedade indígena em contato com os brancos portugueses, a interação com os jesuítas e as contribuições indígenas na cultura, na culinária e na medicina. Também mostrará a parte religiosa da cultura indígena, suas magias e ritos, assim como também o convívio entre si e o encanto que a índia era para o português.

No terceiro capítulo será apresentado o colonizador português e suas características, o poder da Igreja Católica, a imigração dos mouros e judeus e a iniciativa privada na colonização.

No quarto e no quinto capítulo, Gilberto Freyre mostrará a herança da cultura africana, suas lendas, mitos, rituais, festas e astrologias, as quais contribuíram para o desenvolvimento cultural da sociedade brasileira. Enfatiza o campo sexual com as relações entre as raças, à educação das crianças brancas pelas escravas negras, os colégios jesuítas, o senhor-de-engenho como um homem que não trabalhavam e a culinária negra.

Gilberto Freyre apresenta uma abordagem que favorece o âmbito cultural enriquece a historiografia brasileira com detalhes da sociedade no Brasil colonial. Isto se dá por que o autor busca em variada fontes como inventários, registros inquisitórios e eclesiásticos, atas, documentos médicos, arquivos de família, livros de viagens, jornais, cartas, livros de receitas e muitas outras, as quais ajudam o autor no relatado das diversas informações da vida, dos costumes, das crenças e das relações que se tinham naquele momento.

3 | A RELIGIÃO NA FORMAÇÃO BRASILEIRA

As referencias de Gilberto Freyre em Casa Grande & Senzala enfatiza a presença da religião como um dos elementos constitutivos na formação da sociedade brasileira, com predomínio do catolicismo, um “cristianismo reduzido à religião de família e influenciado pelas crendices da senzala.” (FREYRE, 2006, p. 44). A ideia que Freyre apresenta é um tipo de catolicismo luso-brasileiro enquadrado ao novo ambiente como resultado do equilíbrio entre as raças, não nos esquecendo de um fator preponderante que é a predisposição do português para a colonização hibrida em que Freyre explica pelo “passado étnico, ou antes, cultural, de um povo indefinido entre a Europa e a África” (FREYRE, 2006, p. 66), antes de chegar ao Brasil.

Para entendermos o pensamento de Freyre, um fator importante é a influência da antropologia moderna de Franz Boas na vida de Gilberto Freyre, em que Marcussi faz referencia mostrando que para Freyre

a ordem patriarcal teria sua estabilidade fundada no fato de que oferecia uma série de espaços de confraternização entre seus elementos opostos (entre senhores e

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História Diversa Capítulo 2 23

escravos e entre as diversas raças e culturas), espaços nos quais os choques seriam amortecidos e os antagonismos se harmonizariam sem que exatamente se diluíssem uns nos outros.(MARCUSSI, 2009:02)

Neste aspecto, podemos verificar que para Gilberto Freyre o “equilíbrio de antagonismos” é o fator positivo da miscigenação, segundo suas próprias palavras foram as orientações do professor Boas que o fez “considerar fundamental a diferença entre raça e cultura; a discriminar entre os efeitos de relação puramente genéticas e os de influencias sociais, de herança cultural e de meio” (FREYRE, 2006, p. 32) fazendo com que desse ênfase na cultura e não na raça como fator explicativo da formação da sociedade brasileira.

Stuart Hall (1998) explica que as sociedades modernas são investidas de interação e fragmentação constante, reestruturam a ideia de espaço e tempo e rapidamente reformulam as próprias práticas que se interconectam com os demais. Assim Freyre remete a ideia de que nos espaços de relacionamento entre os portugueses, os negros e os índios havia uma harmonia abrandada e de certa forma inserida de ambos os lados, inclusive na questão religiosa, mesmo que de preponderância cristã.

REIS nos mostra que Freyre interpreta a sociedade brasileira pensando numa concepção de tempo sem rupturas, contínua e integrada entre o velho e o novo, em que “é vista como uma história pacífica, tranquila, integradora das diferenças.” (REIS, 2006, p. 80), o que percebemos é que isso se dá inclusive no viés religioso.

3.1 O ÍNDIO

A ideia que Freyre mostra a respeito do modo de vida do índio salienta principalmente as “relações sexuais e de família; magia e a mítica” (FREYRE, 2006, p. 167) os quais se integram à cultura portuguesa. Um dos primeiros choques apresentados por Freyre foi à questão religiosa do casamento entre laços sanguíneos relatados pelo padre Anchieta em que os próprios padres realizavam os casamentos.

Gilberto Freyre sempre se refere ao misticismo como resposta ao surgimento de manifestação religiosa que percebe na sociedade, como o caso do encarnado, a cor vermelha que Freyre observa preferencialmente no índio, mas também nas práticas portuguesa e africana. Para Gilberto Freyre em “qualquer das três vias, trata-se de um costume místico, de proteção ou de profilaxia do indivíduo contra espíritos ou influencias más” (FREYRE, 2006, p. 173).

Freyre atribui aos europeus a culpa pela degradação da raça e da cultura indígena, ele define a diferença entre raças com a distinção de superiores e inferiores, neste momento ele enfatiza que o contato dessas duas só pode produzir ou extermínio ou degradação, assim podemos observar que para Freyre no Brasil a raça indígena “intoxicou” a moral católica, mas ao mesmo tempo também observamos que para Freyre foi o catolicismo que “sufocou” muitos modos de vida indígena, como algumas danças e festividades, “procurando destruir, ou pelo menos, castrar, tudo o que fosse

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História Diversa Capítulo 2 24

expressão viril de cultura artística ou religiosa em desacordo com a moral católica e com as convenções europeias.” (FREYRE, 2006, p. 178-179). Notamos que apesar de Gilberto Freyre rejeitar o conceito de raça como fator explicativo da formação da sociedade brasileira, ele não rompe totalmente com o conceito ao se referir aos indígenas.

A presença do animismo e do totemismo indígena na sociedade brasileira enlaçada de alguma forma na cultura é vista por Gilberto Freyre como resquício das experiências e superstições indígenas que foram diminuídas, porém ao mesmo tempo, assimiladas entre as culturas, como “é o folclore, são os contos populares, as superstições, as tradições que o indicam.” (FREYRE, 2006, p. 211). Para Freyre isso representa uma integração ao meio e uma predisposição dos portugueses em incorporar e assimilar.

Para Freyre “O brasileiro é por excelência o povo de crença no sobrenatural” (FREYRE, 2006, p. 212) e caracteriza a crença no sobrenatural na cultura brasileira derivada da herança ancestral primitiva, inclusive também a selvageria, das quais se entende no pensamento de Freyre como resultado de “culturas oprimidas explodindo para respirar” (FREYRE, 2006, p. 213).

3.2 O COLONIZADOR

Para Freyre o colonizador europeu “melhor confraternizou com as raças chamadas inferiores. O menos cruel na relação com os escravos” (FREYRE, 2006, p. 265), porém foi o português, mais do que qualquer colonizador europeu que sobressai com sua plasticidade, isto para Freyre é o resultado de uma facilidade de cruzamento e miscigenação, ambas características da sociedade portuguesa.

Gilberto Freyre caracteriza a formação da sociedade portuguesa pelo desempenho de ordens religiosas, como por exemplo, os judeus e os mouriscos; sendo assim, Freyre acredita que “a nação constitui-se religiosamente, sem prejuízo das duas grandes dissidências que por tolerância política da maioria, conservaram-se [...]” (FREYRE, 2006, p. 284). Desta forma, Gilberto Freyre defende que devido à cultura portuguesa ter sido influenciada tanto pelos judeus, quanto pelos mouros, já provinha de antagonismos religioso da Europa e teve facilidade para colonizar a América tropical e absorver outras influencias ou ainda tolerá-las.

A partir deste ponto notamos somaticamente relatos de Freyre, notando o caráter social na sociedade colonial cheia de sincretismo religioso, como por exemplo, algumas festas aos santos com presença afrodisíaca africana como a festa de São João, ou a proteção de Santo Antônio, “um dos santos que mais encontramos associados às práticas de feitiçaria afrodisíaca no Brasil” (FREYRE, 2006, p. 326-327) e ainda o culto a São Gonçalo repleto de “elementos orgásticos africanos que teria absorvido no Brasil” (FREYRE, 2006, p. 329). Para Freyre a sobrevivência pagã no cristianismo

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português teve papel importante. 3.3 O NEGRO

Freyre dedica para o negro dois capítulos de sua obra, para ele “trazemos quase todos a marca da influência negra” (FREYRE, 2006, p. 367), inclusive as influencias religiosas. Podemos também nos referir a influencias que marcaram a sociedade colonial, como a culinária e a agricultura.

Para Gilberto Freyre há uma diferença entre raças, um termo que frequentemente ele utiliza, baseando nos estudos de Nina Rodrigues, o qual considera o negro brasileiro uma raça superior a de outros negros. Porém, para Freyre “não era a “raça inferior” a fonte da corrupção, mas o abuso de uma raça por outra.” (FREYRE, 2006, p. 402), ou seja, a condição de escravidão que degrada e diminui o negro e não a sua raça.

Também é Nina Rodrigues que verifica “proeminência intelectual e social entre os negros importados para o Brasil” (FREYRE, 2006, p. 393), os quais se observavam elementos religiosos maometanos fortemente expressos e com saliente intelectualidade. Observamos nos relatos de Gilberto Freyre uma relação que parece ter ocorrido entre as diferenças de religiosidades na atuação cultural desenvolvida na formação brasileira, em que “forçosamente o catolicismo no Brasil haveria de impregnar-se dessa influencia maometana como se impregnou da animista e fetichista, dos indígenas e dos negros menos cultos.” (FREYRE, 2006, p. 394).

Freyre refere sobre “práticas em que às influencias africanas misturavam-se, muitas vezes descaracterizados, traços de liturgia católica e sobrevivência de rituais indígenas” (FREYRE, 2006, p. 407), assim nos chama a atenção às influencias africanas, misturadas com as liturgias católicas e rituais indígenas, destacando uma sociedade sincrética, realmente misturada docilmente, afirmando assim, um catolicismo não tão rigoroso como o europeu, mas flexível e determinante na formação da sociedade brasileira.

4 | CONSIDERAÇÕES FINAIS

Gilberto Freyre marca a historiografia brasileira com sua abordagem inovadora sobre a história brasileira. A partir de sua obra Casa Grande & Senzala percebemos sua compreensão sobre o Brasil (colonial), nomeadamente ao que se refere à religiosidade sincrética. Verificamos que o pensamento freyriano subsidia o entendimento social e coopera para a interpretação do processo histórico.

No pensamento de Gilberto Freyre encontramos novas possibilidades para o entendimento histórico de uma nação. Com sua a abordagem culturalista percebemos a valorização da miscigenação étnica e também cultural, o que favorece inclusive a sua interpretação da formação da sociedade colonial com elementos religiosos do português, do indígena e do africano, fatores importante na formação de uma sociedade híbrida.

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História Diversa Capítulo 2 26

Nesta perspectiva histórica, podemos concluir que Gilberto Freyre interpreta o sincretismo religioso no Brasil (colonial) como uma realidade na formação da cultura nacional, fator presente na identidade do brasileiro, uma junção de diversidade que sela a diversidade cultural brasileira, com muitas similaridades e peculiaridades.

REFERÊNCIAS

FREYRE, Gilberto. Casa Grande & Senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. Apresentação de Fernando Henrique Cardoso. 51ª ed. rev. São Paulo: Global. 2006.

HALL, Stuart. A Identidade em Questão. In: _______. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 1998, p. 07-22.

LACAPRA, Dominick. História Intelectual: Repensar la historia intelectual y ler textos. In: PALTI, Elías José. Giro Linguístico e a história intelectual. 1ª Ed. 1ªReimp. Bernal: Universidad Nacional de Quilmes, 2012. P. 237-293.

MARCUSSI, Alexandre Almeida. Trocas culturais e afetividade em Gilberto Freyre e Franz Boas. In: Sérgio Ricardo da Mata, Helena Miranda Mollo e Flávia Florentino Varella (orgs.). Anais do 3º.

Seminário Nacional de História da Historiografia: aprender com a história? Ouro Preto: Edufop,

2009. ISBN: 978-85-288-0061-6.

REIS, José Carlos. Anos 1930: Gilberto Freyre – O reelogio da colonização portuguesa. In: REIS, José Carlos. As Identidades do Brasil: de Varnhagen a FHC. 8ª edição. Rio de Janeiro: FGV, 2006. Pg. 51-82.

SILVA, Ricardo Oliveira Da. História das ideias: abordagens sobre um domínio historiográfico. Revista Brasileira de História & Ciências Sociais. RBHCS. Vol. 7 nº 13, junho de 2015.

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