592 CSRFT1 MINISTÉRIO DA FAZENDA
CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS
CÂMARA SUPERIOR DE RECURSOS FISCAIS Processo nº 11543.000904/200375 Recurso nº Especial do Procurador Acórdão nº 9101002.494 – 1ª Turma Sessão de 23 de novembro de 2016 Matéria PERDCOMP Recorrente FAZENDA NACIONAL Interessado XEROX COMÉRCIO E INDÚSTRIA LTDA.ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA
Anocalendário: 2003
COMPENSAÇÃO. INCORPORAÇÃO. DIREITO CREDITÓRIO DA INCORPORADA.
DÉBITOS DA INCORPORADORA.
Os efeitos da extinção da pessoa jurídica por incorporação, retroagem à data da deliberação dos membros da sociedade, ainda que as providências de baixa da inscrição da empresa incorporada junto ao sistema CNPJ da RFB, venham a ser tomadas posteriormente. Assim, deve ser reconhecido como da incorporadora, créditos antes pertencentes à incorporada, tendo em conta que os efeitos jurídicos da incorporação passam a ser reconhecidos a partir da assinatura da Assembléia Geral Extraordinária que deliberou pela incorporação.
RECONHECIMENTO DO DIREITO CREDITÓRIO. ANÁLISE INTERROMPIDA.
Inexiste reconhecimento implícito de direito creditório quando a apreciação da compensação restringese a aspectos atinentes à possibilidade do pedido. A homologação da compensação ou deferimento do pedido de restituição, uma vez superado o aspecto prejudicial, depende da análise da existência, suficiência e disponibilidade do crédito pela autoridade administrativa que jurisdiciona a contribuinte. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Marcos Aurélio Pereira Valadão – Presidente em exercício
(assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Marcos Aurélio Pereira Valadão (Presidente em Exercício), Adriana Gomes Rêgo, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luís Flávio Neto, Rafael Vidal De Araújo, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Demetrius Nichele Macei (suplente convocado). Ausente, justificadamente, o Conselheiro Carlos Alberto Freitas Barreto.
Relatório
A FAZENDA NACIONAL recorre a este Colegiado, por meio do Recurso Especial de fls. 401 e ss, do volume 3 digitalizado, contra o Acórdão nº 10196.320 (fls. 382 e ss do volume 2 digitalizado) que, por maioria de votos, deu provimento ao Recurso Voluntário interposto pela pessoa jurídica XEROX COMÉRCIO E INDÚSTRIA LTDA., em face da decisão da 1ª Turma de Julgamento da DRJ em Porto Alegre/RS, que indeferiu a manifestação de inconformidade apresentada pela interessada contra o despacho decisório que não reconheceu o direito creditório e não homologou as compensações pleiteadas nos autos. Transcrevese a ementa do acórdão recorrido:
IRPJ COMPENSAÇÃO DE TRIBUTOS CRÉDITOS DE PESSOA JURÍDICA EXTINTA POR INCORPORAÇÃO Cabível a compensação de tributos administrados pela SRF, decorrentes de operação de incorporação, após atendidos os trâmites previstos nas normas legais vigentes (art. 227 da Lei das S/A e arts. 1117 e 1118 do Novo Código Civil).
O Recurso interposto tem por fundamento decisão não unânime, contrária à lei ou à evidência de provas, como previa, à época, o art. 7º, I, do Regimento Interno da Câmara Superior de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF nº 147, de 2007.
Aduz a recorrente que, para que a sociedade incorporada deixe de existir, a extinção regular dessa somente pode ocorrer quando tal situação for levada a registro público, igualmente, não bastando a vontade dos sócios, expressada em Assembléia Geral Extraordinária, principalmente em se tratando de sociedades empresárias.
Salienta ser necessário o arquivamento e a extinção da pessoa jurídica incorporada para que a incorporação possa produzir todos os efeitos legais decorrentes, dentre estes, usufruir de créditos tributários da incorporada. Sem a consumação final, com o registro público colocando uma “pá de cal” na existência da empresa incorporada, não há como se aproveitar dos créditos desta, e isso porque, para terceiros, a empresa incorporada ainda existe, eis que ativa no Registro da Junta Comercial.
Aponta que não se pode fechar os olhos para a existência jurídica de duas empresas, com dois CNPJs distintos, muito embora já aprovada a incorporação e que somente devem ser considerados débitos próprios, débitos de uma única empresa, com uma única inscrição no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ).
Acrescenta ser vedada a compensação de prejuízos fiscais nos casos de incorporação, pois tal prática seria verdadeira evasão fiscal, vedação essa expressa no art. 33,
do Decretolei nº 2.341/87, base legal do art. 504 do RIR/94, e que ignorar tal preceito normativo seria declarar sua inconstitucionalidade, o que é vedado pela Súmula nº 2 do 1º C.C.
Ao final pede pela reforma integral do acórdão.
Pelo Despacho Presi nº 101220/2008, o Recurso Especial foi admitido (fl. 411, do volume 3 digitalizado).
Cientificada, a pessoa jurídica XEROX COMÉRCIO E INDÚSTRIA LTDA., apresentou Contrarrazões (fls. 435 e ss do volume 3 digitalizado), pugnando inicialmente, pelo não conhecimento do Recurso Especial da PFN por falta de prequestionamento da matéria relativa à vedação de compensação de prejuízos fiscais de empresa incorporada pela incorporadora.
Aponta, ainda, que o recurso contra decisão não unânime somente tem cabimento em relação à parte não unânime da decisão, seguindo a mesma lógica dos embargos infringentes, ressaltando que, dos cinco Conselheiros presentes no julgamento, apenas um deles (Dr. Alexandre Andrade Lima da Fonte Filho) votou no sentido de negar provimento ao recurso voluntário, por entender que o mais prudente seria suspender o andamento do feito até que fossem concluídos os procedimentos necessários para a baixa do CNPJ da XBRA, não tendo havido dúvida quanto a questão de que os créditos utilizados na compensação seriam da própria recorrida; havendo apenas discordância com o pronto retorno dos autos à primeira instância o que na prática poderia até ser entendido como provimento parcial.
Observa que, sob a escusa de que a votação não foi unânime, não pode a recorrente aumentar o escopo de seu recurso especial e pretender adentrar na discussão sobre a titularidade dos créditos utilizados na compensação, sobre a qual não houve divergência entre os Conselheiros do colegiado.
Quanto ao mérito, destaca que as compensações não foram homologadas tão somente pelo fato de, à época da sua apresentação, o status do CNPJ da XBRA ainda estar ativo, não obstante terem sido juntados no presente processo administrativo todos os documentos que demonstram a regularidade da incorporação, além da certeza e liquidez dos créditos utilizados.
Afirma que, por definição legal, todos os créditos tributários existentes em nome da XBRA já passaram a ser de responsabilidade da Recorrida no momento da incorporação, de acordo com o artigo 1.115 e 1.122 do CC e, inclusive, o próprio artigo 132 do CTN, e que o erário federal não ficou um momento sequer desamparado.
Defende que a extinção da empresa XBRA, de acordo com a legislação aplicável, ocorreu automaticamente com a aprovação da incorporação na assembléia geral extraordinária realizada em 15/03/2003
e que se a sociedade incorporada foi extinta e não existe mais, não havendo porque impedir que a sociedade incorporadora utilize os seus créditos para compensar com os seus próprios débitos, sob a escusa de que seriam créditos de terceiros
Salienta que a própria legislação tributária também reconhece que a extinção da sociedade incorporada ocorre na data da assinatura da ata de assembléia pertinente (e não da data da baixa no CNPJ), indicando a esse respeito a redação do § 1° do artigo 1º da Lei n° 9.430/1996 e os §§ 20 e 22 (inciso I) da Instrução Normativa da SRF n° 200/2002, em vigor à época da incorporação, e ainda, a Solução de Consulta nº 83/2001, da 7ª RF.
Ao final, enumera vários pedidos que podem ser resumidos em um único: manutenção do acórdão recorrido que determinou o retorno dos autos à primeira instância para apreciação do mérito da homologação da compensação. É o relatório.
Voto
Conselheira Adriana Gomes Rêgo Relatora A PFN foi cientificada do Acórdão nº 10196.320, em 08/01/2008 (fl. 398 do volume 2 digitalizado) e apresentou o Recurso Especial, em 21/0/2008, como demonstra o carimbo de protocolo à fl. 401 do volume 3 digitalizado, portanto, tempestivamente. Observo que, à época do aviamento da peça recursal, vigorava o Regimento Interno da Câmara Superior de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF nº 147, de 2007, que admitia a apresentação de Recurso Especial privativamente pela PFN, contra decisão do colegiado a quo, não unânime, proferida contrariamente à lei e/ou à evidência de provas. No presente caso, têmse que a decisão foi não unânime, já que a votação se deu por maioria, e a recorrente apontou contrariedade aos artigos 45 e 985 do CC e 227, § 3º da Lei das S/As.Observo, também, que não é requisito regimental para conhecimento dessa espécie de recurso, que a matéria recorrida tenha sido prequestionada. Tal pressuposto se dá, apenas, em relação ao Recurso Especial apresentado pelo contribuinte, já que a PFN somente vem a atuar no processo, quando há julgamento proferido pelo colegiado do CARF ou do antigo Conselho de Contribuintes, não sendolhe possibilitado participar do contencioso administrativo fiscal até esse momento.
Em relação à alegação de que apenas o Cons. Alexandre Andrade Lima da Fonte Filho votou no sentido de negar provimento ao recurso voluntário, “por entender que o
mais prudente seria suspender o andamento do feito até que fossem concluídos os procedimentos necessários para a baixa do CNPJ da XBRA”, cumpre destacar que essa
informação não consta do acórdão. Apenas consta que ele votava no sentido de negar provimento ao recurso. Como a matéria discutida no recurso voluntário era a possibilidade ou não de se homologar esta compensação, depreendo que a decisão foi não unânime em relação a esse aspecto, que é o que será discutido no presente processo. Assim, os requisitos para aviamento do Recurso Especial foram preenchidos, razão pela qual dele tomo conhecimento. Feitas estas considerações, passo ao exame do mérito.
Esclareçase que a pessoa jurídica interessada apresentou pedido de compensação de débitos próprios da contribuição para o financiamento da seguridade social COFINS, referentes aos períodos de apuração de outubro e novembro de 2001, indicando como direito creditório o saldo negativo de IRPJ do anocalendário de 2002, no valor total corrigido
de R$ 2.390.962,47, que teria sido apurado pela pessoa jurídica Xerox do Brasil Ltda., incorporada pela pessoa jurídica interessada XEROX COMÉRCIO E INDÚSTRIA LTDA.
O órgão de origem negou o pleito afirmando que, apesar de terem sido apresentados elementos que comprovam a incorporação, como o protocolo de incorporação registrado na Junta Comercial do Estado do Espírito Santo, localidade da empresa incorporadora, não fora apresentado o registro da incorporação junto à Junta Comercial do Estado do Rio de Janeiro, de localidade da incorporada, tampouco fora providenciada a baixa do CNPJ da incorporada, que permanecia ativo. Nessas condições, havendo dois (2) CNPJ ativos nos sistemas internos da RFB, considerou que a interessada apresentou um pedido de compensação com créditos de terceiros, situação vedada pela legislação de regência.
O colegiado a quo, ao julgar o Recurso Voluntário apresentado pela interessada, entendeu que as formalidades legais necessárias à caracterização da incorporação, com a produção de seus efeitos jurídicos, foram atendidas e, assim, superou o fundamento atribuído à Turma Julgadora de 1ª Instância para o indeferimento do pleito, que consistia em considerar o crédito como de terceiro, pela ausência de baixa do CNPJ da incorporada nos sistemas internos da RFB, afirmando que isso seria mera formalidade que não prejudicava os efeitos legais da incorporação. Determinou, assim, que os autos retornassem à repartição de origem para apreciação do mérito da compensação.
Com efeito, a razão da não homologação das compensações, constante do Despacho Decisório nº 11543.000904/200375, fundamentado no Parecer SEORT nº 1814/2004 (fls. 159 e ss do volume 1 digitalizado) foi resumidamente a seguinte:
[...]
Posteriormente, em consulta ao sistema SRF CNPJ, à fl. 157, verificouse que a situação cadastral da empresa XEROX DO BRASIL LTDA, CNPJ 29.213.386/000100, continua ativa. De acordo com o disposto no art. 40 da Instrução Normativa SRF n° 460/2004, é expressamente vedada a compensação de débitos do sujeito passivo, relativos aos tributos e contribuições administrados pela SRF, com créditos de terceiros.
Por fim, mister se faz ressaltar que incumbe a interessada comprovar a existência e a exatidão dos seus créditos tributários a compensar. Não cabe à Secretaria da Receita Federal o ônus da prova quando se trata de solicitação de reconhecimentos de créditos para fins de compensação de tributos e contribuições. Destarte, considerando que é expressamente vedada a compensação de débitos do sujeito passivo, relativos aos tributos e contribuições administrados pela SRF, com créditos de terceiros, é de meu parecer que não deverá ser homologada a declaração de compensação pretendida pela contribuinte, devendo se dar prosseguimento à cobrança dos débitos, nos termos da IN SRF n° 460/2004, e do art. 74 da Lei 9.430/96 (§§ 7° a 11, incluídos pela Lei n° 10.833/2003).
À consideração superior (...).
Nesse mesmo sentido caminhou a decisão da 5ª Turma da DRJ no Rio de Janeiro/RJO, ao apreciar a manifestação de inconformidade apresentada pela interessada, como se verifica dos seguintes trechos extraídos do voto (fls. 315 e ss do volume 2 digitalizado):
[...]
9.1. A DRF/Vitória concluiu por não reconhecer o crédito alegado pelo interessado e, conseqüentemente, .não homologou a compensação, sob o fundamento de que seria vedada a compensação utilizando créditos de terceiros, uma vez que a situação junto ao CNPJ da empresa Xerox do Brasil Ltda., incorporada pelo interessado, continua com o status de "ativa". [...]
9.5. Portanto, um dos documentos necessários para se proceder à baixa da pessoa jurídica incorporada junto ao CNPJ é o ato extintivo devidamente registrado no órgão competente. Sem tal documento não é efetivada a baixa no CNPJ.
[...]
9.10. Assim, enquanto não providenciados os devidos registros na Junta Comercial e efetivada a baixa no CNPJ, não há como se homologar a compensação declarada, já que nos assentamentos da Secretaria da Receita Federal a empresa extinta "Xerox do Brasil Ltda." continua com o status de ativa junto ao CNPJ, segundo o extrato que juntei à fl. 314. Em relação ao interessado a empresa incorporada continua sendo um terceiro, enquanto não efetivados os devidos registros de baixa da mesma.
9.11. Por todo o exposto, entendo que deve ser obedecido o art. 40 da In SRF n° 460/2004, que veda a compensação de débitos do sujeito passivo utilizando créditos de terceiros.
Conseqüentemente, voto pela não homologação da
compensação. É o meu voto.
É fato que a interessada apresentou todos os demais elementos legais e jurídicos necessários a dar ao ato da incorporação os efeitos jurídicos pleiteados. Isso foi reconhecido pela unidade de origem, como se pode notar dos seguintes trechos do parecer SEORT que fundamentou o Despacho Decisório (fls. 159 e ss do volume 1 digitalizado):
[...]
Vale mencionar que a contribuinte firmou, em 10/01/2003, o protocolo de que trata o Art. 224 da Lei 6.404/76, indicando o número, espécie e classe das ações; indicou que as variações monetárias posteriores integrariam o resultado da empresa incorporadora; optou pela avaliação do patrimônio líquido pelo valor contábil apurado com base no balanço apurado em 01/03/2003, em atenção ao disposto no Art. 21 da Lei n° 9.249/95; e submeteu à aprovação das Assembléias Gerais, procedendo ao registro de todos os atos na Junta Comercial do Estado do Espírito Santo sob número 030143888, conforme documento de fls. 67/69. Não se verificou o registro na Junta Comercial do Estado do Rio de Janeiro.
Em consonância ao regramento do Art. 227 da Lei 6.404/76, foi preparado o Laudo de Avaliação do Patrimônio Líquido do XEROX DO BRASIL por peritos contratados que corroboraram os valores apurados no balanço de 01/03/2003, atestando sua
avaliação "de acordo com os princípios de contabilidade
emanados da legislação societária", às fls.80/86.
Nos termos da legislação societária aplicável, Art. 227 da Lei 6.404/76, a incorporação é a operação pela qual uma ou mais sociedades são absorvidas por outra, que lhes sucede em todos os direitos e obrigações.
Oportuno se torna dizer que a Declaração de Informações EconômicoFiscais da Pessoa Jurídica referente ao evento incorporação entregue, em 04/04/2003, em cumprimento à alínea (a), do inciso I, do primeiro parágrafo do Art. 24, da Instrução Normativa n° 200/2002, correspondente ao período transcorrido durante o anocalendário de ocorrência do evento, com base no balanço levantado em 02/01/2003, apresentou algumas discrepâncias nos valores constantes do Ativo e do Passivo, entretanto sem reflexo no Patrimônio Líquido apurado e confirmado pelo Laudo de Avaliação, às fls. 80/86 e 149/155. Ressaltese o conteúdo do item 4 do Protocolo de Incorporação de fls. 78.
Tendo em vista a necessidade de complementação da instrução processual no que concerne a novas informações e à coleta de elementos comprobatórios, foi lavrado Termo de Intimação, às fls. 53/60, nos termos dos Arts. 927 e 928 do Decreto n° 3.000/99, solicitando informações sobre a incorporação, apresentação de comprovantes de retenção nafonte, dosDARF ção nos casos em que a empresa incorporadora figurou como fonte pagadora, dos demonstrativos, do Livro de Apuração do Lucro Real — LALUR, do Livro Razão, entre outros elementos; tendo o Procurador, devidamente identificado, com poderes de representação de acordo com o Mandato, tomado ciência em 05/08/2004, às fls. 60 e 63.
[...]
Em atendimento ao Termo de Intimação, a contribuinte, mediante termo de entrega, às fls. 64/65, apresentou cópias simples dos DARF, demonstrativos das fontes pagadoras e respectivos impostos retidos, originais e cópias do Livro de Apuração do Lucro Real LALUR atinente ao anocalendário de 2002, declaração concernente à utilização do crédito pleiteado, originais e cópias do Livro Diário Geral e a indicação de pessoas com poderes para prestar esclarecimentos.
[...]
Urge frisar que no Termo de Intimação foram solicitados os documentos pertinentes à incorporação devidamente registrados no órgão competente e a solicitação de cancelamento do CNPJ da empresa Xerox do Brasil Ltda junto à unidade cadastradora da SRF competente. Ainda foi informada a situação de cadastro CNPJ ativo para empresa incorporada, à fl. 155. Em sua resposta, a contribuinte, especificamente no item 1, entregou os documentos registrados somente na Junta Comercial do Espírito Santo e se omitiu no que concerne à regularização da situação cadastral do CNPJ, à fl. 64.
Da mesma forma, reconheceu o colegiado a quo (fls. 391 e ss do volume 2 digitalizado):
[...]
Efetivamente, consta dos autos todas as providências legais e societárias relativas à incorporação da empresa "Xerox do Brasil Ltda." conforme Assembléia Geral Extraordinária realizada em 15.03.2003, onde consta a ratificação dos termos do protocolo, bem como a aprovação do laudo de avaliação elaborados, conforme se depreende da norma de regência prevista no artigo 1.116 a 1.118 do Novo Código Civil e no artigo 227 da Lei das Sociedades Anônimas, verbis
[...]
Nesse mesmo sentido, a empresa "Xerox do Brasil Ltda." realizou AGE em 15.03.2003 e também ratificou os termos do protocolo e da justificativa, tendo aprovado o laudo de avaliação e, por fim, declarouse extinta, concluindo o processo de sua incorporação pela recorrente. Também foi apresentada, em 28.04.2003, a DIPJ específica, para o encerramento das atividades, com as informações correspondentes ao período de janeiro a março de 2003. Acrescentese a isso que não houve qualquer manifestação em contrário por parte do Fisco.
Consta também dos autos o balanço de encerramento das atividades da Xerox do Brasil Ltda., bem como a individualização dos bens que foram vertidos para o patrimônio da incorporadora, estando aí incluídos os impostos a recuperar que fazem parte do presente processo.
[...]
Temse, assim, que o fundamento para o indeferimento do pleito, tanto pelo órgão de jurisdição da interessada, quanto pela Turma Julgadora de 1ª Instância, foi a não apresentação do arquivamento dos documentos de incorporação na Junta Comercial do Rio de Janeiro o que, por conseqüência, impedia a baixa do CNPJ da incorporada dos sistemas da RFB. Assim, o direito creditório da incorporada foi considerado crédito de terceiros, em razão do CNPJ ativo da incorporada.
Essa necessidade de arquivamento da incorporação na Junta Comercial do Rio de Janeiro, onde se localizava a sede da incorporada, foi também invocada pela PFN em suas razões recursais (fls. 405 e ss do volume 3 digitalizado):
[...] Sem a consumação final, com o registro público colocando uma pá de cal na existência da empresa incorporada, não há como se aproveitar dos créditos desta, e isto por uma razão muito simples: para terceiros, a empresa incorporada ainda existe, eis que ativa no Registro da Junta Comercial.
[...]
Ora, a própria contribuinte confessa que (fl. 332/335), para adequar a situação de direito à de fato, vem tomando todas as providências (ainda não concluídas) para arquivar os documentos pertinentes nas Juntas Comerciais onde a empresa extinta 'Xerox do Brasil Ltda' possuía estabelecimento, além de
efetuar a baixa no CNPJ. Confessou também que, não efetuou a
baixa no CNPJ porque o pedido de arquivamento definitivo dos documentos da incorporação tem caído em exigência na Junta Comercial do Estado do Rio de Janeiro.
O que não se pode fazer é fechar os olhos para a irregularidade apontada: a existência jurídica de duas empresas, com dois
CNPJs distintos, muito embora já aprovada a incorporação.
[...]
Ora somente devem ser considerados débitos próprios, débitos de uma única empresa, com uma única inscrição no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ), impedindo, portanto, empresas sob mesma administração de compensarem seus tributos entre si. Entender de forma diversa significa ignorar todos os preceitos jurídicos que regulam e relevam a importância dos atos concernentes ao Registro Público.
Ocorre que esse óbice não existe mais. O CNPJ da incorporada, Xerox do Brasil, já foi definitivamente baixado nos sistemas internos da RFB. Em 14/09/2016, a recorrente apresentou a petição de efls. 589/592, informando que a própria RFB providenciou a baixa no CNPJ da incorporada, Xerox do Brasil, com efeitos retroativos ao mês de 01.03.2003.
De fato, a fim de verificar a veracidade da informação, consultando o sistema COMPROT, localizei o processo de nº 10569.000318/201180, formalizado para providenciar a baixa de ofício do CNPJ da incorporada Xerox do Brasil.
O Decreto nº 70.235, de 1972, admite a possibilidade de conhecimento de prova trazida após a apresentação da impugnação, desde que refirase a fato ou a direito superveniente (art. 16, § 4º, "b").
Este é o caso. A baixa definitiva do CNPJ da empresa incorporada deuse por procedimento de oficio da RFB, em momento posterior à apresentação da impugnação e refere se a fato superveniente.
Assim, a pendência nos sistemas internos da RFB acerca do CNPJ da incorporada Xerox do Brasil, que impedia o deferimento da compensação, não mais existe.
Como bem ressaltou a Turma Julgadora de 1ª Instância, os efeitos da extinção da pessoa jurídica por incorporação, retroagem à data da deliberação dos membros da sociedade, ainda que as providências de baixa da inscrição da empresa incorporada junto ao sistema CNPJ da RFB, venham a ser tomadas posteriormente. É o que dispunha, à época, a IN SRF nº 200, de 2002:
IN SRF nº 200, de 2002
Dispõe sobre o Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ). Art. 24. O pedido de cancelamento de inscrição no CNPJ, por extinção da pessoa jurídica ou de qualquer de seus estabelecimentos, será único e simultâneo para todos os órgãos convenentes a que estiver sujeito.
§ 20. O cancelamento da inscrição no CNPJ produzirá efeitos a partir da data da extinção da pessoa jurídica.
§ 21. Não serão exigidas as declarações referidas no item 1 da alínea "c" do inciso I do art. 48, relativamente a período posterior à data da extinção da pessoa jurídica.
§ 22. Considerase data de extinção, a data:
I de deliberação entre seus membros, nos casos de
incorporação, fusão e cisão total;
II da sentença de encerramento, no caso de falência;
III da publicação, no Diário Oficial da União, do ato de encerramento da liquidação, no caso de liquidação extrajudicial promovida pelo Banco Central em instituições financeiras; IV de expiração do prazo estipulado no contrato, no caso de extinção de sociedades com data prevista no contrato social; V do registro de ato extintivo no órgão competente, nos demais casos;
VI do arquivamento da decisão de cancelamento de registro pela Junta Comercial, com base no art. 60 da Lei no 8.934, de 18 de novembro de 1994.
No caso, a deliberação dos membros da sociedade se deu em 15/03/2003, com a assinatura da ata da assembléia geral extraordinária. Assim, os efeitos da extinção da incorporada Xerox do Brasil são verificados a partir dessa data.
Nessas condições entendo que, não havendo mais o óbice formal para que sejam reconhecidos os efeitos jurídicos da incorporação da empresa Xerox do Brasil, pela XEROX COMÉRCIO E INDÚSTRIA LTDA., não há mais por que argüir que se trataria de declaração de compensação de créditos de terceiros, mas sim de créditos próprios da interessada.
Observo que o único fundamento para a não homologação das compensações foi a impossibilidade de aproveitamento de créditos de "terceiros". Mas, como dito, este óbice não mais existe. Contudo, isto não permite concluir pela integridade da formação do crédito. A autoridade administrativa do órgão de jurisdição da interessada centrou sua decisão, exclusivamente, na possibilidade do pedido, e assim não analisou a efetiva existência do crédito. Superada esta questão, necessário se faz a apreciação do mérito pela autoridade administrativa competente, quanto aos demais requisitos para homologação da compensação.
Quanto ao segundo argumento apresentado pela recorrente, o de que haveria vedação legal expressa impedindo o aproveitamento de prejuízos fiscais experimentados pela incorporada, para a compensação na incorporadora, entendo que o assunto é totalmente alienígena à situação fática tratada nestes autos, que versa sobre Declaração de Compensação de débitos próprios, com créditos próprios já que não mais considerados de terceiros, e não de compensação de prejuízos fiscais. É inadmissível, por meio de analogia, tentar criar uma vedação que a lei não estabelece porque, ainda que se tratasse de compensação de débitos próprios com crédito de terceiros, já existe na legislação de regência dispositivo específico que veda esse tipo de compensação, mas que, no presente caso, como visto, não se aplica.
Ante todo o exposto, voto no sentido de NEGAR PROVIMENTO ao Recurso Especial da PFN, e mantenho a decisão do colegiado a quo que propôs o encaminhamento dos autos ao órgão de origem para apreciação do mérito da compensação. É como voto. (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo