(1) ESTV, Departamento de Engenharia de Madeiras, Viseu (2) UTAD, Departamento de Engenharias, Vila Real (2) CETAV/UTAD, Departamento de Engenharias, Vila Real
DETERMINAÇÃO DO COMPORTAMENTO AO CORTE DA
MADEIRA DE PINUS PINASTER, AIT, USANDO O ENSAIO
“OFF-AXIS”: ANÁLISE POR ELEMENTOS FINITOS
Nuno Garrido(1), José Xavier(2), José Morais(3)
RESUMO
O objectivo deste trabalho é o estudo do ensaio de tracção “off-axis” para a identificação do comportamento ao corte da madeira de Pinus Pinaster, Ait. no plano LR, usando o provete paralelipipédico com bolachas de reforço oblíquas. Para o efeito efectuou-se a simulação desse ensaio pelo método dos elementos finitos, no domínio linear, recorrendo ao código comercial ANSYS 7.0. O uso de provetes com bolachas inclinadas permite a determinação directa do módulo de corte GLR, sem necessidade de recorrer a quaisquer factores de correcção. Todavia, a resistência ao corte só pode ser determinada indirectamente, através dum critério de resistência apropriado.
1. INTRODUÇÃO
É fundamental para o uso da madeira como material estrutural conhecer com rigor as suas leis de comportamento mecânico. Porém, devido à variabilidade e anisotropia da madeira, a identificação experimental do seu comportamento mecânico é um problema complexo que ainda está por resolver. Uma das principais dificuldades prende-se com a identificação do comportamento ao corte no referencial de simetria material, conhecido por referencial LRT (Figura 1). Este referencial é definido em cada ponto pela direcção longitudinal das fibras (L), pela direcção radial dos anéis de crescimento (R) e pela direcção tangencial aos anéis de crescimento (T).
As propriedades de corte da madeira são em geral determinadas através de ensaios normalizados, baseados fundamentalmente nas normas ASTM, como o “shear block test” [ASTM (1978)] e o “plate twist test” [ASTM (1976)]. O “shear block test” é usado apenas para a determinação da resistência ao corte, embora a sua validade seja questionável. O “plate twist test” destina-se apenas à determinação do módulo de corte, mas a sua aplicação é limitada pela dimensão exigida aos provetes. Outro aspecto importante que estes ensaios não tomam em consideração é o carácter ortotrópico da madeira. O próprio projecto de Norma Europeia prEN 408 (2000) não ultrapassa todas as limitações das normas actualmente em vigor.
L
R T
Fig. 1 – Referencial de simetria material da madeira.
Para caracterizar o comportamento ao corte dos materiais compósitos artificiais, Chamis e Sinclair (1977) propuseram o chamado ensaio de tracção “off-axis”. Desde então esse ensaio foi exaustivamente estudado por outros autores, sendo hoje de utilização corrente pelos investigadores da área dos compósitos artificiais. O principal problema com esse ensaio tem a ver com o acoplamento entre a deformação linear e a deformação de corte, que é uma característica dos materiais anisotrópicos [Tsai e Hahn (1980)]. Dependendo do tipo de constrangimento imposto às extremidades dos provetes, o referido acoplamento torna complexa a relação entre o estado de tensão instalado na região de referência do provete e as grandezas medidas experimentalmente [Pindera e Herakovich (1986)].
Duas vias alternativas foram propostas para ultrapassar os efeitos do constrangimento das extremidades dos provetes no ensaio “off-axis”. Uma delas consiste na aplicação aos resultados experimentais de factores de correcção obtidos analiticamente [Pindera e Herakovich (1986)] ou numericamente [Marin et al. (2002a, 2002b)]. A outra via consiste na tentativa de reprodução das condições ideais de amarração, com vista à obtenção dum estado de tensão uniforme na região de referência dos provetes [Pindera e Herakovich (1986), Sun e Barret (1988), Cron et al. (1988), Sun e Chung (1993)]. Nesta última via inclui-se a utilização bolachas oblíquas coladas nas extremidades dos provetes [Sun e Chung (1993)]. Diversos trabalhos experimentais [Kawai et al. (1997), Pierron et al. (1998)] demonstraram que o uso de bolachas oblíquas melhora significativamente a homogeneidade dos campos das tensões e das deformações. Esta solução permite não só a correcta identificação do módulo de corte como também da resistência ao corte [Pierron e Vautrin (1996)].
Foram publicados alguns trabalhos sobre a aplicação do ensaio “off-axis” à madeira [Schulldt (1972), Ebrahimi e Sliker (1981), Sliker e Yu (1993), Yoshihara e Ohta (2000), Liu (2002)], quer para a determinação do módulo de corte quer para a determinação da resistência ao corte. Todavia, em contraste com o que acontece com os compósitos artificiais, está por fazer um estudo detalhado sobre as potencialidades desse ensaio para a madeira.
Neste artigo apresenta-se a simulação numérica, por elementos finitos, do ensaio “off-axis” com bolachas oblíquas, para a determinação do comportamento ao corte da madeira da espécie de Pinus Pinaster Ait., no plano de simetria LR.
α = 15° β = 36°
2. O ENSAIO DE TRACÇÃO “OFF-AXIS”
Na Figura 2 apresenta-se a forma e as dimensões dos provetes do ensaio de tracção “off-axis”, para a identificação do comportamento ao corte da madeira de Pinus Pinaster Ait. no plano de simetria material LR. Os detalhes sobre a manufactura dos provetes e o procedimento experimental podem ser encontrados em Garrido (2003). O ângulo α entre a direcção das fibras (L) e a direcção longitudinal dos provetes (Figura 2) foi escolhido com base no critério de Chamis e Sinclair (1977), através das seguintes equações [Morais, (1998)]:
α α α α α α ε ε 4 22 2 2 66 11 4 11 2 12 2 11 1 sin sin cos 2 1 2 cos sin cos S S S S S S xx + + + + = , (1) α α α α α α ε ε 4 22 2 2 66 11 4 11 2 22 2 12 2 sin sin cos 2 1 2 cos sin cos S S S S S S xx + + + + = , (2) α α α α α α ε ε 4 22 2 2 66 11 4 11 66 6 sin sin cos 2 1 2 cos cos sin S S S S S xx + + + = . (3) (a) (b)
Fig. 2 – Provete “off-axis”: (a) geometria e (b) modo de rotura.
a b c
-0.4 -0.2 0.0 0.2 0.4 0.6 0.8 1.0 1.2 1.4 1.6 1.8 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 55 60 65 70 75 80 85 90 Ângulo (º) D e fo rm ação N o rm al iz ada α =15º
onde ε1, ε2 e ε6 são as deformações no referencial de simetria material, εxx é a deformação axial no referencial do provete e Sij são os elementos da matriz de flexibilidade no referencial de simetria material. Usando as propriedades mecânicas das madeiras de pinho publicadas na literatura [Forest Product Laboratory (1999)], constatou-se que para um ângulo α∈ [10º, 20º] a deformação de corte ε6 é suficientemente elevada e insensível a pequenos erros na determinação de α, para ser medida sem erros apreciáveis (Figura 3). O valor do ângulo α estimado para a madeira de Pinus Pinaster Ait. foi de 15º.
O ângulo β de inclinação das bolachas (Figura 2a) foi calculado através da equação [Sun e Chung (1993)]: 11 16 cot S S − = β , (4)
onde Sij são os elementos da matriz de flexibilidade em relação ao sistema de coordenadas do provete.
As grandezas obtidas directamente no ensaio de tracção “off-axis” são a força global P (medida pela célula de carga da máquina de ensaios) e as deformações εa, εc e εc (medidas pela roseta de extensómetros, Figura 2a). Admitindo que o estado de tensão na secção central do provete é uniaxial, as componentes do estado de tensão no referencial de simetria material são então dadas por:
α σ 2 1 Acos P média = , σ 2α 2 Asin P média = e σ sin2α 6 A P média = . (5)
Por outro lado, a deformação de corte média no referencial de simetria material é dada pela equação seguinte:
(
ε ε ε)
α(
ε ε)
αε6média = a −2 b + c sin + a − c cos . (6)
O módulo de corte aparente obtém-se dividindo a tensão de corte média pela deformação de corte média:
média média a G 6 6 12 ε σ = . (7)
Se o campo das tensões na região de referência dos provetes é uniaxial e homogéneo, o módulo de corte aparente (Equação 7) coincide com o verdadeiro valor do módulo de corte do material. Mas se o estado de tensão não é uniaxial nem homogéneo, o módulo de corte pode ser obtido usando a seguinte equação:
a
CSG
G12 = 12, (8)
onde C e S são factores de correcção definidos por
média C 6 6 σ σ = e 6 6 ε εmédia S = . (9)
O factor de correcção C, que é quociente entre a tensão de corte no ponto central do provete
(σ6) e a tensão de corte média, é uma medida da heterogeneidade do campo das tensões na região central do provete. Por sua vez, o factor de correcção S, que é o quociente a
deformação de corte no ponto central (ε6) e a deformação de corte média na região de
colagem da roseta biaxial ( média
6
ε ), é uma medida da heterogeneidade do campo das deformações. Os valores aproximados destes factores de correcção (C e S) podem ser obtidos
pelo método dos elementos finitos.
Embora possa ser uniforme, o estado de tensão na região de referência do provete (entre as amarras) não é de corte puro (Equações 5). Deste modo, a tensão de rotura ao corte só pode ser estimada indirectamente, através dum critério de rotura apropriado [Pierron e Vautrin (1996)].
3. MODELO DE ELEMENTOS FINITOS
A simulação do ensaio de tracção “off-axis” foi feita pelo método dos elementos finitos, recorrendo ao código comercial ANSYS 7.0®. Considerou-se a madeira como um material homogéneo, ortotrópico e com um comportamento linear e elástico. Nas simulações efectuadas utilizou-se o elemento tridimensional SOLID64, da livraria de elementos do código ANSYS [ANSYS University High Option (2002)]. A malha obtida após uma análise de convergência (Figura 4) é composta por 1848 elementos. As constantes de engenharia da madeira de Pinus Pinaster, Ait. encontram-se na Tabela 1 [Pereira (2003), Garrido (2003)]. As condições de fronteira que foram impostas ao provete consistiram basicamente na fixação das extremidades [A-B] e na aplicação em [C-D] de um deslocamento igual a 0,5 mm, na direcção do eixo do XX. Os deslocamentos prescritos permitem ainda a livre contracção na direcção da espessura (Z), por efeito de Poisson. Estas condições de fronteira são mais restritivas que as que realmente vigoram nos ensaios experimentais que empregam as amarras convencionais de cunhas deslizantes.
Fig. 4 – Malha de elementos finitos.
A B C D X Y
Tabela 1 – Constantes de engenharia da madeira de Pinus Pinaster Ait.
EL(GPa) ER(GPa) ET(GPa) νRT νLT νLR GRT(GPa) GLT(GPa) GLR(GPa)
15,133 1,912 1,010 0,586 0,051 0,471 0,171 1,041 1,115
4. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DE RESULTADOS
Nas Figuras 5 e 6 podem ser apreciados os campos dos deslocamentos ux e uy Está bem patente na Figura 5 que as linhas de igual deslocamento ux são praticamente paralelas ao bordo das bolachas, que é precisamente o que se pretendia ao calcular o ângulo β através da Equação 4. Por outro lado, as Figuras 5 e 6 sugerem a existência dum campo de deformações uniforme numa extensa região no centro do provete, nomeadamente na região de colagem da roseta.
Os campos das tensões σxx, σyy e τxy, no referencial do provete, normalizados em relação à tensão média aplicada ao provete ( /P A), estão representados nas Figuras 7, 8 e 9. Excluindo uma pequena região na vizinhança das bolachas, o estado de tensão é uniforme e uniaxial em quase toda a região de referência do provete (entre as bolachas). Esta conclusão é reforçada pela análise dos gráficos das Figuras 10 e 11, onde se encontram as distribuições das tensões σxx, σyy e τxy, ao longo da linha média longitudinal (y = 0) e da linha média transversal (x = 0), respectivamente.
Os valores obtidos para os factores de correcção C e S (Equações 9) são praticamente
iguais à unidade, como seria de esperar face ao que foi escrito nos parágrafos precedentes sobre os campos das deformações e das tensões. Atendendo a este facto, podemos afirmar que o ensaio “off-axis” é um ensaio directo para a determinação do módulo de corte GLR, não
sendo necessário aplicar qualquer factor de correcção sobre os resultados experimentais.
Fig. 5 - Campo dos deslocamentos uX (m).
Fig. 7 – Campo das tensões σxx normalizados por P A . /
Fig. 8 – Campo das tensões σyy normalizados por /P A .
Fig. 9 – Campo das tensões τxy normalizados por /P A .
0.0 0.2 0.4 0.6 0.8 1.0 1.2 -0.5 -0.4 -0.3 -0.2 -0.1 0 0.1 0.2 0.3 0.4 0.5 X/Xmáx
0.0 0.2 0.4 0.6 0.8 1.0 1.2 -0.5 -0.4 -0.3 -0.2 -0.1 1 0.1 0.2 0.3 0.4 0.5 Y/Ymáx
Fig. 11 – Distribuição das tensões ao longo da linha média vertical.
No sentido de avaliar a influência da inclinação das fibras (Figura 2a) nos factores de correcção C e S, simulou-se o ensaio “off-axis” para vários valores de α, compreendidos entre 5º e 30º. Em todos os casos examinados considerou-se o mesmo valor para a inclinação das bolachas (indicado na Figura 2a). Os resultados obtidos encontram-se na Figura 12, na qual se faz uso do factor de correcção global CS (Equação 8). A partir desta figura conclui-se que para qualquer ângulo α pertencente ao intervalo [15º, 20º], no qual estão contidos todos os valores experimentais de α [Garrido (2003)], o factor de correcção global é praticamente igual à unidade. 0.96 1.00 1.04 1.08 1.12 1.16 5 10 15 20 25 30 ângulo CS
Fig. 13 – Critério de Tsai-Hill.
Não existindo um estado de corte puro, a resistência ao corte não pode ser feita directamente a partir dos resultados experimentais, sendo necessário recorrer a um critério de rotura. O método dos elementos finitos, juntamente com o critério de rotura de Tsai-Hill [Tsai e Hahn (1980)], prevê a ocorrência da rotura junto a uma das extremidades das bolachas. Mas, conforme foi já referido na secção 3, é de crer que as condições de amarração que vigoram nos ensaios experimentais conduzam a um campo de tensões mais uniforme que o campo das tensões obtidos na simulação numérica apresentada neste trabalho. Será porventura por esta que a rotura ocorre na região central dos provetes (Figura 2b) e não na vizinhança das bolachas [Garrido (2003)].
6. CONCLUSÕES
O ensaio de tracção “off-axis” com bolachas inclinadas é um ensaio adequado para a identificação directa do módulo de corte GLR da madeira de Pinus pinaster Ait. Porém, como
não existe um estado de tensão de corte puro, a resistência ao corte no plano LR só pode ser obtida indirectamente, recorrendo a um critério de rotura para materiais ortotrópicos.
6. REFERÊNCIAS
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Chamis, C.C. e J.H. Sinclair, "Ten-deg Off-axis Test for Shear Properties in Fiber Composites", Experimental Mechanics 17 (9), 339-346 (1977).
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AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem à Fundação para a Ciência e a Tecnologia o apoio financeiro para a realização deste trabalho, através do Projecto POCTI/EME/36270/2000.