Fun¸
c˜
oes aritm´
eticas
Este texto de apoio baseia-se no segundo cap´ıtulo de Tom M. Apostol, Introduction to Analytic Number Theory. Eventuais gralhas, imprecis˜oes ou erros s˜ao da responsabilidade de Alfredo Costa.
Conven¸c˜oes que adoptamos neste texto: • 0 /∈ N
• Se n ´e um inteiro positivo, ent˜ao d|n significa que d ´e um divisor positivo de n. Em geral, assumimos implicitamente que os divisores considerados s˜ao positivos. Finalmente, p|n significa que p ´e um divisor primo (positivo) de n.
1. Fun¸c˜oes aritm´eticas: defini¸c˜ao e alguns exemplos relevantes Uma fun¸c˜ao aritm´etica ´e uma fun¸c˜ao f : N → C. Ou seja, ´e uma fun¸c˜ao definida no conjunto dos n´umeros inteiros e que assume valores complexos. Vamos concentrar-nos em casos em que assume valores reais.
Recordemos alguns exemplos com que j´a nos depar´amos em anteriores sess˜oes:
Indicador de Euler: Se n ´e um inteiro positivo, ent˜ao ϕ(n) ´e o n´umero de inteiros positivos menores ou iguais a n que s˜ao primos com n. A fun¸c˜ao ϕ ´e o indicador de Euler ou fun¸c˜ao de Euler.
Fun¸c˜ao sigma: ´E a fun¸c˜ao aritm´etica com a seguinte defini¸c˜ao: σ(n) =X
d|n
d. Tex-tualmente: σ(n) ´e a soma dos divisores de n.
N´umero de divisores: O nome diz tudo! Frequentemente denota-se por τ . Esta fun¸c˜ao pode ser definida da seguinte forma, aparentemente mais pedante, mas na verdade conceptualmente conveniente: τ (n) =X
d|n
1.
2. A fun¸c˜ao de M¨obius A fun¸c˜ao de M¨obius define-se do seguinte modo:
µ(1) = 1; se n > 1 e se n = pa1
1 · · · p ak
k for a factoriza¸c˜ao de n em n´umeros primos (sendo portanto
ai > 0 para todo o i), ent˜ao
µ(n) = (−1)k se a1 = · · · = ak= 1,
µ(n) = 0 caso contr´ario.
Portanto µ(n) = 0 se e s´o se n tem algum factor maior do que 1 que ´e um quadrado perfeito.
Teorema 1. Para qualquer inteiro positivo n temos (1) X d|n µ(d) = ( 1 se n = 1 0 se n > 1.
Denotando por [x] o maior inteiro menor ou igual ao n´umero real x, podemos escrever a f´ormula (1) da seguinte forma mais compacta:
X d|n µ(d) =h1 n i .
Demonstra¸c˜ao do teorema 1. Suponhamos que n 6= 1. Seja n = pa1
1 · · · p ak
k a factoriza¸c˜ao
de n em n´umeros primos. Na somaP
d|nµ(d), as ´unicas parcelas n˜ao nulas s˜ao aquelas em
que nenhum quadrado de um primo divide d. Ent˜ao, agrupando para cada i os divisores de n que s˜ao produtos de precisamente i primos distintos, e como h´a ki tais divisores, temos: X d|n µ(d) = µ(1) + µ(p1) + · · · µ(pk) + µ(p1p2) + µ(p1p3) + · · · µ(pk−1pk)+ + · · · + µ(p1p2· · · pk) = 1 +k 1 (−1) +k 2 (−1)2+ · · · +k k (−1)k = k X i=1 k i (−1)i = (1 − 1)k = 0. 3. O produto de Dirichlet
Sejam f e g duas fun¸c˜oes aritm´eticas. O produto de Dirichlet (ou convolu¸c˜ao de Diri-chlet ) ´e a fun¸c˜ao aritm´etica f ∗ g definida do seguinte modo:
(2) (f ∗ g)(n) =X d|n f (d) · gn d .
Os pares da forma (d,nd), onde d ´e um divisor de n, s˜ao precisamente os pares da forma (a, b), onde a e b s˜ao inteiros positivos tais que n = ab.
Logo, a f´ormula (2) tem o seguinte aspecto mais sim´etrico:
(3) (f ∗ g)(n) = X
a·b=n
f (a) · g(b). ´
E assim claro que as fun¸c˜oes f ∗ g e g ∗ f s˜ao iguais. Dizemos por isso que o produto de Dirichlet ´e comutativo.
Proposi¸c˜ao 2. O produto de Dirichlet ´e associativo, ou seja, (f ∗ g) ∗ h = f ∗ (g ∗ h) para quaisquer fun¸c˜oes aritm´eticas f , g e h.
Demonstra¸c˜ao. Temos ((f ∗ g) ∗ h)(n) = X x·c=n (f ∗ g)(x) · h(c) = X x·c=n X a·b=x f (a) · g(b) ! · h(c) = X x·c=n X a·b=x f (a) · g(b) · h(c) = X a·b·c=n f (a) · g(b) · h(c) De forma inteiramente an´aloga, temos (f ∗ (g ∗ h))(n) =P
a·b·c=nf (a) · g(b) · h(c).
Denotemos por I a fun¸c˜ao aritm´etica I(n) =h1 n i = ( 1 se n = 1 0 se n > 1., a qual surge no Teorema 1.
Proposi¸c˜ao 3. A opera¸c˜ao ∗ tem I como elemento neutro, ou seja, I ∗ f = f ∗ I = f . Demonstra¸c˜ao. Temos
(f ∗ I)(n) =X d|n f (d)In d =X d|n f (d)hd n i = f (n)
uma vez quehdni = 0 se d < n.
4. A inversa de Dirichlet e a f´ormula de invers˜ao de M¨obius
Teorema 4. Se f ´e uma fun¸c˜ao aritm´etica tal que f (1) 6= 0, ent˜ao a fun¸c˜ao aritm´etica f−1 definida recursivamente por
f−1(1) = 1 f (1), f −1 (n) = −1 f (1) X d|n d < n f n d)f −1 (d) se n > 1, satisfaz f ∗ f−1 = f−1∗ f = I.
A demonstra¸c˜ao do Teorema 4 ´e um exerc´ıcio instrutivo.
Se f e g s˜ao fun¸c˜oes aritm´eticas tais que f (1) 6= 0 e g(1) 6= 0, ent˜ao (f ∗ g)(1) 6= 0. Notemos tamb´em que I(1) 6= 0. Logo o conjunto G das fun¸c˜oes aritm´eticas f tais que f (1) 6= 0 forma um submon´oide do mon´oide das fun¸c˜oes aritm´eticas, considerando o produto de Dirichlet como a opera¸c˜ao do mon´oide. O Teorema 4 diz-nos em particular que o mon´oide G ´e de facto um grupo Abeliano, sendo a inversa de uma fun¸c˜ao f pertencente a G precisamente a fun¸c˜ao f−1. Justifica-se assim a nota¸c˜ao f−1 introduzida no Teorema 4. A fun¸c˜ao f−1 designa-se inversa de Dirichlet de f ou inversa convolutiva de f .
Exemplo 5. Vimos no teorema 1 queP
d|nµ(d) = I(n). A fun¸c˜ao constante u(n) = 1 ´e
uma fun¸c˜ao aritm´etica. A igualdadeP
d|nµ(d) = I(n). pode ser ent˜ao escrita do seguinte
modo:
µ ∗ u = I
Portanto u e µ s˜ao inversas de Dirichlet uma da outra: u = µ−1 e µ = u−1. Teorema 6 (F´ormula de invers˜ao de M¨obius). As igualdades
(4) f (n) = X d|n g(d) e (5) g(n) =X d|n f (d)µn d . s˜ao equivalentes.
Demonstra¸c˜ao. A igualdade (4) diz-nos que f = g ∗u. Logo f ∗µ = (g ∗u)∗µ = g ∗(u∗µ) = g ∗ I = g, ou seja, obtemos (5).
Reciprocamente, se f ∗ µ = g ent˜ao f = f ∗ (µ ∗ u) = (f ∗ µ) ∗ u = g ∗ u, e portanto (5)
implica (4). 5. De volta `a fun¸c˜ao ϕ Teorema 7. Se n ≥ 1 ent˜ao X d|n ϕ(d) = n.
Vamos usar a nota¸c˜ao N para a fun¸c˜ao identidade no conjunto dos inteiros positivos, (ou seja, N (n) = n para qualquer n ∈ N).
Corol´ario 8. Se n ≥ 1 ent˜ao
(6) ϕ(n) =X d|n d µn d .
Demonstra¸c˜ao. O Teorema 7 diz-nos que ϕ ∗ u = N . Logo ϕ = N ∗ u−1 = N ∗ µ. Algumas das propriedades listadas no seguinte teorema j´a tinham sido discutidas na sess˜ao anterior de Teoria dos N´umeros.
Teorema 9. A fun¸c˜ao de Euler satisfaz as seguintes propriedades: (1) ϕ(n) = nQ
p|n(1 − 1
p) para qualquer n.
(2) ϕ(pa) = pa− pa−1 para qualquer primo p e para qualquer a ≥ 1.
(3) ϕ(mn) = ϕ(m)ϕ(n) d
ϕ(d), onde d = m.d.c.(m, n).
(4) ϕ(mn) = ϕ(m)ϕ(n) se m.d.c.(m, n) = 1. (5) a|b implica ϕ(a)|ϕ(b).
6. Fun¸c˜oes multiplicativas
Um fun¸c˜ao aritm´etica f diz-se multiplicativa se n˜ao for identicamente nula (i.e., se existir n tal que f (n) 6= 0) e se
f (mn) = f (m)f (n), sempre que m.d.c.(m, n) = 1. Um fun¸c˜ao aritm´etica f diz-se completamente multiplicativa se
f (mn) = f (m)f (n), para quaisquer m, n.
Exemplo 10. Consideremos a fun¸c˜ao aritm´etica fα(n) = nα, onde α ´e um n´umero real
qualquer. Ent˜ao fα ´e completamente multiplicativa. Note-se que fα = Nα.
Exemplo 11. A fun¸c˜ao I(n) = [1/n] ´e completamente multiplicativa.
Exemplo 12. A fun¸c˜ao de M¨obius ´e multiplicativa, mas n˜ao completamente multiplica-tiva.
Observa¸c˜ao 13. Sejam f e g fun¸c˜oes aritm´eticas. Consideremos a fun¸c˜ao f g definida por (f g)(n) = f (n)g(n).
• Se f e g s˜ao multiplicativas, ent˜ao f g ´e multiplicativa.
• Se f e g s˜ao completamente multiplicativas, ent˜ao f g ´e completamente multipli-cativa.
Supondo que g(n) 6= 0 para qualquer inteiro positivo n, consideremos agora a fun¸c˜ao aritm´etica fg definida por fg(n) = f (n)g(n).
• Se f e g s˜ao multiplicativas, ent˜ao fg ´e multiplicativa.
• Se f e g s˜ao completamente multiplicativas, ent˜ao fg ´e completamente multiplica-tiva.
Exerc´ıcio 14. Mostra que se f ´e multiplicativa ent˜ao f (1) = 1. Teorema 15. Seja f uma fun¸c˜ao aritm´etica tal que f (1) = 1. Ent˜ao:
(1) A fun¸c˜ao f ´e multiplicativa se e s´o se f (pa1 1 · · · p ar r ) = f (p a1 1 ) · · · f (p ar r )
para quaisquer primos distintos p1, . . . , pr e inteiros positivos a1, . . . , ar, qualquer
que seja r ≥ 1.
(2) Se f ´e multiplicativa, ent˜ao f ´e completamente multiplicativa se e s´o se f (pa) = f (p)a para qualquer primo p e para qualquer inteiro positivo a.
A demonstra¸c˜ao do Teorema 15 ´e um exerc´ıcio simples, que decorre facilmente das defini¸c˜oes.
Teorema 16. O conjunto das fun¸c˜oes aritm´eticas multiplicativas ´e, para o produto de Dirichlet, um subgrupo do grupo das fun¸c˜oes aritm´eticas f tais que f (1) 6= 0.
Teorema 17. Seja f uma fun¸c˜ao aritm´etica multiplicativa. Ent˜ao f ´e completamente multiplicativa se e s´o se f−1(n) = µ(n)f (n) para qualquer n ≥ 1.
Exerc´ıcio 18. A inversa de Dirichlet de ϕ ´e dada por ϕ−1(n) =P
d|nµ(d)d.
Exerc´ıcio 19. Se f ´e multiplicativa ent˜ao P
d|nµ(d)f (d) =
Q
p|n(1 − f (p)).
Em particular, ϕ−1(n) =Q
p|n(1 − p).
Exerc´ıcio 20. A fun¸c˜ao de Liouville ´e a fun¸c˜ao aritm´etica λ definida do seguinte modo: • λ(1) = 1;
• λ(n) = (−1)a1+···+ak se a factoriza¸c˜ao de n em n´umeros primos for n = pa1
1 · · · p ak
k .
(1) Verifica que λ ´e completamente multiplicativa. (2) Determina a inversa convolutiva de λ.
(3) Mostra que P
d|nλ(d) =
(
1 se n ´e um quadrado 0 caso contr´ario.
(4) Conclui que o produto de Dirichlet de duas fun¸c˜oes completamente multiplicativas pode n˜ao ser uma fun¸c˜ao completamente multiplicativa.
Mais exerc´ıcios e problemas
Exerc´ıcios:
(1) Mostra que σ(n) =P
d|nϕ(d)τ ( n d).
(2) Para cada n´umero real α, considera a fun¸c˜ao σα(n) =
P
d|nd
α (repara que σ 0 = τ
e que σ1 = σ). Mostra que se α 6= 0 ent˜ao σα(n) = Qp|np
α(a+1)−1 pα−1 , onde a letra p denota um primo. (3) Mostra que ϕ(n)n =P d|n µ2(d) ϕ(d). Problemas:
(4) Mostra que se n ´e composto ent˜ao ϕ(n) ≤ n −√n.
(5) Mostra que ϕ(n) ≥√n para qualquer inteiro positivo n tal que n 6= 2 e n 6= 6. (6) Se n ´e um n´umero composto ent˜ao σ(n) ≥ n +√n + 1.