UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL – UNIJUÍ
DEPARTAMENTO DE HUMANIDADES E EDUCAÇÃO CURSO DE PSICOLOGIA
RONALDA APARECIDA SCHAWINSKY
SUJEITO E LAÇO SOCIAL NA ERA VIRTUAL
Santa Rosa 2014
RONALDA APARECIDA SCHAWINSKY
SUJEITO E LAÇO SOCIAL NA ERA VIRTUAL
Trabalho de conclusão de curso apresentado ao curso de Psicologia da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – UNIJUÍ, como requisito parcial para conclusão do curso de Bacharel em Psicologia.
Orientadora: Silvia Cristina Segatti Colombo
Santa Rosa 2014
DEDICATÓRIA
Ao meu pai, Luciano Schawinsky (In Memoriam) por ser minha inspiração.
AGRADECIMENTOS
Agradeço a todos os professores que me acompanharam neste percurso, em especial, a minha orientadora Profa. Silvia Cristina Segatti Colombo pela disponibilidade em me orientar, pelo incentivo e atenção dispensados na elaboração deste trabalho. A Profª Lala Catarina Lenzi Nodori por ter aceito participar da banca examinadora.
A minha mãe e irmãs pelo apoio e incentivo durante todos esses anos.
A Elton, pelo carinho e incentivo em todos os momentos.
Aos meus amigos (as), por escutarem minhas angústias e pela compreensão nas minhas ausências.
A todos qυе direta оυ indiretamente fizeram parte dа minha formação, о mеυ muito obrigada.
“Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana”. (Carl Jung).
RESUMO
Este trabalho aborda algumas características da sociedade contemporânea, especialmente os aspectos relacionados ao avanço tecnológico, que culminou na grande expansão das Tecnologias da Informação ampliando a Rede Mundial de Computadores (internet). A evolução desse processo transformou as formas do sujeito comunicar-se e relacionar-se com os outros, pois, a proximidade física é dispensável, ela se dá, também, no espaço virtual. Neste sentido, tomam-se as comunidades virtuais como as possibilidades contemporâneas de enlaçamento. Para pensar o sujeito e o laço social é feito um breve percurso sobre esses conceitos referenciados teoricamente. Dessa forma, a questão pretendida é discutir as formas que o sujeito se articula e faz laço social na contemporaneidade. Era marcada pelo excesso e rapidez da informação, possibilitada pelo encurtamento tempo/espaço devido à virtualização sem fronteiras.
ABSTRACT
This word discusses some characteristics of contemporary society, especially the aspects related to technological progress, culminating in the great expansion of information technologies expanding the World Wide Web (internet). The effect of these developments transformed the ways of the subject to communicate and relate with others, because physical proximity is not necessary, it also takes place in the virtual space. In this sense, we take the virtual communities as contemporary possibilities of bonding. To think the subject and the social tie is made a brief course about these concepts referenced theoretically. Thus, the desired question is to discuss the ways that the subject articulates and makes social ties nowadays. It was marked by excess and speed of information, made possible by shortening time/space due to virtualization without borders.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 8
CAPÍTULO I: A ERA DA INFORMAÇÃO E A SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA . 10 1.1 Os Efeitos do Mundo Contemporâneo ... 14
CAPÍTULO II - O LAÇO SOCIAL E O SUJEITO CONTEMPORÂNEO... 21
2.1 Sujeito e Laço Social para a Psicanálise ... 21
2.2 As Comunidades Virtuais e o Ciberespaço ... 26
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 30
INTRODUÇÃO
A internet revolucionou a forma como as pessoas vivem, encurtou distâncias geográficas, tornou o acesso à informação quase que instantâneo e propiciou novos modos de relacionamentos. A globalização, de forma geral, facilita a troca, o intercâmbio, a socialização e a discussão de ideias num âmbito intercultural.
A emergência das comunidades virtuais tornou possível relacionar-se de acordo com afinidades com as pessoas de várias partes do globo, esses relacionamentos facilitados pela rede possuem suas singularidades, entre estas está o fato de não requerer a presença física, é uma relação que pode ser excluída ou deletada a qualquer instante.
Ao estabelecer essas relações, o indivíduo, necessariamente, produz novas formas de interação. Essa mudança reflete na representação do sujeito, assim como em sua relação com o outro, considerando que sua constituição está diretamente influenciada pelo meio.
Analisar o sujeito contemporâneo e suas formas de estabelecer laço a partir das transformações sociais que se impõem é pautado nas concepções de que ambos se influenciam reciprocamente. Não se pode pensar o sujeito sem as implicações do campo social, considerando que este se encontra em permanente trabalho de produção e simbolização.
A partir disso, é de fundamental relevância para a Psicologia acompanhar as mudanças culturais geradas pelo avanço tecnológico, especialmente a tecnologia da informação, concentrando-se tanto nos aspectos subjetivos quanto nos sociais, no que se refere à comunicação virtual, fazendo uma reflexão acerca dos processos subjetivos a eles relacionados.
Desta forma, a pesquisa possibilitará apontar as possíveis nuances que estas novas formas de relações sociais ocasionam no processo de constituição do sujeito, e seus efeitos no meio ao qual ele se insere. O trabalho se constituirá em dois capítulos. No primeiro será contextualizada a sociedade contemporânea, sua forma de ser e de se comunicar, considerando as mudanças causadas pela evolução tecnológica. Serão abordadas ainda, algumas consequências dessa era de evoluções em que o sujeito está inserido. No segundo capítulo apresentam-se
apontamentos conceituais acerca dos conceitos de sujeito e laço social. Também serão relacionadas algumas características do ciberespaço, ambiente que possibilitou o surgimento das comunidades virtuais, espaço mediador das relações no mundo virtual.
CAPÍTULO I: A ERA DA INFORMAÇÃO E A SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA
As transformações sociais pelas quais o mundo vem passando nas últimas décadas têm sido objeto de investigação de diversas áreas, diferentes autores nomeiam esse conjunto de transformações de várias formas, conforme o aspecto que julgam de maior ênfase para determinar características do período em curso.
As mudanças sociais interessam à psicologia, pois o que acontece no nível social tem um importante papel na construção da organização psíquica. Como afirma Birman: “é impensável para o discurso psicanalítico qualquer tematização sobre o sujeito na exterioridade do campo da cultura”. (p. 09).
Segundo Nicolaci-da-Costa (2005), uma das principais manifestações de uma determinada sociedade, em uma dada época, é a tecnologia por ela desenvolvida e usada, e a internet faz parte do conjunto de tecnologias que está tornando possível a emergência de uma nova “era”, cujas principais características são a integração, a globalização, a relativização, o imediatismo, a agilidade, a derrubada de fronteiras, a extraterritorialidade, entre outras.
A história da Internet no Brasil é dividida em dois períodos: o acadêmico e o comercial. Nicolaci-da-Costa (1998) relata que é difícil precisar o período acadêmico, sendo considerado o ano de 1990 com a implantação da Rede Nacional de Pesquisa (RNP). Já o período comercial tem data exata, o ano de 1995.
Na sociedade contemporânea, o ser humano se vê inserido em ambientes cada vez mais configurados por complexos recursos tecnológicos. Ao fazer parte do conjunto de fatores que estão mudando a configuração social, a internet tem um importante papel nas mudanças que estão ocorrendo nas nossas formas de ver o mundo.
O contato direto com as características da internet – sua organização em rede, seus hipertextos e links, sua comunicação predominantemente escrita, sua agilidade, seu imediatismo, seus excessos, suas possibilidades de integração de coisas dispersas, o acesso a mundos diversos que ela possibilita as interações anônimas que faculta – tem efeitos que transpõem os limites do virtual e penetram a realidade off-line. Esse contato e essa transposição geram um perfil de sujeito que parece ser característico do século XXI. (NICOLACI-DA-COSTA, 2005, p. 82).
Para o presente trabalho, as diferentes nomenclaturas utilizadas para o nosso tempo não serão relevantes, uma vez que não se trata de diferenciá-los, mas, de contextualizar a sociedade atual. Assim, a denominação adotada será a de contemporâneo.
A sociedade paradigmática em que vivemos introduz no debate a polêmica com relação à conceituação do tempo/espaço. Para muitos teóricos a modernidade é uma época, senão superada, em vias de superação, cujos sólidos marcos referenciais (em especial o Estado-nação e a produção capitalista sistemática) estão a ceder para novos (ou inexistentes?) contornos. (VERONESE, 2014, p.196).
Segundo Jerusalinsky, o nosso tempo é marcado pela modificação da posição discursiva que organiza a relação entre sujeito e objeto, no que diz respeito ao modo de conceber o trabalho. O autor analisa o discurso social em três eixos. O primeiro refere-se à quebra da ligação natural do homem a terra, uma consequência da amplitude dos novos horizontes, não mais existindo uma hierarquia que lhe garanta uma posição social, permitindo o surgimento de um livre arbítrio na escolha de sua posição produtiva.
O segundo eixo analisado por Jerusalinsky, refere-se à ruptura entre gerações. A transmissão do saber sobre o trabalho era de pai para filho, as técnicas estavam do lado do sujeito que produzia o objeto demandado. Produz-se então, um deslocamento da importância do sujeito como transmissor de um saber para esse lugar do objeto como detentor de um saber. Desse modo, o saber é separado do sujeito e deslocado em direção ao objeto, logo, o valor do homem está no objeto.
Como último ponto, Jerusalinsky refere-se à quebra do sistema de valor. O homem, cada vez menos pode se representar no conjunto social através de um sistema de valor que tenha alguma equivalência com a sua força de trabalho. Assim:
O sujeito encontra ali um vazio no discurso, no discurso econômico e no discurso da organização social, ou seja, no discurso político. Porque ele não encontra modo de se fazer valer. Não encontra modo de se representar nessa série. (JERUSALINSKY, 2000. p. 46).
Segundo Calligaris (1997), nossa civilização se organiza ao redor da valorização do indivíduo: ”trata-se de apontar que, ao centro da cultura ocidental, está a primazia do individuo como valor central”. (p. 188). Para o autor esta é a
razão pela qual sociedade e indivíduo são pensados em termos de oposição na nossa cultura, pois, se na cultura o indivíduo é o valor social maior, na transmissão da cultura se transmite também o imperativo de odiá-la, pois o indivíduo somente poderá se afirmar ao recusar a cultura que lhe é transmitida. Nesses termos:
Trata-se de pensar que o sujeito (...) na valorização da sua própria individualidade, é efeito de uma cultura que ele é obrigado a odiar a sua herança, sendo este ódio uma implicação desta própria herança. (CALLIGARIS, 1997, p.189).
Para entender a cultura da qual Calligaris trata usaremos a definição do autor:
Uma cultura é fundamentalmente um fluxo discursivo, quer dizer tudo o que foi se articulando discursivamente, oralmente ou por escrito, no quadro desta cultura. Imagine que seja uma espécie de rio de palavras que vai andando, e no meio deste rio, a gente fala e pede carona. De repente, o que a gente diz só encontra significação no que vai ser dito ou no que foi dito antes. (1997, p. 194).
Para Jerusalinsky, o sintoma advém dessas mudanças, ponto de articulação entre o discurso social e o sujeito onde este tenta criar uma forma de desfrutar sua presença no mundo, uma forma legítima de encontrar um modo em que essa formação inconsciente seja aceita pelo social. Quando o sujeito fica sem representação, o laço social se rompe no plano simbólico e emerge a ordem do ato como garantia para o sujeito se fazer valer.
Tonelli (2001 p. 243), afirma que: “a partir dos anos 80, nem emprego, nem casamento são feitos para durar, numa sociedade em que tudo se caracteriza pela fugacidade e pela incerteza”. Uma sociedade centrada em objetivos em curto prazo e, neste contexto, tanto as relações afetivas quanto as relações de trabalho precisam ser renegociadas constantemente.
As transformações em curso na sociedade atual analisadas por Tonelli são relativas às questões da vida privada e do mundo do trabalho, estas constituem as duas grandes dimensões da vida das pessoas. Segundo a autora:
O amor e o trabalho encontram-se em profundas transformações. De um lado, o passado, formas seguras de convivência, mas ao mesmo tempo rígidas e nem sempre democráticas. De outro, o novo, que ainda não se configuraram completamente, podendo apontar para formas mais democráticas de convivência, mas que deixam hoje todos em condições de muita instabilidade e de medo. (TONELLI, 2001, p. 259).
Segundo Castells (1999), a partir das décadas 60 e 70, passa a surgir “um novo mundo”, em que sociedade, economia e cultura estão interligadas graças às tecnologias, fazendo surgir uma sociedade em rede, a chamada sociedade informacional. A revolução tecnológica remodelou a sociedade, mudando o cenário social da vida humana. Castells cita alguns processos históricos que tiveram papel fundamental na transformação do mundo: a revolução da tecnologia e dos meios de troca de informações, a re-estruturação da economia capitalista e o declínio dos estados comunistas, e as correntes culturais e sociais surgidas na segunda metade do século XX que mudaram a ideologia e as perspectivas da cultura.
De acordo com Castells (1999), o conceito de paradigma tecnológico ajuda a organizar a essência da transformação tecnológica atual à medida que ela interage com a economia e a sociedade. A primeira característica do novo paradigma é que a informação é sua matéria-prima: são tecnologias para agir sobre a informação, não apenas informação para agir sobre a tecnologia. O segundo aspecto refere-se à penetrabilidade dos efeitos das novas tecnologias. Como a informação é parte da atividade humana, todos os processos de nossa existência são moldados pelo meio tecnológico. A terceira característica refere-se à lógica de redes em qualquer sistema ou conjunto de relações, usando essas novas tecnologias da informação. Em quarto lugar, o paradigma é baseado na flexibilidade, entendida como a capacidade de reconfiguração constante sem destruir a organização. Uma quinta característica dessa revolução é a crescente convergência de tecnologias específicas para um sistema altamente integrado, no qual trajetórias tecnológicas antigas ficam impossíveis de distinguir em separado.
Para o autor, o paradigma da tecnologia da informação não evolui para seu fechamento como um sistema, mas como uma rede de acessos múltiplos. Assim, a dimensão social da revolução parece destinada a cumprir a lei sobre a relação entre tecnologia e sociedade proposta por Melvin Kranzberg: “A primeira lei de Kranzberg diz: A tecnologia não é nem boa, nem ruim, mas também não é neutra.”.
Castells define a tecnologia como: “O uso de conhecimentos científicos para especificar as vias de se fazerem as coisas de uma maneira produzível”. Para especificar as tecnologias da informação ele define:
Entre as tecnologias da informação, incluo, como todos, o conjunto convergente de tecnologias em microeletrônica, computação (software e hardware), telecomunicações/radiodifusão, e optoeletrônica. (1999, p. 67).
Nesse sentido, o processo contemporâneo de transformação tecnológica expande-se em razão de sua capacidade de criar uma interface entre campos tecnológicos mediante uma linguagem digital comum na qual a informação é gerada, armazenada, recuperada, processada e transmitida. Assim, é possível afirmar que interagimos em um mundo que se tornou digital.
Com as novidades trazidas pela era tecnológica, ocorreu uma difusão de culturas pelo mundo, tornando-o cada vez mais virtualizado, isso porque o espaço-tempo foi encurtado, fazendo com que aumentasse a velocidade da informação. A sociedade, segundo Castells, aderente a essa virtualização é denominada “sociedade em rede”.
Redes constituem a nova morfologia social de nossas sociedades e a difusão da lógica de redes modifica de forma substancial a operação e os resultados dos processos produtivos e de experiência, poder e cultura. (...) A apresentação na rede ou a ausência dela e a dinâmica de cada rede em relação às outras são fontes cruciais de dominação e transformação de nossa sociedade: uma sociedade que, portanto, podemos chamar de sociedade em rede. (1999, p. 565).
A globalização, de forma geral, facilita a troca, o intercâmbio, a socialização e a discussão de ideias num âmbito intercultural.
1.1 Os efeitos do mundo contemporâneo
Todas essas mudanças de ordem social vistas nos autores já citados, também afetam o modo do sujeito se relacionar, de estabelecer laços. Neste sentido, se faz relevante os estudos do sociólogo Anthony Giddens sobre as consequências desse período denominado pelo autor de modernidade, termo que será mantido, uma vez que ele assim o define.
Em uma primeira definição de modernidade, Giddens (1991), a refere como estilo, costume de vida ou organização social que emergiram na Europa a partir do século XVII e que, ulteriormente, tornaram-se mais ou menos mundial em sua
influência. Isto associa a modernidade a um período de tempo e a uma localização geográfica inicial.
A "modernidade" pode ser entendida como aproximadamente equivalente ao "mundo industrializado" desde que se reconheça que o industrialismo não é sua única dimensão institucional. Ele se refere às relações sociais implicadas no uso generalizado da força material e do maquinário nos processos de produção. (...) Uma segunda dimensão é o capitalismo, sistema de produção de mercadorias que envolvem tanto mercados competitivos de produtos quanto a mercantilização da força de trabalho. (...) A modernidade inaugura uma era de "guerra total" em que a capacidade destrutiva potencial dos armamentos, assinalada, acima de tudo, pela existência de armas nucleares, tornou-se enorme. (GIDDENS, 1991, p. 82).
Giddens também considera que há argumentos de que surge uma nova era e uma variedade de termos vem sendo utilizada para nomear esta transição, alguns se referem à emergência de um novo tipo de sistema social (tal como a “sociedade de informação” ou a “sociedade de consumo”), mas cuja maioria sugere que está chegando a um encerramento (“pós-modernidade”, “pós-modernismo”, “sociedade pós-industrial”, e assim por diante).
Segundo o autor, uma das transformações ocorridas na modernidade é a separação do tempo e do espaço, que já não é mais dominado pela presença.
O advento da modernidade arranca crescentemente o espaço do tempo fomentando relações entre outros “ausentes”, localmente distantes de qualquer situação dada ou interação face a face. Em condições de modernidade, o lugar se torna cada vez mais fantasmagórico: isto é, os locais são completamente penetrados e moldados em termos de influências sociais bem distantes deles. (GIDDENS, 1991, p. 27).
A separação tempo e espaço é fundamental para o dinamismo característico da modernidade. Essa mudança gera algumas consequências como a dissociação da atividade social a presença, e a possibilidade de intercâmbio entre o local e o global nas organizações.
Na era moderna esse distanciamento tempo-espaço é mais evidente comparado a outros períodos, diminuindo a relação entre as formas sociais e os eventos locais, é a este processo que, segundo Giddens, a globalização se refere.
A globalização pode ser assim definida como a intensificação das relações sociais em escala mundial, que ligam localidades distantes de tal maneira que, acontecimentos locais são modelados por eventos ocorrendo a milhas de distância e vice-versa. (1991, p. 69).
Essa forma de interação permite que um acontecimento em um determinado local possa influenciar outro, localizado no lado oposto do globo. Esses efeitos da globalização ampliam as possibilidades de comunicação, o que propicia a transformação, em vários aspectos, das localidades.
Na modernidade as pessoas vivem em circunstâncias em que as instituições organizam os aspectos principais do cotidiano. Nessas condições Giddens examina como o suporte da confiança se vincula a esses fenômenos, ou seja, as relações de confiança em condições de modernidade. O autor utiliza os termos: “compromisso com rosto” e “compromisso sem rosto” para diferenciar as relações. Segundo ele:
Os primeiros se referem a relações verdadeiras que são mantidas por, ou expressas em conexões sociais estabelecidas em circunstâncias de co-presença. Os segundos dizem respeito ao desenvolvimento de fé em fichas simbólicas, ou sistemas peritos, os quais devem chamar de sistemas abstratos. (1991, p. 84).
O autor argumenta que a natureza das instituições modernas está ligada ao mecanismo de confiança em sistemas abstratos. Esses sistemas são o conjunto de fichas simbólicas e sistemas peritos. As fichas simbólicas são meios de intercâmbio, como, por exemplo, o dinheiro. Já os sistemas peritos referem-se à ênfase na técnica ou, ao conhecimento do perito.
Isto significa que ninguém pode optar por sair desses sistemas nas instituições modernas, pois, muitos aspectos da modernidade tornaram-se globalizados.
Para Giddens as relações de confiança são básicas para o distanciamento tempo-espaço dilatado em associação com a modernidade. Ele define a confiança em sistemas e a confiança em pessoas:
A confiança em sistemas assume a forma de compromisso sem rosto, nos quais é mantida a fé no funcionamento do conhecimento em relação ao qual a pessoa leiga é amplamente ignorante. A confiança em pessoas envolve compromissos com rosto, nos quais são solicitados indicadores da integridade de outros (no interior de arenas de ação dadas). (GIDDENS, 1991, p. 91).
Na modernidade, as atitudes de confiança nos sistemas abstratos são incorporadas às atividades cotidianas. E, segundo Guiddens, embora não possamos escapar completamente do impacto das instituições modernas, muitas orientações possíveis podem existir. Um indivíduo pode escolher mudar-se para uma área diferente, por exemplo, do que tomar água fluoretada.
A partir do exemplo apresentado, pode-se observar que existem vários sistemas dos quais nos utilizamos e que não possuímos conhecimento sobre sua forma de ser e de operar, desconhecendo seu funcionamento, mas, de forma consensual o utilizamos sem questionar, apenas confiando no seu funcionamento e no conhecimento técnico que foi empregado para isso.
Nas culturas pré-modernas, Giddens cita quatro contextos de confiança que predominam: O primeiro é o sistema de parentesco, que proporciona um modo estável de organização de relações sociais, os parentes podem, em geral, ser vistos com confiança no sentido de cumprirem com uma série de obrigações independente de sentirem simpatia pessoal pelos indivíduos envolvidos. O segundo é a comunidade local, onde o meio local é o cenário de relações sociais entrelaçadas, onde a pequena extensão espacial garante sua solidez no tempo. A terceira influência é a da cosmologia religiosa, nesse aspecto, ela proporciona interpretações morais e práticas da vida pessoal e social, o que representa um ambiente de segurança para o crente. O quarto contexto de relações de confiança nas culturas pré-modernas é a própria tradição. A tradição reflete um modo distinto de estruturação da temporalidade, o passado é um meio de organizar o futuro, pois, ele é incorporado às práticas presentes. A tradição contribui de maneira básica para a segurança na medida em que mantém a confiança na continuidade do passado, presente e futuro, e vincula esta confiança a práticas sociais rotinizadas.
Para Giddens, especificar esses contextos da confiança em culturas pré-modernas não é dizer que os cenários tradicionais eram psicologicamente aconchegantes comparados aos modernos. Pois, os cenários das culturas tradicionais eram repletos de ansiedades e incertezas, fatores considerados por ele como ambiente de risco, dominados pelas vicissitudes do mundo físico.
O autor faz algumas considerações em relação à sociedade moderna:
Com o desenvolvimento das instituições sociais modernas, persiste um pouco de equilíbrio entre confiança e risco, segurança e perigo. Mas os elementos principais envolvidos são bastante diferentes dos que predominavam na era pré-moderna. Em condições de modernidade, assim como em todos os cenários culturais, as atividades humanas permanecem situadas e contextualizadas. (1991, p.110).
Os quatro principais focos de confiança e segurança analisados pelo autor, nos cenários pré-modernos, não têm a mesma importância comparados à situação de modernidade. As relações de parentesco já não são os veículos de laços sociais organizados através do tempo-espaço. O primado do lugar tem sido destruído pelo distanciamento tempo-espaço, as estruturas através das quais o lugar se constituiu não são mais organizadas localmente, mas, encontram-se influências de lugares bem mais distantes, podendo ser encontrado em uma lojinha local, produtos de várias partes do mundo.
Quanto à terceira influência, a da religião, Giddens (1991, p. 111), descreve: “a maior parte das situações da vida social moderna é manifestamente incompatível com a religião como uma influência penetrante sobre a vida cotidiana”. Para o autor o impacto causado na religião e na tradição, já que possuem uma vinculação íntima, se deve à reflexividade da vida social moderna.
Para Giddens, o “ambiente de risco” pré-moderno sofre transformações semelhantes:
Em condições de modernidade, os perigos que enfrentamos não derivam mais primariamente do mundo da natureza. (...) Ameaças ecológicas são o resultado de conhecimento socialmente organizado, mediado pelo impacto do industrialismo sobre o meio ambiente material. São parte do que chamarei de novo perfil de risco introduzido pelo advento da modernidade. Chamo de perfil de risco um elenco específico de ameaças ou perigos característicos da vida social moderna. (1991, p. 111).
Essa análise feita pelo autor pontua os principais aspectos de mudanças ocorridas na modernidade. Se, os fatores que garantiam segurança e confiança na sociedade pré-moderna mudaram, os fatores considerados riscos sofreram mudanças análogas, pois, para que uma mudança ocorra é necessário desestabilizar os sistemas já postos.
Outro aspecto que Giddens analisa é a conexão existente entre as tendências globalizantes da modernidade e as transformações da intimidade nos contextos da vida cotidiana. Segundo o autor a transformação da intimidade pode ser analisada em termos da adição de mecanismos de confiança, e que as relações de confiança pessoal, nessas circunstâncias, estão intimamente relacionadas à situação na qual a construção do eu se torna um projeto reflexivo.
Uma concepção, amplamente associada ao conservadorismo político, retrata o desenvolvimento da modernidade como rompendo as velhas formas de “comunidade”, em detrimento das relações pessoais nas sociedades modernas (...) A esfera da vida pública tornou-se “excessivamente institucionalizada”. O resultado é que a vida pessoal torna-se atenuada e privada de pontos de referência firmes: há uma volta para dentro, para a subjetividade humana, e o significado e a estabilidade são buscados no seu interior. (1991, p.118).
Dessa forma, a vida pessoal e os laços sociais estão entrelaçados com os sistemas abstratos. Com a globalização, as conexões entre vida pessoal e mecanismos de desencaixe se intensificaram. Um evento que acontece do outro lado do mundo pode ser assistido em tempo real no povoado local, a informação passa a ser instantânea. O que há de mais íntimo e mais distante estão diretamente conectados.
Para Giddens, a modernidade é globalizante e produz consequências desestabilizadoras. Esse aspecto globalizante da modernidade vincula os indivíduos a sistemas de grande escala numa dialética de mudanças nos polos local e global. A experiência de viver em um mundo em que presença e ausência se combinam, de uma forma historicamente nova e o grande fluxo diário de informação, constitui um processo de transformação da subjetividade e da organização social global.
Conforme Giddens “o advento da modernidade traz mudanças importantes no ambiente social externo do indivíduo, afetando o casamento e a família assim como outras instituições”. A modernidade se estende bem além dos domínios das atividades individuais e dos compromissos pessoais. Este novo mundo se apresenta repleto de riscos e perigos, essas circunstâncias perturbadoras são causadoras de ansiedade, porém esta também é capaz de produzir mudanças adaptativas e novas iniciativas. Como afirma o autor: “mudanças em aspectos íntimos da vida pessoal
estão diretamente ligadas ao estabelecimento de conexões sociais de grande amplitude” (2002, p.36).
CAPÍTULO II - O LAÇO SOCIAL E O SUJEITO CONTEMPORÂNEO
2.1 Sujeito e laço social para a psicanálise
Na obra de Freud a noção de sujeito é sempre presente, porém, implícita, foi Lacan quem o introduziu na psicanálise como um conceito. Para Birman (1997), a psicanálise teria retirado a última ancoragem da pretensão humana ao enunciar que a consciência não é soberana no psiquismo do indivíduo e que o eu1 não é autônomo no funcionamento psíquico.
O ser do psíquico se desloca da consciência e do eu para os registros do inconsciente e da pulsão, que passam a regular materialmente o ser do psiquismo. Portanto, esse ensaio freudiano enuncia a proposição do descentramento do sujeito em psicanálise, onde os registros do eu e da consciência não se definem como sendo o ser do psíquico, mas apenas como uma modalidade de sua existência. (BIRMAN, 1997, p. 20).
Compreende-se que o ser humano está sujeito a forças internas que desconhece e, portanto, não é o eu, ou não é somente ele, quem comanda os processos psíquicos.
Em psicanálise, Sigmund Freud empregou o termo, mas somente Jacques Lacan, entre 1950 e 1965, conceituou a noção lógica e filosófica do sujeito no âmbito de sua teoria do significante, transformando o sujeito da consciência num sujeito do inconsciente, da ciência e do desejo. Foi em 1960, em “Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano”, que Lacan, apoiando-se na teoria saussuriana do signo linguístico, enunciou sua concepção da relação do sujeito com o significante: “Um significante é aquilo que representa o sujeito para outro significante.” Esse sujeito, segundo Lacan, está submetido ao processo freudiano da clivagem (do eu). (ROUDINESCO, 1998, p.742).
O sujeito é constituído pelo desejo do Outro2, desejo inicialmente dos pais, dos outros que gozam de lugar importante na vida do sujeito. Desejos do Outro que são projetados e introjetados pelo sujeito inconscientemente; desejos que o sujeito tentará corresponder na busca de reconhecimento. “O sujeito, portanto, se constitui, não ‘nasce’ e não se ‘desenvolve’”. (ELIA, 2010, p. 31).
1
Termo empregado na filosofia e na psicologia para designar a pessoa humana como consciente de si e objeto do pensamento. (ROUDINESCO, 1998, p. 210).
2
Termo utilizado por Jacques Lacan para designar um lugar simbólico — o significante, a lei, a linguagem, o inconsciente, ou, ainda, Deus — que determina o sujeito, ora de maneira externa a ele, ora de maneira intrasubjetiva em sua relação com o desejo. (ROUDINESCO, 1998, p. 558).
A chegada ao mundo pelo pequeno humano requer que ele se insira na ordem humana que o espera. Conforme Elia, esta chegada é preparada criando condições de possibilidade de sua inserção. Por esse viés, o ser humano entra na ordem social, “e cuja unidade celular e básica, que se organiza como a porta de entrada nesta ordem, se chama família, pelo menos nas sociedades modernas” (ELIA, 2010, p. 34).
Nesse sentido, Elia define que:
Para a psicanálise, portanto, o sujeito só pode se constituir em um ser que, pertencente à espécie humana, tem a vicissitudeobrigatória e não eventual de entrar em uma ordem social a partir da família ou de seus substitutos sociais e jurídicos (instituições sociais destinadas ao acolhimento de crianças sem família, orfanatos, etc.). Sem isso ele não só não se tornará humano (a espécie humana, em termos filogenéticos, não basta para fazer de um ser nela produzido um ser humano, argumento que dá sentido à palavra humanização) como tampouco se manterá vivo: sem a ordem familiar e social, o ser da espécie humana morrerá. (2010, p. 34).
É esta ordem social que o sujeito é efeito, e que também transforma, ou seja, sendo regido pela estrutura social, mas também agindo sobre ela.
Segundo Elia (2010, p. 65), para indicar o lugar do sujeito, Freud recorreu ao mito do Pai primordial3, situando um Pai primitivo, mítico, que não existiu em cultura alguma, situado na fronteira entre a natureza e a cultura. O assassinato do pai é o ato fundador da sociedade civilizada, a Lei. Esse Pai da horda, na realidade nunca existiu e, portanto, nunca pôde ser assassinado, mas é condição essencial da estrutura do sujeito, sem a qual nenhuma realidade existe como realidade de e para um sujeito.
O mito, portanto, que se apresenta como mito de origem da civilização, é o modo de Freud introduzir o sujeito no campo de experiência social, cultural, mas também, na experiência psicológica que, como tal, não comporta o sujeito. Fiel à direção de Freud, mas por caminhos muito próprios, Lacan deu às formulações míticas de Freud um desenho lógico. Para isso, a elaboração de uma teoria do sujeito foi peça chave, fundamental, não como parte do desenho, mas como instrumento mesmo do ato de desenhar. (ELIA, 2010, p. 67).
Segundo Elia (2010), para explicar o modo pelo qual o sujeito se constitui, é necessário considerar o campo do qual ele é o efeito, o campo da linguagem. Para a
3
psicanálise, sobretudo, a partir da reelaboração que Lacan empreendeu dos textos freudianos, o sujeito só pode ser concebido a partir do campo da linguagem. Embora Freud não se refira diretamente, todas as suas elaborações teóricas sobre o inconsciente o estruturam como sistema quer de representações, de traços de memória ou em signos de percepção. Essa teoria exige a referência a uma ordem simbólica, a um sistema de articulação de elementos simbólicos, ou seja, a linguagem.
Sobre a importância da linguagem, vemos em Otero (2013, p. 44), que Lacan enuncia: “O inconsciente é estruturado como uma linguagem” (1976), onde as figuras de linguagem metáfora e metonímia exercem sublime papel no processo de interpretação analítica. Assim, linguagem obedece às leis que a estruturam e o inconsciente obedece às leis da linguagem. Portanto, há lei da condensação4 resumida pela metáfora, e há lei do deslocamento5 representada pela metonímia.
Para a Psicanálise, o laço social é o meio pelo qual o sujeito faz vínculo com a cultura, entrelaçando o sujeito com o Outro social pela via do discurso. Em uma leitura do Seminário 17 “o avesso da psicanálise”, Coelho expõe que o discurso é um modo de relacionamento social representado por uma estrutura sem palavras, neste, Lacan propõe os discursos como sendo modos de uso da linguagem como vínculo social, pois é na estrutura significante que o discurso se funda. É a articulação da cadeia significante que produz o discurso. Segundo Coelho, Lacan propõe uma nova forma de entender o estabelecimento do laço social entre os sujeitos, no qual há uma articulação entre o campo da linguagem e o campo do gozo.
De acordo com sua experiência clínica, (Freud) passou a considerar como fenômeno social toda e qualquer atitude do indivíduo em relação ao outro: a experiência subjetiva, objeto privilegiado do trabalho analítico, implica, necessariamente, a referência do sujeito ao outro (pais, irmãos, pessoa amada, analista, etc.) e à linguagem (Outro) que o determina
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Termo empregado por Sigmund Freud para designar um dos principais mecanismos do funcionamento do inconsciente. A condensação efetua a fusão de diversas ideias do pensamento inconsciente, em especial no sonho, para desembocar numa única imagem no conteúdo manifesto, consciente. ( ROUDINESCO,1998 , p. 125).
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Processo psíquico inconsciente, teorizado por Sigmund Freud, sobretudo, no contexto da análise do sonho. O deslocamento, por meio de um deslizamento associativo, transforma elementos primordiais de um conteúdo latente em detalhes secundários de um conteúdo manifesto. (ROUDINESCO,1998 , p. 148).
simbolicamente). No plano coletivo, a vida social apenas apresenta unidades cada vez mais amplas, sempre obedientes às mesmas leis que marcam o indivíduo (FUKS, 2007, apud OTERO, 2013, p.22.).
Segundo Otero, os discursos de Lacan desenham uma teoria que supõe analisar as interações com o outro que viriam a compor os laços sociais. A investigação da subjetividade com a análise dos discursos vai além do posicionamento estrutural do sujeito e de seus recursos para lidar com o desejo e o gozo, para a sua relação com a autoridade, com o laço social, através da linguagem.
Lacan nos ensina que os laços sociais são tecidos pela libido e, portanto, situados no campo do gozo, estruturados pela instância simbólica do Nome-do-Pai, e pela simbologia dos mitos individual (Édipo) e coletivo (o pai tirânico de Totem e Tabu) desenvolvidos pela teoria freudiana. (OTERO, 2013, p. 45).
Os quatro discursos (do mestre, universitário, da histérica do analista, e do capitalista) são quatro configurações significantes e, para Coelho (2013), o que está em jogo é aquilo que ordena e regula um vínculo social entre os sujeitos.
O discurso como laço social é um modo de aparelhar o gozo com a linguagem, na medida em que o processo civilizatório, para permitir o estabelecimento das relações entre as pessoas, implica a renúncia da tendência pulsional em tratar o outro como um objeto a ser consumido: sexual e fatalmente. (...). A civilização exige do sujeito uma renúncia pulsional. Todo laço social é, portanto, um enquadramento da pulsão, resultando em uma perda real de gozo. (QUINET, 2009, p. 17).
Quinet afirma: os discursos encerram formas de dominação entre os sujeitos evidenciados através dos laços sociais, onde no Discurso do Mestre a elocução de ordem é governar, no Discurso do Universitário o verbo é educar, no Discurso do Analista é analisar, e no Discurso da Histérica é o fazer desejar. Na leitura de Lacan, vemos em Quinet:
Mediante o instrumento da linguagem, o discurso instaura relações fundamentais e estáveis no campo do gozo, a partir de uma série de enunciados primordiais que determinam aquele laço social específico (2009, p.30).
Segundo o autor, o sujeito do campo do gozo não é propriamente o sujeito do campo da fala, mas o sujeito implicado no gozo do laço social em que está inserido em um determinado momento e contexto.
Na teoria dos discursos deve-se verificar o elemento que domina tal laço social. Conforme Quinet trata-se daquilo que determina o agir do sujeito, pois ele vai agir de acordo com o discurso dominante em que está inserido, assim, “quando se toma um laço social, pode-se avaliar em qual discurso se está através da dominante ou daquilo que esse discurso confessa querer dominar”. (2009, p. 35).
Neste sentido:
Todo discurso que trata o outro como objeto pode ser chamado de discurso universitário. Todo laço social que trata o outro como um mestre é discurso da histérica. Quando alguém trata o outro como um escravo ou como um saber produzir, estamos no discurso do mestre. O discurso do analista é o único laço social que trata o outro como um sujeito. (QUINET, 2009, p. 35).
Segundo Quinet, o que produz o mal-estar na nossa civilização é o discurso dominante, por se utilizarem do poder de comando do significante que pode ser de caráter impositivo ou ditatorial sob a forma de poder ou de saber. O discurso do mestre é o discurso da instituição, e seu avesso – o discurso do analista – é o que destitui o significante do lugar do mestre que, ao ser destituído seu governo é o da a-cracia, assim sua emergência não faz governo, mas causa transferência. O discurso do mestre é o laço civilizador que exige a renúncia pulsional, promovendo a renúncia do gozo. No discurso universitário o laço de educar gera o sujeito patológico, o do sintoma e o sujeito da castração. Como produto gera o sujeito dividido que crê e não crê na ciência por esta ter sua base no saber. A histeria faz objeção à perversidade do saber totalitário, sendo responsável pela utilização do saber como uma forma de tratamento do mal-estar na civilização. O discurso capitalista, não promove o laço social entre os seres humanos, pois, propõe ao sujeito um objeto de consumo curto e rápido. O discurso do analista se coloca como a única modalidade de tratamento do mal-estar que considera o outro como um sujeito em que o significante-mestre não pode ser encarnado por ninguém. Nesses termos:
Nos discursos da dominação, o significante-mestre se encontra do lado do agente dominador. Quando é encarnado e lhe é conferido um sentido absoluto temos o império do Eu – a Eu-cracia –em que encontramos o Eu idêntico a si mesmo, (...). Se temos na Eu-cracia a caricatura do discurso do mestre, como forma de governo, temos a burocracia para o discurso da universidade, a sintomocracia para o discurso da histérica e, no discurso do analista, a a-cracia, onde se trata do governo de a (mais-de-gozar) – que se desvela como impossível de governar, pois esta forma de laço se
encontra no “polo oposto a toda vontade de dominar”. (QUINET, 2009, p. 38).
Ainda, segundo Quinet, o mal-estar na modernidade, para Lacan, é produto do discurso capitalista sendo considerado por ele o laço social dominante na nossa sociedade, o que caracteriza esse discurso é a foraclusão6 da castração, ele exclui o outro do laço social e passa a se relacionar com os objetos. O capital encontra-se como significante-mestre e o sujeito é reduzido a um consumidor de objetos produzidos pela ciência e tecnologia.
Partindo desta breve exposição sobre a teoria dos discursos é possível analisar o campo social a partir das mudanças significativas que se encontram em ascensão na sociedade contemporânea. Considerando que a condição do sujeito é afetada por diversas mudanças no campo em que está inserido e, onde estabelecem laços, o elemento da virtualidade entra como um modificador das relações humanas e sociais.
2.2 As comunidades virtuais e o ciberespaço
Tende-se a pensar o virtual como oposição ao real, ao cara a cara, a presença física dos interlocutores. Contrário a isso, Pierre Lévy define o virtual como oposto ao atual e não ao real, ele existe em potência, mas não em ato. O virtual é como um problema que necessita de um processo de resolução: a atualização.
A virtualização pode ser definida como o movimento inverso da atualização. Consiste em uma passagem do atual ao virtual, em uma “elevação à potência” da entidade considerada. A virtualização não é uma desrealização (...) mas uma mutação de identidade. (LÉVY, 1996, p. 17).
Segundo Lévy (1996), a virtualização não é nem boa, nem má, nem neutra. Ela produz efeitos. O processo de virtualização provoca a desterritorialização, uma espécie de desengate que os separa do espaço físico e da temporalidade, a saída da “presença”, do “agora” como uma das vias da virtualização.
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Conceito forjado por Jacques Lacan para designar um mecanismo específico da psicose, através do qual se produz a rejeição de um significante fundamental para fora do universo simbólico do sujeito. Quando essa rejeição se produz, o significante é foracluído. Não é integrado no inconsciente, como no recalque, e retorna sob forma alucinatória no real do sujeito. (ROUDINESCO, 1998, p. 245).
A comunidade virtual é um fenômeno contemporâneo, pode-se considerar esse espaço como um possibilitador de intercâmbios, considerando que existe uma forma de relacionamento entre seus membros que partilham de interesses em comum. É uma forma diferente de comunicação com suas peculiaridades, o texto, a imagem e, até com algumas ferramentas de visualização instantânea como o vídeo que reproduz a imagem e a voz em tempo real.
As comunidades virtuais emergem da sociedade informatizada, onde a troca de informações é mediada por computadores conectados à internet. Os usuários se reúnem em torno de interesses em comum em um processo de colaboração ou de troca, portanto, os laços que os une são laços de afinidade. Nesse sentido, Castells define a comunidade virtual como “uma rede eletrônica autodefinida de comunicações interativas e organizadas ao redor de redes de interesses ou fins em comum”. (CASTELLS, 1999, p. 127).
Segundo Lévy, uma comunidade virtual pode organizar-se sobre uma base de afinidades por intermédio de sistemas de comunicação e seus membros estão reunidos pelos mesmos núcleos de interesses.
Apesar de “não-presente”, essa comunidade está repleta de paixões e de projetos, de conflitos e de amizades. Ela vive sem lugar de referência estável: em toda parte onde se encontrem seus membros móveis ou em parte alguma. A virtualização reinventa uma cultura nômade (...) fazendo surgir um meio de interações sociais onde as relações se configuram com um mínimo de inércia. (LÉVY, 1996, p. 20).
Nessas comunidades a localização geográfica é superada, membros de várias partes do mundo podem se comunicar entre si sem a necessidade da presença física. O virtual não possui tempo nem lugar, podendo duas pessoas se comunicar através de uma rede social estando em lados opostos do globo, então, essa conversa não possui tempo nem lugares específicos.
Segundo Lévy (1999), a palavra “ciberespaço” foi inventada em 1984 por Willian Gibson em seu romance de ficção científica Neuromancer. Neste, o termo designava o universo das redes digitais. Esse termo foi retomado pelos usuários e criadores de redes digitais.
Eu defino ciberespaço como o espaço de comunicação aberto pela interconexão mundial dos computadores e das memórias dos computadores. Essa definição inclui o conjunto dos sistemas de comunicação eletrônicos (...), na medida em que transmitem informações provenientes de fontes digitais ou destinadas à digitalização. (1999, p. 94).
Uma das principais funções do ciberespaço é, para Lévy (1999, p. 95), o acesso a distância aos diversos recursos de um computador. Assim, um usuário situado a milhares de quilômetros pode conectar-se a outro computador para executar diversas tarefas como também transferir dados. Ainda, entre as funções mais usadas do ciberespaço está a troca de mensagens através de uma caixa postal eletrônica onde, as pessoas ligadas à rede, podem enviar e receber mensagens.
Novos usuários passam a integrar a rede a todo instante e, quanto mais o ciberespaço se amplia mais ele se torna “universal”, “o universal da cibercultura não possui nem centro nem linha diretriz. É vazio, sem conteúdo particular.”. (LÉVY, 1999, p. 113). Essas circunstâncias transformam as condições de vida em sociedade, pois, trata-se de um universo indeterminado onde cada novo nó da rede (usuário), pode tornar-se emissor ou produtor de novas informações.
Lévy (1999, p. 125), afirma que: “a emergência do ciberespaço é fruto de um verdadeiro movimento social”. Esse movimento seria composto por um grupo líder, palavras de ordem e suas aspirações. O objetivo do movimento social foi facilitar o acesso aos computadores pelos indivíduos fazendo com que os preços fossem acessíveis e seu uso dispensasse especialização técnica, transformando totalmente o significado social da informática.
O crescimento inicial do ciberespaço, segundo Lévy (1999, p.129) foi orientado por três princípios: a interconexão, a criação de comunidades virtuais e a inteligência coletiva. A interconexão é considerada uma das pulsões mais fortes na origem do ciberespaço, tornando a humanidade sem limites ou fronteiras. É também o apoio necessário para o desenvolvimento das comunidades virtuais.
Uma comunidade virtual é construída sobre as afinidades de interesses, de conhecimentos, sobre projetos mútuos, em um processo de cooperação ou de troca, tudo isso independentemente das proximidades geográficas e das filiações institucionais. (1999, p. 130).
Segundo Lévy, as relações on-line não excluem emoções fortes, responsabilidade individual, nem a opinião pública ou seu julgamento ausenta-se no ciberespaço, mas as considera um complemento ou um adicional para os encontros físicos.
Segundo Nicolaci-da-Costa (2005), os primeiros resultados de suas pesquisas referentes aos impactos subjetivos do uso da internet foram muito abrangentes, revelando que a internet estava gerando alterações em, praticamente, todas as áreas da experiência cotidiana de seus usuários. Esses usuários já haviam desenvolvido novos conceitos e novos usos da linguagem.
Era evidente que havia também absorvido a nova lógica da rede. Uma lógica de excessos, agilidade, integração, relativização e expertise jovem. Uma vez absorvida, essa lógica era transportada para o mundo off- line e produzia profundas alterações também nos modos de agir e de ser desses sujeitos. (NICOLACI-DA-COSTA, 2005, p. 76).
A Internet inaugurou um espaço onde existe a possibilidade de haver mudanças subjetivas, mas também há o risco desse espaço se tornar uma repetição improdutiva. Nele pode haver o estabelecimento de laços sociais, mas isso não é garantido a todos e nem em todas as circunstâncias.
O sujeito contemporâneo conta com recursos tecnológicos para lhe auxiliar na busca de si e na conexão com seus semelhantes através de interações com a máquina, uma entidade que passou a incorporar uma nova via na constituição de uma vida que pode ser parcialmente construída e, ao mesmo tempo, filtrada pela tela de um computador. (OTERO, 2013, p. 02).
Desta forma, o ciberespaço propicia o nascimento de um lugar virtual que se revela propício ao estabelecimento de laços sociais. Embora sejam laços com características diferentes dos estabelecidos no mundo “real”. A sociabilidade virtual pode, tanto suprir a carência do sujeito contemporâneo proporcionando novas formas de relacionamento, quanto ser um adicional às relações já constituídas. Uma das características da contemporaneidade é o acúmulo de tarefas e a escassez de tempo, considerando que a constituição de laços afetivos requer tempo e investimento do sujeito, requisitos escassos no contexto atual, o meio virtual pode se apresentar como uma possibilidade de interação para o sujeito.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A revolução tecnológica trouxe várias mudanças na forma como as pessoas se comunicam, afetando tanto as relações de trabalho quanto as relações sociais. A expansão e a popularização da Rede Mundial de Computadores tornou o acesso à informação instantâneo e a comunicação transcende a barreira territorial e cultural.
O sujeito contemporâneo conta com recursos tecnológicos para lhe auxiliar na conexão com o outro através de interações em comunidades virtuais. Neste ambiente, o sujeito pode optar pelo tipo de relacionamento conforme suas preferências. É uma comunidade que difere da tradicional, pois esta precede o sujeito, quando ele nasce já é esperado pelo social que o acolhe. Na comunidade virtual, o sujeito escolhe com quem se relaciona e tem sempre a opção de desconectar. Esta possibilidade torna os relacionamentos estabelecidos na rede, mais frágeis, vulneráveis a um clique.
Todas essas mudanças no campo social produzem transformações na maneira como o sujeito se relaciona e estabelece laços. As consequências dessas novas experiências humanas que a vida no ciberespaço proporciona, necessitam ser amplamente estudadas, pois, como considera Lévy (1996), a virtualização não é boa, nem má. Ela produz efeitos. Esses possíveis efeitos carecem ser investigados para melhor compreender o sujeito no contexto atual, visto que esse tema dispõe de pouca bibliografia considerando a sua relevância.
Essas mudanças sociais interessam à psicologia, pois o que acontece no nível social tem um importante papel na construção da organização psíquica, ou seja, teremos um sujeito interagindo nesse meio e, em constante, transformações.
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