UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA CENTRO SOCIOECONÔMICO
DEPARTAMENTO DE SERVIÇO SOCIAL
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SERVIÇO SOCIAL
CRISTIANO MARIOTTO
QUESTÃO INDÍGENA E CAPITALISMO DEPENDENTE
Dissertação submetida ao Programa de Pós Pós-Graduação em Serviço Social da Universidade Federal de Santa Catarina para obtenção do grau de Mestre em Serviço Social. Orientadora: Profª. Drª Beatriz Augusto de Paiva
FLORIANÓPOLIS 2014
CRISTIANO MARIOTTO
QUESTÃO INDÍGENA E CAPITALISMO DEPENDENTE
Esta Dissertação foi julgada adequada para obtenção do Título de “Mestre em Serviço Social”, e aprovada em sua forma final pelo Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da Universidade Federal de Santa Catarina (PPGSS/UFSC).
Florianópolis, 28 de fevereiro de 2014.
____________________________________________ Profª Drª Helenara Silveira Fagundes
Coordenadora do PPGSS/UFSC Banca Examinadora:
____________________________________________ Profª. Drª Beatriz Augusto de Paiva - Orientadora
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) ____________________________________________
Profª Drª Simone Sobral Sampaio Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) ____________________________________________
Profª Drª Maria Dorothea Post Darella Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) ____________________________________________
Profº Drº Ricardo Lara
Dedicado a Antonia Aparecida Miano.
Dando-me educação, deu-me as
AGRADECIMENTOS
Agradeço as companheiras de copo e cruz: Beatriz Paiva, Simone Sobral, Marjori Machado, Tamires Vigolo, Hilda Maciel, Carolina Rodrigues, Olegna Guedes, Thaís Tatu, Lucia Helena, Elaine Tavares, Elisa Jorge, Eunice Antunes, Luciana Azevedo, Monica Ervolino, Maria Cecilia, Aline de Andrade, Silvia Conceição, Vanda Pinedo e em especial para minha esposa camarada Jennifer D. Ewing.
Nhamandu ovare javy porã Nhamandu oare javyá porã xondaro'í, xondaria'í jajerojy'í japorai'í Ao nascer do sol, acordamos com alegria Ao cair do sol vamos para casa de reza Ficamos felizes porque podemos descansar Guerreiros e guerreiras, Dancem e cantem Cantem para que o sol venha de novo iluminar os espaços
Canto Nhãmãndú avare – Ao Nascer do Sol, do grupo Nheé Ambá. Yvy poty, yva'á/ Flores e Frutos da Terra, 2012.
RESUMO
Esta dissertação almeja apresentar uma síntese da análise de valorosos pensadores marxistas que, de diferentes maneiras, contribuem para a reflexão da questão indígena e a centralidade do problema da propriedade da terra. Embora não tenha como perspectiva o estudo etnográfico, este estudo é iluminado pela experiência empírica com os Guarani do litoral catarinense a partir do projeto de Extensão “Mitãrusu M’boépy: Petei Tape - Formação de Jovens: um Caminho”, realizado entre 2012 e 2013 por estudantes do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da Universidade Federal de Santa Catarina sob coordenação da Profª Beatriz Augusto de Paiva, que contou com o financiamento do Ministério das Comunicações. O trabalho está organizado em três sessões. A primeira busca explicar o padrão oligárquico-dependente de desenvolvimento capitalista, tendo como referência o pensamento de José Carlos Mariátegui e sua afirmação sobre o vínculo entre economia e questão indígena. Pensar a economia como âmbito de constituição da questão indígena no continente latinoamericano desde a teoria marxista da dependência exige, nas pistas de Mariátegui, refletir que a questão indígena tem suas raízes no regime de propriedade da terra. A segunda sessão buscou apresentar o padrão oligárquico-dependente de desenvolvimento capitalista, como tentativa de análise do que Mariátegui afirma: a questão indígena nasce de nossa economia. Essa explicação tem sentido como estudo de mestrado porque se detém de forma inovadora a esse esforço de tomar a economia capitalista na sua configuração específica - como satélite periférico da economia capitalista mundial - cujas contradições intensificam o antagonismo entre capital e trabalho, vez que se impõem por sobre povos e nações já e especialmente detentores de um sistema de territorialização distinto e conflitante com o que funda a sociedade burguesa, baseada na propriedade privada da terra. A terceira sessão pretende, a partir dos elementos identificados como estruturantes na organização da expropriação da terra comunal apontados na primeira sessão, analisar as particularidades do sistema jurídico brasileiro com relação aos povos originários, tendo como contraponto a experiência empírica citada acima. De maneira breve, pudemos concluir que a luta pela homologação das terras indígenas é expressão dos séculos de expropriação, preconceito e violento genocídio e que os aparatos jurídicos normativos criados por não indígenas que regem a sociedade,
organizam o Estado, estabelecem direitos e deveres para todos, inclusive para os indígenas que se concentram no Estado, não emanaram deles, e por isso, no caso Guarani, não há o reconhecimento do Estado como autoridade.
Palavras-chave: Capitalismo dependente. Questão indígena. Questão agrária.
ABSTRACT
This thesis presents an analytic overview of preeminent Marxist theoreticians who have contributed to reflections on indigenous issues and on the centrality of problems relating to land ownership. While this study does not adopt an ethnographic perspective, it is informed by empirical experience with the Guarani of the Santa Catarina coast in the context of the project “Mitãrusu M’boépy: Petei Tape (Educating youth: a path),” which was carried out from 2012 to 2013 by students in the Graduate Department of Social Work at the Federal University of Santa Catarina and supervised by Professor Beatriz Augusto de Paiva; the project was funded by the Brazilian Ministry of Communication. This thesis is divided into three sections. The first focuses on explaining the oligarchic-dependent pattern of capitalist development and employs the ideas of José Carlos Mariátegui, as well as his confirmation of the relationship between the economy and the 'indigenous question.' According to Mariátegui, in order to view the economy as a part of the indigenous question in Latin America according to the Marxist theory of dependency, we must first remember that the root of indigenous issues lies in the system of land ownership. The second section presents the oligarchic-dependent pattern of capitalist development as described by Mariátegui: indigenous issues are born from our economy. This explanation makes sense in the context of a Masters thesis because its specific configuration is uniquely able to take on the capitalist economy—as a peripheral satellite of the world capitalist economy— whose contradictions only serve to further highlight the antagonism between capital and work. Said contradictions are imposed on peoples and nations that who have their own systems involving distinct territories, which conflict with that which forms the base of bourgeois society, which itself is based on land ownership. The third section presents an analysis of the peculiarities in the Brazilian justice system as relating to indigenous issues and begins with the identification of structural elements that are implicated in organizing the expropriation of communal land; the empirical experiences from the aforementioned project are included as a counterpoint. The author concludes, then, that the struggle for the ratification of indigenous land is an expression of centuries of expropriation, prejudice, and genocide; moreover, the normative juridical devices created by non-indigenous individuals— ones which govern society, organize the State, and establish rights and
duties that apply to indigenous persons within the State—do not originate from indigenous sources. Therefore, in the case of the Guarani people, the State is not recognized as an authority.
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 18 2 A QUESTÃO INDÍGENA NASCE DA NOSSA ECONOMIA ... 32 3 AS RAÍZES DA QUESTÃO INDÍGENA E O REGIME DE PROPRIEDADE DA TERRA ... 54 CONSIDERAÇÕES FINAIS... 76 REFERÊNCIAS ... 82
18 1 INTRODUÇÃO
A Questão Indígena, aqui entendida como os problemas enfrentados pelos povos pré-colombianos na América, está associada ao advento do capitalismo em sua acumulação primitiva, afinal, todo o processo de invasão e guerra para a conquista e a consequente subjugação dos povos nativos, teve o financiamento de bancos e Estados Reinos, ou seja, investimento dos próprios invasores.
A acumulação primitiva é o processo anterior à acumulação e à produção capitalista (MARX, 1977, p. 11). É para a economia política, nos dizeres Marxianos, como o pecado original da teologia (idem). As invasões, portanto, apresentam-se como desdobramentos desse modo incipiente de acumulação de riqueza e causam a separação radical entre o produtor e os meios de produção, a “alma” do capital e seu sistema (idem, p. 14).
Originalmente a área de interesse trazida no pré-projeto de pesquisa1 apresentado na seleção para o Programa de Pós-Graduação em Serviço Social (PGSS/UFSC) era a Questão Agrária, que provocou inclusive nossa escolha pelo estágio docência na disciplina de “Questão Agrária e Serviço Social”, ministrada pela Professora Doutora Sirlândia Shappo. Embora esta experiência acadêmica, somada à trajetória de pesquisador-militante2 nesta área, fossem fortes aspectos motivadores para o estudo da questão agrária, o transcorrer das demais atividades do mestrado acabaram por fomentar outros desafios, outras indagações, despertando novos interesses.
A nossa reelaboração do projeto de pesquisa segue o que Heinz Dieterich, sociólogo e analista político alemão que reside no México, aponta sobre o ato de pesquisar: não é como uma estrada ou um caminho linear, às vezes andamos para frente ou para trás, às vezes desviamos e/ou, se necessário, até mudamos de atividade, pois pesquisar também é aprender com fracassos e erros (DIETERICH, 1999, p. 18).
Para introduzir o estudo em tela, apresentamos algumas reflexões sobre a descoberta deste novo caminho que levou ao tema atual de
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O tema original de estudo se vinculava à trajetória de trabalho, como militante e profissional, desenvolvida anteriormente junto com os trabalhadores rurais sem terra, organizados no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST. Trabalhamos como Assistente Social na Escola Milton Santos de Agroecologia do MST, localizada em Maringá, no Paraná.
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pesquisa. A primeira parte desta rota de mudança decorre do êxito na construção de um trabalho de extensão universitária em tecnologias de informação com jovens indígenas, que direcionou para o atual tema de pesquisa.
Este projeto foi decorrente da disputa do Edital 001/2011 lançado em setembro de 2011 pelo Ministério das Comunicações por meio da Secretaria de Inclusão Digital, em cooperação com a Secretaria Nacional da Juventude da Presidência da República, para financiamento de projetos de extensão universitária em todo o Brasil, fomentando projetos voltados à “tecnologia de informações para os jovens do meio rural, das comunidades tradicionais, quilombolas e indígenas”. O edital foi objeto de interesse de um grupo de assistentes sociais mestrandos do PGSS/UFSC (do qual somos integrantes), sob coordenação da professora Beatriz Augusto Paiva. Buscando uma proximidade que permitisse a plena execução do projeto, o grupo contatou os sujeitos beneficiários do projeto - que integram a concepção inicial do projeto - moradores de Palhoça, Santa Catarina, que vivem na Terra Indígena Guarani Morro dos Cavalos - Aldeia Tekoa Itaty ou Aldeia Morro dos Cavalos2. O projeto foi selecionado e aprovado e teve início em março de 2012. Em maio de 2013 a primeira etapa do projeto foi encerrada e, após conclusão da prestação de contas, foi contemplado com novos recursos para ser estendido à outras aldeias indígenas Guarani de Santa Catarina.
O objetivo central da primeira parte do projeto foi direcionado à formação de jovens entre 12 e 32 anos e também dos professores da Escola da Aldeia. Também foram incluídos alguns jovens da aldeia vizinha do Morro dos Cavalos, a Terra Indígena Maciambu, denominada Aldeia Pirá Rupá, situada também em Palhoça/SC.
O projeto visou contribuir para a inclusão digital dos jovens indígenas, através da realização de atividades de formação para domínio das tecnologias da informação e comunicação, respeitando as demandas e particularidades da comunidade. Como resultados imediatos, obtivemos a instalação de um centro de informática e comunicação, a formação de 32 jovens tanto em informática nível básico (modalidade
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Ver também Orivaldo Nunes Junior, INTERNETNICIDADE: Caminhos das Novas Tecnologias de Informação e Comunicação entre Povos Indígenas. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação, CED/UFSC, 2009. O autor atuou na Escola Itaty da Aldeia Morro dos Cavalos como professor de Comunicação e Informática e relatou sua experiência.
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inclusão digital), como em edição de áudio e vídeo para comunicação voltada para internet. Os jovens foram preparados para operar em diversas linguagens de comunicação digital, e para atuarem como multiplicadores das informações e produções locais.
Consideramos ser oportuno descrever esse processo para contribuir no registro público de um trabalho coletivo pioneiro, que consiste em projeto de extensão oriundo da iniciativa autônoma dos estudantes do PGSS/UFSC. Sabemos que as tarefas regulares de uma pós-graduação tendem a dificultar os esforços de projetos de extensão, ainda mais neste caso, cujo protagonismo é de sujeitos indígenas, com seu tempo e lógicas próprias.
Por outro lado, se o projeto de extensão foi construído com os sujeitos – os nativos e os mestrandos e demais pesquisadores – este estudo para dissertação de mestrado é produto da nossa reflexão individual, alimentada certamente pela rica experiência coletiva do projeto, nesse esforço político-acadêmico de conferir à ação uma simbiose com a reflexão, de forma a avançar no desafio da práxis transformadora.
Aqui cabe registrarmos o intento de expansão do processo de intervenção na realidade por meio da extensão universitária, redimensionando-o como objeto de produção de conhecimento, realizando a tarefa da indissociabilidade da extensão com o processo investigativo, especialmente quando inscritos na dinâmica social concreta cuja tarefa primordial é conhecer a realidade tendo em vista sua transformação. Na condição de membro da equipe executora da extensão mencionada, somos também sujeito político, onde a práxis revolucionária é o horizonte intelectual, acadêmico e essencialmente político. Vázquez assim sintetiza:
Em suma, a práxis se apresenta como uma atividade material, transformadora e adequada a fins. Fora dela, fica a atividade teórica que não se materializa na medida em que é atividade espiritual pura. Mas, por outro lado, não há práxis como atividade puramente material, isto é, sem a produção de fins e de conhecimentos que caracteriza a atividade teórica. Isso significa que o problema de determinar o que é a práxis requer delimitar mais profundamente as relações entre teoria e prática [...]. (VÁZQUEZ, 2007, p. 237).
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Alcançar uma práxis política, alimentada pela reflexão teórica, é assim a nossa intenção.
Cabe aqui desdobrarmos a ação coletiva de extensão em inspiração para a pesquisa teórica, para daí extrairmos o conteúdo para a reflexão necessária à produção da dissertação de mestrado. Este percurso não foi simples. Antes de oferecer um material empírico, o projeto de extensão é fonte de reflexão, mas num patamar que não se vale de qualquer produto eticamente demarcado. Não faremos uso de relatos, depoimentos ou dados do projeto. Não tivemos esta intenção. A construção do processo de pesquisa com a comunidade é grande, mas é empreitada para muitos anos, nada que se possa alcançar em meses, nem tanto pela relação de confiança com os Guarani, mas sobretudo porque são equivocadamente considerados vulneráveis pela legislação da ética na pesquisa com seres humanos, ampliando os requisitos e rigores para além do exequível nesse pequeno tempo da titulação do mestrado.
Desde o início do projeto de extensão na Aldeia Guarani Morro dos Cavalos, foi possível vivenciar muitas experiências inéditas, especialmente para pesquisadores Assistentes Sociais, responsáveis por um projeto de inclusão digital. A riqueza da experiência elevou nossa inquietação política e intelectual, produzindo a necessidade e o desejo em mudar de tema, de maneira que naturalmente os estudos derivados da extensão e da convivência com os Guarani pudessem fornecer o espírito por detrás do tema central da investigação a ser desenvolvida.
Sabemos que, em se tratando de um estudo científico, independente de qualquer peculiaridade, o rigor do método investigativo - com específico roteiro de pesquisa, elaboração de problema, marco teórico, formulação de hipóteses - é essencial para que as ditas hipóteses possam ser corroboradas, desde adequada fundamentação em método que subsidie as análises, a defesa e apresentação de considerações e resultados (DIETERICH, 1999). Todavia, precisamos advertir que o estudo aqui proposto, iluminado pela experiência da extensão desenvolvida numa comunidade indígena, não teve como perspectiva o estudo etnográfico. O tema de estudo parte desta experiência, mas retrocede em termos de objeto para a demarcação da sua questão fundante no campo das categorias teóricas utilizadas também na área de conhecimento do Serviço Social, no âmbito das Ciências Sociais Aplicadas.
Se a motivação teórica possui estas convicções, há outros elementos a considerar. Parte do que uniu a equipe de assistentes sociais
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para desenvolver uma extensão em tecnologias da informação no Serviço Social voltada para juventude indígena não foi o conhecimento sobre Tecnologia de Informação ou sobre a Questão Indígena, que afinal é tratada teoricamente aqui nessa dissertação. Em parte um grande estímulo foi a amizade (que existe e é forte) com os “parentes” Guarani e também entre a equipe, que permitiu a união como grupo para desenvolver o projeto; e também foi determinante a possibilidade de alargar o horizonte do mestrado num projeto orgânico de extensão no Serviço Social, que ampliasse o papel de pós-graduandos para além das disciplinas e pesquisas durante a vigência da pós-graduação.
Por último, foi grande o interesse em contribuir para que a disputa do recurso do fundo público pudesse alcançar os que dele mais necessitam, considerando que raramente a população indígena é priorizada em projetos desta natureza, com o eixo da inclusão digital, conforme foi contemplada no objeto do certame em questão.
Como ponto de interrogação permanente, coube-nos indagar: qual o lugar do Serviço Social na reflexão sobre a atual questão indígena? Não chegamos a essa pergunta sozinhos, e para descrever como a apreendemos, cabe fazermos uma digressão da nossa experiência particular (de vida mesmo) e acadêmica. A mudança de vida a que nos referimos, esteve ligada a nossa origem indígena, da etnia Guarani, que no decorrer do Projeto fortaleceu uma identidade recíproca junto ao povo Guarani.
A vivência de ser índio e mestrando do PGSS/UFSC mudou nossa trajetória pessoal de vida, mas também nossa cosmovisão e de sujeito histórico. Foi como voltar para casa depois de muitos anos longe. Por esta razão, este trabalho buscou aporte significativo ao longo da elaboração da proposta de dissertação, seguindo as lições de José Carlos Mariátegui, pensador latino-americano que ao nos auxiliar na reflexão sobre o tema da pesquisa para além da realidade do Brasil, ensinou-nos também o quanto é indissociável o pensamento sobre a vida, pois ele constitui um único processo, onde os juízos se nutrem de ideias, sentimentos e paixões (Mariátegui, 2008).
Quando afirmamos que o trabalho inicial foi modificado no decorrer do nosso percurso empírico de vida vivida (movimento) em sua interação com a nossa concepção teórica para um bom viver coletivo (com foco na emancipação social - preocupação central), ocorreu-nos que nossa experiência particular intuitiva, para validar-se, precisava de mais fundamentos. Recorremos primeiro ao pensador socialista peruano, Mariátegui, que explorou em suas investigações a indissociabilidade do
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pensamento e da vida. Não sabemos como Mariatégui chegou a sua conclusão, contudo buscamos um pensador anterior a ele que nos ajudou a entender como o pensamento vida é parte fundante e científica para a perspectiva que adotamos. Em “Pensamentos Metafísicos”, Spinoza se vale da concepção de quimera, assim descrita:
Enfim, um ente de Razão nada mais é do que um modo de pensar que serve para que as coisas conhecidas sejam mais facilmente retidas, explicadas ou imaginadas. Deve-se notar aqui que por modo de pensar entendemos aquilo que explicamos no escólio da proposição 4 da parte I, a saber, todas as afecções do pensamento, tais como o intelecto, a alegria, a imaginação, etc. (...) Que, ademais, existam certos modos de pensar que servem para que as coisas sejam retidas mais firme e facilmente, ou para trazê-las de volta à mente quando queremos, ou para mantê-las presentes na mente, é o que pode ser constatado por aqueles que usam aquela regra bem conhecida da memória: certamente para reter e imprimir na memória uma coisa novíssima recorremos a uma outra que já nos é familiar e que concorda com a primeira realmente ou apenas pelo nome. (SPINOZA apud CHAUÍ, 1983, p.3-4).
Citamos este autor porque foi esse movimento do pensamento que mais se aproximou do esforço teórico-político que Mariátegui empreendeu, que enriquece a busca que fizemos até o momento, o ente de Razão a quimera particular, a “natureza como contradição aberta” como interpretou Marilena Chauí ao traduzir a obra do autor referido, que redefiniu o tema de pesquisa e esteve conectado com as experiências vividas nestes últimos dois anos. Mesmo correndo riscos, precisamos sinalizar que a práxis transformadora reivindicada pelo marxismo e aqui assumida se fortalece com essa dimensão intuitiva, tão essencial na cosmovisão indígena. O pensamento herético de Darcy Ribeiro, grande intelectual a inscrever e pensar os índios na formação da civilização latino-americana, nunca se furtou a revelar a impotência dos esquemas acadêmicos tradicionais. Para ele, seu estudo
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que focalizava nas relações entre etnias tribais e as frentes de expansão da sociedade nacional, não era comum:
A natureza dos fenômenos estudados nesse livro lhe emprestou um tom amargo que não procuramos disfarçar. É, ao mesmo tempo, um estudo científico que elaboramos com o maior rigor e na denúncia que fazemos conscientemente. Atende, por isso, a duas lealdades: fidelidade aos padrões de trabalho científico e um profundo vínculo humano com os índios do Brasil (RIBEIRO, 1996, p. 15).
Essas duas lealdades são exigências também dessa dissertação. Assim é que o recorte do objeto dado ao tema - a Questão Indígena - encontra aporte em outra referência, que mescla a perspectiva teórica com o lugar do indígena na sociedade de classes. Nosso método utilizado foi a teoria social crítica, no sentido de entender que a questão indígena hoje é impensável sem sua contextualização nos marcos da conquista e do projeto de dominação capitalista, constituída no âmbito da acumulação primitiva do capital. Karl Marx, ao se deter sobre o segredo da acumulação primitiva, afirma:
É sabido o grande papel desempenhado na verdadeira história pela conquista, pela escravidão, pela rapina e pelo assassinato, em suma, pela violência. Na suave economia política, o idílio reina desde os primórdios. Desde o início da humanidade, o direito e o trabalho são os únicos meios de enriquecimento, excetuando-se naturalmente o ano corrente. Na realidade, os métodos da acumulação primitiva nada têm de idílicos (MARX, 2011, p.828).
As referências categoriais foram encontradas em Mariátegui, ao estabelecer sua nova colocação sobre o problema do índio. Segundo ele, convicto da importância da crítica socialista, e para nós também desde sempre,
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Todas as teses sobre o problema indígena, que ignoram ou aludem a este como problema econômico-social, são outros tantos exercícios teóricos - e às vezes apenas verbais - condenados a um descrédito absoluto. Nem a boa fé de alguns a salvam. Praticamente todas só serviram para ocultar ou desfigurar a realidade do problema. A crítica socialista o descobre e esclarece porque busca suas causas na economia do país e não no seu mecanismo administrativo, jurídico ou eclesiástico, nem em sua dualidade ou pluralidade de raças, em suas condições culturais ou morais. A questão indígena nasce de nossa economia. Tem suas raízes no regime de propriedade da terra. (MARIÁTEGUI, 2008, p. 53)
Assim é que na sessão 2 desta dissertação, objetivamos contribuir
para o conhecimento crítico sobre a questão indígena valendo-nos do debate sobre a economia dependente, visando ao problema apontado por Mariátegui quando diz: “A questão indígena nasce de nossa economia”. Para nós, explicar a economia - que produz o problema do índio - significa adotar a perspectiva marxista de dependência:O processo supracitado, moldado por mais de três séculos nos países latino-americanos, conformou a
herança colonial, cujo legado determina a matriz
econômico-social sob a qual as nações do continente terão que se organizar no momento da chamada independência, o que vai configurar um
padrão oligárquico-dependente de desenvolvimento capitalista. A expansão do capitalismo mercantil
que inicialmente instaura nos países periféricos um processo embrionário de acumulação de capital para coadjuvar ao dos países centrais, marca, nos primeiros, o começo de um dilatado drama histórico, cujas contradições tornam-se mais complexas após a desagregação do sistema colonial. As novas sociedades latino-americanas, geradas a partir dos processos de independência, nascem baseadas na escravidão, na concentração de terras e na produção de bens primários voltados
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para o mercado externo evidenciando que a emancipação do estatuto colonial além de não significar a superação de determinantes fundamentais daquele período, manteve seu cerne e propiciou o aprofundamento de suas raízes. (PAIVA, ROCHA, CARRARO, 2011, p.153).
Explicar esse padrão oligárquico-dependente de desenvolvimento capitalista é o conteúdo da sessão 2, como tentativa de análise do que Mariátegui afirma: a questão indígena nasce de nossa economia. Essa explicação tem sentido como estudo de mestrado porque se detém de forma inovadora a esse esforço de tomar a economia capitalista na sua configuração específica - como satélite periférico da economia capitalista mundial - cujas contradições intensificam o antagonismo entre capital e trabalho, vez que se impõem por sobre povos e nações já, e especialmente, detentores de um sistema de territorialização distinto e conflitante com o que funda a sociedade burguesa, baseada na propriedade privada da terra.
Pensar a economia como âmbito de constituição da questão indígena no continente latino-americano desde a teoria marxista da dependência exige, nas pistas de Mariátegui, explicarmos também como hoje a questão indígena tem suas raízes no regime de propriedade da terra.
Eis que a partir da recuperação dos determinantes da questão indígena no âmbito do sistema capitalista e da dependência na América Latina, chegamos na sessão 3 dessa dissertação, onde lado a lado aos elementos identificados como estruturantes na organização da expropriação da terra comunal, a sociedade burguesa brasileira busca enquadrar - nos tensos limites da luta de classes - os limites por onde transitarão os conflitos decorrentes do regime de propriedade da terra, histórica e contemporaneamente. Na nossa visão, cabe, portanto, analisar as particularidades do sistema jurídico brasileiro com relação aos povos originários, tendo como contraponto a experiência partilhada com os índios por meio do projeto “Mitãrusu Mboépy: Petei Tape - Formação de Jovens: um Caminho”, como também por meio da legislação estatal.
Finalmente, é nosso dever reconhecer que esta trajetória é indissociável do processo histórico dos demais países da América Latina. Assim os estudos sobre os povos originários tiveram por esteio a visão crítica e anti-eurocêntrica encontrada nos estudos do Instituto de
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Estudos Latino-Americanos - IELA/UFSC, que forneceu os aportes fundamentais para a explicação dos elementos que conformam estes fenômenos em sua singularidade continental.
Com essa orientação teórico-política, almejamos na presente dissertação apresentar uma síntese da análise de valorosos pensadores marxistas que, de diferentes maneiras, contribuem para a reflexão da questão indígena e a centralidade do problema da propriedade da terra.
Em nossa perspectiva, refletir criticamente sobre as lutas dos Guarani hoje exige pontuar a questão concreta do roubo da sua terra pelos conquistadores e pelo processo de escravização, tornados possíveis pela potência da resistência histórica desse povo, que mesmo em parte dominado pela catequização cristã dos jesuítas, resistiu bravamente, impregnando sua existência a relações políticas e a cosmovisão.
Eduardo Galeano revelou:
É a América Latina, a região das veias abertas. Desde o descobrimento até os nossos dias, tudo se transformou em capital europeu ou, mais tarde, norte-americano, e como tal tem-se acumulado e se acumula até hoje nos distantes centros do poder. Tudo: a terra, seus frutos, e suas profundezas, ricas em minerais, os homens e sua capacidade de trabalho e de consumo, os recursos naturais e os recursos humanos. O modo de produção e a estrutura de classes de cada lugar têm sido sucessivamente determinados, de fora, por sua incorporação à engrenagem universal do capitalismo (GALEANO, 2004, p.14).
Nosso referencial teórico adotou o pressuposto de que a questão indígena é produto da dialética luta de classes que atravessa a questão da terra do Brasil, nos termos apontados por Mariátegui e que nos ajuda a pensar a vida destes “povos que tem o costume de sofrer com os dentes cerrados” (GALEANO, 2011, p. 17).
A invasão portuguesa e a economia colonial concorreram para que as leis no Império e no capitalismo pela República, como atualmente na Constituição Federal, fossem legitimadoras do saque e do genocídio.
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Sendo assim, não almejamos revelar a questão do Índio para o Serviço Social apenas enquanto uma expressão da questão social que deve ser objeto de uma política social específica, mesmo na condição de uma macropolítica pública dentro da ordem burguesa. Partimos do referencial teórico que apresenta o problema do Índio advindo do regime de propriedade da terra, que por sua vez é irmão siamês com o modo de produção capitalista. Como a pesquisa teve um claro enfoque teórico-bibliográfico, as análises foram feitas tendo como foco, principalmente os seguintes autores: Marx, Mariátegui, Ribeiro, Fernandes, Ianni, Santos, Marini, Bambirra e Vázques.
No plano mais específico, sobre a questão indígena no Brasil, contamos com as reflexões de Las Casas3, Dalari, Lugon, Antunes, Lafargue, Tavares, Gonçalves.
Entendemos que o concreto real do problema indígena é a negação ao direito à terra e refletir sobre esse problema significa - no âmbito do Serviço Social - contribuir para a investigação sobre os determinantes da política indigenista, com sua lógica política, tensões e contradições históricas, mediante o arcabouço legal institucionalizado no Brasil, cuja análise se insere na dinâmica do sistema de produção capitalista, tipicamente dependente e subordinado tal como sua concreta e singular expressão latino-americana. Ademais, este estudo ambicionou produzir conhecimento crítico sem perder de vista que este só é possível
3 Sobre Las Casas, o reconhecimento deve ser assegurado, por isso a longa apresentação: "O grande Dominicano, conhecido como máximo protetor dos índios nos primeiros momentos da conquista, foi um pensador político notavelmente moderno, o que equivale a dizer que voou mais longe e mais alto do que a maioria dos seus grandes contemporâneos da Espanha, como, por exemplo, Suáres y Vitoria. Las Casas sabia que os índios evangelizados seriam excelentes instrumentos “para conseguir o ouro”. Mas, sob a influência de Aristóteles o frade teve a audácia de incluir os índios entre os seres humanos, e de concebê-los como criaturas irremediavelmente destinadas a uma vida justa e feliz. Dom Bartolomé acreditou na igualdade essencial de todos os homens, o que no seu tempo nem sempre foi motivo de aplauso. Considerou que cada comunidade humana devia produzir a sua própria sociedade politica, e que o consenso devia fundamentar todos os seus domínios. Obviamente o Papa e o soberano da Espanha, além de ministros, cardeais , etc., não se mostraram nem um pouco entusiasmados com tais ousadias. E, como se não bastasse, Las Casas rejeitava a força como instrumento de expansão da fé. Mas quando ele se superou foi ao registrar que os reis indígenas eram de fato soberanos e os índios os únicos e verdadeiros donos da América. (POMER, Leon apud BRUIT, Héctor Hernan, 1995).
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na medida em que não subestime os conflitos sociais decorrentes da questão central do problema indígena, o problema da terra e, sobretudo, na medida em que não invisibilize o índio, em sua vida, luta e imensa sabedoria.
Como pesquisa de caráter exploratório, neste trabalho buscamos uma aproximação com categorias analíticas dos autores nomeados, instigados pelo conteúdo das disciplinas do mestrado, mas especialmente da vivência partilhada com os Mbyá-Guarani, da Tekoá Itaty de Palhoça. A nossa filiação ao pensamento de José Carlos Mariátegui - que organizou as principais reflexões – deu-se ainda pela nossa formação política junto ao Partido dos Trabalhadores e ao Movimento dos Trabalhadores Sem Terra no estado do Paraná, conforme mencionamos anteriormente.
Entendemos que o problema dos nativosé, foi e será por muito tempo a terra. A negação do direito e o roubo das terras que pertencem originariamente (consagrada, no caso do Brasil, em toda a legislação desde 1850) é o problema real dos povos indígenas. O quadro jurídico existente (a Constituição Federal de 1988 em seus artigos 231 e 232 do capítulo VII e o Decreto Presidencial 5.051 de 2004) determina que sejam respeitados os direitos dos povos originalmente viventes do Brasil, garantindo que a terra, cultura, identidade, instituições sociais, instituições políticas e sistemas jurídicos, bem como a auto-identificação, são requisitos fundantes para continuidade do ser indígena. O abismo entre o reconhecimento jurídico e as condições concretas onde se processam a luta de classes, em seu viés de dominação étnico-econômica dos indígenas e sua riqueza, constituem o cenário das reflexões aqui problematizadas.
De maneira geral, podemos afirmar que o estudo do tema “Questão Indígena” se revelou obrigatório, pela forte identidade com a luta dos povos e pela convicção teórica da sua centralidade para o projeto de emancipação social na América Latina, conforme pretendemos demonstrar nesta proposta. Esta pesquisa foi também vivida em movimento, por isso está inacabada, em movimento ininterrupto. José Carlos Mariátegui dizia que a vida e o pensamento não são separáveis (citação presente no texto “Sete Ensaios Sobre a Realidade Peruana”, considerado o primeiro trabalho na América Latina que teve como método a teoria social crítica para investigar a realidade de um tempo e um país nutridos da e pela questão indígena). O autor marxista assim escreveu: “Meu pensamento e minha vida constituem uma única coisa, um único processo [...] Nenhum deles está acabado: e
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não estarão enquanto eu viva e pense e tenha algo que acrescentar ao que tenha escrito, vivido e pensado” (MARIÁTEGUI, 2008, p. 31- 32).
Nosso reconhecimento ao mestrado no PPGSS que permitiu esta caminhada. Este registro por tudo que possui de verdadeiro tem também uma relação conflitante com o tempo e espaço acadêmicos. Havemos de enfrentar esta contradição, apresentando esse produto do conhecimento alcançado, imperfeito e inacabado, mas aberto ao debate, de forma que ele se fortaleça junto com a luta dos Guarani, imersa na doçura e no seu pacifismo, como Darcy Ribeiro diz:
Outro povo indígena que convivi foram os Guarani da mesma região, que contrastam de modo flagrante com os Kaduwéu. Em lugar do orgulho tribal, exibiam uma humildade impressionante. Viviam tão maltrapilhos e submissos que levei tempos para começar a ver, debaixo daquela pobreza exibida, a intensa vida espiritual que eles cultivavam. Tendo convertido os mitos da criação em mitos de anunciação do fim do mundo, eles pedem continuamente ao Grande Tigre Azul Deus-Pai, que voa sobre os céus, que baixe, para acabar com a vida:
‘Estamos exaustos’ dizem. ‘A Terra está cansada de comer cadáveres. Ponha um fim’.
Os Guarani são a consciência viva da desgraça que a civilização desencadeou sobre os índios. Liderados por seus pajés eles estão migrando há mais de um século rumo ao mar, à procura da ‘Terra sem Males’ [...]. (RIBEIRO, 2010, P. 39).
Esperamos que esse estudo seja uma justa retribuição de todo o rendizado que os Mbyá-Guarani, da Tekoá Itaty de Palhoça,têm dado a toda a equipe do projeto de extensão referido, e a nós pessoalmente como parente reconhecido.
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2 A QUESTÃO INDÍGENA NASCE DA NOSSA ECONOMIA O objetivo desta sessão é contribuir para o conhecimento sobre a questão indígena no âmbito do debate da economia e da relação com a propriedade da terra, por isso nos referenciamos nos estudos de Mariátegui e sua perspectiva crítica e socialista ao modelo econômico que afirma a negação aos nativos daquilo que é seu bem vital: a terra.
A terra é vida, a vida vem da terra e a vida volta para terra, segundo os nativos.
Em uma raça com o costume e almas agrárias, como a raça indígena, esse despojo foi a causa de uma dissolução material e moral. A terra sempre foi toda a alegria do índio. O índio desposou a terra. Sente que ‘a vida vem da terra’ e volta à terra. Finalmente, o índio pode ser indiferente a tudo, menos à posse da terra que suas mãos e seu alento lavraram e fecundaram religiosamente (MARIÁTEGUI, 2008, p. 63).
Mariátegui é o precursor do estudo do problema indígena como problema da terra e da crítica socialista ao problema da terra. É ele quem realiza o primeiro estudo marxista latino-americano sobre a questão indígena, por isso vamos recorrer muito ao autor4. Sua demarcação será, como dissemos, a referência central.
Um autor que antecede em muito tempo Mariátegui que, contudo, vai influenciar o autor peruano é um religioso. Os nativos na época da guerra de conquista contaram com um defensor de grande peso, o Frei Bartolomé de Las Casas, que teve grande influência nos estudos dos autores que buscamos para fundamentar nossa opinião. Las Casas foi um doutrinador de nativos que convencido também por um religioso, o dominicano Antonio Montesinos, assumiu como missão impedir o massacre dos indígenas por parte dos conquistadores. Resultou da
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Sua inscrição no pensamento latino-americano é decisiva: “Mariátegui é não somente o mais importante e inventivo dos marxistas latino-americanos, mas também um pensador cuja obra, por sua força e originalidade, tem um significado universal. Seu marxismo herético tem profundas afinidades com alguns grandes pensadores do marxismo oriental: Gramsci, Lukács e Walter Benjamim.” (LÖWY, Michael, 2005, p7).
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intervenção de Montesinos a primeira lei que não foi aplicada, mas que assegurava direitos aos nativos, a Lei dos Burgos de 1512. Esta lei foi a primeira a questionar a posse da América pelos Espanhóis. A partir dessa lei (nunca implementada) é que Las Casas trabalhou para impedir a matança física dos nativos.
A matança física aconteceu de muitas formas, pela pólvora, pelas doenças, pela escravidão, mas não só. Entendemos que o domínio da terra pelos colonizadores não foi objeto de nenhuma lei específica ou movimento, a invasão e a conquista ocorreram por pura expropriação. E por ser a terra a alma dos nativos o seu roubo significava e significa morte também. O legado de Las Casas não fica menor por isso, na sua biografia nada desabona a sua intervenção para defesa dos povos nativos, segundo consta em estudo que recorremos. A produção intelectual de Las Casas (cartas, memoriais e livros) sempre objetivaram a liberdade dos nativos. Na Espanha do tempo de Las Casas, “não poucos consideraram-no louco ou hipócrita” (BRUIT, 1995, p. 63).
É de conhecimento científico que a afirmativa sobre a “preguiça do índio” é deturpação proposital dos escravistas daquele tempo. No Peru o regime escravista chamava de Mita o trabalho não pago ao indígena (MARIÁTEGUI, 2008), tal era a desfaçatez dos escravistas que a Mita do índio era um direito passível de ser herdado por espólio, ou seja, era um bem, uma coisa em si.
Ainda hoje escutamos que a vinda dos negros escravos para o Brasil teve a ver com a preguiça dos índios e falta de vontade para trabalhar. O autor espanhol, Gonzalo Fernández de Oviedo, inimigo dos nativos, registrou suas impressões sobre os povos que aqui habitavam, pensamento que era bastante disseminado na época:
[...] as pessoas desta região são naturalmente tão inúteis, corruptas, de pouco trabalho, melancólicas, covardes, sujas, de má condição, mentirosa, sem constância e firmeza que vários índios, por prazer e passatempo, deixaram-se morrer com veneno para não trabalhar. Outros se enforcaram pelas próprias mãos. E quanto aos outros, tais doenças os atingiram que em pouco tempo morreram...Quanto a mim, eu acreditaria antes que Nosso senhor permitiu, devido aos grandes, enormes e abomináveis pecados dessas pessoas selvagens, rústicas e animalescas, que fossem eliminadas e banidas da superfície
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terrestre (OVIEDO apud LAS CASAS, 1984, p. 22).
Oviedo, juntamente com Las Casas, eram os antagonistas formadores de opinião durante o Brasil Colônia, mas foram as suas ideias que compuseram as leis e nortearam durante quase 200 anos a ação sistemática dos colonizadores. Na sua opinião extremada, pôde assegurar “com certeza e sem medo de errar que os espanhóis jamais tiveram uma guerra justa contra os índios senão que eram todas provocadas “pela ganância, luxúria e cegueira desses cruéis conquistadores”. Não só os massacres, mas também a terra roubada e usurpada, o trabalho estafante e obrigatório ao quais os indígenas eram forçados indignavam profundamente (BUENO, 1984, p.18).
Nobre selvagem ou cão imundo? A primeira investigação sobre a questão dos índios elegeu essa pergunta a ser respondida. Como haveria de ser diferente? De fato, pelo modo que começou a primeira discussão sobre a questão dos índios da América espanhola, o escravismo era o resultado esperado. Para confirmar isso, cabe uma pequena digressão. Enquanto Oviedo pregava a preguiça do índio, em 1517 concebeu-se um grupo para conhecer a realidade dos índios. O grupo foi criado tendo em vista os memoriais escritos por Barlomé de las Casas denunciando o que ocorria com os índios nas mãos dos conquistadores/invasores. A partir das denúncias foi constituído um tribunal, o Interrogatório Jeronímico, que tinha a incumbência de entrevistar os indígenas e decidir se eles podiam viver por si, como camponeses, se eram nobres selvagens ou cães imundos. Os membros do tribunal concluíram “que os índios não tinham condições de viver livres e confinou grande parte deles em vilas ou reduções, onde, vítimas de varíola, a maioria sucumbiu poucos meses mais tarde”. Ou seja, foram considerados ‘cães imundos’, caberia dizimá-los. Essa foi a primeira grande decepção de Las Casas (BUENO, Eduardo, 1984, p.21).
Os invasores espanhois iniciaram uma guerra, matando todos que não aceitavam um Rei (desconhecido pelos povos indígenas), um Papa (líder de uma religião desconhecida também) e as ordens (leis reais), que obrigavam os índios a receber a fé cristã. Foi Las Casas5, o opositor
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Eduardo Bueno, redator da apresentação sobre Las Casas, que introduz o livro
Brevíssima Relação da Destruição das Índias – O Paraíso Destruído – A sangrenta história da conquista da América espanhola descreve a tese do Frei
espanhol assim: “Sua tese era simples, direta: para ele, como para Miguel de Montaigne, a América era ‘a mais bela e rica parte do mundo uma
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da tese da servidão natural do índio, tese defendida por Juan Gines de Sepulveda6 ao qual Las Casas derrotou em 1542 durante a reforma das leis conhecidas como encomiendas, levada a cabo por Francisco de Vitória. A reforma reconheceu os índios como verdadeiros donos das terras e reinos da América.
A história da América esteve ligada ao desenvolvimento das ordens sociais do velho continente, seus modelos de posições sociais, conflitos e etc. Assumimos que nossa história teve o curso alterado após a invasão e a mesma alteração se deu na história dos invasores, já que daqui foram saqueados minérios, madeiras, alimentos, tudo com a força de trabalho escravizada. Diferentemente do desenvolvimento do capitalismo nos países centrais, aqui não teve salário, teve escravidão; aqui teve a substituição da “exploração encoberta com ilusões políticas e religiosas” pela “exploração seca, direta, despudorada, aberta” (MARX, 1987, p.37), aqui foi assalto seguido de morte. A sociedade burguesa alterou não apenas a história da América, mas também a história da África, das Índias e da China.
O descobrimento da América e a circum-navegação de África, criaram um novo campo de ação para a burguesia em ascensão. O mercado das Índias orientais e da China, a colonização da América, a troca com as colônias, a multiplicação dos meios de permuta e das mercadorias em geral deram ao comércio, à navegação e à indústria um impulso nunca até então conhecido, e, com ele, um rápido desenvolvimento ao elemento revolucionário na sociedade feudal em desintegração (MARX, 1987, p.35)
Entretanto, este impulso para o desenvolvimento do capitalismo industrial também gerou um paradoxo. De acordo com Otávio Ianni:
Estes são os elementos do paradoxo: o mesmo processo de acumulação primitiva, que na Inglaterra estava criando algumas condições
reminiscência do paraíso terrestre, e os índios, seus habitantes, seres humanos inteligentes, audazes e belos’.
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Juan Gines de Sepúlveda foi teólogo e defensor da guerra justa contra os índios das Américas, principal rival de Las Casas.
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histórico-estruturais básicas para a formação do capitalismo industrial, produzia no Novo Mundo a escravatura, aberta ou disfarçada. Foi o capital comercial que comandou a consolidação e a generalização do trabalho compulsório no Novo Mundo. Toda formação social escravista dessa área estava vinculada, de maneira determinante, ao comércio de prata, ouro, fumo, açúcar, algodão e outros produtos coloniais. Esses fenômenos, protegidos pela ação do Estado e combinados com os progressos da divisão do trabalho social e da tecnologia, constituíram, em conjunto, as condições da transição para o modo capitalista de produção. Assim, para compreender em que medida o mercantilismo ‘prepara’ o capitalismo, é necessário que a análise se detenha nos desenvolvimentos das forças produtivas e das relações de produção. Mas para compreender esses desenvolvimentos é preciso situá-los no âmbito das transformações estruturais englobadas na categoria acumulação primitiva. Nesse sentido é que a acumulação expressa as condições históricas da transição para o capitalismo. Foi esse o contexto histórico no qual se criou o trabalhador livre, na Europa, e o trabalhador escravo, no Novo Mundo. Sob esse aspecto, pois, o escravo, negro ou mulato, índio ou mestiço, esteve na origem do operário (IANNI, 1978, p. 4-6).
Por que recorremos à Teoria da Dependência para compreendermos a questão indígena? Porque ela permite compreender o processo de desenvolvimento de países centrais a custas do não desenvolvimento de outros. As categorias de análise da Teoria Marxista da Dependência nos permitem estudar o destino trágico da América Latina numa perspectiva totalizante, mas não contrabandeada, por modelos importados e impróprios. Pois, a nossa história é ditada pela lógica econômica do subdesenvolvimento, onde para a América Latina deve bastar somente a condição periférica e acessória, no interior do desenvolvimento do capitalismo mundial. Na nossa leitura sobre a questão indígena a resposta também poderia ser: por que é a teoria que busca compreender como uma emancipação de uma sociedade se dá de forma que não impeça outras emancipações. Também utilizamos na
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construção da nossa resposta uma dose de intuição, oriunda da experiência empírica já citada. Marini assim nos fala:
A história do subdesenvolvimento latino-americano é a história do desenvolvimento do sistema capitalista mundial. Seu estudo é indispensável para quem deseja compreender a situação que este sistema enfrenta atualmente e as perspectivas que a ele se abrem. Inversamente, apenas a compreensão segura da evolução da economia capitalista mundial e dos mecanismos que a caracterizam proporciona o marco adequado para situar e analisar a problemática da América Latina.
As simplificações nas quais, por sua limitação natural, este trabalho possa incorrer não devem fazer o leitor esquecer esta premissa fundamental (MARINI, 2012, p. 47).
A categoria dependência pode ser trabalhada pelo ponto de vista de dois autores brasileiros que buscaram analisar cientificamente a situação econômica da América Latina: Ruy Mauro Marini e Vânia Bambirra. Ambos buscam situar e analisar o desenvolvimento econômico da América Latina como parte da evolução do capitalismo mundial desde as suas origens (expansão mercantilista europeia no século XVI) até os dias atuais. Além deles também destacamos o autor Teotônio dos Santos, para estudar como se encontrava o desenvolvimento social dos países da América Latina nas décadas de 1960 e 1970 e ir além da sua análise apenas como constatação e posterior justificativa do modelo de desenvolvimento vigente. Esses autores buscaram criar e definir novas categorias analítico-explicativas para compreender como a estrutura mundial do capitalismo, o movimento dele de crise e expansão, exige obrigatoriamente territórios a serem continuamente expropriados, seja pela transferência das riquezas naturais, seja pela cobrança direta de empréstimos, pelo endividamento contínuo e sistemático.
O movimento de expansão definitiva do capitalismo industrial e a plena integração da América Latina no mercado mundial (ainda no século XIX) é, segundo os autores, o gerador do subdesenvolvimento econômico do continente e desde aí deve ser estudado, ou seja, para
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compreender o subdesenvolvimento do nosso continente é necessário investigar o processo de formação do sistema capitalista internacional.
A exploração escravista das colônias foi o meio que mais contribuiu para o aumento e acumulação de capital entre os países da Europa durante os séculos XVI e XVIII (IANNI, 1978, p.3). Dentre as metrópoles a Inglaterra foi a que mais acumulou riquezas, impondo aos portugueses e aos espanhóis um modelo de comércio que favoreceu os lucros dos ingleses.
Todos eram escravos nas colônias? Não necessariamente, mas o fato era que sob o manto estatal o escravismo era generalizado. Segundo Ianni (Idem, p.11), nas colônias onde predominavam indígenas, o trabalho obrigatório oscilava entre um escravismo aberto e organizado e o trabalho compulsório latente (como nas Reduções Jesuítas). Estas eram missões de catequeses que se estabeleciam em um território povoado por nativos onde se buscava catequizar (doutrina cristã) aplicando educação, trabalho e religião de inspiração católica jesuíta. A tradução literal do latim da palavra Redução quer dizer conduzir e, no século XVII e XVIII, Reduções Jesuítas tiveram muita importância na guerra entre os portugueses e os espanhóis pelo domínio territorial convencionados pelo Tratado de Tordesilhas e foram alvo de cobiça de caçadores de escravos, sobretudo os Paulistas, ou Bandeirantes. A experiência dos jesuítas para catequizar os nativos se dava na capacidade de reunião dos grupos pequenos dispersos e agrupar em grandes aldeias para “conduzirem à fé cristã (...) os Guaranis amantes da música e das artes, aprendiam com facilidade os ofícios que os jesuítas lhe ensinavam” (DALCIM, 2012, p.12).
É fato que nosso capitalismo possui a base escravocrata, inicialmente escravizando indígenas e, quase concomitantemente ao extermínio dos indígenas, vieram os negros, modelo de exploração este que manteve vigência legal no Brasil até a abolição da escravatura em 1888. A abolição, entretanto, não significou que o trabalho livre por assalariamento chegasse aos ex-escravos, pois muitos que trabalhavam na lavoura foram substituídos por imigrantes (Idem, p.25).
O que representou a conquista para a consolidação das condições básicas do capitalismo incipiente? A resposta que temos em Ianni foi encontrada em Marx, que afirma que as origens do capitalismo industrial estão diretamente vinculadas ao escravismo e à extração dos minérios da terra, que produziu o acúmulo primitivo necessário para a industrialização capitalista.
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O descobrimento das regiões auríferas e argentíferas da América; a redução dos indígenas à escravidão; seu internamento nas minas ou sua exterminação; o começo da conquista e da pilhagem nas Índias orientais, a transformação da África em uma espécie de coelheira comercial para a caça aos negros, eis ai os processos idílicos da acumulação primitiva que assinalam a era capitalista em sua aurora (MARX, 1977, p.94).
Segundo Marx, a acumulação primitiva do capital no momento de sua origem possibilitou para Portugal e Espanha uma variedade de métodos de acumulação:
Os diferentes métodos de acumulação primitiva que a era capitalista faz nascer são repartidos em primeiro lugar, em ordem mais ou menos cronológica, em Portugal, Espanha, Holanda, França e Inglaterra, até que esta última as combina todas no último terço do século XVII, em um conjunto sistemático, abrangendo ao mesmo tempo o regime colonial, o crédito público, a finança moderna e o sistema protecionistas. Alguns destes métodos apoiam-se no emprego de força bruta, mas todos sem exceção exploram o poder do Estado, a força concentrada e organizada da sociedade, a fim de precipitar violentamente a passagem da ordem econômica capitalista e abreviar as fases de transição. E, com efeito, a força é a parteira de toda a velha sociedade nas dores do parto. A força é um agente econômico. (MARX, 1987, p.94-95)
Os fundamentos históricos tomados em análise, os argumentos utilizados e as medidas prognosticadas no Manifesto Comunista (MARX, 1987) são referências científicas indubitáveis para os trabalhadores, operários e comunistas até hoje. Os países que possuem maior desenvolvimento econômico e social e que tem um proletariado organizado, revolucionário e detentor do poder político conquistado, mantida as diferenças naturais de cada país, devem aplicar uma série de
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ações, que revolucionariam o modo de produção burguês. Não vamos citar nenhuma das medidas, vamos somente dizer que no tempo de redação do Manifesto Comunista a questão dos habitantes das colônias (escravos, nativos, nativos escravizados e senhores) não foi levada em consideração. Citada em Paiva e Ouriques (2006, p. 170) cabe recuperar essa passagem de Marx (2002, p.138-9) quanto à questão da propriedade burguesa:
A propriedade privada material, imediatamente perceptível, é a expressão material e sensível da vida humana alienada. O seu movimento – a produção e o consumo – é a manifestação sensível do movimento de toda a produção anterior, quer dizer a realização ou realidade do homem. A religião, a família, o Estado, o Direito, a moral, a ciência, a arte, etc., constituem apenas modos particulares da produção e submetem-se à sua lei geral. A eliminação positiva da propriedade privada, tal como apropriação da vida humana, constitui, portanto, a eliminação positiva de toda a alienação [...] à sua existência humana, ou seja,
social (MARX, 2002, p.138-9).
A questão indígena, tomada aqui como decorrente do problema da Terra, reposiciona o debate sobre o socialismo (PAIVA, OURIQUES, 2006, p. 170). Estamos de acordo sobre a impossibilidade de se modificar, para índios e não-índios, o estatuto de propriedade e da organização dos meios de produção sobre o princípio da propriedade socializada, por meio das medidas reformistas; o que não invalida a luta política no âmbito da institucionalidade burguesa, mas exige sua demarcação firme nos termos da ideologia revolucionária.
Acreditamos que os países avançados citados no Manifesto Comunista são os colonizadores (em sua maioria) e que não existe como aferir quais medidas seriam tomadas caso a revolução comunista tivesse acontecido. Arriscamos dizer que abolir a propriedade privada burguesa, abolir a herança, abolir o latifúndio e uma educação pública para todos ainda é revolucionário e necessário para resolver parte da questão indígena no Brasil.
O ponto mais elevado das contribuições que o Manifesto traz para os dias de hoje e para o problema indígena continua sendo a propriedade.
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Em todos estes movimentos põem em relevo a questão da propriedade, seja qual for a forma mais ou menos desenvolvida que ela possa ter assumido, como a questão fundamental do movimento (MARX, 1987, p.70).
A situação fundiária ainda segue como o ponto fora da curva na política nacional de demarcação de terra. Hoje - sem qualquer movimento de ruptura - a força dos proprietários de latifúndios de monocultura ou improdutivos, a indústria de extração de madeira e de minérios são os principais inimigos da demarcação de Terras Indígenas e, por conseguinte, da Reforma Agrária (DAVIS, 1978; MARTINS, 1981).
Nesse ponto, somos levados a buscar subsídios na discussão da questão agrária em Ruy Mauro Marini. Para ele a luta do latifúndio contra a indústria expressa a disputa intercapitalista no Brasil e na América Latina como um todo, desde a evolução econômica e as contradições a antagonismos de classe desencadeados pela história da política brasileira no tocante a nossa industrialização e modelo agroexportador, que vigorou até o suicídio de Vargas em 1954. Coloca-nos Marini:
O Brasil, com seus 90 milhões de habitantes e uma economia industrialmente diversificada, é uma realidade social complexa, cuja dinâmica, ainda que condicionada e limitada pelo marco internacional em que se insere, contorna as interpretações unilaterais. Sem uma análise da problemática brasileira, das relações de força existentes ali entre os grupos políticos, das contradições de classe que se desenvolviam em base a uma configuração econômica dada, não se compreenderá a mudança política que experimentou a partir de 1964. Pior do que isto, não se poderá relacionar esse desenvolvimento político com a realidade econômico social que se encontra em sua base, nem estimar as perspectivas prováveis de sua evolução. Perspectivas que, afinal de contas, não se referem apenas ao Brasil,
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mas a toda a América Latina (MARINI, 2000, p.12).
Marini é um analista de um tema que busca criticar o processo metodológico do marxismo vulgar herdado da II Internacional e III Internacional e seu determinismo econômico. Em Dialética do desenvolvimento capitalista no Brasil, Marini discute que, ao explicar um fenômeno político não deve ser analisado apenas um elemento isolado, além do fato de se resumir a fatores exógenos: “é decididamente ruim se tomar como chave, justamente, a um fator que o condiciona de fora” (Idem, 2000, p.11), especificamente tomando por base as análises da esquerda brasileira sobre o golpe militar, reduzindo ele a uma intervenção estadunidense apenas. Marini também leva a intervenção como elemento que influencia nossas questões internas, principalmente a necessidade de a burguesia se apropriar do que não consegue expropriar totalmente do trabalhador, e que encontra no Estado brasileiro um acessório da dominação para os capitalistas estadunidenses, vez que é necessário tal capitalização para cativar um mercado grandioso como o latino-americano, liquidando a competição intra-capitalista, mantendo, portanto, a margem de lucro extraordinária desse modelo de desenvolvimento.
O fato de que a burguesia brasileira, finalmente, aceitou o papel de sócio menor em sua aliança com os capitais estrangeiros e decidiu intensificar a capitalização, rebaixando ainda mais o nível de vida popular e concentrando em suas mãos o capital disperso na pequena e média burguesia, tem serias implicações políticas. Para amplos setores da esquerda, o atual regime militar representa o fracasso de uma classe – a burguesia nacional – e de uma política – o reformismo. Colocada assim em termos radicalmente antiburgueses, a luta popular tende a contornar as soluções legais e a conduz à luta armada, é evidente que a concretização dessa tendência depende da evolução da crise em que se debate a economia brasileira (Ibidem, 2000, p.47/48).
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A participação do capital estrangeiro era e é ainda o ponto a ser destacado na análise de Marini para pensar a estrutura econômica nacional. Sabemos que o total de investimentos e financiamentos de origem externa chega a bilhões de dólares ano a ano - pressionado o valor da moeda demais - o que indica um reforço considerável da posição dos estrangeiros na economia brasileira. As formas específicas que assume esse reforço podem ser imaginadas se observamos que quase a totalidade dessa soma se destinou às atividades de infra-estrutura e à indústria leve e pesada e que grande parte de difícil estimação. Esses capitais vieram associados a empresas nacionais, das quais, procedendo assim, se aproveitaram da facilidade criada pela Instrução 113 para a importação de equipamentos sem cobertura cambial.
É natural, portanto, que, em virtude do crescimento da intervenção do fator externo na economia e dos laços que o mecanismo da associação estabeleceu entre esse setor e o nacional, os grupos econômicos internacionais viram crescer sua influência na sociedade política brasileira. Outra consequência terá a ampliação na intervenção do setor externo e será sua repercussão sobre as relações existentes entre o setor industrial e o agroexportador. Efetivamente, a deterioração da situação econômica deste último, que já observamos, não correspondeu à depreciação de sua força política. Isto não foi apensa devido à firme posição que ocupava na estrutura política, nem ao domínio que exercia sobre a massa camponesa, decisivo no jogo eleitoral, mas também devido à dependência em que se encontrava ainda a indústria em relação à exportação, fonte de divisas para suas importações, dependência que a extensão do setor externo veio acentuar (Ibidem, 2000, p.21).
A questão agrária, como Marini entendeu, derivou da transferência (solidariedade mútua) do setor agroexportador para o industrial mediado pelo capital estrangeiro investido na indústria (Ibidem, 2000, p22) via fixação mecânica dos preços e armazenamento do café para manter o nível de precificação internacional deste produto (Ibidem, 2000, p.22). E no mesmo movimento de subsídios, implicou no intercâmbio entre os produtos agrícolas e industriais, não proporcionado uma transferência de renda urbana para agricultura em geral, mas também, particularmente, uma forte transferência para agricultura que produz para o mercado interno (Ibidem, 2000, p.22)
Essa estrutura, que deixa nas mãos de menos de 26% dos proprietários mais da metade das terras, enquanto em 10% destas mantém-se 75% da população ativa rural em condições de muito baixa