P5_TA(2003)0413
Acesso aos documentos do Parlamento Europeu, do Conselho e da Comissão
Resolução do Parlamento Europeu sobre o acesso do público aos documentos doParlamento Europeu, do Conselho e da Comissão (aplicação do Regulamento (CE) nº 1049/2001 no ano 2002) (2003/2022(INI))
O Parlamento Europeu,
- Tendo em conta o relatório da Comissão sobre a aplicação em 2002 do Regulamento (CE) n° 1049/2001 do Parlamento Europeu e do Conselho relativo ao acesso do público aos documentos do Parlamento Europeu, do Conselho e da Comissão (COM(2003) 216); o relatório anual do Conselho sobre a aplicação do Regulamento n.° 1049/2001 do
Parlamento Europeu e do Conselho, de 30 de Maio de 2001, relativo ao acesso do público aos documentos do Parlamento Europeu, do Conselho e da Comissão1; e as informações facultadas pela Mesa do Parlamento na sua análise da aplicação, no Parlamento, no ano de 2002, do Regulamento (CE) nº 1049/2001 do Parlamento Europeu e do Conselho relativo ao acesso do público aos documentos do Parlamento Europeu, do Conselho e da Comissão, em conformidade com o artigo 17° do Regulamento CE n° 1049/2001,2
- Tendo em conta o artigo 255° do Tratado CE, o Regulamento (CE) nº 1049/2001 e outras disposições aprovadas e/ou em vias de aprovação a fim de garantir o direito de acesso dos cidadãos aos documentos das instituições e das agências,
- Tendo em conta as medidas práticas tomadas pelas instituições e agências em 2002 para tornar efectivo o exercício do direito de acesso,
- Tendo em conta o trabalho desenvolvido em 2002 pelo comité interinstitucional estabelecido em aplicação do artigo 15° do Regulamento (CE) nº 1049/2001,
- Tendo em conta a entrada em funcionamento dos registos das instituições e o seu impacto na organização do trabalho no seio destas instituições e entre elas,
- Tendo em conta as medidas tomadas até agora para obter uma visão coerente e
interinstitucional do trabalho legislativo e para dar seguimento aos pedidos formulados pelo PE aquando da aprovação do orçamento de 2002,
- Tendo em conta as medidas tomadas pelas instituições em 2002 para assegurar a prestação de informações aos cidadãos,
- Tendo em conta os litígios e/ou acções intentadas junto do Provedor de Justiça e nos tribunais comunitários, bem como as decisões e recomendações emanadas destes órgãos, - Tendo em conta, em particular, o processo T-84/03 (Maurizio Turco contra o Conselho da
1 7957/2003.
2 PE 324.892/BUR, disponível em
União Europeia), pendente no Tribunal de Primeira Instância, sobre o acesso aos pareceres jurídicos e à identificação das posições das delegações nacionais no seio do Conselho durante o processo de tomada de decisões,
- Tendo em conta a sua Resolução de 14 de Março de 2002 sobre a aplicação do Regulamento (CE) nº 1049/2001 pela Comissão, pelo Conselho e pelo Parlamento Europeu (acesso aos documentos)1,
- Tendo em conta o n° 7 do artigo 172° e o n° 1 do artigo 47° do seu Regimento,
- Tendo em conta o relatório da Comissão das Liberdades e dos Direitos dos Cidadãos, da Justiça e dos Assuntos Internos e o parecer da Comissão dos Assuntos Constitucionais (A5-0298/2003),
Em geral, no que respeita à política de transparência
1. Reitera a sua determinação em promover a efectiva transparência das actividades da União a fim de reforçar o princípio da democracia, que é um dos princípios em que a União se baseia (nº 1 do artigo 6° do Tratado UE);
2. Congratula-se com o projecto de texto da Constituição, que confirma o direito de acesso aos documentos, alarga a obrigação de transparência a todas as instituições, agências e órgãos, incluindo os artigos 41° e 42° da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, relativos ao acesso aos documentos, e abre o processo legislativo ao público, particularmente no que diz respeito ao Conselho;
No que diz respeito às medidas tomadas e a tomar com base no Regulamento (CE) nº 1049/2001
3. Felicita as instituições – e as pessoas que nelas trabalham – pelos progressos até agora alcançados e, ao mesmo tempo, encoraja-as a prosseguir o seu trabalho; manifesta a sua satisfação pelo aumento considerável do número de documentos que estão a ser colocados à disposição dos cidadãos, nomeadamente pelo Conselho, mas observa que, se se
tornarem acessíveis centenas de milhares de documentos, têm de ser criados instrumentos apropriados para assegurar a melhor resposta possível aos pedidos dos cidadãos,
nomeadamente quando digam respeito ao acompanhamento dos trabalhos legislativos preparatórios2;
4. Considera que a situação é ainda insatisfatória relativamente:
– ao Conselho Europeu, que não autoriza o acesso total aos documentos em debate se não tiverem sido previamente discutidos no Conselho de Ministros;
– à Convenção Europeia, que não se considera obrigada a aplicar os princípios estabelecidos no Regulamento (CE) nº 1049/2001;
1 JO C 47 E de 27.2.2003, p. 483.
– ao Conselho e à Comissão, que não autorizam o acesso directo aos actos
preparatórios da legislação secundária (por exemplo, as propostas apresentadas aos comités que assistem a Comissão e as propostas de medidas de execução
apresentadas ao COREPER);
– ao Conselho, que não permite a identificação das posições das várias delegações nacionais aquando do processo de tomada de decisões: a supressão desta
informação, que é essencial para a supervisão das posições dos governos nacionais, é contrária ao espírito e à letra do Regulamento (CE) nº 1049/2001, que permite excepções baseadas no conteúdo de um documento (n° 7 do artigo 4°), mas não na actividade das delegações nacionais quando actuam como componentes do
Conselho; é também contraditória porque as iniciativas dos Estados-Membros, que também se destinam a alterar legislação, são tornadas públicas;
– ao Conselho, que parece recusar sistematicamente os pedidos de documentos relativos à segurança pública, o que poderá ser contrário ao espírito e à letra do Regulamento; reafirma que todos os pedidos de documentos devem ser apreciados caso a caso,
– ao Parlamento Europeu, ao Conselho e à Comissão, que parecem recusar
sistematicamente todos os pedidos de pareceres jurídicos, o que também poderá ser contrário ao espírito e à letra do Regulamento (CE) nº 1049/2001; neste contexto, e na sequência da entrada em vigor do Tratado de Nice, que confere ao Parlamento Europeu o direito geral de recurso, solicita à Comissão dos Assuntos Jurídicos e do Mercado Interno que discuta a participação do Parlamento Europeu no processo T-84/03 para defender esta posição;
– ao Conselho: lamenta a utilização de uma classificação de "limitado" ou "restrito" e, consequentemente, declara que tais documentos não podem ser registados como documentos sensíveis, já que a sua classificação é "TRÈS SECRET/TOP
SECRET", "SECRET" E "CONFIDENTIEL";
– ao Conselho, que recebeu uma quantidade desconhecida de documentos sensíveis e que elaborou 173 documentos sensíveis que não foram inscritos no registo, e à Comissão, que elaborou e recebeu uma quantidade desconhecida de documentos sensíveis que não foram inscritos em qualquer registo;
– ao Conselho, que deixou de gravar certas reuniões para não ter de fornecer as gravações, se solicitadas; deseja conhecer as razões ligadas a questões de boa administração que justificam a não gravação de reuniões à porta fechada, ou se esta medida deve ser considerada uma forma de contornar os objectivos definidos no segundo parágrafo do artigo 1º do TUE (princípio da abertura), no artigo 255º do TCE e no Regulamento (CE) nº 1049/2001;
– ao Conselho e à Comissão, que deveriam dar acesso directo aos documentos com mais frequência;
– à Comissão, que, como razão de recusa em 38 % dos casos, invocou "várias excepções/excepção não especificada"; considera esta atitude inaceitável;
– à Comissão, que interpreta o Regulamento de modo discutível quando recusa sistematicamente aos cidadãos o acesso à correspondência procedente dos Estados-Membros no âmbito dos processos por infracção, após a conclusão ou suspensão desses processos; a Comissão deveria, pelo contrário, efectuar uma avaliação autónoma nesse domínio, seguindo o princípio da presunção de
acessibilidade; recorda à Comissão que os pedidos de acesso a documentos devem ser apreciados caso a caso;
– à Comissão, que não criou um registo electrónico único, mas que, de facto, tem vários; lembra que era intenção do Regulamento (CE) nº 1049/2001 que as instituições criassem um registo;
– a todas as instituições, que parecem ter problemas com o funcionamento dos registos; solicita que sejam feitos mais esforços para os melhorar, e também para ajudar os cidadãos a apresentarem os pedidos de documentos, incluindo o reforço da cooperação interinstitucional nesta matéria, a fim de se proceder ao intercâmbio das melhores práticas, e que seja estudada a ideia de criar um serviço de apoio interinstitucional, especialmente para responder a pedidos não especificados de documentos; solicita que os cidadãos sejam mais bem informados acerca do seu direito de acesso aos documentos;
– aos relatórios anuais, que, no futuro, deveriam ser elaborados segundo uma metodologia comum às várias instituições;
exorta as instituições acima referidas a tomarem medidas urgentes no que respeita à aplicação do Regulamento e a garantirem a plena transparência e o direito de acesso aos documentos por parte dos cidadãos;
5. Convida as outras instituições, agências e órgãos a aplicarem o Regulamento (CE) nº 1049/2001; congratula-se com o facto de terem sido finalmente aprovados os actos jurídicos que prevêem a aplicação do referido Regulamento por parte das agências comunitárias;
6. Insta o Parlamento e os seus serviços a aplicarem normas do máximo rigor no que
respeita à transparência; insta, em particular, os secretariados das comissões a garantirem a inserção de informação actualizada acerca dos seus trabalhos nos seus sítios na Internet, e a funcionarem com total transparência;
7. Saúda as medidas tomadas nas instituições para a reorganização do processo de codificação, produção, arquivo e distribuição de documentos, tornando possível identificar os autores, o tipo de documentos e outras informações necessárias para o rastreio dos documentos em cada instituição; observa contudo que, a nível
interinstitucional, continua por fazer quase tudo e que, apesar dos recursos investidos desde 1987 no quadro dos programas INSIS e IDA, as instituições ainda não
estabeleceram:
– um sistema geral de codificação interinstitucional, tanto para os tipos de
documentos como para os processos de decisão em que se inscrevem (incluindo os procedimentos nos quais o PE não participa);
– programas comuns para a redacção de textos que permitam a sua reutilização pela instituição destinatária e/ou, se necessário, a sua publicação no Jornal Oficial (como já acontece com os documentos orçamentais);
– uma lista comum das organizações que intervêm no processo legislativo (comissões parlamentares, COREPER e comités previstos no artigo 36°);
– excepto no caso das comissões parlamentares, uma ligação directa entre as ordens do dia do Conselho e da Comissão e os documentos para uma dada reunião; 8. Recorda que um ulterior passo importante para garantir a transparência e o acesso aos
documentos por parte dos cidadãos é a transmissão em rede dos documentos audiovisuais relativos aos principais momentos institucionais, à semelhança do que está a ser feito pelo Parlamento com um projecto-piloto no que respeita às sessões plenárias, e, futuramente, às reuniões das comissões e outras reuniões; solicita que esses documentos possam também ser recuperados posteriormente, e que estejam acessíveis através dos registos e dos motores de pesquisa;
9. Solicita aos Secretários-Gerais das instituições que o informem, antes de 1 de Março de 2004, sobre:
– as regras e técnicas actualmente seguidas para a produção, classificação, gestão e distribuição dos documentos, tanto dentro como fora de cada instituição,
– a natureza e o alcance dos projectos já financiados, desde o programa INSIS até aos Programas IDA (I e II), o seu sucesso e as dificuldades encontradas,
– as medidas tomadas ou a tomar para a criação de um verdadeiro espaço de trabalho comum, nomeadamente entre as instituições e os orgãos que participam no processo interinstitucional de tomada de decisões previsto pelos tratados;
10. Recorda que o Regulamento (CE) nº 1049/2001 exige a publicação no Jornal Oficial dos principais actos preparatórios (propostas da Comissão, posições do Parlamento, posições comuns do Conselho, etc.), a fim de permitir um acesso não discriminatório dos cidadãos e dos parlamentos nacionais; observa, contudo, que a prática seguida actualmente pelas instituições é muito díspar1 e consequentemente sugere:
– a criação, no âmbito do Jornal Oficial, de uma edição electrónica específica para a publicação na Internet dos principais textos aprovados nas e pelas instituições durante o processo legislativo; a publicação no "sítio" interinstitucional teria lugar ao mesmo tempo que a inscrição do documento em questão no registo, o que poderia servir para fixar inequivocamente o dia em que começa o período de consulta dos parlamentos nacionais;
1 A Comissão não publica as suas propostas no Jornal Oficial desde Abril de 2003, enquanto as
posições do Parlamento e as posições comuns do Conselho, durante vários anos, só foram publicadas na versão electrónica da Série C do Jornal Oficial. O Conselho continua a publicar as iniciativas dos Estados-Membros (terceiro pilar) na versão em papel do Jornal Oficial. Os textos comuns produzidos no fim do processo de conciliação nunca são publicados.
– a inclusão, nesta edição electrónica específica de acompanhamento dos
procedimentos legislativos interinstitucionais, de dados factuais e analíticos como, por exemplo, os dados de acontecimentos relevantes e os resumos de textos, já incluídos nas suas bases de dados legislativas, como a Prelex ou o Observatório Legislativo, para permitir que os cidadãos compreendam e acompanhem melhor o processo de tomada de decisões, como se refere na sua Resolução de 19 de
Dezembro de 2002 sobre o Projecto de Orçamento Geral da União Europeia para o exercício de 2003, alterado pelo Conselho (todas as secções), e sobre as cartas rectificativas nºs 2/2003 e 3/2003 ao Projecto de Orçamento Geral da União Europeia para o exercício de 20031;
11. Insiste junto do Conselho e da Comissão, num espírito de cooperação leal entre as instituições, para que concedam, pelo menos aos membros do Parlamento Europeu, o acesso sistemático aos documentos ligados ao processo legislativo cuja distribuição é LIMITE e a que os cidadãos não tenham acesso directo nos termos do Regulamento (CE) nº 1049/2001;
12. Declara-se disposto a fornecer toda a colaboração exigida pelos parlamentos nacionais, e convida os interessados nos parlamentos nacionais a criarem, através da Internet, uma “ágora” virtual dos legisladores europeus canalizada para o acompanhamento dos processos legislativos da União; propõe, como primeiro domínio para esse tipo de exercício, o acompanhamento dos procedimentos ligados ao desenvolvimento do espaço de liberdade, de segurança e de justiça, tal como definido no artigo 2º do TUE;
13. Congratula-se com o acordo político alcançado pelo Conselho, em 21 de Julho de 2003, sobre a proposta alterada de um Regulamento do Conselho que altera o Regulamento (CEE, Euratom) nº 354/83 relativo à abertura ao público dos arquivos históricos da Comunidade Económica Europeia e da Comunidade Europeia da Energia Atómica (COM(2003) 244), tal como previsto no artigo 18º do Regulamento (CE) nº 1049/2001; 14. Insta os serviços de registo das instituições a informarem os cidadãos, após uma recusa
parcial ou total do acesso a um documento, do seu direito de se queixarem ao Provedor de Justiça Europeu, nomeadamente dando-lhes o endereço da página Internet do Provedor de Justiça Europeu;
15. Convida a Comissão a incluir as propostas feitas na presente resolução no seu relatório sobre a revisão do Regulamento; convida, além disso, a Comissão a verificar previamente e a apresentar propostas no que respeita aos seguintes elementos:
– a preparação prévia de um relatório especial do Provedor de Justiça Europeu sobre a aplicação do artigo 4º do Regulamento;
– o reforço da cooperação interinstitucional ;
– a alteração do artigo 12° do Regulamento com vista à criação de um registo
interinstitucional no caso de procedimentos que envolvam mais de uma instituição;
– a clarificação do Regulamento (CE) nº 1049/2001 para evitar diferentes interpretações pelas diversas instituições (pareceres jurídicos, posições das delegações nacionais e outras questões mencionadas no n° 4, etc.), incluindo definições do emprego de certos conceitos como "interesse público";
– o estabelecimento de um conjunto de regras sobre o tratamento de documentos confidenciais, colocando todas as instituições em pé de igualdade em termos de reciprocidade do acesso;
– arquivo;
16. Considera que o Conselho distingue entre os documentos transmitidos pelos Estados-Membros na qualidade de membros do Conselho e os documentos dos Estados-Estados-Membros enquanto Estados a título individual; entende que os cidadãos devem dispor dos mesmos direitos ou de direitos análogos, tanto em relação à União como ao seu próprio Estado-Membro, se estiverem em causa competências europeias; exorta a Comissão a apresentar uma proposta a este respeito;
o o o
17. Encarrega o seu Presidente de transmitir a presente resolução a todas as instituições, agências e órgãos da União Europeia.