Acadêmica: Anny Carolinny Silveira Vieira Machado
Trabalho de Conclusão de Curso I
Unisul - Arquitetura e Urbanismo
Orientadora: Prof. Arq. Michelle Souza Benedet, Msc.
Trabalho de Conclusão de Curso - Fundamentação e Projeto,
apresentado ao curso de Arquitetura e Urbanismo da
Universidade do Sul de Santa Catarina, campus Tubarão, como
requisito parcial à obtenção do título de Bacharel em Arquitetura
e Urbanismo.
PENITENCIÁRIA FEMININA EM LAGUNA - SC: O TRABALHO E A EDUCAÇÃO COMO FORMA DE DIGNIFICAR E
RESSOCIALIZAR MULHERES APENADAS
Orientadora: Prof. Arq. Michelle Souza Benedet, Msc.
Tubarão
2018
Tubarão, julho de 2018
Prof. Arq. Michelle Souza Benedet. Msc.
Orientadora
Professor Avaliador 01
Professor Avaliador 02
ACADÊMICA
Nome: Anny Carolinny Silveira Vieira Machado
Endereço: Estrada Geral Estreito, Laguna, SC.
Telefone: (48) 3647-6316/ 98844-9974
Matrícula: 61660
E-mail: [email protected]
ORIENTADOR (A)
Nome: Arq. Michelle Souza Benedet. Msc.
E-mail: [email protected]
TÍTULO DO TRABALHO
Penitenciária Feminina em Laguna SC: O trabalho
e a educação como forma de dignificar e
iluminar o meu caminho sempre.
Agradeço a minha mãe, meu exemplo de vida e de bom coração, por me ensinar o que é ser uma mulher de coragem e força. Pelos inúmeros dias em que me esperou chegar da faculdade e sempre aguentou minhas tensões nas semanas de provas ou entrega de projetos.
Ao meu pai por sua força e garra e por investir no meu sonho, por estar sempre pronto para me ajudar no que for preciso, inclusive por me acompanhar em uma das visitas.
Ao meu avó Antônio (in memorian) por ter me ensinado muito do que sou hoje e por sempre depositar sua confiança em mim.
Ao meu namorado pela paciência e por sempre me incentivar e muitas vezes acreditar em mim quando eu mesmo não acreditava.
As minhas colegas de faculdade, Camila, Francine, Joice, Karine e Valéria, hoje amigas que levarei para a vida, por tornarem tudo mais divertido e por saber que sempre teríamos com quem contar, mesmo de longe.
A minha orientadora, Michelle Benedet, a qual sempre admirei por sua dedicação e amor à profissão inigualáveis. Não imagino-me escolhendo outra pessoa para orientar algo tão importante para mim.
A todos os meus colegas e amigos, por entenderem minha ausência; meu sogro, por ter me acompanhado na visita ao terreno; familiares, em especial à tia Léia, Radina e tio Rudinei e professores, que sempre me incentivaram, ajudaram e/ou apoiaram esse sonho; a Arco A Arquitetura, pela oportunidade do primeiro estágio e a arquiteta Sofia por sempre me ajudar com as entregas de projeto, inclusive esta. Serei eternamente grata a todos!
DEDICATÓRIA
cometer crimes, assim como existem classificações quanto a sua gravidade. Nada disso serve como justificativa e, para isto, existem as leis que determinam a pena privativa de liberdade.
. O fato para qual pretende-se chamar atenção no decorrer desde trabalho, é que a prisão quando recebe essas pessoas pode ser usada para transformá-las, se oferecer tratamento adequado e possibilitar condições humanitárias e ressocializadoras, ou, pode ser usada para torná-los indivíduos que sairão dela ainda mais perigosos do que quando entraram.
Com foco especial nas penitenciárias e principalmente nas que atendem as mulheres, buscou-se mostrar como é o sistema prisional feminino atual, e as dificuldades que possuem. Estas, não são ruins apenas para as apenadas, mas também geram problemas na administração e principalmente na segurança do local. Propondo-se um modelo de construção que possibilite a ordem e a segurança, mas que também seja visto como um modelo de ressocialização, que busca preparar e reeducar as detentas para uma posterior volta à sociedade, através do trabalho e da educação como principais formas de alcançar o êxito.
Este Trabalho de Conclusão de Curso tem como objetivo desenvolver toda a fundamentação teórica para o assunto e a partir disso projetar uma penitenciária feminina, no município de Laguna, Santa Catarina, com base nesse modelo ressocializador.
Palavras-chave: Penitenciária Feminina, Direitos Humanos, Ressocialização.
there are classifications of their gravity. None of this works as justification and for this, there are laws that determine the custodial sentence of an individual after being found guilty of a particular situation.
The fact for calling attention in this final paper is about when the prison receives these people, it can also be used to transform them, by offering appropriate and humanitarian treatment and resocialization conditions, or it can used for turning them up in worse and dangerous individuals. With a special focus in female penitentiaries, that has closed and/or semi-open system for people already convicted, it will be also shown how currently is the female prison system and the difficulties it has.
All of the difficulties are really bad for the inmates and most of the time cause problems to the administration and to the local security. So it is proposed a project of construction that permit order and safety who will be sight as a new model of resocialization and will help the inmates to go back to the social life, specially through the work and education as main forms to achieve success.
The goal of this final paper is developing all the theoretical basis for this resocialization model and then to project a female penitentiary in the city of Laguna, Santa Catarina.
1.2 OBJETIVOS GERAIS...07
1.2.1 Objetivos Específicos ...07
1.3 METODOLOGIA ...07
2. REFERENCIAL TEÓRICO...09
2.1 DIREITOS HUMANOS X DIREITO PENITENCIÁRIO ...09
2.1.1 Direitos Humanos ...09
2.1.2 Regras de Mandela ...10
2.1.3 Direito Penitenciário ...11
2.1.4 Lei de Execução Penal ...12
2.2 RESSOCIALIZAÇÃO ...13
2.2.1 Educação e Trabalho ...15
2.3 PENITENCIÁRIAS E PRESÍDIOS ...15
2.3.1 Principais modelos penitenciários ...16
2.3.1.1 Modelo Panóptico...16
2.3.1.2 Modelo Filadélfia ou Pensilvânia ...16
2.3.1.3 Modelo Aurbuniano ...16
2.3.2 Sistema Prisional Catarinense...17
2.3.3 Encarceramento Feminino e Humanização das Edificações ...17
2.3.4 Critérios Elaboração de Projeto Arquitetônico Penitenciário...18
2.3.5 Conclusão ...20
3. REFERENCIAIS PROJETUAIS...21
3.1 PRISÃO FEMININA OOIIO ARCHITECTURE ...21
3.1.2 Acessos e circulações...21
3.1.3 Volume/massa ...21
3.1.4 Estrutura e técnicas construtivas ...21
3.1.5 Partido ...22
3.1.6 Justificativa da escolha ...22
3.2 APAC DE CONTAGEM - MINAS GERAIS ...23
3.2.1 Acessos ...23
3.2.2 Circulações ...23
3.2.3 Volume/massa, ordem de ideias ...24
3.2.4 Estrutura e Técnicas Construtivas ...24
3.2.5 Conforto Ambiental ...25
3.2.6 Zoneamento funcional/definição de espaços ...25
3.2.7 Relações com o entorno ...26
3.3.1 Acessos e circulações ...28
3.3.2 Volume/massa ...29
3.3.3 Zoneamento funcional/definição de espaços ...29
3.3.4 Conforto ambiental...30
3.3.5 Estrutura e técnicas construtivas ...30
3.3.6 Técnica WALKTHOROUG ...31 3.3.7 Conclusão ...32 4. ANÁLISE DA ÁREA ...33 4.1 LOCALIZAÇÃO E ACESSOS ...33 4.2 HISTÓRICO DA CIDADE ...33 4.3 ESCOLHA DO TERRENO ...34 4.4 ANÁLISE BIOCLIMÁTICA ...35 4.5 LEGISLAÇÃO ...36 4.6 GABARITOS ...37 4.7 CHEIOS E VAZIOS ...37 4.8 PÚBLICO X PRIVADO ...37 4.9 USO DO SOLO ...38 4.10 TRANSPORTE PÚBLICO ...38 4.11 SISTEMA VIÁRIO ...38 4.12 EQUIPAMENTOS URBANOS ...39 4.13 SÍNTESE DA ÁREA ...39 4. PARTIDO...40 5.1 CONCEITO ...40 5.2 PROGRAMA DE NECESSIDADES ...40
5.3 DIRETRIZES PROJETUAIS E ZONEAMENTO FUNCIONAL ...42
5.4 IMPLANTAÇÃO ...43
5.5 DEFINIÇÃO DE ESPAÇOS ...44
5.6 FLUXOS ...45
5.7 CORTES ESQUEMÁTICOS ...45
5.8 ESTUDOS VOLUMÉTRICOS...46
5.9 MATERIAIS E TÉCNICAS CONSTRUTIVAS...47
5.10 CONSIDERAÇÕES FINAIS ...47
5. REFERÊNCIAS...48
06
Segundo o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias – Infopen/2016, realizado pelo DEPEN (Departamento Penitenciário Nacional) juntamente com o Ministério da Justiça, a população carcerária no Brasil era de 726.712, até a data de estudo, e o número de vagas era de 368.049, chegando-se a um déficit de vagas de 358.663. Ficando Santa Catarina em oitavo lugar no gráfico de população prisional do Brasil, com 21.472 detentos, onde o número de vagas do estado só chegava a 13.870. Só em Santa Catarina o número de mulheres privadas de liberdade era de 1.506.
A maioria dos presídios ou penitenciárias foi construída destinada a receber homens, o que significa que quando mulheres condenadas são enviadas para estes estabelecimentos, não tem suas necessidades atendidas corretamente. A superlotação das penitenciárias gera situações de desgaste e descontrole tanto para os funcionários quanto para os detidos.
O objetivo da prisão é privar de liberdade os condenados pelos crimes cometidos, sem que sejam tratados em condições desumanas ou sob pena de tortura, assegurados pela Constituição Brasileira (1988). Além disso, a Lei de execução Penal – LEP (1984), assegura ao apenado o direito a um tratamento digno, sem sofrer violência física ou moral, garantindo ainda ser de responsabilidade do Estado a assistência ao preso, com objetivo de prevenir o crime e orientá-lo no retorno à convivência em sociedade.
Para garantir a segurança dentro dos estabelecimentos, o tratamento humanitário, e orientar o retorno à sociedade, é preciso que as edificações sejam pensadas para isso, e não apenas como uma construção fria e sóbria, cercada por muros e arames, para onde são enviadas pessoas em um número muito maior do que o lugar deveria suportar. O resultado disso tudo, com certeza não será a reinserção na sociedade como pessoas melhores, capazes de contribuir
positivamente para os que conviverão com o mesmo, e sim o aumento da reincidência nas prisões.
É preciso resolver o quanto antes o problema da superlotação e da falta de infraestrutura correta para atender essas mulheres, muitas vezes mães de famílias, que acabam ficando longe de seus filhos devido à falta de condições de recebê-los nesses locais. Em Santa Catarina, há projetos para a implantação de quatro novas unidades penitenciárias. Uma das opções principais era a cidade de Laguna, que atualmente conta com uma Unidade Prisional Avançada, também superlotada, que abriga presos não só da região de Laguna, e não apresenta opções para detentas que são enviadas às cidades de Tubarão ou Criciúma. A implantação da nova unidade, ao contrário do que pensam muitos moradores, traz benefícios para o município, pois possibilita a instalação de novas indústrias, que podem oferecer serviços às detentas, e para moradores em geral, além de incentivos fiscais e com isso o crescimento em outros setores.
Acreditamos que a arquitetura é capaz de transformar o estado de espírito das pessoas e as emoções, assim como acalmá-las, ou agitá-las ainda mais. Com este trabalho, buscaremos não pensar em julgá-los, e sim em ajudá-los, a partir de fundamentos que possibilitem um projeto arquitetônico que contribua para isso, criando espaços destinados ao trabalho, ao convívio, à educação e à ressocialização das mulheres condenadas.
1.1 PROBLEMÁTICA/JUSTIFICATIVA
A superlotação das penitenciárias e/ou presídios é algo que há muito tempo vem sendo discutido. Com ela surgem também outros problemas para os detentos, que muitas vezes tem que ficar em condições desumanas, em celas onde não há
ventilação, nem insolação, com um número de pessoas muito maior do que o planejado. O funcionamento dos presídios então torna-se cada vez mais difícil, tanto para os presos como para os funcionários, sendo uma tarefa árdua manter a ordem.
Essa falta de estrutura muitas vezes é o que acaba gerando rebeliões entre os presos. No caso das mulheres a questão é ainda pior, pois além destes problemas rotineiros, ainda enfrentam o fato de não terem lugares adequados para receber seus filhos, ou mesmo amamentar, quando recém-nascidos. Em diversos casos, encontramos mulheres nos mesmos locais que os homens, ou em presídios destinados só para mulheres, mas sem diferença alguma das edificações masculinas. Segundo a definição Quintino (2005) “a mulher é um “não-homem” e a prisão feminina também será um espaço masculino, quando muito adaptado às necessidades femininas.”
Situações que acabam gerando uma sensação de descaso e abandono, pois, por vezes, perdem o contato com suas famílias devido à impossibilidade do convívio e de visitar o local. É importante levar em consideração, que a qualidade do ambiente prisional contribui diretamente no comportamento dos detentos, podendo tanto recuperá-lo quanto torná-lo ainda pior. Por isso a necessidade de construir lugares adequados que estimulem a mudança de pensamento e comportamento, voltados à educação, à vida em sociedade e ao mercado de trabalho.
1.2 OBJETIVOS GERAIS
Desenvolver o anteprojeto arquitetônico de uma penitenciária feminina que será implantada no município de Laguna, região Sul de Santa Catarina, com ênfase em criar espaços de trabalho, educação e que contribuam
na reinserção social.
1.2.1 Objetivos Específicos
a) Analisar o sistema penitenciário brasileiro, com foco nos estabelecimentos femininos, para entender os pontos positivos e os que necessitam de mais atenção; b) Conhecer os modelos penitenciários históricos, bem como as construções desde o início das formas de prisão;
c) Conhecer a Lei de Execução Penal e os direitos humanos para compreender os direitos e deveres dos presos e do Estado;
d) Utilizar estratégias projetuais que cumpram com as necessidades das detentas, dando-lhes condições adequadas e mais humanas para sobrevivência durante o período de reclusão;
e) Desenvolver um modelo de penitenciária voltada para o trabalho, o convívio social e a ressocialização, como formas para diminuir a reincidência;
f) Analisar referências em busca soluções bem-sucedidas para aplicar ao projeto, assim como, soluções más sucedidas, para garantir que não venham a se repetir.
1.3 METODOLOGIA
A metodologia adotada está dividida nas seguintes etapas:
· Pesquisas bibliográficas, em teses e leis, em busca do maior conhecimento possível sobre o tema, para entender como tem sido até hoje o sistema prisional.
· Análise de referenciais projetuais e teóricos e análise de seu funcionamento, sistema estrutural, fluxos, modelos ressocializadores e métodos de trabalho.
· Visitas a alguns estabelecimentos prisionais, realizando conversas com pessoas que
convivem no local para entender seu devido funcionamento, além de conhecer as acomodações e o estabelecimento em geral.
· Reconhecimento e análise da área, levantamento fotográfico, condições climáticas, legislação e infraestrutura existente.
· Com ênfase em todas as pesquisas e visitas, a elaboração do partido arquitetônico servirá para a elaboração do anteprojeto que será realizado posteriormente, no TCC Projeto.
Neste capítulo serão apresentados alguns dos temas estudados através de livros, sites da internet e legislações, para o melhor entendimento do assunto, que deram embasamento para o desenvolvimento do tema.
1.1 DIREITOS HUMANOS X DIREITO PENITENCIÁRIOS
O direito penitenciário, juntamente com outras regras e leis, forma um conjunto de normas correspondentes à execução das penas e medidas de segurança. Todas estas têm pontos comuns entre si e garantem sempre a dignidade humana independente da privação de liberdade, garantindo assim o cumprimento dos Direitos Humanos, que é a base para todas estas.
1.1.1 Direitos Humanos
Os direitos humanos são um conjunto de regras da Organização das Nações Unidas (ONU) que garante que todos os seres humanos, independentemente de qualquer particularidade, tenham os mesmos direitos. Garantindo assim a liberdade e uma vida digna, impedindo inclusive que qualquer ação governamental os interrompa. São direitos humanos básicos: direito à vida, à liberdade de expressão, de opinião e de religião, direito à saúde, à educação e ao trabalho. Ainda segundo a ONU, nenhum ser humano pode ser privado de seus direitos, porém, por vezes estes podem ter limitações, como o direito à liberdade, quando o indivíduo comete um crime e perante julgamento é condenado à pena privativa de liberdade.
Um grande erro é pensar que junto com o recolhimento deste direito,
recolhem-se todos os outros, como se a partir do momento da sentença o condenado deixasse de ser humano. No entanto, uma privação não está ligada à outra, continuando o indivíduo a ter seus direitos, como afirma Miotto (1992, p. 178):
[...] os presos – provisórios e condenados – tem direitos, continuam tendo direitos, humanos, fundamentais, como também adquiridos. [...] com efeito, os presos têm direitos, mas tem deveres, igualmente, coisa que costuma ser esquecida por certos apressados. A autora (Ibid, 1992) também ressalta as questões dos direitos fundamentais, que são específicos de cada país, e os adquiridos, aqueles que vão sendo somados no decorrer da vida do cidadão, conforme certas atividades, como por exemplo o direito à aposentadoria após ter trabalhado os determinados anos necessários. No Brasil, os direitos fundamentais e adquiridos são garantidos pela Constituição Federal de 1988.
Entre os séculos XVIII e XIX o tratamento da pena para com os condenados era muito diferente se comparado aos dias atuais, Foucault (1987) em seu livro Vigiar e Punir narra um ato punitivo de suplício, onde eram realizadas sessões que hoje seriam classificadas como tortura com o condenado, cortando seus membros e jogando seu corpo à fogueira. Não muito distante, podemos ver nos livros de histórias grandes personalidades que tiveram condenação como essa, ainda segundo o autor, chamado de o grande espetáculo da punição física. Os direitos humanos são base para que ações como esta não aconteçam mais e o que os presos não sejam tratados como um simples elemento, como afirma Miotto (1992, p. 54):
O preso não é um mero indivíduo, e muito menos elemento... Ele é uma pessoa; sente necessidade de ser reconhecido e tratado como tal; sente necessidade de receber atenção dos outros, como qualquer pessoa sente, como qualquer um de nós sente.
As regras da ONU para os Direitos humanos são base para outras regras
criadas posteriormente, como veremos a seguir, que garantem o cumprimento específico dela perante o âmbito penal, para evitar que existam interpretações errôneas e que as mesmas não sejam distorcidas. A arquitetura penitenciária deve trabalhar ainda para garantir sua adequação.
1.1.2 Regras de Mandela
No ano de 2015, a ONU lançou em uma assembléia geral as Regras Mínimas para o Tratamento de Reclusos, denominada também de Regras de Mandela,
[...] em homenagem ao legado do falecido Presidente da África do Sul, Nelson Rolihlahla Mandela, que passou 27 anos encarcerado como parte de sua luta pelos direitos humanos, por igualdade, democracia e promoção de uma cultura de paz em nível mundial. (CONVENÇÃO DE PREVENÇÃO DO CRIME E JUSTIÇA PENAL, 2015.)
Destinadas a garantir que os condenados tenham seus direitos mantidos e sejam tratados como seres humanos que são e com a devida dignidade, e a reafirmar a crença nos direitos humanos, o Conselho Econômico e Social das Nações Unidas, com integrantes de diversos países, instituiu um conjunto de regras, com base nas Regras originalmente formuladas em 1955 para o tratamento dos presos. Busca-se, em geral, um método de pena humanitário, diferente das sessões de tortura e humilhação que já permearam um dia no sistema prisional. O(A) condenado(a), quando privado(a) de sua liberdade, já enfrenta questões psicológicas próprias, não sendo necessários tratamentos torturantes psicologicamente como tentativa de melhorá-lo. A 3ª regra exemplifica isso:
Regra 3: A prisão e outras medidas que resultem na separação de
retirar dessa pessoa seu direito à autodeterminação, ao privá-lade sua liberdade. Por isso, excetuadas as medidas de separação jus ficadas e as que sejam necessárias para a manutenção da disciplina, o sistema penitenciário não deverá agravar os sofrimentos inerentes a essa situação. (REGRAS DE MANDELA, 2015)
As regras buscam também diminuir a reincidência, garantir o contato com os familiares, garantir a dignidade dos detentos, em questões simples, como serem chamados pelo seu nome sem o uso de apelidos, bem como a separação por categorias. Evidenciando que, sempre que possível, as mulheres sejam recolhidas em estabelecimentos distintos aos homens, e quando no mesmo estabelecimento que eles sejam separados por pavilhões totalmente separados. Ainda, a separação dos que aguardam julgamento e dos condenados e de acordo com a idade, jovens e adultos.
Ainda no que se refere aos estabelecimentos femininos, a 28ª regra prevê instalações especiais para o tratamento das presas grávidas, bem como durante o parto e imediatamente após o mesmo. Garantindo ainda que se faça o possível para que ocorra em hospital apropriado e, se acontecer de a criança nascer dentro do ambiente prisional, que isso não seja registrado em seus documentos, a fim de não comprometer o futuro da mesma. Paralelo a isso, a realidade é talvez um pouco diferente, no Brasil, pouquíssimas são as unidades que atendem às necessidades femininas corretamente, pois grande parte delas eram destinadas aos homens e não foram feitas todas as adaptações. Em pesquisa nas penitenciárias femininas de São Paulo, Caroline Howard e Marina Oliveira, encontraram situações que mostram essas más adaptações.
Apesar de as mulheres estarem detidas em estabelecimentos separados, apenas uma das instalações femininas visitadas havia sido construída de fato para mulheres; a vasta maioria das penitenciárias e cadeias foram adaptadas de penitenciárias e cadeias públicas masculinas existentes ou de instituições para jovens infratores (unidades da Febem). (HOWARD; OLIVEIRA, 2004, p. 35)
Ainda na mesma pesquisa, relataram que os problemas de superlotação não ocorrem apenas nos estabelecimentos masculinos,
Na Penitenciária Feminina da Capital (PFC), por exemplo, as mulheres informaram que celas individuais de 7 m², originalmente construídas para uma pessoa, e em alguns pavilhões adaptadas para duas, estavam sendo compartilhadas por uma média de três presas, com até duas mulheres dormindo no chão; na penitenciária de Franco da Rocha, as mulheres, em alguns pavilhões, disseram que até 17 delas dormiam em celas comunitárias projetadas para 12 pessoas; e em Ribeirão Preto, celas com camas para entre cinco e nove presas alojavam entre 13 e 15 mulheres, fechadas dentro de suas celas das 16:30 às 7:30 da manhã. (Ibid, 2004, p. 42)
Em contrapartida, no estado de Santa Catarina, as mudanças estão começando a acontecer. Em visita à Penitenciária Feminina Sul do município de Criciúma, podemos observar uma exceção às situações encontradas na maioria dos casos. No capítulo III deste trabalho, serão apresentadas as considerações relativas a esta visita.
Juntamente com a Regra de Mandela, trabalham também as leis penitenciárias, o direito penitenciário e mais especificamente, a Lei de Execução Penal (LEP) promulgada em 11 de julho de 1984. Criciúma, podemos observar uma exceção às situações encontradas na maioria dos casos. No capítulo III deste trabalho, serão apresentadas as considerações relativas a esta visita.
1.1.3 Direito Penitenciário
O Direito Penitenciário é o conjunto de normas jurídicas correspondentes à execução das penas e medidas de segurança. Conforme alguns autores, como Magnabosco (1998), começou a surgir no século XVIII,
através dos estudos de Becaria e Howard, por não concordarem com o sistema de execução penal existente na época e buscarem a proteção aos condenados e o respeito à dignidade humana. Juntamente com outros ramos do direito, definem o que é considerado crime ou infração e quais as devidas providências a serem executadas, levando em consideração os direitos do preso.
Haja visto, existem regras específicas para garantir o tratamento humanitário do detento, mas nem sempre foi assim. “Na antiguidade o Direito era exercido através do Código de Hamurabi ou a Lei do Talião, que ditava: 'olho por olho, dente por dente' tinha base religiosa e moral vingativa.” (MAGNABOSCO, 1998). No Brasil Colônia, os responsáveis por administrar a justiça eram os funcionários das Casas de Câmara e Cadeia, que estavam geralmente localizadas nos pontos mais importantes das vilas, como nas praças e mercados e só dividiam lugar com as igrejas.
Já na idade média, os crimes eram julgados de acordo com classe social do réu, sendo condenados à pena de morte geralmente realizados em seções de tortura, como a decapitação dos membros do corpo, guilhotina e forca, realizadas pelos chamados carrascos da época em praças públicas. No início da idade moderna, o aumento da criminalidade fez com que começassem a construção das prisões. Conforme Magnabosco (1998),
[...] na metade do século XVI iniciou-se um movimento de grande transcendência no desenvolvimento das penas privativas de liberdade, na criação e construção de prisões organizadas para a correção dos apenados. A suposta finalidade das instituições consistia na reforma dos delinquentes por meio do trabalho e da disciplina. Tinham objetivos relacionados com a prevenção geral, já que pretendia desestimular a outros da vadiagem e da ociosidade.
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Ainda conforme a autora, somente após a 2ª Guerra Mundial, começaram a surgir em alguns países a Lei de Execução Penal (LEP). No Brasil, as leis penais passaram por mudanças no final do século XIX em razão da Abolição da Escravatura e da Proclamação da República. Somente em 1890 aboliu-se a pena de morte e surgiu o regime penitenciário com base na correção, r e s s o c i a l i z a ç ã o e r e e d u c a ç ã o d o d e t e n t o .
O filósofo Michel Foucalt (1987, p 255 - 257) em seu livro Vigiar e Punir, define 7 princípios para uma boa condição penitenciária, que chamou de «As sete máximas da boa condição penitenciária». São elas:
1) PRINCÍPIO DA CORREÇÃO: a detenção penal deve ter por função essencial a transformação do comportamento do indivíduo.
2) PRINCÍPIO DA CLASSIFICAÇÃO: os detentos devem ser isolados ou pelo menos repartidos de acordo com a gravidade penal de seu ato, mas principalmente segundo sua idade, suas disposições, as técnicas de correção que se pretende utilizar para com eles, as fases da sua transformação.
3) PRINCÍPIO DA MODULAÇÃO DAS PENAS: as penas, cujo desenrolar deve poder ser modificado segundo a individualidade dos detentos, os resultados obtidos, os progressos ou as recaídas.
4) PRINCÍPIO DO TRABALHO COMO OBRIGAÇÃO E COMO DIREITO: o trabalho deve ser uma das peças essenciais da transformação e da socialização progressiva dos detentos.
5) PRINCÍPIO DA EDUCAÇÃO PENITENCIARIA: a educação do detento é, por parte do poder público, ao mesmo tempo uma precaução indispensável no interesse da sociedade e uma obrigação para com o detento.
6) PRINCÍPIO DO CONTROLE TÉCNICO DA DETENÇÃO: o regime da prisão deve ser, pelo menos em parte, controlado e assumido por um pessoal especializado que possua as capacidades morais e técnicas de zelar pela boa formação dos indivíduos.
7) PRINCÍPIO DAS INSTITUIÇÕES ANEXAS: o encarceramento deve ser acompanhado de medidas de controle e de assistência até a readaptação definitiva do antigo detento. Seria necessário que após sua saída da prisão não houvesse apenas um meio de vigiá-lo, mas também uma forma de prestar-lhe apoio e ajuda.
Percebe-se que os princípios de Foucault (1987) estão sempre em conformidade com as Regras de Mandela, assim como com a Lei de Execução Penal, como veremos posteriormente. Defendendo sempre o tratamento adequado, por profissionais capacitados, e em busca da correção de cada indivíduo. O autor (Ibid, 1987) também defende o trabalho e a educação como formas indispensáveis de recuperação, sendo uma questão que diz respeito a toda a sociedade. Além do apoio após a saída da prisão, a fim de diminuir os índices de reincidência, ato que infelizmente pouco acontece.
1.1.4 Lei De Execução Penal
A lei 7.210/1984, promulgada em 11 julho de 1984, tem por objetivo efetivar as disposições de sentença ou decisão criminal e proporcionar condições para a harmônica integração social do condenado e do internado. Aplica-se aos presos provisórios e aos condenados, quando recolhidos, garantindo que serão assegurados todos os seus direitos sem qualquer distinção.
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O Art. 10 da lei (BRASIL, 1984) define que a “assistência ao preso e ao internado é dever do Estado, objetivando prevenir o crime e orientar o retorno à convivência em sociedade.” Trata-se da garantia de direito à assistência material; à saúde; jurídica; educacional; social e religiosa. Além de garantir assistência à educação, trabalho, recreação e práticas esportivas. A lei garante também alguns requisitos a serem cumpridos na questão arquitetônica da penitenciária, como por exemplo alguns diferenciais das penitenciárias
o
femininas, conforme § 2 “os estabelecimentos penais destinados a mulheres serão dotados de berçário, onde as condenadas possam cuidar de seus filhos, inclusive amamentá-los, no mínimo, até 6 (seis) meses de idade.” (BRASIL Lei nº 11.942, 2009)
A LEP talvez seja o mais importante documento guia do sistema prisional, nela podem ser encontrados todas as questões que devem ser atendidas, tanto para funcionários, localização, construção, setorização e entre outros. Alguns artigos da LEP de maior relevância para este trabalho são os artigos 84 a 89, encontrados nos anexos deste trabalho, que definem a separação dos ambientes entre o preso provisório do condenado de acordo com os crimes, a lotação máxima dos estabelecimentos penais, e os requisitos básicos que devem ser atendidos, como tamanho das celas e salubridade.
2.2 RESSOCIALIZAÇÃO
Como visto, a forma de punir já evoluiu muito através dos anos, foram criadas leis responsáveis por proteger e garantir o direito e a dignidade dos detentos, buscando-se sempre fazer com que ao término do cumprimento de sua pena, o indivíduo volte à sociedade como uma pessoa melhor, capaz de
conviver com aqueles à sua volta de maneira tranquila e contribuir de alguma maneira para a sociedade, tornando-se indivíduos com responsabilidade, capazes de formar famílias e conseguir empregos dignos.
Algumas pesquisas mostram que a maior parte dos detentos são geralmente de classe média ou média baixa, e o crime mais comum é o tráfico de drogas. Sendo esta, inclusive, a maior causa de detenção no município de estudo, segundo o agente penitenciário gestor da UPA Laguna. No caso das mulheres, é ainda mais comum, sendo que muitas delas são presas na tentativa de ajudar seus companheiros, filhos ou parentes, algumas vezes já detidos.
As mulheres são 'mulas' ou 'laranjas', ou seja, elas transportam pequenas quantidades, enquanto a quadrilha ou o grupo de homens carrega a maior parte das drogas por outras rotas. Muitas vezes, as mulheres são denunciadas pelo próprio grupo para desviar a atenção das autoridades; em outras ocasiões, as mulheres guardam em suas casas pacotes e malas para seus companheiros, filhos e parentes, sem saber necessariamente sobre o seu conteúdo, ou ainda sob coerção e ameaça a seus entes familiares. Além disso, como não fazem parte da cúpula das organizações, elas não têm conhecimento de informações importantes que levariam à diminuição de suas penas caso as relatassem para as autoridades. (Lei 10.408/02). (HOWARD; OLIVEIRA, 2004, p. 21)
Os novos presos e aqueles que cometeram crimes de menor gravidade, em convívio com os já experientes no mundo da criminalidade e no cotidiano da prisão, podem acabar adquirindo seus vícios, e despertar pensamentos, hábitos e costumes daqueles que o sistema prisional não conseguiu modificar. Thompson (2009, p. 23) chama isso de prisonização, comparando com o termo americanização:
Assim como se usa o termo americanização para descrever o maior ou menor grau de integração de um imigrante no esquema de vida na América, o termo prisonização indica a adoção, em maior ou menor grau, do modo de pensar, costumes, dos hábitos – da cultura geral da penitenciária. Prisonização é semelhante a assimilação, pois todo homem que é confinado ao cárcere sujeita-se à prisonização, em alguma extensão.
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Para que isso não continue acontecendo, é preciso que as leis sejam realmente seguidas e que a pena, para ser humanizada seja substituída por tratamento (MIOTTO, 1992, p. 177). Falar em tratamento não significa considerá-los doentes, para isto, existem os hospitais de custódias, mas, entender que de acordo com a maneira como são tratados, pode-se contribuir com o futuro do indivíduo positiva ou negativamente. Por isso é tão importante defender a pena humanitária e focada na ressocialização, para que a realidade seja uma situação melhor e que não continue acontecendo o que se vê na maioria dos casos e como afirma Foucault (1987, p. 252), “a prisão consequentemente, em vez de devolver à liberdade indivíduos corrigidos, espalha na população delinquentes perigosos.”
Ainda segundo o autor, a prisão é perigosa, quando não inútil, mas não há o que colocar em seu lugar, sendo uma detestável solução da qual não pode abrir mão. Para deixar de ser esse espaço perigoso que devolve à sociedade indivíduos mais perigosos ainda, as prisões devem ser focadas principalmente no trabalho e na educação. Na educação porque ela é a base para qualquer indivíduo crescer e evoluir e a falta dela é uma das principais causas a levar estes indivíduos até a prisão e no trabalho como forma de dignidade. Trata-se de ajudá-los a se ajudar, como afirma Miotto (1992, p. 181):
Nos primeiros dois terços do séc. XVII, são Vicente de Paulo, o apóstolo dos pobres e dos condenados a galés, ensinava, pela palavra e pelo exemplo, é preciso ajudar o pobre, o condenado e qualquer necessitado, a se ajudar. Ajudá-los a se ajudar... Rodrigues (2011, p. 156) salienta que “a socialização intramuros só terá sentido se for uma socialização de transição para a liberdade.” Demostrando ainda mais a importância da educação e do trabalho durante a reclusão, como meio preparatório para a vida fora dela, conforme afirma
Thompson (2009, p. 13) “parece, pois, que treinar homens para a vida livre, submetendo-os a condições de cativeiro, afigura-se tão absurdo como alguém se preparar para uma corrida, ficando na cama por semanas.” Ao voltar à sociedade, é necessário que este indivíduo tenha como manter-se financeiramente, alimentar-se e por vezes, também garantir o sustento de toda sua família.
No Brasil, são poucas as penitenciárias que podem oferecer serviços a favor da ressocialização. Geralmente os locais preocupam-se apenas em manter a ordem e evitar fugas, visto que na maioria dos casos existe a superlotação, que dificulta qualquer tipo de atividade em prol do bem-estar geral. Existe ainda um modelo de prisão ressocializador, o sistema APAC (Associação de proteção e amparo aos condenados), que segundo o Jornal Folha de São Paulo (), gera um índice de reincidência de 20 a 28%, enquanto no sistema comum este índice é de 85%. O sistema é baseado em 12 metodologias principais, entre elas trabalho, educação, religião e onde os condenados tem total liberdade dentro do ambiente.
Não podemos mudar o que já aconteceu, mas podemos contribuir para que não volte a acontecer. Em Laguna, a ONG Acustra foi criada inicialmente para dar assistência aos presos, fazendo esse trabalho de ressocialização, e agora realiza trabalho voluntário com os filhos destes presos, e crianças carentes de algumas comunidades do munícipio, a fim de alertá-las e preveni-las para que não sigam o mesmo caminho. Segundo a assistente social da ONG, Janaina, a ideia de trabalhar com as crianças partiu dos próprios detentos, que gostariam de garantir um futuro melhor aos seus filhos. A Acustra oferece oficinas, aulas de reforço escolar e acompanhamento psicológico, além de outras atividades para as crianças e adolescentes. Mais uma vez demonstrando a importância de investir em educação e trabalho como peças chave para melhorar a sociedade e recuperar os detentos.
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2.2.1 Educação e Trabalho
No mundo capitalista em que vivemos, com altos índices de desemprego, a falta de escolaridade e a capacitação para um determinado trabalho são itens desclassificatórios na lista de candidatos, principalmente se tratando de um(a) ex-detento.
A Unidade Prisional Avançada de Laguna, por exemplo, que deveria ser destinada aos presos em espera do julgamento, é adaptada para que os mesmos cumpram a pena ali. Ainda assim, por ser um estabelecimento pequeno, com cerca de 130 presos, - a capacidade é para 97 -, consegue oferecer serviços médicos, e aulas de educação básica aos detentos, além de trabalho aos que apresentam bom comportamento. Sendo todos os serviços da unidade realizados pelos presos, diminui o custo do Estado com serviços terceirizados e para os detentos, o trabalho devolve-lhes a dignidade, pois sentem-se úteis novamente. Entretanto, na unidade não existe local específico para receber visita dos filhos, sendo recebidos nas salas de aula, com horário agendado e acompanhamento de psicóloga ou assistente social, nem espaço para refeições, sendo servidas nas próprias celas.
De acordo com Rodrigues (2011, p. 96), a intenção do trabalho em questão não é exatamente especializá-lo em determinada profissão.
Não está em causa proporcionar ao recluso a aquisição ou a manutenção das aptidões necessárias para o exercício de determinada profissão. Tão ou mais importantes são as chamadas competências sociais (conjugação de esforços numa coletividade produtiva, divisão de tarefas de remuneração – reconhecida através da remuneração – para o aumento da riqueza geral e consequente promoção da autoestima) que o exercício do trabalho possibilita como talvez nenhuma outra atividade.
Mas, como uma maneira de ocupar lhes a mente e o corpo, mostrando-lhes a possibilidade de tomar gosto pelo o que estão fazendo e perceber que podem voltar a sociedade e sobreviver com dignidade.
Tão ou mais importante que dar uma capacitação profissional ao preso, possibilitar-lhe o exercício de um trabalho conforme aquele mesmo critério, é ajudá-lo a ter gosto pelo trabalho, a gostar de trabalhar – não deixar que aqueles que já não tem esse gosto, esmoreçam, mas ajudá-los a conservá-lo e desenvolvê-lo, especialmente naqueles que, ante, viviam de atividades duvidosas senão francamente ilícitas, a fim de que desejem trabalhar, “ganhar a vida” honestamente. (MIOTTO 1992, p. 188)
Segundo Milanezi (2017), o número de pessoas que participa dos projetos de assistência à educação ainda é muito pequeno. Em junho de 2014 existiam 5.703 mulheres em atividades educacionais formais e complementares, o que equivale a 25,3% do total de mulheres presas. A maioria das penitenciárias não tem estrutura para oferecer os serviços necessários.
2.3 PENITENCIÁRIAS E PRESÍDIOS
A construção das penitenciárias e presídios não é algo recente, entretanto, nem sempre a maneira de punir foi a mesma. Houve um período em que a forma de punição eram atos de tortura, em praças públicas e realizados como grandes espetáculos, como visto anteriormente, mas, felizmente, muito já tem evoluído até então, em busca de cada vez mais a humanização destas edificações. Nos tópicos a seguir veremos os principais modelos de penitenciárias relevantes para a história da arquitetura, além de entender como funciona o sistema prisional atualmente em Santa Catarina e um pouco sobre as edificações penitenciárias femininas e a humanização das mesmas.
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2.3.1 Principais Modelos Históricos de Arquitetura Penitenciária
Como afirma Cipriano (2010, p. 02), “a Arquitetura Penitenciária surgiu simultaneamente ao modelo jurídico-penal moderno em resposta à necessidade de edifícios específicos para a atividade prisional, tornando-se um ramo especializado da arquitetura.”
O método de punir nem sempre foi a privação de liberdade, mas a partir do surgimento deste modelo de punição, começaram a surgir as construções que mais se adaptavam à época. Os modelos principais, que tiveram influência nas construções atuais foram: Modelo Panóptico; Auburniano e Filadélfia ou Pensilvânia.
2.3.1.1 Modelo Panóptico
Em 1787, Jeremy Bentham escreveu Panóptico (figura 2.1) como uma penitenciária modelo – com uma estrutura circular, uma torre no centro e as celas nas bordas – onde os guardas poderiam vigiar todos os prisioneiros ao mesmo tempo, sem serem vistos. (ENGBRUCH, 2016). Devido à estrutura circular, a iluminação e ventilação natural conseguiam entrar em todo o edifício.
2.3.1.2 Modelo Filadélfia ou Pensilvânia
Nos Estados Unidos, entre os séculos XVIII e XIX, se destacou inicialmente a técnica filadélfica (figura 2.2), que baseava o isolamento dos presos em celas individuais, em completo silêncio. O modelo previa que o trabalho dos presos poderia ser útil tanto para o sustento da própria unidade como para sua futura absorção da mão-de-obra pelo restrito mercado profissional. A duração da pena poderia ser alterada pela administração da unidade penal. (ENGBRUCH, 2016).
2.3.1.3 Modelo Aurburniano
Em 1820 surgiu, em Nova York, o modelo de Auburn. A técnica abolia o isolamento absoluto e adotava a reclusão e o isolamento apenas no período noturno. “Durante o dia, as refeições e o trabalho eram coletivos, mas impunha-se regra de silêncio, os presos não podiam se comunicar ou mesmo trocar olhares, a vigilância era absoluta.” (ENGBRUCH; SANTIS, 2016).
Desde então, algumas evoluções foram sendo f (eitas para chegar aos modelos hoje encontrados, de acordo com as necessidades que foram sendo percebidas.
Figura 2.1: Modelo panóptico
Fonte: Site Rede PSI
Figura 2.2: Modelo filadélfia
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2.3.2 Sistema Prisional CatarinenseO DEPEN-Departamento Penitenciário Nacional é o órgão brasileiro
responsável pela fiscalização das penitenciárias de todo o país, tanto federais
quanto estaduais. Cada estado, tem então sua secretaria responsável pelo
Justiça e Cidadania.
Em Santa Catarina, esta é dividida em três departamentos (figura 2.3), segundo o Tribunal de Contas do Estado.
O DEAP é responsável pela administração dos estabelecimentos penais estaduais, excluindo-se os estabelecimentos educacionais destinados às medidas socioeducativas. As unidades prisionais foram agrupadas em seis regionais: Regional 1 — Grande Florianópolis; regional 2 — Sul Catarinense (a qual pertence a região em estudo); regional 3 — Vale do Itajaí; regional 4 — Norte Catarinense; regional 5 — Região Serrana e Meio Oeste; e regional 6 — Oeste.
Segundo o relatório do Tribunal de Contas de Santa Catarina (TCE-SC 2012/2013), no conceito de cadeia pública estão contempladas as UPAs -
Unidades Prisionais Avançadas, Presídios e Central de Triagem. Ainda existem os complexos penitenciários, que consistem em conjuntos penais com vários estabelecimentos em um mesmo terreno, porém independentes e estanques entre si.
O TCE divulgou ainda alguns dados (Tabela 2.1) como a carência de vagas por regionais nos sistemas prisionais da SJC.
No Estado de Santa Catarina há duas formas de gestão dos estabelecimentos penais: a) a autogestão, na qual a SJC é integralmente responsável pela administração da unidade; e b) cogestão, em que a SJC contrata empresa para realizar a execução de serviços técnicos e materiais objetivando a operacionalização das unidades. Neste modelo, a SJC permanece com a direção do estabelecimento penal, pois indica o diretor, vice-diretor e fiscal de segurança; continua com a responsabilidade pela segurança externa e pelo pagamento das despesas de luz, água, internet, telefonia, além de outras obrigações previstas em contrato.
2.3.3 Encarceramento Feminino e Humanização das Edificações
Muito tem-se evoluído desde as primeiras edificações prisionais, buscando-Tabela 2.1: Ranking da carência de vagas por regionais da SJC em dez. 2012
Fonte: TCE/SC a partir de dados do SJC Figura 2.3: Organização do Sistema Prisional Catarinense
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se chegar na melhor maneira de humanizar estes edifícios. A ressocialização, modelo que vem sendo procurado seguir, ainda que em poucos locais, contribui para isto, em busca de tirar o foco do objetivo de punir e colocá-lo no objetivo de recuperar. Trata-se de construir ambientes mais aconchegantes e de qualidade que realmente atendam às necessidades dos indivíduos ao qual são destinados, ambientes capazes de melhorar a saúde mental, o clima institucional da prisão e inclusive diminuir as taxas de suicídio. Tratam-se de questões básicas, como higiene pessoal, local para realizarem atividades que ocupem seu tempo e lhe permitam desenvolver habilidades, locais de aprendizado e estudo, como oficinas e salas de aula.
No caso das penitenciárias femininas, o problema é um pouco maior pois as mulheres têm algumas questões únicas diferentemente dos homens, e pouquíssimas delas oferecem qualidade, principalmente quando falamos das presas mães, que sofrem por estarem longe de seus filhos e muitas vezes não os veem durante longo período de tempo, porque não há lugar adequado para recebê-los nos dias de visita e os familiares quando responsáveis pela guarda geralmente evitam levar as crianças a estes locais inadequados.
Apesar de o encarceramento dificultar as relações familiares para homens e mulheres, as presas mulheres geralmente experimentam um nível de rejeição e abandono pela família e por parceiros muito maior que os presos homens. [...] Diferentemente do que acontece com os presos homens – que podem contar com suas companheiras –, os filhos de presas mulheres raramente são cuidados pelo parceiro, sendo, em vez disso, dispersados entre várias parentas mulheres. Isso complica significativamente o contato das mulheres com seus filhos. (HOWARD; OLIVEIRA, 2004, p. 48)
Howard; Oliveira (Ibid, 2004), ainda afirmam que durante pesquisa nas penitenciárias femininas do estado de São Paulo, apenas em uma havia um playground para as crianças usarem durante a visita. Falando de crianças
recém-nascidas, constataram ainda que as mães não podiam ficar nem mesmo 3 meses com os bebês, quando o tempo mínimo é de 6 meses, garantido pela Lei de Execução Penal (1984). Algumas, tinham seus filhos retirados minutos após o parto.
A LEP Art. 89 especifica que as penitenciárias femininas devem ser dotadas de creche para receber as crianças de até 7(sete) anos, podendo garantir seu convívio maior com a mãe e ainda assistência social e psicológica às crianças. No Brasil, poucas são as que cumprem esta lei, exceto algumas exceções como a Prisão Feminina do Paraná, que segundo Quintino (2005, p. 73), abriga as crianças em uma creche própria:
Há 12 canteiros de trabalho que empregam 45% das detentas. Um desses canteiros é a creche Cantinho Feliz que emprega 18 mães pagando pelo trabalho delas R$ 42,00, com os quais devem comprar fraldas descartáveis que não serão fornecidas pela unidade e nem podem ser trazidas pela família, porque não há funcionário nem tempo disponível para revistar uma por uma. Atualmente está em fase de implantação na unidade uma fábrica de fraldas e absorventes que depois que estiver produzindo irá abastecer todas as unidades do Complexo Penitenciário.
Em Santa Catarina, um modelo parecido foi inaugurado em 30 de janeiro de 2018, na cidade de Criciúma, também com acomodações para crianças, creche e gestantes. Veremos posteriormente no capítulo III deste trabalho, mais detalhes sobre o estabelecimento, analisado no estudo de caso.
2.3.4 Critérios para elaboração de um projeto penitenciário
A construção dos estabelecimentos penais deve garantir segurança e evitar o acontecimento de fugas. Em 2005, o Ministério da Justiça e o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, divulgou um manual de diretrizes básicas para a construção, ampliação e reforma de estabelecimentos penais no país, os critérios
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desde item são todos baseados neste documento.
Estabelecimentos penais são todos aqueles utilizados pela Justiça com a finalidade de alojar pessoas presas, quer provisórios quer condenados, ou ainda aqueles que estejam submetidos à medida de segurança;
Penitenciárias de segurança média ou máxima: estabelecimentos penais destinados a abrigar pessoas presas com condenação em regime fechado, dotados de celas individuais e coletivas; A seguir a tabela 2.2 define as capacidades máxima e mínima de acordo com o tipo de estabelecimento.
Em nenhuma hipótese, um módulo de celas poderá ultrapassar a capacidade de 200 pessoas presas. A capacidade de cada refeitório não poderá ser superior à metade da capacidade do módulo.
No caso de penitenciária de segurança máxima, além de permitirem a separação da pessoa presa que apresente problemas de convívio com as demais, as celas individuais servirão para abrigar pessoa presa de alta periculosidade ou que, por colaborar em procedimento judicial ou inquérito policial, venha a ter sua integridade física posta em risco.
Fonte: CNPCP - Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária Tabela 2.2: Capacidades dos estabelecimentos.
A cela individual é a menor célula possível (figura 2.4) de um estabelecimento penal. Neste cômodo devem ser previstos cama e área de higienização pessoal com pelo menos lavatório e aparelho sanitário, alem da circulação. A tabela 2.3 indica as dimensões mínimas para as celas de acordo com a capacidade de vagas.
Tabela 2.3: Dimensões mínimas para as celas
Fonte: CNPCP - Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária
No caso do uso de três camas superpostas
( b e l i c h e s d e t r ê s camas) deverá ser p r e v i s t o u m p é -direito mínimo de três metros.
«
São de dois tipos os muros e alambrados nos estabelecimentos penais (figura 2.5) : os que cercam á r e a s d e s e g u r a n ç a ; e o s q u e c e r c a m o estabelecimento de maneira geral.
No caso de pátios para banhos de sol contíguos deverá ser usado muro ao invés de alambrado (figura 2.6).
Figura 2.4: Menor cela possível
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O acesso de pedestres e veículos deve ser único, através de portal específico e mediante vistoria, para maior controle de entrada e saída de pessoas. Preferencialmente, o estacionamento de veículos para funcionários deve ser exclusivo. O estacionamento para o público deve ser previsto fora da área de segurança.
Quanto às circulações adotadas na área prisional (módulo de celas individuais ou coletivas), a exigência é a largura mínima de 1,50m para corredores que possuam celas em apenas uma de suas laterais e de 2,00m para celas nas duas laterais. Nas passagens cobertas que interligam os módulos, a largura mínima deve ser de 2,50m.
Os critérios mínimos para elaboração de um projeto penitenciário determinam o funcionamento correto do edifício e a certificação da segurança mínima necessária, são detalhes que fazem a diferença e no dia-a-dia tornam-se indispensáveis para manter a ordem no estabelecimento, além de garantir que sejam projetados espaços humanos, salubres, e em conformidade com as determinações da Lei de Execução Penal (BRASIL, 1984).
2.3.5 Conclusão
Após as leituras realizadas e o conhecimento adquirido, foi possível compreender que o sistema prisional ainda possui muitos problemas, mesmo que as leis existam para garantir o tratamento adequado e estrutura correspondente. Quando fala-se em detentas os problemas são ainda maiores, são poucos os estabelecimentos adaptados de maneira correta, ou projetados para elas. Com base nisso, será apresentada a proposta de projetar uma penitenciária que atenda às necessidades e ofereça um ambiente mais humano à estas mulheres, seguindo as orientações para construção de estabelecimentos penais do CNPCP.
Figura 2.5: Muros e alambrados
Fonte: Elaborado pela autora com base no documento do CNPCP
Fonte: Elaborado pela autora com base no documento do CNPCP Figura 2.6: Pátios de Sol
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3.2), um exclusivo para os detentos e outro para visitantes e funcionários onde há uma espécie de hall que define a área de revista e a circulação restrita aos trabalhadores, com uma ligação à parte administrativa, e com outra ligação com a área de celas. Em rosa, observa-se que a área de circulação de detentos é aproximadamente 70% maior do que a área chamada de administrativa (em cinza), onde a circulação é restrita apenas aos trabalhadores. Os guardas também têm circulação na área de detentos.
3.1.3 Volume/Massa
Sua volumetria é formada através de vários pavilhões em formato circular (figura 3.4), o que garante iluminação natural em todas as áreas, com elementos que se sobressaem formando uma espécie de semicírculos (figura 3.3), identificados como pátios de sol, geralmente com alguma vegetação.
3.1.4 Estrutura e Técnicas Construtivas
Os blocos serão feitos por um sistema rápido, barato e limpo de painéis de concreto pré-fabricados, segundo os Arquitetos do OOIIO Arquitetura. Isso permitirá a construção a curto prazo e com baixas taxas de emissão de carbono. Além disso, seriam cuidadosamente projetados para gerar o mais alto nível de luz natural no interior (importante para um país como Islândia com breves horas de sol ao longo do Figura 3.1: Prison Female OOIIO Architecture
Fonte: ArchDaily (Cortesia da OOIIO Architecture)
Fonte: ArchDaily (Cortesia da OOIIO Architecture). Adapatado pela Autora, 2018.
Figura 3.2: Acessos e Circulação
Figura 3.4: Volumetria comparada às engrenagens de um relógio.
Fonte: ArchDaily (Cortesia da OOIIO Architecture).
Figura 3.3: Marcação dos pátios em forma de «semicírculos»
Neste capítulos serão analisados projetos de penitenciárias julgados interessantes pela autora, em busca de adquirir conhecimento e referências positivas para o desenvolvimento do projeto.
3.1 PRISÃO FEMININA (PRISON FEMALE) / OOIIO ARCHITECTURE
Estado: Concurso Projeto Básico (figura 3.1). Ano do Projeto: 2012.
Localização: Reykjavik, Islândia. Superfície: 9.000 m2.
Design: arquitetura OOIIO.
Equipe: Joaquín Millán Villamuelas, Mendiguchía Belén Gómez, Cristina Vigário de Cojo, Lurdes Martínez Nieto, Javier Urrutia Sánchez, R. Kristinn Olafsson, Ignacio Jimeno.
Cliente: Governo islandês.
3.1.2 Acessos e Circulações
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ano) e capaz de manter uma interessante fachada natural.
Segundo Florios (2016), o telhado verde (figura 3.5) na Islândia é uma tradição antiga, conhecido como uma das técnicas da Arquitetura Vernacular, as casas de turfa, como são chamadas, são cobertas pela vegetação, que proporciona bom conforto térmico e isolamento acústico. Esse método tão comum no país, também foi usado no projeto. Outra técnica utilizada foi a de ventilação e iluminação através de aberturas zenitais (figura 3.6), possibilitando um conforto maior em todas as celas.
3.1.5 Partido
A intenção da equipe OOIIO Architecture, segundo a mesma, era projetar uma prisão que não parecesse com uma prisão, foi então que começaram a perguntar às pessoas que vivem e trabalham em prisões reais como fazer isto. A conclusão que chegaram foi de que “a pior coisa de viver em uma prisão é ter a sensação de que você está realmente em uma prisão.” (VILLAMUELAS, 2012)
[...] quando estávamos pensando no prédio, tínhamos a sensação de que estávamos projetando as engrenagens de um grande
relógio, um prédio como uma montagem de engrenagens, onde todas as peças deviam estar no lugar certo para torná-lo eficiente e funcional, mas com a melhor relação possível com a luz natural e as vistas exteriores, para aumentar a sensação de liberdade.
[...] Então decidimos projetar uma prisão que não parece uma prisão, esquecendo-se de espaços escuros, pequenas celas e paredes feias de concreto cinza. Pelo contrário, baseamos o desenho do edifício na luz natural, espaços abertos e materiais verdes naturais como turfa, grama e flores. Além disso, em vez de empacotar todo o programa em um grande prédio singular que lembrava uma típica prisão repressora antiga, decidimos dividi-lo em vários pequenos pavilhões conectados em escala humana.( VILLAMUELAS, 2012)
3.1.6 Justificativa da Escolha
O projeto aproveitou muito bem a iluminação e ventilação natural, através de sua forma circular (figura 3.7 e 3.8), não convencional, proporcionando uma maneira diferente de se construir prisões, diferente dos espaços cinzas e obscuros geralmente encontrados. O sistema construtivo utilizado também chama atenção por se tratar de um sistema rápido e principalmente limpo, o que gera menos poluição, menos desperdício de materiais e consequentemente de dinheiro. Uma estratégia bem interessante também foi o uso da técnica local aplicada ao edifício, que traz um ótimo desempenho além de valorizar a cultura do país.
Figura 3.5: Semelhança com as construções tradicionais Islandesas.
Fonte: ArchDaily (Cortesia da OOIIO Architecture).
Fonte: Elaborado pela autora, 2018.
Figura 3.6: Aberturas Zenitais
Figuras 3.7 e 3.8: Croquis representando o partido.
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3.2 APAC DE CONTAGEM – MINAS GERAIS
O projeto que será analisado a seguir foi vencedor do concurso Ópera Prima em 2011 com uma proposta de penitenciária no sistema APAC, que trata a forma de punição um pouco diferente do sistema convencional. O sistema APAC - Associação de Proteção e Assistência aos Condenados, foi criado por Mário Ottoboni em 1972 com propósito de reabilitar os condenados de forma mais humanitária do que as prisões comuns, tendo como principais administradores da prisão os próprios presos. O sistema APAC promete um índice de reincidência muito menor do que o sistema convencional, segundo o jornal Folha de São Paulo (2017), este índice está entre 20 a 25%, contra 85% no sistema comum.
3.2.1 Acessos
O terreno possui um acesso principal (figura 3.10) que leva ao estacionamento e ao bloco administrativo (figura 3.9), o principal bloco por onde se acessam todos os setores do local. Sendo diferenciados apenas pelas entradas, possuindo duas principais aberturas na fachada que ligam por meio de um corredor as entradas de guardas e agentes.
Como o sistema APAC não faz diferenciação com os condenados, é válido ressaltar como os acessos demonstram isto. A pavimentação diferenciada na implantação conduz os indivíduos até as principais entradas do edifício.
3.2.2 Circulação
Figura 3.9: Planta térreo da administração, mostrando acessos.
Fonte: Innovare Arquitetura. Adaptado pela Autora.
Figura 3.10: Implantação com acessos.
Fonte: Innovare Arquitetura. Adaptado pela Autora.
Figura 3.11: Circulações.
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Os blocos têm em sua maioria circulação horizontal e linear (figura 3.11 e 3.12), delimitadas pelos mobiliários e por paredes nas áreas de corredores. A circulação vertical é marcada por escadas e, no interior, por rampas que também têm a função de interligar os blocos e garantem acessibilidade ao local. Há também circulação difusa, onde o indivíduo pode circular sem necessariamente seguir delimitações, o espaço de lazer é onde mais se encontra esse tipo de circulação.
3.2.3 Volume/Massa, Ordem de ideias
Sua forma é simples e bastante geométrica, a volumetria tem predominância de horizontalidade com formas retangulares bem marcadas e simétricas, divididas em 3 grandes blocos destinados à administração e atendimento aos presos, e outros 5 menores, destinados a celas e refeitórios. Destacam-se alguns elementos como as rampas que ligam um bloco ao outro, e uma única torre verticalizada (figuras 3.12 e 3.13). As linhas curvas foram usadas na implantação ao longo das rampas que seguem o desnível do terreno.
3.2.4 Estrutura e Técnicas Construtivas
A estrutura utilizada é de blocos pré-moldados de concreto, segundo Oliveira (2011), o sistema foi escolhido pois garante facilidade e agilidade na execução, gera um canteiro de obras limpo e sem desperdícios e se enquadra na sustentabilidade ambiental que buscavam alcançar. A estrutura conta com uma malha de pilares estruturais no módulo 6x9,60m. que contribue para formar beirais em algumas fachadas. Também foram usados elementos como cobogós (figura 3.14) com floreiras em aço de alta resistência que travam os pórticos entre si. As lajes do piso e da cobertura são moduladas e pré-moldadas e a vedação é dada em painéis também pré-fabricados em concreto, com aberturas que variam (figura 3.15) de acordo com o ambiente a ser ventilado e iluminado.
Figura 3.12: Volumetria
Fonte: Innovare Arquitetura. Graficado pela autora, 2018. Figura 3.13: Corte geral
Figura 3.14: Fachada com cobogós e vegetação
Fonte: Innovare Arquitetura.
Figura 3.15: Corte esquemático das estratégias utilizadas
Fonte: Elaborado pela autora, 2018. Figura 3.11: Circulações.
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3.2.5 Conforto AmbientalEm Contagem, segundo o site Climate Data o clima é quente e temperado e chove muito mais no verão que no inverno, ainda conforme o mesmo, de acordo com a K ö p p e n e G e i g e r, o c l i m a é classificado como tropical de altitude (Cwa). Suas temperaturas variam entre 12° e 27° C.
As principais fachadas do edifício (figura 3.16) ficaram voltadas para as orientações Norte e Sul, com a utilização de cobogós e floreiras na fachada Norte, para evitar a incidência direta do Sol e aumento da temperatura dentro dos ambientes. As menores fachadas ficaram voltadas para Leste e Oeste, fechadas total ou parcialmente. Na concepção do autor, estes foram fatores fundamentais para uma arquitetura sustentável, que nortearam a implantação e o partido do projeto, pois proporcionaram ventilação e iluminação natural em abundância. Na face oeste do terreno ficou a área destinada ao estacionamento com uso de vegetação local que gerasse sombra tanto para os carros quanto para o edifício. As áreas de lazer foram localizadas na orientação Leste, propícias a receber o Sol da manhã. Além dos cobogós e das floreiras, foram usados também espelho d'agua, telhado verde e aberturas zenitais, estratégias que permitem a evaporação do ar quente e o resfriamento dos ambientes, além de iluminação natural. Outras estratégias também foram utilizadas no projeto, como painéis fotovoltáicos e captação e reúso de água da chuva.
3.2.6 Zoneamento Funcional/Definição de Espaços
O projeto apresenta os setores definidos por blocos, ficando ainda mais clara essa definição através do zoneamento a seguir (figura 3.17), que demonstra como ficaram definidos os usos em cada bloco. O prédio de serviços é o que possui maior variedade de funções, abrigando atividades de lazer, educação e trabalho, além do local para visita íntima dos detentos. O bloco polivalente abriga também atividades de lazer, educação e trabalho destinados apenas aos condenados ao regime fechado, com um amplo espaço de circulação livre. No prédio administrativo encontram-se apenas serviços, atendimento ao público e primeiros atendimentos aos presos.
Figura 3.16: Análise conforto ambiental
Fonte: Innovare Arquitetura, graficado pela autora, 2018.
Fonte: Innovare Arquitetura, graficado pela autora, 2018. Figura 3.17: Zoneamento funcional
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3.2.7 Relações com o entornoA proposta está localizada em uma área bem adensada e com usos bastante variados, sendo a predominância residencial, mas com muitos pontos de comércio e serviços próximos, podendo atender às necessidades dos detentos e oferecer empregos aos mesmos.
O local pode ser acessado tanto pela BR-040 (figura 3.18) quanto pela Avenida Severino Ballesteros e pelas ruas locais, sendo de fácil acesso para visitantes e funcionários.
3.2.8 Hierarquia Espacial
Uma penitenciária, mesmo que no sistema APAC, caracteriza-se principalmente pela privacidade que deve possuir, sendo, portanto, a maior parte dos espaços de uso exclusivo para os que possuem permissões, ainda é possível observar uma grande quantidade de espaços semiprivados (figura 3.19), que podem ser para pessoas externas, como por exemplo, os visitantes e familiares dos presos, e os espaços semiprivados para internos, que são aqueles em que todos os usuários podem usufruir, mas tem uma demanda específica, ou regras de horários e quantidade de pessoas, e portanto não são livremente acessados. Já classificado como público, existe apenas o espaço de recepção, que é o único local onde qualquer cidadão pode chegar e posteriormente ter
permissão para deslocar-se até os espaços semiprivados abertos a pessoas externas, ou não.
3.2.9 Partido
O partido da edificação surgiu com a ideia de juntar os ideias da APAC com os 4 gestos da sustentabilidade definidos pelo autor, conforme figura 3.20:
Fonte: Innovare Arquitetura, graficado pela autora, 2018. Figura 3.19: Hierarquia de usos.
Acessos
Fonte: Innovare Arquitetura, graficado pela autora, 2018. Figura 3.18: Localização
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Fonte: Innovare Arquitetura, elaborado pela autora, 2018. Figura 3.20: Definições de partido
3.2.10 Justificativa da Escolha
Pretende-se, com esse referencial, utilizar as ideias de ressocialização voltadas para oficinas de trabalho e educação, atividades que possam ocupar o dia-a-dia das detentas. Também, as questões construtivas utilizadas que podem ser aplicadas no futuro projeto, como coberturas zenitais, utilização de vegetação local, reuso de águas pluviais e etc. A setorização dos serviços também é de extrema importância, visto que se trata de um estabelecimento bastante restrito, é interessante que sejam bem definidos os locais e os setores.
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3.3 ESTUDO DE CASO - PENITENCIÁRIA SUL FEMININA
A penitenciária feminina de Criciúma (figura 3.22), inaugurada em 30 de janeiro de 2018, é a única do estado. Com capacidade para 286 vagas, abriga presas de todos os municípios, e infraestrutura preparada para receber inclusive gestantes e lactantes. Conta ainda com atendimento de saúde próprio, sala de aulas, biblioteca e futuramente serão implantadas oficinas de trabalho.
O estabelecimento fica localizado na comunidade Vila Maria no município de Criciúma (figura 3.21), próximo da Penitenciária Sul Masculina (figura 3.23), porém uma independente da outra, usando o mesmo serviço apenas para alimentação.
3.3.1 Acessos e circulações
A via de acesso ao local é um longo trecho em terra batida (figura 3.24), sem pavimentação ou calçadas, o que dificulta a chegada por outro meio de transporte que
Figura 3.22: Penitenciária Feminina Sul, Fachada.
Fonte: Autora, 2018. Figura 3.21: Mapa do Estado.
Fonte: Site estados e capitais
Fonte: Autora, 2018.
Figura 3.24: Via de acesso ao local.
Acesso funcionários e visitantes em geral Acesso visitantes das detentas Acesso de emergência Acesso das detentas
Fonte: Google mapas, graficado pela autora, 2018. .
Figura 3.25: Acessos
Figura 3.26: Circulação agentes
Fonte: Autora, 2018.
BR-101
Fonte: Google Earth, graficado pela autora, 2018. Figura 3.23: Localização
*Na visita ao local não foi permitido fazer fotografias, por se tratar de regimento interno.
não seja o carro. Os acessos (figura 3.25) são definidos por uma guarita que fica logo no início do prédio e é basicamente centralizada, dividida em dois acessos principais, um para funcionários e visitantes em geral, como advogados, e um destinado apenas a receber os visitantes das detentas, que são direcionados imediatamente para a sala de identificação e revista. Na mesma fachada também está a entrada das detentas, que são sempre acompanhadas por uma viatura, até o ponto de identificação das mesmas. Existe também um acesso para situações de emergência.