UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO
ESCOLA DE COMUNICAÇÃO, EDUCAÇÃO E HUMANIDADES
Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social
AMANDA LUIZA DOS SANTOS PEREIRA
MEIOS DE COMUNICAÇÃO COMO QUESTÃO TEÓRICA:
mapeamento e análise de possibilidades conceituais
SÃO BERNARDO DO CAMPO
2017
UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO
ESCOLA DE COMUNICAÇÃO, EDUCAÇÃO E HUMANIDADES
Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social
AMANDA LUIZA DOS SANTOS PEREIRA
MEIOS DE COMUNICAÇÃO COMO QUESTÃO TEÓRICA:
mapeamento e análise de possibilidades conceituais
Tese apresentada em cumprimento parcial às exigências do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social, Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), para obtenção do grau de Doutor.
Orientador: Prof. Dr. Fábio Botelho Josgrilberg
SÃO BERNARDO DO CAMPO
2017
FICHA CATALOGRÁFICA
P414m Pereira, Amanda Luiza dos SantosMeios de comunicação como questão teórica: mapeamento e análise de possibilidades conceituais / Amanda Luiza dos Santos Pereira. 2017.
189 p.
Tese (Doutorado em Comunicação Social) --Escola de Comunicação, Educação e Humanidades da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2017. Orientação: Fábio Botelho Josgrilberg.
1. Comunicação - Teoria 2. Meios de comunicação 3. Conceitos I. Título.
A tese de doutorado sob o título “Meios de Comunicação como questão teórica:
mapeamento e análise de possibilidades conceituais”, elaborada por Amanda
Luiza dos Santos Pereira, foi defendida e aprovada em 10 de maio de 2017,
perante banca examinadora composta por Prof. Dr. Fábio Botelho Josgrilberg
(Presidente/UMESP), Profa. Dra. Marli dos Santos (Titular/UMESP), Prof. Dr.
Sebastião Carlos de Morais Squirra (Titular/UMESP), Prof. Dr. Anderson
Vinícius Romanini (Titular/USP), Prof. Dr. Walter Teixeira Lima Junior
(Titular/UNIFAP).
_________________________________________
Prof. Dr. Fábio Botelho Josgrilberg
Orientador e Presidente da Banca Examinadora
_________________________________________
Profa. Dra. Marli dos Santos
Coordenadora do Programa de Pós-Graduação
Programa: Pós-Graduação em Comunicação Social
Área de concentração: Processos Comunicacionais
AGRADECIMENTOS
Aos professores da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), em especial, o prof. Dr. Fábio Botelho Josgrilberg, pelo acolhimento na orientação final da pesquisa, mas também nas atividades e encontros interdisciplinares. Prof. Dr. Sebastião Carlos de Morais Squirra pelas contribuições, indicações e incentivo. Profa. Dra. Marli dos Santos e Prof. Dr. Luciano Sathler Rosa Guimarães, pela disposição e apoio. Profa. Dra. Cicília Maria Krohling Peruzzo pelas críticas e sugestões direcionadas ao trabalho.
À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoas de Nível Superior (CAPES) e à Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa da UMESP, pelo apoio e concessão de benefício através do Programa de Suporte à Pós-Graduação de Instituições de Ensino Superior (PROSUP).
Aos funcionários da UMESP, em especial, Priscila Teodoro Errerias pela paciência e gentileza constantes.
Ao prof. Dr. Anderson Vinícius Romanini pelas contribuições com a pesquisa desde a banca de qualificação e ao prof. Dr. Osvaldo Frota Pessoa Junior pelas conversas e importantes indicações.
Aos melhores amigos de pós-graduação que alguém pode ter: Fábio Palamedi, parceiro intelectual e de um quase podcast, André Rosa pelas trocas de ideias durante todos os trabalhos desenvolvidos desde o mestrado e pela leveza do seu bom humor. Liliane Monteiro, por toda ajuda na obtenção de referências raras. Krishma Carreira e Ana Graciela Voltolini, por todos os encontros, palavras de apoio e risadas. Rafael Vergili, por todas as conversas honestas e divertidas, mantidas apesar da distância.
Ao prof. Dr. Walter Teixeira Lima Junior, por todos os desafios e oportunidades que me ofereceu junto ao Grupo de Pesquisa Tecnologia, Comunicação e Ciência Cognitiva (Tecccog), pelo exemplo de seriedade e cientificidade, por toda dedicação na orientação direta desta investigação até o período de qualificação e pelas contribuições posteriores.
Aos amigos-irmãos que estiveram ao meu lado, apesar da minha insociabilidade, em especial Daniel Costa Paiva e Weider Weise.
Ao meu pai, Nagibe Moreno dos Santos, pelo interesse e imprescindível ajuda nas dúvidas direta e indiretamente relacionadas aos problemas lógicos, bem como pelo apoio incondicional.
Ao meu doce Fábio Luís Pereira, por todo afeto e todas as ações que só alguém tão admirável e com tanto amor poderia oferecer.
RESUMO
Esta pesquisa é motivada pela pergunta Que é Meio de Comunicação nas abordagens circunscritas pela produção nacional? Em razão disso, os levantamentos realizados especificamente sobre o domínio da Comunicação foram integralmente vinculados às referências utilizadas nos cursos de pós-graduação Stricto Sensu e em periódicos e anais de abrangência nacional dos últimos sete anos. Com o objetivo de mapear proposituras conceituais acerca de Meio de Comunicação e baseada na proposta metodológica de Lopes (2005), foi realizada uma análise subdivida em procedimentos de cunho metódico-técnico e teórico-epistemológico das publicações recentes e de textos que podem ser designados como clássicos da área, visando identificar e avaliar argumentos sobre a questão. Mediante os resultados obtidos as principais conclusões são: em textos recentes Meio de Comunicação é uma lacuna conceitual, visto que a problematização direcionada ao conceito em si é representativa em menos de 1% dos textos analisados. Em relação aos textos clássicos, embora se tenha algumas pistas de espaços para a formulação de construções hipotéticas que colaborem para a conceituação, confirmam-se as intuições do debate epistemológico que apontam para a proeminência do uso não especializado do termo.
ABSTRACT
This research is motivated by the question What is Media in the approaches circumscribed by the national production? Because of this, the surveys are specifically related to the field of Communication have been integrally linked to the references were used in Stricto Sensu courses and in periodicals and annals of national scope of the last seven years. With the objective of mapping conceptual proposals about Media and based on Lope’s methodology (2005), an analysis of recent publications and texts that can be designated as Communication Classics was carried out, which was subdivided into methodical-technical and theoretical-epistemological procedures of in order to identify and evaluate arguments on Media issue. Through the results obtained the main conclusions are: in recent texts media is a conceptual gap, since the problematization directed to the concept itself is representative in less than 1% of the texts analyzed. In relation to the classical texts, although there are some clues of space for the f hypothetical constructions that collaborate for the conceptualization, the intuition of the epistemological debate, on the prominence of the non-specialized use of the term are confirmed.
RESUMEN
Esta investigación está motivada por la pregunta ¿Cuál es el medio de comunicación en los enfoques circunscrito por la producción nacional? Como resultado, las encuestas realizadas específicamente en el campo de la comunicación fueron totalmente vinculados a referencias utilizadas en los cursos de posgrado Stricto Sensu y en revistas y actas en cobertura nacional de los últimos siete años. Con el fin de cartografiar proposiciones conceptuales sobre medio de comunicación y con base en el enfoque metodológico de Lopes (2005), se realizó un análisis de publicaciones recientes y textos que pueden ser designados como clásicos de Comunicación, que se subdividió en procedimientos metódico-técnicos y teórico-epistemológicos para identificar y evaluar los argumentos sobre el tema. A través de los resultados obtenidos las principales conclusiones son: En textos recientes el medio de comunicación es una brecha conceptual, ya que la problematización dirigida al concepto mismo es representativa en menos del 1% de los textos analizados. En cuanto a los textos clásicos, aunque existen algunas pistas de espacio para la formulación de construcciones hipotéticas que colaboran para la conceptualización, se confirman las intuiciones del debate epistemológico sobre la prominencia del uso no especializado del término.
LISTA DE TABELAS
TABELA 1 – Tabela verdade: Conjunção ... p. 63 TABELA 2 – Tabela verdade: Disjunção ... p. 63 TABELA 3 – Tabela verdade: Negação ... p. 64 TABELA 4 – Tabela verdade: Condicional ... p. 64 TABELA 5 – Tabela verdade: Bicondicional ... p. 64 TABELA 6 – Disciplinas gerais nos cursos de pós-graduação Stricto Sensu ... p. 67 TABELA 7 – Lista das referências bibliográficas mais frequentes nos cursos de pós-graduação Stricto Sensu ... p. 69 TABELA 8 – Lista de periódicos selecionados ... p. 79
LISTA DE FIGURAS
FIGURA 1 – Modelo Metodológico de Pesquisa ... p.14 FIGURA 2 – Componentes sintagmáticos do modelo metodológico ... p.17 FIGURA 3 – Modelo metódico-técnico de identificação e análise de conceito ... p. 59 FIGURA 4 – Distinção de Premissa(s) ... p. 62 FIGURA 5 – Modelo técnico básico de tratamento de argumentos ... p. 63 FIGURA 6 – Estrutura teórico-conceitual em Lasswell ... p. 145 FIGURA 7 – Objeto-modelo de caixa negra ... p.146 FIGURA 8 – Primeira estrutura teórico-conceitual em Lazarsfeld, Berelson e Gaudet .... p. 153 FIGURA 9 – Segunda estrutura teórico-conceitual em Lazarsfeld, Berelson e Gaudet .... p. 154 FIGURA 10 – Oposição Teoria Hipodérmica – Two-step flow ... p. 155 FIGURA 11 – Estrutura teórico-conceitual em Adorno e Horkheimer ... p. 161 FIGURA 12 – Estrutura teórico-conceitual em McLuhan ... p. 163 FIGURA 13 – Estrutura teórico-conceitual em Martín-Barbero ... p. 168
LISTA DE GRÁFICOS
GRÁFICO 1 – Distribuição de referências por disciplina ... p. 68 GRÁFICO 2 – Frequência de referências bibliográficas nos cursos de pós-graduação Stricto Sensu ... p. 70 GRÁFICO 3 – Frequência de citações nas três principais referências sobre Teorias da Comunicação ... p. 71 GRÁFICO 4 – Termos com maior frequência em Lasswell ... p. 84 GRÁFICO 5 – Meio em Lasswell ... p. 85 GRÁFICO 6 – Conjuntos de termos mediante funções em Lazarsfeld, Berelson e Gaudet ... p. 87 GRÁFICO 7 – Termos com maior relevância qualitativa em Lazarsfeld, Berelson e Gaudet ... p. 88 GRÁFICO 8 – Meio e uso de extensões em Lazarsfeld, Berelson e Gaudet ... p. 89 GRÁFICO 9 – Efeitos em Lazarsfeld, Berelson e Gaudet ... p. 90 GRÁFICO 10 – Termos com maior frequência em Adorno e Horkheimer ... p. 91 GRÁFICO 11 – Termos com maior frequência em McLuhan ... p. 93 GRÁFICO 12 – Termos com maior frequência em McLuhan, concatenando extensões de Meio ... p. 94 GRÁFICO 13 – Meio/Veículo e uso de extensões em McLuhan ... p. 95 GRÁFICO 14 – Termos com maior frequência em Martín-Barbero ... p. 97 GRÁFICO 15 – Desdobramentos de Cultura em Martín-Barbero ... p. 98 GRÁFICO 16 – Meio em Martín-Barbero ... p. 99 GRÁFICO 17 – Desdobramentos de Comunicação em Martín-Barbero ... p. 100 GRÁFICO 18 – Distribuição dos textos nos periódicos ... p. 102 GRÁFICO 19 – Distribuição dos textos entre 2010 e 2016 ... p. 103 GRÁFICO 20 – Distribuição de textos no periódico Animus ... p. 104 GRÁFICO 21 – Distribuição de textos no periódico Brazilian Journalism Research ... p. 105 GRÁFICO 22 – Distribuição de textos no periódico Communicare ... p. 106 GRÁFICO 23 – Distribuição de textos no periódico Estudos em Jornalismo e Mídia ... p. 106 GRÁFICO 24 – Distribuição de textos no periódico Extraprensa ... p. 107 GRÁFICO 25 – Distribuição de textos no periódico Ciberlegenda ... p. 108 GRÁFICO 26 – Distribuição de textos no periódico Galáxia ... p. 109 GRÁFICO 27 – Distribuição de textos no periódico Signos do consumo ... p. 110
GRÁFICO 28 – Distribuição de textos no periódico Comunicação & Sociedade ... p. 111 GRÁFICO 29 – Distribuição de textos no periódico Comunicação, mídia e consumo ... p. 112 GRÁFICO 30 – Distribuição de textos no periódico Eptic ... p. 113 GRÁFICO 31 – Distribuição de textos no periódico Estudos em Comunicação ... p. 114 GRÁFICO 32 – Distribuição de textos no periódico Fronteiras ... p. 115 GRÁFICO 33 – Distribuição de textos no periódico Compolítica ... p. 116 GRÁFICO 34 – Distribuição de textos no periódico Comunicação e Educação ... p. 116 GRÁFICO 35 – Distribuição de textos no periódico Contemporânea ... p. 117 GRÁFICO 36 – Distribuição de textos no periódico Culturas midiáticas ... p. 117 GRÁFICO 37 – Distribuição de textos no periódico ECOM ... p. 118 GRÁFICO 38 – Distribuição de textos no periódico Esferas ... p. 118 GRÁFICO 39 – Distribuição de textos no periódico Liinc ... p. 119 GRÁFICO 40 – Distribuição de textos no periódico Opinião Pública ... p. 119 GRÁFICO 41 – Distribuição de textos no periódico Comunicação & Informação ... p. 121 GRÁFICO 42 – Distribuição de textos no periódico Conexão ... p. 121 GRÁFICO 43 – Distribuição de textos no periódico Contracampo ... p. 122 GRÁFICO 44 – Distribuição de textos no periódico ECO-Pós ... p. 122 GRÁFICO 45 – Distribuição de textos no periódico Líbero ... p. 123 GRÁFICO 46 – Distribuição de textos no periódico Logos ... p. 123 GRÁFICO 47 – Distribuição de textos no periódico Novos Olhares ... p. 124 GRÁFICO 48 – Distribuição de textos no periódico Intexto ... p. 125 GRÁFICO 49 – Distribuição de textos no periódico Organicom ... p. 126 GRÁFICO 50 – Distribuição de textos no periódico Comunicação e Inovação ... p. 127 GRÁFICO 51 – Distribuição de textos no periódico Geminis ... p. 128 GRÁFICO 52 – Distribuição de textos no periódico Intercom ... p. 128 GRÁFICO 53 – Distribuição de textos no periódico Lumina ... p. 129 GRÁFICO 54 – Distribuição de textos no periódico Rizoma ... p. 129 GRÁFICO 55 – Distribuição de textos no periódico Rumores ... p. 130 GRÁFICO 56 – Distribuição de textos no periódico Rev. Bras. Hist. da Mídia ... p. 131 GRÁFICO 57 – Distribuição de textos no periódico E-compós ... p. 132 GRÁFICO 58 – Distribuição de textos no periódico Famecos ... p. 132 GRÁFICO 59 – Distribuição de textos no periódico Matrizes ... p. 133 GRÁFICO 60 – Distribuição de textos no periódico Sessões do imaginário ... p. 133 GRÁFICO 61 – Distribuição de textos no periódico Verso e Reverso ... p. 134
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO --- 13
Capítulo I – POSSIBILIDADE DE DEMARCAÇÃO CIENTÍFICA E PERTINÊNCIA DA COMUNICAÇÃO --- 21
1. Centralidade da demarcação e da lógica científica na discussão epistemológica --- 28
2. A questão da (inter)disciplinaridade a partir do deslocamento da caixa negra para a caixa translúcida --- 39
3. Pertinência epistemológica do Problema de Pesquisa --- 45
Capítulo II – INSTÂNCIAS METÓDICA E TÉCNICA DA ESTRATÉGIA DE INVESTIGAÇÃO PARA O MAPEAMENTO DO CONCEITO DE MEIO DE COMUNICAÇÃO --- 51
1. Procedimentos metódicos e técnicos de identificação e análise de conceito-argumento --- 58
2. Seleção da unidade de pesquisa de textos originais --- 65
3. Seleção da unidade de pesquisa de textos recentes--- 76
Capítulo III – DESCRIÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS EM NÍVEL METÓDICO-TÉCNICO --- 81
1. Textos originais --- 82
1.1 A estrutura e a função da comunicação na sociedade --- 83
1.2 The people’s choice: how the voter makes up his mind in a presidential campaign --- 87
1.3 Dialética do esclarecimento --- 90
1.4 Os meios de comunicação como extensões do homem --- 93
1.5 Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia --- 96
2. Textos recentes --- 101
Capítulo IV – INTERPRETAÇÃO EM NÍVEL TEÓRICO-EPISTEMOLÓGICO DOS RESULTADOS DA ANÁLISE METÓDICO-TÉCNICA --- 139
1. A estrutura e a função da comunicação na sociedade --- 144
2. The people’s choice: how the voter makes up his mind in a presidential campaign --- 152
3. Dialética do esclarecimento --- 159
4. Os meios de comunicação como extensões do homem --- 163
5. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia --- 167
6. Textos recentes --- 171
CONSIDERAÇÕES FINAIS --- 177
O modo científico de pensar é ao mesmo tempo imaginativo e disciplinado. Isso é fundamental para o seu sucesso. A ciência nos convida a acolher os fatos, mesmo quando eles não se ajustam às nossas preconcepções. Aconselha-nos a guardar hipóteses alternativas em nossas mentes, para ver qual se adapta melhor à realidade. Impõe-nos um equilíbrio delicado entre uma abertura sem barreiras para ideias novas, por mais heréticas que sejam, e o exame cético mais rigoroso de tudo - das novas ideias e do conhecimento estabelecido. Esse tipo de pensamento é também uma ferramenta essencial para a democracia numa era de mudanças (SAGAN, 1996, p. 32).
De acordo com a perspectiva do realismo científico, o fazer científico estável e desejável é concebido como um equilíbrio entre os dados empíricos e a reflexão teórica, considerando as limitações do conhecimento científico originadas na falibilidade humana.
A partir de tal posição (também denominada racionalismo crítico e falsicacionismo), em observação às limitações humanas e, por conseguinte, da proposta aqui produzida, tem-se como ponto de partida a seguinte premissa: nenhuma investigação que se pretenda científica pode ser completa e definitiva e, para ser exequível, demanda recortes.
O recorte proposto é propulsionado pela noção de que a origem/início da pesquisa científica é o Problema, que por sua vez só pode ser identificado a partir de uma perspectiva teórica porque, contrariando o indutivismo (positivismo), a Ciência não começa com a observação.
O início do recorte deixa explícita a primazia das reflexões epistemológica e teórica nesta investigação, o que conduziu à observação do modelo metodológico estruturado em instâncias e fases por Lopes (2005).
Em tal modelo, as instâncias são inter-relacionadas, de forma que em cada fase prática da pesquisa, exige-se coerência entre os diferentes níveis, de modo que, invariavelmente, a orientação epistemológica acaba por ser retomada, visto que a instância epistemológica:
[...] é a instância que exerce uma função de vigilância crítica na pesquisa. Ao longo de toda a pesquisa essa instância se traduz em movimentos ou operações destinadas à explicitação dos obstáculos epistemológicas da pesquisa e sua autocorreção e à construção do objeto científico (LOPES, 2005, p. 121).
FIGURA 1 – Modelo Metodológico de Pesquisa
Fonte: Lopes (2005, p. 156).
Ainda na perspectiva da instância epistemológica e em concordância com o posicionamento adotado, tomou-se como noção de Teoria a proposta de Mario Bunge (2012, p. 380), na qual se trata de “sistema hipotético-dedutivo: isto é, um sistema composto de um conjunto de assunções e de suas consequências lógicas [...] é um conjunto de proposições fechadas sob dedução (isto é, incluindo todas as consequências lógicas dos axiomas) [...]”.
Esse conjunto de proposições inter-relacionadas forma um quadro que indica os limites das explicações oferecidas e, portanto, a pertinência dessas e das questões que as originam. É nesse contexto que se compreende a construção de um determinado Objeto de pesquisa delimitado por um viés disciplinar, na medida em que a observação do Objeto empírico será orientada e terá sentido a partir da estrutura hipotético-dedutiva.
Seguindo tal raciocínio, além de ser passível de verificação empírica e/ou de suas explicações, o reconhecimento de uma proposta como científica demanda compatibilidade de diálogo com o conhecimento teórico estabelecido, sem que isso seja equivalente a um consenso em relação às escolhas ou refutações de hipóteses e abordagens, por exemplo (BUNGE, 1980).
trabalho foi realizar um levantamento de investigações acerca da delimitação do conhecimento teórico estabelecido no domínio da Comunicação, dentro das quais se destacou o entendimento que identifica sete tradições1 para a conformação da área (CRAIG, 1999).
Em âmbito nacional, distinguiram-se os trabalhos de Luís Mauro Sá Martino, em especial o artigo publicado em 2008, A ilusão teórica no campo da comunicação, que realiza uma comparação entre livros nacionais publicados entre 1997 e 2007, e de Luiz Claudio Martino, com ênfase no texto O campo da comunicação e suas teorias (2008), no qual se discutem, entre outras questões, as condições para esse tipo de delimitação.
Sem ignorar os estudos mais recentes que são impulsionados pelas mesmas dificuldades, se faz necessário destacar a maior variação quantitativa: trata-se da identificação de 604 diferentes teorias/vertentes em 25% do conteúdo dos periódicos Journalism & Mass Communication Quarterly, Journal of Communication e Journal of Broadcasting & Electronic Media (BRYANT; MIRON, 2004).
Evidenciada ou não na superfície dos textos, a questão primária Quais são os conhecimentos teóricos da Comunicação? desdobra-se em outras perguntas que, em razão da variedade e de suas inter-relações, influenciaram a insistência inicial de localizar o eixo condutor da reflexão.
Neste estudo, o eixo foi organizado a partir dos debates mais recentes de caráter teórico-epistemológico em âmbito nacional, dentro dos quais, além do consenso a respeito da diversidade nas investigações em Comunicação, observa-se por exemplo, como apontam Braga (2011) e Rüdiger (2014), alheamento em relação ao conceito de Meio de Comunicação.
A partir disso, sem que se pretenda conceber tal recorte como absoluto, ficou estabelecida como pergunta chave Que é Meio de Comunicação?, circunscrita pela produção científica em âmbito nacional e, por isso, abarcando para o entendimento do Estado da Arte informações relativas aos cursos de Pós-Graduação em Comunicação, periódicos e eventos da área.
Demarca-se aqui um empenho fundamentalmente conceitual e que, cônscio da importância da evidência empírica, delimita-se na análise e verificação das explicações teóricas para que seja exequível do ponto de vista metódico e técnico, e justificável, nos níveis
Bunge (1980) em relação às estratégias de investigação científica.
Dentre as referências bibliográficas mais presentes nos cursos de pós-graduação Stricto Sensu e nos artigos publicados em âmbito nacional, centrados em debates teórico-epistemológicos, está o livro organizado por Hohlfeldt, Martino e França (2007), dentro do qual Martino (2007), especificamente, expõe as principais dificuldades à propósito da definição do Objeto. Sobre isso, destaca que:
Primeiramente seria preciso rever mais atentamente o que realmente as grandes escolas chamam de meios de comunicação e de cultura de massa. O funcionalismo americano – ao qual se atribui inadvertidamente a análise dos meios de comunicação – está na verdade longe de ter um conceito na matéria. A fragmentação analítica do processo comunicativo (esquema de Lasswell) e sua busca dos efeitos da comunicação de massa estabelecem um quadro de análise que acaba por condicionar o desenvolvimento das pesquisas de modo a não privilegiar o estudo dos meios de comunicação. Representado por diferentes tradições de pesquisa, os objetos historicamente privilegiados pelo funcionalismo são: a persuasão, o controle social, os usos e gratificações, os processos de produção de notícia... Não se encontrará aí nenhuma pesquisa conceptual ou teórica sobre o que é um meio de comunicação. O que representaria um erro primário e capital para uma empreitada que se pretende científica, caso perseverássemos em atribuir a esta escola um objeto que não é exatamente o seu. Restrito à observação da eficácia dos processos comunicativos, o funcionalismo americano negligencia a análise dos instrumentos tecnológicos envolvidos nesses processos, como negligencia também a análise da dimensão histórica da pertinência desses instrumentos, quer dizer, a análise do processo através do qual os meios de comunicação adquirem sua eficácia ao emergirem como elemento estruturante de uma sociedade historicamente dada.
De outra parte, à orientação sintética adotada pela Escola de Frankfurt – fortemente influenciada pelos conceitos marxistas (alienação, ideologia...), e talvez demasiadamente voltada a uma abordagem político-econômica dos processos de comunicação de massa – seria preciso integrar uma análise dos meios de comunicação no que toca sua eficácia enquanto tecnologias da inteligência, como faz Jack Goody, por exemplo – que, identificando a cultura com os processos comunicativos, vê nos meios de comunicação (e em outras tecnologias da inteligência) a possibilidade de fundamentar a problemática da cultura em uma base positiva -, pois é preciso que os estudos de Comunicação não se percam os laços com os dispositivos tecnológicos na base do processo (MARTINO, 2007, p. 29-30).
Para o trabalho aqui proposto, entende-se que há ainda duas dificuldades: em primeiro lugar, considerar Meios de Comunicação e Cultura de Massa com a mesma ênfase demandaria o amplo escrutínio de perspectivas teóricas, especialmente filosóficas e sociológicas, que descentralizariam a pergunta chave, já fundamentada em nível epistemológico. Em segundo lugar, outros trabalhos (BRYANT; MIRON, 2004; MARTINO, L.C., 2008; MARTINO, L.M., 2008) já citados nesta Introdução, incluindo do próprio autor, revelam a dificuldade de se
dentre outras questões.
Excluindo-se o tratamento da Cultura de Massa como central, buscou-se a delimitação da questão teórica como resolução da segunda dificuldade. Dessa forma, a investigação dirige-se à Que é Meio de Comunicação nas abordagens teóricas circunscritas pela produção nacional e, portanto, refere-se ao mapeamento de explicações acerca do conceito de Meio de Comunicação e ao retorno à díade epistemologia-teoria a partir do resultado originado por tal mapeamento. Para isso, consideram-se como base de orientação da produção nacional as referências bibliográficas das disciplinas sobre Teorias da Comunicação dos cursos de pós-graduação Stricto Sensu e artigos recentes publicados em periódicos, sendo os critérios de seleção melhor explicitados em momento oportuno deste trabalho.
Retomando Lopes (2005), tem-se a indicação dos componentes sintagmáticos do modelo metodológico proposto pela autora (2005) na Figura 2:
FIGURA 2 – Componentes sintagmáticos do modelo metodológico
principal do Quadro Teórico de Referência (QTR) utilizado, que a partir da constituição da pesquisa por instâncias está distribuído da seguinte maneira:
Epistemológica: Bunge (1980; 2013), Lakatos (1979), Popper (1973; 1979; 2013), Sokal e Bricmont (2010), na perspectiva do realismo científico;
Teórica: Martino, L. C. (2007; 2008) e Rüdiger (2014), fundamentalmente em relação à pertinência da questão central do trabalho;
Metódica: Hohlfeldt, Martino e França (2007), Mattelart e Mattelart (2005) e Wolf (2008), do ponto de vista da relação com a execução técnica. Puntel (2008) e Weitz (1988), a propósito do vínculo entre o metódico-técnico e o epistemológico-teórico; Técnica: Baronett (2009), Bispo, Castanheira e Souza Filho (2014); Carnielli e Epstein (2011) para as análises pertinentes à díade metódica-técnica e sua operacionalização.
As referências foram selecionadas a partir de dois critérios básicos: (1) da pertinência - muitas vezes somada à raridade - da abordagem central de seus autores, e (2) seu auxílio na solução de dificuldades relativas às instâncias em que estão inseridas. Independente do parâmetro utilizado na escolha, os esclarecimentos sobre eles e sobre as próprias referências foram feitos mediante sua inserção no desenvolvimento do trabalho e, portanto, não serão repetidos aqui.
Com base na maior parte dos referenciais mencionados e o projeto inicial desta pesquisa, foram realizados estudos exploratórios2 que colaboraram para a realização de ajustes, fundamentalmente técnicos, de coleta, descrição e análise, além de serem objeto de reflexão epistemológica e teórica para a manutenção de centralização do problema delimitado.
Tecnicamente, os estudos exploratórios incluíram o levantamento de artigos publicados em âmbito nacional, de 2010 a 2015, orientados pelo termo “Meio de Comunicação”. Além de
2 No artigo Comunicação e Ciência: definição de Meio como elemento para distinção do domínio, apresentado do
II Encontro Internacional de Tecnologia, Comunicação e Ciência Cognitiva em dezembro de 2015 e publicado na segunda edição especial (dezembro de 2016) do Brazilian Journal of Technology, Communication, and Cognitive
Science pela autora em coautoria com André Rosa de Oliveira, há um exemplo da dificuldade técnica ressaltada.
Outra pesquisa exploratória com a mesma base de textos foi apresentada em coautoria com Daniel Costa de Paiva no XXXIX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, no GP Teorias da Comunicação (setembro de 2016), no artigo Lacuna teórica do Meio de Comunicação: análise da relação termo-conceito-argumento em
uma grande variedade de termos utilizados como sinônimo de “Meio”.
Tendo em vista a questão chave desta investigação e os estudos exploratórios realizados3, percebeu-se a possibilidade de a divergência e a pluralidade terminológica relativa ao Meio de Comunicação não produzirem incomensurabilidade de caráter conceitual e, por conseguinte, a refutação (ou respaldo) da incomensurabilidade poderia ser mantida no nível estritamente teórico-epistemológico (BRAGA, 2011; LAKATOS, 1979; MARTINO, 2014; POPPER, 1973 e 2013).
Dito de outra forma, supõe-se que a incomensurabilidade não se justifica no âmbito epistemológico4, mas também não no teórico no que tange a ideia de Meio de Comunicação, especialmente se constatado que seu esclarecimento conceitual não é central no desenvolvimento das abordagens que são consideradas pertinentes às Teorias da Comunicação. Ainda assim, pressupõe-se também que é possível produzir, a partir da análise dos textos mais estudados, um delineamento básico acerca do que se pensa como Meio de Comunicação.
Dessa maneira, o mapeamento das explicações relativas ao conceito de Meio de Comunicação como Objetivo geral deste trabalho desdobra-se em questões acerca das inter-relações conceituais que estruturam as perspectivas/obras selecionadas para análise, bem como as aproximações e divergências das chaves-conceituais e a consistência argumentativa (relações formais) entre elas5.
Para a exposição desta pesquisa, o trabalho foi organizado de forma que no Capítulo I – Possibilidade de demarcação científica e pertinência da Comunicação, destaca-se a justificação da posição do realismo científico (BUNGE, 2013; LAKATOS, 1979; POPPER, 2013; SOKAL; BRICMONT, 2010), argumentando-se que responde de modo mais adequado ao ceticismo do que o antirrealismo. A proposta da Interdisciplinaridade, particularmente no domínio da Comunicação, é entendida como uma aproximação do ceticismo/relativismo, especialmente se fundamentada pela noção de incomensurabilidade presente em Kuhn (2001). Tudo isso foi colocado em questão nesse primeiro capítulo para demonstrar a partir de quais
3 A ampliação/complementação das pesquisas mencionadas está incluída neste trabalho.
4 O que se fundamenta a partir do posicionamento do realismo científico em relação à defesa da
interdisciplinaridade.
Interdisciplinaridade como ponto de partida.
Sequencialmente, no Capítulo II – Instâncias metódica e técnica da estratégia de investigação para o mapeamento do conceito de Meio de Comunicação, apresenta-se o percurso de seleção que levou à distinção de duas unidades de pesquisa: textos originais da Comunicação e textos recentes. Além disso, são apresentadas as opções procedimentais de coleta, tratamento de dados e de análise técnica dos argumentos e a justificação a respeito de tais escolhas.
No Capítulo III – Descrição e análise dos resultados em nível metódico-técnico, são apresentados os resultados da análise metódica-técnica das duas unidades de pesquisa, além da justificação, frente a tais resultados, da não aplicação dos procedimentos em nível teórico-epistemológico para toda a unidade de pesquisa relativa aos textos recentes.
Já no Capítulo IV – Interpretação em nível teórico-epistemológico dos resultados da análise metódico-técnica, realiza-se um retorno aos fundamentos que foram expostos no primeiro capítulo e que conduziram à pergunta Que é Meio de Comunicação nas abordagens circunscritas pela produção nacional?, buscando-se articular uma interpretação dos resultados da análise exposta no capítulo III a partir do nível teórico-epistemológico para a manutenção da vigilância epistemológica, tal como proposta por Lopes (2005), bem como para a conservação da coerência metodológica entre as instâncias da investigação.
Finalmente, o trabalho é encerrado com a apresentação das Considerações Finais e das Referências bibliográficas.
Capítulo I – POSSIBILIDADE DE DEMARCAÇÃO
CIENTÍFICA E PERTINÊNCIA DA COMUNICAÇÃO
Se a estrutura estabelecida pela ciência está plausivelmente errada (por ser arbitrária, irrelevante, impatriótica, ímpia ou por servir sobretudo aos interesses dos poderosos), então podemos nos poupar o trabalho de compreender o que tantas pessoas consideram um corpo de conhecimento complexo, difícil, altamente matemático e contrário à intuição. Então todos os cientistas teriam o castigo merecido. A inveja da ciência poderia ser superada. Aqueles que têm percorrido outros caminhos em busca de conhecimento, aqueles que secretamente têm acolhido convicções que a ciência desprezou, poderiam ter então o seu lugar ao sol (SAGAN, 1996, p. 214).
Tendo em vista observações da Filosofia da Ciência da linha falsicacionista, neste capítulo são abordadas características de pesquisa, isto é, da lógica dos desenvolvimentos das atividades científicas e, por conseguinte, perpassa por aspectos da metafísica e da epistemologia.
Buscando não deslocar o centro deste trabalho da Ciência para a Filosofia, interessa aqui estabelecer claramente os parâmetros que fundamentam a investigação e, consequentemente, não dificultar quaisquer análises das argumentações expostas.
Como primeiro esclarecimento, tem-se que todo trabalho científico é uma argumentação e, sendo assim, implica o escrutínio conceitual, em nível lógico-dedutivo e em sua relação com aspectos empíricos. Portanto, ainda que sua interface com a Filosofia seja evidente, o que o caracteriza como produtivo, justamente por diferenciar-se da Filosofia, é o passo que dá ao encontro da teoria e dos índices.
Aqui já está intrínseco o posicionamento do realismo científico que faz parte deste estudo, ou seja, entende-se que o papel da Ciência é versar sobre a realidade, o conjunto das coisas existentes, incluindo os elementos que não podem ser totalmente abrangidos pela percepção (POPPER, 2013).
Referindo-se ao que está subjacente à realidade que pode ser detectada, as questões que alcançam as entidades inobserváveis são fundamentais nas reflexões científicas porque as delimitam, afastando-as, sobretudo, do senso comum e das pseudociências, além de viabilizar predições acerca do observável. Tal preocupação se justifica porque a realidade (observável e inobservável) não é construída, não é subjetiva, ela existe, tendo o pesquisador a percebido ou não. Esse é o motivo pelo qual:
Há muita coisa que a ciência não compreende, muitos mistérios que ainda devem ser resolvidos. Num Universo com dezenas de bilhões de anos-luz de extensão e uns 10 ou 15 bilhões de anos de idade, talvez seja assim para sempre. Tropeçamos constantemente em surpresas. Entretanto, para alguns escritores religiosos e da Nova Era, os cientistas acreditam que “só existe aquilo que descobrem”. Os cientistas podem rejeitar revelações místicas para as quais não há outra evidência senão o testemunho de alguém, mas dificilmente acreditam que seu conhecimento da natureza seja completo (SAGAN, 1996, p. 32).
A implicação do posicionamento realista assumido que é colocada em questão refere-se ao fato de que “[...] os dados observacionais constituem indícios últimos para as afirmações sobre as entidades inobserváveis” (OKASHA, 2002, p. 71-72, tradução nossa)6. É a consequência do argumento realista sobre tal ponto que justifica sua prevalência sobre o antirrealismo e, no caso específico deste trabalho, a preferência da delimitação de Ciência a partir de Karl Popper e Mario Bunge (e as críticas de Sokal e Bricmont), devendo-se considerar que a delimitação/demarcação científica se relaciona diretamente com o que Hilton Japiassú e Danilo Marcondes apontam no Dicionário básico de Filosofia como cientificidade:
[...] evoca os critérios que nos permitem definir o que constitui um conhecimento científico de fato e distingui-lo claramente das outras formas de saber não-científicas. Dois são os critérios mais correntes: o recurso à dedução racional e o recurso à verificação experimental. Só há conhecimento científico a partir do momento em que podemos repetir determinado fenômeno ou prever com certeza o aparecimento desse fenômeno, sob determinadas condições. Insatisfeito com o critério da verificabilidade, defendido pelos empiristas lógicos — segundo o qual uma teoria só é científica quando suscetível de uma verificação experimental real ou possível —, Karl Popper propõe um critério demarcatório entre o científico e o não-científico [...] (JAPIASSÚ; MARCONDES, 2001, p. 36).
O antirrealismo sugere que os dados manifestos subdeterminam a Ciência, isto é, os fenômenos podem ser esclarecidos por reflexões conflitantes e, por conseguinte, não há como precisar, abarcando-se entidades inobserváveis7 ou não, se determinada teoria é verdadeira e se deve prevalecer sobre outras.
Já para o realismo, tal como explica Okasha (2002), há diversos outros critérios (como, por exemplo, o da plausibilidade) que permitem escolher entre teorias incompatíveis. Isso ocorre porque os critérios permitem classificar a qualidade das explicações fornecidas pelas
6 No original: [...] observational data constitute the ultimate evidence for claims about unobservable entities
(OKASHA, 2002, p. 71-72).
7 Okasha (2002) explica por exemplo que, embora os organismos vivos que existem no planeta sejam observáveis,
nunca foram efetivamente observados em sua totalidade pelo homem. E essa é uma das razões pela qual o critério da falsificação é ainda o mais adequado.
teorias e, portanto, ainda que mais de uma forneça esclarecimentos sobre os mesmos dados, é possível oferecer uma justificação suficiente sobre a escolha de uma explanação em detrimento de outras.
Isso significa que a escolha de uma explicação específica não é, em Ciência, arbitrária. Os critérios de demarcação fornecem a possibilidade de que a prevalência de determinada teoria seja explicitada e contestada abertamente.
Admitir a contestação e a refutação de explicações não permite que se conclua que a Ciência é relativista, subjetivista. Ao contrário, a difere da indesejável pseudociência:
A pseudociência difere da ciência errônea. A ciência prospera com seus erros, eliminando-os um a um. Conclusões falsas são tiradas todo o tempo, mas elas constituem tentativas. As hipóteses são formuladas de modo a poderem ser refutadas. Uma sequência de hipóteses alternativas é confrontada com os experimentos e a observação. A ciência tateia e cambaleia em busca de melhor compreensão. Alguns sentimentos de propriedade individual são certamente ofendidos quando uma hipótese científica não é aprovada, mas essas refutações são reconhecidas como centrais para o empreendimento científico.
A pseudociência é exatamente o oposto. As hipóteses são formuladas de modo a se tornar invulneráveis a qualquer experimento que ofereça uma perspectiva de refutação, para que em princípio não possam ser invalidadas. Os profissionais são defensivos e cautelosos. Faz-se oposição ao escrutínio cético. Quando a hipótese pseudocientífica não consegue entusiasmar os cientistas, deduz-se que há conspirações para eliminá-la (SAGAN, 1996, p. 28).
Este aspecto da prevalência de uma teoria sobre as outras está diretamente relacionado às noções de Paradigma, de Thomas Kuhn, e Programa de investigação, de Imre Lakatos, as quais estão circunscritas pelo problema da demarcação.
Nesse sentido, todas as propostas dizem respeito às justificações do conhecimento científico, ou seja, perpassam questões como: quais teorias são aceitáveis? Quais são as questões abrangidas pelo conhecimento científico? Quais são os parâmetros de avaliação das teorias científicas? Então, a Epistemologia e a Lógica que se dirigem à Ciência assumem, em última instância, caráter normativo, oferecendo argumentos sobre o que os cientistas devem ou não levar à frente como atividade científica:
Uma vez que o debate realismo/antirrealismo diz respeito ao objetivo da ciência, poder-se-ia pensar que seria resolvido simplesmente perguntando aos próprios cientistas. Por que não fazer uma enquete aos cientistas perguntando-lhes sobre os seus objetivos? Mas essa sugestão ignora o problema — toma a expressão “o objetivo da ciência” muito literalmente. Quando perguntamos qual é o objetivo da ciência, não estamos perguntando sobre os objetivos individuais de cada cientista. Ao invés disso, estamos perguntando como melhor dar sentido ao que os cientistas dizem e fazem — como interpretar o empreendimento científico. Os realistas pensam que deveríamos interpretar todas as teorias científicas como tentativas de descrições da realidade; os antirrealistas pensam que essa interpretação é inapropriada para as teorias que falam de entidades e processos inobserváveis. Embora seja interessante descobrir as próprias opiniões dos cientistas sobre o debate realismo/antirrealismo, a questão é, em última análise, filosófica (OKASHA, 2002, p. 60-61, tradução nossa)8.
A Filosofia da Ciência sobre a qual fala Okasha (2002) não é a única existente. Este é o motivo pelo qual Imre Lakatos, por exemplo, se ocupou em seus estudos das Filosofias da Ciência nos últimos anos da sua vida, questionando quais histórias da Ciência surgem a partir de uma ou outra concepção da dinâmica das atividades científicas e, finalmente, formulou a proposta de Programa de investigação.
Reiterando que não se pretende produzir deslocamento da Ciência para a Filosofia, cabe resgatar as principais propostas, tendo em vista não só os diálogos que propulsionam na Filosofia, mas sua frequência no arcabouço dos debates no domínio da Comunicação.
Entretanto, o resgate dessas propostas não é feito individualmente e/ou realizando o escrutínio de todos os aspectos porque assim se perderia a ênfase na cientificidade. Ao contrário, a remissão a tais propostas é executada à luz da sua produtividade e adequação ao exercício científico. E por isso, cabe questionar, qual é o lugar da discussão epistemológica na Ciência e, sequencialmente, no domínio da Comunicação?
8 No original: “Since the realism/anti-realism debate concerns the aim of science, one might think it could be
resolved by simply asking the scientists themselves. Why not do a straw poll of scientists asking them about their aims? But this suggestion misses the point - it takes the expression 'the aim of science' too literally. When we ask what the aim of science is, we are not asking about the aims of individual scientists. Rather, we are asking how best to make sense of what scientists say and do - how to interpret the scientific enterprise. Realists think we should interpret all scientific theories as attempted descriptions of reality; anti-realists think this interpretation is inappropriate for theories that talk about unobservable entities and processes. While it would certainly be interesting to discover scientists' own views on the realism/antirealism debate, the issue is ultimately a philosophical one” (OKASHA, 2002, p. 60-61).
1. Centralidade da demarcação e da lógica científica na discussão
epistemológica
Recorrendo-se ao Dicionário Oxford de filosofia tem-se que:
Epistemologia (do gr., epistemê: conhecimento) Teoria do conhecimento. Algumas
de suas questões centrais são: a origem do conhecimento; o lugar da experiência e da razão na gênese do conhecimento; a relação entre o conhecimento e a certeza, e entre o conhecimento e a impossibilidade do erro; a possibilidade do ceticismo universal; e as formas de conhecimento que emergem das novas conceitualizações do mundo. Todos esses tópicos se relacionam com outros temas centrais da filosofia, tais como a natureza da verdade e a natureza da experiência e do significado [...] (BLACKBURN, 1997, p. 118-119).
Observando-se as questões epistemológicas indicadas por Blackburn (1997) é possível distinguir algumas preocupações principais: (1) a questão do ceticismo (2) o problema da demarcação (3) aspectos de métodos.
No início deste capítulo apontou-se claramente para o posicionamento do realismo, cujo confronto habitual é com o antirrealismo/idealismo. Entretanto, em ambos os casos o conhecimento é possível, o que significa que as duas posições se opõem ao ceticismo, à negação de que o conhecimento, racional e diferente de mera opinião ou crença, possa ser alcançado.
A adoção do ceticismo teria como consequência o esvaziamento do exercício científico e, também por este motivo, não poderia configurar como central neste trabalho. Isso não significa que sejam ignoradas as importantes objeções que apresenta sobre o posicionamento realista, mas apenas que o lugar de escrutínio das dificuldades que coloca está (interessa à) na Filosofia de caráter geral.
O principal motivo pelo qual não é possível ignorar as objeções do ceticismo está calcado no entendimento de que nenhuma das questões epistemológicas (problemas) é independente. Dessa maneira, dependendo da resposta que se adota frente a uma delas, há diferentes consequências lógicas às outras.
Apesar disso, é justificado que no âmbito desta pesquisa o ceticismo seja ao menos parcialmente isolado porque a investigação não se dirige a todo e qualquer conhecimento sobre o qual os problemas epistemológicos podem versar, mas apenas em torno do conhecimento dito científico. E, neste caso, a ênfase no problema da demarcação e dos métodos se coloca como mais adequada. Sobre isso, a importância da proposta de Karl Raimund Popper é colocada da seguinte maneira:
Ficou famoso com seu primeiro livro Logik der Forschung (1935), no qual destrói as tentativas tradicionais de fundamentar o método científico no apoio que a experiência proporciona às generalizações e às teorias adequadamente construídas. Acentuando as dificuldades que o problema da indução põe a qualquer método desse gênero, Popper propõe como alternativa uma epistemologia que parte da formação arrojada e imaginativa de hipóteses. Estas enfrentam o tribunal da experiência, que tem o poder de falsificá-las mas não de confirmá-las (ver falsificabilidade; falsificação). Uma hipótese que sobreviva à tentativas de refutação pode ser provisoriamente aceita como “corroborada”, mas jamais se pode atribuir-lhe uma probabilidade (BLACKBURN, 1997, p. 302).
Seguindo ainda Blackburn (1997, p. 302) no que tange a proposta de Popper sobre a demarcação no domínio da Ciência, ela aparece como fundamentação do fazer científico e, apesar de críticas no âmbito filosófico, “[...] muitos pensadores aceitam, no essencial, a solução popperiana para o problema da demarcação entre a verdadeira ciência e as suas imitações – isto é, que a primeira apresenta teorias genuinamente falsificáveis, ao passo que as segundas não [...]”.
A qualidade da propositura popperiana é que, sugerindo que o exercício científico se desenvolva equilibrando Teoria (formulação de conjecturas) e a refutação metódica (também fundamentada em evidências empíricas), o afasta do dogmatismo e da irracionalidade, porque estipula uma maneira/método pela qual os pesquisadores podem avaliar seus posicionamentos e esclarecer sob que circunstâncias devem abdicar dos mesmos.
É neste ponto que a proposta de Popper pode ser comparada a de Kuhn (2001)9, uma vez que o último explica o abandono e a aceitação dos posicionamentos científicos a partir das revoluções científicas, ou seja, da ruptura de Paradigma, que para o autor (2001, p. 31) é anterior aos constructos propriamente científicos e sobre isso seria necessário perguntar “[...] Por que a realização científica concreta, como local de compromisso profissional, é anterior aos vários conceitos, leis, teorias e pontos de vista que podem ser abstraídos dela? [...]”.
[...] O ponto de vista de Kuhn sublinha a situação histórica concreta de uma ciência no espaço dos problemas e das perspectivas herdadas de avanços anteriores. Um paradigma é estabelecido apenas em períodos de ciência revolucionária, surgindo tipicamente em resposta a uma acumulação de anomalias e dificuldades que não podem ser resolvidas no paradigma vigente (BLACKBURN,1997, p. 279).
Percebe-se então que o sentido do Paradigma de Kuhn (2001) é constituído pelo contraste entre a Ciência Normal e a Ciência Extraordinária. Portanto, embora as abordagens
do autor (2001) sobre Paradigma sejam díspares, é possível uma percepção ampliada de que se refere às bases de determinado domínio quando estabilizado (Ciência Normal). Considerando-se que tais fundamentos são constituídos por universo conceitual, resultados de pesquisas e processos de desenvolvimento similares, “‘ciência normal’ significa pesquisa firmemente baseada em uma ou mais realizações científicas passadas. Essas realizações são reconhecidas durante algum tempo por uma comunidade científica específica como proporcionando os fundamentos para sua prática posterior [...]” (KUHN, 2001, p. 29).
As anomalias do Paradigma em vigência só serão relevantes em períodos iniciais ou de crise, embora possam ser identificadas por pesquisas no período normal (KUHN, 2001). Assim, à luz da visão kuhniana, a refutação (nos termos de Popper) indica em última instância imperícia individual, pois os obstáculos do Paradigma são definidos pelo grupo de pesquisadores, observando determinações e métricas não endógenas, mas sim externas (localizadas particularmente nas dimensões sociológica e psicológica) e, por isso, a atividade científica é, em última análise, dogmática.
Enquanto em Kuhn (2001) a refutação é um processo arbitrário, em Popper (2013) os parâmetros dela precisam ser compartilhados e esclarecidos, de modo que ela também seja passível de falseamento.
Ainda assim, a proposta de Popper (2013) é avaliada com o auxílio da perspectiva kuhniana: algumas críticas dirigidas a Popper apontam que os exemplos escolhidos por ele para colocar em relevo a refutação de teorias por evidências empíricas consideradas cruciais são escolhidos e interpretados à luz do desenvolvimento já realizado (LAKATOS, 1979; PELUSO, 1995). Nesse sentido, com resultados opostos, os mesmos exemplos seriam percebidos como simples anomalias nos critérios de Kuhn (2001), o que não obscurece a seguinte consideração:
[...] (1) um teste é – ou deve-se fazer que seja – uma luta, de dois adversários, entre
a teoria e a experiência de modo que, na confrontação final, só as duas se defrontem; e (B) o único resultado interessante dessa confrontação é o falseamento (conclusivo): “[as únicas genuínas] descobertas são refutações de hipóteses científicas”. Entretanto, a história da ciência sugere que (1’) os testes são – pelo
menos – lutas, de três adversários, entre as teorias rivais e a experiência e (2’) algumas das experiências mais interessantes resultam, prima facie, antes em confirmação do que em falseamento (LAKATOS, 1979, p. 140).
Conservando o desenvolvimento da cisão com a comprovação e com a justificação externa à Ciência oferecido por Popper (2013)10, Lakatos (1979)11 explica a origem da noção de Programa de investigação. Em tal enquadramento, o falseacionismo metodológico é uma progressão que considera arriscada porque “[...] os riscos são tão ousados que atingem as raias da temeridade e a gente pergunta a si mesmo se não haverá um meio de atenuá-los” (LAKATOS, 1979, p. 137).
Ampliando tal consideração, o autor (1979) explica que o motivo pelo qual o falseacionismo metodológico é priorizado frente às propostas fundamentadas no nível externo é que, cônscio da falibilidade humana e, por conseguinte, da Ciência, responde de modo mais congruente às críticas do ceticismo:
Cumpre apreciar a atitude diabolicamente atrevida do nosso falseacionista metodológico. Ele se tem na conta de um herói que, defrontando-se com duas alternativas catastróficas, teve a coragem de refletir friamente sobre os méritos relativos de cada uma e escolher o menor dos males. Uma das alternativas era o falibilismo cético, com sua atitude de “vale tudo”, o abandono desesperado de todos os padrões intelectuais, e com estes a ideia do progresso científico. Nada pode ser restabelecido, nada pode ser rejeitado, nada sequer pode ser comunicado: o crescimento da ciência é um crescimento do caos, uma verdadeira Babel [...] (LAKATOS, 1979, p. 137).
Tendo em vista os problemas e os méritos da proposta de Popper (2013), e a insuficiência do Paradigma de Kuhn (2001), Lakatos (1979) oferece a seguinte alternativa:
[...] uma teoria científica T só será falseada se outra teoria T’ tiver sido proposta com as seguintes características: (1) T’ tem um excesso de conteúdo empírico em relação a T; isto é, prediz fatos novos, a saber, fatos improváveis à luz de T, ou mesmo proibidos por ela; (2) T’ explica o êxito anterior de T, isto é, todo o conteúdo não-refutado de T está incluído (dentro dos limites do erro observacional) no conteúdo de T’; e (3) parte do conteúdo excessivo de T’ é corroborado (LAKATOS, 1979, p. 142).
Em continuidade, Lakatos (1979) compartilha com Popper (2013) o entendimento de que uma teoria pode ser mantida em função de hipóteses auxiliares, as quais são admitidas se não forem ad hoc, isto é, se não constituírem reinterpretação linguística que ao invés de ampliar o conteúdo e explicar um fato novo, o diminua. A colaboração de Lakatos (1979) está em
10 Resumidas pelas condições de abandono de determinado posicionamento, como indicadas anteriormente neste
mesmo item.
11 Texto incluído no quarto volume do Colóquio Internacional sobre Filosofia da Ciência, realizado em Londres,
ponderar que a avaliação da teoria inclui a análise não apenas de sua conformação geral (condições inicias, hipóteses secundárias, evidências empíricas etc), mas também de sua progressão em relação a outras: “[...] Só de uma série de teorias se pode dizer que é científica ou não-científica, nunca de uma teoria isolada; aplicar o termo “científico” a uma única teoria é incorrer num erro de categoria” (LAKATOS, 1979, p. 145, grifo do autor)
Por isso o realce está no Programa de investigação, a saber, naquilo que “[...] consiste em regras metodológicas; algumas nos dizem quais são os caminhos de pesquisa que devem ser evitados (heurística negativa), outras nos dizem quais são os caminhos que devem ser palmilhados (heurística positiva)” (LAKATOS, 1979, p. 162).
O aprofundamento sobre a complementaridade entre as propostas de Lakatos (1979) e de Popper (2013) não é o foco deste trabalho, mas cabe asseverar que, em relação à posição kuhniana, tais propostas ajudam a argumentar que a incomensurabilidade é, em última análise, uma questão de divergência terminológica, no sentido de que possíveis diferenças conceituais não são indissolúveis a ponto de não existirem subsídios para avaliação12. Paralelamente, reforçam a recusa de hipóteses ad hoc para responder a falsificações.
Nesse raciocínio a perspectiva kuhniana é enfraquecida em razão das flexibilizações necessárias: além da incomensurabilidade se tornar superficial, a distinção entre Ciência Normal e Extraordinária se dá arbitrariamente e, por conseguinte, o Paradigma - especificamente concernente às revoluções científicas - perde em capacidade explicativa.
Além da posição popperiana complementada por Lakatos já exposta neste texto, há uma refutação justificada da incomensurabilidade em Albedah (2006) 13, que defende como solução adequada a proposta de Gadamer. Nesse sentido, ele argumenta que:
Resolver o paradoxo da incomensurabilidade deve, portanto, explicar a ruptura comunicativa evitando as objeções levantadas contra Kuhn. Para conseguir isso, uma explicação precisa satisfazer pelo menos três requisitos de adequação: deve ser auto referencialmente consistente; deve ser aberta; E, finalmente, deve ser historicamente reflexiva (ALBEDAH, 2006, p. 333, tradução nossa)14.
12 Cabe salientar que sobre isso, o próprio Kuhn também concorda em sua fala durante o mesmo Colóquio do qual
foi extraído o texto de Lakatos (1979). Fazem parte do mesmo volume os textos de Kuhn (1979) intitulados Lógica
da Descoberta ou Psicologia da Pesquisa? e Reflexões sobre os meus Críticos.
13 A inclusão de Albedah (2006) foi realizada em função de críticas realizadas na ocasião da qualificação do
trabalho. Embora a opção proposta pelo autor (2006) tenha sido desconsiderada pelas razões apresentadas neste capítulo, as objeções foram produtivas para o esclarecimento do delineamento da pesquisa.
14 No original: Resolving the paradox of incommensurability must, therefore, account for communicative
breakdown while avoiding the objections raised against Kuhn. To achieve this, an account needs to satisfy at least three adequacy requirements: it must be self-referentially consistent; it must be open-ended; and finally, it must be historically reflexive (ALBEDAH, 2006, p. 333).
Segundo Albedah (2006), a explicação que soluciona o problema da incomensurabilidade é a hermenêutica gadameriana, segundo a qual um determinado entendimento não pode ser final porque ele é sempre histórico-conceitual, influenciado por um determinado domínio referencial e passível de expansão, ou seja, um entendimento não pode ser último porque ele é sempre relativo, embora argumente que tal posição se afasta do relativismo radical.
Através da hermenêutica gadameriana, a incomensurabilidade seria afastada não apenas porque se admite a possibilidade de inúmeras reinterpretações, mas também por razões histórico-contextuais. Assim, deve-se manter uma abertura dialógica, isto é, uma abertura para a expansão da linguagem (inclusive a científica) e do domínio referencial que a conduz.
A posição epistemológica assumida neste trabalho concorda, em especial, com a demanda da não contradição (consistência) da explicação nos termos apresentados pelo autor (2006), mas não recorre ao relativismo epistêmico para isso.
A partir de tal perspectiva, trata-se, fundamentalmente, da limitação humana em relação à produção do conhecimento em sentido amplo, ao refletir sobre Ciência como um todo, e específico, dado que toda pesquisa possui, necessariamente, inúmeras delimitações para que seja exequível.
Entende-se aqui que não se trata de relativismo radical porque isso resultaria em ceticismo e Albedah (2006) não propõe que o conhecimento é impossível, mas também admite ao menos um critério de avaliação explicativa: o da consistência. Contudo é compreendido como relativismo epistêmico na medida em que não aponta limite para as (re)interpretações e também não propõe qualquer estrutura explicativa.
Embora seja possível articular de modo mais ou menos rígido as explicações e possíveis interpretações de determinado entendimento teórico, não estabelecer parâmetros sobre os limites de (re) interpretações, especialmente quando não se coloca em questão evidências empíricas, destituem do exercício científico aspectos básicos de sua demarcação como, por exemplo, desenvolvimento de técnicas de controle de testes empíricos e a demanda pela repetição dos mesmos.
Dentre as demandas apontadas pelo autor (2006), a exigência da não contradição/consistência é particularmente importante para a proposta deste trabalho, uma vez que as operacionalizações conceituais para as quais se dedica maior atenção estão no nível de exposição e correlações combinadas pelas propostas teóricas que compõem as unidades de pesquisa (LOPES, 2005). Sobre isso, Albedah (2006) afirma ainda que “para que uma explicação seja auto referencialmente consistente, deve descrever a ruptura comunicativa por
premissas aceitáveis que não contradigam as próprias conclusões que são legitimamente extraídas delas [...]” (ALBEDAH, 2006, p. 333, tradução nossa)15.
Esclarecendo o que seria a explicação gadameriana de entendimento/compreensão tem-se que:
Gadamer pensa que a experiência estética é a experiência hermenêutica exemplar, onde a interação entre o objeto da experiência, o contexto de compreensão e o entendimento como um evento histórico e linguístico demonstram um tipo peculiar de unidade através da qual a verdade da obra de arte, o contexto de compreensão e a questão da compreensão em si não podem ser consideradas isoladamente uns dos outros (ALBEDAH, 2006, p. 334, tradução nossa)16.
Albedah (2006) assevera que se trata de compreender que um determinado entendimento é sempre influenciado por um domínio referencial (traditional horizon) que delimita a compreensão sobre a qual é preciso ter consciência (historically effect consciousness).
Faz parte de tal consciência a admissão de que um determinado entendimento não pode ser final em razão da centralidade do efeito histórico, isto é, de que o que é compreendido sobre dado objeto é passível de alteração por causa de condições contextuais e alterações no domínio referencial. Além disso, uma determinada compreensão também não poderia ser tomada como final porque:
[...] da universalidade da interpretação resulta que a compreensão é necessariamente aberta e plural. É aberta porque o que um nativo de uma língua compreende de um determinado texto é sempre parcial, prejudicial e finito. É a experiência dessa finitude que motiva a abertura a outras interpretações. Do mesmo modo, o entendimento é plural porque os horizontes tradicionais são diferenciados em virtude do que é transmitido em suas respectivas linguagens, e estes promovem leituras diferenciadas do texto [...] (ALBEDAH, 2006, p. 335-336, tradução nossa)17.
15 No original: For an account to be self-referentially consistent, it must describe communicative breakdown by
acceptable premises that do not contradict the very conclusions that are legitimately drawn from them […] (ALBEDAH, 2006, p. 333).
16 No original: Gadamer thinks that aesthetic experience is the exemplary hermeneutic experience where the
interplay between the object of experience, the context of understanding, and understanding as a historical and linguistic event display a peculiar sort of unity whereby the truth of the work of art, the context of understanding, and the understanding subject itself cannot be considered in isolation from one another […] (ALBEDAH, 2006, p. 334).
17 No original: [..] from the universality of interpretation that understanding is necessarily open-ended and plural.
It is openended because what a native of one language understands of a certain text is always partial, prejudicial, and finite. It is the experience of this finitude that motivates openness to other interpretations. By the same token, understanding is plural because traditional horizons are differentiated by virtue of what is handed down in their respective languages, and these promote differentiated readings of the text […] (ALBEDAH, 2006, p. 335-336).
Nesse sentido, o autor (2006) explica que se faz necessária uma ruptura comunicativa para que determinado entendimento seja compartilhado, ou seja, para que seja possível a familiarização com determinada compreensão e não o inverso (alienação). E o que viabilizaria a familiarização/não alienação sobre dada compreensão seria a abertura dialógica:
Um aspecto central da abertura dialógica, da compreensão em geral, é a antecipação da conclusão. Visto como um todo, o texto deve ser assumido para desfrutar de unidade interna. Essa unidade não anula a possibilidade de contradições internas, descontinuidades ou abertura, pois elas só podem ser vistas à luz de uma suposição de unidade. À medida que a interpretação prossegue, a compreensão do todo, por sua vez, traria as partes sob nova luz revisando seu significado inicial [...] (ALBEDAH, 2006, p. 337, tradução nossa)18.
Para o autor (2006, p. 337, tradução nossa)19, a partir da hermenêutica de Gadamer admite-se as inúmeras reinterpretações que, ao expandirem os limites da linguagem e dos domínios referenciais, resultam na fusão de horizontes e, por essa razão, só é possível produzir “[...] um entendimento infinitamente revisável e um horizonte em constante expansão [...]”.
A proposta apresentada por Albedah (2006) embora tenha diversos pontos convergentes com a perspectiva epistemológica aqui adotada, não cabe neste trabalho. Porém, se faz necessário responder a ela porque, acompanhando Sokal e Bricmont (2010), entende-se que é possível compreendê-la como uma resposta às limitações da proposta de Popper (2013)20 como, por exemplo, o falsicacionismo radical.
Em primeiro lugar, embora se concorde com a afirmação de que o referencial e os conceitos aos quais se referem possam ser expandidos, a partir do realismo científico isso se dá em função da relação entre as abstrações e as evidências empíricas, ou a partir da pertinência conceitual da modificação.
Um argumento que sustente tal pertinência, ainda que tenha seus sentidos ampliados, se estiver estruturado de modo inválido não pode ser aceito (BUNGE, 2012) e isso não depende de contextualização.
18 No original: A central aspect of dialogical openness, of understanding in general, is the anticipation of
completion. Viewed as a whole, the text must be assumed to enjoy internal unity. Such unity does not negate the possibility of internal contradictions, discontinuities, or open-endedness, for these could only be seen in light of an assumption of unity. Partial experience of a text always takes place in light of a pre-understanding which is projected onto the whole/unit. As interpretation proceeds, the understanding of the whole would in turn bring the parts under new light revising their initial meaning [...] (ALBEDAH, 2006, p. 337).
19 No original: […] endlessly revisable understanding, and an ever expanding horizon […] (ALBEDAH, 2006, p.
337).