EFETIVIDADE PROCESSUAL:
A EXPERIÊNCIA DA SECRETARIA DE EXECUÇÃO INTEGRADA DE NATAL/RN E OUTRAS REFLEXÕES (*)
Luciano Athayde Chaves(**)
“Se hoje é possível a plena consciência do monopólio estatal do poder de realizar imperativamente os desígnios do direito objetivo substancial, é porque a civilização dos povos já evoluiu o suficiente para que, acima dos indivíduos, se instituísse e consolidasse a autoridade de um Estado responsável pela paz social e pelo bem comum”.
Cândido R. Dinamarco
SUMÁRIO: 1. A execução no panorama do Moderno Direito Processual; 2. O mito da cognição no Direito Processual Brasileiro; 3. As duas faces da execução trabalhista: as execuções possíveis e as improváveis; 4. Da logística do processo de execução trabalhista; 5. A experiência da Secretaria de Execução Integrada de Natal/RN; 5.1. Dos Juízes da Execução; 5.2. Das audiências em execução; 5.3. O depósito judicial e os leilões integrados; 5.4. As execuções especiais; 6. Sobre a necessidade de instrumentos auxiliares e extraprocessuais para a efetividade do processo de execução na Justiça do Trabalho; 7. À guisa de conclusão; 8. Referências bibliográficas.
1. A execução no panorama do Moderno Direito Processual
Houve um tempo em que o exercício da jurisdição se limitava a ‘dizer o direito’ (ius + dicere). Isso porque, em priscas eras, a função do então incipiente
* Texto apresentado no I Encontro Acadêmico Trabalhista – ENAT, promovido pela Escola Superior da Magistratura Trabalhista da 13ª Região e pelo Tribunal Regional do Trabalho da 13ª Região, em João Pessoa, Paraíba, entre 8 e 9 de outubro de 2001.
** Juiz do Trabalho da 21ª. Região Titular da 2ª. Vara do Trabalho de Natal. Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Mestre em Ciências Sociais (UFRN). Membro do Instituto Brasileiro de Direito Processual (IBDP). Foi Juiz-Coordenador da Secretaria de Execução Integrada de Natal/RN – TRT da 21ª Região (2000-2002).
poder estatal de julgar não ultrapassava o mero instante de declarar a quem assistia razão numa determinada querela. A execução do decreto judicial era privada, competindo ao credor o desiderato de fazer cumprir as decisões judiciais.
A execução era realizada por autoridade privada e apenas controlada ligeiramente pelo magistrado. Esse controle era provocado pelo credor, através do exercício da actio judicati. Decorridos infrutiferamente os trinta dias após a condenação ou o reconhecimento da dívida (tempus judicati), era o devedor levado à presença do magistrado e ali, se ele não se rebelasse contra a pretensão do adversário, era feito a addictio, ou seja, a sua adjudicação ao credor para que a execução principiasse. Nessa hipótese, ou seja, nada se alegando em favor do devedor, exauria-se aí a função do magistrado e o resto far-se-ia por atos exclusivos do exeqüente (DINAMARCO, 1994:34).
Mesmo no período de formação dos chamados ‘Estados Burgueses’, de recorte ideológico predominantemente liberal, pouca ênfase foi dada à atuação concreta da autoridade judiciária na esfera jurídica do particular, ficando reservado ao juiz, que não podia exercer imperium, apenas afirmar a vontade da lei. Afinal, deveria ser o juiz, na concepção de Montesquieu, apenas a bouche de
la loi (a boca da lei), nada mais.1
No cenário das nações democráticas contemporâneas, no entanto, não é mais possível separar a cognição processual da fase executória. Os sistemas processuais vigentes não concebem a atividade do Estado-Juiz exaurida com o epílogo da fase cognitiva do processo. Cognição e execução passam, pois, a ostentar o mesmo caráter público, integrando codificações e estatutos.
O considerável avanço dos institutos jurídico-processuais não conseguiu, porém, expurgar da atmosfera jurisdicional os inumeráveis obstáculos que
1 “Poderia acontecer que a lei, que é ao mesmo tempo clarividente e cega, fosse, em certos casos, muito rigorosa. Porém, os juízes de uma nação não são, como dissemos, mais que a boca que pronuncia as sentenças da lei, seres inanimados que não podem moderar nem sua força nem seu rigor” (MONTESQUIEU apud MARINONI, 2000:42).
ainda se apresentam para a célere entrega da tutela invocada ao Estado-Juiz. Muitas são as críticas, principalmente focadas na lentidão dos processos, no excesso de formalidades e no alto custo das demandas.
O anseio da sociedade por uma melhor prestação jurisdicional exige, por isso, considerar que a verdadeira meta do processo é a sua efetividade e não somente o desenrolar de atos formais das partes e do juiz. Não importa a existência de um sistema jurídico que apenas assegure o acesso formal do indivíduo, se não houver uma providência jurisdicional efetiva, rápida e com custos menores (conf.: CAPELLETTI, 1988).
A efetividade processual integra, assim, o que denominou Dinamarco de ‘terceiro momento metodológico do Direito Processual’, caracterizado pela
consciência da ‘instrumentalidade’ como importantíssimo pólo de irradiação de idéias e coordenador dos diversos institutos, princípios e soluções (DINAMARCO, 1999:21).
Nesse debate sobre a efetividade processual, um alvo costuma ser freqüentemente escolhido: o processo de execução. E não por acaso. Como lembra Dinamarco, enquanto perdurar a insatisfação do credor, mesmo tendo sido
reconhecido como tal (na fase de conhecimento), o conflito permanece e traz em si o coeficiente de desgaste social que o caracteriza, sendo também óbice à felicidade da pessoa (DINAMARCO, 1994:95).
Noutras palavras, de nada importa para o credor o sucesso na fase cognitiva do feito se não houver a célere adimplência da obrigação a que foi condenado o devedor, quadro que se agrava quando falamos de execução trabalhista, hipótese em que o credor persegue a satisfação de prestação de natureza alimentar.
As reformas introduzidas no Direito Processual brasileiro desde meados dos anos 90, infelizmente, não trouxeram grande contribuição para o aprimoramento do processo de execução, preocupando-se muito mais acentuadamente com a fase recursal, com as tutelas cognitivas de urgência e com a introdução de novas modalidades de ação.
No caso do Direito Processual do Trabalho, pelo contrário, as mais recentes alterações legislativas apenas cuidaram de incrementar o volume de demandas na execução trabalhista, como ocorreu com o alargamento da competência da Justiça do Trabalho para executar ex officio créditos previdenciários (art. 114, § 3º, CF, acrescentado pela Emenda Constitucional nº 20/98 e Lei 10.035/2000) e com a previsão de execução de termos de ajuste de conduta firmados junto ao Ministério Público do Trabalho e termos de conciliação firmados no âmbito de comissões de conciliação prévia (art. 876 da CLT, com a redação dada pela Lei 9.958/2000).
Dessa forma, continua o processo de execução a padecer de males históricos, com enfoque especial para fenômenos como: morosidade, excesso de formalidades e baixo nível de pagamentos.
2. O mito da cognição no Direito Processual Brasileiro
Não é de admirar que o processo de execução seja, de forma recorrente, apontado como o grande problema dos nossos sistemas processuais.
As dificuldades começam na própria hipertrofia valorativa do processo de conhecimento, para onde parecem migram todos os esforços legislativos, orçamentários e intelectuais, relegando, para um plano secundário, a efetivação da tutela pela fase executiva, qualquer que seja a natureza da obrigação imposta ao réu.
Vejamos, por exemplo, o que sucede com os estudos sobre o acesso à justiça, tão presentes nos dias de hoje. Trata-se de uma abordagem sobre a abrangência e alcance da jurisdição, onde freqüentemente se apontam as dificuldades e obstáculos a um verdadeiro espectro de acesso à justiça pelo cidadão numa sociedade que busca concretizar os postulados do Estado democrático de direito. Costuma-se enfocar as possibilidades das tutelas de massa, os custos do processo, os aspectos psicológicos dos jurisdicionados, etc.
Todos esses aspectos são importantes, sem dúvida. Ocorre que, na grande maioria dos trabalhos a respeito do acesso à justiça2, está ausente a
questão do processo de execução, como se fosse a realização da justiça apenas satisfeita, via de regra, com a proclamação do vencedor, apenas com a declaração do direito, apenas, portanto, com a cognição.
É o que podemos denominar de ‘mito da cognição’, resultante de uma admiração exacerbada pela obra sentencial de conhecimento, em detrimento da percepção das verdadeiras possibilidades/necessidades de realização da justiça em face da efetividade da tutela que acabara de ser prestada.
De certa forma, deixa-se de observar que os desafios que a execução está a inspirar não se solucionam com a retórica da morosidade, excesso de recursos, etc., focando-se sobre as possibilidades apenas de uma declaração de direito mais rápida.
Observe-se o que acontece não somente na jurisdição trabalhista, mas com os próprios Juizados Especiais criados pela Lei 9.099/95. Todos são unânimes em reconhecer os progressos dos juizados em relação ao alargamento da via conciliatória e quanto às vantagens do procedimento para a proclamação do vencedor do litígio3. Porém, pouco se explora quanto às críticas, cada vez
mais acentuadas, no que toca à execução dos julgados, para cujo progresso pouco foi legislado ou instrumentalizado. É comum ouvir-se de profissionais que atuam nesses foros especiais que há bons resultados na fase de conhecimento, mas a execução padece de efetivação.
Noutras palavras, estimula-se a reprodução de uma ideologia processual que perece ter na publicação da sentença de cognição o fim último do processo,
2 A esse respeito, consultar, dentre outros textos: BEZERRA, Paulo Cesar Santos. Acesso à justiça: um problema ético-social no plano da realização do direito. Rio de Janeiro: Renovar, 2001; CAPPELLETTI, Mauro et alii. Acesso à justiça. Porto Alegre: Fabris, 1998; NALINI, José Renato. O juiz e o acesso à justiça. São Paulo: RT, 2000; DINAMARCO, Cândido Rangel. A instrumentalidade do processo. São Paulo: Malheiros, 1999; MARINONI, Luiz Guilherme. Novas linhas do processo civil. São Paulo: Malheiros, 2000; e SANTOS, Boaventura de Sousa. Pela mão de alice: o social e o político na pós-modernidade: São Paulo: Cortez, 1995.
quando, ao nosso sentir, aí começa o verdadeiro desafio da jurisdição: o de entregar ao jurisdicionado a concreta e palpável reparação da lesão declarada na sentença.
Nada mais trará satisfação ao jurisdicionado. Uma bela sentença, que lhe reconheça a razão no litígio, em parte ou por inteiro, não passará de papel a ser consumido pelas intempéries do tempo caso não seja possível entregar-lhe aquela indenização conquistada no processo de conhecimento, por exemplo. A percepção do leigo sobre um processo judicial, que somente nele vê sentido se for instrumento de pacificação concreta, real e efetiva do conflito, deveria ser a preocupação de todos os processualistas e de todos os intérpretes do Direito4. O
método hermético com que lidamos com a execução, deixando pouco espaço para a afluência dos valores sociais tutelados pelo direito material, tem expulsado todo o sentido do processo, principalmente o executório.5
Essa a razão pela qual a parte não se basta com a simples ‘vontade sancionatória abstrata’ (Liebman, Dinamarco) do Estado-Juiz, exigindo do Poder Judiciário a realização de atividades executivas concretas, tendentes à tornar realidade a disposição anunciada abstratamente em decreto judicial ou constante de título extrajudicial (art. 876, CLT).
3. As duas faces da execução trabalhista: as execuções possíveis e as improváveis
A utilização de um método de abordagem processual que observe a completa missão jurisdicional do Estado-Juiz - sem a ofuscante interferência do mito sentencial da cognição -, possibilitará ao juiz, bem como aos demais atores sociais que participam do processo, uma visão menos fetichizada deste e da
3 Para consulta de dados estatísticos, ver BEZERRA, 2001, p. 153-6.
4 Esta a proposta metodológica para o Direito Processual de que vem tratando Cappelletti desde a década de 70: é preciso ver o processo pelo ângulo do ‘consumidor’ do serviço jurisdicional (CAPPELLETTI apud DINAMARCO, 1994:27).
5 Sobre este ponto repousa uma das premissas da moderna concepção do princípio da instrumentalidade do processo (ver DINAMARCO, 1999; e MARINONI, 2000).
execução de natureza civil. Assim, torna-se possível um olhar mais amplo sobre o processo, identificando suas reais possibilidades de efetivação.
Com efeito, nas ações em que se requer do Judiciário Trabalhista uma tutela condenatória, à guisa de exemplificação, a efetividade processual estará condicionada não somente a uma sentença que for favorável ao autor, mas essencialmente nas possibilidades de satisfação da obrigação pela parte executada.
Assim é porque a execução, no nosso Direito Processual, não é de natureza pessoal, mas precisamente de natureza real, ou, em outra palavra, patrimonial, pelo que o sucesso da efetividade processual será diretamente proporcional às possibilidades do devedor responder, com seu patrimônio6,
pela dívida.
Dessa forma, é preciso considerar que alguns litígios ostentam, desde o nascedouro, a aparência de uma execução possível ou de uma execução improvável, dependendo da carga de solvência do apontado devedor.7
Antes de ser um consolo para a jurisdição, nos casos das execuções possíveis, ou uma frustração, quando presente a aparência de uma execução improvável, a percepção pelo juiz quanto às possibilidades da execução deve ser um importante elemento a alimentar sua persuasão racional em relação ao litígio.
6 E aqui é preciso, ainda, considerar a parcela patrimonial que, por vezes, sequer pode ser alcançada por atos de constrição judicial, como sói acontecer com aqueles bens tutelados, como impenhoráveis, pela Lei 8.009/90, cujo conceito e rol vêm, a cada dia, ganhando abrangência na voz criativa da jurisprudência brasileira.
7 Dinamarco prefere denominar, nesses casos, a existência de execuções frutíferas ou infrutíferas: “o ideal atingível da execução é a produção dos mesmos efeitos que produziria a satisfação voluntária do direito pelo próprio obrigado ou por terceiro, ou seja, a realização da vontade da lei em seu resultado econômico objetivo. É claro que a execução será, em cada caso, mais ou menos frutífera, o que dependerá da solicitude do órgão jurisdicional, da eficiente cooperação do exeqüente, das possibilidades do patrimônio do executado, da conduta leal deste e de tantos outros fatores; mas nem por isso se desnatura o seu objetivo específico, quando esta for menos frutífera (DINAMARCO, 1994:107).
Tal recorte metodológico, especialmente na jurisdição trabalhista, permite ao juiz, por exemplo, impor maior cautela na chancela de acordos excessivamente prejudiciais ao trabalhador, quando demonstrada a aparente solvência da parte demandada. De outra banda, orienta a condução de feitos, cuja execução é improvável, para que se busque uma solução negociada, mesmo com valores abaixo da média historicamente praticada pelo Juízo (através das regras de experiência) ou, ainda, admitindo a entrega de bens como dação em pagamento.
Quantos casos a prática forense não revela, cotidianamente, em que a idéia de empregador ‘economicamente forte’ não passa de apenas uma figura de linguagem? Num país de profundas desigualdades sócio-econômicas e de pouca responsabilidade contratual, não raro encontramos situações em que pequenos empregadores mais parecem excluídos do sistema de distribuição de renda, confundindo-se, enquanto classe, com os próprios demandantes.
Evitar que uma demanda, com improvável sucesso de expropriação patrimonial, alcance a fase executória poupa a jurisdição do esforço, por muitas vezes inútil e caro, de determinar o cumprimento de inúmeros atos processuais e diligências mandamentais no sentido de se localizar os bens estampadamente inexistentes do executado.
O resultado dessas demandas infrutíferas, para usar a expressão de Dinamarco, será o arquivo ou algo semelhante.8
8 Na 21ª Região, essa matéria está regulamentada pelo Provimento TRT/CR Nº 01/98, que estabelece: “Art. 1.º - Uma vez esgotadas sem sucesso todas as tentativas de localização do executado ou de bens passíveis de penhora, o Juiz em exercício na execução da Vara do Trabalho determinará que seja informado à Secretaria da Corregedoria do Tribunal o número do processo respectivo, o nome das partes, o nome dos advogados e a existência de crédito pendente em depósito e seu titular, se houver. Art. 2.°- Recebida a informação pela Corregedoria, o seu Secretário a submeterá ao Juiz Corregedor-Regional, que, para possibilitar vistas às partes ou seus representantes legais, fará publicar edital de intimação por duas vezes, com intervalo mínimo de cinco dias entre cada publicação, no Diário Oficial do Estado. § 1º - Na
publicação de que trata este artigo deverá ser consignado que: a) cinco dias depois de publicado o último edital, não havendo requerimento de diligência, nem
tendo sido fornecidas novas informações pelas partes, aptas a dar impulso ao processo, a execução será suspensa; b) decorrido um ano da suspensão, sem que a situação processual
4. Da logística do processo de execução trabalhista
Como acentua J. J. Camon de Passos, Direito é linguagem, é discurso, sendo este elemento integrante de sua própria existência9. Porém, a atuação
discursiva do Direito, quer seja na forma de enunciação geral de uma conduta, um dever-ser, quer seja na imposição de uma condenação judicial para restabelecimento da ordem jurídica, não basta para a efetivação da jurisdição num dado caso concreto.
Na execução, via de regra, o Judiciário precisa dispor de elementos diversos para fazer atuar a vontade do Estado-Juiz. Cuida-se da logística do processo de execução.
Embora se discuta, há muito, a ausência de aparelhamento do Poder Judiciário, pouco se aborda quanto à necessidade das ferramentas apropriadas para uma adequada atuação da execução de natureza civil, como a execução trabalhista, notadamente quando estamos diante de uma sociedade cada dia
tenha sido alterada, será ordenado pelo Juiz em exercício na execução da Vara do Trabalho o arquivamento dos autos. § 2º - As informações ou diligências indeferidas por falta de objetividade, ainda que propostas antes dos cinco dias posteriores à publicação, não modificarão a data da suspensão do processo, que será decretada tendo como base o quinquídio previsto na alínea “a” do § 1.º deste artigo. § 3º - A data da suspensão será certificada nos autos pelo Diretor de Secretaria da Vara. Art. 3.º - Uma vez arquivado o processo, deverá ser afixada em sua capa tarja preta, a fim de melhor identificá-lo. § 1.º Os processos arquivados através deste procedimento deverão ser registrados em livro próprio denominado "Livro de Execuções em Arquivo", onde haverá espaço para o registro do número do processo, nome das partes, nome dos advogados, valor da execução, data de arquivo, motivo do arquivamento, valor do crédito pendente, se houver e data do desarquivamento. § 2.º Os autos nessa situação não serão submetidos ao processo de eliminação e poderão ser desarquivados a qualquer tempo, desde que seja afastada pelo Exeqüente a causa que prejudicou o curso da execução”.
9 “Pensamento e linguagem sempre fazem um, e essa simbiose, por sua vez, estrutura o que chamamos de realidade. Não foge desse imperativo o direito. Diria, inclusive, que o Direito, mais do que qualquer outro saber, é servo da linguagem. Como o Direito posto é linguagem, sendo em nossos dias de evidência palmar constituir-se de quanto editado e comunicado, mediante a linguagem escrita, por que quem com poderes para tanto. Também linguagem é o direito aplicado ao caso concreto, sob a forma de decisão judicial ou administrativa. Dissociar o Direito da linguagem será privá-lo de sua própria existência, porque ontologicamente, ele é linguagem e somente linguagem (CALMON DE PASSOS, 2001:63-4).
mais complexa, heterogênea e dinâmica, onde o espaço e o tempo, agora, sofrem uma compressão jamais vista ou sentida, e a informação viaja à velocidade da luz.
Pois bem. Não há dúvida que as Varas do Trabalho, em geral, carecem de mais servidores, melhores acomodações e um maior número de equipamentos de informática. Porém, estamos falando que, para uma melhor resposta no processo de execução, precisa-se de muito mais.
Via de regra, a aplicação dos recursos orçamentários alocados para a Justiça do Trabalho ignora a necessidade de investimento considerável para a fase de execução. Por outro lado, não é possível relevar que o foco maior das atividades nas Varas do Trabalho está centrado nas pautas de audiências, nos prazos para prolação de sentenças, no cumprimento das diligências da fase de conhecimento. Afinal, são tais aspectos que se sobressaem nas estatísticas da Justiça. A execução, já ausente nos debates sobre acesso à justiça e padecendo de possibilidades que se situam na esfera extraprocessual, como vimos, nem sempre é percebida como pólo carecedor de investimento em logística.
Ora, não se faz execução sem um suporte adequado, uma vez que esta fase, diferentemente das outras, exige um contato do Judiciário com o mundo exterior, para alcançar os devedores e os seus patrimônios, que podem estar por perto, mas também podem estar longe, até mesmo no exterior.
Por vezes, o patrimônio do devedor está muito perto, porém imperceptível, posto que ‘escondido’ pelo biombo de uma terceira pessoa jurídica, criada com fins simulados e fraudulentos, exigindo-se amplo e satisfatório mecanismo investigativo para se chegar ao uso do princípio da desconsideração da pessoa jurídica e, enfim, impor constrição e expropriação judicial.
Por essa razão, é imprescindível à execução a disponibilização de elementos logísticos para a realização de sua missão, mormente pelo fato de que não há prazo para o encerramento do processo de execução. A efetividade do
processo dependerá, nos casos das execuções possíveis, da habilidade dos atores envolvidos em lidar com as dificuldades próprias de um procedimento que investe contra o patrimônio alheio e está permeado de solenidades.
Em primeiro lugar, é preciso dispor de um corpo funcional adequado e especialmente capacitado para lidar com o processo executivo. Mesmo para os servidores formados em Direito, o processo de execução muitas vezes é um ‘ilustre desconhecido’, resultado da pouca ênfase que historicamente se dá a esta fase do processo judiciário nas nossas Faculdades de Direito.
Porém, atuar em execução não requer apenas o conhecimento técnico-jurídico. Também é preciso ser um atento observador da comunidade e dos negócios, para perceber, por exemplo, a viabilidade de uma constrição em vista da hasta pública; a impertinência empírica de certos requerimentos procrastinatórios; as relações bancárias e interbancárias, etc.
Por essa razão, e aqui colocamos um outro aspecto, é de todo conveniente que se estimule a designação de Juízes da Execução, ou seja, magistrados designados especialmente para este fim, uma vez que a atuação concomitante na fase de conhecimento e na execução nem sempre traz resultados satisfatórios. A jurisdição executiva é peculiar e exige uma percepção diferente do magistrado. Muitas vezes, uma atuação enfática na fase executiva somente rende frutos muitos meses depois.10
A capacitação dos oficiais de justiça é outro elemento-chave. O (in)sucesso de uma execução depende, quase sempre, da diligência do oficial de justiça. Uma penhora perpetrada sobre um bem fora do comércio ou uma
10 A respeito das vantagens da especialização da jurisdição, acentua José Renato Nalini: “O tema talvez não necessite de reforma processual, mas de mero redirecionamento do enfoque na procura de se conferir maior eficácia ao equipamento judicial. A tendência à especialização é fenômeno universal em todos os setores (...) São Paulo dispõe de várias experiências bem sucedidas de especialização. Varas de Acidentes de Trabalho, varas da Fazenda Pública, varas de Família, varas de Registros Públicos constituem modelos que encontraram seguidores em várias unidades federadas. A criação de setores como o das Execuções Fiscais, o das Precatórias Civis e criminais, também parece surtir resultados quanto à rapidez do serviço e à
equivocada avaliação pode trazer grandes transtornos ao processo, sem falar na irrecuperável perda de tempo.
Também nos parece da maior importante valia o investimento em comunicação. O acesso, em tempo real, a informações bancárias11, de
departamentos de trânsito, de dados cadastrais da Junta Comercial, da Receita Federal, dentre outros organismos, é uma ferramenta que muito auxilia o Juiz da Execução na obtenção de informações para o direcionamento do processo executivo.
Para a otimização da execução, é, por outro lado, imprescindível o investimento em depósitos judiciais. A experiência tem demonstrado a elevação da eficácia dos atos de constrição quando seguidos da imediata remoção do bem penhorado para um depósito judicial. Se não ocorrer do devedor buscar a quitação do débito, mediante quitação ou acordo, tem-se uma ampliação de sucesso do praceamento do bem, inclusive por melhor lanço, eis que o licitante tem toda a possibilidade de conhecer e vistoriar o bem que será praceado, o que raramente é possível quando este se encontra na posse da executada.
Remoção de bens, todavia, não se faz se a disponibilidade de veículos (leves e pesados) e de pessoal especializado para transportar os bens penhorados e acomodá-los, adequadamente, no depósito judicial. Aqui, ainda mais, se observa a necessidade concreta de investimentos, com o fito de oferecer aos Juízes da Execução os meios necessários para a adequada utilização de um depósito judicial.
uniformização de temas que poderiam merecer interpretação multifária e geradora de instabilidade hermenêutica (NALINI, 2000:71).
11 Importante destacar a iniciativa do BACEN – Banco Central do Brasil, ao criar o programa ‘BACEN-JUD’, destinado a fornecer, mediante convênio, um acesso do juiz ao banco de dados do BACEN com o uso de uma senha autorizada. Trata-se de uma ferramenta que poupa ao Judiciário a expedição de ofícios às instituições financeiras, expediente que nem sempre consegue atingir qualquer objetivo prático. Na sua página na internet, o BACEN dispõe de outras informações sobre o programa e noticia que já realizou convênio com o Superior Tribunal de Justiça e com vários Tribunais de Justiça Estaduais. Não há notícia, no entanto, de convênio com o Tribunal Superior do Trabalho.
Estes são bons exemplos de investimento em logística que maximizariam as possibilidades de uma execução trabalhista, sem prejuízos de tantos outros. Nesta seara, a criatividade e a racionalização dos procedimentos são quem dão o tom da verdadeira efetividade processual.
5. A experiência da Secretaria de Execução Integrada de Natal/RN
Nesse contexto - que desafia nossos conceitos sobre efetividade processual e, por conseguinte, as nossas instâncias judiciárias -, foi instituída, pelo Tribunal Regional do Trabalho da 21ª Região - Rio Grande do Norte, a Secretaria de Execução Integrada – SEI, no esteio de experiências semelhantes levadas a efeito em outras regiões trabalhistas com o desiderato de racionalizar a fase de execução.
Formalizada pela Resolução Administrativa nº 032/96, de 28 de agosto de 1996, e atualmente regida pela Resolução Administrativa nº 036/2000, a SEI passou a receber todos os feitos das então cinco Juntas de Conciliação e Julgamento de Natal/RN, hoje Varas do Trabalho, com sentenças transitadas em julgado a partir de 30 de setembro de 1996.
Por força da resolução administrativa inicial, também passou a funcionar junto a SEI uma Central de Mandados, racionalizando a distribuição e cumprimento de mandados judiciais entre os oficiais de justiça anteriormente lotados nas diversas unidades judiciárias da Capital.
Muitos são os aspectos sobre os quais se poderia abordar quanto ao funcionamento de uma proposta de execução concentrada como esta. Alguns pontos, no entanto, merecem maior destaque, como contribuição à discussão que sugere o presente texto.
Um primeiro ponto diz respeito à designação de juízes exclusivamente para conduzir os processos alocados na SEI, que somam, nos dias de hoje, aproximadamente, 16.000 feitos.
São quatro juízes que voltam todas as suas atenções aos processos de execução, respondendo, cada um, por pelo menos dois setores especializados da Secretaria.12
A dedicação exclusiva aos processos de execução, em que pese vultoso quantitativo por juiz, tem propiciado resultados satisfatórios, por permitir uma maior concentração nas possibilidades executivas para cada caso, o que tende a transformar a burocracia procedimental em efetiva atuação positiva e concreta do Estado-Juiz na solução das lides ora em estágio de execução.
Somente voltando atenção e tempo, é possível despertar no magistrado condutor de um processo de execução a criatividade e a linha executiva adequadas para se evitar a prática de atos inúteis aos desideratos da execução, e para se praticar, por outro turno, as providências indispensáveis ao atingimento do escopo e do mister jurisdicional.
5.2. Das audiências em execução
Outro importante resultado tem-se obtido com a freqüente realização de audiências nos processos de execução, especialmente em relação àqueles de improvável efetividade (contra empregadores pessoa física ou pequenas empresas). Cuida-se de oferecer uma nova oportunidade para que as partes, novamente frente a frente, possam buscar uma solução mais rápida e conciliadora para o litígio, tendo-se em mira que a conciliação é postulado
12 Internamente, a Secretaria de Execução Integrada está seccionada em diversos
setores, a saber: setor de expedição, setor de atendimento e carga de processos, setor de arrematação, setor de audiência, setor de execuções especiais, setor de execução de custas processuais e contribuições previdenciárias, setor de requisitório de precatório e setor de pagamento, além da Central de Mandados de Natal/RN que ali funciona (veja-se, ainda,
basilar do Processo do Trabalho, podendo sempre ser solução para a lide, inclusive na fase de execução (art. 764 da CLT).13
Entre setembro/2000 e setembro/2001, foram realizadas 1.105 audiências, com média de conciliação próxima aos 30%, o que é expressivo para a execução trabalhista quando se tem no pólo passivo devedores com baixo nível de solvência. Observando-se os dados mais recentes, podemos notar uma curva crescente nas respostas às audiências em execução. Vejamos, por exemplo, o que sucedeu no mês de setembro/2001: dos 160 processos pautados, 136 foram conciliados/quitados, o que representa um percentual de 85%.
5.3. O depósito judicial e os leilões integrados
Contando com a importante ferramenta do depósito judicial, que maximiza o interesse de licitantes, a SEI realiza freqüentemente leilões integrados, reunindo, em média, 250 processos.
Trata-se de um sistema de expropriação um pouco diferente do convencional, posto que reúne para hasta pública, num único dia, feitos de todas as cinco Varas do Trabalho de Natal, além dos feitos em tramitação na própria SEI.
Com o auxílio de um leiloeiro oficial, o leilão integrado é realizado após um grande esforço de divulgação, que não se encerra apenas com o edital de praça, mas se soma com a expedição de mala direta, contatos com a mídia e com a exibição, no dia do praceamento, de muitos dos bens removidos (de pequeno volume) ou a imagem digitalizada e projetada em telão dos bens de maior monta, como automóveis e imóveis.
O procedimento em relação aos licitantes também almeja a maior praticidade e segurança. Todos os interessados são previamente cadastrados,
13 O chamamento das partes litigantes em Juízo, durante a fase de execução, é faculdade processual muito pouco utilizada, porém é expressamente autorizada por lei (art. 599, I, do Código de Processo Civil, de aplicação supletiva).
após a apresentação de documentos pessoais e comprovante de residência, providência indispensável para se evitar a participação fraudulenta de licitantes. Cada um, após o competente cadastramento, recebe um cartão com o número identificador de seu cadastro, cartão este que deverá ser exibido em caso de lanço vitorioso. Nesta hipótese, número do licitante é anotado e, automaticamente, é lavrada a certidão de leilão, utilizando-se todos os dados cadastrais já disponíveis no computador (o que também auxilia a oportuna lavratura do auto de arrematação). Em seguida, são preenchidas as guias para o recolhimento do lanço, o que pode ser feito no próprio local do leilão, onde funciona, especialmente durante o evento, um caixa avançado de instituição financeira federal autorizada a movimentar depósitos judiciais da Justiça do Trabalho.
Aqui também os resultados têm sido animadores. A considerar como renda de leilão não somente a importância correspondente aos lanços, como também os acordos realizados no setor de arrematação após a publicação do edital de praça e as remições, temos um resultado, somente em relação ao período 2000/2001, equivalente a R$ 8.231.262,88, que deve ser considerado, sem dúvida, como bastante expressivo, ainda mais levando-se em conta a jurisdição das Varas do Trabalho de Natal/RN e o momento econômico pouco favorável por que passa o nosso país.
RESULTADO FINANCEIRO – LEILÕES INTEGRADOS –2000/2001
ANO REMIÇÕES ACORDOS ARREMATAÇÕES
2000 399.414,56 136.643,86 5.668.565,00 2001 439.185,00 119.604,30 1.467.850,00 Total 838.599,72 256.248,16 7.136.415,00
Fonte: Setor de Arrematação da Secretaria de Execução Integrada – TRT 21ª Região
É um resultado ainda mais significativo se considerarmos que, no modelo anterior de expropriação judicial, conduzido apenas por oficial de justiça, costumava ser rara a presença de licitantes na sede do Juízo da
Execução, tornando inviável qualquer processo de execução e desafiando o escopo da efetividade ou, nas palavras de Dinamarco, comprometendo a
promessa constitucional de tutela jurisdicional efetiva (DINAMARCO, 1994:27).
Neste ponto, é oportuna uma importante observação. A centralização ou integração de leilões judiciais trabalhistas nenhum avanço atingirá sem um esforço para otimizar o desembaraço formal necessário para a entrega, em prazo razoável, ao arrematante. Disso depende toda a credibilidade da hasta pública perante a comunidade. Sem uma resposta adequada aos licitantes em termos de entrega dos bens praceados, dificilmente se conseguirá manter um bom nível nos lanços, nem se conseguirá despertar no público alvo interesse para participar de arrematações judiciais. De todo conveniente, portanto, que o Juiz da Execução, nesta quadra, concentre suas energias para evitar que os obstáculos já existentes no procedimento expropriatório14 sejam ainda mais
agravados com a mora nas deliberações dos incidentes processuais eventualmente suscitados e na lavratura dos termos e atos pertinentes à arrematação (auto, carta de arrematação, mandados de entrega e transferência de titularidade, etc.), bem assim com a ausência de uma equipe de oficiais de justiça especialmente designada para proceder entrega de bens móveis e para imitir o arrematante na posse de bens imóveis.15
A execução sem um adequado sistema de expropriação é uma execução ineficiente, trazendo um efeito pedagógico negativo para a população jurisdicionada, especialmente para os executados, que passam a apostar na ineficácia empírica do decreto judicial exeqüendo.
14 Como se sabe, a jurisprudência trabalhista construiu, há muito, entendimento no sentido de que o Direito Processual do Trabalho, por subsidiariedade (art. 769, CLT), admite a oposição de embargos à arrematação, cuja decisão poderá ainda ser impugnada através de agravo de petição dirigido ao respectivo Tribunal Regional do Trabalho.
15 Neste ponto, deixamos claro nosso entendimento de que compete ao Juiz do Trabalho a expedição de ordem de imissão de posse consectária de expropriação judicial, eis que é atributo competencial da Justiça do Trabalho executar, até o final, suas próprias decisões. Exegese do disposto no art. 114, in fine, da Constituição Federal.
5.4. As execuções especiais
A centralização dos feitos em execução numa só secretaria também possibilita uma maior racionalização dos trabalhos, principalmente quando temos muitas ações judiciais correndo contra um mesmo devedor.
Visando imprimir maior otimização à execuções dessa estirpe, passou a SEI a adotar um regime especial de execução em relação a determinadas empresas contra as quais correm muitos processos na fase de execução.
Tal providência permite evitar a repetição excessiva de atos, bem como a multiplicidade de penhoras sobre um mesmo bem16. Reunindo-se todos os
feitos, pode-se, de outro modo, expedir intimações únicas e mandados integrados, praticando, num só ato, providência que demandaria muito mais tempo e esforço pelo sistema tradicional de tramitação isolada dos feitos.
Em rigor, sequer é necessário, nos casos de execução em regime especial, o aperfeiçoamento de penhora em todos os feitos. Basta que se eleja um, para o qual deverão migrar as habilitações dos demais crédito, e somente nele se processa os atos expropriatórios, rateando-se o produto final da arrematação com todos os credores.17
16 É comum observar que devedores contumazes na Justiça do Trabalho costumam indicar à penhora, em vário processos, um único bem. Tramitando os feitos em separado, são lavrados, então, vários autos de penhora, permitindo ao devedor embargar em todos os feitos, quando, em verdade, o valor do bem somente comportaria a garantia de, talvez, apenas uma das dívidas, resultando o exercício impróprio do direito de impugnar à execução, mediante embargos, elevando os custos do processo e elastecendo o curso das ações, sem falar nos prováveis inconvenientes da multiplicidade de hastas públicas.
17 O Tribunal Regional do Trabalho da 21ª regulamentou esta matéria através do Provimento TRT/CR Nº 01/96: “art. 92. É facultado ao Juiz, na fase executória, determinar a reunião de processos contra o mesmo executado para o prosseguimento de execução única, com aproveitamento dos atos já praticados em qualquer deles. Parágrafo único. Havendo vários processos em fase de execução, em mais de uma Vara do Trabalho, e incidindo a penhora sobre os mesmos bens, por inexistência de outros a penhorar, os atos expropriatórios correrão no Juízo que realizou a primeira penhora, o qual se encarregará do rateio dos valores apurados, proporcionalmente aos créditos informados pelos demais juízos, colocando-os à dispcolocando-osição destes”.
Registre-se, finalmente, que a execução de forma efetivamente integrada permite o conhecimento do passivo trabalhista das empresas submetidas a esse regime, através da elaboração de quadros de credores, assim como do panorama da situação patrimonial da devedora, possibilitando a realização de composições entre as partes.
6. Sobre a necessidade de instrumentos auxiliares e extraprocessuais para a efetividade do processo de execução na Justiça do Trabalho
A experiência da Secretaria de Execução Integrada da 21ª Região é mais uma, ao lado de tantas outras tentativas de imprimir um novo cenário no panorama da execução trabalhista, num movimento que, consciente ou inconscientemente, tem provocado uma mudança de mentalidade no enfoque do problema do acesso à justiça e da efetividade processual. Todas as tentativas neste sentido são válidas, e merecem divulgação.
Porém, ainda entendemos que o presente ensaio deveria abordar uma questão pouco explorada na literatura processual, mas que, a nosso ver, é da maior importância e não poderia, de maneira alguma, ser esquecida neste momento de reflexão sobre a execução dos créditos trabalhistas.
Falamos da necessidade de se instituir meios extraprocessuais de coação do devedor a adimplir com sua obrigação trabalhista pendente na Justiça do Trabalho. Falamos, em especial, da necessidade da instituição da ‘certidão negativa de débitos da Justiça do Trabalho’, a exemplo de outras modalidades de atestados de idoneidade fiscal e previdenciária que está o ordenamento jurídico a exigir, cotidianamente, das empresas em geral.
Em interessante ensaio sobre o tema, destaca Antonio Umberto de Souza Júnior que a legislação proíbe a qualquer órgão da Administração federal, estadual, distrital ou municipal, inclusive as autarquias, contratar ou acatar proposta em licitação com contratante ou proponente sem a prova da quitação tributária (CTN, art. 193 e Lei nº 8.666/93, arts. 27, IV, e 29, III). De tais regalias
legais desfruta também o crédito previdenciário (Lei nº 6.830/80, art. 4º, § 4º; Lei nº 8.212/91, art. 51, caput). Além dos privilégios insertos nos arts. 186 a 192 do CTN, como a preferência nas diversas modalidades de concurso de credores, o impedimento do devedor de obter o favor legal da concordata (Lei nº 8.212/91, art. 95, § 2º, alínea e) e a proibição de contratar ou de participar de licitações com a administração pública (Lei nº 8.212/91, art. 95, § 2º, alínea c; Lei nº 8.666/93, arts. 27, IV, e 29, IV), a existência de débito com a Previdência Social sujeita a empresa responsável às seguintes restrições: a) fica proibida de distribuir bonificações, dividendos, cotas ou participações nos lucros a seus acionistas, cotistas, diretores ou membros de conselho fiscal ou consultivo (Lei nº 8.212/91, art. 52); b) tem seus bens penhorados no instante em que é citada na execução (Lei nº 8.212/91, art. 53); e) deverá apresentar certidão negativa de débito (Lei nº 8.212/91, art. 47) para contratar com o Poder Público e receber incentivos fiscais ou creditícios (I, a), alienar ou onerar bem imóvel (I, b), alienar ou onerar bem móvel valioso integrante de seu ativo permanente (I, c) ou dar baixa, reduzir capital de firma individual ou sociedade comercial ou promover-lhe a cisão total ou parcial ou transformação (I, d), devendo a certidão abranger todos os estabelecimentos e obras de construção civil (§ 1º); f) a mesma certidão será exigida para averbação de obra de construção civil no tabelionato de imóveis (Lei nº 8.212/91, art. 47, II); g) sujeita-se o contribuinte em débito com a Previdência Social, ainda, à suspensão de empréstimos e financiamentos de instituições oficiais, à revisão de incentivos fiscais privilegiados, à interdição para o exercício do comércio e à cassação de autorização para funcionamento no país (Lei nº 8.212/91, art. 95, § 2º, alíneas a, b, d e f) (SOUZA JÚNIOR, s/d).
Todas estas restrições legais e contratuais aos inadimplentes com a Fazenda Pública e com os cofres da Previdência Social geram, indubitavelmente, um positivo efeito no sentido de compelir, reflexamente, o devedor a quitar seus débitos, instrumento de que não dispõem os trabalhadores brasileiros e a Justiça do Trabalho.
Tal quadro nos permite chegar à seguinte ilação: é mais provável que uma empresa se veja forçada, por imposição de alguns dos eventos descritos, a resolver pendência junto à Fazenda Pública ou à Previdência Social do que se dirigir à Justiça do Trabalho para quitar o mais privilegiado dos créditos: o trabalhista.
Esta é uma inversão total na escala do privilégio creditício, resultante das forças sociais que, certamente, não conseguem convergir para uma ação legislativa mais positiva em prol do incremento de meios coercitivos reflexos a contribuir com o mister jurisdicional de pacificação sócio-laboral, especialmente no momento em que mais espera do Estado-Juiz: o momento de executar suas próprias decisões (CF, art. 114, parte final).
Portanto, a exigência, naquelas situações, também de uma certidão negativa de débitos da Justiça do Trabalho, ou algo semelhante, certamente contribuiria, e muito, para ‘estimular’ os empregadores inadimplentes a resolver, antes de mais nada, suas pendências trabalhistas, elevando o crédito trabalhista, na prática, ao status que goza na teoria jurídica.
Para tanto, nem seria necessário elaborar uma proposição legislativa. Ela já existe. Trata-se do Projeto de Lei nº 1454/96, de autoria do Deputado Paulo Paim, que modifica o art. 29 da Lei 8.666/93 (Lei das Licitações), a fim de exigir, quando da apresentação da documentação relativa à regularidade fiscal e
trabalhista, certidão negativa da existência de débitos para com os empregados ou ex-empregados, decorrentes de sentenças trabalhistas transitadas em julgado, expedida pelo setor competente da Justiça do Trabalho. Na justificativa, destaca o ilustre
parlamentar que o objetivo do projeto é apenas o de estabelecer que o Estado só transacione com empresários que cumpram a mais elementar de suas obrigações sociais, qual seja, a de manter relações justas de trabalho. E acrescenta: uma das formas de se garantir o cumprimento desse dever é que a exigência
que propomos seja inserida no Estatuto das Licitações e Contratos Administrativos, de modo a estimular o cumprimento de decisões judiciais reconhecedoras dos direitos dos
trabalhadores, o que certamente ocorrerá em relação ao universo das empresas que vendem bens, realizam obras ou prestam serviços à Administração Pública, direta e indireta, nas diversas esferas da União.
Infelizmente, a presente proposição legislativa não tem tido a célere tramitação esperada, encontrando-se atualmente apensada a uma série de outras proposições que visam aperfeiçoar o sistema brasileiro de licitações públicas.
Mesmo assim, a proposição revela a positiva percepção de que a exigência de uma certidão negativa de débitos trabalhistas é um caminho que pode ser explorado para o aperfeiçoamento do panorama executório trabalhista, dotando o crédito do trabalhador de atenção pelo menos equivalente à que tem sido dispensada pela legislação ao crédito tributário e previdenciário.
Enquanto não tornada realidade a certidão negativa de débitos trabalhistas, tem buscado a Secretaria de Execução Integrada de Natal, assim como outras Varas do Trabalho da 21ª Região (a exemplo da 1ª Vara do Trabalho de Mossoró/RN), valer-se, para os efeitos da execução de contribuições sociais na Justiça do Trabalho (art. 114, CF; Lei 10.035/2000), da possibilidade de inclusão do nome do executado no rol do Cadastro de
Inadimplentes da Previdência Social, a fim de que o devedor a este título, na Justiça
do Trabalho, passe a sofrer as restrições legais de sua atitude contumaz e se veja compelido a recolher as respectivas contribuições. Esta é uma providência que, embora bastante recente, já tem apresentado bons e efetivos resultados.
7. À guisa de conclusão
Não alimentamos ilusões. O aperfeiçoamento dos meios para trazer maior excelência ao processo de execução trabalhista é esforço que demandará muito tempo, quiçá seja missão para uma geração inteira.
Nem a percepção de um método de vanguarda a enxergar a verdadeira efetividade processual como sendo a integral entrega da tutela jurisdicional - incluindo a executória –, nem a busca para engendrar novos instrumentos e meios de logística a auxiliar no escopo jurisdicional poderão, por si sós, alterar, em curtíssimo prazo, a difícil crise por que passa a execução trabalhista.
Porém, é preciso fazer eclodir um esforço multiplicador para que novos caminhos sejam percorridos, a fim de que sejam dadas respostas à espera do jurisdicionado, que, quase sempre pálido, espera pelo feliz chamamento da Justiça para que venha, enfim, receber o que lhe pertence por direito.
Esperamos, com as reflexões apresentadas, contribuir para o debate sobre a efetividade processual e sobre a execução trabalhista, lembrando, com as palavras de Cappelletti, que ninguém, muito menos o jurista, pode se subtrair ao
peso da cruz que recai sobre cada ser humano, furtando-se à difícil responsabilidade de oferecer opções, críticas e lutas para resolver os problemas e as dificuldades que, dia após dia, afligem nossa vida, na qual nada está rigidamente determinado.
8. Referências bibliográficas
BEZERRA, Paulo Cesar Santos. Acesso à justiça: um problema ético-social no plano da realização do direito. Rio de Janeiro: Renovar, 2001.
CALMON DE PASSOS, J. J. ‘Instrumentalidade do processo e devido processo legal’. Revista de processo, vol. 102, São Paulo, 2001, p. 55-67.
CAPPELLETTI, Mauro et alii. Acesso à justiça. Porto Alegre: Fabris, 1998. DINAMARCO, Cândido Rangel. Execução civil. São Paulo: Malheiros, 1994. __________. A instrumentalidade do processo. São Paulo: Malheiros, 1999.
MARINONI, Luiz Guilherme. Novas linhas do processo civil. São Paulo: Malheiros, 2000.
NALINI, José Renato. O juiz e o acesso à justiça. São Paulo: RT, 2000.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Pela mão de alice: o social e o político na pós-modernidade: São Paulo: Cortez, 1995.
SOUZA JÚNIOR, Antonio Umberto. Por uma execução trabalhista mais eficaz. Disponível em www.trt21.jus.br, s/d.