Revolta
da
Catraca rivaliza
com o
Ironman
SEJA O
DONO
DA
VERDADE
POR
R$
30
JOÃO
CABRAL
MORRE
À
SEVilHANA
ARGILA
COM
SALIVA?
BARBOTINA?
O UPDATE DOS
PERSONAGENS
BíBLICOS
Tornado
e
outros 113 cavalos
Psicoses
de
"Samuzeiros"
Células-tronco
de
material reciclado
OLIVER PETRY I WWW.SXC.HU
• •
sumario:
PÁGINAS
4 & 5:BARBOTINA,
FITACREPEETRECHO
BíBLICO,
PERFILDOARTíSTA
PLÁSTICO
FERNANDOLINDOTEESCRITORESE A
TEMÁTICA
BíBLICA
NO EVANGELHOLITERÁRIO
DASPÁGINAS
6 & 7TAMBÉM
NA 7: JORNALISMO EQUADRINHOSNARESENHAPAI.ESTINA,UMA
NAÇÃO
RESGATADAEM DESENHOS
APOESIADE
JOÃO
CABRAL DEMELOE A BELEZA ESPANHOLA NAS
PÁGINAS
8 & 9 EM MORTE E VIDASEVILHANAUMANOITE COMOSAMUZEIRO EMSAMU 92. QUALA
OCORRÊNCIA?,
PÁGINAS
10 & 11PÁGINAS
12 & 13: ERALIXO,AGORAÉ
ESPERANÇA.
MATERIALANTES DESCARTADOVIRA FONTE DE
CÉLULAS-TRONCO
ATÉCNICA POLÊMICA
QUE USA SANGUE COMOREMÉDIO,
NASPÁGINAS
14 & 15 AÊNFASE
NAFORMAÉ
OCONTEÚDO
(E
AFORMA)
DASPÁGINAS
16&17:MASSAESTÉTICA
E AS REVOLTAS DACATRACA ODONODA VERDADE CONTA NASPÁGINAS
18&19QUANTOCUSTOU PARAMONTAR SEU JORNAL
PÁGINAS
20& 21: DENISE,PEDROETHIAGUS ALGOEM COMUM ETODOUM
RESTODE
FERENÇA
ANALISAA VIDADOSTRÊS
CADEIRANTESE NA
PÁGINA
22ASTRÊS
VIDASSÃO
DEPROSTITUTAS ENQUANTOAMAIS ANTIGA DAS
PROFISSÕES NÃO
PERDEAATUALIDADE UM CARRODE 113 CAVALOS EUMACHARRETEDE UM CAVALO
SÓ:
OGERENTE,
O FAZENDEIROE ACIDADE,NAPÁGINA
23 NACONTRACAPA:A CORAGEMDOREPÓRTER
QUEPULOUACERCA EDEU UMA VOLTAPSANDO NOCARTÃO-POSTAL
MAISFAMOSO DE
FLORIANÓPOLIS
ZEBO
ZEROEM REVISTAEDiÇÃO
ESPECIAL -OUTUBRO2007 CURSO DEJORNALISMOUNIVERSIDADEFEDERALDE SANTA CATARINA -UFSC CENTRO DE
COMUNICAÇÃO
EEXPRESSÃO
- CCE Trindade-Florianópolis
CEP 88040-900 FECHAMENTO: 17 DEOUTUBRO DE 2007EDiÇÃO
AmandaBusato,AnaCarolinaDali'Agnol,Ana PaulaFlores,AndréFaust,CláudiaMussi,DiegoRibas,Muito
além
do
óbvio
ululante
ntesde
tudo,
comoqualquer
pessoabemeducada,
vamoscomeçarnosapresentando.
OZerotodomundo
já conhece,
masagoraestamosemrevista.Começamos
nosemestre nterior(sem
nome),
mas aospoucosveioapercepção
deque essanãoera aúnicaausência.Comoestaéumarevistafeita
pelos
estudantesdejornalismo
da UniversidadeFede-ral deSantaCatarina,nãotemostítulo
algum;
nãosomosnobres, desembargadores,
governantes,mestresoudoutores.Nemao menos somosbacharéis
em]ornalismo,
pois
aindanosfaltamnomínimo maistrêssemestresatéocanudoquenoslivra do carimbo de
"precário"
nacarteiradeassociadodaFederação
Nacional dosJornalistas.
Masaconfusão deegosfoitantaque
surgiu
maisumaesperada
crisede identidade.Nãotínhamosnome etambémnãotínhamos onde
publicar
omaterialproduzido
paraadisciplina
deRedação
V.O espaçosurgiu
com apossibilidade
de transformarojornal
emrevista paraacadeira doZero. A
primeira
revistadocursodejornalismo
daUFSC,quetambém celebraos25anosdo
Jornal-laboratório.
Eodesafio valeu àpena.Somos
simpatizantes
dos sem-terra, sem-teto,sem-dinheiro(e
suasvariáveis:
hippies,
estudantesuniversitários,
jornalistas),
sem-emprego,sem-vergonha-na-cara, sem-nada-para-fazer
e todosaqueles
emqueafalta dealgo
esteja
presente.Idolatramosaausência dolead, glorificamos
ainexistência deumaestruturanarrativafixaeflertamoscom a
parcialidade.
Talsituação,
emque não existemas
limitações
impostas
àprofissão
nomercado detrabalho,
nostornamentes-livres.Por isso, você encontrará
aqui
matérias que estão livres dequaisquer
amarras.Elasvão passear
pelo
movimentodo novojornalismo, mergulhar
dentro do universo das reportagens de imersão.
Aqui
você não encontraránem
Papa
nemPan;fugimos
dasgrandes
pautas,ebuscamos,
sim,históriasdas cidades de interior
parecidas
com os causoscontados por nossos avós.Vamos "muito além"dos chavões edo
lugar-comum
- sónos
desculpem
autilização
dochavãonaafirmação,
masháumaboaexplicação
(não
temosnadacontrarimas).
Oprofessor
quecoordenouo nossotrabalhonaprodução
dasreportagensnosemestrepassado
éumgrande
colecionador de manchetesquecontenhamessaexpressão
e,portanto, a mesmanãopoderia
faltar.Arevistapasseiaporrealidades multifacetadas.Flertade
considerações
estéticassobrearevolta dacatracaatéafaceinterioranada
capital
doestado.Ouumolhar localparatemascientíficos que forampautanas
grandes publicações
dopaís.
Temosdetudo,
doimportante
aointeressante.
Nossa
redação,
porfim,
vai tãolonge
quealcança
umlugar
emquecomapenas 30reaisno
bolso,
umcidadão incomum montouojornal
domunicípio.
É
acidade deQuilombo,
localizadanoextremooestedeSanta Catarina.Desejamos
avocês,
leitores,
queaexperiência
comarevistaseja
prazerosa. E quealeituradestarevista cheiade ausênciasnãoos
impeça
deficarempanturrados
com oconteúdo.Nada melhorqueoóciocriativo quesucedeumaboa leitura!
DiogoHonorato, DomitilaBecker,FemandaRebelo,Ingrid Santos,JéssicaLipinski,LuizaFerreira,ManfredMattos, PaulaReverbel,Sabrina Carozzi
EDITORAÇÃO
LuizaFerreira,PaulaReverbel,Renan Dissenha,SabrinaCarozzi,TadeuSposito,ThiagoSantaellaFOTOGRAFIA AgênciaEnsaioFotojomalismo,Elaine
Manini,LuizaFerreira,Rafaela BiffCêra, Tiago Bevilaqua
������
MelhorPeçaGráfica
I,II, III,IVeXI
SetUniversitário/ PUC-RS
1988,89,90,91,92e98
AGRADECIMENTOSAldanei Corrêa, HélioSchuch, LúciaOlimpio,MauroCésarSilveira,RicardoBarreto, Tiago Bevilaqua,VivianeHerbele,CCE,PRAEePREG(UFSC).
REPORTAGEMAna CarolinaDall'Agnol,Ana Paula
Flores, Diego Ribas,DomitilaBecker,ElaineManini, Fernanda Rebelo,Ingrid Santos,LucasSamapaio,Luiza Medeiros, Mayara Rinaldi,RafaelaBiffCêra,Renan Dissenha,SabrinaCarozzi,TadeuSposito, Tiago Santaella, Vera Flesch
PROFESSOR COORDENADORLucioBaggio
MONITORIALucas Neumann
�
30melhor
Jornal-laboratório do Brasil EXPOCOM 1994
INFORMAÇÕES
IMPRESSÃODiário CatarinenseCIRCULAÇÃO:Nacional
DISTRIBUiÇÃO:Gratuita TIRAGEM 5.000exemplares
�
Melhor Jomal-Iaboratório
I PrêmioFoca
Sind.dos Jornalistas deSC,2000
ARTELucasNeumann
INFOGRÁFICOS
produzidosnadisciplinadeInfografiapor AndressaTaffarel,ElaineManini,GabrielRosa,Lucas
NeumanneMarceloAndreguetti
TELEFONES
+55(48)3721.6599/3721.9490/3721.3215
FAX:3721.9490
NAINTERNET
SITE:WNW.zero.ufsc.br CIRCULAÇÃO:[email protected]
ILUSTRAÇÃO
Gabriel Silva02
ZERO
OUTUBRO
-2007
artigo
?
Deseam
da edue
,..,....----...----'"".".Permitam-me
usar um artifíciocomum na Literatura. Comum e
valioso,
precisamente porque
logo
nosexpõem
aodesconforto.
Imagine,
leitor,
umviajante
quedesconheça
porcompleto
o nossoEstado. Ele sepropõe
apercorrero extensoterritórionacionale se
indagar,
sempre quelheconvier,aseguinte
pergunta: que motivoslevaram aofracasso do
projeto
educacional brasileiro?Onosso
viajante
éumsujeito
versadoe
perspicaz.
Aoleroprimeiro artigo
daDeclaração
Universal dos DireitosdoHomem
(Todos
nascemosiguais
...)
ele reconhece que aí não está
contida uma verdade
literal,
esimumameta.
Porque
nósnãonascemos em
condições
iguais.
Fácilconstatar.
Assimque desembarcaemSão
Paulo,
elese
dirige
aocolégio particular
Rio Branco.Uniformes
impecáveis, guardas
de trânsitoga rantindoasegurançados bem-nascidosjovens
paulistas.
Próximaparada: Higienópolis,
amaiorfavela
paulista,
localizadaaalguns
qui
lômetros da
instituição
modelo.Defrenteparaum
colégio estadual,
aprimeira constatação.
Essesalunosnãotêmo mesmoaspecto
daque
les.
É
umextremo,evidente,
masnãoéesse opaís
dosextremos? Oviajante
fazapergunta a umpassante.Foiumprofessor
decinqüenta
etantosanos,docente da redepública,
quemrespondeu.
Oprofessor
explica
que,nos anosdeotimismoeconômicoe
poder político
centralizado,
os nossosprojetos
públicos
naeducação
eramingênuos
e sequeriam onipotentes.
Nãolevaramemcontaaextrema
heterogeneidade
daqueles
aquemsedirigiam.
Fazendopiada,
osofrido
professor
citaoMobral.O
viajante
balança
acabeça, incrédulo,
e se faztransportarparaoimponente
prédio
retangular
doMinistériodaEducação,
emBrasília.Uminterlocutor do Ministérioo
aguarda.
Linguajar
opaco e fartoselogios
ao ProUni
-programa que facilitou o acesso de meio
milhão de estudantes de baixa rendaauniver
sidades
privadas,
atravésde benefícios fiscais àsinstituições,
umdoscarroschefes da visibilidade
governamental
emquestões
educacionais.Evitandooconfronto
ríspido,
oviajante
émeticulosoaoenunciarsuapergunta.
Ofuncionário
pinta
umquadro
otimista:"Caro
senhor,
notequeestamosalinhadoscom apolítica
de umprestigiado órgão
multinacional,
oBancoMundial.Ainstituição,
apenas entreos anos1980e1997,
emprestouàUniãoUS$
14.3 bilhões.O BM definiu uma
estratégia
educacional modernaparao
Brasil,
centrandoseusesforços
emdesmantelara
atuação
burocrática doEstado;
advertiu que, se oEnsino Médio eSuperior
forem tutelados exclusivamente
pela
iniciativaprivada,
deixaremos detropeçarnabusca dasonhada
'revolução
cultural brasileira'.A atividade
pública
poderá
seconcentrar,prioritaria
mente,na
Educação
Fundamental."OBMapontaa
criação
defundos,
gerenciadosem
conjunto
com ainiciativaprivada,
umaferramenta
indispensável
parao sucessodesta
empreitada.
Gradativamente deixaremosa
educação
acargodos capazes.Osargumen tosdoBM estãoancoradosemrelatóriosconceituados.Com intuitodeorientarinvestidores
acercade
projetos
naeducação,
oórgão
dispo
nibiliza relatórios do "World
Factbook",
umapublicação
daAgência
Central deInteligência
(CIA)
estadunidense. Este cenário épossível
graçasaoqueoBMconsideraseupapel
no cenário econômico
contemporâneo.
O
viajante
estáirrequieto. Soube,
por in termédioconfiável,
queodéficit acumulado com oBMnoperíodo
de 1980a 1997foi deUU
2.1bilhões;
queapolítica
daprogressão
continuada adotada na
Educação
Funda mental de váriosestados,
paramaquiar
asavaliações periódicas
do ensinorequeridas
pelos
investidores,
temgerado
revoltaentreos
profissionais
daeducação,
devido à falta de debatee omodo arbitráriocomofoi lançada;
soube queamaiorpartedaprodução
acadêmicaepesquisa
científicaprovém
das'antiquadas'
Instituições
deEnsinoSuperior
(lES)
públicas.
Elepróprio
conclui que amentalidade destes interlocutores
(e
mentores)
do Ministério daEducação
é tãoretan-1
(
(
í
?
'(
r
Todavia,
aimplementação
do Fundef foi conflituosae,nofim dascontas,desastrada.Ofundo
privilegiou
o EnsinoFundamental,
seguindo
arecomendação
dosorganismos
inter nacionais.Infelizmenteissofoi feitoemdetrimentodosoutrosníveis deensino,incluindoo
pré-escolar
e aEducação
paraJovens
eAdultos,
cujas
matriculasnãoeramcomputadas
nos repasses per
capita.
Aprópria
concorrênciaentreosníveisdeensino,somadaafratura
política
e afalta dediálogo intragovernamental
desembocounumprocesso cansativoe
desgastante.
Oresultado
'político':
adesconfiança
dosentessub-governamentais
paracom alegitimidade
política
dacoordenação
federal.Osresultados cotidianos:aquaseuniversalização
da Educação
Fundamentale, poroutrolado,
umanefasta
piora
naqualidade
doensino,comoapontam osresultados
vergonhosos
daspesquisas
comparativas
internacionais.O
viajante
sentanobanco da praça.Nãoimporta
quepraça.Eleaindamatutaasúlti masirJormações
queleunoscemitérios dasmonografias
universitárias. Fica estarrecidoaosaber queaUnião
ignorou
osprocedimen
tostécnicoseestabeleceuumvalor arbitrário
paraosrepassesper
capita
nofinal dosanos90, economizando perto de
R$
1.3 bilhõesanuais.Tambémnãoentende porque
alguém
pode
falaremsuperávit primário
senãoestá sobrando nada:se nãohágiz,
computador,
papel higiênico
ecarteiras nasescolas.Nãoentende por que os ministros
elogiaram
oFundef, hoje elogiam
o Fundeb e amanhãelogiarão
o Plano de Desenvolvimento daEducação (PDE), quando
estesprogramassemostramvacilantesemal
direcionados,
sempre
parciais
em suaconcepção
epresosnasdiretrizes doconsenso.Acreditar quecercade 3% doPIBinvestidosem
educação
seja
mui toé,
entreosconsensos,omaisdesnaturado.Propagar
asPolíticas deEducação
como umamaneira de 'investir
melhor',
frente a essebreve
histórico,
soa comopiada.
PorManfredMattos
�
2007 -OUTUBRO
ZERO
03gular
quantooprédio
emque trabalham.Nosso
viajante
resolveinsistirnaconexãopolítica-educação.
Tudo épolítica,
nãoéoquedizem?Poisbem.
Após
uma semanaenfurnado embibliotecasuniversitárias,
chega
aoseguin
te
prognóstico:
nos anos80,
coubeaosmunicípios
egovernos estaduaisomanejo
dosistematributárioe a
condução
depolíticas publicas
deproteção
social.Boapartedosestados,
apesar da resistência doexecutivo,fixouumpercentual de 30% da
arrecadação
deimpostos
destina dosaeducação,
aderindoao(quase)
consensoda década de80,dequeeranecessárioinvestir
maisnosetor.A
descentralização injetou
pertode
R$
20bilhõesamais,
porano,nascontasdos estadose
municípios.
Comanuênciadosestados,
asprefeituras
focaramesses recursos naeducação pré-escolar
-seu ponto forte
histórico-, oque gerouum
descompasso
emrelação
aoEnsinoFundamentaleMédio. Maslogo salpicaram
artifícios contábeis destinadosa
cumprir
asdisposições
constitucionais degasto,
possibilitando
desviaros recursosparaoutrasatividades alheias à
educação.
Nosanos90,outroconsenso: oBrasilgas
tamuitoem
educação,
masgastamal. Sendoassim,
após
umadécada de embatespolíticos,
o governohomologou
um processo articulado de
descentralização,
na forma do Fundode
Manutenção
eDesenvolvimento doEnsinoFundamental ede
Valorização
doMagistério
(Fundef).
Almejava
reduzir odesequilíbrio
regional
naoferta deensino,
elevarosíndices dequalidade
eestruturarosistemadescentra lizado.Aliás,
sanar asdiscrepâncias
regionais
sempre foiuma
atribuição
histórica do Estadobrasileiro
(malograda,
ressalta-se).
A constituição
de1988e aLeideDiretrizeseBases1996
trazemessa
premissa,
restringindo
apartici
pação
direta daUniãonoensino,reforçando
seupapel
coordenador eequalizador.
Nessesentido,
estabeleceu-se um valor percapita
nacionalpara investimentosna
educação.
Osestados
incapazes
decumprí-Io,
deveriamserressarcidos
pelos
cofres federais.perfil
Barbolina,
fila
crepe
e
Irecho
bíblico
Fernando Lindote
é
um
artista que vive de
experimentar.
Há
mais de 20
anos
investiga
materiais
e
meios de
expressão
na
expectativa
de
conferir
não
um
tema,
mas um
sentido
à
sua
obra
Oartista
tesLindote,
plástico
46Fernando Otávioanos, deixa maisFuendo que idéiasesentimentosimpressos
em seustrabalhos. Eleusaatéseusdentesesaliva comoinstrumentosparaestruturaramatériae aforma de
algumas
obras.Naexposição
Ex-periências
com oCorpo,
realizadaem2002noInstitutoTomie
Othake,
emSãoPaulo,
Lindoteexibiuumvídeocom
imagens
desuabocamordendo, mastigando
ecuspindo
umpeda
çode E.v.A.
(edil
vinil acetato, ummaterialemborrachado).
Aescultura quesurgiu
desseprocessotambémestavaexposta.
Agnaldo
Fa-rias, críticodearteecurador da
exposição,
escreveuqueaprodução
doartista"parece
indagar
obsessivaesistematicamentesobreanaturezade cadasuporte
expressi
vo,sua
condição corporal".
Durante adécadade 1980, aleitura dostextosde HélioOiticica
despertou
emLindote a vontade de radicalizar as lin
guagens artísticas. Ele então passou a fa zer trabalhosmais
híbridos,
que"fogem
daslinguagens
estanques",
comodefine. Essapropostaolevouaentrarduasvezes noSalão Nacional deArtesPlás
ticas.
Lá,
eleusou umafitaisolante preta, de pano, colada diretamentena
parede
para criardesenhos. A fita substituiu as telas com que o artis-ta começou essa
experiência
- noinício ele recor
tavaumatelaem
Lindoteconta
queserartista não foi escolha
sua.Acredita que
não
poderia
seroutracoisa
r
Barbotina: barro misturadocomsalivaque serviu paracriar desenhosna
parede.
Oresultado nãoerasó umdesenho, mas umapintura,
se obarro for vistocomotintanaparede,
ouumaescultura muitofinatiras
finas,
comformas,
efazia desenhoscom aprópria
telanaparede.
"É
umamaneirabemmodernista,
romperolimitemáximode cada
linguagem,
fazer desenho atéesgarçarafronteira do desenhoeaquilo
parardeserdesenhoeviraruma outracoisa. Não seise era
possível
fazerissonos anos1980,porqueessasfronteirasjá
tinhamsidotranspostasporoutros,mas, no
fim,
eufiz isso de novo", diz Lindote. Cerca de dez
anosmais
tarde,
em umaexposição
individualnoMuseudeArteModema
(MAM)
doRiode
Janeiro,
oartistafezumdesenhocomfita isolantenovidro domezaninodomuseu.Elecontaque, de
dia,
aoolharpara ovidro nointeriordomuseu,o
público
viaodesenhoe,através
dele,
ocentroda cidade.À
noite,via-seodesenho etodaa
exposição
no interiordomuseu
espelhada
novidro.Barbotina: Barro misturado com
água
ficandoemestadocremoso. Poucossabemo
que
é,
masLindotejá
fezartecom omaterial
-só que,em vezde adicionar
água
naargila,
adicionousuasaliva.Abarbotinaserviu para
criardesenhosna
parede.
Aformaeraprimei
rodesenhadacomfitacrepe,depois preenchi
dacom abarbotina. Oque oartistaobtinha
nãoera só um
desenho,
mas umapintura,
se obarroforvistocomotintanaparede,
ou umaesculturamuitofina,
porquetinha volume, pormenorquefosse.Aobracontavadesde
oiníciocom amisturade técnicas artísticas.
Foiexpostano PanoramadeArte Brasileira
em2005,noMuseudeArteModema
(MAM)
deSãoPaulo.Lindoteécatólico.Praticante. Foiemuma
missa,
durantealeitura deJoão,
capítulo
nove,versículoseis quethe
surgiu
aidéia paraessaobra.Otrecho bíblico descreveomomentoem
que
Jesus
cospenochão,
faz barrocom asaliva e
põe
sobreosolhos deumcego para curálo. "Estava achando
estranho,
aúnicapartedo corpo queeuestavausandonotrabalhoera amão,e eutinha acabado defazerosúltimos
trabalhoscommordida.
Quando
opadre
leuissoeuacheique
podia
misturarobarrocomminha
saliva,
comoJesus
fez,
em vezdemis turarcomágua", explica.
Versões-dessemes motrabalho,
sóqueemtelasmenores,fazempartedoacervoda
galeria
deartepaulistana
NaraRoesler,
ao lado de obras de AbrahamPalatnik, Julio
LePark,
CaoGuimarães,
ArturLescher,
TomieOhtakeentre outros.Pintor,
escultor,
desenhista: Lindote é tudoissoaomesmotempo.Desde quecomeçou a
participar
deexposições,
recebeuprê
miospor trabalhos feitoscomdiferentes téc
nicas. O
primeiro
foi umdesenho,
noinício da décadade1980,
premiado
em um salão do sul dopaís.
Em1985,
recebeuo PrêmioPirelli com uma
pintura
noMuseu deArtedeSão Paulo
(MASP)
e,doisanosdepois,
oPrêmio
Aquisição
AcervoFUNARTE,noRiodeJaneiro,
com asériedepinturas
Barroc. No circuito de arte de Santa Catarina, semprenadoucontraacorrente.Já
seesforçou para fazerpartedos grupos de artistas catarinenses. Não
conseguiu
porque nuncaproduziu
nadamuitopróximo
daarteregio
nal de
Florianópolis,
referenteaelementos dacultura,
folcloreemitoslocais.Maisdeuma vezouviu comojustificativa
paranãoestarincluídoemprogramasdeincentivoa
jovens
artistasofato denãosernativoda ilha."Nun
ca
peguei
nenhum tema folclórico porquenãomeinteressavam,se meinteressassemeu
faria,
masnãointeressavam,e eusabia queisso iriacontramim". Por outro
lado,
Lindotecalculavaque
algum
dia haveriaespaçoem
Florianópolis
paraoutraprodução
dearte
contemporânea
como a sua."Teve bem menosespaço do que euimaginava,
mas osuficientepraeu
poder
continuarfazendo." Ele atéchegou
a recebeuapoio
de alguns membros dacomunidade artística lo
cal,
comoJoão
OtávioNevesFilho,
oJanga,
eHarry
Laus. Em1986,
foi convidado por Laus para uma mostra coletiva chamadaPerspectiva
Catarinense.Junto
comos artis tascatarinensesRubensOestroem,Luiz Henrique
Schwanke eLourival(Loro)
Pinheiro daLima percorreuoBrasil mostrandosuasobras.
Lindote nunca foi
premiado
em SantaCatarina. Também não foi reconhecido
pelos
importantes
prêmios
eexposições
deque participa
nocircuitonacional. Ele observaquenoPanoramadeArte2005 doMAMdeSãoPaulo haviaoutrosquatroartistas
plásticos
deFlorianópolis (Raquel Stolf,
YiftahPeled,
Zé Lacerdae
Júlia Amaral),
além dele. "OPanoramatinha 50artistas, 10%deFlorianópolis.
Nãoerapara ummuseu,ouqualquer
outroespaço, chamaressescincoartistas,fazeruma
exposição
e mar carque10%doPanoramadoMAMestáaqui
efoi feito
aqui?"
O artistaachaque issoacontece porcontadedesinformação,
não desinteresse. Eleentendequeasinstituições
locais sabem daexistência dessesartistas,masnãosabemoque
éeondeestáocircuitodeartebrasileiro.Porisso nãoreconhecemovalor que hánessas
participa
ções.
Essesartistaschegaram
aoPanoramaapós
serem
procurados
porumcríticodoMAMdeSãoPaulo,
ouseja,
exclusivamente por iniciativade críticose artistas. "Aconteceu
pela
vontade de todomundo,
menosde quem deveriaestartrabalhandopara isso que,nocaso
estadual,
sãoa
Fundação
Catarinensede Culturae oMuseudeArtedeSanta
Catarina;
no casomunicipal,
aFundação
FranklinCascaes",lamenta.O artistaapontaparauma
prática
aindarecorrentenoestado: quem recebe
indicação
de alguém
importante
temprioridade
paradivulgar
otrabalho. "Ocircuitoaindase moveporesse
tipo
deindicação. Políticos,
familiaimportante,
familiarica,aindaexiste isso.É
umdesrespeito
com essa novageração
que estudaebatalha pramostrarseu
trabalho,
praterumatrajetória",
diz.Maisuma vez oartistavêum
problema
técnico,emquea
desinformação
dos administra dores deinstituições
de culturacatarinensesvemacompanhada
de falhaséticas.Até
hoje,
Lindote não se inseriu em nenhumgrupodeartistasdeSantaCatarina,nem
de
qualquer
outrolugar.
Firmou-secomo umconsiderável artista
contemporâneo
dentro docircuitonacionalporconta
própria.
Comas
publicações, rapidamente
validou suahabilidade paraodesenhoe aos 13anosjá
eracartunistaprofissional.
Começou
afreqüentar
reuniões deimportantes
figuras
domeio, como
Edgar
Vasquez,
Renato Canini(criador
do personagem ZéCarioca),
Santia go,Juska,
GilmarFraga,
todos dezanos, nominimo,
maisvelhos que ele. Recebeuconvitepara desenharumatirinhano
Quadrão, suple
mentohumorístico do
jornal
Folha da Manhã. Tinhaumatirafixaemquecontavaasaventurasdeuma
princesinha.
"Eraumaprincesinha
horrorosa,
tinhaseupai,
oRei,entãoera umametáfora da ditadurae eutiravasarrodafilha
do
Geisel",
conta,achando graça.Maistarde,
publicou
tambémnojornal
Zero Hora. Comodinheiroque
ganhava,
compravabrinquedos.
Ser artista nãofoiexatamenteuma esco
lhasua.Ele acreditaque não
poderia
serqual
quer outra coisa. Filho de
pai
baiano,
fiscaladuaneirodareceita
federal,
emãegaúcha,
foioúnicodecincofilhosa
seguir
essecaminho.Os
planos
paraeleeram outros. "Meuspais
queriam
queeufossearquiteto."
Em1977,
depois
departicipar
deumaexposição
decartunistasemPortoAlegre
e receberumaresenha
positiva
nojornal
ZeroHora,parou de desenharporumtempo.Aos17anos,
decidiusemudar paraointerioreretomaros
estudos. VoltouaSantanadoLivramentoelá
viveucom osavós.Acidade faz fronteiracom
Rivera,no
Uruguai,
eduranteaditadura abrigou artistas
uruguaios impedidos
detrabalharem seu
país.
Noretomoàcidadenatal,
Lindote matriculou-senasaulas depintura
doartistauruguaio
OsmarSantos.Logo
parou de freqüentá-las.
Julgava
oprofessor
muito autoritárioe nuncateve
vocação
paraaprender
sob ordens.Dessetempoedaarteuruguaia
herdou conhecimentos sobreoconstrutivismo universal deTorresGarcia,queo
ajudou
aentenderoconstrutivismodo Brasile, mais
tarde,
HélioOiticica.
Chegou
aFlorianópolis,
ondeviveatéhoje,
nadécada de1980atraído
pela
belezaetranqüilidade
da cidadenaquele
tempo.Apesar
dosanos,conserva umpoucodosotaque
gaúcho
e ohábito de beber chimarrão todasasmanhãs.Emseu
ateliê,
mantémaolado do toca-discosumvinil da
dupla gaúcha
KleitoneKledir.MasLindotenãogostado rótulo de "artista
gaúcho
radicadoemFlorianópolis"
comquecostumaser
apresentado.
Paraele,
issoé apenasumdetalhe.Umdetalhe queoartistanemconsidera
importante.
PorRafaela Biff Cêra
l
2007
-OUTUBRO
ZERO
05
Dainfância conturbada ao reco
nhecimento Por causade uma crise aos
dezanosde
idade,
Lindote parou defreqüen
tar aescola. Foilevado
pelos
pais
aopsicó
logo,
psiquiatra,
centrodeumbanda,
centroespírita, padre
hipnotizador,
masnada resol veu seuproblema.
"Eutinha pavor deentrarna
escola; quando
oportão
fechavaeubatiaem quem estivesse na minha frente e saia
correndo",
conta.Estudavaem umcolégio
de classemédia,
"omesmofreqüentado pelo
filho do
governador".
Suaatitude desairdaescolafoi entendida
pela
maioriacomosimples
rebeldiae,assim,passoua sertratadocomo
marginal, principalmente
pelos
pais
doscolegas,
que nãoachavam boaidéia deixarosfilhos emsua
companhia.
Viveu umtempode solidão absoluta.
Hoje,
eledesconfiaqueteve Síndrome do
Pânico,
quenaépoca
nãofoi
diagnosticada.
O artista nasceu em Santana do Livra
mento, cidade dointeriordoRio Grande do Sul.Seuavômaternoeradono deum
jornal
local. Mudou-se para Porto
Alegre
com ospais
eirmãosaosseteanos.Nacapital gaú
cha,
teveseuprimeiro
contatocom as ArtesPlásticas
quando
entrouem uma escola dedesenho animado. Pela influência do
avô,
Lindoteteveaidéia depublicar
seusdesenhosnos
jornais
dePortoAlegre.
Paraele,
pareciaumaboa saídasocial. "Achava quese eu
publicasse
meusdesenhosiaconseguir
tocarminha
vida,
existircomocidadão",
diz. Resolveumostrarseusdesenhosparaumeditor
da Folha da Tarde.Ouviudo editor queoque
faziaera
cópia
daMafaldaedoCharlieBrown."Choreinocaminho paracasa e
depois
disso desenhei feito umdoido durante uns
seismeses eentão
consegui
publicar
na mes maFolha daTarde,
só quenaparteinfantil,
que não passava por
aquele
editor que meachincalhou."
Maisumadas obras feitas debarbotina
literatura
o
Evangelho
Literário
Judas
firmou, após
muita
relutância,
umacordocomDeus para trairJesusetrans
formá-lo no salvador cristão. Miriam sentiuoolhar deCristoe o
seguiu,
abandonandosuapequena cidade
Magdala,
mesmopressentindo
tudo o que aconteceriaàquele
homeme oquefalariamdesua
relação
comele.
Jesus queria
casar eterfilhos,
não carregarnascostasa cruzdeseupovo.
Os personagensbíblicos
perturbam
aimaginação
das pessoas.Eénaliteratura que elesadquirem
formas epersonalidades,
contrariando os
dogmas inquestionáveis
daIgreja.
Traidoresemeretrizes
ganham
voz nasobrasliteráriase seuscriadores dãonovoscontextos para as
ações
condenáveis de cada urn. Até mesmoJudas, apedrejado
tododomingo
dePáscoa,
teveuma novachance.Naliteratura,
o
grande
traidor foi reconhecidoporsua le aldadeeescolhidoparaparticipar
doprojeto
deDeus. Masele relutou. Discordou do modocomodeveria
agir, gritou
com oSenhor,
achouseu
plano megalomaníaco.
Falouserimpossí
velsua
participação,
mas aofinal,
concordoutrairseumelhor
amigo
pordinheiro,
pelo
bem demuitos,por todoosempre.Judas
Iscariotessetransformouem umtraidor lealaoSenhor emO
Acordo,
deJulio
deQueiroz.
O escritorfoi frei beneditino duranteanos ededicousuavidaà
teologia.
Entreseuspersonagens mais interessantesestáMiriam- Maria
Madalena,
meninainconformadacom osofrimento das
mulheres,
mulherque não casou,pois
nãohavia homemqueaquisesse,
mas recebeuoconvitede
Jesus
paraser suadiscípula
e oseguiu.
Madalena,
nocontodeQueiroz,
viutudooqueaindasofreria
pelo
amor aoCristo:"Vi
quando
me acusaramdetersidoprostituta.
Outros,detersidosuaconcubina.Os maisbon
dosos,
ou menossutis,determossido maridoemulher,
comfilhos clandestinos".discípulos
PedroePaulo,
respectivamente.
Mas aintertextualidade entre
teologia
e literatura éainda mais
antiga.
Eracondenada por Santo
Agostinho
por ser umareinvenção
mítica e fabulosa dos textos
bíbli-DIMITRICASTRIQUE/ WWW.SWX.HU
Os
dogmas
daIgreja
são contestadosnaliteratura. Traidoresemeretrizesganham
voz em novasleiturasdo livrosagrado
Entretanto,só há20anoshouveumasis
tematização
teórica dessecampode estudosetambéma
explosão
de best-sellerse romancesseguidores
dessa tendência-O
Código
daVinci,deDan
Brown,
OEvangelho Segundo
Jesus
Cristo,de
José
Saramago
ouaindaolivro deJ.J.
Benítez, operação
Cavalo de Tróia.A
professora
SalmaFerraz,pesquisadora
do Núcleo de Estudos
Comparados
entreteologia
eliteratura(Nutel),
dizque énaAlemanha e nos Estados Unidosque a
Teopoética
temseus
principais
pesquisadores.
Onúcleo,
sediado na Universi
dade Federalde Santa Catarina
(UFSC),
éum dos
pioneiros
noBrasileexistehácinco
anos.
Surgiu
nomeioacadêmico com ain
tenção
de pensar asconexões entre teolo
gia
eliteratura,
afimde
chegar
a umaprodução
comumquepossavira
público.
ONutel segueoconceitodo
teólogo
alemão KarlJosef
Kuschel - ATeopoética,
urn novocampo de estudos voltadoparaodiscurso
críti-do
Universo,
se
o mesmo
Deus
Pregadores Julio
deQueiroz
fazpartedogrande
grupode escritores quejá
escreveramsobreatemáticabíblica.NoBrasil: Machado de
Assis,GracilianoRamos,
Álvares
de Azevedo.José
Saramago, Eça
deQueiroz,
AlbertCamusno exterior. EmseulivroEsaúe
Jacó
(1904),
Machado deAssisrecorre aoVelhoe aoNovo Testamentoparase
espelhar
nahis-tória dos
gêmeos
rivais"Como
acreditar
Esaúe
Jacó
e nasidéiasconfrontantes entre os
num
Deus criador
criou
a
espécie
humana?"
José
Saramago
cos.Nos escritosdo
discí-pulo
Pauloeraquestionado
como aartepoderia
interpretar
Deus. Ejá
oescritorromanoMarcus Varrofaziaadistinção
entreteologia filosófica,
civile
teologia poética
no ano18antesdeCristo,época
anterioraoadvento docristianismo.co-literário sobreDeus,naliteraturae naanálise
literária,
apartir
dareflexãoteológica
presente nos autores. Salmaexplica
que asprincipais
questões
apontadas
pela
linha depesquisa
sãooscritérios estilísticosparaumdiscurso
teológi
codentro da literatura do séculoXXe as
relações
entreliteratura
contemporânea
ecrise existencial da consciência moderna.
Discípulo
ateuPesquisadora
das maneirasemqueDeus sefazpresente na
ficção
narrativadoescritor
português
José
Saramago,
SalmaFerraz éautorade livros que analisama
obra do autor,comoAsfaces deDeusnaobra
deumateu.Elacontaqueoescritoré "umateu
perturbado
com aexistência deDeus"e em seustextos, destrói
progressivamente
asváriasfaces do Criador: "Comoserápossível
acreditarnumDeus criador do Universo, se o mesmo Deus crioua
espécie
humana?Poroutraspalavras,
aexistência do
homem, precisamente,
éoqueprovaainexistênciadeDeus." Em O
Evangelho
Segundo
Jesus
Cristo(1991),
oautorreescreve umevangelho
concebendoumDeuscruel,
quequer
ampliar
seusdomíniosenecessitadeummártirpara
impressionar
aspessoas. Poroutrolado, Jesus Cristo,
humanoerebelde,
é cheio deinquietações
edesejos
de liberdade.SalmaFerraz analisaoCristo
humanista,
propostopor
Saramago,
como umamisturadoposicionamento
político
-a
paixão
pelo
marxismo e a
persistente
militânciacomunista-ede recursoliterário.
É
claraaobsessão doportuguês
de84anos
pelo
personagemDeus, presentenoslivros Terrado Pecado
(1945),
Memorial doConvento
(1982)
eaindaemHistória do cer code Lisboa(1989),
ondeoescritorcondenaodeus
Alá,
confirmandoapresença dasváriasfaces deDeusem suasobras.
Masostextosbíblicosnão são
reinterpreta
dos apenas
pelos
escritoressemreligião
ou comcrises
pessoais
eliterárias sobreaexistênciadeDeus. Salma aponta leituras dos personagens bíblicosemescritores quedeclaramseucatoli
cismoeafirmaqueafénãoéum mau
princípio
estilistico,
comomuitosestudiosos da literatura pregam. AdéliaPrado,
Rubem Alves- estudiosoda
teologia
epastorduranteanos e opróprio
Ju
lio de
Queiroz
sãocitadospela
professora
comograndes
contribuintesnasleituras da Bíblia. Adélia Prado e Rubem Alves contrariamatendênciade críticaliteráriaaoDeus
bíblico,
pois
trazemuma novalinguagem
sobrecomo sedeveamar elouvaraoPai,algumas
vezes emforma de
orações.
Porestemundo,
de Rubem Alves prega:"lembramo-nos,
comvergonha,
dequeno
passado
aproveitamos
donosso maiordomínioedelefizemosuso comcrueldadesem
06
ZERO
OUTUBRO
-2007
Acervo: Biblioteca Pública de Santa Catarina
Tomai,comei:aúltimaceia de JesusCristoaparece naBíbliae naliteratura
limites,
tantoassimqueavozdaterra,que deveriatersubidoatinuma
canção,
tomou-seumgemido
dedor".Asfraquezas
hwnanasperantea
criação
deDeus sãofreqüentes
nostextosdestesdoisescritores.
Inquietação
Aquantidade
de trabalhoseobrascom atemática bíblicarefleteumain
quietação
deescritores,
teólogos,
historiadoreseleitoressobreanarrativaqueestána"matriz
detodaaliteratura
ocidental",
diz Salma.A pesquisadora
fala queocontexto deódio,
amor,eternidade, traição
sempreteráapelo
históricoeliterárioegarantecadavezmais
interpretações
sobreospersonagens bíblicos.Para
Salma,
Deuse oDiabo aindasãopersonagens da
preferência
mundiale a
relação
deamor eódioentreelesproposta
pela
Bíbliacriaumadisputa
depoder
nasobras literárias. AindanoEvangelho
Segun
do
Jesus
Cristo,deSaramago,
odiabotoma-segrande
heróieresponsável
porumanovahistóriadocristianismo,
quando
tentasalvarCristoda
crucificação
para,segundo
o autor, salvar oshumanos deumareligião
quejá
nasce comcheiro de sangue.
No livro
sagrado,
entretanto, oanjo
renegado
porDeuscolocaemtentação
afé deJesus
CristonosmomentosemqueoFilho do Criador
provasualealdade.O
Evangelho
deSão Mateusrelata:
'Jesus jejuou
durante quarentadias equarenta noites,e,
depois
dissosentiufome.Então,otentadorse
aproximou
edisseaJesus:
'Setués Filho deDeus,mandaqueessas
pedras
setomem
pães!
'" ODiabo bíblicosefazpresenteresenha
nosdiversos livrosque
compõem
aBíblia.EmEzequiel,
Satanás é vistocomotraidor daconfiança
eda bondade doSenhor,
quando
iniciaumaguerranocéu:"Fiz de vocêum
querubim
protetor de asas abertas. Você ficava na alta
montanha deDeus,
passeando
entrepedras
defogo.
Desdequando
foicriado,
vocêeraperfeito
emtodosos seuspassos, até queseencontrouamaldadeemvocê".
Seja
wnDeusprepotente,oraSenhor,
oraDiabo,
umJudas
comofigura principal
da fécristã
-já
quesemeleoFilho deDeus nãosalvariaahumanidade
-ouaindaumaMaria Mada
lena
forte, invejada pelos discípulos
deCristo porser a
preferida.
Osnovospersonagensdaficção
cristãcriados porescritoresde todo mundo des
pertamointeressedos leitores que
imaginam
oqueessas
sagradas
figuras poderiam
tersidoemoutra
história,
outraépoca,
talvezoutrareligião.
Contraatendência dequeodiscursoteológico
possasetomar
abstrato,
osestudiosos daTeopo
éticaacreditam querecorrer àliteratura
pode
ser wncaminhode reencontroda identidade
problemática
docristianismohoje.
Emwn campohistórico cheio de
revelações
ededogmas,
osestudiososdefendemque é
preciso
acabarcom aacusação,
geralmente
levantada porteólogos,
dequealiteratura éumaintromissãona
Religião.
Poroutro
lado,
aprofessora
SalmaFerrazrevela:"Sempre digo
queaTeopoética
éinjusta
em certamedidacomDeus,porque
afinal,
Deusnuncateveachance deescrevernenhumromance.Ou seriaaBíbliao seuromance?' '.
PorFernanda Rebelo
As
várias faces
do Jesus
literário
Rafael
Camorlinga, pesquisador
doNúcleodeEstudosComparados
entreteologia
eliteratura,estudaas
relações
entreasrepresentações
de Jesuse suafigura
bíblicaetambéma
Teopoética
nocontextolatino-americano.Nestaentrevista,Camorlinga
fala sobreointeressedosescritoresem
reforçar
oudesmistificaraimagem
divinadestepersonagem.
Nasua
opinião,
oquefazcomqueosescritores - católicosounão- tenhamesse
interesse por outras
representações
deJesus?Camorlinga:
Ointeresse dapintura,
escultura, cinema,literaturapela figura
de Jesusdecorre,no meuentender,da natureza do homo
religiosus,
inconformadocom asestreitezas da vida dodia-a-dia.Admitindo queoJesus"canônico"ouhistórico é
já
umpersonagem,mesmo com
pretensão
de pessoa, hámargemparaimaginá-lo
edescrevê-lo demaneiranemsemprecoincidentecom adas
igrejas
cristãs.Quaisseriamos
traços
nasrepresentações
do Jesusliterário maiscomunsentreosescritores?
Sãoos
traços
do personagem deficção,
istoé,
serhumano(divino?)
vivendosituações
exemplares
de modoexemplar.
Assimcomo osheróisficcionais,
oheróiJesusencaraconflitosterríveise
situações-limite
emqueodesfechoéimprevisível.
Porém,
tratando-sedeJesus Cristoostraços
da pessoapodem
passaraoJesuspersonagemeassim
garantir
ofinal feliz.É possível
relacionararepresentação
deumescritor,
comsuaposturapolítica,
social, religiosa?
Saramago
temumJesus bemhumanizadoeparaospesquisa
doresisso refletea sua
descrença
católica.Paramim,é inevitáveloparentescoentreocriadore acriatura,escritoreobra lite
rária.
Alguns
escritoresadmitem,
outrosnão."Entreoromance e avida háa mesmadiferença
que entreosonhoe avigília:
oescritormuda,disfarça
arealidade,paraexecutar atosinfinitamente
desejados.
Comonossonhos,essasmudanças,
essesdisfarcessão quasesempreinconscientes"
(Sábato).
Cite
alguns
autores quepossuemumarepresentação
de Jesus bem diferenciadadavisão bíblica.
Porumlado estáoJesusefeminado,
piegas,
angelical,
desumanizado, etc.,doslivros devotosedosíconesqueenchemas
igrejas;
poroutro,oJesussimplesmente
humanodeRenan
(século
XIX) cujo
livrotipo biografia,
foipostono"Index librorumprohibitorum" pela Igreja
daépoca.
Está tambémoJesusde VicenteLeíiero,
escritormexicano,umJesus que bebe
tequila,
comechilieusaguaraches
...TemosoJesusde PauloLeminski. Humanooudivino?Não
importa.
Oque contaéqueé"superpo
eta". TemostambémoJesus bem-humoradode Fernando
Sabino,
quenempor issodeixadeserdivino.Enfim,temosaindaoJesus de
Saramago,
tão humanoqueé quasedivino...Palestina,
uma
nação
resgatada
em
desenhos
No
princípio,
ohomemviviadecaçaecoleta e relatava essas atividadesdesenhando-as nas
pedras,
talvez paracomemorar ofeito oupara deixaraosdescendentesumregistro
decomo era avidanaqnele
tempoe
lugar.
Assimsurgiu
oprimei
rorepórter
dahistória,
oumelhor,
dapré-história,
e oprimeiro
estilo dereportar,orelatofeitoemdesenhos.Mi
lhares deanos
depois,
essesregistros
servemdefonteparahistoriadoreseoutrosestudiosos.
Ao
longodesseperíodo,
ohomemaprimorou
outrasformas deescritaedispensou
osprimitivos
desenhos.Nosdias
atuais,
noentanto,eles voltaramemtodasas cores e
dispositivos possíveis, pelas
mãoshabilidosas decriativos cartunistas.
Joe
Sacco éumdeles.Sacconasceu em
Malta,
passouainfância naAustráliae aos11anosfoimorar nosEstadosUmdos,
ondeseformouemjornalísmo pela
Uníversidadedo
Oregon.
Desdecriança,
gostavadedesenharqua drinhoscom airmã. Umdia resolveupublicar
umarevistade humorcom um
amigo.
Maistardeeditouuma
antologia
dequadrinhos
paraaFantagraphics
Bookse
publicou, sozinho,
arevistaYahoo.Sacco inventouumnovoestilo dereportar.Ele usa a
fotografia
pararegistrar imagens
efatos, depois
asreproduz
emquadrinhos
e setransformanopersonagem que conduzo
fio da história através de
observações
pessoais,
à maneira dojornalismo
gonzo. Os críticos o consideram o
maiorrepresentantedoNew
Jouma
!ismamericano.
Palestina,
umanação
ocupada
foiseu
primeiro
projeto longo
dejor
nalismoem
quadrinhos.
Parafazerareportagem,ele
viajou,
emdezembrode 1991, a
Jerusalém, Cisjordânia
eFaixade
Gaza,
ondeperambulou
por doismeses eregistrou
aversãodos dois lados dainterminável guerraentre
palestinos
eisraelenses.Paraos
israelenses,
elese identificava como turista. Ospalestinos
sóeramavisados dequeeleerajornalista
quando
necessitavaentrarem suas casasparafazerentrevistas.
Comotodo
correspondente
de guerra, elequeria
estar"nahoracertaeno
lugar
certo",ecorriaatrás detropasdechoque, gás lacrimogêneo
egarotospa-lestinos
"criminosos",
que combatiamostanqnesdeguerra
jogando pedras.
Durante semanas,elesaiuà procura de idosas
expulsas
desuascasas,velhosobrigados
acortaroliveirascentenárias,
fonte deseuúnicosustento,efamílias quetiveramparentes
apri
sionados,
torturadosemortospelo poderoso
exército israelense.Jornalismo
ehistória "Historiador éaqnele
qne
vê,
qnetP.stemunha", dizJosé
Arbexnoprefácio
dolivro,
citandoJacques
I.eGoff.Nessesentido, Joe
Saccoémaisdoqueum
jornalista.
Elereescreve ahistóriaoficialedesmenteomitode"umaterrasempovo
paraumpovosem
terra",
criadopelos
ingleses
parajustificar
afundação
do Estado de Israelemterrasda Palestina.Aomostrara
tragédia
dospalestinos,
ele per segueaobjetividade,
masnão consegueficarisento:'Wsofrimento.
Dor,
espanto, terror, raiva,frustração,
esperançae
desespero
aparecem claramentenasfacescaricatasde
homens,
mulheresecrianças
edão umrostoa essanação
invisíveleexcluída da mídiaocidental.
Numtombastante
coloqnial, algumas
vezesironico,emotivoeaté
irreverente,
elemisturahistória,
relatos
objetivos
eimpressões pessoais.
Emalgumas
páginas
do livrooautorinseretextosmaiores,paracontextualizar osconflitos qnemarcam a
relação
históricaentre
palestinos
e hebreus.Noentanto,osexpressivos
desenhos deSacco economizamlongas
explicações
textuais. Comtraçosnegrosefortes,
eleretrata
paisagens,
costumes,cultura, conflitos,
sofrimentosemortescomdetalhes
pitorescos
e nuancesque escapamao
simples
registro
fotográfico.
Os
quadrinhos
foramprimeiramente
publicados
em nove
gibis
intituladosPalestina,
em1994.
Cinco anosdepois,
aFantagraphics
oseditouemdois livros,
Palestina,
umanação
ocupada
ePalestinanaFaixadeGaza. Aobramereceu o
prêmio
AmericanBookAwarde o
HQ
Mix2000,
e oautorjá
éobjeto
de estudos acadêmicos.No
Brasil, Palestina,
umanação
ocupada
foipublicado
em2002,
pela
Conradlivros. Atradução
tevedeserpreviamente
aprovada pela Fantagraphics.
Aexcelente
tradutora,
CrisSiqueira,
inseriuostextosnos
qnadrinhos
commuitaarte,apontode daraimpressão
desetratardeversãooriginal.
Alémdisso,
oprefácio
deJosé
Arbexé,
porsisó,
umainteressanteaula de
reportagem.
POI' Vera MariaFlesch