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Zero, 2007, ano 25, em Revista, out.

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(1)

Revolta

da

Catraca rivaliza

com o

Ironman

SEJA O

DONO

DA

VERDADE

POR

R$

30

JOÃO

CABRAL

MORRE

À

SEVilHANA

ARGILA

COM

SALIVA?

BARBOTINA?

O UPDATE DOS

PERSONAGENS

BíBLICOS

Tornado

e

outros 113 cavalos

Psicoses

de

"Samuzeiros"

Células-tronco

de

material reciclado

OLIVER PETRY I WWW.SXC.HU

(2)

• •

sumario:

PÁGINAS

4 & 5:

BARBOTINA,

FITACREPE

ETRECHO

BíBLICO,

PERFILDO

ARTíSTA

PLÁSTICO

FERNANDOLINDOTE

ESCRITORESE A

TEMÁTICA

BíBLICA

NO EVANGELHO

LITERÁRIO

DAS

PÁGINAS

6 & 7

TAMBÉM

NA 7: JORNALISMO EQUADRINHOS

NARESENHAPAI.ESTINA,UMA

NAÇÃO

RESGATADAEM DESENHOS

APOESIADE

JOÃO

CABRAL DEMELO

E A BELEZA ESPANHOLA NAS

PÁGINAS

8 & 9 EM MORTE E VIDASEVILHANA

UMANOITE COMOSAMUZEIRO EMSAMU 92. QUALA

OCORRÊNCIA?,

PÁGINAS

10 & 11

PÁGINAS

12 & 13: ERALIXO,AGORA

É

ESPERANÇA.

MATERIALANTES DESCARTADO

VIRA FONTE DE

CÉLULAS-TRONCO

A

TÉCNICA POLÊMICA

QUE USA SANGUE COMO

REMÉDIO,

NAS

PÁGINAS

14 & 15 A

ÊNFASE

NAFORMA

É

O

CONTEÚDO

(E

A

FORMA)

DAS

PÁGINAS

16&17:MASSA

ESTÉTICA

E AS REVOLTAS DACATRACA ODONODA VERDADE CONTA NAS

PÁGINAS

18&19QUANTOCUSTOU PARAMONTAR SEU JORNAL

PÁGINAS

20& 21: DENISE,PEDROE

THIAGUS ALGOEM COMUM ETODOUM

RESTODE

FERENÇA

ANALISAA VIDADOS

TRÊS

CADEIRANTES

E NA

PÁGINA

22AS

TRÊS

VIDAS

SÃO

DE

PROSTITUTAS ENQUANTOAMAIS ANTIGA DAS

PROFISSÕES NÃO

PERDEAATUALIDADE UM CARRODE 113 CAVALOS EUMA

CHARRETEDE UM CAVALO

SÓ:

O

GERENTE,

O FAZENDEIROE ACIDADE,NA

PÁGINA

23 NACONTRACAPA:A CORAGEMDO

REPÓRTER

QUEPULOUACERCA EDEU UMA VOLTAPSANDO NO

CARTÃO-POSTAL

MAIS

FAMOSO DE

FLORIANÓPOLIS

ZEBO

ZEROEM REVISTA

EDiÇÃO

ESPECIAL -OUTUBRO2007 CURSO DEJORNALISMO

UNIVERSIDADEFEDERALDE SANTA CATARINA -UFSC CENTRO DE

COMUNICAÇÃO

E

EXPRESSÃO

- CCE Trindade

-Florianópolis

CEP 88040-900 FECHAMENTO: 17 DEOUTUBRO DE 2007

EDiÇÃO

AmandaBusato,AnaCarolinaDali'Agnol,Ana PaulaFlores,AndréFaust,CláudiaMussi,DiegoRibas,

Muito

além

do

óbvio

ululante

ntesde

tudo,

como

qualquer

pessoabem

educada,

vamoscomeçarnos

apresentando.

O

Zerotodomundo

já conhece,

masagoraestamosemrevista.

Começamos

nosemestre nterior

(sem

nome),

mas aospoucosveioa

percepção

deque essanãoera aúnica

ausência.Comoestaéumarevistafeita

pelos

estudantesde

jornalismo

da Universidade

Fede-ral deSantaCatarina,nãotemostítulo

algum;

nãosomos

nobres, desembargadores,

gover­

nantes,mestresoudoutores.Nemao menos somosbacharéis

em]ornalismo,

pois

aindanos

faltamnomínimo maistrêssemestresatéocanudoquenoslivra do carimbo de

"precário"

nacarteiradeassociadoda

Federação

Nacional dos

Jornalistas.

Masaconfusão deegosfoi

tantaque

surgiu

maisuma

esperada

crisede identidade.Nãotínhamosnome etambémnão

tínhamos onde

publicar

omaterial

produzido

paraa

disciplina

de

Redação

V.O espaçosur­

giu

com a

possibilidade

de transformaro

jornal

emrevista paraacadeira do

Zero. A

primeira

revistadocursode

jornalismo

daUFSC,quetambém celebra

os25anosdo

Jornal-laboratório.

Eodesafio valeu àpena.

Somos

simpatizantes

dos sem-terra, sem-teto,sem-dinheiro

(e

suasvari­

áveis:

hippies,

estudantes

universitários,

jornalistas),

sem-emprego,sem-ver­

gonha-na-cara, sem-nada-para-fazer

e todos

aqueles

emqueafalta de

algo

esteja

presente.Idolatramosaausência do

lead, glorificamos

ainexistência de

umaestruturanarrativafixaeflertamoscom a

parcialidade.

Tal

situação,

em

que não existemas

limitações

impostas

à

profissão

nomercado de

trabalho,

nostornamentes-livres.

Por isso, você encontrará

aqui

matérias que estão livres de

quaisquer

amarras.Elasvão passear

pelo

movimentodo novo

jornalismo, mergulhar

dentro do universo das reportagens de imersão.

Aqui

você não encontrará

nem

Papa

nemPan;

fugimos

das

grandes

pautas,e

buscamos,

sim,histórias

das cidades de interior

parecidas

com os causoscontados por nossos avós.

Vamos "muito além"dos chavões edo

lugar-comum

- só

nos

desculpem

a

utilização

dochavãona

afirmação,

masháumaboa

explicação

(não

temosnadacontrari­

mas).

O

professor

quecoordenouo nossotrabalhona

produção

dasreportagensnosemestre

passado

éum

grande

colecionador de manchetesquecontenhamessa

expressão

e,portanto, a mesmanão

poderia

faltar.

Arevistapasseiaporrealidades multifacetadas.Flertade

considerações

estéticassobrea

revolta dacatracaatéafaceinterioranada

capital

doestado.Ouumolhar localparatemas

científicos que forampautanas

grandes publicações

do

país.

Temosde

tudo,

do

importante

aointeressante.

Nossa

redação,

por

fim,

vai tão

longe

que

alcança

um

lugar

emquecomapenas 30reais

no

bolso,

umcidadão incomum montouo

jornal

do

município.

É

acidade de

Quilombo,

localizadanoextremooestedeSanta Catarina.

Desejamos

a

vocês,

leitores,

quea

experiência

comarevista

seja

prazerosa. E quealei­

turadestarevista cheiade ausênciasnãoos

impeça

deficar

empanturrados

com oconteúdo.

Nada melhorqueoóciocriativo quesucedeumaboa leitura!

DiogoHonorato, DomitilaBecker,FemandaRebelo,Ingrid Santos,JéssicaLipinski,LuizaFerreira,ManfredMattos, PaulaReverbel,Sabrina Carozzi

EDITORAÇÃO

LuizaFerreira,PaulaReverbel,Renan Dissenha,SabrinaCarozzi,TadeuSposito,ThiagoSantaella

FOTOGRAFIA AgênciaEnsaioFotojomalismo,Elaine

Manini,LuizaFerreira,Rafaela BiffCêra, Tiago Bevilaqua

������

MelhorPeçaGráfica

I,II, III,IVeXI

SetUniversitário/ PUC-RS

1988,89,90,91,92e98

AGRADECIMENTOSAldanei Corrêa, HélioSchuch, LúciaOlimpio,MauroCésarSilveira,RicardoBarreto, Tiago Bevilaqua,VivianeHerbele,CCE,PRAEePREG(UFSC).

REPORTAGEMAna CarolinaDall'Agnol,Ana Paula

Flores, Diego Ribas,DomitilaBecker,ElaineManini, Fernanda Rebelo,Ingrid Santos,LucasSamapaio,Luiza Medeiros, Mayara Rinaldi,RafaelaBiffCêra,Renan Dissenha,SabrinaCarozzi,TadeuSposito, Tiago Santaella, Vera Flesch

PROFESSOR COORDENADORLucioBaggio

MONITORIALucas Neumann

30melhor

Jornal-laboratório do Brasil EXPOCOM 1994

INFORMAÇÕES

IMPRESSÃODiário CatarinenseCIRCULAÇÃO:Nacional

DISTRIBUiÇÃO:Gratuita TIRAGEM 5.000exemplares

Melhor Jomal-Iaboratório

I PrêmioFoca

Sind.dos Jornalistas deSC,2000

ARTELucasNeumann

INFOGRÁFICOS

produzidosnadisciplinadeInfografia

por AndressaTaffarel,ElaineManini,GabrielRosa,Lucas

NeumanneMarceloAndreguetti

TELEFONES

+55(48)3721.6599/3721.9490/3721.3215

FAX:3721.9490

NAINTERNET

SITE:WNW.zero.ufsc.br CIRCULAÇÃO:[email protected]

ILUSTRAÇÃO

Gabriel Silva

02

ZERO

OUTUBRO

-2007

(3)

artigo

?

Deseam

da edue

,..,....----...----'"".".

Permitam-me

usar um artifíciocomum na Literatura. Comum e

valioso,

pre­

cisamente porque

logo

nos

expõem

ao

desconforto.

Imagine,

leitor,

um

viajante

que

desconheça

por

completo

o nossoEstado. Ele se

propõe

apercorrero extensoterritóriona­

cionale se

indagar,

sempre quelheconvier,a

seguinte

pergunta: que motivoslevaram ao

fracasso do

projeto

educacional brasileiro?

Onosso

viajante

éum

sujeito

versado

e

perspicaz.

Aolero

primeiro artigo

da

Declaração

Universal dos Direitosdo

Homem

(Todos

nascemos

iguais

...

)

ele reconhece que aí não está

contida uma verdade

literal,

e

simumameta.

Porque

nósnão

nascemos em

condições

iguais.

Fácil

constatar.

Assimque desembarcaemSão

Paulo,

ele

se

dirige

ao

colégio particular

Rio Branco.

Uniformes

impecáveis, guardas

de trânsitoga­ rantindoasegurançados bem-nascidos

jovens

paulistas.

Próxima

parada: Higienópolis,

a

maiorfavela

paulista,

localizadaa

alguns

qui­

lômetros da

instituição

modelo.Defrentepara

um

colégio estadual,

a

primeira constatação.

Essesalunosnãotêmo mesmoaspecto

daque­

les.

É

umextremo,

evidente,

masnãoéesse o

país

dosextremos? O

viajante

fazapergunta a umpassante.Foium

professor

de

cinqüenta

etantosanos,docente da rede

pública,

quem

respondeu.

O

professor

explica

que,nos anosde

otimismoeconômicoe

poder político

centrali­

zado,

os nossos

projetos

públicos

na

educação

eram

ingênuos

e se

queriam onipotentes.

Não

levaramemcontaaextrema

heterogeneidade

daqueles

aquemse

dirigiam.

Fazendo

piada,

o

sofrido

professor

citaoMobral.

O

viajante

balança

a

cabeça, incrédulo,

e se faztransportarparao

imponente

prédio

retangular

doMinistérioda

Educação,

emBra­

sília.Uminterlocutor do Ministérioo

aguarda.

Linguajar

opaco e fartos

elogios

ao ProUni

-programa que facilitou o acesso de meio

milhão de estudantes de baixa rendaauniver­

sidades

privadas,

atravésde benefícios fiscais às

instituições,

umdoscarroschefes da visibilida­

de

governamental

em

questões

educacionais.

Evitandooconfronto

ríspido,

o

viajante

émeti­

culosoaoenunciarsuapergunta.

Ofuncionário

pinta

um

quadro

otimista:

"Caro

senhor,

notequeestamosalinhadoscom a

política

de um

prestigiado órgão

multina­

cional,

oBancoMundial.A

instituição,

apenas entreos anos1980e

1997,

emprestouàUnião

US$

14.3 bilhões.

O BM definiu uma

estratégia

educacional mo­

dernaparao

Brasil,

centrandoseus

esforços

em

desmantelara

atuação

burocrática do

Estado;

advertiu que, se oEnsino Médio e

Superior

forem tutelados exclusivamente

pela

iniciativa

privada,

deixaremos detropeçarnabusca da

sonhada

'revolução

cultural brasileira'.A ativi­

dade

pública

poderá

seconcentrar,

prioritaria­

mente,na

Educação

Fundamental.

"OBMapontaa

criação

de

fundos,

geren­

ciadosem

conjunto

com ainiciativa

privada,

umaferramenta

indispensável

parao sucesso

desta

empreitada.

Gradativamente deixaremos

a

educação

acargodos capazes.Osargumen­ tosdoBM estãoancoradosemrelatórioscon­

ceituados.Com intuitodeorientarinvestidores

acercade

projetos

na

educação,

o

órgão

dispo­

nibiliza relatórios do "World

Factbook",

uma

publicação

da

Agência

Central de

Inteligência

(CIA)

estadunidense. Este cenário é

possível

graçasaoqueoBMconsideraseu

papel

no ce­

nário econômico

contemporâneo.

O

viajante

está

irrequieto. Soube,

por in­ termédio

confiável,

queodéficit acumulado com oBMno

período

de 1980a 1997foi de

UU

2.1

bilhões;

quea

política

da

progressão

continuada adotada na

Educação

Funda­ mental de vários

estados,

para

maquiar

as

avaliações periódicas

do ensino

requeridas

pelos

investidores,

tem

gerado

revoltaentre

os

profissionais

da

educação,

devido à falta de debatee omodo arbitráriocomofoi lan­

çada;

soube queamaiorparteda

produção

acadêmicae

pesquisa

científica

provém

das

'antiquadas'

Instituições

deEnsino

Superior

(lES)

públicas.

Ele

próprio

conclui que a

mentalidade destes interlocutores

(e

mento­

res)

do Ministério da

Educação

é tão

retan-1

(

(

í

?

'(

r

Todavia,

a

implementação

do Fundef foi conflituosae,nofim dascontas,desastrada.O

fundo

privilegiou

o Ensino

Fundamental,

se­

guindo

a

recomendação

dos

organismos

inter­ nacionais.Infelizmenteissofoi feitoemdetri­

mentodosoutrosníveis deensino,incluindoo

pré-escolar

e a

Educação

para

Jovens

e

Adultos,

cujas

matriculasnãoeram

computadas

nos re­

passes per

capita.

A

própria

concorrênciaentre

osníveisdeensino,somadaafratura

política

e afalta de

diálogo intragovernamental

desem­

bocounumprocesso cansativoe

desgastante.

Oresultado

'político':

a

desconfiança

dosentes

sub-governamentais

paracom a

legitimidade

política

da

coordenação

federal.Osresultados cotidianos:aquase

universalização

da Educa­

ção

Fundamentale, poroutro

lado,

umanefas­

ta

piora

na

qualidade

doensino,comoapon­

tam osresultados

vergonhosos

das

pesquisas

comparativas

internacionais.

O

viajante

sentanobanco da praça.Não

importa

quepraça.Eleaindamatutaasúlti­ mas

irJormações

queleunoscemitérios das

monografias

universitárias. Fica estarrecido

aosaber queaUnião

ignorou

os

procedimen­

tostécnicoseestabeleceuumvalor arbitrário

paraosrepassesper

capita

nofinal dosanos

90, economizando perto de

R$

1.3 bilhões

anuais.Tambémnãoentende porque

alguém

pode

falarem

superávit primário

senãoestá sobrando nada:se nãohá

giz,

computador,

papel higiênico

ecarteiras nasescolas.Não

entende por que os ministros

elogiaram

o

Fundef, hoje elogiam

o Fundeb e amanhã

elogiarão

o Plano de Desenvolvimento da

Educação (PDE), quando

estesprogramasse

mostramvacilantesemal

direcionados,

sem­

pre

parciais

em sua

concepção

epresosnas

diretrizes doconsenso.Acreditar quecercade 3% doPIBinvestidosem

educação

seja

mui­ to

é,

entreosconsensos,omaisdesnaturado.

Propagar

asPolíticas de

Educação

como uma

maneira de 'investir

melhor',

frente a esse

breve

histórico,

soa como

piada.

PorManfredMattos

2007 -

OUTUBRO

ZERO

03

gular

quantoo

prédio

emque trabalham.

Nosso

viajante

resolveinsistirnaconexão

política-educação.

Tudo é

política,

nãoéoque

dizem?Poisbem.

Após

uma semanaenfurnado embibliotecas

universitárias,

chega

ao

seguin­

te

prognóstico:

nos anos

80,

coubeaosmunicí­

pios

egovernos estaduaiso

manejo

dosistema

tributárioe a

condução

de

políticas publicas

de

proteção

social.Boapartedos

estados,

apesar da resistência doexecutivo,fixouumpercentu­

al de 30% da

arrecadação

de

impostos

destina­ dosa

educação,

aderindoao

(quase)

consenso

da década de80,dequeeranecessárioinvestir

maisnosetor.A

descentralização injetou

perto

de

R$

20bilhõesa

mais,

porano,nascontas

dos estadose

municípios.

Comanuênciados

estados,

as

prefeituras

focaramesses recursos na

educação pré-escolar

-seu ponto forte

histórico-, oque gerouum

descompasso

em

relação

aoEnsinoFundamentaleMédio. Mas

logo salpicaram

artifícios contábeis destinados

a

cumprir

as

disposições

constitucionais de

gasto,

possibilitando

desviaros recursospara

outrasatividades alheias à

educação.

Nosanos90,outroconsenso: oBrasilgas­

tamuitoem

educação,

masgastamal. Sendo

assim,

após

umadécada de embates

políticos,

o governo

homologou

um processo articula­

do de

descentralização,

na forma do Fundo

de

Manutenção

eDesenvolvimento doEnsino

Fundamental ede

Valorização

do

Magistério

(Fundef).

Almejava

reduzir o

desequilíbrio

regional

naoferta de

ensino,

elevarosíndices de

qualidade

eestruturarosistemadescentra­ lizado.

Aliás,

sanar as

discrepâncias

regionais

sempre foiuma

atribuição

histórica do Estado

brasileiro

(malograda,

ressalta-se).

A constitui­

ção

de1988e aLeideDiretrizeseBases

1996

trazemessa

premissa,

restringindo

a

partici­

pação

direta daUniãonoensino,

reforçando

seu

papel

coordenador e

equalizador.

Nesse

sentido,

estabeleceu-se um valor per

capita

nacionalpara investimentosna

educação.

Os

estados

incapazes

de

cumprí-Io,

deveriamser

ressarcidos

pelos

cofres federais.

(4)

perfil

Barbolina,

fila

crepe

e

Irecho

bíblico

Fernando Lindote

é

um

artista que vive de

experimentar.

mais de 20

anos

investiga

materiais

e

meios de

expressão

na

expectativa

de

conferir

não

um

tema,

mas um

sentido

à

sua

obra

Oartista

tes

Lindote,

plástico

46Fernando Otávioanos, deixa maisFuen­do que idéiasesentimentos

impressos

em seustrabalhos. Eleusaatéseusdentesesaliva comoinstrumentosparaestruturaramatéria

e aforma de

algumas

obras.Na

exposição

Ex-periências

com o

Corpo,

realizadaem2002no

InstitutoTomie

Othake,

emSão

Paulo,

Lindo­

teexibiuumvídeocom

imagens

desuaboca

mordendo, mastigando

e

cuspindo

um

peda­

çode E.v.A.

(edil

vinil acetato, ummaterial

emborrachado).

Aescultura que

surgiu

desse

processotambémestavaexposta.

Agnaldo

Fa-rias, críticodearteecurador da

exposição,

escreveuquea

produção

doartista

"parece

indagar

obsessivaesistematicamenteso­

breanaturezade cadasuporte

expressi­

vo,sua

condição corporal".

Durante adécadade 1980, aleitura dostextosde HélioOiticica

despertou

em

Lindote a vontade de radicalizar as lin­

guagens artísticas. Ele então passou a fa­ zer trabalhosmais

híbridos,

que

"fogem

das

linguagens

estanques",

comodefine. Essa

propostaolevouaentrarduasvezes noSalão Nacional deArtesPlás­

ticas.

Lá,

eleusou umafita

isolante preta, de pano, colada diretamentena

parede

para criar

desenhos. A fita substituiu as telas com que o artis-ta começou essa

experiência

- no

início ele recor­

tavaumatelaem

Lindoteconta

queserartista não foi escolha

sua.Acredita que

não

poderia

ser

outracoisa

r

Barbotina: barro misturadocomsalivaque serviu paracriar desenhosna

parede.

Oresultado nãoerasó umdesenho, mas uma

pintura,

se obarro for vistocomotintana

parede,

ouumaescultura muitofina

tiras

finas,

com

formas,

efazia desenhoscom a

própria

telana

parede.

umamaneirabem

modernista,

rom­

perolimitemáximode cada

linguagem,

fazer desenho atéesgarçarafronteira do desenhoe

aquilo

parardeserdesenhoeviraruma ou­

tracoisa. Não seise era

possível

fazerissonos anos1980,porqueessasfronteiras

tinham

sidotranspostasporoutros,mas, no

fim,

eu

fiz isso de novo", diz Lindote. Cerca de dez

anosmais

tarde,

em uma

exposição

individu­

alnoMuseudeArteModema

(MAM)

doRio

de

Janeiro,

oartistafezumdesenhocomfita isolantenovidro domezaninodomuseu.Ele

contaque, de

dia,

aoolharpara ovidro no

interiordomuseu,o

público

viaodesenhoe,

através

dele,

ocentroda cidade.

À

noite,via-se

odesenho etodaa

exposição

no interiordo

museu

espelhada

novidro.

Barbotina: Barro misturado com

água

ficandoemestadocremoso. Poucossabemo

que

é,

masLindote

fezartecom omaterial

-só que,em vezde adicionar

água

na

argila,

adicionousuasaliva.Abarbotinaserviu para

criardesenhosna

parede.

Aformaera

primei­

rodesenhadacomfitacrepe,

depois preenchi­

dacom abarbotina. Oque oartistaobtinha

nãoera só um

desenho,

mas uma

pintura,

se obarroforvistocomotintana

parede,

ou umaesculturamuito

fina,

porquetinha volu­

me, pormenorquefosse.Aobracontavadesde

oiníciocom amisturade técnicas artísticas.

Foiexpostano PanoramadeArte Brasileira

em2005,noMuseudeArteModema

(MAM)

deSãoPaulo.

Lindoteécatólico.Praticante. Foiemuma

missa,

durantealeitura de

João,

capítulo

nove,

versículoseis quethe

surgiu

aidéia paraessa

obra.Otrecho bíblico descreveomomentoem

que

Jesus

cospeno

chão,

faz barrocom asali­

va e

põe

sobreosolhos deumcego para curá­

lo. "Estava achando

estranho,

aúnicaparte

do corpo queeuestavausandonotrabalhoera amão,e eutinha acabado defazerosúltimos

trabalhoscommordida.

Quando

o

padre

leu

issoeuacheique

podia

misturarobarrocom

minha

saliva,

como

Jesus

fez,

em vezdemis­ turarcom

água", explica.

Versões-dessemes­ mo

trabalho,

queemtelasmenores,fazem

partedoacervoda

galeria

dearte

paulistana

Nara

Roesler,

ao lado de obras de Abraham

Palatnik, Julio

Le

Park,

Cao

Guimarães,

Artur

Lescher,

TomieOhtakeentre outros.

Pintor,

escultor,

desenhista: Lindote é tudoissoaomesmotempo.Desde quecome­

çou a

participar

de

exposições,

recebeu

prê­

miospor trabalhos feitoscomdiferentes téc­

nicas. O

primeiro

foi um

desenho,

noinício da décadade

1980,

premiado

em um salão do sul do

país.

Em

1985,

recebeuo Prêmio

Pirelli com uma

pintura

noMuseu deArte

deSão Paulo

(MASP)

e,doisanos

depois,

o

Prêmio

Aquisição

AcervoFUNARTE,noRiode

Janeiro,

com asériede

pinturas

Barroc. No circuito de arte de Santa Catarina, semprenadoucontraacorrente.

seesfor­

çou para fazerpartedos grupos de artistas catarinenses. Não

conseguiu

porque nunca

produziu

nadamuito

próximo

daarte

regio­

nal de

Florianópolis,

referenteaelementos da

cultura,

folcloreemitoslocais.Maisdeuma vezouviu como

justificativa

paranãoestar

incluídoemprogramasdeincentivoa

jovens

artistasofato denãosernativoda ilha."Nun­

ca

peguei

nenhum tema folclórico porque

nãomeinteressavam,se meinteressassemeu

faria,

masnãointeressavam,e eusabia que

isso iriacontramim". Por outro

lado,

Lin­

dotecalculavaque

algum

dia haveriaespa­

çoem

Florianópolis

paraoutra

produção

de

arte

contemporânea

como a sua."Teve bem menosespaço do que eu

imaginava,

mas o

suficientepraeu

poder

continuarfazendo." Ele até

chegou

a recebeu

apoio

de al­

guns membros dacomunidade artística lo­

cal,

como

João

OtávioNeves

Filho,

o

Janga,

e

Harry

Laus. Em

1986,

foi convidado por Laus para uma mostra coletiva chamada

Perspectiva

Catarinense.

Junto

comos artis­ tascatarinensesRubensOestroem,Luiz Hen­

rique

Schwanke eLourival

(Loro)

Pinheiro daLima percorreuoBrasil mostrandosuas

obras.

Lindote nunca foi

premiado

em Santa

Catarina. Também não foi reconhecido

pelos

importantes

prêmios

e

exposições

deque par­

ticipa

nocircuitonacional. Ele observaqueno

PanoramadeArte2005 doMAMdeSãoPaulo haviaoutrosquatroartistas

plásticos

deFloria­

nópolis (Raquel Stolf,

Yiftah

Peled,

Zé Lacerda

e

Júlia Amaral),

além dele. "OPanoramatinha 50artistas, 10%de

Florianópolis.

Nãoerapara ummuseu,ou

qualquer

outroespaço, chamar

essescincoartistas,fazeruma

exposição

e mar­ carque10%doPanoramadoMAMestá

aqui

e

foi feito

aqui?"

O artistaachaque issoacontece porcontade

desinformação,

não desinteresse. Eleentendequeas

instituições

locais sabem da

existência dessesartistas,masnãosabemoque

éeondeestáocircuitodeartebrasileiro.Porisso nãoreconhecemovalor que hánessas

participa­

ções.

Essesartistas

chegaram

aoPanorama

após

serem

procurados

porumcríticodoMAMdeSão

Paulo,

ou

seja,

exclusivamente por iniciativa

de críticose artistas. "Aconteceu

pela

vontade de todo

mundo,

menosde quem deveriaestar

trabalhandopara isso que,nocaso

estadual,

são

a

Fundação

Catarinensede Culturae oMuseu

deArtedeSanta

Catarina;

no caso

municipal,

a

Fundação

FranklinCascaes",lamenta.

O artistaapontaparauma

prática

aindare­

correntenoestado: quem recebe

indicação

de al­

guém

importante

tem

prioridade

para

divulgar

otrabalho. "Ocircuitoaindase moveporesse

tipo

de

indicação. Políticos,

familia

importante,

familiarica,aindaexiste isso.

É

um

desrespeito

com essa nova

geração

que estudaebatalha pra

mostrarseu

trabalho,

prateruma

trajetória",

diz.Maisuma vez oartistavêum

problema

téc­

nico,emquea

desinformação

dos administra­ dores de

instituições

de culturacatarinensesvem

acompanhada

de falhaséticas.

Até

hoje,

Lindote não se inseriu em ne­

nhumgrupodeartistasdeSantaCatarina,nem

de

qualquer

outro

lugar.

Firmou-secomo um

considerável artista

contemporâneo

dentro do

circuitonacionalporconta

própria.

Comas

publicações, rapidamente

validou suahabilidade paraodesenhoe aos 13anos

eracartunista

profissional.

Começou

afre­

qüentar

reuniões de

importantes

figuras

do

meio, como

Edgar

Vasquez,

Renato Canini

(criador

do personagem Zé

Carioca),

Santia­ go,

Juska,

Gilmar

Fraga,

todos dezanos, no

minimo,

maisvelhos que ele. Recebeuconvite

para desenharumatirinhano

Quadrão, suple­

mentohumorístico do

jornal

Folha da Manhã. Tinhaumatirafixaemquecontavaasaventu­

rasdeuma

princesinha.

"Erauma

princesinha

horrorosa,

tinhaseu

pai,

oRei,entãoera uma

metáfora da ditadurae eutiravasarrodafilha

do

Geisel",

conta,achando graça.Mais

tarde,

publicou

tambémno

jornal

Zero Hora. Como

dinheiroque

ganhava,

comprava

brinquedos.

Ser artista nãofoiexatamenteuma esco­

lhasua.Ele acreditaque não

poderia

ser

qual­

quer outra coisa. Filho de

pai

baiano,

fiscal

aduaneirodareceita

federal,

emãe

gaúcha,

foi

oúnicodecincofilhosa

seguir

essecaminho.

Os

planos

paraeleeram outros. "Meus

pais

queriam

queeufosse

arquiteto."

Em1977,

depois

de

participar

deumaex­

posição

decartunistasemPorto

Alegre

e rece­

berumaresenha

positiva

no

jornal

ZeroHora,

parou de desenharporumtempo.Aos17anos,

decidiusemudar paraointerioreretomaros

estudos. VoltouaSantanadoLivramentoelá

viveucom osavós.Acidade faz fronteiracom

Rivera,no

Uruguai,

eduranteaditadura abri­

gou artistas

uruguaios impedidos

detrabalhar

em seu

país.

Noretomoàcidade

natal,

Lindote matriculou-senasaulas de

pintura

doartista

uruguaio

OsmarSantos.

Logo

parou de fre­

qüentá-las.

Julgava

o

professor

muito autori­

tárioe nuncateve

vocação

para

aprender

sob ordens.Dessetempoedaarte

uruguaia

herdou conhecimentos sobreoconstrutivismo univer­

sal deTorresGarcia,queo

ajudou

aentender

oconstrutivismodo Brasile, mais

tarde,

Hélio

Oiticica.

Chegou

a

Florianópolis,

ondeviveaté

hoje,

nadécada de1980atraído

pela

belezaetran­

qüilidade

da cidade

naquele

tempo.

Apesar

dos

anos,conserva umpoucodosotaque

gaúcho

e ohábito de beber chimarrão todasasmanhãs.

Emseu

ateliê,

mantémaolado do toca-discos

umvinil da

dupla gaúcha

KleitoneKledir.Mas

Lindotenãogostado rótulo de "artista

gaúcho

radicadoem

Florianópolis"

comquecostuma

ser

apresentado.

Para

ele,

issoé apenasumde­

talhe.Umdetalhe queoartistanemconsidera

importante.

PorRafaela Biff Cêra

l

2007

-OUTUBRO

ZERO

05

Dainfância conturbada ao reco­

nhecimento Por causade uma crise aos

dezanosde

idade,

Lindote parou de

freqüen­

tar aescola. Foilevado

pelos

pais

ao

psicó­

logo,

psiquiatra,

centrode

umbanda,

centro

espírita, padre

hipnotizador,

masnada resol­ veu seu

problema.

"Eutinha pavor deentrar

na

escola; quando

o

portão

fechavaeubatia

em quem estivesse na minha frente e saia

correndo",

conta.Estudavaem um

colégio

de classe

média,

"omesmo

freqüentado pelo

fi­

lho do

governador".

Suaatitude desairdaes­

colafoi entendida

pela

maioriacomo

simples

rebeldiae,assim,passoua sertratadocomo

marginal, principalmente

pelos

pais

dosco­

legas,

que nãoachavam boaidéia deixaros

filhos emsua

companhia.

Viveu umtempo

de solidão absoluta.

Hoje,

eledesconfiaque

teve Síndrome do

Pânico,

quena

época

não

foi

diagnosticada.

O artista nasceu em Santana do Livra­

mento, cidade dointeriordoRio Grande do Sul.Seuavômaternoeradono deum

jornal

local. Mudou-se para Porto

Alegre

com os

pais

eirmãosaosseteanos.Na

capital gaú­

cha,

teveseu

primeiro

contatocom as Artes

Plásticas

quando

entrouem uma escola de

desenho animado. Pela influência do

avô,

Lindoteteveaidéia de

publicar

seusdesenhos

nos

jornais

dePorto

Alegre.

Para

ele,

pare­

ciaumaboa saídasocial. "Achava quese eu

publicasse

meusdesenhosia

conseguir

tocar

minha

vida,

existircomo

cidadão",

diz. Re­

solveumostrarseusdesenhosparaumeditor

da Folha da Tarde.Ouviudo editor queoque

faziaera

cópia

daMafaldaedoCharlieBro­

wn."Choreinocaminho paracasa e

depois

disso desenhei feito umdoido durante uns

seismeses eentão

consegui

publicar

na mes­ maFolha da

Tarde,

só quenaparte

infantil,

que não passava por

aquele

editor que me

achincalhou."

Maisumadas obras feitas debarbotina

(5)

literatura

o

Evangelho

Literário

Judas

firmou, após

muita

relutância,

um

acordocomDeus para trairJesusetrans­

formá-lo no salvador cristão. Miriam sentiuoolhar deCristoe o

seguiu,

aban­

donandosuapequena cidade

Magdala,

mesmo

pressentindo

tudo o que aconteceria

àquele

homeme oquefalariamdesua

relação

com

ele.

Jesus queria

casar eter

filhos,

não carregar

nascostasa cruzdeseupovo.

Os personagensbíblicos

perturbam

aima­

ginação

das pessoas.Eénaliteratura que eles

adquirem

formas e

personalidades,

contra­

riando os

dogmas inquestionáveis

da

Igreja.

Traidoresemeretrizes

ganham

voz nasobras

literáriase seuscriadores dãonovoscontextos para as

ações

condenáveis de cada urn. Até mesmo

Judas, apedrejado

todo

domingo

de

Páscoa,

teveuma novachance.Na

literatura,

o

grande

traidor foi reconhecidoporsua le­ aldadeeescolhidopara

participar

do

projeto

deDeus. Masele relutou. Discordou do modo

comodeveria

agir, gritou

com o

Senhor,

achou

seu

plano megalomaníaco.

Falouser

impossí­

velsua

participação,

mas ao

final,

concordou

trairseumelhor

amigo

por

dinheiro,

pelo

bem demuitos,por todoosempre.

Judas

Iscariotes

setransformouem umtraidor lealaoSenhor emO

Acordo,

de

Julio

de

Queiroz.

O escritorfoi frei beneditino duranteanos ededicousuavidaà

teologia.

Entreseusperso­

nagens mais interessantesestáMiriam- Maria

Madalena,

meninainconformadacom osofri­

mento das

mulheres,

mulherque não casou,

pois

nãohavia homemquea

quisesse,

mas re­

cebeuoconvitede

Jesus

paraser sua

discípula

e o

seguiu.

Madalena,

nocontode

Queiroz,

viu

tudooqueaindasofreria

pelo

amor aoCristo:

"Vi

quando

me acusaramdetersido

prostituta.

Outros,detersidosuaconcubina.Os maisbon­

dosos,

ou menossutis,determossido maridoe

mulher,

comfilhos clandestinos".

discípulos

Pedroe

Paulo,

respectivamente.

Mas a

intertextualidade entre

teologia

e literatura é

ainda mais

antiga.

Era

condenada por Santo

Agostinho

por ser uma

reinvenção

mítica e fa­

bulosa dos textos

bíbli-DIMITRICASTRIQUE/ WWW.SWX.HU

Os

dogmas

da

Igreja

são contestadosnaliteratura. Traidoresemeretrizes

ganham

voz em novasleiturasdo livro

sagrado

Entretanto,só há20anoshouveumasis­

tematização

teórica dessecampode estudose

tambéma

explosão

de best-sellerse romances

seguidores

dessa tendência

-O

Código

daVin­

ci,deDan

Brown,

O

Evangelho Segundo

Jesus

Cristo,de

José

Saramago

ouaindaolivro deJ.

J.

Benítez, operação

Cavalo de Tróia.

A

professora

SalmaFerraz,

pesquisadora

do Núcleo de Estudos

Comparados

entreteolo­

gia

eliteratura

(Nutel),

dizque énaAlemanha e nos Estados Unidos

que a

Teopoética

tem

seus

principais

pes­

quisadores.

O

núcleo,

sediado na Universi­

dade Federalde Santa Catarina

(UFSC),

é

um dos

pioneiros

no

Brasileexistehácinco

anos.

Surgiu

nomeio

acadêmico com ain­

tenção

de pensar as

conexões entre teolo­

gia

e

literatura,

afim

de

chegar

a uma

produção

comumquepossa

vira

público.

ONutel segueoconceitodo

teólogo

alemão Karl

Josef

Kuschel - A

Teopoética,

urn novo

campo de estudos voltadoparaodiscurso

críti-do

Universo,

se

o mesmo

Deus

Pregadores Julio

de

Queiroz

fazpartedo

grande

grupode escritores que

escreveram

sobreatemáticabíblica.NoBrasil: Machado de

Assis,GracilianoRamos,

Álvares

de Azevedo.

José

Saramago, Eça

de

Queiroz,

AlbertCamusno ex­

terior. EmseulivroEsaúe

Jacó

(1904),

Machado deAssisrecorre aoVelhoe aoNovo Testamento

parase

espelhar

na

his-tória dos

gêmeos

rivais

"Como

acreditar

Esaúe

Jacó

e nasidéias

confrontantes entre os

num

Deus criador

criou

a

espécie

humana?"

José

Saramago

cos.Nos escritosdo

discí-pulo

Pauloera

questionado

como aarte

poderia

interpretar

Deus. E

oescritorromanoMarcus Varrofaziaa

distinção

entre

teologia filosófica,

civile

teologia poética

no ano18antesdeCristo,

época

anterioraoadvento docristianismo.

co-literário sobreDeus,naliteraturae naanálise

literária,

a

partir

dareflexão

teológica

presente nos autores. Salma

explica

que as

principais

questões

apontadas

pela

linha de

pesquisa

são

oscritérios estilísticosparaumdiscurso

teológi­

codentro da literatura do séculoXXe as

relações

entreliteratura

contemporânea

ecrise existen­

cial da consciência moderna.

Discípulo

ateu

Pesquisadora

das ma­

neirasemqueDeus sefazpresente na

ficção

narrativadoescritor

português

José

Saramago,

SalmaFerraz éautorade livros que analisama

obra do autor,comoAsfaces deDeusnaobra

deumateu.Elacontaqueoescritoré "umateu

perturbado

com aexistência deDeus"e em seus

textos, destrói

progressivamente

asváriasfaces do Criador: "Comoserá

possível

acreditarnum

Deus criador do Universo, se o mesmo Deus crioua

espécie

humana?Poroutras

palavras,

aexistência do

homem, precisamente,

éoque

provaainexistênciadeDeus." Em O

Evangelho

Segundo

Jesus

Cristo

(1991),

oautorreescreve um

evangelho

concebendoumDeus

cruel,

que

quer

ampliar

seusdomíniosenecessitadeum

mártirpara

impressionar

aspessoas. Poroutro

lado, Jesus Cristo,

humanoe

rebelde,

é cheio de

inquietações

e

desejos

de liberdade.

SalmaFerraz analisaoCristo

humanista,

propostopor

Saramago,

como umamisturado

posicionamento

político

-a

paixão

pelo

marxis­

mo e a

persistente

militânciacomunista

-ede recursoliterário.

É

claraaobsessão do

português

de84anos

pelo

personagemDeus, presentenos

livros Terrado Pecado

(1945),

Memorial do

Convento

(1982)

eaindaemHistória do cer­ code Lisboa

(1989),

ondeoescritorcondena

odeus

Alá,

confirmandoapresença dasvárias

faces deDeusem suasobras.

Masostextosbíblicosnão são

reinterpreta­

dos apenas

pelos

escritoressem

religião

ou com

crises

pessoais

eliterárias sobreaexistênciade

Deus. Salma aponta leituras dos personagens bíblicosemescritores quedeclaramseucatoli­

cismoeafirmaqueafénãoéum mau

princípio

estilistico,

comomuitosestudiosos da literatura pregam. Adélia

Prado,

Rubem Alves- estudioso

da

teologia

epastorduranteanos e o

próprio

Ju­

lio de

Queiroz

sãocitados

pela

professora

como

grandes

contribuintesnasleituras da Bíblia. Adélia Prado e Rubem Alves contrariam

atendênciade críticaliteráriaaoDeus

bíblico,

pois

trazemuma nova

linguagem

sobrecomo sedeveamar elouvaraoPai,

algumas

vezes em

forma de

orações.

Poreste

mundo,

de Rubem Alves prega:

"lembramo-nos,

com

vergonha,

de

queno

passado

aproveitamos

donosso maior

domínioedelefizemosuso comcrueldadesem

06

ZERO

OUTUBRO

-2007

Acervo: Biblioteca Pública de Santa Catarina

(6)

Tomai,comei:aúltimaceia de JesusCristoaparece naBíbliae naliteratura

limites,

tantoassimqueavozdaterra,que deve­

riatersubidoatinuma

canção,

tomou-seum

gemido

dedor".As

fraquezas

hwnanasperante

a

criação

deDeus são

freqüentes

nostextosdes­

tesdoisescritores.

Inquietação

A

quantidade

de trabalhos

eobrascom atemática bíblicarefleteumain­

quietação

de

escritores,

teólogos,

historiadores

eleitoressobreanarrativaqueestána"matriz

detodaaliteratura

ocidental",

diz Salma.A pes­

quisadora

fala queocontexto de

ódio,

amor,

eternidade, traição

sempreterá

apelo

históricoe

literárioegarantecadavezmais

interpretações

sobreospersonagens bíblicos.Para

Salma,

Deus

e oDiabo aindasãopersonagens da

preferência

mundiale a

relação

deamor eódioentreeles

proposta

pela

Bíbliacriauma

disputa

de

poder

nasobras literárias. Aindano

Evangelho

Segun­

do

Jesus

Cristo,de

Saramago,

odiabotoma-se

grande

heróie

responsável

porumanovahis­

tóriadocristianismo,

quando

tentasalvarCristo

da

crucificação

para,

segundo

o autor, salvar oshumanos deuma

religião

que

nasce com

cheiro de sangue.

No livro

sagrado,

entretanto, o

anjo

rene­

gado

porDeuscolocaem

tentação

afé de

Jesus

CristonosmomentosemqueoFilho do Criador

provasualealdade.O

Evangelho

deSão Mateus

relata:

'Jesus jejuou

durante quarentadias e

quarenta noites,e,

depois

dissosentiufome.En­

tão,otentadorse

aproximou

edissea

Jesus:

'Se

tués Filho deDeus,mandaqueessas

pedras

se

tomem

pães!

'" ODiabo bíblicosefazpresente

resenha

nosdiversos livrosque

compõem

aBíblia.Em

Ezequiel,

Satanás é vistocomotraidor dacon­

fiança

eda bondade do

Senhor,

quando

inicia

umaguerranocéu:"Fiz de vocêum

querubim

protetor de asas abertas. Você ficava na alta

montanha deDeus,

passeando

entre

pedras

de

fogo.

Desde

quando

foi

criado,

vocêera

perfeito

emtodosos seuspassos, até queseencontroua

maldadeemvocê".

Seja

wnDeusprepotente,ora

Senhor,

ora

Diabo,

um

Judas

como

figura principal

da fé

cristã

-já

quesemeleoFilho deDeus nãosalva­

riaahumanidade

-ouaindaumaMaria Mada­

lena

forte, invejada pelos discípulos

deCristo por

ser a

preferida.

Osnovospersonagensda

ficção

cristãcriados porescritoresde todo mundo des­

pertamointeressedos leitores que

imaginam

o

queessas

sagradas

figuras poderiam

tersidoem

outra

história,

outra

época,

talvezoutra

religião.

Contraatendência dequeodiscurso

teológico

possasetomar

abstrato,

osestudiosos da

Teopo­

éticaacreditam querecorrer àliteratura

pode

ser wncaminhode reencontroda identidade

problemática

docristianismo

hoje.

Emwn cam­

pohistórico cheio de

revelações

ede

dogmas,

os

estudiososdefendemque é

preciso

acabarcom a

acusação,

geralmente

levantada por

teólogos,

de

quealiteratura éumaintromissãona

Religião.

Poroutro

lado,

a

professora

SalmaFerrazrevela:

"Sempre digo

quea

Teopoética

é

injusta

em cer­

tamedidacomDeus,porque

afinal,

Deusnunca

teveachance deescrevernenhumromance.Ou seriaaBíbliao seuromance?' '.

PorFernanda Rebelo

As

várias faces

do Jesus

literário

Rafael

Camorlinga, pesquisador

doNúcleodeEstudos

Comparados

entre

teologia

e

literatura,estudaas

relações

entreas

representações

de Jesuse sua

figura

bíblica

etambéma

Teopoética

nocontextolatino-americano.Nestaentrevista,

Camorlinga

fala sobreointeressedosescritoresem

reforçar

oudesmistificara

imagem

divina

destepersonagem.

Nasua

opinião,

oquefazcomqueosescritores - católicos

ounão- tenhamesse

interesse por outras

representações

deJesus?

Camorlinga:

Ointeresse da

pintura,

escultura, cinema,literatura

pela figura

de Jesus

decorre,no meuentender,da natureza do homo

religiosus,

inconformadocom as

estreitezas da vida dodia-a-dia.Admitindo queoJesus"canônico"ouhistórico é

umpersonagem,mesmo com

pretensão

de pessoa, hámargempara

imaginá-lo

e

descrevê-lo demaneiranemsemprecoincidentecom adas

igrejas

cristãs.

Quaisseriamos

traços

nas

representações

do Jesusliterário maiscomunsentre

osescritores?

Sãoos

traços

do personagem de

ficção,

isto

é,

serhumano

(divino?)

vivendo

situações

exemplares

de modo

exemplar.

Assimcomo osheróis

ficcionais,

oherói

Jesusencaraconflitosterríveise

situações-limite

emqueodesfechoé

imprevisível.

Porém,

tratando-sedeJesus Cristoos

traços

da pessoa

podem

passaraoJesus

personagemeassim

garantir

ofinal feliz.

É possível

relacionara

representação

deum

escritor,

comsuapostura

política,

social, religiosa?

Saramago

temumJesus bemhumanizadoeparaos

pesquisa­

doresisso refletea sua

descrença

católica.

Paramim,é inevitáveloparentescoentreocriadore acriatura,escritoreobra lite­

rária.

Alguns

escritores

admitem,

outrosnão."Entreoromance e avida háa mesma

diferença

que entreosonhoe a

vigília:

oescritormuda,

disfarça

arealidade,para

executar atosinfinitamente

desejados.

Comonossonhos,essas

mudanças,

esses

disfarcessão quasesempreinconscientes"

(Sábato).

Cite

alguns

autores quepossuemuma

representação

de Jesus bem diferenciada

davisão bíblica.

Porumlado estáoJesusefeminado,

piegas,

angelical,

desumanizado, etc.,dos

livros devotosedosíconesqueenchemas

igrejas;

poroutro,oJesus

simplesmente

humanodeRenan

(século

XIX) cujo

livro

tipo biografia,

foipostono"Index librorum

prohibitorum" pela Igreja

da

época.

Está tambémoJesusde Vicente

Leíiero,

escritor

mexicano,umJesus que bebe

tequila,

comechilieusa

guaraches

...TemosoJesus

de PauloLeminski. Humanooudivino?Não

importa.

Oque contaéqueé

"superpo­

eta". TemostambémoJesus bem-humoradode Fernando

Sabino,

quenempor isso

deixadeserdivino.Enfim,temosaindaoJesus de

Saramago,

tão humanoqueé quasedivino...

Palestina,

uma

nação

resgatada

em

desenhos

No

princípio,

ohomemviviadecaçaecoleta e relatava essas atividadesdesenhando-as nas

pedras,

talvez paracomemorar ofeito oupara deixaraosdescendentesum

registro

decomo era avida

naqnele

tempoe

lugar.

Assim

surgiu

o

primei­

ro

repórter

da

história,

ou

melhor,

da

pré-história,

e o

primeiro

estilo dere­

portar,orelatofeitoemdesenhos.Mi­

lhares deanos

depois,

esses

registros

servemdefonteparahistoriadorese

outrosestudiosos.

Ao

longodesseperíodo,

ohomem

aprimorou

outrasformas deescritae

dispensou

os

primitivos

desenhos.

Nosdias

atuais,

noentanto,eles vol­

taramemtodasas cores e

dispositivos possíveis, pelas

mãoshabilidosas decriativos cartunistas.

Joe

Sacco é

umdeles.Sacconasceu em

Malta,

passouainfância naAustráliae aos11anosfoimorar nosEstadosUm­

dos,

ondeseformou

emjornalísmo pela

Uníversidade

do

Oregon.

Desde

criança,

gostavadedesenharqua­ drinhoscom airmã. Umdia resolveu

publicar

uma

revistade humorcom um

amigo.

Maistardeeditou

uma

antologia

de

quadrinhos

paraa

Fantagraphics

Bookse

publicou, sozinho,

arevistaYahoo.

Sacco inventouumnovoestilo dereportar.Ele usa a

fotografia

para

registrar imagens

e

fatos, depois

as

reproduz

em

quadrinhos

e setrans­

formanopersonagem que conduzo

fio da história através de

observações

pessoais,

à maneira do

jornalismo

gonzo. Os críticos o consideram o

maiorrepresentantedoNew

Jouma­

!ismamericano.

Palestina,

uma

nação

ocupada

foiseu

primeiro

projeto longo

de

jor­

nalismoem

quadrinhos.

Parafazera

reportagem,ele

viajou,

emdezembro

de 1991, a

Jerusalém, Cisjordânia

e

Faixade

Gaza,

onde

perambulou

por doismeses e

registrou

aversãodos dois lados dain­

terminável guerraentre

palestinos

eisraelenses.Para

os

israelenses,

elese identificava como turista. Os

palestinos

sóeramavisados dequeeleera

jornalista

quando

necessitavaentrarem suas casasparafazer

entrevistas.

Comotodo

correspondente

de guerra, ele

queria

estar"nahoracertaeno

lugar

certo",ecorriaatrás detropasde

choque, gás lacrimogêneo

egarotos

pa-lestinos

"criminosos",

que combatiamostanqnesde

guerra

jogando pedras.

Durante semanas,elesaiu

à procura de idosas

expulsas

desuascasas,velhos

obrigados

acortaroliveiras

centenárias,

fonte deseu

únicosustento,efamílias quetiveramparentes

apri­

sionados,

torturadosemortos

pelo poderoso

exército israelense.

Jornalismo

ehistória "Historiador é

aqnele

qne

vê,

qne

tP.stemunha", dizJosé

Arbexno

prefácio

do

livro,

citando

Jacques

I.eGoff.Nesse

sentido, Joe

Sacco

émaisdoqueum

jornalista.

Elereescreve ahistória

oficialedesmenteomitode"umaterrasempovo

paraumpovosem

terra",

criado

pelos

ingleses

para

justificar

a

fundação

do Estado de Israelemterrasda Palestina.

Aomostrara

tragédia

dos

palestinos,

ele per­ seguea

objetividade,

masnão consegueficarisento

:'Wsofrimento.

Dor,

espanto, terror, raiva,

frustração,

esperançae

desespero

aparecem claramentenasfa­

cescaricatasde

homens,

mulherese

crianças

edão umrostoa essa

nação

invisíveleexcluída da mídia

ocidental.

Numtombastante

coloqnial, algumas

vezesiro­

nico,emotivoeaté

irreverente,

elemistura

história,

relatos

objetivos

e

impressões pessoais.

Em

algumas

páginas

do livrooautorinseretextosmaiores,para

contextualizar osconflitos qnemarcam a

relação

históricaentre

palestinos

e hebreus.Noentanto,os

expressivos

desenhos deSacco economizam

longas

explicações

textuais. Comtraçosnegrose

fortes,

ele

retrata

paisagens,

costumes,

cultura, conflitos,

sofri­

mentosemortescomdetalhes

pitorescos

e nuances

que escapamao

simples

registro

fotográfico.

Os

quadrinhos

foram

primeiramente

publicados

em nove

gibis

intitulados

Palestina,

em

1994.

Cinco anos

depois,

a

Fantagraphics

oseditouemdois li­

vros,

Palestina,

uma

nação

ocupada

ePalestinana

FaixadeGaza. Aobramereceu o

prêmio

American

BookAwarde o

HQ

Mix

2000,

e oautor

é

objeto

de estudos acadêmicos.

No

Brasil, Palestina,

uma

nação

ocupada

foi

publicado

em

2002,

pela

Conradlivros. A

tradução

tevedeser

previamente

aprovada pela Fantagraphics.

Aexcelente

tradutora,

Cris

Siqueira,

inseriuostextos

nos

qnadrinhos

commuitaarte,apontode daraim­

pressão

desetratardeversão

original.

Além

disso,

o

prefácio

de

José

Arbex

é,

porsi

só,

umainteressante

aula de

reportagem.

POI' Vera MariaFlesch

2007

-

OUTUBRO

ZERO

07

Referências

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