UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas
MICHELLE FRANCO REDONDO
TRAJETÓRIAS DO CARE: De Au pair a Nounou.
CAMPINAS 2018
MICHELLE FRANCO REDONDO
TRAJETÓRIAS DO CARE: De Au pair a Nounou.
Tese apresentada ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas como parte dos requisitos exigidos para a obtenção do título de Doutora em Ciências Sociais, no âmbito do Acordo de Cotutela firmado entre a Unicamp e a Université Paris VIII Vincennes-Saint-Denis-França.
Orientadora : LILIANA SEGNINI
Coorientadora : PATRICIA PAPERMAN
ESTE TRABALHO CORRESPONDE À VERSÃO FINAL DA TESE DEFENDIDA POR MICHELLE FRANCO REDONDO, ORIENTADA PELAS PROFESSORAS DOUTORAS LILIANA SEGNINI E PATRICIA PAPERMAN.
CAMPINAS 2018
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS Instituto de Filosofia e Ciências Humanas
A Comissão Julgadora dos trabalhos de Defesa da Tese de Doutorado, composta pelas Professoras Doutoras a seguir descritas, em sessão pública realizada no dia 7 de março de 2018, considerou a candidata Michelle Franco Redondo aprovada.
Profa Dra. Patricia Paperman –
Profa Dra. Liliana Rolfsen Petrilli Segnini – Profa Dra. Guita Grin Debert –
Profa Dra. Helena Sumiko Hirata – Profa Dra. Nadya Araújo Guimarães – Profa Dra. Pascale Molinier –
A Ata de Defesa com as respectivas assinaturas dos membros encontra-se no SIGA/Sistema de Fluxo de Dissertações/Teses e na Secretaria do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.
Dedico esse trabalho a minha mãe e ao meu pai, que me são exemplos de tantas coisas, e aos amigos, que comigo dividiram essa trajetória. Em especial, a L. L.
Minha imersão no trabalho doméstico do care na França fez o campo desta pesquisa. No entanto, a transformação dos dados coletados em texto só foi possível quando deixei de ser babá. Mesmo antes dessa ruptura, os agradecimentos eram inúmeros, depois eles se tornaram, em alguma medida, minha condição. Não esqueço o começo desta trajetória e sei que o presente trabalho se construiu em todo o seu percurso. No entanto, nestas linhas, me focalizarei no agradecimento àqueles que foram fundamentais no momento da materialização das ideias em palavras.
Durante esta trajetória, fui orientada por Patricia Paperman e Liliana Segnini, às quais agradeço por terem se unido para que este trabalho encontrasse seu lugar e fosse concretizado. Elas me dispuseram, de certa maneira, segundo os principais pontos de referência para minha localização na realização desta pesquisa. Patricia, além da divisão dos seus conhecimentos sobre o care, presenteou-me com um incentivo a um estilo, Annie Ernaux. Liliana, entregou-me os saberes fundaentregou-mentais para a concretização de uma pesquisa, assim como lembrou-entregou-me da necessidade de “autorizar-se”. Cada uma a sua maneira, foram bússolas. Obrigada por me aceitarem.
Além da gratidão pelas minhas orientadoras pela possibilidade de diálogo, sinto-me também grata à Helena Hirata. Ela, nesta reta final, mas não diferente do que fez em outros momentos, me proporcionou uma discussão fundamental. Sua solicitude também foi registrada por meio das pequenas delicadezas de suporte emocional que me ofereceu. Obrigada por se fazer presente ao longo desses anos.
A colaboração dos funcionários das duas instituições às quais esta pesquisa está ligada foi notável. Nina Grosso, da Paris 8, Reginaldo Alves e Beatriz Suyama, da Unicamp, foram cuidadosos e eficientes. Eles fizeram com que a burocracia não ultrapassasse o seus próprios inconvenientes no momento em que apenas há o desejo de terminar. A eles, todo meu reconhecimento. Obrigada por me oferecerem uma boa memória do contato estabelecido.
Nas relações construídas fora do mundo acadêmico e envolto a ele, agradeço àquela que me proporcionou um aspecto fundamental das condições materiais para o desenvolvimento de um trabalho, Priscila Coutinho. Abriu-me as portas da sua casa e mostrou-me outras possibilidades de forma de vida. Um cotidiano de aprendizagem e afeto. Agradeço à Pri, pela sua confiança e incentivo. Assim como ao seu companheiro Sami. Obrigada por terem me permitido construir.
Gomes, pois sei que por ali ela esteve. Obrigado por terem me oferecido seus olhares.
Agradeço às minhas três Anas: Anna Carolina, Ana Elisa e Ana Barros. Para elas, durante um período de isolamento social, eu olhava para erguer a cabeça e ver os pontos de luz. Com elas, vivi o cuidado à distancia e a harmonia entre razão e emoção. Carol, sempre iluminando o caminho da cautela. Elisa, o da sociologia e, Barros, o das associações livres. Assim, elas leram, modificaram, ajudaram a construir, estilo, conteúdo e notas de rodapés. Obrigada por me fazerem acreditar.
Outras companheiras presentearam-me com seu apoio e saber linguístico, Ana Adão, Claudia Simionato, Daisy Oliani, Sylvie Fiessinger e Jeff Vasques. Elas iluminaram e possibilitaram minha expressão, inseriam as normas, mas também a crença na construção. Destaco meu reconhecimento a Adão que, mesmo no fim da sua própria tese, à minha se dedicou, quem comigo, mais uma vez, buscou um caminho em tempos difíceis. Obrigada por se fazerem presentes.
Agradeço à amiga Aline Lunardelli, que mais uma vez me mostrou que há coisas que o tempo e as distintas escolhas não mudam. Obrigada por me fazer saber que é possível.
Assim, como agradeço a outros amigos, como Ricardo, Gerald, Julierme, Fabião, Tozi, Carin, Giovanna, Koichi, Bruna, Fernanda, Florian que por mim torceram e comigo estiveram. Em especial, a Michelson, que me abriu os braços no dia em que tudo tinha sido perdido. Obrigado por terem entendido meu momento, pela paciência e pelos carinhos.
Não posso deixar de agradecer a disposição daquelas que constituíram essa pesquisa. Elas nunca deixaram de responder qualquer dúvida e transformaram a partilha em algo comum. Assim, como devo expressar meu reconhecimento aos meus familiares, que comigo encararam o mundo da construção das narrativas. Obrigada pela confiança.
Agradeço àquela que possibilitou a concretização deste trabalho no formato aqui presente, Laurita. Ela dividiu comigo os dias que antecederam a entrega da tese, nele colocou sorrisos e a certeza de que as coisas são possíveis se temos os amigos certos. Obrigada por ser você.
Por fim, agradeço aos meus pais, que me apoiaram, mesmo quando havia incompreensão, em um caminho que parece tão distante. Obrigada pelo cotidiano para além da distância.
É preciso agir sem medo de construir algo que ainda se desconhece
A partir da epistemologia do conhecimento situado, esta pesquisa orienta-se pela perspectiva do care e baseia-se em reflexões sobre trabalhos domésticos apagados das representações sociais dominantes. O estudo foi realizado por meio de observação participante e, dentro do prisma de uma autossocioanálise, contou com entrevistas que acompanharam o processo de transição do estatuto de au pair para o de nounou vivida por brasileiras em Paris e seus subúrbios. A pesquisa oferece ferramentas para a conscientização da dificuldade em identificar-se com e como uma trabalhadora doméstica e apresenta a necessidade de distinção social como um obstáculo ao reconhecimento do trabalho do care. O grupo estudado difere-se das trabalhadoras domésticas convencionais, pois a atividade que exercem é considerada um veículo para outro destino. Uma das consequências retrata-se em uma maior mobilidade social em comparação a outras babás, incluídas nas representações de trabalhadoras domésticas do care.
Palavras-chave: care, mercado do care, trabalho do care, trabalho doméstico, programa de intercâmbio au pair , au pair , migração, trabalho feminino, mobilidade transnacional de mulheres, sociologia du care, sociologia do cuidado.
Building on the epistemology of situated knowledge, this research draws from the perspective of care and is based on reflections on domestic work that is effaced from dominant social representations. The study was carried out by means of participant observation and, on the outlook of an auto-socio-analysis, relied on interviews that accompanied the process of transition of status, namely, from au pair to nounou experienced by Brazilian women in Paris and in its outskirts. The research offers sets of tools aiming to raise awareness of the difficulties in identifying oneself with and as a domestic worker, and sheds light on the need of social distinction that hinders recognition of the work of care. The group under scrutiny distinguishes itself from representations of domestic workers in that the care activities it performs is recognized as a vector and not as a fate. One of the implications of this is reflected in the higher level of social mobility enjoyed by the group when compared to other nannies who are encapsulated within social representations of care domestic workers.
Keywords: care, market of care, work of care, domestic work, au pair exchange program, au pair girl, migration, woman’s labor, transnational women mobility, care sociology .
A partir de l’épistémologie de la connaissance située, et orientée par la perspective du care, cette recherche porte des réflexions sur les travaux domestiques effacés des représentations sociales dominantes. Cette étude se fonde sur l’observation participante et présente, dans le prisme d’une auto-socio-analyse, des entretiens qui accompagnent le processus de transition du statut d’au pair à celui de nounou vécue par des brésiliennes à Paris et ses banlieues. Dans ce cadre, cette étude donne des outils pour réfléchir à la difficulté de s’identifier avec et comme une travailleuse domestique et présente la nécessité de distinction sociale comme un obstacle à la reconnaissance du travail du care. Le groupe de femmes étudiées diffère des représentations des travailleuses domestiques, étant donné que l’activité du care qu’elles exercent est considérée non pas comme leur destin, mais comme un véhicule. L’une des conséquences est une mobilité sociale plus importante comparée à celle d’autres nounous, elles, incluses dans les représentations sociales des travailleuses domestiques du care.
Mots-clés: care, marché du care, travail du care, travail domestique, programme d’échange au pair , jeunes filles au pair , migration, travail des femmes, mobilité transnationale des femmes, sociologie du care.
PRIMEIRA PARTE: OS CUIDADOS METODOLÓGICOS ... 26
Capítulo I – Símbolos e Saberes ... 27
1.1 O cuidado em alegoria-‐ Mito do Cuidado ... 27
1.1.1 Interdependência ... 37
1.1.2 Vulnerabilidade ... 40
1.2 A conceitualização do cuidado ... 44
1.2.1 Cuidado: uma voz diferente ... 44
1.2.2 Cuidado: de disposição à atividade ... 49
Capítulo II – Autossocioanálise ... 55
2.1 Trajetória de trabalhos ... 55
2.2 Autorretrato: o trabalho doméstico e eu ... 59
2.3 Retrato de família : trajetórias do care ... 68
2.3.1 Tia Fia ... 68
2.3.2 Tia Nena ... 73
2.3.3 Minha mãe, Nésia ... 76
2.3.4 Tia Rita ... 80
2.3.5 Tia Jaque ... 82
2.3.6 Prima Bruna ... 86
2.4 Duas trajetórias familiares diferenciadas pelo care ... 88
2.5 Minha família é como outras ... 94
SEGUNDA PARTE: O CUIDADO EM QUESTÃO ... 102
Capítulo III– De au pair a nounou: quais as mudanças? ... 103
3.1 Au pair e seus estatutos ... 103
3.1.1 Diferenças administrativas ... 107
3.2 Autorretrato: independência à vista ... 111
3.3 Comparação entre ser au pair e ser nounou ... 114
3.3.1 Mudanças nas relações de care ... 124
3.3.1.1 A experiência de Sibelle ... 129
3.3.2 Mudanças nas representações do trabalho doméstico/care ... 136
3.3.2.1 A experiência de Tati ... 139
4.2 O retrato do cuidado na França ... 149
4.3 Um retrato do trabalho doméstico no Brasil em filme ... 159
4.3.1 Quem cuida do que e como? ... 160
4.3.2 Metalinguagem do Social ... 164
4.4 Ser au pair : uma questão socioeconômica ... 168
4.5 A distinção social como sintoma da resistência ao reconhecimento do care ... 173
4.5.1 O afeto como recurso de distinção ... 180
4.5.2 Desassociar-‐se do trabalho doméstico, uma vantagem para quem ? ... 184
4.7 Sistema de dificuldades para o reconhecimento do trabalho do care ... 191
TERCEIRA PARTE: O CUIDADO COMO ATIVIDADE ... 195
Capítulo V -‐ O trabalho do care ... 196
5.1 Codificar o trabalho do care ... 196
5.2 Autorretrato: cuidados cotidianos ... 198
5.3 Karina ... 202
5.3.1 Um trabalho de si ... 203
5.3.2 A mudança da água para o vinho -‐ um trabalho do care bem feito ... 209
5.3.2.1 Marie: uma criança e suas nounous ... 210
5.3.2.2 Uma hora e quarenta minutos de crise ... 213
4.3.2.3 Um esquema ideal, as quatros fases do care ... 216
Capítulo VI -‐ A economia do care ... 221
6.1 Comércio au pair ... 221
6.2 Au pair , uma lógica do Mundos hostis ... 224
6.2.1 Uma relação bem ajustada: o caso de Sibelle e da família Boulanger. ... 226
6.2.1.1 Sibelle ... 228
6.2.1.2 Família Boulanger ... 231
6.3 O (bom) encontro entre uma babá e uma família ... 233
6.3.1 Serenidade versus acordo salarial ... 236
6.3.2 O trabalho do care uma contribuição para o bem estar de cada um. ... 241
6.4 Rita e sua trajetória de care ... 244
6.4.1 Rita por Rita ... 246
6.4.2 O trabalho doméstico do care como o início de uma inserção social ... 252
ANEXO I – Identificando esforços na realização do trabalho do care ... 283
ANEXO II – Cronologia da política familiar na França ... 302
ANEXO III -‐ Diário dos primeiros dias com uma criança ... 306
INTRODUÇÃO
Esta tese é uma reflexão acerca do cuidado e do cuidar realizado na esfera doméstica. Ela aponta dificuldades de nomear a atividade do care como trabalho e as apresenta como uma resistência em se identificar com e como trabalhadora doméstica. Esta resistência é traduzida como uma dificuldade de se reconhecer vulnerável socialmente e por consequência, uma dificuldade de se identificar com os socialmente vulneráveis. Assim, esta dificuldade foi defendida como um elemento dentro do sistema de obstáculos para o reconhecimento do trabalho do care. O interesse pelo sujeito desta pesquisa tem origem na minha própria vivência como trabalhadora do care, e é desenvolvido a partir das trajetórias de imigrantes brasileiras na França que, assim como eu, posteriormente às suas respectivas experiências como au pair , neste mesmo país, se tornaram nounous1 (babás). Para além dessas experiências, no presente estudo, recorreu-se igualmente a outras vivências relacionadas ao cuidado doméstico do care. Assim, por meio de uma variedade de trajetórias foi possível estabelecer comparações e identificar questões comuns às trabalhadoras domésticas do care em diferentes contextos de atuação.
O despertar do interesse pelo estudo das au pair teve início em 2008, a partir da minha própria experiência enquanto participante deste Programa de intercâmbio, que tem como princípio básico o recebimento de uma estrangeira - a au pair - para a aprendizagem da língua falada pela família que a acolherá. Entre au pair e família de acolhida é estabelecido um contrato no qual a primeira cuidará das crianças da família em troca de receber acomodação, comida e dinheiro semanal. Assim, foi a partir do que encontrei no meu cotidiano como au pair que comecei a questionar como outras participantes brasileiras vivenciavam esta experiência e, graças à convivência com elas, constatei sentimentos presentes na realização do trabalho do care que não me eram exclusivos e que me pareceram passíveis de análise sociológica. Dessa forma, concomitantemente com a minha própria experiência como au pair , realizei o Master 1 e 2 na França. Neste período, fiz um levantamento sobre a História do Programa au pair , defini o perfil das suas participantes brasileiras e trabalhei com algumas experiências de maneira mais aprofundada, descrevendo aspectos da atividade por elas desenvolvidas - do trabalho do care. Com essas informações,
1 As participantes desta pesquisa usam o termo nounou, ao invés de babá, para falar da sua experiência e, por isso, respeito essa maneira nos meus escritos.
dentre outros aspectos, foi possível demonstrar como o Programa au pair corresponde ao mercado do trabalho do care e como o discurso de intercâmbio que ele aporta camufla o trabalho executado. Assim, iniciei minha reflexão sobre alguns dos interesses na invisibilidade do trabalho do care e, consequentemente, sobre a dificuldade no seu reconhecimento.
Em um sentido amplo, a pesquisa aqui apresentada é parte da minha própria trajetória, que não se limitou apenas às observações, mas também é fruto deste terreno fértil e espinhoso onde prática e teoria se encontram. Primeiro como au pair de 2008 a 2010 e, posteriormente, como babá2 de 2010 a 2015. Dessa forma, esta pesquisa dá continuação à questionamentos e posicionamentos anteriores. Nela encontra-se um conjunto de trajetórias, que evidência alguns dos esforços físicos e psicológicos empreendidos na realização do trabalho doméstico do care. Assim como permite a investigação do interesse em não ser identificada como trabalhadora doméstica. Este interesse foi constatado no estudo realizado no mestrado e parecia entrar em conflito com o fato das au pair se tornarem babá. Assim, a partir da minha vivência na França e com base na experiência de outras brasileiras, que também participaram do programa au pair e após seu término tornaram-se nounou (babá), originou-se esta pesquisa.
A concretização desta pesquisa também conta com a somatória de outras vivências relacionadas ao cuidado doméstico. A partir desta variedade construiu-se a reflexão sobre o trabalho do care, realizado por mulheres no interior de nossas casas, sejam esposas, mães, tias, primas, au pair , babás ou empregadas domésticas e a dificuldade do reconhecimento deste como trabalho.
A abrangência na amostragem utilizada nesta pesquisa, assim como a análise explícita da minha experiência, encontram respaldo metodológico na ideia de bricolagem (LÉVI-STRAUSS, 1970) e no desenvolvimento de uma autossocioanálise (BORDIEU, 2004a). Estes dois métodos fazem parte da epistemologia que sustenta este estudo, a do conhecimento situado. Por sua vez, esse conjunto de formas do conhecimento é perpassado pela perspectiva norteadora desta pesquisa: a perspectiva do care, a qual considera as experiências particulares também como fonte de um conhecimento que pode ser expandido e não julga as emoções como um problema para as análises.
A ideia de bricolagem - pensamento científico que se guia pela intuição e pela vontade de conhecer o que está no mundo (LÉVI-STRAUSS, 1970, p. 37) - é inspirada na sua
2 Embora eu utilize o termo nounou ao invés de babá, em respeito à forma como as participantes da pesquisa se expressam, no presente trecho escolho o termo em português para marcar uma posição clara de consciência da realização do trabalho do care/doméstico.
apresentação feita por Claude Lévi-Strauss (1970) em sua obra “O pensamento selvagem”. Nela, o autor demonstra que todo ato ordenador também pode ser provado por atos intuitivos e que, assim, o conhecimento não é apenas construído a partir da razão prática. Nesse sentido, o autor apresenta o “pensamento mágico”, condensado nos mitos e nos ritos, como forma de observação e reflexão constituídas a partir da “organização e da exploração especulativa do mundo sensível em termos de sensível” (LÉVI-STRAUSS, 1970, p. 31). Inspirada nesse legado, a pesquisa aqui apresentada faz uso da apresentação de um mito para a compreensão do cuidado e a sua construção se fez à maneira do bricoleur e não do engenheiro3. Assim, esta pesquisa é construída a partir de materiais diversificados, apostando nas evidências levistraussianas de que, mesmo antes do que é corriqueiramente identificado como rigor científico4 (controle das variáveis e a validação dos procedimentos), há o saber sistemático que se constrói a partir de observações e experimentações. A abrangência na amostragem utilizada nesta pesquisa, assim como a análise explícita da minha experiência, encontram respaldo metodológico na ideia de bricolagem (LÉVI-STRAUSS, 1970) e no desenvolvimento de uma autossocioanálise (BORDIEU, 2004a). Estes dois métodos fazem parte da epistemologia que sustenta este estudo, a do conhecimento situado. Saber esse que, nesta pesquisa, vai ao encontro das proposições de Kincheloe (2007) ao defender a bricolagem como uma postura que rompe com o reducionismo, o parcelamento, a fragmentação e a neutralidade científica dos métodos positivistas, os quais legitimam as relações de poder desiguais. Por consequência, em decorrência do próprio processo de bricolagem, constatou-se a fragmentação do trabalho doméstico apontada por esta pesquisa. Assim, método e posicionamento político se encontraram, possibilitando a construção sistemática do conteúdo aqui apresentado, em confluência com a ideia do “universal concreto” (HILL COLLINS, 2016), que enfatiza a valorização das singularidades por meio de indivíduos “situados” (LÖWY, 2000).
3 O bricoleur faz uso de variadas formas de mensagens em virtude do princípio de que “isto sempre pode servir” (LÉVI-STRAUSS, 1970, p. 39), enquanto o engenheiro trabalha com conceitos científicos que servem como “operador da abertura do conjunto com o qual se trabalha”. (LÉVI-STRAUSS, 1970, p. 41) A restrição do conhecimento e dos meios disponíveis se apresentam para os dois tipos de pesquisador, a diferença está na construção. O bricoleur faz uso da bricolage intelectual, elaborando estruturas conforme as ferramentas que possui. O engenheiro faz uso constante de planos, métodos e esquemas. De acordo com Denzin e Lincoln (2006, p. 18), o bricoleur é “um indivíduo que confecciona colchas [...] que utiliza as ferramentas estéticas e materiais do seu ofício, empregando efetivamente quaisquer estratégias, métodos ou materiais empíricos que estejam ao seu alcance”.
4 Como nos lembra Kropf e Ferreira (1997), Bruno Latour e Sieve Woolgar no livro “A vida de laboratório” concluem: “é que a ciência não se distingue de outras práticas sociais, como postula a epistemologia, em função de uma superioridade cognitiva derivada da racionalidade intrínseca a esta atividade. O cientista, como qualquer outro ator social, é alguém que se utiliza de estratégias persuasivas que visam garantir a aceitação dos enunciados por ele produzidos. ” (KROPF e FERREIRA, 1997, p. 592)
A bricolagem se fez fundamental para as reflexões aqui propostas, pois graças à ampliação da amostragem de base foi possível apresentar como diversos agentes sociais produzem e reproduzem o que é imposto pelos discursos hegemônicos. Dessa forma, destacou-se representações do trabalho doméstico, que influenciam na dificuldade do seu reconhecimento. Como em outras pesquisas baseadas neste método, o rigor desta se afirma na consciência da consulta à diversidade de posições (KINCHELOE, 2007) e na sua confluência com a realização de uma autossocioanálise. Esta, inspirada na ideia de objetivação participante de Pierre Bourdieu (2003), oferece ferramentas para a compreensão das ênfases analíticas e, assim, permitem uma melhor argumentação em relação às considerações finais do trajeto aqui realizado. Portanto, as reflexões epistemológicas ultrapassam o momento da construção desta pesquisa, possibilitando, aos interessados, um melhor acompanhamento da sua trajetória e consequentemente uma maior amplitude para possíveis desdobramentos e avaliações. Tendo esta proposta como horizonte, realizei uma autossocioanálise considerando minha relação com o meu passado, buscando o que Bourdieu chama de “anamnèse5 libératrice”, aquela por meio da qual se faz uma reconciliação consigo e suas próprias origens sociais (BOUVERESSE, 2003). Nesta autossocioanálise, em congruência com a perspectiva do care, também procurei explicitar os sentimentos que envolveram determinadas vivências, e não apenas buscar uma conscientização do meu lugar social. Assim, para além de uma apresentação da minha origem familiar, da minha trajetória escolar e da minha participação no programa de intercâmbio au pair , que correspondem a informações para a construção do meu perfil socioeconômico, relatei percepções de vivências relacionadas ao trabalho doméstico e minha experiência como au pair. Ainda no intuito do exercício de uma autossocioanálise, procurei em minhas memórias os momentos em que me dou conta das categorias de classe, sexo e raça na minha história de vida e, a partir disso, considerei minha compreensão atual desses três eixos que atravessam esta pesquisa. Assim, na busca de um autocontrole científico (BOURDIEU, 1988 [1984]) e por meio deste dispositivo reflexivo, pude perceber, por exemplo, o paralelo entre minha percepção “sentimental” das categorias gênero, classe e raça e a forma como as utilizo na minha análise sociológica dos eventos aqui apresentados. Dessa maneira, investi na ideia defendida por Bourdieu (2003) de que a experiência primária transformada em e por meio da prática científica modifica a prática científica e, reciprocamente, pois o conhecimento científico e o conhecimento de nós mesmos e da nossa própria consciência social avançam juntos. Assim, como compreendi esta ideia defendida por
5 Do grego anámnesis, -eós, ação de trazer à mente, reminiscência. Na linguagem médica, pode ser traduzida
Bourdieu como congruente com a ideia explicitada por Hill Collins (2006, p. 122) “Aprender os temas centrais da sociologia estimula uma reavaliação das próprias experiências pessoais e culturais; e, mesmo assim, essas mesmas experiências paradoxalmente ajudam a iluminar as anomalias da sociologia” e, por isso, muitas vezes, na trajetória desta pesquisa, foram os temas centrais da sociologia que iluminaram a autossocioanálise nela elaborada. Por consequência, ainda à luz de Hill Collins (2006), usei a minha vivência como fonte de conhecimento para criticar fatos e perspectivas teóricas, ao passo que o pensamento sociológico me ofereceu novas formas de ver minha realidade vivenciada.
É importante destacar que a objetivação aqui realizada por meio de uma autossocioanálise certamente implica em peculiaridades. Luiz Duarte (2008), ao falar da sua experiência durante o desenvolvimento de um trabalho cujo sujeito era sua própria família, relata que tal processo é considerado, possivelmente, mais “denso de deslizamentos” entre as dimensões cognitiva e afetiva. O autor apresenta as palavras de Bourdieu que refletem esse processo :“A palavra não é mesmo muito forte para designar a transformação intelectual e afetiva que me levou da fenomenologia da vida afetiva (quem sabe derivada também das afeições e das aflições da vida, que era preciso denegar com sabedoria) a uma prática científica que requeria uma visão do mundo social mais distanciada e mais realista em seu conjunto” (BOURDIEU, 2005, p. 87). Para mim, a autossocioanálise foi um exercício emocional que, muitas vezes, não apenas encontrava a exaustão comum dos exercícios e a necessidade de disciplina para sua realização, mas também se deparava com os aparentes desajustes que uma análise acarreta. O movimento de dentro para fora, de fora para dentro exigia muitas negociações entre essas idas e vindas e me lembrava da afirmação de Löwy (2000): “Um esforço de assimilação empreendido com o objetivo de adquirir uma liberdade maior pode, portanto, levar a uma restrição da liberdade.” (LÖWY, 2006, p. 27)
Ver-me em meio ao que era vivido, procurando ao mesmo tempo discernir em minhas observações o que seriam minhas projeções e implicações pessoais - determinantes nos recortes que seriam dados na escuta/observação com as au pair -, assim como o consequente contato com as minhas particularidades - não apenas entre as au pair , mas também no mundo acadêmico -, embora fundamentais para o meu “cuidado de si” e o cuidado escolhido na construção desta pesquisa, causavam fricções que deixavam suas marcas. Toda esta pesquisa, que claramente tinha um fundo subjetivo, não deveria perder de vista seu objetivo maior: a construção de um texto dentro de normas acadêmicas pré-estabelecidas para a conclusão de uma tese de doutorado. Normas essas que encontravam estilos distintos entre os dois países
em que esta tese seria defendida6. Estas fricções geraram, além de marcas, algumas tensões. Havia a inevitável tensão com o tempo de Cronos, a tensão entre escolhas de formas para a tese e, por fim, a tensão da transformação da minha experiência pessoal em palavras que pudessem torná-la pública e, portanto, compartilhável.
Nesta trajetória da autossocioanálise e das observações sociológicas, grande parte do material extraído do que se sente e se descobre deve ser avaliado em seus contextos particulares. E, igualmente importante, é reconhecer o quão transformador ele é das próprias experiências “concretas” relatadas. Não é sem constrangimento o trabalho exigido para transmitir tudo isso em palavras, privando-me de um lugar aparentemente seguro e neutro. Nesse sentido, há um trabalho invisível em todo esse processo que, por fim, também perpassa meu posicionamento sobre a invisibilidade do trabalho doméstico do care e das histórias de quem o realiza. A bricolagem também se fez uma metodologia necessária para que eu pudesse estruturar o que se passava por mim. Assim, a autossocioanálise teve seu processo incentivado, sustentado e fortalecido em congruência com a estratégia metodológica da bricolagem. Ambos permitiram a construção de um conhecimento situado explicitando, tanto para mim, quanto para possíveis leitores, minhas motivações. Estas não apenas referidas ao meu interesse pelo assunto estudado, mas também às minhas origens. Desejei, dessa maneira, agir por meio da ideia de que “Uma ‘ciência situada’ pode abrir caminho para outra definição de objetividade e de universalidade – definição que inclui a paixão, a crítica, a contestação, a solidariedade e a responsabilidade.” (LÖWY, 2000, p. 38). Assim, ao me situar na pesquisa, faço a aposta de que a clareza (aquilo que ilumina o conhecer) sobre quem é que a constrói, seja uma ferramenta para novas construções deste mesmo estudo. Ao explicitar minha própria história, tem-se a ilustração das minhas possibilidades de experiências, fomentando a discussão sobre as reflexões, as hipóteses e as conclusões apresentadas nesta pesquisa, que possui o intuito de trazer aos seus leitores uma reflexão sobre o care, em forma de trabalho doméstico, que envolve nossas vidas. Mais especificamente, sobre os esforços demandados para a sua execução, as representações deste trabalho e as consequências que acarretam. O desenvolvimento desta pesquisa prezou por evidenciar tanto a trajetória da pesquisadora quanto das pesquisadas. As entrevistas apresentadas nesta dissertação, não foram expostas em
6 Uma frase de Ilana Löwy ajudou-me a traduzir meus sentimentos a respeito das minhas escolhas metodológicas e daquilo que tradicionalmente se espera de uma pesquisa sociológica, em geral, o mais simples de ser executado: “É difícil escolher entre a assimilação – que permite o acesso às vantagens dos dominantes, porém ao preço da auto-mutilação e da persistência do tecido cicatricial – e a manutenção na condição de marginalidade”. (LÖWY, 2000, p. 29)
busca de uma relevância numérica, mas apostou-se na possibilidade da descrição da experiência das migrantes entrevistadas.
Desde a escolha pelo sujeito desta pesquisa, buscou-se colocar luz àquilo que poderia ser ignorado por não haver representatividade numérica: as au pair . Sendo uma minoria dentro dos vistos de estudantes pedidos - em 2006, entre 1082 vistos de estudantes, 67 foram para au pair , em 2007 e 2008, a proporção foi, respectivamente, 1197 /60 e 1271/687- estas intercambistas/trabalhadoras podem ser facilmente ignoradas das questões de imigração aos olhos de uma sociologia mais tradicional. No entanto, a existência das au pair , mesmo que numericamente pouco relevante em comparação a outros grupos de migrantes, é uma das possibilidades de resposta à demanda de cuidados. Portanto, também constituem o mercado do care. Neste contexto, o estudo das au pair possibilita o conhecimento de uma forma de resposta à demanda do trabalho do care e por meio dele amplia-se o quadro das trabalhadoras do trabalho doméstico do care. Deste modo, colabora-se com a visibilidade deste trabalho e ocorre um incentivo às mudanças nas representações das mulheres que cuidam de crianças para terceiros.
A realização da pesquisa no mestrado, assim como a partilha de um cotidiano comum com as pessoas nela estudadas, resultaram em uma imersão completa no meu objeto de pesquisa. Esta imersão originou ligações de proximidade, que me permitiram o acompanhamento contínuo de algumas trajetórias. Dessa maneira, aquelas que foram estudadas, como participantes de um programa de intercâmbio, passaram a ser consideradas como imigrantes que utilizam o trabalho doméstico para se estabelecer no país. O grupo ao qual tive acesso era constituído de 25 pessoas que chegaram à França por meio do programa de intercâmbio au pair. Ele era composto de 20 mulheres e cinco homens que moravam em Paris e nos seus arredores. Minha proximidade com seus integrantes permite a afirmação categórica que todos os homens eram gays. Esta informação se faz pertinente para explicitar a questão de gênero que envolve o trabalho do care, pois dentro do contexto social do Brasil, no qual o machismo exerce grande influência, a existência de homens au pair poderia ser considerada como uma possibilidade de mudança nos padrões sociais. Para, além disso, é importante registrar a existência de participantes do sexo masculino ao programa de
7 Esses dados foram conseguidos em 2010 quando demandados ao secretário do consulado francês no Brasil. No entanto, nessa ocasião, não foi possível ter informações sobre o ano de 2009, pois o funcionário recebeu uma advertência no momento em que comigo falava e, dessa maneira, descobrimos que seu ato era transgressor das normas do consulado. Em anos consecutivos, foram enviados emails ao consulado pedindo as informações sobre o número de pedidos para visto de estudante/au pair. No entanto, quando houve resposta, os dados solicitados foram apresentados como sigilosos.
intercâmbio au pair, pois ela não será contemplada no desenvolvimento desta dissertação. Tendo em vista que a invisibilidade das trabalhadoras do care também é consumada na linguagem, nesta pesquisa não será respeitada a regra gramatical da predominância do masculino nas flexões de gênero. Portanto, mesmo existindo au pair homens, a predominância das mulheres no trabalho do care será evidenciada na escritura deste trabalho.
Entre as 20 mulheres acompanhadas ao longo deste período, 15 foram formalmente entrevistadas. Dentre as 15 entrevistas, três foram entrevistadas três vezes e, quatro, duas vezes. Portanto, as outras 8 foram entrevistadas uma vez. As experiências de Sibelle (entrevistada três vezes), Karina (entrevistada três vezes), Tati (entrevistada duas vezes), Bia (entrevistada três vezes) e Rita (entrevistada duas vezes) são tomadas como referências que sintetizam o coletivo observado nas suas diferentes dimensões. Embora essas entrevistas retratem momentos onde marcamos um encontro com essa finalidade, houve muitos outros onde pequenos relatos foram gravados8. Portanto, no intuito de responder à pergunta quem cuida do quê e como? fez-se a escolha em utilizar apenas algumas entrevistas para que assim fosse realmente possível contemplar a pergunta: quem cuida? Logo, para a constituição deste trabalho, prezou-se pela possibilidade de construir a história de algumas au pair que retratavam os aspectos encontrados e a serem tratados. Por isso, a maioria das entrevistas realizadas foram utilizadas para definir sujeitos. A escolha por essa metodologia tem coerência com a ética do care, que valoriza a experiência vivida pelos envolvidos e corresponde à ideia de trajetória expressa no título desta tese que, além de elucidar o uso de pequenas trajetórias correspondentes à experiência do care doméstico, também anuncia a ideia de que o care é algo que se percorre para apreendê-lo. Portanto, as participantes desta pesquisa não são apenas material para a mesma, mas personagens de uma trajetória de migração e trabalho, o trabalho do care. Sua trajetórias, mesmo que apresentadas de maneira fragmentada, serão passíveis de reconstituição com a leitura deste trabalho. O leitor conhecerá quem é Bia, Sibelle, Tati, Karina e Rita.
Para ter uma visão de outras experiências de care, também entrevistei brasileiras que nunca foram au pair , mas apenas babá na França. Deste perfil, foram entrevistadas seis
8 Inclusive fui procurada algumas vezes para ouvir relato sobre história de outras au pair. Dentre esses momentos, o mais marcante, foi quando Sibelle exigiu um encontro para me contar dos abusos que uma amiga sua estava vivendo. Esta tinha vindo do Brasil para ser au pair na casa de uma prima, mas nunca tinha frequentado o curso de frânces. Sibelle queria denunciar as condições nas quais essa brasileira se encontrava, pois com o fim do tempo permitido para ser au pair, ela não pode renovar o visto. Portanto, depois de um ano não conseguia se comunicar em francês e estava ilegal. Sibelle me dizia : “ tu tem que colocar isso no seu doutorado ! ”
mulheres e recorri, em especial, à fala de Ruth, Margarida e Marcela para complementar as análises das histórias daquelas que foram au pair e babá.
Também foi utilizada a entrevista realizada com Sylvie, patroa de Sibelle, para que fosse possível trabalhar com o olhar de uma patroa a respeito da relação do care entre ela e a babá.
Os dados coletados por meio da observação contínua e das entrevistas concedidas são analisados à luz da perspectiva do care e encontram na pergunta “Quem se ocupa do quê e como?” sua estruturação. A perspectiva do care é ferramenta de análise interdisciplinar, coloca o trabalho do cuidado e do cuidar no debate sociológico com o objetivo de analisar a organização da sociedade. Redesenha-se, assim, um mapa do mundo social, no qual teriam lugar as atividades do care e a sensibilidade que lhe é associada. Esta aparece na atividade exercida, por meio das prioridades definidas pelos próprios sujeitos envolvidos na execução do trabalho. Assim, a ética presente na perspectiva do care valoriza a experiência vivida pelos envolvidos, integrando-a à dimensão epistêmica e permitindo uma elaboração das emoções e dos sentimentos. Portanto, dentro dessa ética, as emoções não são vistas como um obstáculo à razão ou como fonte de distorções da moral, mas destaca-se a sensibilidade associada ao trabalho do care, as emoções que o envolvem, considerando também seus aspectos políticos (PAPERMAN, 2005, 2009).
A perspectiva do care reivindica a importância do cuidado e do cuidar para a vida humana, das relações que a organizam e da posição social e moral dos trabalhadores9 do care. Para reconhecer essa importância é necessário aceitar que a interdependência10 e a vulnerabilidade fazem parte da condição humana. Nesse sentido, esta perspectiva elabora uma análise das relações sociais organizadas em torno desses dois conceitos citados, considerando as questões de raça, classe e gênero que evidenciam a natureza política do care e dos seus trabalhadores, permitindo, assim, que o cuidado e o cuidar, se façam ético e político (TRONTO, 2009).
A ética do care busca uma tomada de consciência do que importa e do que conta. Os valores morais por ela destacados são: o cuidado, a atenção ao outro e a solicitude. Ela afirma a importância dos cuidados e da atenção dada aos outros, em particular àqueles cuja vida e bem-estar dependem de uma atenção particular, contínua e cotidiana (LAUGIER, 2009), como é o caso das crianças pequenas que precisam de alguém para cuidar delas. Nesse
9Na verdade a perspectiva do care fala de maneira mais ampla usando o termo “givers”. 10 Algumas autoras utilizam a palavra dependência ao invés de interdependência.
sentido, caracteriza-se o trabalho realizado por uma babá como o do care e leva-se em conta que “a descrição do trabalho do care requer trabalhar com um conceito ampliado de trabalho, que inclui a dimensão moral das atividades, pelo menos da forma como os principais interessados se avaliam11“ (PAPERMAN, 2009, p. 101, tradução própria).
Ao responder a pergunta “Quem cuida12 do quê e como?”, torna-se possível descrever, analisar e criticar a organização social e política das atividades do care (PAPERMAN, 2009, p. 103, tradução própria). Desta forma, a apresentação das trajetórias aqui relatadas procura sempre responder alguma das perguntas quem?, do quê ?, como? e a diversidade dos tipos de relatos permite notar aspectos que se assemelham em histórias distintas. Dessa forma, embora a base desta pesquisa sejam as au pair brasileiras na França e sua passagem para nounou, o horizonte é o trabalho do care e sua amplitude. Nesse sentido, o uso de outras histórias para além das experiências de au pair brasileiras, fomentou a reflexão sobre a dificuldade de se identificar com e como trabalhadora doméstica.
O interesse das au pair em não serem identificadas como babás apontava para uma necessidade de distinção de um grupo de trabalhadoras, que parecia desaparecer ao se tornarem babás. No entanto, chamava-me a atenção o fato destas brasileiras, mesmo quando se expressavam em português, utilizavam a palavra nounou ao invés de babá para contarem o que faziam. Além disso, elas não usavam a palavra patroa ou a palavra patrão para se referirem às pessoas que pagavam seu salário. Assim, baseada nesses indicadores de resistência em utilizar palavras que caracterizariam determinado lugar social, formulei a hipótese de que havia uma dificuldade de se identificar com e como uma trabalhadora doméstica. Para verificá-la, foi necessário investigar as mudanças ocorridas quando se é au pair e torna-se babá. Este interesse unido ao de destacar o trabalho doméstico do care, apresentando algumas de suas representantes e evidenciando alguns dos esforços necessários na realização desse trabalho, orientaram a construção desta pesquisa, que se apresenta organizada em três partes.
A primeira - Os cuidados metodológicos - introduz e desenvolve a metodologia proposta nesta pesquisa. Dividida em dois capítulos, o primeiro foi nomeado Símbolo e Saberes, pois nele encontra-se a apropriação do Mito do Cuidado - para uma alegoria do conceito e dos fundamentos do care - e a trajetória que conceitualizou o cuidado. Procurou-se
11 “La description du travail de care requiert de travailler avec un concept élargi de travail, qui inclut la dimension morale des activités, au moins la façon dont les principales intéressées s'y rapportent.”
12 Em português esta pergunta é formulada com o verbo ocupar no lugar do verdo cuidar. No entanto, escolhi evidenciar a ação do cuidar na frase ao invés de construí-la como esperado linguísticamente.
ilustrar a ideia do quanto o care é fundamental para formação do ser-humano e o quanto a perspectiva que dele se apropria nos permite elaborar este postulado. Desta forma, é anunciada a perspectiva teórica que guiou a formulação das partes vindouras e das análises nelas desenvolvidas. O segundo capítulo, Autossocioanálise, explicita o exercício da metodologia proposta para o desenvolvimento da pesquisa. Nele está expressa minha experiência com o trabalho e percepções a respeito do trabalho doméstico. Mas, também, retrata minha origem familiar e o legado que me constitui. O resultado deste exercício de autossocioanálise elucidou a importância da bricolagem no desenvolvimento desta pesquisa e as questões ligadas ao trabalho doméstico, que surgiram graças a esse exercício, também foram desenvolvidas neste capítulo.
Após a elucidação dos cuidados metodológicos tomados para o desenvolvimento desta pesquisa, construiu-se a segunda parte que a compõe. Nomeada como O cuidado em questão, apresenta no seu primeiro capítulo, De au pair à nounou: quais mudanças?, o caminho para compreender a questão que instigou a elaboração da pesquisa: o que se modifica para as brasileiras participantes do programa au pair quando elas deixam esse estatuto e tornam-se nounou? O segundo capítulo, Sistema de dificuldades, é formado pelas reflexões desenvolvidas a partir das constatações feitas graças ao capítulo que o antecedeu. Assim, nele aborda-se a dificuldade em se identificar com e como uma trabalhadora doméstica e são discutidas suas consequências. Para uma melhor compreensão das diferenças que as entrevistadas percebiam em relação ao trabalho doméstico na França e no Brasil, foi desenvolvido um panorama geral sobre as questões trabalhistas nesses dois países, assim como foram descritas as condições de acolhida para as crianças da França e ilustrou-se o retrato do trabalho doméstico no Brasil por meio do filme “Que horas ela volta?” .
A última parte – O cuidado como atividade – é orientada pela pergunta “Quem cuida do quê e como?”, nela encontrar-se-ão retratos das experiência vividas na atividade do care por aquelas que foram au pair e nounou na França e desta pesquisa fizeram parte. As experiências serão apresentadas envoltas em aspectos teóricos que a decodificam. Assim, o objetivo desta última parte é evidenciar os esforços físicos e psicológicos mobilizados na realização do trabalho do care, pensando no trabalho realizado tanto com as crianças, quanto para os pais. Este intuito foi dividido em dois capítulos, O trabalho do care e A economia do care. O primeiro, dentro dos aspectos já citados, está focalizado em demonstrar o processo do care e suas dimensões morais. O segundo, em trazer a reflexão sobre o valor moral e financeiro deste trabalho.
PRIMEIRA PARTE:
Capítulo I – Símbolos e Saberes
1.1 O cuidado em alegoria- Mito do Cuidado
“O mito é o nada que é tudo. O mesmo sol que abre os céus.”
(Fernando Pessoa, Ulisses)
Ao atravessar um determinado rio, o Cuidado avista um pouco de argila, ele pára, pensativo e começa a moldar algo com a forma de um humano. Enquanto contempla o que tinha feito, Júpiter surgiu. Então, Cuidado pediu para que ele desse vida àquela criatura, Júpiter atendeu-o prontamente. Quando Cuidado quis nomear a criatura com o seu próprio nome, Júpiter proibiu-o e disse que o nome a ser dado deveria ser o dele. Enquanto eles discutiam, Terra se levantou e sugeriu seu próprio nome, afinal havia dado o corpo à criatura. Diante desse impasse, eles decidiram convocar Saturno como juiz que assim intercedeu: Você, Júpiter, você deu o espírito […] receba o corpo.13 Porque foi o Cuidado, quem primeiro lhe deu forma, por
isso irá possuí-lo, enquanto ele viver. Mas, por que entre vocês há controvérsia sobre o nome a lhe ser dado, que ele seja chamado Ser-Humano, pois ele é feito de húmus14 (BORIQUD, 1997, p. 146 e 147,
tradução própria)
O mito Cura15, escrito por Gaius Iulius Hyginus no período da Roma Antiga16, é o de número 220 dentre os 270 contidos em seu livro Fábulas. Este mito é também conhecido como Mito do Cuidado, em coerência com a origem da palavra cura. Enquanto mito, ele permite contar, revelar e explicar (BRUNEL, 1988, p. 8) uma invenção verbal da realidade, permitindo o acesso a uma forma de pensar (CAZIER, 1994, p. 16). No caso presente, a forma
13 Ao buscar uma versão em português do mito, foram encontradas traduções que completavam a fala de Saturno. Com pequenas variações, o acréscimo encontrado no texto foi: “Júpiter, você deu o sopro de vida a essa criatura e terá sua alma quando ela morrer. Terra, você ofereceu-lhe seu corpo e a você ele retornará com a sua morte. Cuidado, você foi quem primeiro lhe deu forma, por isso irá possuí-lo, enquanto ele viver.” (QUEIRÓS, 2015, p. 143) Em inglês, no site Theoi Project (Disponível em : http://www.theoi.com/Text/HyginusFabulae5.html#220, Acesso em: 05.08.2017 ) também foi encontrada uma versão do Mito com o complemento da fala de Saturno. No presente trabalho, conservou-se a versão de Boriqud (1997), pois esta correspondia a encontrada em Van Staveren (1742).
14 Ao considerar as palavras “homo” e “humo” encontradas na versão em latin também seria possível a tradução “que ele seja chamado Terrestre, pois é feito de terra”. No entanto, foi privilegiado uma forma mais comum de se referir a ideia de humanidade para evitar estranhamentos durante a leitura.
15 “CURA. MIT. Deusa da Inquietação, que fez um homem dum monte de argila, pedindo Júpiter, que lhe desse vida. Houve disputa sobre quem devia o nome. A Terra pretendeu que tal direito lhe pertencia por ter saído do seu seio a matéria de que o homem a fizera. Júpiter alegava que lhe havia dado forma. Saturno, nomeado árbitro na contenda, decidiu a favor da Terra, de quem saíra a matéria para a formação do homem, mas ordenando que a inquietação o possuísse durante toda a vida.” (CORREIA et al, 1957 p. 287).
de pensar o cuidado e sua relação com o ser-humano. Assim, por meio deste mito, procurar-se-á revelar aspectos dos estudos acadêmicos que objetivaram o cuidado e o cuidar e que receberam o seu próprio nome: Care.
Iniciados nos Estados Unidos em 1980 por Carol Gilligan (2008), os estudos do care foram difundidos mantendo sua grafia original, devido à possibilidade de expressar ao mesmo tempo a ideia de verbo (ação) e a ideia de substantivo (nome) no seu termo em inglês, e este rigor será mantido no presente texto. Além desse aspecto, a não tradução do termo care deixa sugerida a filiação ao pensamento feminista e evidencia aquilo que se construiu como perspectiva17 do care entre ética, com Carol Gilligan, e moral, com Joan Tronto (2009).
O Care abarca o cuidado como uma regência da vida que precisa ser colocada em evidência. A essência estruturante do cuidado e do cuidar é destacada pelo Care tanto no âmbito individual, quanto pelo lugar que ele ocupa no mundo social (PAPERMAN, 2005; TRONTO, 2009). Ao encontro do Care, a alegoria apresentada pelo Mito do Cuidado nos revela que a existência do ser-humano, tanto em sua origem, quanto em sua trajetória, estaria submetida ao cuidado e que a interdependência e a vulnerabilidade são intrínsecas nas relações. O texto indica, também, a importância de um órgão regulador para a resolução de interesses distintos que venham a surgir de questões coletivas. Nesse sentido, por meio desse mito é possível explicitar aspectos do Care e explicar sua relação com o trabalho.
Os personagens presentes neste enredo e suas respectivas formas no Latim são: Cuidado (cogitātus)18, Júpiter (Iouis, Iúpiter), Terra (Tellus), Saturno (Saturnus) e Ser-Humano (Homo).
O personagem Cuidado não possui uma história própria na mitologia Romana ou Grega. Ele é retratado pelo significado do seu nome - cura -, diligência, direção, administração, tratamento, inquietação (FERREIRA, 1995, p. 326). Nessa sua forma original, ele é substantivo feminino e masculino (CUNHA, 2010, p. 234).
Júpiter é o deus romano correspondente a Zeus para os gregos. Para os primeiros, ele é o grande deus do panteão, evocado como a divindade do céu, da luz divina, das condições
17 Paperman (2009) discorre sobre a preferência pelo termo “perspectiva” em deterimento ao termo “teoria”, pois o primeiro indica uma postura que, a priori, não é explicativa, mas, sim, descritiva. Nesse caso, entende-se teoria como “algo rígido, dogmático (sistema de pensamento, regras de trabalho fixos, intransigentes ao invés de esquemas ou de perspectivas abertas)” (PENNEF, 2011, tradução própria).
18 Em Houaiss (2009) encontra-se a etimologia da palavra “cura” como cura,ae que, por sua vez, é expressada como "cuidado, administração etc.” (HOUAISS, 2009, p. 586). Em Nascentes (1966, p. 225), na palavra cura encontra-se os seguintes dizeres “cuidado, assistência a um doente. O homem que cura (cuida) as almas: o padre.”. Portanto, esses dois dicionários auxiliaram na compreensão da associação do termo cura ao cuidado e, assim, entende-se porque o Mito Cura também é divulgado como mito do cuidado.
climáticas e também dos raios e dos trovões (GRIMAL, 2004, p. 261; HACQUARD, 1990 p. 197).
Terra é a personificação da Terra nutrícia, a deusa Terra correspondente à Gaia, ou Geia, para os gregos (GRIMAL, 2004, p. 435; HACQUARD, 1990 p. 294). Considerada como o princípio feminino da fecundidade, mãe por excelência, é muitas vezes associada a Júpiter (HACQUARD, 1990, p. 295), como é observado no dicionário de etimologia “Personificada e divinizada e unida a Júpiter” (ERNOUT; MEILLET, 2001, p. 679)19.
Saturno é identificado com Cronos, deus grego. Ele foi destronado do Olimpo por Júpiter e instalou-se onde hoje se situa Roma, por isso é considerado por alguns o fundador desta cidade. Enquanto governou, seu reinado conheceu a idade de Ouro e sua população, os aborígenes20, tiveram suas primeiras leis (GRIMAL, 2004, p. 414). “Sendo que ele criou uma
família - e uma conduta - novas, ele se tornou o pai de Picus, ancestral de Latinus”21 (HACQUARD, 1990, p. 280, tradução própria).
E, finalmente, temos o personagem Ser-Humano (homo), que tem como uma das suas derivações a palavra humus – também com o sentido de terrestre, nascido da terra, em oposição aos deuses que são celestes (ERNOUT; MEILLET, 2001, p. 297).
Entre os personagens, o Cuidado é aquele que não se enquadra na oposição entre divino e humano, ele é de uma terceira categoria que pode ser vista como intermediadora entre o que é celeste e o que é terrestre. Sendo assim, no processo de criação do Ser-Humano, ele é o único personagem que não é divindade. Porém, é ele quem impulsiona o percurso desta feitura e faz a interação entre as divindades nela envolvidas. Dessa maneira, tendo como simbologia o mito, pode-se dizer que o cuidado é fundador, intervindo em cada etapa das nossas22 vidas.
O mito começa com a seguinte descrição: “O Cuidado avista um pouco de argila, ele pára, pensativo e começa a moldar algo com a forma de um humano.”, deixando claro que o Cuidado antecede às divindades Júpiter e Terra. Dessa forma, é o Cuidado que agirá para moldar uma existência futuramente humana e pode-se considerar Júpiter e Terra como correspondentes respectivamente ao masculino e ao feminino, assim como ao espírito e à matéria. Nos dois casos, o Cuidado se faz necessário para que haja essa união e dela se origine
19 “Personnifiée et divinisée et unie à Jupiter".
20 Os Aborígenes são, nas lendas romanas, os mais antigos habitantes da Itália central. “(…) Vivem sem leis, sem cidades, errantes e alimentam-se de frutos selvagens. ” (GRIMAL, 2004, p. 1).
21 “S'étant créé une famille et _ une conduite _ nouvelles, il était devenu père de Picus, ancêstre de Latinus." 22 O termo “nossas” é, aqui, utilizado para não permitir que nem eu, nem o leitor sejamos afastados dessa
o Ser-Humano, configurando sua essencialidade para a formação do novo ser. Esta essencialidade será reforçada no final do mito, quando ocorrerá a designação do Ser-Humano ao Cuidado. Em outras palavras, no início do mito, vemos a ideia de que a matéria/o feminino e o espírito/o masculino precisam de um gesto que aponte para o Ser-Humano, e é o Cuidado, ser não divino e não terrestre, quem realiza esse gesto, moldando e intercedendo pela vida da nova criatura. Assim, é o Cuidado que transforma a matéria e a encaminha para o que pode vir a ser (humano), como para o que se pode ter (a vida)23. Por consequência, é possível afirmar que é a partir do cuidado que se faz o ser-humano e ao cuidado o ser-humano está designado.
Evidencia-se, assim, que o cuidado está relacionado à origem e à trajetória dos seres humanos, destacando sua importância fundamental em nossas vidas, e, consequentemente, que a vulnerabilidade nos é constitutiva. Essas premissas construídas a partir deste mito também são encontradas na definição do care proposta por Joan Tronto e Bérénice Fischer em 1990:
[...] uma atividade da própria espécie que inclui tudo o que podemos fazer para manter, continuar e reparar nosso “mundo” para que possamos viver nele da melhor maneira possível. Esse mundo inclui nossos corpos, nós mesmos e nosso meio ambiente, e tudo em que procuramos intervir de forma complexa e auto-sustentável. (TRONTO, 2009, p.143)
Portanto, por meio do mito, têm-se premissas que apontam para a centralidade do cuidado e do cuidar na vida dos seres humanos e para como este é essencial na construção da sua humanidade. Na definição proposta por Tronto e Fischer, fica também o registro de como o care é uma atividade da própria espécie e a base para a construção da humanidade.
Para Tronto (2009), o care não se limita às interações entre os humanos; nele também está nossa interação com o ambiente, tornando-se uma prática que comporta quatro fases: importar-se com (caring out/se soucier de), encarregar-se de (taking care of/prendre en charge), cuidar de (care giving/prendre soin) e a última fase que é receber o cuidado (care receiving/recevoir le soin). Cada uma dessas fases comporta uma categoria moral sendo elas: a atenção, a responsabilidade, a competência e a capacidade de resposta. Estes aspectos morais e suas correspondentes etapas encontram ilustração no mito, pois antes do personagem Cuidado agir, a terra estava apenas em algum lugar perto do rio. Foram suas atitudes que
23 Nesse sentido, o Cuidado pode ser comparado ao Espírito Santo da História do Cristianismo, pois é por meio dele que a união entre o espírito (Deus) e a matéria (Maria) resultou no humano ( Jesus Cristo ).
geraram novas oportunidades e a continuidade no processo que culmina no cuidar. Nesse sentido, os gestos do Cuidado podem ser esmiuçados e expressados por sinônimos da palavra cuidado24 e configuram aquilo que ele faz, o cuidar. Desta maneira, ilustram-se as dimensões do care e seus aspectos morais.
No momento em que Cuidado encontra a argila, pode-se dizer que ele pensou, meditou e imaginou algo, assim como ele teve desvelo, atenção, solicitude, vigilância, diligência em relação à argila. Durante todo esse processo, é possível deduzir que os gestos do Cuidado foram permeados de cautela e de precaução. Logo, as ações do personagem Cuidado são sinônimos do substantivo que o nomeia. Desta perspectiva, entende-se também que, para ele, seus sentimentos e suas ações são concomitantes, aspecto mais perceptível se temos como base a versão original do mito, na qual a palavra utilizada para descrever a ação do Cuidado em relação à argila é fingere. Esse verbo recebe como tradução, tanto o significado de modelar - caracterizando uma ação -, quanto o de imaginar, inventar (FERREIRA, 1995, p. 487), reforçando assim a ideia de que, ao cuidar de algo, o agir e o pensar estão juntos.
Em confluência com o as dimensões do care (TRONTO, 2009), quando Cuidado encontrou a argila pode-se dizer que, primeiramente, ele se importou com ela. Ao dar-lhe atenção, ele viu uma possibilidade e esta pode ser representada como o ato de identificar a necessidade do care. Configura-se, dessa maneira, a primeira etapa do processo do care, na qual o Cuidado acolhe a argila. Na sequência, ele decide encarregar-se da argila e, assim, fazer algo em relação ao que identificou. Portanto, o Cuidado se engaja mesmo não sendo sua obrigação. Logo, ele mobiliza sua responsabilidade diante da situação. No entanto, é preciso fazer algo com o que foi identificado e com a responsabilidade assumida, concretizando, dessa forma, o trabalho efetivo. É, nesse momento, que o personagem principal do mito irá cuidar de. Sua competência é a de moldar e, ao receber esse cuidado, a argila responde tomando a forma de um ser-humano. Assim, finaliza-se um processo do care, que cumpriu as quatros fases descritas por Tronto (2009) e inicia-se a possibilidade de um novo processo. Este, começa pela identificação da possibilidade de dar vida à criatura, passando pelo engajamento em interceder pela concretização dessa necessidade e pelo trabalho efetivo - concretizado em um pedido -; e se finaliza com a resposta da criatura, que se transforma em ser-humano. Portanto, o personagem Cuidado, do mito aqui utilizado para a ilustração da perspectiva do care, condensa em suas ações aquilo que representa: o cuidar. Assim, suas
24 FERNANDES, Francisco. Dicionário de Sinônimos e Antônimos da Língua Portuguêsa. 6° Edição . Editora Globo. Porto Alegre 1953. p. 223.
ações demonstram que todo cuidado aponta para uma possibilidade e a realização dessas possibilidades culmina nas quatros dimensões do care definidas por Tronto (2009).
A descrição do momento em que Cuidado pega a argila até a interpelação que ele realiza pela vida que moldou, envolve sensações, emoções e ações que ilustram seus esforços físicos e psíquicos. O resultado desse conjunto de esforços é o trabalho que o Cuidado executou, o de fazer a modelagem de um ser e apontar para uma vida. Nesse contexto, assim como para os estudos do care, o trabalho é entendido em um sentido amplo, não apenas ligado ao vínculo empregatício. Por meio do mito também é possível destacar que o trabalho do Cuidado, aqui associado ao trabalho do care, é fundamental, ainda que precise de outros fatores para alcançar sua maior potência - a humanização. Dessa forma, pode-se afirmar que é a partir do trabalho do cuidado (care) que se produz e, por consequência, indica-se que esse trabalho é a base para outros. Ao encontro dessa ideia, a perspectiva do care tem como estratégia metodológica colocar no centro da organização social o trabalho do care (PAPERMAN, 2005; TRONTO, 2009), analisando-o como crucial e destacando a sensibilidade que o envolve. Dessa maneira, a perspectiva do care, além de reiterar e incitar à importância desse tipo de trabalho, não descredibiliza as emoções que o envolvem, considerando-as em suas análises. Essa postura reafirma a impossibilidade de um indivíduo eximir-se completamente de suas emoções, não as tomando como um problema, mas como uma condição.
Com base na alegoria que o mito permite a respeito do trabalho do care, pode-se dizer que este possibilita ao seu receptor uma (outra) trajetória. Durante a sua execução, há uma sequência de contatos que transformam os envolvidos. O trabalho do personagem Cuidado tem alvo e objetivo específicos, a argila, é nela e para ela que suas atenções estão voltadas. Este representa o trabalho direto executado por Cuidado. No entanto, todos os outros personagens que com eles interagem passam por algum tipo de mudança, inclusive o próprio Cuidado não é o mesmo após a execução do seu trabalho. Assim, dentro da transposição do trabalho do personagem Cuidado para o trabalho do care, é possível refletir sobre quais atividades podem receber esta nomeação, notar suas formas, a direta e a indireta, assim como observar suas etapas.
O trabalho daqueles que se ocupam das crianças e dos idosos tem unanimidade acadêmica de que se trata de um trabalho do care e ambos encontram sua perfeita alegoria no Mito de Higino. Nessas duas atividades, o cuidado e o cuidar precisam estar em ação para que seus receptores continuem a ser Homus (é a partir do cuidado que se faz o ser-humano) , ao mesmo tempo em que precisam do cuidado (ao cuidado o ser-humano está designado).