Capítulo I – Símbolos e Saberes 27
1.1 O cuidado em alegoria-‐ Mito do Cuidado 27
1.1.1 Interdependência 37
“(...) Cuidado avistou um pouco de argila, pegou-a cuidadosamente e começou a moldar um humano. Enquanto comtemplava o que tinha feito, Júpiter surgiu. Então, Cuidado pediu para que ele desse vida àquela criatura, Júpiter atendeu-o prontamente.” (Higino -
Mito do Cuidado)
O Mito do Cuidado ilustra que é a partir da interdependência entre Cuidado, Terra e Júpiter que se concretiza o humano, pois eles precisam se ligar para que o Ser-Humano possa existir. Nesse sentido, o ser-humano é feito por meio da interdependência e, portanto, ele existe graças à relação com o outro. Também, graças à interdependência administramos a vulnerabilidade. Ao mesmo tempo, é a interdependência que nos faz sentir nossas vulnerabilidades. Este é o paradoxo da interdependência: ela é estabelecida como resposta à vulnerabilidade e, ela mesma, nos faz ter consciência da vulnerabilidade na qual nos encontramos. Ou seja, a interdependência se organiza em cadeias e engrenagens de relações. Se uma peça não realiza o que dela se espera, outra peça será afetada e sentirá sua vulnerabilidade, e assim por diante. Desse modo, de diferentes maneiras e intensidades, todas as peças de uma cadeia podem ter consciência da vulnerabilidade na qual estão se há uma peça, dentre elas, que não realiza bem o seu papel. No entanto, é necessário lembrar que a interdependência não pressupõe uma não hierarquização entre os atores envolvidos. Embora ligados entre si e seja fato que esta ligação dará determinados resultados, isso não significa que na cadeia da interdependência não haja hierarquia entre os envolvidos e consequentes relações de poder.
Uma boa metáfora desse modo de funcionamento é a orquestra, que embora tenha um resultado harmonioso e todos os músicos estejam interdependentes para que o concerto
aconteça, ainda assim, há uma hierarquia entre eles. Logo, cada músico toca um instrumento e, se um deles comete um erro, todos os outros são afetados, assim como aqueles que ouvem a orquestra. A nota falsa pode ser sentida pela grande maioria e, mesmo que não seja interpretada como tal, é possível notar o descompasso. Este simples exemplo vai ao encontro de uma das contribuições da filosofia do care, que propõe que vejamos nossos atos como passíveis de influenciar uma organização maior.
No caso de uma orquestra, o bom desenvolvimento de sua apresentação está diretamente ligado ao papel de cada músico. Os músicos são interdependentes uns dos outros e, se possuírem como objetivo uma bela interpretação, devem respeitar essa interdependência que os coloca em uma situação de vulnerabilidade uns em relação aos outros. É importante termos em mente que os músicos, que não fazem parte de uma orquestra, estão expostos a outras formas de vulnerabilidade e que a interdependência não se faz presente apenas no momento da apresentação. Há uma cadeia, formada por pessoas, que deve funcionar bem para que tudo esteja preparado no momento de qualquer apresentação. Essa cadeia vai da confecção dos instrumentos até a preparação da sala onde ocorrerá a apresentação.
Também não podemos esquecer a engrenagem que influencia mais diretamente a preparação dos músicos: a do trabalho realizado na esfera doméstica - trabalho (ordinário) do cuidado - responsável por fazer tudo funcionar na casa para que isso não seja uma preocupação para os músicos, para que tenham o tempo necessário para realizar seus estudos. Portanto, para que um concerto aconteça, várias cadeias de cuidado são mobilizadas. É a partir de um coletivo e da interdependência que uma bela apresentação pode nascer.
Esse conjunto de reflexões, porém, não anula a necessidade da autonomia que faz, inclusive, parte da particularidade de cada músico, de sua subjetividade. Tais aspectos também são contemplados pelo Care, pois, evidentemente, são necessários ao respeito a cada indivíduo. O Care não propõe a igualdade de características entre os indivíduos, mas luta por direitos iguais e, da perspectiva do care, isto só é possível se respeitarmos “as vozes diferentes”.
Sabe-se que há um discurso social que preza pela autonomia. Este dificulta o reconhecimento da rede de interdependências, ou seja, da “cadeia de pessoas”, cujo funcionamento nos permite ser quem somos. Somos mais valorizados quanto mais autônomos parecemos. Não é por acaso, como exemplifica Liliana Segnini que, para um músico que busca uma formação clássica, é pouco prestigioso trabalhar em uma orquestra, por isso o objetivo maior dos músicos é serem solistas. Dentro dessa lógica social, não é surpreendente que pensar de maneira coletiva nos pareça mais difícil e, assim, desenvolvem-
se pequenas estratégias para se sentir menos vulnerável. No entanto, é esse mesmo processo que nos leva a outras interdependências.
1.1.1.1 Intermediários: um mecanismo para diminuir o sentimento de vulnerabilidade
Pode-se dizer que o desenvolvimento do setor terciário, com suas múltiplas ofertas de serviço à pessoa, vai ao encontro do desejo de diminuir o sentimento de vulnerabilidade diante de uma determinada situação. Esses serviços substituem a tradicional relação patrão e empregado, prometendo lidar com imprevistos (falhas das peças da engrenagem) na cadeia da interdependência e, por consequência, diminuiriam a sensação de vulnerabilidade.
Em entrevistas com pais franceses que necessitavam deixar seus filhos aos cuidados de outras pessoas, foi constatada a contratação de agência de babás, o “pedir indicações” como uma forma de sentir menos a vulnerabilidade, assim como o fato dos prόprios pais abrirem creches. Mas, esses mecanismos também podem falhar. As agências, por exemplo, que propõem a substituição de um empregado caso esse falte, pode não ter um empregado reserva na hora necessária. Portanto, podemos dizer que essas estratégias constroem novas formas de interdependência e, consequentemente, de vulnerabilidade. Independentemente dessa constatação, as pessoas se sentem mais seguras, ao menos no começo, se há intermediários entre elas e seus empregados. A ideia de interdependência parece ser menos incômoda se ela não está diretamente associada à figura do empregado.
Os intermediários – uma instituição, uma empresa ou uma pessoa que indica outra – permitem um distanciamento dos patrões em relação aos empregados. Eles funcionam como uma resolução à dificuldade concreta de encontrar um trabalhador qualificado e substituí-lo caso necessário, mas, também, respondem à dificuldade de se confiar no outro.
Esses intermediários constituem, porém, de maneira objetiva, um elemento a mais na engrenagem da interdependência. Então, por que introduzi-los nessa interrelação? Há um tipo de interdependência que é mais fácil de lidar do que outra? Seríamos incapazes de distinguir interdependência e dependência?
Qualquer que seja a resposta, o medo da vulnerabilidade parece estar sempre presente. Por isso, se faz necessária a reflexão sobre a dificuldade de se reconhecer como um beneficiário do care, ou seja, como alguém vulnerável.
Pensar na vulnerabilidade encontra resistência, pois nos coloca como fracos ou doentes, para além de nos obrigar a tomar consciência de nossa finitude. Por isso, é
importante entender as propostas do Care, pois ela nos propõe um novo olhar sobre nόs mesmos.