Peça 04 – Simulado 01
(OABUN 1.2010) Leila, de quatorze anos de idade, inconformada com o fato de ter
engravidado de seu namorado, Joel, de vinte e oito anos de idade, resolveu procurar sua amiga Fátima, de vinte anos de idade, para que esta lhe provocasse um aborto. Utilizando seus conhecimentos de estudante de enfermagem, Fátima fez que Leila ingerisse um remédio para úlcera. Após alguns dias, na véspera da comemoração da entrada do ano de 2005, Leila abortou e disse ao namorado que havia menstruado, alegando que não estivera, de fato, grávida. Desconfiado, Joel arrombou uma janela da casa da namorada e invadiu tal residência em busca de provas. Lá encontrou um envelope com resultado positivo do exame de gravidez de Leila, um frasco com o medicamento para úlcera embrulhado em papel em que Fátima prescrevia o medicamento. Munido destas provas, Joel procurou a autoridade policial. Logo que recebeu a notícia crime e munido das provas colhidas por Joel, a autoridade policial representou pela interceptação telefônica de Leila e Fátima. Durante as gravações, Leila foi flagrada em conversa com um terceiro desconhecido em que admitia que tinha feito aborto com medicamentos para úlcera que havia conseguido. O delegado de polícia encaminhou Leila ao Instituto Médico Legal, onde foi realizado exame pericial. A perícia constatou a existência de resquícios do saco gestacional que comprovavam a ocorrência de uma gravidez que foi interrompida. No entanto, o laudo não foi capaz de afirmar se o aborto ocorrido era espontâneo ou provocado. Leila e Fátima foram indiciadas, respectivamente, pela prática dos delitos de auto-aborto e aborto com o consentimento da gestante. Quando ouvida perante a autoridade policial, Fátima ficou em silêncio. Leila por sua vez, não foi interrogada durante o inquérito policial, pois não foi mais localizada pela autoridade policial.
Após relatado, o inquérito foi enviado ao Ministério Público que, por sua vez, no dia 30/01/2010, ofereceu denúncia em face de Leila e Fátima. Leila foi denunciada pela prática do crime previsto no artigo 124. Fátima foi denunciada pela prática do delito previsto no artigo 126 do CP. O Ministério Público arrolou como testemunhas Joel, namorado de Leila à época dos fatos, e o Delegado que presidiu o inquérito policial. A denúncia foi recebida no dia 05/03/2010. Após apresentação da resposta à acusação, o magistrado confirmou o recebimento da inicial acusatória e designou data para a audiência de instrução e julgamento. A defesa arrolou apenas testemunhas abonatórias.
Na data designada, não obstante ter sido intimado, o Delegado de Polícia não compareceu à audiência. Assim, como estavam presentes a outra testemunha de acusação, Joel, e todas as testemunhas de defesa, com fundamento no princípio da
economia processual, o magistrado resolveu ouvir as testemunhas bem como proceder com o interrogatório da acusada Fátima, designando nova data para a oitiva da testemunha de acusação faltante. Como a acusada Leila não foi citada, pois não sendo localizada, já que após o exame, mudou-se para Brasília, foi-lhe aplicado o artigo 366 do CPP, suspendendo-se a prescrição e o processo em relação a esta acusada. Inclusive Leila sequer foi ouvida durante o inquérito policial, em que pese os esforços da autoridade policial.
Em seu depoimento, Joel afirmou que adentrou na residência de Leila quando a casa estava vazia e que não tinha a chave da residência e nem tinha pedido autorização para adentrar no recinto. Disse também que ouviu a namorada uma vez se queixar de dores no estômago, não sabendo dizer as razões para estas dores.
As testemunhas de defesa apenas relataram que a acusada Fátima nunca havia se envolvido em nenhum problema com a justiça criminal, bem como era pessoa trabalhadora.
Em seu interrogatório, Fátima afirmou que indicou o medicamento em razão das dores no estômago que Leila dizia sentir. Que não sabia que ela estava grávida quando prescreveu os medicamentos.
Em data posterior, foi ouvido o delegado, que apenas confirmou o teor das provas contidas no inquérito. Nesta audiência estavam presentes todas as partes e a denunciada Fátima.
Terminada a audiência de inquirição da testemunha de acusação faltante, o magistrado acolheu a pretensão de ambas as partes e permitiu a apresentação de a manifestação por escrito, no prazo sucessivo de cinco dias.
A acusação sustentou a comprovação da autoria, tanto pelo depoimento de Joel na fase policial e ratificação em juízo, quanto pela confirmação da ré de que teria fornecido remédio abortivo. Sustentou, ainda, a materialidade do fato, por meio do exame de laboratório e da conclusão da perícia pela existência da gravidez. A defesa teve vista dos autos em 12/7/2010.
Em face dessa situação hipotética, na condição de advogado(a) constituído(a) por Fátima, redija a peça processual adequada à defesa de sua cliente, alegando toda a matéria de direito processual e material aplicável ao caso. Date o documento no último dia do prazo para protocolo.
QUESTÕES
Questão 16. (OAB 2.2011) João e Maria iniciaram uma paquera no Bar X na noite de
17 de janeiro de 2011. No dia 19 de janeiro do corrente ano, o casal teve uma séria discussão, e Maria, nitidamente enciumada, investiu contra o carro de João, que já não se encontrava em bom estado de conservação, com três exercícios de IPVA inadimplentes, a saber: 2008, 2009 e 2010. Além disso, Maria proferiu diversos insultos contra João no dia de sua festa de formatura, perante seu amigo Paulo, afirmando ser ele “covarde”, “corno” e “frouxo”. A requerimento de João, os fatos foram registrados perante a Delegacia Policial, onde a testemunha foi ouvida. João comparece ao seu escritório e contrata seus serviços profissionais, a fim de serem tomadas as medidas legais cabíveis. Você, como profissional diligente, após verificar não ter passado o prazo decadencial, interpõe Queixa-Crime ao juízo competente no dia 18/7/11.
O magistrado ao qual foi distribuída a peça processual profere decisão rejeitando-a, afirmando tratar-se de clara decadência, confundindo-se com relação à contagem do prazo legal. A decisão foi publicada dia 25 de julho de 2011.
Com base somente nas informações acima, responda: a) Qual é o recurso cabível contra essa decisão? (0,20) b) Qual é o prazo para a interposição do recurso? (0,25) c) A quem deve ser endereçado o recurso? (0,25) d) Qual é a tese defendida? (0,3)
Questão 17. (OAB 3.2010) Caio, professor do curso de segurança no trânsito, motorista extremamente qualificado, guiava seu automóvel tendo Madalena, sua namorada, no banco do carona. Durante o trajeto, o casal começa a discutir asperamente, o que faz com que Caio empreenda altíssima velocidade ao automóvel. Muito assustada, Madalena pede insistentemente para Caio reduzir a marcha do veículo, pois àquela velocidade não seria possível controlar o automóvel. Caio, entretanto, respondeu aos pedidos dizendo ser perito em direção e refutando qualquer possibilidade de perder o controle do carro. Todavia, o automóvel atinge um buraco e, em razão da velocidade empreendida, acaba se desgovernando, vindo a atropelar três pessoas que estavam na calçada, vitimando-as fatalmente. Realizada perícia de local, que constatou o excesso de velocidade, e ouvidos Caio e Madalena, que relataram à autoridade policial o diálogo travado entre o casal, Caio foi denunciado pelo Ministério Público pela prática do crime de homicídio na modalidade de dolo eventual, três vezes em concurso formal. Recebida a denúncia pelo magistrado da vara criminal vinculada
ao Tribunal do Júri da localidade e colhida a prova, o Ministério Público pugnou pela pronúncia de Caio, nos exatos termos da inicial.
Na qualidade de advogado de Caio, chamado aos debates orais, responda aos itens a seguir, empregando os argumentos jurídicos apropriados e a fundamentação legal pertinente ao caso.
a) Qual(is) argumento(s) poderia(m) ser deduzidos em favor de seu constituinte? (Valor: 0,4)
b) Qual pedido deveria ser realizado? (Valor: 0,3)
c) Caso Caio fosse pronunciado, qual recurso poderia ser interposto e a quem a peça de interposição deveria ser dirigida? (Valor: 0,3)
Questão 18. (OAB UN. 2/2010) José da Silva foi preso em flagrante pela polícia militar
quando transportava em seu carro grande quantidade de drogas. Levado pelos policiais à delegacia de polícia mais próxima, José telefonou para seu advogado, o qual requereu ao delegado que aguardasse sua chegada para lavrar o flagrante. Enquanto esperavam o advogado, o delegado de polícia conversou informalmente com José, o qual confessou que pertencia a um grupo que se dedicava ao tráfico de drogas e declinou o nome de outras cinco pessoas que participavam desse grupo. Essa conversa foi gravada pelo delegado de polícia. Após a chegada do advogado à delegacia, a autoridade policial permitiu que José da Silva se entrevistasse particularmente com seu advogado e, só então, procedeu à lavratura do auto de prisão em flagrante, ocasião em que José foi informado de seu direito de permanecer calado e foi formalmente interrogado pela autoridade policial. Durante o interrogatório formal, assistido pelo advogado, José da Silva optou por permanecer calado, afirmando que só se manifestaria em juízo. Com base na gravação contendo a confissão e delação de José, o Delegado de Polícia, em um único ato, determina que um de seus policiais atue como agente infiltrado e requer, ainda, outras medidas cautelares investigativas para obter provas em face dos demais membros do grupo criminoso: 1. quebra de sigilo de dados telefônicos, autorizada pelo juiz competente; 2. busca e apreensão, deferida pelo juiz competente, a qual logrou apreender grande quantidade de drogas e armas; 3. prisão preventiva dos cinco comparsas de José da Silva, que estavam de posse das drogas e armas. Todas as provas coligidas na investigação corroboraram as informações fornecidas por José em seu depoimento. Relatado o inquérito policial, o promotor de justiça denunciou todos os envolvidos por associação para o tráfico de drogas (art. 35, Lei 11.343/2006), tráfico ilícito de entorpecentes (art. 33, Lei 11.343/2006) e quadrilha armada (art. 288, parágrafo único). Considerando tal narrativa, excluindo eventual pedido de aplicação do instituto da delação premiada,
indique quais as teses defensivas, no plano do direito material e processual, que podem ser arguidas a partir do enunciado acima, pela defesa de José. Indique os dispositivos legais aplicáveis aos argumentos apresentados.
Questão 19. O avião da companhia TEM, ao aterrissar no Aeroporto Internacional de
Colombo, não conseguiu frear ao longo da pista e colidiu com várias residências situadas ao lado do aeroporto, causando a morte de todos os tripulantes e passageiros (total de 150 pessoas mortas). Foi apurado que o engenheiro responsável pela construção da pista, João Paulo Figueiro, liberou-a sem que fossem feitas as ranhuras necessárias para auxiliar a frenagem das aeronaves. O Ministério Público, então, denunciou (acusou) João por homicídio doloso (dolo eventual).
No seu interrogatório, João afirmou que liberou a pista sem as ranhuras, pois a inauguração da obra estava muito atrasada e as rasuras seriam feitas nas semanas seguintes. Disse, ainda, que acreditava que a ausência das ranhuras não interferiria na aterrissagem segura das aeronaves. Após a realização de todas as perícias, ficou provado que, pela velocidade que o avião chegou na pista, não conseguiria ele frear a tempo, mesmo que existissem as ranhuras na pista de aterrissagem. Pergunta: praticou João algum delito?
Questão 20. (QUESTÃO DESAFIO!) CARMÉLIO DU PRADO atravessou a fronteira do Brasil com a Argentina às 03:45 do dia 05 de novembro de 2010. JUSTUS, policial federal, haja vista ter adormecido na hora de seu plantão, não parou o veículo (Caminhão Placa ALF-0001) dirigido por CARMÉLIO.
Chegando no Município de Medianeira, o veículo de CARMÉLIO foi parado pela Policia Rodoviária Federal, em operação de rotina.
Ao perceber o nervosismo de CARMÉLIO, o policial RONALD intensificou a revista no veículo, quando se deparou com os seguintes objetos trazidos da Argentina: 3
quilos de cocaína, 15 quilos de maconha e 3000 munições para fuzil Ak 47 (auto de
busca e apreensão de fls.). CARMÉLIO não apresentou qualquer documento que comprovasse a regularidade dos objetos apreendidos.
Efetuada a prisão em flagrante, CARMÉLIO obteve sua liberdade, pois o magistrado competente julgou ilegal a prisão em flagrante, já que não foi entregue a nota de culpa ao preso.
Para comemorar sua liberdade, CARMÉLIO realizou festa em sua chácara no município de Colombo-PR, onde forneceu gratuitamente aos seus amigos e consumiu diversos cigarros de maconha.
Dias depois, CARDOSO, advogado de CARMÉLIO, retirou em carga os autos da ação penal proposta pelo Ministério Público Federal contra seu cliente e inutilizou o termo de busca e apreensão. CARMÉLIO não sabia da prática dessa conduta, mas depois de comunicado, ficou bastante agradecido, efetuando o pagamento imediato de gratificação pelos serviços prestados.
CARMÉLIO, JUSTUS e CARDOSO praticaram crime? Quais? Fundamente sua resposta.