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Anais do XVI Encontro Regional de História da Anpuh-Rio: Saberes e práticas científicas

ISBN 978-85-65957-03-8

Crítica a crítica dos estudos da organização política visigoda

Eduardo Cardoso Daflon

O presente trabalho é oriundo das primeiras reflexões críticas sobre meu projeto de mestrado que se iniciou recentemente. Esse esteve referenciado por um mapeamento da historiografia a fim de demonstrar a configuração atual dos estudos que focam no Estado alto medieval, sendo meu foco de interesse mais fundamental a chamada Espanha Visigótica. Pretendo, dessa forma, explicitar os caminhos trilhados até o momento, expor as lacunas que se apresentaram e proposições iniciais que terão desenvolvimento em etapas posteriores da pesquisa.

A Idade Média carrega um epíteto funesto, o de “Idade das Trevas”. Perspectiva de caráter preconceituoso que relega esse período da história da humanidade a um imobilismo em diversos níveis associados a superstições e ausência do pensamento racional. O próprio termo que designa essa época pretende situá-la como mero lapso de tempo, uma sombra entre dois momentos mais valorizados: o Império Romano e o Renascimento.

Apesar de essa visão ser criticada desde a criação dos Annales, em que pese, por exemplo, o famoso manual de Jaques Le Goff, A Civilização do Ocidente Medieval (LE GOFF, 2005) escrito nos anos 1960. Estudo que foi muito influente no Brasil, principalmente a partir da chegada, na década de 1970, das primeiras edições portuguesas, sendo até hoje uma referência. Nesse livro, se Le Goff apresenta a Idade Média despida desse tom pejorativo tradicionalmente a ela associado.

Contudo, o faz após projetar sobre os primeiros séculos medievais toda a carga negativa: “Eis a macabra abertura que se apresenta no início da história do Ocidente Medieval” (LE GOFF, 2005, 27 p). Visão desqualificadora que se perpetua de maneira mais ou menos explícita em considerável parcela da produção bibliográfica acerca do

Mestrando no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense, sob orientação do professor doutor Mário Jorge da Motta Bastos, financiado pelo CNPq e vinculado aos laboratórios de pesquisa NIEP-Marx-PréK e TranslatioStudii.

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período. Interpretação essa que parece bastante associada ao elevado grau de “germanismo”.

Outro manual, mais recente e amplamente difundido entre historiadores brasileiros, intitulado A Civilização Feudal, (BASCHET, 2006) de Jérôme Baschet, também aposta na incapacidade dos germanos de assumirem as complexas estruturas geradas pela civilização romana. Para ele os elementos jurídicos constituídos nos “reinos germânicos” apenas representariam uma tentativa discursiva mediante uma ausência de poder real, sendo impossível utilizar o termo “Estado” para análises do período (BASCHET, 2006, 53 p).

Nessa linha seguem outros estudiosos, como Katherine Fischer Drew (DREW, 1987), que também vê uma inaptidão germana na condução das estruturas administrativas herdadas de Roma. Administração essa que teria sido impessoal e burocrática, mas que acabou sendo “infectada” pelas relações pessoais e de parentesco, as quais, apesar de não serem desconhecidas pelos romanos, eram secundarizadas pelo funcionamento do “maquinário” estatal.

Outra obra a ser referida é o clássico Los Godos em España (THOMPSON, 2007), de E. A. Thompson, que também coloca em questão a habilidade de gestão dos visigodos, situando-os em um grau de inferioridade com seus antepassados romanos (THOMPSON, 2007, 15-16 p). Ressalta, ainda, as constantes disputas dos poderes locais com o poder central, apontando esse fator como elemento de descrédito para a existência de um Estado (THOMPSON, 2007, 80-81 p).

Essa noção pejorativa se liga à ideia de “queda” de Roma, colapso de sua estrutura politico-administrativa. Um autor que sintetiza muito bem essa perspectiva é Jean-Philippe Genet (GENET, 2006). Para ele, com o declínio da máquina estatal romana, os poderes, antes públicos, passam a ser gradativamente apropriados pelo privado (GENET, 2006, 398 p). Consequentemente, teríamos uma profunda contradição, pois agora os grandes senhores passariam a ter uma preeminência social que iria diretamente de encontro à logica de um aparato político central.

Segundo Genet, só haveria uma instituição digna de merecer o status de “Estado”, e seria sob os Carolíngios, pois esses teriam sido capazes de manter instituições, como os

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tribunais e exército (GENET, 2006, 400 p), diferentemente dos suevos, ostrogodos ou visigodos. Essa interpretação, de caráter institucionalista, tão corrente nas explicações do “advento” estatal na Baixa Idade Média encontra reflexos na aurora medieval.

Entretanto, há autores que, orientados pelas mesmas perspectivas de base, se posicionam de maneira diametralmente oposta em relação a essas leituras. O caso mais evidente pode ser visto em Historia de España Visigoda (GARCIA MOERENO, 1998). Para esse autor, há um Estado na Alta Idade Média e ele expressaria seu vigor na capacidade normativa dos reis visigodos em seu âmbito mais essencial: o Direito (GARCIA MOERENO, 1998, 76 p).

Por sua vez, Armando Besga Marroquín, em La Situación Política de los Pueblos des Norte de España en la Época Visigoda, (BESGA MORROQUÍN,1983) busca compreender em quais níveis se expressava o controle dos visigodos sobre os grupos da Vascônia e da Cantábria. Apesar da importância de uma discussão sobre a natureza do poder estatal para determinar sob quais vias a dominação se exercia a fim de melhor confirmar sua tese, isso não é feito. Vemos também historiadores, como Ruy de Oliveira Andrade Filho, em sua recente obra intitulada Imagem e Reflexo (FILHO, 2012), que julgam infecundas as iniciativas voltadas à caracterização do Estado na Alta Idade Média.

Outro autor que assume uma postura similar a de Ruy Filho é Pablo Díaz, em obra recentemente publicada (DÍAZ, 2012). A qual se direciona ao estudo do mundo suevo em si, e não como um “capítulo” da história visigoda, algo pouco feito pelos historiadores que se voltam à Alta Idade Média Ibérica. Porém, também opta por termos como “reino”, que visam não se inserir no clássico debate acerca do Estado na Alta Idade.

Em Los Godos y la Cruz (CASTELLANOS, 2007) Santiago Castellanos defende a tese de que a unidade visigoda se inicia sob Leovigildo e sua política de afirmação. Essa consistiu de investidas militares em toda a península conjugada com tentativas de aproximação entre o arianismo e o catolicismo e se conclui com Recaredo e sua conversão à fé nicena (CASTELLANOS, 2007, 189 p). O autor também pretende não se vincular ao debate acerca do caráter do Estado, não utilizando o termo. Contudo, a temática do poder ganha destaque, pois ele nos mostra que havia relações entre os senhores e a monarquia,

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principalmente a Igreja, que foi um dos instrumentos que deu capilaridade ao poder monárquico.

Outra tese que merece destaque é a defendida por Sabrina Orlowski (ORLOWSKI, 2012). Segundo a autora, os reis visigodos dispunham de parcas capacidades de intervenção, ainda que em decorrência de elementos diversos daqueles geralmente aventados. Inspirada nos trabalhos de Chris Wickham (WICKHAN, 2005; WICKHAN, 2004, 17-32 p), e com base especialmente em dados oriundos da arqueologia, Sabrina defende a ideia de que na Espanha visigoda haveria uma predominância do campesinato livre, capaz de fazer frente à aristocracia desprovida de seu principal meio de afirmação, o Estado romano.

Expostas essas perspectivas, é possível agrupá-las fundamentalmente em cinco vertentes acerca da organização política dos primeiros séculos medievais e em relação ao emprego do conceito de “Estado”. Podemos ainda identificar traços comuns a todas elas ainda que destoem consideravelmente em suas análises.

Os primeiros autores apresentados, Le Goff, Thompson, Drew e Genet, correspondem à perspectiva hoje hegemônica no campo que é a veemente negação do uso do termo “Estado”, mediante um contexto caótico fruto da desagregação do Império Romano. Porém, a meu juízo, tais autores reforçam claramente uma perspectiva contraproducente para as análises desse períodoas. Idealiza-se o passado romano em detrimento do mundo alto medieval, relegando o segundo a sombra do primeiro. Atribui-se também enorme peso à presença ou ausência de “instituições” que carregariam aquilo que distinguiria o estatal daquilo que seria organizado por vias outras, como os laços pessoais ou familiares. Partindo de um conceito não pensado historicamente, trata-se o Estado como algo imutável, ahistórico ou transhistórico.

Garcia Moreno, por sua vez, pautando-se nos mesmos registros que os anteriores. Esse se alinha a uma posição diametralmente oposta defendendo o uso do conceito de “Estado”, além de sua considerável vivacidade.

Ou seja, enquanto os primeiros querem demonstrar a incapacidade da realização prática do poder, o segundo defende a existência de um Estado visigodo pujante.

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Entretanto, há que se questionar essas visões em suas premissas, uma vez que ambas se apoiam em referenciais que praticamente não “historiam” os conceitos aplicados. Ou seja, parte-se sempre, mais ou menos explicitamente, de noções pré-concebidas do conceito de Estado, atrelando-o geralmente à sua versão estatal moderna como definida por Weber (FREUND, 1987, 159 p).

Uma terceira via seria o usar “Estado” de maneira indiscriminada, sem se ater a uma conceituação como se estivesse absolutamente claro aquilo que se pretende dizer com o termo, sem qualquer esforço de definição. Outro encaminhamento é aquele usado por Ruy Filho que tangencia o debate optando por termos mais “neutros”, como “monarquia”, sob o argumento de que seria mais adequado já que esta forma de governo teria atravessado o medievo, e ainda por se tratar de um vocábulo de época (FILHO, 2012, 131 p). Justificando a atitude pela suposta difícil caracterização, e pela demasiada dicotomia, assumidas nas proposições que enfocam nas permanências germanas ou romanas.

Por fim teríamos uma nova negação, mas essa seguindo uma perspectiva bem diferente. Orlowski defende a que na Espanha Visigótica Característica os monarcas teriam parcas capacidades de atuação, uma vez que com o esfacelamento de Roma a aristocracia perdia seu principal elemento de apoio: o Estado romano. Algo que enfraqueceria o próprio rei, que não conseguiria atingir determinadas regiões.

Porém, é necessário questionar o quão dependentes eram os aristocratas do aparato estatal para sua reprodução social à época de Roma, discussão não travada por Orlowski nem por Wickhan. Todavia, quando nos voltamos às fontes baixo imperiais como o Código Teodosiano, vemos que a aristocracia parece se reproduzir materialmente de forma bastante autônoma em relação ao Estado romano. Algo que evidencia um problema fundamental à tese, ainda que sejam necessários estudos mais pormenorizados sobre essa questão, tendo um aporte documental mais amplo.

Além disso, os dados arqueológicos que Orlowski traz realmente mostram a paisagem agrária hispânica com predominância da pequena propriedade camponesa. Entretanto, essa evidência não prova por si só a ausência da dominação aristocrática sobre essas aldeias.

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Precisa-se destacar que, a exceção da última, todas as outras quatro as vertentes acima expostas, por não realizarem uma crítica conceitual adequada, necessariamente se atêm, pela negação ou pela afirmação da capacidade de intervenção do poder régio, ao mote do embate visceral entre os poderes locais e o poder central. Postura que não consegue explicar esse passado, permeado por nuances e matizes diversos, pois em momento algum a oposição centro/localidade manifestou-se no sentido do local suprimir o central, ou da nobreza extinguir o rei. Pelo contrário, as revoltas que houve contra monarcas eram feitas por grupos aristocráticos que queriam ascender ao controle do trono. Nesse sentido, concordo inteiramente com Maria Filomena Coelho, que nos lembra que

(...) a nobreza é normalmente interpretada como elemento negativo [ao poder régio], e dificilmente se evidenciam as redes em torno dos monarcas como elementos positivos. Na verdade, é recorrente que a historiografia se refira ao rei por um lado e à nobreza por outro, como elementos que não pertencessem ao mesmo conjunto. Esquece-se mesmo que o rei nunca está só; quando combate uma parte da nobreza, certamente, está apoiado em outro grupo de nobres. Um rei que destrói a nobreza, que a elimina, não faz sentido do ponto de vista da própria natureza régia. (COELHO, 2012, 12 p)

Além de praticamente desconsiderar a inserção do campesinato nas análises sobre a organização política, em um quadro de uma sociedade em acelerado processo de senhoralização. Ignorando que a relação que a aristocracia tem com esse outro grupo é vital para a compreensão mais precisa das relações de dependência e dos laços pessoais que estruturavam aquela sociedade. Algo em que facilmente se incorre, tendo eu mesmo seguido por essa via dado o quadro geral em que a historiografia se apresenta, sendo necessário uma crítica às minhas colocações iniciais para que fosse capaz de perceber essa lacuna fundamental.

Pretendo, portanto, dar continuidade a esse trabalho a partir das relações inter e intra classe buscando caracterizar as relações entre senhores e camponeses e entender

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como as disputas se dão objetivando a reprodução material da aristocracia que tem na obtenção de novas terras sua base fundamental.

Assim sendo, ajustei meus objetivos e hipóteses lançando esse novo um novo olhar sobre a historiografia. É necessário, dessa forma, dar sistematicidade às fontes a fim de verifica-las empiricamente. Portanto, focar-me-ei principalmente na chamada Lex Visigothorum, última legislação promulgada entre os visigodos pelo monarca Recesvinto, em 654, mas que ainda traz muito das legislações anteriores, principalmente do Codigo Revisus de Leovigildo. A datação das leis ainda é facilitada pelo fato de boa parte delas virem acompanhadas do nome do monarca que as adicionou ao código.

Outra fonte normativa a ser utilizada na pesquisa é a coleção das atas conciliares dos concílios visigóticos e hispano-romanos, registro das várias reuniões de cunho local e nacional realizadas pela igreja ibérica entre os séculos IV e fins do VII. A esta pesquisa interessam, em especial, as atas dos concílios nacionais toledanos, em especial daqueles reunidos a partir do III Concílio de Toledo, realizado em 589, assembleia que tornou pública e fez solene a conversão do rei Recaredo ao catolicismo niceno. Desse momento em diante, os concílios tornaram-se grandes “assembleias” do reino, reunindo senhores eclesiásticos e laicos para discutir questões diversas relacionadas à governança e as disputas internas à aristocracia, constituindo-se em importante registro das alianças e tensões políticas que caracterizaram a história do reino.

Além das fontes legislativas, o recurso a uma “crônica” favorecerá também a abordagem do cotidiano de tensões que caracterizava a relação entre as diversas frações da classe dominante visigoda. Trata-se de um texto emblemático que tem muito a contribuir com a pesquisa, a Historia Wambae Regis. Nesta obra, escrita por Julião de Toledo na segunda metade do século VII, é narrada a rebelião do duque Paulo, da província da Septimânia (Gália), contra o rei Wamba, ocorrida entre os anos de 672 e 673.

Como essa narrativa descreve um contexto de crise somos mais capazes de entrever as “normas surdas” que seguem quase despercebidas em situações típicas. Assim sendo, observar de maneira explicita a formação de alianças entre frações de classe que ou buscam a manutenção/expansão de sua hegemonia pelo controle do aparato de Estado.

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Dessa forma, trabalhar-se-á a documentação para além de uma análise que vise simplesmente confirmar ou a refutar o discurso de época, postura essa que, como destacado, muitas vezes se apoia em apriorismos pouco esclarecedores. Pautando-me pela preocupação de como o poder e a dominação se faziam na práxis busco, a rigor, as disputas que a própria legislação e a “crônica” me permitem entrever. De forma a ser capaz de apreender de maneira efetiva as disputas no interior da aristocracia entre aqueles segmentos que se favorecem com o monarca e a estrutura estatal estabelecida e os grupos aristocráticos que por sua vez querem ascender a essa posição.

Pretendo ainda abordar uma terceira tipologia documental, as chamadas hagiografias, tais como a Vida dos Santos Padres de Mérida, Vida de São Frutuoso, Vida de São Milão e a Autobiografia de Valério de Bierzo. Sendo nessas fontes possível depreender também as relações conflituosas estabelecidas entre as frações dominantes da aristocracia, encarnadas na figura régia, com a Igreja e seus representantes. Além de me permitir mais um flanco de análises a fim de colher referências que me permitam uma caracterização do campesinato e de suas relações com a aristocracia, ausência que foi foco principal de minha crítica aos estudos correntes sobre a organização política na Alta Idade Média.

Por fim, manifesto a opção pela manutenção do conceito de Estado que se dá pela defesa de que existem múltiplas formas estatais possíveis, arranjadas pela forma como as classes se organizam e disputam, dependendo ainda das relações de produção e do nível das forças produtivas. É claro que esse conceito precisa ser definido, marcando suas especificidades espaço-temporais, mas negá-lo tomando tacitamente como referencial o Estado Moderno ou romano é um empobrecimento analítico que buscarei em algum nível reverter.

Bibliografia

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