ISSN 2176-1396
PEDAGOGIA DA ALTERNÂNCIA: PROPOSTA EDUCACIONAL SOB
A PERSPECTIVA INTERDISCIPLINAR
Letícia Cristina Antunes1 - UTFPR Nayara Massucatto2 - UTFPR Maria de Lourdes Bernartt3 - UTFPR Eixo Temático - Didática: Teorias, Metodologias e Práticas Agência Financiadora: Não contou com financiamento
Resumo
A Pedagogia da Alternância (PA), consiste em uma modalidade de Educação do Campo que surgiu na França em 1935, devido à insatisfação de agricultores que lutavam por uma educação voltada à realidade dos jovens do campo. Esse modelo educativo preconiza a Formação Integral do jovem, aliando prática e teoria, e consequentemente, o diálogo entre saberes, possui uma série de fundamentos teórico-metodológicos que auxiliam no processo de construção de conhecimento de forma integrada. Diante do exposto, o estudo objetivou refletir sobre o trabalho interdisciplinar presente na proposta de formar o jovem de forma integral, promovida por meio do Plano de Formação. Trata-se de um estudo bibliográfico, no qual partiu-se dos conceitos de interdisciplinaridade embasados em Alvarenga et. al (2011) e Raynaut (2011), em seguida apresenta um breve contexto da Pedagogia da Alternância, bem como seus fundamentos teórico-metodológicos e o papel da interdisciplinaridade na formação integral a partir das discussões de Nascimento (2005), Gimonet (2009), Mascarelo (2010), entre outros. E, por fim, apontaram-se práticas interdisciplinares presentes nesse contexto, baseando-se nos estudos de Rocha (2007), dialogando com concepções de Leff (2009; 2010a; 2010b). Os resultados apontaram que, de fato, a Pedagogia da Alternância é uma modalidade que busca o diálogo entre os saberes, para tanto, utiliza-se de um de seus instrumentos, o Plano de Formação, um documento que orienta o trabalho desenvolvido nos Centros de Formação, pensado de forma a promover a interdisciplinaridade e, que, por conta disso possibilita a Formação Integral, aliando-se prática e teoria para assim atingir o objetivo maior desse modelo educativo, refletir sobre as questões relativas ao contexto local e auxiliar no seu desenvolvimento.
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Mestranda em Desenvolvimento Regional Pelo Programa de Pós Graduação em Desenvolvimento Regional da Universidade Tecológica Federal do Paraná campus Pato Branco (UTFPR). Licenciada em Letras Português / Inglês pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná campus Pato Branco (UTFPR). Email- [email protected].
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Mestranda em Desenvolvimento Regional Pelo Programa de Pós Graduação em Desenvolvimento Regional da Universidade Tecológica Federal do Paraná. Licenciada em Letras Português / Inglês pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Email- [email protected].
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Docente do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional e do Curso de Licenciatura em Letras Português-Inglês da Universidade Tecnológica Federal do Paraná campus Pato Branco (UTFPR). Doutorado em Educação pela UNICAMP. E-mail: [email protected].
Palavras-chave: Pedagogia da Alternância. Interdisciplinaridade. Plano de Formação.
Formação Integral.
Introdução
A Pedagogia da Alternância consiste em uma metodologia de organização do ensino escolar que conjuga diferentes experiências formativas distribuídas ao longo de tempos e espaços distintos, tendo como finalidade a formação profissional do jovem.
Em outras palavras, os jovens permanecem parte do tempo no ambiente escolar adquirindo conhecimentos teóricos e parte na propriedade pondo em prática esses conhecimentos, conciliando aprendizagem e trabalho, teoria e prática. Por ser uma metodologia diferenciada, além dos conhecimentos do ensino básico, ela possui os conhecimentos técnicos, contidos no plano de formação e que são abordados a partir de temas geradores. Assim, a proposta interdisciplinar está presente tanto no Plano de Formação4 o qual serve para orientar as aulas, quanto na proposta de Formação Integral proposto pela Pedagogia da Alternância, que busca aliar conhecimentos teóricos com práticos e leva em consideração os conhecimentos prévios dos jovens, bem como, seus valores, crenças, identidade cultural.
Desse modo, o objetivo da pesquisa consistiu em evidenciar o trabalho interdisciplinar presente na proposta de formar o jovem integralmente e promovida por meio do Plano de Formação. Para tanto, a metodologia do estudo consistiu em uma pesquisa bibliográfica, a qual trata-se de um recorte de pesquisa mais ampla, que vem sendo desenvolvida desde de 2006 pesquisadores da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), cujo objetivo principal é investigar uma modalidade de Educação do Campo, Pedagogia da Alternância (PA).
Inicialmente, foi realizado um levantamento bibliográfico sobre as concepções de interdisciplinaridade, bem como, o contexto e fundamentos teórico-metodológicos da PA, além do papel da interdisciplinaridade na formação integral. Finalmente, apontaram-se práticas interdisciplinares contidas nessa modalidade de ensino baseada nos seguintes autores: Alvarenga et. al (2011) e Raynaut (2011), Nascimento (2005), Gimonet (2009), Mascarelo (2010), Rocha (2007) e Leff (2009; 2010a; 2010b).
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O Plano de Formação é um dos procedimentos didático- pedagógicos que compõe a metodologia da Pedagogia da Alternância. Os demais serão apresentados adiante.
O artigo encontra-se dividido nas seguintes seções: introdução, que contém a metodologia do trabalho; Interdisciplinaridade: algumas concepções; Pedagogia da Alternância: contexto de expansão e fundamentos teórico-metodológicos; O plano de Formação e a articulação dos conhecimentos; Pedagogia da Alternância: a Interdisciplinaridade com vistas à Formação Integral e considerações finais.
Interdisciplinaridade: algumas concepções
A busca por respostas aos limites impostos pela ciência moderna ou clássica, vista como conhecimento simplificador, dicotômico e disciplinar impulsiona o surgimento da interdisciplinaridade, nos anos de 1960. Ela é considerada um meio inovador de produzir conhecimento, mas também um complemento do modo disciplinar.
Alvarenga et al. (2011), aponta Gusdorf (1977), como um nome importante na introdução do pensamento interdisciplinar, isso porque, ao trazer esse pensamento ele visa integrar conhecimentos e humanizar o homem, o qual é tido como ponto de partida e de chegada do conhecimento científico.
Mesmo não sendo recente essa ideia de uma prática interdisciplinar, são recentes suas características no que concerne a tarefa de religar os saberes, e atuar nos limites disciplinares a fim de resolver questões de ordem complexa. Desse modo, quando o avanço da ciência moderna a torna fragmentada ou simplificada, a prática interdisciplinar permite responder problemas ocasionados por esse avanço e que a ciência torna-se incapaz de solucionar (ALVARENGA et al, 2011).
De acordo com Alvarenga et al (2011), o avanço do pensamento interdisciplinar foi marcado por momentos relevantes, dentre os quais, destaca-se o I Seminário Internacional sobre Pluri e Interdisciplinaridade, que ocorreu de 7 a 12 de setembro de 1970, na Universidade de Nice (França). É nesse espaço de discussão que surge também o termo “transdisciplinaridade”. Com efeito, a partir daí os três termos passam a representar novos meios de tratar problemas complexos, bem como, a superação das fronteiras do conhecimento disciplinar.
A partir do referido seminário as discussões avançaram cada vez mais, e nesse mesmo evento surgiram algumas definições para esses termos. Alvarenga et al (2011) abordam alguns autores que apresentaram essas ideias no seminário, como Jean Piaget (1972), o criador do termo Transdisciplinaridade, que apresentou no seminário entre outras coisas, a
ideia de que existem três níveis de interação ou três formas do conhecimento e que ele chamou de multi, inter e transdisciplinaridade.
Nessa perspectiva, a interdisciplinaridade seria um segundo nível, (em que a multidisciplinaridade seria um nível inferior e a transdisciplinaridade seria superior), de cooperação entre as disciplinas, permitindo que haja a reciprocidade durante as trocas de conhecimento entre elas. Piaget (1972) menciona que se o fracionamento das ciências depende dos problemas específicos de cada disciplina, a interdisciplinaridade é, portanto, resultado de buscas para além desses limites. (ALVARENGA et al, 2011).
É possível perceber, então, a concepção de interdisciplinaridade, cujo papel é construir novos conhecimentos a partir do diálogo entre saberes, e que procura resgatar a totalidade dos conhecimentos, fragmentados pela ciência moderna.
Outro autor cuja proposta foi também apresentada no seminário e que, segundo Alvarenga et al (2011), permanece como fonte clássica, mesmo com as inúmeras classificações existentes, é Jantsch (1972).
Em sua concepção, o ensino tem a capacidade de permitir que a sociedade renove a si própria, além disso, ele amplia as três categorias apresentadas por Piaget. Segundo Alvarenga et al (2011), Jantsch (1972) define a interdisciplinaridade como um conceito comum entre um grupo de disciplinas interligadas, cujo nível hierárquico é superior, possui um sistema de dois níveis, com inúmeros objetivos, e sua coordenação parte de um conceito comum. Para ilustrar o sistema, o autor elaborou uma figura, citada por Alvarenga et al (2011):
Figura 1: Configuração do sistema da interdisciplinaridade, segundo Jantsch (1972).
Fonte: adaptação da figura de Jantsch (1972 apud Alvarenga et al, 2011).
Essa configuração criada por Jantsch, também evidencia o papel da interdisciplinaridade em encontrar um ponto comum entre as disciplinas para que através dessa interação possam em conjunto construir novos conhecimentos e dar conta das questões complexas que não são passíveis de solução pelas disciplinas isoladamente.
Jantsch; Bianchetti (1995), apontam que atualmente percebe-se um movimento contrário do que se tinha até então, os profissionais estão se mostrando mais propensos a buscar uma formação menos focada na especialização que os permita executar diferentes funções.
Outro autor que contribuiu no campo das pesquisas sobre a interdisciplinaridade foi o antropólogo Claude Raynaut. Para ele, a característica mais fundamental da interdisciplinaridade é sua capacidade de causar inúmeros questionamentos e estar em constante reconstrução (RAYNAULT, 2011).
Quando se parte de um enfoque interdisciplinar, deve-se ter em mente que o desafio primordial dessa prática é devolver ao mundo real seu cunho total, híbrido e complexo, que foi se perdendo com a evolução da ciência, que culminou na fragmentação das disciplinas e introdução das especializações. Para Raynault (2011), o questionamento dessas fronteiras e limites se deve ao fato de eles estarem ligados a meras representações desse mundo.
O autor concebe que o mundo real é formado pelas interações múltiplas e complexas entre os elementos que o compõe. Apesar de enfatizar que o surgimento do pensamento científico demandou esse recorte do real pelas disciplinas, acrescenta que o próprio avanço dessas ciências sugeriu abandonar esses limites. Isso ocorreu por duas vias, sendo a primeira, o surgimento de novas disciplinas, a fim de compreender campos tidos como fora do alcance da ciência, e a segunda, a partir do esforço de se pensar de forma global a complexidade de sistemas amplos (RAYNAULT, 2011).
Raynault (2011) enfatiza que mesmo que o desejo de romper as barreiras da disciplinaridade seja forte, é preciso refletir epistemologicamente, pois são essas disciplinas que permitem o homem até o presente momento conhecer a si e ao mundo, de forma que antes de tudo, é fundamental possibilitar o diálogo entre elas.
A interdisciplinaridade não necessariamente precisa ser utilizada por toda e qualquer construção científica, existem assuntos que as disciplinas não conseguem dar conta de forma isolada, e por esse motivo exigem esse diálogo para a construção do conhecimento.
Para que seja possível compreender a complexidade do mundo, o autor lança mão da ideia de que existem dois campos distintos da realidade que constituem objetos específicos de conhecimento científico, o da materialidade ou relações físicas e biológicas seria o próprio ambiente, natural (florestas) ou artificial (cidades) e também considera o ser humano, aqui visto como agente e objeto das interações biológicas, é estudado pelas ciências naturais. O outro campo, diz respeito à imaterialidade, dizem respeito aos processos responsáveis pela estruturação, renovação e modificação das representações mentais do mundo e das relações sociais, as ciências sociais são responsáveis por compreendê-lo (RAYNAULT, 2011).
Contudo, mesmo sendo campos distintos, relacionam-se entre si, o mundo é resultado da relação de ambos, é na verdade uma realidade fundamentalmente híbrida, uma mesma
realidade vista a partir de duas perspectivas. Raynault (2011) demonstra esse quadro conceitual através de uma figura.
Figura 2: Quadro conceitual
Fonte: Adaptação da figura 2.1, (RAYNAULT, 2011).
A realidade híbrida consiste, portanto, na relação entre ambas as realidades, isto é, das interações do ser humano com o ambiento ou campo da materialidade.
Raynault (2011) reitera que é fundamental que as disciplinas investiguem de forma isolada os problemas que concernem a sua área, mas que o surgimento de questionamentos pela própria sociedade, gerou a necessidade de ir além da disciplinaridade, visto que de forma isolada essas disciplinas são incapazes de responder a tais questões. Diante disso, é imprescindível que haja esse diálogo entre essas diferentes áreas, a fim de construir novos conhecimentos.
Em face do exposto, a modalidade de Educação do Campo, Pedagogia da Alternância, parece ser pertinente, uma vez que busca por meio da interdisciplinaridade construir novos conhecimentos, e formar jovens críticos, capazes de compreender sua realidade, bem como outras realidades, e a partir desses conhecimentos, refletir, procurando meios de transformar de forma positiva o contexto no qual está inserido.
Pedagogia da Alternância: Contexto de expansão e fundamentos teórico-metodológicos
O período posterior à revolução industrial e as Guerras Mundiais, segundo Nascimento (2005), caracterizou uma valorização da cidade sobre o campo no mundo ocidental, refletindo na Europa o êxodo rural e o aumento nas atividades industriais e urbanas. Assim, foi em meio à luta por reconhecimento que surgiu em 1935, uma modalidade de Educação do Campo, denominada Pedagogia da Alternância (PA), cujo objetivo era fornecer aos jovens rurais uma educação voltada à sua realidade, e que permitisse o desenvolvimento do meio.
No Brasil, essa modalidade de ensino chegou por volta dos anos de 1969, primeiramente no Espírito Santo a partir da corrente italiana, onde foram implantadas as
Escolas Família Agrícola (EFA). Do mesmo modo que na Itália, a igreja católica esteve presente no nesse processo, sua motivação também foi semelhante, o êxodo rural e a falta de mão de obra qualificada (ZAMBERLAN, 2003). Nessa época, fundou-se o MEPES (Movimento de Educação Promocional do Espírito Santo), órgão responsável pela efetivação e disseminação da PA no estado, “cuja finalidade é a promoção integral da pessoa humana”. (NOSELLA 1977, p. 129).
Em 1980, também por iniciativa religiosa, o movimento Francês, chegou ao Brasil e expandiu-se para as regiões Sul, Norte e Nordeste. Nessas regiões foram implantadas as Casas Familiares Rurais (CFR) coordenadas por associações, como pela Associação Regional das Casas Familiares Rurais (ARCAFAR SUL E ARCAFAR NORTE/NORDESTE).
Ela caracteriza-se como uma alternativa de educação desenvolvida nas zonas rurais, adequada ao modus vivendi5 das populações do campo.
Gimonet (2009), um dos maiores estudiosos dessa área, compreende a Pedagogia da Alternância como uma metodologia de organização do ensino escolar que conjuga diferentes experiências formativas distribuídas ao longo de tempos e espaços distintos, tendo como finalidade uma formação profissional. A Pedagogia da Alternância é uma metodologia praticada nos centros de formação familiar por alternância, a qual rompe com a educação convencional, e onde o jovem, geralmente filho de agricultores, alterna espaços e tempos.
Os espaços dizem respeito aos locais onde essa formação ocorre, Casas Familiares Rurais (CFR – escola); indústria, propriedade; comércio, entre outros. E os tempos, relacionam-se aos períodos de permanência dos jovens nesses ambientes.
O jovem primeiramente adquire os conhecimentos técnicos no centro de formação, para em casa, aplicar esses conhecimentos de forma a ajudar a desenvolver a sua propriedade e a sua comunidade em geral. Alia-se assim, teoria e prática, ensino e trabalho, tornando essa Formação Integral (TEIXEIRA, ANTUNES, 2011).
A alternância decorre da seguinte forma: uma semana o aluno fica no centro de formação, onde são trabalhados conhecimentos teóricos relacionados à sua vida no campo, e nas duas próximas semanas ele fica em sua propriedade rural praticando/ aplicando e discutindo com a família os conteúdos aprendidos. Quando o jovem retorna para a escola, ele leva o conhecimento adquirido com a família e tem a oportunidade de socializá-lo com os colegas e trocar conhecimentos (GIMONET, 2009).
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Essa modalidade educacional tem amparo em quatro princípios: 1) o próprio método da alternância; 2) a ênfase na Formação Integral do jovem; 3) a participação das famílias na condução do projeto educativo e na gestão da escola; 4) o desenvolvimento do meio (TEIXEIRA; ANTUNES, 2011).
A PA possui alguns procedimentos didático-pedagógicos específicos: Quadro 01 – Procedimentos didático-pedagógicos da PA.
PROCEDIMENTOS DIDÁTICO-PEDAGÓGICOS
Pesquisa Participativa Realizada com família e comunidade e objetiva compreender questões que envolvem a comunidade de maneira geral e as atividades produtivas ou não.
Plano de Formação Contém os objetivos orientadores da CFR, considerando o contexto dos jovens, bem as metas almejadas por eles e suas famílias.
Temas Geradores Temáticas previamente elaboradas com a participação da família, são discutidas com o intuito de impulsionar reflexões sobre a realidade local, preconiza por trabalho interdisciplinar.
Plano de Estudos Instrumento de investigação da realidade que permite ao jovem compreender dificuldades, contradições e benefícios presentes nela com vistas a construção de mecanismos que auxiliem no desenvolvimento do estudo.
Pesquisa da Realidade Roteiro de estudo realizado por educadores e jovens, fundamentado nos temas geradores do Plano de Formação. Os jovens tem a possibilidade de escolher temáticas presentes na vida real e pesquisar sobre ela Caderno da Realidade Trata-se de um mecanismo que possibilita a sistematização da pesquisa
e a avaliação da aprendizagem, organizar suas atividades, permitindo a tomada de consciência ao longo do processo de aprendizagem.
Colocação em Comum Momento de discussões e construções de conhecimento entre jovens e educadores.
Cadernos Pedagógicos Funciona como uma espécie de diário de campo onde o jovem pode anotar suas observações e atividades desenvolvidas.
Atendimento Individual Após a colocação em comum os jovens são atendidos individualmente pelos educadores, a fim de solucionar possíveis dificuldades dos jovens. Visita de Estudos Atividades que envolvem toda a comunidade escolar e para além dela, sua finalidade é propiciar uma troca de experiências entre as famílias e comunidade.
Visita às Famílias Atividades que visam a formação integral, permitindo aos jovens aprimorar seus conhecimentos para além do espaço escolar.
Intervenções Externas Visita de pessoas que não fazem parte do cotidiano escolar, mas que fazem parte da comunidade – médicos, dentistas, agrônomos.
Auto avaliação Os jovens avaliam seu processo de aprendizagem.
Projeto Profissional do Jovem Tem como finalidade inserir o jovem no mercado de trabalho, fortalecer a agricultura e sustentabilidade ambiental, trata-se de um estágio que impulsiona o desenvolvimento do meio, uma vez que interliga todos os conhecimentos adquiridos ao longo de sua permanência, possibilitando a ele refletir.
Fonte: Quadro elaborado pelos autoras (TEIXEIRA, CORONA, BERNARTT, BRAIDA, 2010); (MASCARELO, 2010);
A condução da proposta pedagógica da PA e a própria gestão da escola contam com a participação das famílias e da comunidade. Ela se apoia na ideia de que uma formação adequada é resultado do diálogo entre os indivíduos e os contextos em que se insere, assumindo que o conhecimento acumulado ao longo da historia é responsável por essa mediação.
É nesse panorama que a Pedagogia da Alternância tem como foco principal a Formação Integral do jovem. É por meio do contato dos jovens com seu meio, que sua identidade é fortalecida e valorizada. A interação e harmonização com o ambiente é fundamental para esta formação, e que permite aos alunos refletirem sobre as relações entre homem e natureza e suas relações de respeito e equilíbrio social e ambiental.
O Plano de Formação e a articulação dos conhecimentos
A Pedagogia da Alternância, como um todo, apresenta-se como um local de integração entre os diferentes saberes, e o Plano de Formação exige práticas interdisciplinares, pois cada tema gerador deve ser trabalhado através do diálogo entre as disciplinas, articulando todos os conhecimentos para a construção de novos conceitos.
Nesse sentido, o Plano de Formação tem papel importante, uma vez que contempla os Temas Geradores que orientam as aulas e que propiciam o dialogo entre as disciplinas da base comum e as técnicas. Ele é elaborado com a colaboração dos educadores (monitores e professores), a associação das famílias e a comunidade, e aborda temas/assuntos relacionados à realidade da região onde está situada a Casa Familiar, potencializando assim o espírito organizativo dos produtores. Isto é, são temas que fazem parte da realidade dos Jovens, escolhidos em conjunto com a escola e família. Cada tema será abordado por todas as disciplinas, um em cada semana de permanência do Jovem no centro. O intuito desse procedimento é criar a interdisciplinaridade, o diálogo e integração entre o os conhecimentos gerados a partir da temática abordada.
O Plano de Formação consiste em um planejamento elaborado no início do ano letivo no qual são elencados os temas geradores para cada semana de alternância, período em que o aluno alterna uma semana em regime de internato na CFR e a outra na sua propriedade, a serem trabalhados ao longo do ano com os jovens. É por meio dele que se orienta a educação da PA, por ser realizado em conjunto com as famílias, seu valor pode ser visto através do Plano de Formação.
Este contém o número de Temas Geradores de acordo com o número de semanas de alternância6, em outras palavras, como citado anteriormente, em cada semana que o Jovem permanecer na casa será escolhido um tema gerador a ser trabalhado por todas as disciplinas, uma vez que é ele que orienta os conteúdos daquela semana. Portanto, cada disciplina deve organizar sua aula de modo que haja uma articulação com as demais e com o tema gerador.
Além dos Temas Geradores, o Plano de Formação contempla todos os conteúdos das disciplinas da base comum, a aula técnica que insere o aluno na prática do que ele aprende na teoria, e a visita técnica que propicia ao jovem refletir mais sobre a temática. Geralmente, também apresenta uma palestra que amplia o conhecimento do jovem sobre o assunto. Sendo que todas essas atividades devem estar direcionadas ao tema gerador daquela semana de alternância.
Leff (2010b) aponta que o projeto da interdisciplinaridade surgiu justamente com o propósito de fazer com que as disciplinas se voltassem a uma realidade homogênea, a fim de eliminar os limites impostos pela separação das disciplinas. Os temas geradores parecem ter o mesmo interesse, por serem construídos com a participação das famílias, são relacionados ao contexto local, dessa forma, permitem ao jovem visualizar a importância de cada disciplina para o seu meio local.
É de conhecimento que o acúmulo de capital gerou danos irreversíveis aos países de terceiro mundo, dentre eles, a perda de identidade cultural e o êxodo rural (LEFF, 2009). A PA, através dessa prática interdisciplinar de elaborar um tema gerador que esteja voltado à realidade local, acaba por contribuir para que haja um resgate dessa identidade e a permanência do jovem no campo, que são os objetivos mais almejados por essa metodologia.
Segundo Leff (2009), outro impacto causado por essa colonização foi a degradação ambiental intensa e o processo de subdesenvolvimento. Por meio desse diálogo de saberes, essa modalidade de ensino procura formar jovens protagonistas, preocupados com o ambiente em que vivem e com questões ambientais, visto que há uma constante valorização do ambiente, capazes de promover o desenvolvimento local de maneira sustentável.
Se o diálogo de saberes, em relação às questões ambientais, carece da participação de pessoas no processo de produção de suas condições de existência, se nada mais é que a relação entre vida e conhecimento, junção de identidades e saberes como nos afirma Leff (2010a), então, a Pedagogia da Alternância parece pertinente, porquanto, anseia construir
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conhecimentos através da inter-relação dos saberes, levando em consideração os conceitos prévios dos jovens, e incentivando-os a buscar respostas de forma autônoma.
Pedagogia da Alternância: o diálogo de saberes com vistas à Formação Integral
Durante muito tempo, o modelo de racionalidade da ciência moderna baseou-se na concepção de que homem e natureza devem ser vistos de forma isolada um do outro. Esse pensamento acarretou na fragmentação do conhecimento, a disciplinaridade, para assim dar conta de questões científicas.
No entanto, Leff (2010a), argumenta que essa visão tem se dissolvido, e a relação existente entre a natureza e a sociedade, acabou por ser assumida ganhando notoriedade e desenvolvimento no campo científico, isso tudo por conta da gama de contribuições de ambas, apoiadas nos contextos geográfico, sociológico, cultural, social e também econômico, o que tem levado a construção de uma relação abstrata de saberes e de um conhecimento com bases teóricas, cientificas e empíricas.
A interdisciplinaridade surge com o intuito de compreender o todo, romper com essa fragmentação dos saberes, e a Formação Integral é fundamental para atingir tal objetivo. E de acordo com Leff (2010b) por ter sido apontada como fundamento de uma articulação teórica, compõe um dos elementos ideológicos de maior relevância no desenvolvimento científico.
Essa articulação de saberes auxilia em uma Formação Integral, que desenvolva as potencialidades dos indivíduos, tornando-os aptos a resolver os desafios impostos pelo meio. Segundo Rocha (2007), ela deve ser contextualizada para além do conhecimento científico, e levar em consideração a realidade do jovem em formação, bem como, seus valores, crenças, cultura.
A Formação Integral pretende desenvolver globalmente cada jovem, e isso demanda de uma formação pensada para a profissionalização, que é nesse caso, vista como meio de acesso à cultura.
Para Teixeira e Antunes (2011), a formação integral do jovem busca mais do que ensinar, almeja o retorno positivo refletido em sua realidade Os jovens enquanto sujeitos em formação conhecem a valorização do meio através do seu trabalho na propriedade e na comunidade. A interação e harmonização com o ambiente é fundamental para esta formação. Por isso, a formação integral permite aos alunos a possibilidade de reflexão sobre as relações entre homem e natureza e suas relações de respeito e equilíbrio social e ambiental;
Segundo Mascarelo (2010), a formação integral possibilita conscientizar o jovem em relação aos comportamentos socioambientais colocando-o em constante reflexão sobre si e o mundo que o cerca.
Essa formação considera importantes os diferentes aspectos do cotidiano dos jovens, tais como as questões sociais, culturais, econômicas, isso torna-se essencial para que haja de fato uma educação integral, por essa razão, pode-se compreender a Pedagogia da Alternância como uma modalidade de ensino que propicie a educação integral.
Para compreender melhor essa afirmação, é essencial compreender melhor a educação integral, de modo que é interessante refletir sobre as considerações de Rocha (2007) o qual assevera que a educação integral pode ser visualizada a partir diferentes perspectivas:
Tabela 1: Educação Integral
Educação Integral como Formação Integral
Necessita desenvolver todas as potencialidades humana e mantê-las em equilíbrio. O homem é visto como integral.
Educação Integral como articulação de conhecimentos e disciplinas
Todos os conhecimentos devem estar integrados por meio de abordagens interdisciplinares, transdisciplinares e transversais.
Educação Integral como articulação de aprendizagem a partir de projetos temáticos
Demanda uma metodologia participativa que inclui família e comunidade e volta-se a resolução de questões relativas ao meio.
Educação Integral na perspectiva de tempo integral
A jornada escolar é ampliada e complementada por atividades diversificadas.
Fonte: (ROCHA, 2007).
É evidente que para uma educação integral tais aspectos são fundamentais, e pode-se observar que a Pedagogia da Alternância se mostra um modelo que dentro de suas especificidades procura trabalhar todas essas questões.
Rocha (2007), a partir de uma fala de Freire (2000), complementa que a escola não necessariamente ensinará tudo ao jovem, ele precisa enquanto sujeito autoformador compreender que o ensino não deve ser mera transferência de conhecimento, mas possibilitar a construção dos saberes.
Além disso, a escola também deve ser organizada de modo a proporcionar essa formação. Ela deve ser um espaço de reflexão, que contenha ambientes que permitam estimular as capacidades dos alunos.
É evidente que a Pedagogia da Alternância busca uma Formação Integral que atenda a todas essas exigências, de tal forma que considera os seguintes aspectos:
O meio sócio-profissional permite ao jovem conviver com sua família, amigos e comunidade, tem a oportunidade de participar da realidade local, valorizando a sua identidade;
O ambiente escolar proporciona um acompanhamento individual, a prática pedagogia envolve todas as suas dimensões enquanto ser humano, e propicia atividades para além da sala de aula, onde ele participa ativamente da produção de conhecimento.
Com efeito, a Pedagogia da Alternância enquanto método de ensino para a sociedade do campo demonstra essa preocupação em aliar os conhecimentos teóricos com a prática, com vistas a formar profissional e integralmente jovens do campo.
Rocha (2007) sublinha a importância dessa proposta, no sentido de que ela além de propiciar ao jovem a modificação do meio em que está inserido, permite que ele participe de forma ativa em sua evolução, propõe a todos os envolvidos nesse contexto a tomada de consciência dos problemas que o permeiam.
Leff (2010a) aponta que a caracterização do vínculo existente entre sociedade e natureza no que concerne à problemática ambiental impõe o pensamento em relação a práticas de manejo sustentável dos recursos naturais, bem como da articulação das ciências que o explicam, por meio dessa articulação é possível refletir sobre os problemas ambientais, e isso demanda maior reflexão em torno disso.
Essa necessidade de refletir sobre as questões relativas ao meio é algo muito presente na PA, como já mencionado, um dos objetivos mais caros a essa proposta de ensino é formar indivíduos ativos em seu meio que demonstrem preocupação em relação a ele, e procurem formas de contribuir com seu desenvolvimento, desse modo, a articulação das disciplinas com os temas geradores é essencial, pois é a partir desses diálogos que o jovem pode conhecer seu ambiente e consequentemente à si mesmo.
Em sua proposta de Formação Integral, a PA procura contextualizar o jovem e o faz por meio das relações que este estabelece com o grupo familiar, comunitário e global (ROCHA, 2007). Nessa concepção o jovem passa a ser seu próprio formador, é tido como individuo que faz parte do ambiente capaz de modificá-lo e ser modificado por ele, e que contribui para a articulação dos conhecimentos.
Essa perspectiva do jovem como ator na construção de conhecimento vai de encontro com o que expõe Leff (2010b) ao afirmar que os sujeitos movidos pelo interesse de conhecer,
fazem a articulação entre os conhecimentos transportando métodos e teorias de uma ciência para outras. E a partir disso, o sujeito passa a modificar sua realidade.
É necessário evidenciar outro interesse da PA que além da Formação Integral, almeja o desenvolvimento do meio, Calvó (2002), aponta que se a formação do jovem não propicia o desenvolvimento do meio, esse jovem será incapaz de permanecer nesse contexto. Por esse motivo a articulação das disciplinas no trabalho com os temas geradores é imprescindível, pois é a partir deles que o jovem pode conhecer melhor o meio ao qual está inserido e pensar práticas de modificá-lo de maneira positiva.
Considerações Finais
Esse texto buscou evidenciar a Pedagogia da Alternância, uma modalidade de Educação do Campo, como uma proposta de ensino interdisciplinar, que utiliza como procedimento para essa prática diversos instrumentos pedagógicos diferenciados, em especial o Plano de Formação, na busca pela formação integral do jovem do campo.
O Plano de Formação parece ser o principal mecanismo para a promoção dessa prática interdisciplinar. É, pois, por meio dos Temas Geradores Contidos nesse documento que as disciplinas se interligam, e passam a fazer sentido para os jovens, pois como já mencionado esses temas geradores fazem parte da realidade local e ao articular-se com eles cada disciplina demonstra sua importância para a formação da juventude rural.
É indiscutível a importância desses diálogos de saberes, ou seja, o diálogo entre os diversos conhecimentos produzidos a partir das disciplinas e tema geradores com experiência adquirida do trabalho na propriedade, aliando teoria e prática. Isso promove ao jovem uma nova forma de compreender a sua realidade, principalmente nos dias atuais por conta da crise ambiental vivenciada. Assim esse método tem um papel fundamental, visto que foi pensado especificamente para os povos do meio rural.
Contudo, mesmo que contenha uma proposta excelente, nem sempre ela consegue cumprir seu papel, principalmente no que diz respeito à interdisciplinaridade, isso se deve ao fato de que muitos educadores desse contexto desconhecem o método ou possui formação inadequada e por isso por muitas vezes não conseguem fazer a devida articulação entre suas disciplinas, as demais e os temas geradores, comprometendo a Formação Integral do jovem.
Diante disso, não há como negar que ainda se faz necessário aprofundar estudos sobre essa metodologia, uma vez ela ainda não possui muito incentivo por parte do governo e das secretárias de educação, visto que, no geral, a educação do campo ainda luta pelo seu
reconhecimento e por conta disso, tem pouca atenção dos órgãos responsáveis pela educação do país, principalmente em relação às questões já mencionadas. Assim, é imprescindível que a academia persista nos estudos acerca desse método de ensino, para que cada vez mais a Pedagogia da Alternância obtenha o devido reconhecimento.
REFERÊNCIAS
ALVARENGA, A. T, et al. Histórico, fundamentos filosóficos e teórico-metodológicos da interdisciplinaridade. In: PHILIPPI JR., A.; SILVA NETO, A. J. Interdisciplinaridade em
ciência, tecnologia e inovação. Barueri, SP: Manole, 2011 p. 03-68.
CALVO, Pedro Puig. Formação pessoal e desenvolvimento local. In: UNEFAB, União
Nacional das Escolas Famílias Agrícola do Brasil. Formação em alternância e
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