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Assimetrias laterais na infância

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Academic year: 2021

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Quando se observa cuidadosamente o comportamento do ser humano, torna--se clara a existência de uma assimetria motora funcional favorecendo um dos lados, maioritariamente o direito. Na procura por um mecanismo responsável por comporta-mentos lateralizados, os teóricos têm investigado a tendência lateral direita nos huma-nos, aparecendo esta no uso da mão, do pé, do olho e do ouvido. A lateralidade manu-al, normalmente definida como o uso diferencial ou preferido de uma mão em situa-ções em que apenas uma delas pode ser usada, tem sido a mais vastamente estuda-da entre as preferências laterais humanas. Aproximaestuda-damente 90% estuda-da população, em variadas culturas, usa a mão direita na realização de actividades que envolvem vários graus de destreza.

A tendência para a preferência manual direita, típica da população adulta, pa-rece estar já presente no início da vida. Apesar da preferência manual não ser uma característica óbvia de crianças pequenas, tornando-se mais evidente aquando da

Paula Rodrigues

Universidade do Porto

Resumo

A tendência para a preferência manual direita, típica da população adulta, parece estar já presente no início da vida. Uma significativa proporção de bebés demonstra reflexos e movimentos espontâneos mais fortes e mais coordenados no lado direito do corpo do que do lado esquerdo. Porém, a observação dos comportamentos laterais de crianças até aos 3 anos de ida-de permite referir que essa tendência lateral se encontra em mudança, su-gerindo um sistema ainda em fluxo. Não obstante, à medida que a idade avança torna-se notória a preferência consistente por um dos lados. Apesar de muitos estudos confirmarem o facto da preferência manual se estabilizar gradualmente com a idade, não há consenso relativamente à idade com que isto acontece. A raridade de estudos longitudinais constitui uma limitação nas investigações quanto a este aspecto da preferência manual.

Palavras-chave

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entrada na escola, podem observar-se algumas tendências motoras desde o nasci-mento ou mesmo antes do nascinasci-mento. Alguns pesquisadores, objectivando a predi-ção da direcpredi-ção da preferência manual nos adultos, têm investigado os percursores dessa preferência nas assimetrias posturais espontâneas.

Com a possibilidade da visualização directa da vida intra-uterina, o conheci-mento sobre o comportaconheci-mento lateralizado em fetos tem sido melhor estudado. Um dos comportamentos que pode ser claramente observado é o de sugar o polegar. A observação de fetos com 15 semanas revelou uma tendência marcada em sugarem o polegar direito (Hepper, Shahidullan, & White, 1991; Hepper, Wells, & Lynch, 2005) e a observação do movimento dos braços a partir de 10 semanas mostrou que aproxi-madamente 85% dos fetos exibiram maior actividade com o braço direito do que com o esquerdo (Hepper, McCartney, & Shannon, 1998; McCartney & Hepper, 1999). A posição da cabeça em relação ao corpo demonstrou, de igual forma, uma clara ten-dência para a direita em fetos com 38 semanas (Ververs, de Vries, van Geijn, & Hopkins, 1994a, 1994b). Estes comportamentos assimétricos podem ter um papel importante no desenvolvimento das assimetrias subsequentes.

A observação de recém-nascidos demonstra, do mesmo modo, uma variedade de tendências motoras laterais. A assimetria lateral mais investigada nesta idade tem sido a orientação da cabeça a partir de uma posição na linha média do corpo. Nume-rosos estudos demonstraram que a maioria dos bebés viram a cabeça para o lado direito quando deitados em decúbito dorsal (Cioni & Pellegrinetti, 1982; Ecklund-Flo-res & Turkewitz, 1996; Grattan et al., 2005; Hopkins, Lems, Janssen, & Butterworth, 1987; Liederman & Kinsbourne, 1980; Michel & Harkins, 1986; Ronnqvist, Hopkins, van Emmerik, & de Groot, 1998; Konishi, Kuryiama, Mikawa, & Suzuki, 1987; Ronnqvist & Hopkins, 1998; Thompson & Smart, 1993). Alguns autores (Hopkins et al., 1987; Michel & Harkins, 1986) sugerem que a posição da cabeça, a visualização da mão e o contacto da mão com a boca formam uma sinergia lateral que pode influenciar o de-senvolvimento da lateralidade manual.

Outros comportamentos motores, tais como o reflexo de preensão (Tan, Ors, Kurkcuoglu, & Kutlu, 1992a; Tan & Tan, 1999; Thompson & Smart, 1993), o reflexo do caminhar (Cioni & Pellegrinetti, 1982; Melekian, 1981; Peters & Petrie, 1979), o reflexo tónico do pescoço (Cioni & Pellegrinetti, 1982; Grattan et al., 2005) foram ainda investigados nos primeiros dias de vida dos bebés. Os resulta-dos destes esturesulta-dos são, no entanto, inconclusivos, visto que alguns observaram uma assimetria favorecendo a direita (Melekian, 1981; Peters & Petrie, 1979; Tan et al., 1992a; Tan & Tan, 1999) enquanto que outros não observaram assimetrias nestes comportamentos (Cioni & Pellegrinetti, 1982; Tan et al., 1992b; Thompson & Smart, 1993).

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Por volta dos dois ou três meses, quando o bebé começa a demonstrar um controlo mais voluntário, começam a surgir outras tendências laterais. Por exemplo, tem sido observado que a duração média na manutenção de um objecto na mão é significativamente maior na mão direita do que na esquerda (Caplan & Kinsbourne, 1976; Petrie & Peters, 1980; Strauss, 1982). Petrie e Peters (1980) por exemplo, ob-servaram bebés com apenas 17 dias e posteriormente com 51, 82 e 108 dias, e refe-rem que a maioria dos bebés para além de manterefe-rem um objecto por mais tempo na mão direita, também produziram uma preensão mais forte com essa mão.

A partir do terceiro mês de vida, os bebés começam a usar as suas mãos e braços de uma forma mais voluntária, o que permite a observação de uma preferência no uso de uma das mãos em comportamentos como o de levar as mãos à boca, apontar e alcançar objectos. Apesar de se observar uma tendência predominante-mente para a direita (Corbetta & Thelen, 1999; Iverson & Fagan, 2004; Michel & Harkins, 1986), o uso preferencial de uma das mãos segue trajectórias não lineares (Thelen, Corbetta, & Spencer, 1996). Ramsay (1980) não observou nenhuma tendência no uso de qualquer das mãos aos 5 meses de idade, mas aos 7 meses presenciou uma tendência para o uso da mão direita que persistiu até aos 9 meses.

No período que antecede o final do primeiro ano de vida, a criança começa a discriminar o uso de ambas as mãos na manipulação de objectos, assumindo cada mão uma função qualitativamente diferente. Emerge, então, uma tendência para a preferência de uma das mãos na manipulação dos objectos, enquanto que a outra mão exerce uma função secundária (Fagard & Marks, 2000; Ramsay & Weber, 1986). Esta preferência demonstra padrões em mudança que, de acordo com alguns auto-res, está ligada às experiências sensório-motoras, nomeadamente de sentar, a gati-nhar e a andar (Corbetta & Bojczyk, 2002; Corbetta & Thelen, 1996, 1999; Corbetta, Williams, & Snapp-Childs, 2006; Ramsay & Willis, 1984).

A partir do primeiro ano de vida o uso da mão aumenta em tarefas que exigem habilidade motora fina (Fagard & Marks, 2000; Geerts et al., 2003). Rice, Plomin e De Fries (1984), observaram crianças entre os 12 meses e os 24 meses de idade envol-vidas em actividades livres. Os resultados apontaram para uma clara preferência pelo uso de uma das mãos aos 24 meses de idade. Bresson, Maury, Pieraut-Bonniec e Schonen (1977) também descrevem um uso maior de uma das mãos (direita) a partir dos 22 meses numa tarefa de alcançar objectos.

Alguns autores (Corbetta & Thelen, 1999; Corbetta et al., 2006) são da opinião que a preferência manual pode começar a demonstrar maior estabilidade por volta dos três anos de idade porque, nessa altura, as crianças já alcançaram e ultrapassa-ram a maioria das mais importantes transições motoras típicas do desenvolvimento inicial, tais como aprender a andar e aprender a falar. Contudo, a idade em que se

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estabelece a preferência manual não é consensual. Uns autores referem que já é notória a partir dos 13 meses (Bates et al., 1986), outros mencionam os 18 meses (Gottfried & Bathurst, 1983) e outros ainda apontam para os 2 anos de idade (Archer, Campbell, & Segalowitz, 1988) e 3 anos (Hinojosa, Sheu, & Michel, 2003).

A ocorrência de assimetrias laterais no início da gestação aponta, de acordo com alguns autores, para uma possível origem genética, enraizada na nossa herança filo-ontogénica (Annett, 1985; Levy & Nagylaki, 1972; McCartney & Hepper, 1999; McManus, 1985).

As influências ambientais impostas ao recém-nascido estão na base de outra linha de pensamento, a qual atribui à mãe um papel fundamental (Harkins & Michel, 1988; Provins, 1997), pois é ela que determina o ambiente do bebé podendo o seu comportamento afectar o recém-nascido. Dois dos comportamentos que têm sido re-lacionados com a posterior lateralidade da criança é o lado para o qual a mãe segura o bebé quando o pega ao colo, bem como o lado para o qual o deita. Os resultados evidenciam uma clara tendência para o lado direito em ambos os comportamentos (Harris & Fitzgerald, 1985; Manning & Denman, 1994; Thompson & Smart, 1993; Turnbull, Rhys-Jones, & Jackson, 2001; van der Meer & Husby, 2006).

Tem também sido sugerido que as tendências assimétricas observadas em bebés reflectem o funcionamento de mecanismos neurais (Turkewitz, 1980). Uma das teorias mais populares sobre a assimetria lateral foi proposta por Michel (1998) e Michel, Sheu e Brumley (2002), numa versão modificada da Teoria da Lateralização Progressiva, apresentada por Lenneberg em 1967 (Hinojosa et al., 2003). Ao contrário da versão original, que atribui à maturação do sistema nervoso um papel importante na lateralização das funções, a proposta de Michel confere à interacção do indivíduo com o ambiente o desenvolvimento da lateralização. Assim, enquanto que a primeira versão sugere que as assimetrias laterais progridem a partir de um estado simétrico, a versão modificada propõe que não existe a necessidade de uma simetria inicial, sen-do que as tendências laterais simples, uma vez estabelecidas, influenciam o desen-volvimento de tendências laterais mais complexas. Consequentemente, a preferência manual no adulto seria o resultado mais complexo da lateralidade manual humana (Hinojosa et al., 2003).

Assim, explicar as assimetrias laterais requer, de acordo com Fagard (2006), um entendimento sobre os eventos genéticos, ambientais e culturais, que lhes dão forma durante o desenvolvimento de um indivíduo.

Em síntese, os dados apresentados anteriormente mostram que uma propor-ção significativa de bebés demonstram reflexos e movimentos espontâneos mais for-tes e mais coordenados no lado direito do corpo do que do lado esquerdo. Porém, a observação dos comportamentos laterais de crianças até aos 3 anos de idade permite

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referir que essa tendência lateral se encontra em mudança, sugerindo um sistema ainda em fluxo. Não obstante, à medida que a idade avança torna-se notória a prefe-rência consistente por um dos lados. Apesar de muitos estudos confirmarem o facto da preferência manual se estabilizar gradualmente com a idade, não há consenso relativamente à idade com que isto acontece. A raridade de estudos longitudinais cons-titui uma limitação nas investigações quanto a este aspecto da preferência manual.

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