Tribunal da Relação de Lisboa Processo nº 2811-E/1993.L1-2 Relator: ONDINA CARMO ALVES Sessão: 25 Junho 2009
Número: RL
Votação: UNANIMIDADE Meio Processual: AGRAVO
Decisão: CONFIRMADA A DECISÃO
EXECUÇÃO OPOSIÇÃO À EXECUÇÃO OBRIGAÇÃO SOLIDÁRIA MORATÓRIA NOMEAÇÃO DE BENS À PENHORA
Sumário
1. O incidente de oposição à penhora, regulado nos artigos 863º-A e 863º-B, do Código de Processo Civil, na redacção decorrente da reforma operada em 1995/1996, visa obter a declaração da ilegalidade da penhora e alcançar o seu levantamento. Trata-se do meio incidental específico de que dispõe o
executado, aí cabendo as situações em que a penhora efectuada se configura como legalmente inadmissível, no todo ou em parte, por atingir ilegitimamente direitos do executado.
2. Dada a solidariedade das obrigações de avalista e avalizado e correspectiva faculdade de o credor/portador de uma letra ou livrança poder accionar
qualquer deles, em conjunto ou singularmente, sem vinculação a qualquer ordem, há que concluir que o executado, na qualidade da avalista, se apresenta perante o credor - o exequente - como um devedor autónomo,
respondendo por uma obrigação própria, sem que perante ele possa invocar a acessoriedade ou outro benefício, designadamente o direito de sub-rogação que o § 3º do art. 32º LULL lhe confere e não pode recusar o cumprimento da sua obrigação, pois não lhe é aplicável o disposto no artigo 638.º, n.º 2, do Código Civil.
3. Estando em causa uma obrigação solidária e não uma obrigação subsidiária, não é lícito ao opoente, invocar que a exequente teria de penhorar em
primeiro lugar bens da aceitante – a 1ª executada – já que, nesta situação, não tem qualquer aplicação o disposto no artigo 828º do CPC.
comuns podem ser imediatamente penhorados, mesmo que a execução seja instaurada só contra um dos cônjuges, para cobrança de dívida pela qual apenas ele seja responsável, apenas restando ao cônjuge do executado a possibilidade de requerer a separação das meações ou de juntar certidão comprovativa da pendência da acção em que a separação já tenha sido
requerida, no prazo de que dispõe para a oposição, devendo o exequente, para esse efeito, no momento em que nomeia bens comuns do casal à penhora, pedir que a citação do cônjuge.
5. Sendo a dívida da responsabilidade exclusiva do cônjuge executado, a penhora deve começar pelos seus bens próprios e só depois poderá ser penhorada a sua meação.
6. A nomeação de bens pelo executado nunca pode comprometer os interesses do exequente, visto ter de respeitar as seguintes condições: a) Tem de ser apresentada tempestivamente; b) Tem de respeitar as exigências do disposto nos artigos 833º e 834º do CPC, sendo que só na falta de bens móveis ou imóveis poderá o executado nomear à penhora direitos.
(Sumário elaborado pela relatora)
Texto Integral
ACORDAM OS JUÍZES DA 2ª SECÇÃO DO TRIBUNAL DA RELAÇÃO DE LISBOA
I. RELATÓRIO
SOCIEDADE, S.A., actualmente CAIXA, S.A. intentou, em 18.10.1993, contra SOC, S.A., e V..., acção executiva, servindo de título executivo uma letra de câmbio, no montante de Esc. 1.666.771$00, nela figurando, como aceitante, a primeira executada e como avalistas, o segundo executado.
Após citação dos executados, tendo o 2º executado sido citado em 18.04.1994 (fls. 161) e, devolvido à exequente o direito de nomeação de bens à penhora, esta apresentou o requerimento de 10.11.2000, através do qual nomeou à penhora bens do 2º executado – saldo de contas bancárias, 4.041,95 avos de um prédio rústico e uma fracção autónoma, que identificou - invocando que esta fracção autónoma se encontrava registada a favor do executado, casado no regime de comunhão de adquiridos com B..., pelo que requereu a citação do cônjuge deste executado.
Por despacho de 22.11.2000, foi ordenada a penhora dos saldos das indicadas contas bancárias, com a expedição de deprecada para penhora do imóvel e notificada a exequente para identificar os comproprietários do identificado
prédio rústico.
Por Termo de 30.04.2001 foi penhorada a fracção autónoma designada pela letra "G", correspondente ao 2° andar direito, do prédio urbano sito na Rua ..., freguesia de C...., inscrito na matriz da referida freguesia sob o art.° .... e descrito na Conservatória do Registo Predial sob o n.° ...., fracção essa que se mostra inscrita a favor do 2º executado, tendo sido enviada a este executado carta registada, datada de 16.05.2001, notificando-o da efectivação da aludida penhora (fls. 164).
Por requerimento de 04.11.2001, a exequente veio identificar os
comproprietários do prédio rústico, tendo sido proferido despacho, em
17.09.2001, ordenando a penhora do direito do executado no imóvel, através da notificação dos comproprietários.
Por requerimento de 14.05.2002, a exequente fez juntar ao processo de execução a certidão comprovativa do registo da penhora relativa à fracção autónoma designada pela letra "G" ( ...) e dos respectivos ónus e encargos que sobre a mesma incidia e no mesmo requerimento solicitou o cumprimento do disposto no artigo 871º do CPC, uma vez que existia penhora anterior e, sobre tal requerimento, recaiu o despacho de 21.06.2002, sustando a
execução quanto tal bem, tendo sido notificado ao executado (fls. 165 e 168). Por despacho de 15.05.2008 foi declarada a nulidade da notificação ao
executado, nos termos do artigo 838º, nº 1 do CPC, determinando-se nova notificação, o que foi efectuado, por carta registada datada de 30.05.2008 (fls. 167 a 169).
O executado V.... deduziu, em 09.06.2008, requerimento de oposição à penhora, aí invocando que a fracção penhorada, que é a casa de morada de família, é um bem comum do casal, e que a 1ª executada tem um bem apto a satisfazer a quantia exequenda e as custas processuais, bem esse que
corresponde a 1/66,30 avos do prédio descrito na Conservatória do Registo Predial com o nº ... a fls. ... do livro .... e inscrito na respectiva matriz sob o artigo .... da Secção ....
Mais alega que a exequente não invocou no requerimento de nomeação à penhora a falta ou insuficiência de outros bens que não fossem bens comuns do casal, nem nomeou à penhora ou alegou que o bem pertencente à 1ª
executada fosse insuficiente para pagar a quantia exequenda, sendo que tinha em primeiro lugar que ser penhorado o bem da 1ª executada e só depois, verificando-se a insuficiência do mesmo para satisfação da dívida, poderiam ser nomeados bens comuns do executado.
Pede, por isso, o executado, na deduzida oposição à penhora, que seja ordenado o levantamento da penhora da identificada fracção.
deduzida, por entender que o imóvel penhorado é o único meio da exequente ver ressarcido o crédito, sendo inviável a penhora dos bens indicados pelo executado, atenta a dificuldade da venda dos mesmos.
Mais alega, a exequente, que se opõe à substituição do imóvel penhorado por qualquer outro, uma vez que este é o único que se afigura como passível de garantir o pagamento da dívida.
Salienta, por último, a exequente, que os executados são devedores solidários, nos termos dos artigos 28º e 47º da Lei Uniforme das Letras e Livranças, pelo que a exequente poderá ver satisfeito o seu direito de crédito à custa do
património de um só.
Apresentou igualmente o executado V...., sem prejuízo da oposição à penhora já deduzida, requerimento nos termos do nº 2 do artigo 926º do CPC, através do qual invoca que a fracção penhorada constitui casa de morada de família do executado, nela habitando, para além do executado, o seu cônjuge e um filho do casal, requerendo a substituição da mesma outros direitos que identificou, a ele pertencentes bem como à 1ª executada.
Sobre a oposição à penhora deduzida pelo 2º executado, o Tribunal a quo proferiu decisão de 27.06.2008, julgando-a improcedente, nos seguintes termos:
Desde logo, tendo em atenção o titulo executivo não é possível saber se nos encontramos perante uma dívida comunicável ou não.
Ainda que nos encontremos perante uma dívida incomunicável e se aplique o disposto no artigo 1696º, nº 1 do CPC sempre se dirá que dos autos não resultam à data quaisquer bens próprios do executado, à excepção do direito de meação que se encontra penhorado a fls. 56. Acresce que o executado V... foi citado para pagar ao exequente ou nomear bens à penhora, sob pena de devolução do direito à exequente e nada fez.
Os presentes autos de execução foram instaurados em 1993 e dos mesmos resulta uma clara falta ou insuficiência de bens.
Por fim, e sem necessidade de mais considerações, julgo improcedente o presente incidente de oposição à penhora.
Custas pelo requerente fixando-se a taxa de justiça em 2 UCs.
Por outro lado, e quanto ao requerimento do 2º executado, suscitando a substituição da fracção penhorada por outros direitos dos executados, o Tribunal a quo proferiu decisão nos seguintes termos:
Sendo os executados devedores solidários nada obriga a penhorar primeiro os bens de um e depois os do outro.
dificuldade de penhora de direitos, principalmente quando são muitos os contitulares (vide penhora requerida a fls. 91/95) e a dificuldade, senão impossibilidade, de venda dos mesmos.
Assim sendo, indefiro o requerido.
Custas pelo requerente pelo incidente a que deu causa, fixando-se a taxa de justiça em 1 UC.
Notifique.
Inconformado com o assim decidido, o 2º executado interpôs recurso de agravo incidente sobre os aludidos despachos.
São as seguintes as CONCLUSÕES do agravante:
i) A fracção autónoma que se encontra penhorada à ordem deste processo é
casa de morada de família e bem comum do casal e a dívida exequenda é da responsabilidade exclusiva do recorrente;
ii) Nos termos do n.° 1 do art.° 1696° do Cód. Civil, quando a dívida é da
responsabilidade exclusiva de um dos cônjuges, respondem em primeiro lugar os bens próprios do cônjuge devedor e só depois, na sua falta ou insuficiência, a sua meação nos bens comuns.
iii) Aquela norma do Código Civil está explanada no art.° 125° do Cód. Proc.
Civil e ambas têm de ser articuladas como n.° 5 do art.° 828° do Cód. Proc. Civil, nos termos do qual, são penhorados em primeiro lugar os bens que respondem prioritariamente pelo cumprimento da obrigação e apenas no caso daqueles faltarem ou serem insuficientes, pode o exequente promover a
penhora dos bens que respondem subsidiariamente pela dívida.
iv) À data em que foi efectuada a penhora daquela fracção autónoma existia e
ainda existe um bem imóvel, propriedade da co-executada Soc, S.A., apta a satisfazer a quantia exequenda e custas processuais.
v) Face à existência daquele bem, a exequente tinha em primeiro lugar que
penhorar bens da executada Soc ou bens próprios do recorrente, os quais respondem prioritariamente pela dívida, e só depois, verificando-se a
insuficiência ou inexistência dos mesmos para a satisfação da dívida – o que deveria ter sido alegado pela exequente no seu requerimento de nomeação de bens à penhora – poderiam ser nomeados bens comuns do recorrente e do seu cônjuge.
vi) Não tendo a executada alegado e demonstrado a insuficiência e
inexistência de bens que respondiam em primeiro lugar e constatando-se a existência de um bem nessas condições através do requerimento de oposição à execução, tinha a oposição à penhora de ser declarada procedente e
vii) A M.a Juiz não interpretou correctamente as normas legais expressas nas
conclusões supra referidas as quais são aplicáveis aos factos verificados, merecendo, por isso, ser revogado o despacho recorrido.
viii) Por outro lado, tendo o recorrido apresentado um requerimento para
substituição da penhora da fracção autónoma em causa por outro bens de que é proprietário o recorrente e a co-executada Soc, o mesmo só podia ser
indeferido com base em factos concretos impeditivos da referida substituição.
ix) Tendo a M.a Juiz baseado a sua decisão apenas em suposições e deduções
sem apoio legal e não recaindo sobre os bens apresentados para substituição quaisquer ónus ou encargos por contrapartida com o bem a substituir sobre o qual recai mais do que uma penhora anterior à da exequente, tem de ser revogado o despacho recorrido.
Pede, assim, o agravante, que sejam revogados os despachos recorridos devendo, consequentemente, ser ordenado o levantamento da penhora da fracção autónoma designada pela letra "G", correspondente ao 2° andar
direito do prédio sito na Rua ..., freguesia de C..., inscrito na matriz sob o art. ° ... e descrito na Conservatória do Registo Predial sob o n.° .... (deverá
pretender referir ....) e registado a favor do executado V..., e ser autorizada a substituição da referida fracção autónoma pelos bens por si indicados.
A recorrida não apresentou alegações.
O Exmo. Juiz do Tribunal a quo manteve o decidido. Colhidos os vistos legais, cumpre apreciar e decidir. II. ÂMBITO DO RECURSO DE AGRAVO
Importa ter em consideração que, de acordo com o disposto nos artigos 684º, nº 3 e 690º, nº 1 do Código de Processo Civil, é pelas conclusões da alegação do recorrente que se define o objecto e se delimita o âmbito do recurso, sem prejuízo das questões de que o tribunal ad quem possa ou deva conhecer oficiosamente, apenas estando este tribunal adstrito à apreciação das
questões suscitadas que sejam relevantes para conhecimento do objecto do recurso.
Assim, e face ao teor das conclusões formuladas pelo recorrente, com relação aos dois recursos de agravo interpostos, a solução a alcançar pressupõe a análise das seguintes questões:
1º AGRAVO
– Incidente sobre a decisão que julgou improcedente a oposição à penhora
-i) DOS FUNDAMENTOS DE OPOSIÇÃO À PENHORA E A PENHORABILIDADE SUBSIDIÁRIA
Para apurar se a exequente tinha que nomear à penhora, em primeiro lugar:
a) bens da 1ª executada ou,
b) bens próprios do 2º executado/agravante, que respondem prioritariamente pela dívida.
2º AGRAVO
– Incidente sobre a decisão que indeferiu o requerimento do agravante de 09.06.2008
-ii) A SUBSTITUIÇÃO DA PENHORA DA FRACÇÃO AUTÓNOMA
NOMEADA PELO EXEQUENTE POR OUTRO BEM, A REQUERIMENTO DO EXECUTADO EM MOMENTO SUBSEQUENTE.
***
III . FUNDAMENTAÇÃO A - OS FACTOS
Com relevância para a decisão a proferir, importa ter em consideração a alegação factual referida no relatório deste acórdão, cujo teor aqui se dá por reproduzido.
B - O DIREITO 1º AGRAVO
– Incidente sobre a decisão que julgou improcedente a oposição à penhora
-i) DOS FUNDAMENTOS DA OPOSIÇÃO À PENHORA E A
PENHORABILIDADE SUBSIDIÁRIA – a subsidiariedade pessoal e real Como salienta Lopes do Rego, Comentários ao C.P.Civil, pág. 577 o incidente de oposição à penhora, regulado nos artºs 863º-A e 863º-B, do Código de Processo Civil, na redacção decorrente da reforma operada em 1995/1996, visa obter a declaração da ilegalidade da penhora e alcançar o seu
levantamento.
as situações em que a penhora efectuada se configura como legalmente inadmissível, no todo ou em parte, por atingir ilegitimamente direitos do executado.
Impõe-se, consequentemente, ao executado, a invocação de um dos
fundamentos expressamente enumerados nas várias alíneas do citado artigo 863º-A do CPC, ou seja:
a) Inadmissibilidade da penhora dos bens concretamente apreendidos ou da
extensão com que ela foi realizada;
b) Imediata penhora de bens que só subsidiariamente respondem pela dívida
exequenda;
c) Incidência da penhora sobre bens, que não respondem, nos termos do
direito substantivo, pela dívida exequenda.
A alínea a) refere-se, na sua primeira parte, sobretudo aos casos de
impenhorabilidade processual, quer absoluta (artigo 822º), quer relativa, esta apenas fora das hipóteses autorizadas (artigo 823º) e na sua segunda parte, aos casos de impenhorabilidade parcial (artigo 824º). Ainda esta alínea
contempla a penhora de uma parte especificada de bens indivisos ou de bens compreendidos num património comum ou duma fracção de qualquer deles, em execução apenas movida contra algum ou alguns dos contitulares (artigo 826º, CPC), bem como, em caso de penhora de imóveis, a sua extensão e frutos expressamente excluídos ou sobre os quais exista algum privilégio (artigo 842º, nº1).
A alínea b) contempla as situações de penhorabilidade subsidiária, tanto na vertente pessoal como na vertente real, como se encontram caracterizadas no artigo 828º do CPC, a primeira nos seus nºs 1 a 4, a segunda no seu nº 5. No que concerne à primeira vertente, pode deduzir oposição o executado, enquanto devedor subsidiário, por se não encontrarem penhorados e alienados os bens do devedor principal, desde que invoquem o benefício da excussão, quer na acção executiva (artigo 828º, nº1, 2 e 4), quer na acção declarativa, com a condenação nesta acção a revelar que as suas responsabilidades são subsidiárias (artigo 641º, do CC, quanto à fiança).
No que respeita à segunda vertente, pode estar em causa uma execução movida apenas contra um dos cônjuges por dívidas de que apenas ele é responsável e se terem penhorado bens comuns do casal ou uma execução movida apenas contra um dos cônjuges por dívidas de que são responsáveis ambos os cônjuges e se terem penhorado bens próprios de um deles, quando os comuns garantem o pagamento da dívida.
A alínea c) alude a casos de impenhorabilidade, nos termos do direito substantivo, de determinados bens, por não responderem pela dívida
Processo de Execução, Almedina, 2ª ed., 197 e 198. Assim, a ilegalidade da penhora pode resultar:
a) Da violação dos limites impostos pela lei de processo à penhorabilidade dos bens;
b) De não ter sido respeitada norma que considera como meramente
subsidiária a penhorabilidade de certos bens do sujeito passivo da execução, condicionando-a à prévia excussão de outro património ou à verificação de insuficiência dos bens que respondem prioritariamente pela dívida exequenda; c) De a penhora haver postergado as normas de direito material que, criando um regime de autonomia ou separação de patrimónios, vinculam
especificamente determinados bens à responsabilidade de certas dívidas. A oposição à penhora é um meio de oposição consagrado na lei processual civil, por força da reforma operada pelos Decretos-Leis nº 329-A/95 de 12 de Dezembro e nº 180/96 de 25/9), sendo certo que o regime decorrente da reforma é aplicável, nesta matéria, às penhoras ordenadas após a entrada em vigor destes diplomas, ou seja, em 01.01.1997, o que sucede no caso dos autos.
Após esta perfunctória análise dos fundamentos de oposição à penhora, importa ponderar:
a) Tinha a exequente que nomear à penhora, em primeiro lugar, bens da 1ª executada que respondem prioritariamente pela dívida
exequenda
Conforme decorre do título executivo, os executados foram demandados por virtude da falta de pagamento de uma letra de câmbio, na qual a 1ª executada figura como aceitante e o 2º executado figura como avalista.
Dispõe o artigo 30º da Lei Uniforme Sobre Letras e Livranças que o
pagamento de uma letra pode ser no todo ou em parte garantido por aval. O aval é uma garantia de pagamento de uma letra ou livrança por parte de um dos seus subscritores. Esta garantia é dada por uma pessoa a favor de outra que já é obrigada nesse título de crédito. No caso vertente, o ora agravante, apôs a sua assinatura na letra em causa, no sítio destinado ao avalista, tornando-se a partir desse acto mais um obrigado cambiário.
O artigo 32º da LULL estabelece que o dador de aval é responsável da mesma maneira que a pessoa por ele afiançada, mantendo-se a sua obrigação mesmo no caso de a obrigação que ele garantiu ser nula por qualquer razão que não seja um vício de forma.
função específica do aval é garantir ou caucionar a obrigação de certo subscritor cambiário”.
Resulta do artigo 47º da LULL que os sacadores, aceitantes, endossantes ou avalistas são todos solidariamente responsáveis para com o portador, e este tem o direito de accioná-las individual ou colectivamente, sem estar adstrito a observar a ordem por que elas se obrigaram.
Tratando-se de uma garantia pessoal, apresenta os traços da fiança, sendo certo que o vocábulo «afiançada», constante do § 1, do art.º 32.º da LULL, não se reporta à figura jurídica da fiança, antes se referindo à pessoa cuja
obrigação fica pessoalmente garantida por aval – v. Ac. do STJ de 24.01.2008 (Pº 3433/07) acessível na Internet, no sítio www.dgsi.pt.
O aval distingue-se, no entanto, da fiança já que nesta a responsabilidade do fiador é subsidiária, que se concretiza no chamado benefício da excussão que consiste no direito que pertence ao fiador de recusar o cumprimento enquanto não estiverem excutidos todos os bens do devedor principal. E,
inclusivamente, depois dessa excussão, se provar que o crédito não foi satisfeito por culpa do credor (artigo 638º, n. os 1 e 2 do C.C.).
Ao invés, a responsabilidade do avalista não é subsidiária da do avalizado, mas solidária, pelo que o avalista pode ser chamado a cumprir a obrigação de
pagamento independentemente de excussão prévia dos bens da pessoa por quem se vinculou.
Na verdade, conforme resulta do citado artigo 47º da LULL a obrigação do avalista e a do avalizado, não estão numa relação de acessoriedade e
subsidiariedade semelhante às obrigações do fiador e do afiançado, mas antes de solidariedade.
Dada a solidariedade das obrigações de avalista e avalizado e correspectiva faculdade de o credor/portador de uma letra ou livrança poder accionar qualquer deles, em conjunto ou singularmente, sem vinculação a qualquer ordem, há que concluir que o 2º executado/agravante, na qualidade da avalista, se apresenta perante o
credor, o ora exequente, como um devedor autónomo, respondendo por uma obrigação própria, sem que perante ele possa invocar a acessoriedade ou outro benefício, designadamente o direito de sub-rogação que o § 3º do art. 32º LULL lhe confere e não pode recusar o cumprimento da sua obrigação, pois não lhe é aplicável o disposto no artigo 638.º, n.º 2, do Código Civil. Decorre do que acima ficou dito que a obrigação do agravante, constituída no momento da dação do aval, se mantém de pleno como obrigação principal e solidária com a da 1ª executada, podendo o cumprimento da dívida ser exigido ao recorrente.
E, estando em causa uma obrigação solidária e não uma obrigação subsidiária, não é lícito ao opoente, invocar que a exequente teria de penhorar em
primeiro lugar bens da aceitante – a 1ª executada – já que, nesta situação, não tem qualquer aplicação o disposto no artigo 828º do CPC.
Improcede, assim, nessa parte, as conclusões do recorrente, com relação ao 1º agravo.
b) Tinha a exequente que nomear à penhora, em primeiro lugar, bens próprios do 2º executado/agravante, que respondem prioritariamente pela dívida
O artigo 1696º do Código Civil, na sua redacção primitiva, dispunha que no caso de serem insuficientes os bens próprios do cônjuge devedor, responderia pela dívida a meação daquele nos bens comuns, mas que o cumprimento só era exigível depois de dissolvido, declarado nulo ou anulado o casamento, ou depois de decretada a separação judicial de pessoas e bem ou a simples separação judicial de bens.
Este regime foi alterado pelo Decreto-Lei nº 329-A/95 de 12 de Dezembro (através do aditamento do artigo 27º operado pelo DL nº 180/96 de 25/9), pondo fim à moratória forçada exigida para se prosseguir execução na meação dos bens comuns.
Com efeito, o artigo 1696º, n.º 1 do Código Civil, na redacção introduzida pelo artigo 4º, n.º 1 do Dec. Lei n.º 329-A/95, de 12-12, que entrou em vigor em 01.01.1997, e que se aplica às causas pendentes à data da sua entrada em vigor (art.º 27º do Dec. Lei n.º 329-A/95, de 12-12), diz agora que:
“1. Pelas dívidas da exclusiva responsabilidade de um dos cônjuges respondem os bens próprios do cônjuge devedor e, subsidiariamente, a sua meação nos bens comuns.
2. Respondem, todavia, ao mesmo tempo que os bens próprios do cônjuge devedor:
a) Os bens por ele levados para o casal ou posteriormente adquiridos a título gratuito, bem como os respectivos rendimentos;
b) O produto do trabalho e os direitos de autor do cônjuge devedor; c) Os bens sub-rogados no lugar dos referidos na alínea a)”.
Com a supressão da moratória, passou a permitir-se a imediata execução dos bens comuns, logo que se verifique a falta ou insuficiência dos bens próprios do devedor. No que diz respeito a bens que respondem pelas dívidas da exclusiva responsabilidade de um dos cônjuges, apenas se impõe, pois, a
observação do principio da subsidiariedade.
Por isso, todas as dívidas mesmo as da exclusiva responsabilidade de um cônjuge podem dar lugar à penhora subsidiária dos bens comuns, sem ter que esperar pela dissolução do casamento, a declaração de nulidade ou anulação ou ainda a separação de bens.
Estabelece o artigo 825º do Código de Processo Civil, na redacção introduzida pelo Decreto-Lei nº 329-A/95, de 12 de Dezembro que: 1- Na execução movida contra um só dos cônjuges podem ser penhorados bens comuns do casal, conquanto que o exequente, ao nomeá-los à penhora, peça a citação do cônjuge do executado para requerer a separação de bens.
Face ao estipulado no citado artigo 825º, nº 1, do CPC a penhora subsidiária dos bens comuns não pode ser realizada, enquanto não for requerida a citação do cônjuge do executado, sendo, porém, condição suficiente que esta seja solicitada, ainda que a mesma só venha a ser ordenada em momento posterior à respectiva penhora.
Tendo deixado de haver lugar à moratória forçada à execução do credor, uma vez que os bens comuns podem ser, imediatamente penhorados, mesmo que a execução seja instaurada só contra um dos cônjuges, para cobrança de dívida pela qual apenas ele seja responsável, apenas restará ao cônjuge do executado a possibilidade de requerer a separação das meações ou de juntar certidão comprovativa da pendência da acção em que a separação já tenha sido
requerida, no prazo de que dispõe para a oposição, devendo o exequente, para esse efeito, no momento em que nomeia bens comuns do casal à penhora, pedir que a citação do cônjuge.
E, conforme antes ficou dito, decorre dos artigos 1695º, nº 1 e 1696º, nº 1 ambos do Código Civil que os bens comuns do casal respondem pelas dívidas da responsabilidade de ambos os cônjuges e que a meação nos bens comuns responde subsidiariamente pelas dívidas da exclusiva responsabilidade de um dos cônjuges.
Sendo a dívida da responsabilidade exclusiva do cônjuge executado, a penhora deve, portanto, começar pelos seus bens próprios e só depois poderá ser
penhorada a sua meação.
Ora, no caso vertente, quando a exequente, por requerimento que deu entrada em Tribunal, em 10.11.2000, nomeou à penhora os bens conhecidos da
exequente – direito incidente sobre um prédio rústico e uma fracção autónoma - já o executado/agravante havia sido citado, em 18.04.1994, para pagar ou nomear bens à penhora, não se mostrando dos autos – nem tal foi invocado – que o mesmo haja procedido a qualquer nomeação de bens, razão pela qual foi devolvido à exequente tal direito.
cônjuge do executado, ora agravante, como o exige o disposto no anteriormente citado artigo 825º, nº 1 do CPC.
Tão pouco resulta dos autos que o direito de executado sobre o identificado prédio rústico fosse suficiente para assegurar o pagamento da quantia exequenda e custas prováveis.
Resulta, pois, correcta a ordenada penhora simultânea de todos os bens conhecidos do executado, incluindo o identificado bem comum, sendo certo que, como se invoca na decisão recorrida, nada se sabe sobre a natureza comunicável ou incomunicável da dívida exequenda.
Improcede, consequentemente, o recurso de agravo que incidiu sobre a decisão recorrida que julgou improcedente a oposição à penhora,
confirmando-se a mesma.
Vencido, é o recorrente responsável pelas custas respectivas - artigo 446º, nºs 1 e 2, do Código de Processo Civil.
2º AGRAVO
– Incidente sobre a decisão que indeferiu o requerimento do agravante de 09.06.2008
-iii) A SUBSTITUIÇÃO DA PENHORA DA FRACÇÃO AUTÓNOMA
NOMEADA PELO EXEQUENTE POR OUTRO BEM, A REQUERIMENTO DO EXECUTADO EM MOMENTO SUBSEQUENTE
Importa, então, apurar se deveria ter sido deferido o requerimento
apresentado pelo executado/agravante, visando a substituição da penhora da fracção autónoma pelos direitos incidentes sobre os prédios que o 1º
executado/agravante identificou, pertencentes à 1ª e ao 2º executados - 1/66,30 avos e 29,817/127,850 avos indivisos, respectivamente – como se sustenta nas alegações de recurso.
Invoca o executado, para tanto, a circunstância do imóvel penhorado ser a casa de morada de família e, em caso de venda, não dispor de outro imóvel para onde possa ir habitar.
Como é sabido, e decorre do disposto no artigo 924º, nº 1 do CPC, na redacção em vigor à data da propositura da acção executiva – Outubro de 1992 - o executado é citado para pagar ou nomear bens à penhora, podendo ainda deduzir oposição à execução.
É verdade que decorre da lei processual civil à data aplicável - artigos 833º, 836º , 463º, 465º e 466º, nº 2 todos do CPC - resulta que o direito de nomear bens à penhora pertence, em primeira linha, ao executado e,
subsidiariamente, ao exequente. A este propósito diz ALBERTO DOS REIS, Processo de Execução, Volume 2º, Coimbra Editora, Coimbra, 1982, 78: “ Compreende-se. A execução, meio de satisfação coactiva do direito do
exequente, não deve sacrificar o executado além do que for necessário para a realização do fim em vista. A satisfação coactiva deve, quanto possível, da satisfação voluntária. Ora, assim como o devedor, quando precise de vender bens para pagar aos seus credores, escolhe os que quer sacrificar, também na execução se reconhece ao executado o direito de indicar os bens que hão-de ser penhorados e posteriormente vendidos. Ao exequente é, em princípio, indiferente que a dívida lhe seja paga à custa do sacrifício do prédio A ou do prédio B, destes ou daqueles bens mobiliários, de tais ou de tais papéis de crédito; o que lhe interessa é receber o montante da dívida. Mas o princípio da indiferença cessa em certas circunstâncias. Importa ao credor receber a
importância do seu crédito; mas também lhe importa receber depressa e sem grande custo e incómodo. Por isso, há que conciliar o interesse do executado em escolher os bens a penhorar com o interesse do exequente em que a execução chegue ao fim rápida e facilmente. Daí as regras exaradas nos
artigos 834.º e 836.º, regras que se resumem assim: O executado tem o direito de nomear os bens a penhorar, mas há-de usar dele em termos que não
prejudiquem nem comprometam o fim essencial da acção executiva: satisfação pronta, segura e fácil do direito do exequente.”.
Deverá, pois, entender-se que a nomeação de bens pelo executado nunca pode comprometer os interesses do exequente, visto ter de respeitar as seguintes condições:
a) Tem de ser apresentada tempestivamente;
b) Tem de respeitar as exigências do disposto nos artigos 833º e 834º do CPC, sendo que só na falta de bens móveis ou imóveis poderá o executado nomear à penhora direitos.
No caso em apreciação, os executados foram citados e nem pagaram a quantia exequenda, nem indicaram bens a estes pertencentes susceptíveis de serem penhorados e na medida suficiente para o pagamento da quantia exequenda e custas, pelo que, de harmonia com o disposto no artigo 836º, nº 2, alínea b) do CPC, se devolveu ao exequente tal direito, não tendo este que observar as restrições constantes do artigo 834º do CPC na redacção aplicável nos autos. Assim sendo, o requerimento do executado/agravante não poderá ser
qualificado como requerimento de nomeação de bens à penhora, atenta a sua intempestividade.
A circunstância do imóvel em causa ser a casa de morada de família não impede que o mesmo seja alvo de penhora, tanto mais que não consta do elenco de bens total ou parcialmente impenhoráveis consagrado nos artigos
822º e 823º do CPC. Aliás, são várias as penhoras que incidem sobre essa fracção autónoma.
A substituição do bem penhorado proposta pelo executado/agravante não foi admitida pelo exequente/agravado, o qual manifestou a sua frontal oposição a essa substituição, invocando justamente a dificuldade de ver ressarcido o seu crédito, atenta a dificuldade de venda dos direitos indicados pelo 2º
executado.
E a razoabilidade da argumentação da exequente foi acolhida – e bem – pelo Tribunal a quo, que invocou não só a alegada dificuldade da venda dos direitos agora oferecidos, mas também a própria dificuldade na efectivação dessas penhoras, sobretudo quando são vários do contitulares desses direitos, como sucede no caso vertente.
Não merece, pois, provimento o recurso de agravo incidente sobre o despacho de indeferiu o requerimento do agravante que deu entrada em Tribunal em 09.06.2008.
A responsabilidade pelas custas incidentais ficará a cargo do agravante, com taxa de justiça que se fixa em 2 UC – v. artigo 16º, nº 1 do CCJ.
IV. DECISÃO
Pelo exposto, nega-se provimento aos recursos interpostos, mantendo-se as decisões recorridas nos seus precisos termos.
Condena-se o recorrente no pagamento das custas respectivas, fixando-se, quanto ao recurso incidente sobre o despacho que indeferiu a substituição do bem penhorado, a taxa de justiça em 2 UC. Lisboa, 25 de Junho de 2009 Ondina Carmo Alves – Relatora
Ana Paula Boularot Lúcia Sousa