desenvolvimento de projetos de automóveis
Design for upgrade in a proposal model for develop automobiles projects
Barbosa, Samuel Borges; Mestrando; Universidade Federal de Santa Catarina
Roos, Cristiano; Doutorando; Universidade Federal de Santa Catarina
Resumo
O Design for Upgrade é um meio de desenvolvimento de produtos que se caracteriza pelo equilíbrio entre o desenvolvimento e a sustentabilidade. O objetivo deste trabalho é propor um modelo de desenvolvimento de automóveis baseado no conceito de Design for Upgrade. Esta pesquisa, com base nos objetivos, é classificada em exploratória e, com base nos procedimentos técnicos, é classificada em análise de caso. Como resultado principal tem-se a proposta de um modelo de desenvolvimento de automóveis baseado no conceito de Design
for Upgrade visando maior sustentabilidade ambiental em relação ao mercado de automóveis. Palavras Chave: design for upgrade; design for upgradability; desenvolvimento de carros. Abstract
Design for Upgrade is a method for develop products that is characterized by the balance between development and sustainability. The objective of this paper is to propose a automobile development model based on the Design for Upgrade concept. This research, based on the objectives, is classified as exploratory, and based on technical procedures, is classified as case analysis. A main result is a proposed automobile development model based on the Design for Upgrade concept, aiming to increase environmental sustainability in relation to the cars market.
Introdução
O transporte é uma atividade essencial para auxiliar o desenvolvimento das sociedades no mundo moderno. Dentre os meios de transporte utilizados pelo homem, o automóvel possui um importante papel. Contudo, o crescimento do número de automóveis nos grandes centros urbanos é discutido em diferentes áreas do conhecimento, muito por congestionar vias de rodagem e por seu impacto ambiental negativo.
Considerando especificamente o impacto ambiental negativo, este trabalho busca uma solução para tornar o automóvel mais sustentável ambientalmente. Muitas soluções foram desenvolvidas e aplicadas, contudo outras ainda são necessárias para reduzir os impactos ambientais negativos dos produtos. Como exemplos de soluções que foram desenvolvidas e aplicadas têm-se conceitos como o Design for Disassembly, o Design for the Environment, e o
Design for Recycling.
Nesta pesquisa será abordado um conceito em especial: o Design for Upgrade, que se refere à concepção de projetos que possam ser atualizados, estendendo assim o ciclo de vida dos produtos, e conseqüentemente, diminuindo o seu impacto ambiental negativo. No setor automotivo este conceito não é utilizado, pois a atualização é realizada somente nos projetos, não se estendendo para o produto no período pós-venda.
Assim, o problema de pesquisa deste trabalho pôde ser estruturado: um projeto de um automóvel pode prever a atualização no período pós-venda englobando o conceito de Design
for Upgrade? Decorrente disto, o objetivo deste trabalho é propor um modelo de
desenvolvimento de projetos de automóveis baseado no conceito de Design for Upgrade. Para tanto, este texto foi organizado nas seções que seguem. A segunda seção traz o delineamento metodológico da pesquisa. A terceira seção apresenta uma visão teórica sobre o
Design for Upgrade. A quarta seção traz uma visão prática através da analise de casos. A
quinta seção propõe o modelo de desenvolvimento de projetos de automóveis. A sexta seção expõe e discute os resultados obtidos. A sétima seção lista as conclusões e considerações finais.
Delineamento metodológico
O delineamento metodológico desta pesquisa propõe um direcionamento que visa à obtenção de resultados capazes de sustentar a construção de um conhecimento mais aprofundado sobre o Design for Upgrade. Seguindo as definições de Gil (2002), esta pesquisa, com base nos objetivos, é classificada em pesquisa exploratória e, com base nos procedimentos técnicos, é classificada em pesquisa do tipo análise de caso. Seguindo as definições de Bell (2008), a abordagem de pesquisa, que orientou o processo de investigação, e que estabeleceu formas de aproximação aos objetivos desta pesquisa, é a abordagem qualitativa. Seguindo as definições de Salomon (2001), os métodos de pesquisa utilizados para dar sustentação aos resultados obtidos nesta pesquisa foram o indutivo e o dedutivo. O método de pesquisa indutivo foi utilizado na maior parte do texto, pois neste trabalho partiu-se de peculiaridades e caminhou-partiu-se para generalizações. O método de pesquisa dedutivo foi utilizado toda vez que se passou a agir no contexto da justificação.
A pesquisa do tipo análise de caso foi o procedimento adotado como meio para se chegar aos objetivos do trabalho. Como estímulos a novas descobertas e a simplicidade nos procedimentos realizaram-se três análises de caso. A formulação do problema de pesquisa das analises de caso foi realizada na seqüência. A definição da unidade de análise foi realizada com base num critério determinante – ser classificado como um projeto de um veículo que tenha passado por qualquer tipo de atualização no projeto.
Um protocolo de coleta de dados foi desenvolvido para facilitar o estudo da unidade de análise. As fontes de evidência primária utilizadas foram os dados levantados em organizações proprietárias de veículos. Como fontes de evidência secundárias foram utilizadas informações qualitativas e quantitativas disponibilizadas em páginas virtuais das organizações. Assim, a construção da base de dados foi realizada, com fundamentação nas evidências, num armazenamento por unidade de análise. Para a avaliação das evidências foi utilizada a estratégia da descrição de caso.
Fundamentação teórica
A competitividade entre as organizações tem como uma das conseqüências a crescente corrida pelo lançamento de novos produtos. Com o desenvolvimento das indústrias e dos sistemas de produção as organizações têm meios para diminuir cada vez mais o ciclo de vida de seus produtos. A cada ano aumenta o número de produtos lançados no mercado, sendo esta uma realidade global observada na maioria dos setores. Os departamentos de desenvolvimento de produtos estão cada vez mais qualificados e ágeis na criação de novos produtos para o mercado, sejam projetos do tipo radical, plataforma, derivado ou follow
source (ROZENFELD et al., 2006).
Em contrapartida a essa realidade, há uma preocupação generalizada sobre os problemas ambientais derivados deste consumo desenfreado. Estudos são desenvolvidos e ações são tomadas com o objetivo de minimizar o impacto ambiental negativo gerado a partir dos inputs e outputs dos processos de produção. Isto porque o mercado consumidor tem demonstrado um novo sistema de valores, onde os princípios da conservação, cooperação e preservação demandam das organizações novas estratégias produtivas, como por exemplo, o reaproveitamento de resíduos e a otimização de matérias-primas na fabricação de novos produtos (KOTLER, 1996).
Métodos de desenvolvimento de produtos como Design for Enviroment, Design for
Disassembly e Design for Recycling (DOWIE-BHAMRA, 1995) têm sido estudados e
utilizados nas organizações, mostrando a importância da preocupação com a variável ambiental desde o projeto do produto. Dentre os conceitos utilizados para reduzir o impacto ambiental negativo gerado pela produção industrial pode-se citar também a remanufatura (NASR e THURSTON. 2006). Esta idéia surge com o objetivo de fechar o ciclo de vida dos produtos, reaproveitando estes ao final de sua vida útil. O reaproveitamento de materiais e de componentes dos produtos, após seu descarte, é uma solução para reduzir o impacto ambiental causado por estes. Com um objetivo parecido, o estudo do ciclo de vida é um método que procura entender todo o caminho percorrido pelo produto, desde o seu projeto até o seu descarte e reciclagem (ROZENFELD et al., 2006).
Com o aperfeiçoamento destes métodos foi apresentado um novo conceito nas discussões científicas: Design for Upgrade ou Design for Upgradability, que se refere ao projeto para a atualização de produtos (ISHIGAMI et al., 2003). Este novo conceito se refere à extensão da vida dos produtos por meio de sua atualização, prolongando sua vida e encorajando o seu reuso, além de criar novas oportunidades de negócio nos estágios finais do ciclo de vida dos produtos (SHINIOMURA e UMEDA, 1999).
De acordo com os métodos de atualização de produtos, alguns bens duráveis, como eletrodomésticos, aparelhos eletrônicos, automóveis e outros podem ser atualizados por meio da modificação e melhoramento de suas funções (UMEDA et al., 2005). Esta alteração é feita por meio da troca de seus componentes. É necessário que, para a sua atualização, o produto possua estrutura modular, de maneira que seus componentes possam ser retirados e substituídos por novos (SHENG e JUKUN, 2007). Porém, para que a atualização possa ser feita de maneira eficiente é necessário que esta seja planejada. Durante o desenvolvimento do produto além dos atuais métodos de projeto para montagem, fabricação, desmontagem, entre outros, é necessário que haja também um planejamento para a atualização, de forma que esta seja feita por etapas e já prevendo as melhorias nas funções do produto.
Dentre as atualizações estão as alterações estéticas e funcionais. Nos automóveis, mais especificamente, as alterações estéticas são denominadas Facelift. Estas alterações ocorrem quando um veículo evolui de um modelo para outro, sendo realizadas trocas de componentes como pára-choques, grades, frisos, retrovisores, faróis, entre outros. Apesar de o Facelift ser uma atualização, ressalta-se que não se trata de uma abordagem do Design for Upgrade. Como apresentado, o Design for Upgrade busca a extensão da vida dos produtos por meio de sua atualização, prolongando sua vida e encorajando o seu reuso. Já o Facelift é uma atualização que não é realizada no mesmo automóvel, onde não se está prolongando sua vida e encorajando o seu reuso. De fato, se está lançando um novo automóvel, mas com uma atualização estética. Foi isto que deu origem a este trabalho, sendo questionado: por que não prever e projetar a atualização estética e funcional para um automóvel no período pós-venda?
Fundamentação prática
A fundamentação prática deste trabalho apresenta três análises de caso buscando evidenciar a utilização do Design for Upgrade e do Facelift em projetos de veículos. O
Design for Upgrade não foi identificado em nenhum automóvel no mercado brasileiro.
Assim, a primeira análise de caso apresenta um veículo militar que utiliza um método de atualização próprio, em consonância com o Design for Upgrade. As outras duas análises de caso apresentam veículos que utilizam o Facelift. As análises de caso buscam ilustrar como a atualização de produtos é realizada, sendo que para isto serão analisadas e levantadas características que mostram como os produtos são atualizados, quais os objetivos da atualização e quais as etapas fazem parte deste processo.
Análise de caso: Abrams M1
O M1 Abrams é o principal veículo de combate (main battle tank) do exército dos Estados Unidos da América (US ARMY, 2010). Sua primeira versão, o M1, foi lançada em
1980, seguida pelas versões M1A1 e M1A2 lançadas nos anos de 1986 e 1992 respectivamente (ARMY TECHNOLOGY, 2010b). No somatório total este veículo de guerra possui mais de trinta anos de serviço, tendo sido utilizado em guerras como a Guerra do Golfo e a Guerra do Iraque (GLOBAL SECURITY, 2010).
Com relação ao projeto do Abrams, este possui caráter revolucionário, sendo um veículo com características superiores comparado aos principais carros de combate utilizados por exércitos de outras nações. Sua plataforma foi desenvolvida para comportar atualizações periódicas. Estas atualizações apesar de terem sido planejadas e desenvolvidas antes do conceito de Design for Upgrade, estão em consonância com este. Isto porque, as atualizações são realizadas numa linha de atualização projetada apenas para este fim, focando em resultados que buscam maior sustentabilidade econômica e ambiental.
Observando a Figura 1, onde são apresentadas duas versões do veículo, M1A1 e M1A2, é possível verificar que o seu exterior não se altera muito de uma versão para outra, porém alguns de seus componentes e sistemas, como os sistemas de armamento, sistemas de proteção e sistemas eletrônicos são atualizados para um melhor desempenho do veículo. As alterações externas não são atualizações do tipo Facelift, apesar de mudarem esteticamente o veículo. As alterações externas são decorrentes das atualizações funcionais do veículo, não tendo como objetivo tornar o veículo diferenciado esteticamente.
Figura 1: Veículos de combate Abrams M1A1 e M1A2 (Fonte: Army Technology, 2010a; Nation States, 2010) Os veículos M1 Abrams são atualizados no Depósito Militar de Anniston, localizado na cidade de Bynum, no estado do Alabama. Uma linha de atualização foi criada, na qual é realizada inicialmente a desmontagem dos veículos, sendo separados os componentes. Na seqüência é realizado o reparo nos componentes que estão em bom estado e a destinação correta dos componentes recicláveis. Alguns sistemas e peças necessitam ser substituídos de versão para versão, devido ao grande desgaste ou à atualização obrigatória de determinado componente. Com os componentes reparados e atualizados é feita a montagem final do veículo, que passa por rigorosos testes de qualidade para evitar problemas durante sua utilização.
Os principais objetivos deste processo de atualização são: aumentar o ciclo de vida do produto, aumentar a sustentabilidade econômica e ambiental do produto, e evitar que os tanques possam ter sua tecnologia estudada e copiada por outros fabricantes de veículos militares. Aumentar o ciclo de vida do veículo militar em questão se justifica pelo fato de seu
projeto ser de alto custo, sendo economicamente mais sustentável a opção de atualizações periódicas. As atualizações periódicas por sua vez acabam por contribuir para tornar o veículo ambientalmente mais sustentável, pelo fato do reuso e reciclagem de sistemas e componentes.
Assim, o caso do veículo militar M1 Abrams é um relevante exemplo de como é aplicada a atualização de produtos. Apesar de sua alta restrição, sendo um projeto específico da área militar, com baixa escala de produção e envolvendo alta tecnologia, o tanque M1 Abrams possui várias características de projeto e gerenciamento do ciclo de vida do produto que servem de referência para o desenvolvimento de veículos atualizáveis. Esta análise de caso contribuiu para alcançar o objetivo deste trabalho.
Análise de caso: Volkswagen Golf
No setor automotivo, mais especificamente na área de projetos de automóveis, são utilizados vários recursos para aumentar a atração dos clientes pelos produtos. Um dos recursos utilizados é o Facelift, que é realizado periodicamente nos automóveis com o intuito de renovar e demonstrar uma melhoria no produto com relação à estética. O que se pretende com esta análise de caso é mostrar que o Facelift é uma atualização, mas que não se trata de uma abordagem do Design for Upgrade. Igualmente, esta análise de caso contribuiu para alcançar o objetivo deste trabalho, explorando a atualização estética em automóveis: Facelift.
Um caso de Facelift no mercado brasileiro ocorreu com o automóvel Golf, da montadora Volkswagen. Este veículo sofreu alterações estéticas no seu modelo em 2007, tendo alguns componentes de sua carroceria alterados. Na Figura 2 podem ser visualizadas as diferenças na parte frontal das carrocerias de dois modelos diferentes do automóvel Golf. É importante considerar que apesar da diferença estética entre os dois modelos, a plataforma destes se mantém a mesma. Isto pode ser observado por meio da análise das formas laterais dos dois modelos do veículo.
Figura 2: Veículos Volkswagen Golf modelos 2006 e 2010 (Fonte: Volkswagen, 2010; Golf, 2010) Dentro das práticas comuns de Facelift feitas no Brasil o caso do automóvel Golf pode ser considerado com alto grau de modificação, devido à quantidade de atualizações realizadas no veículo. Várias peças externas, como faróis, lanternas, pára-choques, tampa do porta-malas, capô, pára-lamas frontais, rodas além de outros componentes internos, foram alterados no novo modelo do veículo.
O Facelift, como no automóvel Golf, tem como objetivo principal despertar o interesse do cliente por um produto novo e diferenciado. Com isso, esta prática acaba pouco contribuindo com a sustentabilidade ambiental, pelo contrário, estimula diretamente a produção e indiretamente a exploração e a degradação de recursos naturais, seja pela exploração de materiais e combustíveis ou poluição decorrente. Em contra ponto, o Design
for Upgrade também pode despertar o interesse do cliente por um produto novo e
diferenciado, mas se caracterizando pelo equilíbrio entre o desenvolvimento e a sustentabilidade. Pois, enquanto no Facelift a atualização estética ocorre através do lançamento e da produção de um novo automóvel, no Design for Upgrade a atualização estética e/ou funcional ocorre através do aproveitamento do mesmo automóvel como base para a atualização.
Análise de caso: Chevrolet Vectra
Outro caso de atualização de produto realizado no mercado brasileiro ocorreu com o automóvel Vectra, pertencente à marca Chevrolet. Seu modelo 2010 sofreu algumas alterações com relação ao modelo do ano de 2009, Figura 3. Analisando as atualizações externas pode-se observar a mudança no pára-choque, na grade frontal e nas rodas. Comparado com as atualizações analisadas anteriormente no automóvel Volkswagen Golf, estas alterações no Vectra podem ser consideradas mais sutis, sendo que este exemplo pode ser caracterizado como um Facelift com baixo grau de modificação. Assim como no caso anterior, a plataforma do Vectra se manteve a mesma, isto podendo ser observado por meio da análise das formas laterais dos dois modelos do veículo.
Figura 3: Veículos Chevrolet Vectra modelos 2006 e 2010 (Fonte: Carros Nitrados, 2010; Mundo Auto Motor, 2010)
A análise deste caso mostra que as alterações externas são atualizações do tipo Facelift, tendo como objetivo tornar o veículo diferenciado esteticamente. E da mesma maneira que no caso do automóvel Golf, o Vectra não se trata de uma abordagem do Design for Upgrade, pois o Facelift em questão não ocorre através do aproveitamento do mesmo automóvel como base para a atualização.
Assim, fica evidente que o Design for Upgrade pode ser um Facelift por tornar o veículo diferenciado esteticamente. O contrário não é verdadeiro porque o Facelift por si mesmo não necessariamente ocorre através do aproveitamento do mesmo automóvel como base para a atualização.
Modelo proposto
Com o intuito de buscar uma resposta para o problema de pesquisa deste trabalho foi iniciado um estudo das fundamentações teóricas e práticas. É inequívoco afirmar que a atualização nos automóveis do tipo Facelift é uma prática comum em organizações do setor automotivo, enquanto que, o Design for Upgrade não é uma prática comum, não tendo sido encontrado nenhum caso para ser analisado no setor automotivo.
O Design for Upgrade foi apresentado neste trabalho como alternativa para tornar produtos mais sustentáveis ambientalmente. A aplicação deste conceito em um projeto de automóvel foi questionada. Neste sentido, o que se propõe neste trabalho é um modelo de desenvolvimento de projetos de automóveis em que são previstas atualizações no período pós-venda englobando o conceito de Design for Upgrade. Na Figura 4 está um modelo do ciclo de vida tradicional de um automóvel. Na Figura 5 está um modelo do ciclo de vida proposto de um automóvel. Cabe ressaltar que este modelo proposto é geral e é apenas um direcionamento de como seria a aplicação do Design for Upgrade em um projeto de automóvel. Veja que este modelo é teórico e sem fundamentação quantitativa, não sendo questionada a viabilidade técnica e econômica.
Figura 4: Modelo tradicional sem a aplicação do Design for Upgrade no projeto do automóvel
No modelo tradicional sem a aplicação do Design for Upgrade tem-se o projeto de uma plataforma onde estão previstas ‘‘n’’ atualizações que podem ser: 1. Atualizações do tipo estético (Facelift); 2. Atualizações do tipo funcional; 3. Atualizações do tipo reestilização; 4. Atualizações do tipo novo automóvel; 5. Atualizações mistas. A atualização do tipo estético (Facelift) é uma inovação no design, por exemplo, um pára-choque redesenhado. A atualização do tipo funcional é uma inovação no desempenho, por exemplo, um sistema de freios com melhor performance. A atualização do tipo reestilização é uma inovação no todo do projeto do automóvel, por exemplo, uma nova geração de um carro popular. A atualização do tipo novo automóvel é uma inovação no projeto de categoria, por exemplo, uma nova categoria de um carro. A atualização do tipo mista é uma inovação que envolve pelo menos duas das outras atualizações. Na Figura 4 estas atualizações estão representadas na vertical, onde ocorrem as ‘‘n’’ atualizações na plataforma.
Figura 5: Modelo proposto com a aplicação do Design for Upgrade no projeto do automóvel
No modelo proposto com a aplicação do Design for Upgrade, Figura 5, tem-se o mesmo comportamento na vertical, com o projeto de uma plataforma onde estão previstas ‘‘n’’ atualizações, que podem ser dos mesmos cinco tipos descritos anteriormente. Contudo, no modelo proposto tem-se representadas na horizontal ‘‘n’’ atualizações para o mesmo automóvel. Estas atualizações na horizontal correspondem aos upgrades no automóvel, especificamente englobando o conceito de Design for Upgrade. Este modelo não necessariamente busca aumentar a vida útil do automóvel através da substituição de componentes e peças, mas sim aumentar o ciclo de vida através da possibilidade da atualização estética e funcional.
O conceito de Design for Upgrade está englobado neste modelo proposto porque tem foco em resultados que buscam maior sustentabilidade ambiental. A maior sustentabilidade ambiental está contemplada, em análise geral, em quatro resultados decorrentes: 1. Com o modelo proposto tem-se uma redução na venda de automóveis, pois o cliente deixa de comprar um veículo e passa a comprar um upgrade, reduzindo proporcional e diretamente o ritmo de produção; 2. Com menor produção indiretamente tem-se menor impacto ambiental, seja pela redução da exploração de materiais e combustíveis ou pela diminuição da poluição decorrente; 3. Além de reduzir a utilização de inputs e outputs de impacto ambiental negativo, do mesmo modo tem-se prevista a reutilização dos materiais (componentes e peças) retirados no processo de upgrade; 4. Igualmente, além de reduzir e reutilizar tem-se prevista a reciclagem dos materiais retirados (componentes e peças) no processo de upgrade, bem como a reciclagem do automóvel no final de sua vida útil.
Um detalhamento maior deste modelo está apresentado na Figura 6. É possível verificar no modelo detalhado o que ocorre em cada uma das partes interessadas, isto é, o que ocorre: na direção da montadora ou grupo; no desenvolvimento de produtos, serviços e sistemas de produção; na produção, terceirizada ou não, e montadora; na concessionária; no cliente.
No modelo detalhado é possível verificar o processo tradicional do automóvel, que na seqüência recebe uma atualização de um processo de upgrade estético. Logo depois o automóvel recebe uma atualização de um processo de upgrade estético e funcional, sendo que cada processo é finalizado no processo de reutilização e reciclagem (automóveis por completo, componentes e peças). É possível verificar que o upgrade estético pode ser feito na concessionária, enquanto o upgrade estético e funcional deve ser feito na montadora por tratar-se de uma atualização mais complexa, envolvendo partes funcionais do automóvel. Igualmente, o cliente pode optar ora por participar apenas de um upgrade estético ora por um
upgrade estético e funcional, não havendo regras.
Mais uma vez é ressaltado que este modelo apresentado na Figura 6 é apenas um direcionamento de como seria a aplicação do Design for Upgrade em um projeto de automóvel. Trata-se de um modelo baseado apenas em hipóteses, totalmente teórico e com o intuito de firmar uma nova idéia relacionada ao setor automotivo, contemplando a sustentabilidade ambiental.
Resultados e discussões
O Design for Upgrade foi apresentado neste trabalho e considerado como alternativa para tornar produtos mais sustentáveis. Como problema de pesquisa foi questionado: um projeto de automóvel pode prever a atualização no período pós-venda englobando o conceito de Design for Upgrade? A resposta é sim, pode. Mas decorrente a esta resposta outro questionamento é mais importante e chave: a atualização de um automóvel no período pós-venda englobando o conceito de Design for Upgrade é viável técnica e economicamente?
O principal resultado esperado para este modelo seria uma diminuição na venda de automóveis. Se for considerado hipoteticamente que o modelo proposto é viável técnica e economicamente, um exemplo pode ser exposto como resultado: considerando a Tabela 1 que mostra a relação dos dez automóveis mais vendidos no ano de 2009 no Brasil, e considerando que 10% destes clientes não tivessem comprado um veículo novo e sim tivessem feito um
upgrade, então haveria 145.486 automóveis a menos nas ruas.
Tabela 1: Relação dos automóveis mais vendidos no ano de 2009 no Brasil
Classificação Carro Número de vendas
(em unidades)
1º Volkswagen Gol 303.066
2º Fiat Palio 203.679
3º Fiat Uno 168.501
4º General Motors Celta 139.421
5º General Motors Corsa Sedan 138.015
6º Volkswagen Fox/CrossFox 126.501
7º Fiat Siena 116.064
8º Fiat Strada 89.973
9º Volkswagen Voyage 85.683
10º Ford Ka 83.958
Novamente, se for considerado hipoteticamente que o modelo proposto é viável técnica e economicamente, outro resultado esperado seria a correta destinação final do automóvel no fim de sua vida útil, bem como os componentes e peças retirados nos processos de upgrade. A correta destinação final tornaria o setor automotivo mais sustentável ambientalmente, seja reduzindo, reutilizando ou reciclando.
Mas como toda idéia inicial, esta também vem com muitos questionamentos que podem gerar futuras pesquisas. Alguns questionamentos foram expostos na seqüência. Este modelo teria que taxa de aceitação pelos clientes? Este modelo seria um diferencial competitivo para a organização? Este modelo apenas funcionaria por meios legais, através de incentivos fiscais? Qual seria a freqüência ideal de lançamento de novos pacotes de upgrade nos automóveis? Como e onde seria a venda dos pacotes de upgrade? Como seria a logística dos pacotes de
upgrade? Como seria o fluxo de informações e materiais relacionados aos projetos de upgrade nos automóveis? Será realmente possível diferenciar os modelos de atualização
funcional e estética? Quantas linhas de pacotes de upgrade nos automóveis seriam possíveis de serem lançados cada vez (por exemplo: Sport, Off-road, Standard)? Os pacotes retirados nos upgrades nos automóveis poderiam ser revendidos/reutilizados? Quem ficaria com os pacotes retirados nos upgrades (montadora, concessionária, cliente, terceiros)? Quem pagaria pelo descarte dos pacotes retirados nos upgrades? A montadora teria maior retorno financeiro?
As respostas de todas estas perguntas trariam resultados importantes que definiriam o futuro do modelo proposto neste trabalho. Mas um passo inicial foi dado, onde o principal intuito de propor um modelo de desenvolvimento de projetos de automóveis baseado no conceito de Design for Upgrade é contribuir para tornar o setor automotivo mais sustentável ambientalmente, talvez tirando o setor do topo das discussões de impactos ambientais negativos.
Considerações finais
O objetivo deste trabalho foi alcançado através da proposição de um modelo de desenvolvimento de projetos de automóveis baseado no conceito de Design for Upgrade. De fato, os resultados mais relevantes do trabalho foram o modelo proposto e a discussão decorrente, expondo alguns problemas de pesquisa que podem balizar o futuro deste modelo que visa maior sustentabilidade ambiental em relação ao mercado de automóveis.
A continuidade desta pesquisa está sendo dada com estudos da viabilidade técnica e econômica do modelo proposto, através de experimentos pilotos em automóveis brasileiros, e conseqüente avaliação das variáveis em questão. Outra continuidade está sendo dada com o aprimoramento do modelo proposto, para que seja possível evidenciar melhor o processo de desenvolvimento de automóveis baseado no conceito de Design for Upgrade.
No mais, este trabalho mostra sucintamente os possíveis benefícios decorrentes da utilização do modelo proposto, buscando defender uma idéia inicial. A realização desta pesquisa proporcionou uma ponderação do quão importante o Design for Upgrade pode ser para uma maior sustentabilidade ambiental. A limitação deste trabalho é o foco qualitativo do modelo proposto, sem qualquer fundamentação quantitativa. Pesquisas futuras devem
explorar qualitativa e quantitativamente o modelo proposto para consolidar resultados científicos acerca do tema.
Referências
ARMY TECHNOLOGY. M1A1 / M1A2 Abrams Main Battle Tank. Site da Army Technology, 2010. Disponível em: <http://www.army-technology.com/pro jects/abrams/images/abram19.jpg>. Acesso em: 16 de mar. 2010a.
ARMY TECHNOLOGY. M1A1 / M1A2 Abrams Main Battle Tank. Site da Army Technology. Disponível em:<http://www.army-technology.com/projects/abrams/>. Acesso em: 29 de mar. 2010b.
BELL, J. Projeto de pesquisa: guia para pesquisadores iniciantes em educação, saúde e ciências sociais. Tradução Magda França Lopes. 4.ed. Porto Alegre: Artmed, 2008.
CARROS NITRADOS. Site do blog Carros Nitrados. Disponível em: <http://www.carrosnitrados. net/blog/imagens/vectra_2006.jpg> 2006. Acesso em: 16 de mar. 2010.
DOWIE-BHAMRA, T. Design for Disassembly. Manchester Business School, University of Manchester. Manchester, 1995.
GIL, A. C. Como elaborar projetos de pesquisa. 4.ed. São Paulo: Atlas, 2002.
GLOBAL SECURITY. Site da organização Global Security. M1 Abrams Main Battle Tank. Disponível em: <http://www.globalsecurity.org/military/systems/ground/m1-intro.htm>. Acesso em: 29 de mar. 2010.
GOLF Flash: já nas concessionárias a nova série especial Golf Flash. Carro e Cia. Site da empresa Carro e Cia, 2006. Disponível em: <http://www.carroecia.com.br/report agens/golf.asp>. Acesso em: 16 de mar. 2010.
ISHIGAMI, Y. et al. Development of a Design Methodology for Upgradability involving Changes of Functions. Proceeding in EcoDesign2003: Third International Symposium on
Environmentally Conscious Design and Inverse Manufacturing. IEEE. Tokyo, Japan.
2003.
MUNDO AUTO MOTOR. Site da empresa Mundo Auto Motor, 2010. Disponível em: < http://img.mundoautomotor.com/web/wp-content/uploads/2009/05/chevrolet-vectra-2010- 0.jpg>. Acesso em: 16 de mar. 2010.
NASR, N.; THURSTON, M. Remanufacturing: A Key Enabler to Sustainable Product Systems. Proceedings of LCE. EUA. 2006.
NATION STATES. Site do forum Nation States, 2009. Disponível em: <http://www.tms.org/pubs /journals/JOM/9705/Montgomery-9705.intro.lg.gif>. Acesso em: 16 de mar. 2010.
QUATRO RODAS. Mais Vendidos 2009. Site da revista Quatro Rodas, 2010. Disponível em: <http://quatrorodas.abril.com.br/QR2/autoservico/top50/2009.shtml >. Acesso em: 02 mar. 2010.
ROZENFELD, H. et al. Gestão de Desenvolvimento de Produtos: uma referência para a melhoria do processo. 1. ed. São Paulo: Saraiva, 2006. v. 1. 542 p.
SALOMON, D. V. Como fazer uma monografia. 10.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001. SHENG, Z.; JUKUN, Y. Remanufacturing Upgrade for Green Maintenance.
Remanufacturing Technology Committee of CAPE, Beijing. 2007.
SHINIOMURA, Y.; UMEDA, Y. A Proposal of Upgradable Design. IEEE. 1999.
UMEDA, Y. et al. Development of design methodology for upgradable products based on function–behavior–state modeling. Artificial Intelligence for Engineering Design, Analysis
and Manufacturing. v. 19. p. 161-182. USA. 2005.
US ARMY. Site oficial do Exército dos Estados Unidos da América. Disponível em: <http://www.army.mil/factfiles/equipment/tracked/abrams.html>. Acesso em: 29 de mar. 2010.
VOLKSWAGEN. Site da montadora Volkswagen, 2010. Disponível em: <http://www.volkswagen .com/br/pt/modelos/Golf_/conheca-e-compare.html>. Acesso em: 16 de mar. 2010.