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A MULHER EMPREENDEDORA NO SETOR AGROPECUÁRIO: UM ESTUDO DE CASOS

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Academic year: 2022

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PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ADMINISTRAÇÃO Área de Concentração: Gestão de Negócios

A MULHER EMPREENDEDORA NO SETOR AGROPECUÁRIO: UM ESTUDO DE CASOS

Dissertação de Mestrado

KÁTIA DA SILVA TÓFFOLO

Londrina - Pr 2002

(2)

A MULHER EMPREENDEDORA NO SETOR AGROPECUÁRIO: UM ESTUDO DE CASOS

Dissertação apresentada à Universidade Estadual de Maringá e Universidade Estadual de Londrina como parte das exigências do Programa de Pós-Graduação em Administração com ênfase em Gestão de Negócios, para a obtenção do título de Mestre.

Orientador:

Prof. Dr. Fernando Antonio Prado Gimenez

Londrina - Pr 2002

(3)

KÁTIA DA SILVA TÓFFOLO

A MULHER EMPREENDEDORA NO SETOR AGROPECUÁRIO: UM ESTUDO DE CASOS

Dissertação aprovada como requisito para obtenção do grau de Mestre no Programa de Pós-Graduação em Administração, Universidade Estadual de Maringá e

Universidade Estadual de Londrina, pela seguinte banca examinadora

_______________________________________

Prof. Dr. Fernando Antonio Prado Gimenez (UEM)

_______________________________________

Profª. Dr. Antonio Artur de Souza (UEM)

______________________________________

Profª. Drª. Hilka Pelizza Vier Machado (UEM)

Londrina, 27 de agosto de 2002.

(4)

Agradeço primeiramente a Deus que me deu condições físicas e psicológicas para estar em contínuo processo de aprendizado e interação com as demais pessoas que fizeram parte deste período de minha vida.

Minha família que colaborou para que eu pudesse manter a tranqüilidade e equilíbrio mesmo em períodos de turbulência.

Ao CNPq que ao me fornecer uma bolsa de estudo, possibilitou com que houvesse dedicação exclusivamente à elaboração deste trabalho.

Meus Professores, cuja participação foi de extrema importância e colaboração na explicação de assuntos nunca analisados anteriormente.

As Mulheres agropecuaristas que se interessaram e se dispuseram a participar do estudo, fornecendo informações valiosas para análise e discussão dos casos.

Meus Amigos que buscaram entender minha ausência e me receberam bem no retorno.

Enfim à todos que fizeram com que este estudo se concretizasse, colaborando com motivação, apoio, coragem e amor:

FAÇO ESTA DEDICATÓRIA.

(5)

ILUSTRAÇÕES ... III LISTA DE TABELAS ... III LISTA DE QUADROS ... IV LISTA DE FIGURAS ... VI LISTA DE GRÁFICOS ... VII LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS ... VIII RESUMO ... IX ABSTRACT ... X

1. INTRODUÇÃO ... 1

Problemática ... 3

Justificativa ... 7

Objetivos ... 9

Estrutura da dissertação ... 9

2 EMPREENDEDORISMO E REPRESENTAÇÕES SOCIAIS ... 11

2.1 Empreendedorismo ... 11

2.2 Representações Sociais e a mulher empreendedora ... 20

2.2.1 A mulher empreendedora ... 27

2.2.2 A representação da mulher no meio rural enquanto empreendedora ... 31

3. CONCEITUAÇÃO DAS DIMENSÕES EM ESTUDO ... 34

4. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS ... 44

4.1 Natureza do estudo ... 44

4.2 Objeto de estudo, amostra e coleta de dados ... 45

4.3 Instrumento de pesquisa ... 47

4.4 Modelo de análise ... 48

5. A MULHER EMPREENDEDORA NO SETOR AGROPECUÁRIO: UM ESTUDO DE CASOS ... 55

5.1 Apresentação dos casos ... 56

5.2 Origem ... 58

5.3 Visão ... 65

5.4 Conceito de si ... 71

5.5 O trabalho como empreendedora ... 75

(6)

CONCLUSÃO ... 138

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 147

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA ... 156

ANEXO 1: ROTEIRO DE ENTREVISTA ... 158

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LISTA DE TABELAS

TABELA 1 : Distribuição de mulheres ocupadas – Brasil (1998-1999)... 3 TABELA 2 : Distribuição de mulheres ocupadas, segundo ramos de

atividade – Brasil (1997-1999) ... 4 TABELA 3 : Rendimento médio dos ocupados, por sexo, segundo setor

de atividade – Brasil (1995-1999) ... 23 TABELA 4 : Rendimento médio dos ocupados, por sexo, segundo nível

de instrução ... 24

(8)

QUADRO 1: Economistas que se preocuparam em estudar o

empreendedorismo ... 14

QUADRO 2: Comportamentalistas que se preocuparam em estudar o empreendedorismo ... 15

QUADRO 3: Características mais freqüentemente atribuídas aos empreendedores de acordo com os comportamentalistas ... 16

QUADRO 4: Invenções e conquistas do século XX ... 17

QUADRO 5: Classificação de valores apresentadas por Rokeach ... 36

QUADRO 6: Erros no processo de percepção das pessoas ... 38

QUADRO 7: Perfil das mulheres empreendedoras agropecuaristas ... 56

QUADRO 8: Roteiro para análise da Origem da empreendedora agropecuarista ... 58 QUADRO 9: Ocupação dos pais das mulheres agropecuaristas ... 61

QUADRO 10: Ocupação anterior e atual das agropecuaristas ... 64

QUADRO 11: Roteiro para análise da Visão da empreendedora agropecuarista ... 65

QUADRO 12: Roteiro para análise do Conceito de Si da empreendedora agropecuarista ... 71

QUADRO 13: Características de personalidade na auto-avaliação das empreendedoras agropecuaristas ... 73 QUADRO 14: Características de personalidade consideradas importantes nos dias atuais ... 73

QUADRO 15: Valores terminais das mulheres agropecuaristas ... 74

QUADRO 16: Roteiro para análise do Trabalho como empreendedora na empresa ... 75

QUADRO 17: O trabalho na empresa das mulheres agropecuaristas ... 76

QUADRO 18: Roteiro de análise para a auto-avaliação da mulher agropecuarista ... 90

QUADRO 19: A importância das relações externas e internas na percepção das mulheres agropecuaristas ... 92

(9)

QUADRO 21: O significado da intuição para as mulheres agropecuaristas .... 106 QUADRO 22: Tipo de atividade desenvolvida pelas mulheres

agropecuaristas ... 114 QUADRO 23: Quadro de colaboradores das propriedades das

agropecuaristas ... 116 QUADRO 24: Potencialidades e fraquezas da empresa agropecuária ... 120 QUADRO 25: Participação das mulheres empreendedoras agropecuaristas

em associações, cooperativas e sindicatos ... 125 QUADRO 26: O modo de produção e comercialização utilizado nas

propriedades das agropecuaristas ... 126 QUADRO 27: Direcionamento de esforços nas propriedades das mulheres

agropecuaristas ... 129 QUADRO 28: Metas nas empresas das agropecuaristas ... 132

(10)

FIGURA 2: Modelo de auto-aprendizado apresentado por Dolabela ... 40

FIGURA 3: Modelo de análise para o estudo de casos: mulher empreendedora no setor agropecuário ... 49

FIGURA 4: Modelo de análise para a dimensão Origem e Visão ... 50

FIGURA 5: Modelo de análise da dimensão Conceito de Si ... 51

FIGURA 6: Modelo de análise da dimensão Trabalho como empreendedora ... 51

FIGURA 7: Modelo de análise da dimensão auto-avaliação ... 52

FIGURA 8: Modelo de análise da dimensão Empresa ... 53

FIGURA 1: Elementos de suporte do processo visionário ... 35

(11)

GRÁFICO 1: Setor de participação das empreendedoras nos negócios ... 5 GRÁFICO 2: Porte do negócio das empreendedoras ... 6

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CATIVA Cooperativa Agropecuária de Londrina Ltda COAMO Cooperativa Agropecuária Mouraoense Ltda

COFERCATU Cooperativa Agropecuária dos Cafeicultores de Porecatu Ltda

COROL Cooperativa Agropecuária Rolândia Ltda

CONFEPAR Confederação das Cooperativas Centrais Agropecuárias do Paraná; Cooperativa Central Agro Industrial Ltda DERAL Departamento de Economia Rural

EMATER Empresa Paranaense de Assistência Técnica Extensão Rural

IAPAR Instituto Agronômico do Paraná NOVA

PRODUTIVA

Cooperativa Nova Produtiva – Santa Fé (PR) SEAB Secretaria de Agricultura e Abastecimento VALCOOP Cooperativa Agropecuária Vale do Tibagi Ltda

(13)

TÓFFOLO, Kátia da Silva. A Mulher Empreendedora no setor agropecuário: um estudo de casos. Londrina (Pr): UEL, 2002.

(Dissertação – Mestrado em Administração de Empresas).*

Através deste estudo pretendeu-se analisar o comportamento de um grupo de mulheres agropecuaristas identificando a postura adotada por elas na condução dos negócios, seu modo de trabalho, suas origens e a empresa em si. Avaliou-se também, a percepção tida em relação ao sucesso e sugestões dadas a quem deseja iniciar um negócio. Por meio deste estudo foi possível traçar o perfil das mulheres que estão engajadas neste tipo de atividade. As 10 mulheres analisadas fazem parte de um grupo de 72 mulheres que se encontram associadas à Sociedade Rural do Paraná, situada em Londrina (Pr) e que desempenham a atividade agropecuária na própria ou em outra região e até mesmo em outro país. Como método de estudo foi utilizado o qualitativo considerando que a pesquisadora estava interessada na qualidade do que seria analisado e não na freqüência com que determinado fenômeno acontecia. Desta forma, o instrumento adotado para coleta de dados foi um questionário estruturado com questões abertas, onde as entrevistadas puderam expor sua maneira de pensar e seu modo de atuação nos negócios. A análise seguiu as três fases apresentadas por Ander-Egg (1978) apud MARCONI &

LAKATOS (1990), na qual se estabeleceu a unidade de análise, depois determinou-se quais categorias seriam analisadas e por fim, selecionou-se uma amostra do material em análise. Na análise buscou-se compreender a identidade da mulher agropecuarista, tendo como base a(o): 1) Origem e Visão; 2) Conceito de si;

3) O trabalho como empreendedora; 4) Percepção; e 5) A empresa.

Palavras-chave: Mulher, Empreendedor, Agropecuarista.

* Orientador: Fernando Antonio Prado Gimenez - UEM

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TÓFFOLO, Kátia da Silva. A mulher empreendedora no setor agropecuário: um estudo de casos. Londrina (Pr): UEL, 2002.

(Dissertação – Mestrado em Administração de Empresas).*

This study intended to analyze the behavior of a group of female agropecuaristas identifying the posture adopted by them in running their businesses, their work way, their origins and the company. It was also evaluated, their perception about success and suggestions given to those who wants to start a business. Through this study it was possible to trace the women's profile that are engaged in this activity type. The 10 analyzed women are part of a group of 72 that are associated to the Rural Society of Paraná, located in Londrina (Pr) and that carry out the agricultural activity in their own or in another area and even in another country. The study method was qualitative considering that the researcher was interested in the quality of what would be analyzed and not in the frequency with that certain phenomenon happened. Thus, the instrument adopted for collection of data was a structured questionnaire with open questions, where the interviewees could expose their way of thinking and their style of performance in the businesses. The analysis followed the three phases presented by Ander-Egg (1978) apud MARCONI & LAKATOS (1990), in which the unit of analysis was established, then it was determined which categories would be analyzed and finally, a sample of the material was selected for analysis. The analysis looked for to understanding the identity of the female agropecuarists, based on: 1) Origin and Vision; 2) concept of self; 3) the work as entrepreneur; 4) perception; and 5) the company.

Key-Words: Woman, Entrepreuner, Agropecuarist.

* Adviser: Fernando Antonio Prado Gimenez - UEM

(15)

Muitas são as pesquisas desenvolvidas no campo do Empreendedorismo que enfocam um número pequeno de variáveis e possíveis associações (McClelland,1987; Blais & Toulose, 1991; Cromie, 1994). Em grande parte destas pesquisas o objetivo é identificar e analisar quais variáveis têm contribuído para que inúmeras pessoas optem pela atitude empreendedora. Nestes estudos sobre empreendedorismo a dimensão comportamental vem sendo muito utilizada, pois através dela o comportamento pode ser analisado sob três óticas: 1) Teoria dos traços e personalidade; 2) Abordagens psicodinâmicas; e 3) Abordagens sócio-psicológicas (Machado, 2002).

Acredita-se que o empreendedor “é a personalidade criativa; sempre lidando melhor com o desconhecido, perscrutando o futuro, transformando possibilidades em probabilidades, caos em harmonia” (Gerber, 1996: 31). Nele estão presentes características de comportamento como: iniciativa, persistência, capacidade para assumir risco, exigência de qualidade e eficiência, comprometimento com trabalho, além da tolerância à ambigüidade, autonomia, insatisfação e desejo constante de melhorar padrões. Em muitos casos, a influência exercida pela família e/ou conhecidos pode levar uma pessoa a empreender (Machado, 2002: 14-17), ou seja, modelos de atuação são seguidos para se atuar no mundo dos negócios.

Desta forma, o empreendedor é uma pessoa que necessita dirigir e gerenciar os negócios de forma criativa e inovadora, valendo-se das inovações tecnológicas pela qual a sociedade vem passando. Até pouco tempo, tinha-se a idéia que procedimentos e atitudes padronizadas bastavam para o sucesso nos negócios. Porém tal idéia encontra-se em processo de transformação, uma vez que, as próprias condições nas quais as empresas são criadas atualmente são muito diferentes que no passado. As transformações que estão acontecendo em nosso meio, tanto em nível local quanto global, mostram um aumento do número de pessoas que investem em um negócio próprio, ou de terceiros, utilizando uma administração diferenciada e dinâmica.

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E dentre este grupo de pessoas empreendedoras, está um número de mulheres cuja participação vem aumentando consideravelmente nos últimos anos. Segundo uma Pesquisa Nacional de Amostragem do IBGE, de 1995, apurou-se que as mulheres correspondem a 20% do total de empregadores, representando uma fatia de 534.437 mulheres empregadoras em todo o país (Almeida, 1997). A análise do trabalho das mulheres tem apresentado que elas possuem características próprias de gerenciamento, que talvez estão possibilitando com que pouco a pouco ocupem lugares ocupados exclusivamente por homens.

As experiências profissionais e pessoais contribuem muito para o desenvolvimento dos empreendedores, porém é importante identificar outros aspectos que influenciam na decisão pessoal de cada empreendedor ao optar por uma categoria de negócio. Desta forma, o presente estudo busca no meio social a resposta para esta nova tendência do mercado, que apresenta um crescimento significativo de mulheres em cargos tidos anteriormente como exclusivamente masculinos. Para alcançar seus objetivos, o estudo buscou uma linha de análise histórica sobre a evolução do Empreendedorismo e da figura do empreendedor além de abordar sobre a questão das representações sociais.

A preocupação em estudar empreendedorismo e representação social está em traçar uma correlação entre o papel que é desempenhado pela mulher na sociedade, enquanto agente de mudança na estrutura organizacional e cultural de um determinado grupo de indivíduos. Estudar a representação social da mulher enquanto empreendedora permite que se identifique o onde, o como, quando e o por quê de se atuar no espaço doméstico e no ambiente de trabalho. Desta forma, o presente estudo faz uma análise histórica da vida de cada mulher agropecuarista integrante desta amostra, buscando na maneira de condução dos negócios de cada uma delas, fatores que condicionaram a atuação enquanto empreendedora no setor agropecuário.

(17)

Problemática

Nas últimas duas décadas, o número de mulheres empreendedoras aumentou consideravelmente em vários setores, ou seja, elas vêm pouco a pouco conquistando espaços tidos como tradicionalmente masculinos. No Brasil, a presença feminina está avançando rapidamente em diversos meios e campos de atividades. Esta presença é notada não só na pesquisa científica, administração empresarial, vida acadêmica, medicina, política, magistratura, comunicação, cultura e artes, como em atividades profissionais, especialistas e empreendedoras (O Estado de SP, 9/03/2001: A3). Na tabela 1 é possível identificar as principais ocupações femininas no período 1998-1999.

Tabela 1: Distribuição de mulheres ocupadas, Brasil 1998-1999 (em %)

Posição na ocupação no trabalho principal

1998 1999

Empregados 45,1 43,9

Trabalhadores Domésticos 16,9 17,2

Conta própria 16,1 16,1

Empregadores 2,3 2,2

Não-remunerados 11,4 12,3

Trabalhadores na produção para consumo próprio

8,0 8,2

Trabalhadores na construção para próprio uso

0,1 0,1

Sem declaração 0,0 0,0

Fonte: IBGE,PNAD - Elaboração: DIEESE

Observe que ainda grande parte das mulheres tem como ocupação o trabalho assalariado (43,9%) e doméstico (17,2%). Entretanto neste estudo buscou-se trabalhar mais com a questão das mulheres empregadoras e trabalhadoras por conta própria, tendo em vista que a abordagem adotada para análise trabalha com o Empreendedorismo feminino, buscando identificar os setores de atuação e o estilo de gerenciamento utilizado pela mulher em

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quanto empreendedora. Na tabela 2 verifica-se a distribuição das mulheres nos diferentes ramos de atuação.

Tabela 2: Distribuição de mulheres ocupadas, segundo ramo de atividade Brasil 1997-1999. (em %)

Ramos de atividade 1997 1998 1999

Agrícola 20,2 19,3 20,4

Indústria de transformação 8,8 8,4 8,4

Indústria da construção 0,4 0,7 0,6

Outras atividades industriais 0,4 0,5 0,4

Comércio de mercadorias 13,2 13,7 13,5

Prestação de serviços 30,2 29,4 29,4

Serviços auxiliares da atividade econômica 3,2 3,3 3,3

Transporte e comunicação 0,9 1,0 0,9

Atividade social 17,2 18,1 17,4

Administração pública 3,9 3,9 3,9

Outras atividades maldefinidas ou não declaradas 1,7 1,7 1,7 Fonte: Adaptação dos dados do IBGE, PNAD. Elaboração: DIEESE.

Os setores onde há maior concentração de mulheres são: 1) prestação de serviços (29,4%); 2) atividade agrícola (20,4%); 3) atividade social (17,4%);

e 4) comércio de mercadorias (13,5%), sendo que os maiores níveis de participação da mulher nestes setores alocam-se na execução e no apoio ao planejamento das atividades (Migliciano, 2001: B8).

De acordo com os dados do PNAD feito pelo IBGE em 1998, as mulheres eram donas de 22,4% das empresas, contra 17% em 1991 (Souza, 2001). Sendo que a maior atuação se encontra localizada no comércio (53%), serviços (32%) e indústria (15%), ou seja, setores cujas atividades se voltam mais ao meio urbano que ao rural (gráfico 1) e são classificadas como de pequeno porte (gráfico 2).

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Gráfico 1: Setor de participação das empreendedoras nos negócios

15%

53%

32%

Indústria Comércio Serviços

Fonte: Sondagem feita pelo Sebrae com 1044 empresas em novembro de 2000. Revista PEGN, ano XIII, n. 150, jul./2001, p. 23.

A atuação nestes setores tem atingido representação significativa graças à postura adotada pelas mulheres em relação aos negócios, considerando que elas: a) arriscam mais nos negócios; b) conseguem trocar facilmente de papéis, de funções, de ramos e de produtos; c) obtêm maior harmonia no trabalho realizado em equipe; d) organizam e mantêm as redes de contatos; e) possuem vocação inata para administrar recursos escassos; f) planejam melhor pelo fato de terem que se envolver com várias tarefas ao mesmo tempo; além de g) estarem mais atentas às necessidades dos outros (Souza, 2001: 24). De acordo com o gráfico 2, as empresas das empreendedoras na maioria dos casos, correspondem à microempresa, considerando que os investimentos iniciais e as cargas tributárias são mais baixos e os incentivos oferecidos pelo governo são maiores.

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Gráfico 2: Porte do negócio das empreendedoras

70%

30%

Microempresa Pequena Empresa

Fonte: Sondagem feita pelo Sebrae com 1044 empresas em novembro de 2000. Revista PEGN, ano XIII, n. 150, jul./2001, p. 23.

Além de várias pesquisas apresentadas por instituições ou órgãos especializados no assunto, muitos autores se preocupam em abordar a questão do empreendedorismo relacionado ao gênero. Contudo verifica-se que grande parte deles ao abordar sobre o tema empreendedorismo busca analisar mais o meio urbano do que rural. Tal fato tem acontecido de “forma natural no contexto das grandes mudanças deste século e, se intensificarão no decorrer dos próximos anos, quando um dos fatos mais importantes é a emergência da mulher como profissional qualificada no mercado de trabalho” (Bastiani &

Rocha, 2000: 2). Poucos são os trabalhos que enfocam a mulher no meio rural – Bastiani (1999), Bastiani & Rocha (2000), Apelqvist (2000), Cunha (1998), Edris (1999), Lukkarinen (2000), Pinho (1999), Soares (1999) e Tamori (2000), entre outros. Estes trabalhos freqüentemente têm focado a contribuição que as mulheres vêm dando para o desenvolvimento de sua região ou país, buscando estimular o potencial empreendedor em grupos de mulheres rurais vinculadas a uma cooperativa agropecuária.

(21)

Ao se analisar a atividade agropecuária, constata-se que geralmente ela está relacionada com a tradição familiar de vivência, onde os filhos aprendem com os pais as tarefas, rotinas, modos de produção, estilo de vida e padrões de conduta em família e perante a sociedade em geral (Machado et al, 2000). Desta forma, os indivíduos principalmente os homens da casa, não têm muitas alternativas de investimentos disponíveis no mercado, ou seja, se vêm obrigados a dar continuidade aos negócios que durante muito tempo se encontram nas mãos da família Bastiani (1999). Diante deste fato, este estudo levantou a questão da mulher empreendedora agropecuarista a fim de compreender o processo pelo qual ela vem se inserindo neste tipo de atividade, além de identificar o papel desempenhado por ela na propriedade e o modo como conduz as atividades na propriedade.

Outro aspecto que deve ser levado em consideração é que a propriedade rural, em muitos casos, corresponde a uma empresa-familiar, e é a que mais abriga mulheres no comando, considerando que a mulher raramente precisa abdicar de quem ela é para seguir a vida profissional (Lodi, 2002).

Diante deste quadro, neste estudo buscou-se avaliar a capacitação da mulher em relação ao setor agropecuário, bem como os fatores que vêm colaborando para que atuem neste setor, o tipo de atividades que são desenvolvidas nas propriedades e o modo como as atividades são conduzidas.

Justificativa

O Paraná é um estado localizado no Sul do Brasil, cujo número de propriedades é de 425 mil propriedades rurais e que ocupam uma área de 16 milhões de hectares. Além disto é responsável por mais de 25% da produção de grãos do país, sendo que deste percentual: 50% correspondem a trigo, 29%

a algodão, 27% a milho, 22% a soja e 20% a feijão. Assim como a agricultura, a pecuária e a atividade florestal também são praticadas no Estado. De acordo com o DERAL & SEAB (1999), a atividade de agronegócio conta com mais de 160 mil associados distribuídos entre as 70 cooperativas existentes na região e geram 17 bilhões de reais, cerca de 34% do Produto Interno Bruto (apud Barbosa, 2000: 158).

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Em Londrina (Pr) está localizada a Sociedade Rural do Paraná, que é responsável por estimular as atividades agropastoris no Estado e que em 1999 contava com a participação de 1123 associados, sendo que destes cerca de 72 são mulheres. Grande parte dos seus associados reside no próprio Estado nas cidades de “Londrina (66%), Cornélio Procópio (3%), Maringá (1%) e Paranavaí (0,5%)”. Com percentuais mais reduzidos aparecem outras 47 cidades de outros Estados, dentre elas, “São Paulo (SP) - 2%, Presidente Prudente (SP) - 2%, Rio de Janeiro (RJ) - 0,5% e Eldorado (MS) - 0,5%” (Barbosa, 2000:

155-156).

Tendo em mãos estas informações buscou-se identificar, entre as mulheres agropecuaristas associadas à Sociedade Rural do Paraná, as que exerciam a função de gerenciamento ou administração da propriedade, a fim de estudar e analisar sua história de vida e apresentar os conceitos a respeito do próprio trabalho como empreendedora, assim como, o modo que conduzem o negócio. Considerando a não existência de trabalhos nesta área junto às mulheres agropecuaristas, o presente estudo justifica-se como mecanismo para apresentar as características e visão das mulheres deste setor, possibilitando que as informações obtidas sejam cruzadas e comparadas com pesquisas realizadas em outros setores da Economia. Desta forma, será possível analisar a representação da mulher enquanto empreendedora, traçando um quadro comparativo entre as características e diferenças peculiares entre as mulheres empreendedoras deste setor com as de outras áreas de atuação.

(23)

Objetivos

O objetivo geral deste estudo foi identificar, descrever e analisar os fatores que influenciaram as mulheres agropecuaristas selecionadas para o trabalho, a exercer a atividade empreendedora no setor agropecuário, além de compreender a postura adotada na condução dos negócios.

Para isto, se pretendeu atingir os seguintes objetivos específicos:

a) Descrever a história de vida de cada empreendedora;

b) Identificar fatores pessoais, sociológicos, experiência de vida e profissional que contribuíram para que a mulher exercesse atividade no setor agropecuário;

c) Avaliar a percepção destas mulheres quanto aos fatores organizacionais (equipe de trabalho, estratégia, estrutura, cultura, produto,...) e ambiente de trabalho (propriedade agropecuária).

Estrutura da dissertação

O presente estudo vem buscar no meio social a resposta para esta nova tendência do mercado, que apresenta um crescimento significativo de mulheres em cargos tidos anteriormente como de ocupação exclusiva masculina. Para alcançar seus objetivos, a dissertação encontra-se estruturada em 5 capítulos.

No primeiro capítulo encontra-se a introdução, a fim de que o leitor tenha noção do que é trabalhado no material. No segundo capítulo, a abordagem volta-se ao estudo do Empreendedorismo, buscando, por intermédio da evolução histórica, compreender tal fenômeno e a figura do empreendedor enquanto agente de mudança e transformação da sociedade. O comportamento das mulheres em estudo é analisado como uma das várias representações sociais assumidas pela mulher, baseando-se nas atitudes empreendedoras e no modo pelos quais dirigem as empresas rurais.

(24)

No terceiro capítulo são apresentadas as conceituações das dimensões escolhidas para trabalho. No capítulo 4 são apresentados os procedimentos metodológicos adotados no decorrer do estudo de forma que fossem destacados a natureza do estudo, o objeto de estudo, a amostra, a coleta de dados, o instrumento de pesquisa, o modelo de análise e o modo como os dados foram tratados. No capítulo 5 inicialmente é apresentada a caracterização dos 10 casos e em seguida, busca-se detalhar as 5 dimensões escolhidas para o estudo: 1) visão; 2) conceito de si; 3) o trabalho como empreendedora; 4) a auto-avaliação em relação à conceitos como liderança, criatividade, intuição, entre outros; e 5) a empresa em si.

Finalmente, na conclusão buscou-se traçar o perfil de comportamento e atuação adotado pelas mulheres agropecuaristas entrevistadas, além de destacar alguns pontos que não foram alcançados pelo estudo e possíveis contribuições que novos trabalhos dentro desta área possam dar não só em âmbito regional, mas estadual e nacional, a fim de identificar quem são realmente as mulheres que estão atuando no mundo agropecuarista.

(25)

2. EMPREENDEDORISMO E REPRESENTAÇÕES SOCIAIS

Neste capítulo será abordada a questão do Empreendedorismo, buscando compreender o processo histórico de inserção deste conceito na sociedade e a questão da figura do empreendedor. Além disto buscar-se-á apresentar as representações sociais, considerando que os indivíduos em grande parte de suas vidas se encontram em contínuo processo de representatividade tendo em vista que fazem parte de uma sociedade, onde predominam regras, valores e culturas que exigem que certos padrões de comportamento sejam adotados. Desta forma, neste capítulo a questão do Empreendedorismo é correlacionada com as Representações Sociais, a fim de compreender a representação feminina enquanto trabalhadora e empreendedora nos diversos setores da Economia e em particular no meio agropecuário.

2.1 Empreendedorismo

A abordagem do Empreendedorismo tem grande importância para este estudo considerando que, por intermédio dela é possível identificar a figura do empreendedor, ou seja, o sujeito da ação empreendedora, sujeito este constituído de habilidades e características que contribuem para que se destaque em relação a outros indivíduos que se aventuram na atividade empreendedora.

A retrospectiva histórica cria condições para que se faça uma análise da utilização do termo tendo como base o momento histórico em que ele surge.

Desta forma, o empreendedor do século XII terá atribuições bem diferentes do empreendedor do século XXI, ou seja, as transformações pelas quais a sociedade vem passando, exigem que a própria conceituação do que venha ser o empreendedor sofra alterações também (tendo em vista que é necessário acompanhar os avanços tecnológicos cada vez mais freqüentes).

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Levando-se em consideração que o empreendedorismo não é tema recente, é válido identificar qual o significado do termo, uma vez que existe certa confusão a respeito do seu verdadeiro significado. Dolabela (1999a: 43) apresenta que, empreendedorismo “é um neologismo derivado da livre tradução da palavra entrepreneurship”, geralmente utilizada para designar os estudos referentes à figura do empreendedor, seu perfil, origens, sistema de atividades e o seu universo de atuação. Além disto, se envolve com a área de criação de empresas, trabalhando com outros temas como: a) geração do auto- emprego (trabalhador autônomo); b) empreendedorismo comunitário (como as comunidades empreendem); c) intra-empreendedorismo (o empregado empreendedor); d) políticas públicas (políticas governamentais para o setor) (Dolabela, 1999b: 29).

É importante ressaltar que, assim como outros termos utilizados na literatura, o empreendedorismo também apresenta uma linha histórica de desenvolvimento, ou seja, suas atribuições foram se alterando de acordo com as transformações sofridas no mundo como um todo. Quando se aborda empreendedorismo é muito difícil não relacioná-lo à figura do empreendedor, considerando que o termo isoladamente se apresenta vago, sem a devida importância. O termo em si não cria ou realiza nada, na verdade o empreendedor é o sujeito do processo de transformação e desenvolvimento social no decorrer da história.

Greatti & Senhorini (2000: 22) comentam que o empreendedor do século XII era tido como uma “pessoa que incentivava brigas”. No início do século XVI, a palavra empreendedor era utilizada para designar “os homens envolvidos na coordenação de operações militares” (Blatt & Okamoto, 2000) ou, segundo Hisrish, o indivíduo que assumia riscos e tinha disposição para criar algo novo (apud Dornelas, 2001: 27). O primeiro uso do termo Empreendedorismo foi creditado a Marco Polo, que tentou estabelecer uma rota para o Oriente e, como empreendedor, assinou um contrato com um homem que possuía muito dinheiro (hoje mais conhecido como capitalista) para vender as mercadorias deste. O capitalista, nesta época, assumia os riscos de forma passiva, ao

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passo que o empreendedor assumia papel ativo, correndo todos os riscos inerentes da atividade (Dornelas, 2001).

Na Idade Média, o termo empreendedor foi utilizado para definir aquele que gerenciava grandes projetos de produção. Esse indivíduo não assumia grandes riscos, apenas gerenciava os projetos, e utilizava-se de recursos disponíveis e oriundos freqüentemente do governo do país (Dornelas, 2001:

27). Será que realmente nesta época este indivíduo era um empreendedor, ou era apenas um mero instrumento utilizado pelo governo para conduzir seus projetos? – ou seja, o gerente que gere ou administra negócios (Dicionário Brasileiro Edelbra, 2000).

No século XVII, o empreendedor era considerado como uma pessoa que criava e dirigia um empreendimento, portanto, os empreendedores eram as pessoas inovadoras, que corriam riscos em busca de oportunidades de obtenção de lucros (Greatti & Senhorini, 2000: 22). Vários pesquisadores, dentre eles Blatt & Okamoto (2000), Dornelas (2001), Filion (1999a; 2000), Lima et al (2000) e outros, atribuem a Richard Cantillon (1697-1734) o pioneirismo no campo do empreendedorismo, entretanto Say e Schumpeter também se preocuparam em analisar a questão do empreendedorismo.

Assim como Cantillon buscou diferenciar o empreendedor (aquele que assumia riscos) do capitalista (aquele que fornecia capital) (Dornelas, 2001:

28), Say também trabalhou com a distinção entre o empreendedor e o capitalista, bem como entre os lucros de cada um deles. Entretanto observa-se que tanto Cantillon como Say acreditavam que “os empreendedores eram pessoas que aproveitavam as oportunidades com perspectiva de obterem lucros, assumindo os riscos inerentes” (Filion, 1999a).

Um outro economista – Schumpeter, associou o empreendedorismo à inovação e apresentou sua verdadeira importância para o desenvolvimento econômico (Filion, 1999a). Para Schumpeter o termo entrepreneur relacionava-se com alguém que fazia novas combinações de elementos, introduzindo novos produtos ou processos, identificando novos mercados de

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exportação ou fontes de suprimento, criando novos tipos de organização (Blatt

& Okamoto, 2000). Tal definição, segundo Oliveira (1995), é a que parece melhor se aplicar ao termo, apesar das poucas variações existentes.

Outros pesquisadores também se preocuparam em estudar o fênomeno do empreendedorismo, dentre eles, outros economistas (quadro 1) e os comportamentalistas (psicólogos, psicanalistas, sociólogos e outros especialistas do comportamento humano) – (quadro 2).

Quadro 1: Economistas que se preocuparam em estudar o empreendedorismo

Baumol (1968; 1993) Broehl (1978)

Buchanan & Di Pierro (1980) Casson (1982)

Clark (1899) Ely & Hess (1893) Hayek (1937; 1959)

Higgins (1959) Hoselitz (1952; 1968) Innis (1930; 1956)

Kihlstrom & Laffont (1979) Kent, Sexton & Vesper (1982) Kirzner (1976; 1983)

Knight (1921)

Leff (1978; 1979)

Leibenstein (1968; 1978; 1979) Mill (1848)

Penrose (1959) Oxenfelt (1943) Schloss (1968) Smith (1776) Fonte: Adaptado de FILION (1999a, p.5-28).

Porém a recusa, por parte dos economistas, em aceitar modelos não-quantificáveis, apresentava limitações para desenvolver adequadamente os conhecimentos na área e, no século XX, o foco para compreender os fenômenos relacionados ao empreendedor voltou-se para os aspectos da criatividade e intuição. Desta forma, abriu-se espaço para que “psicólogos, psicanalistas, sociólogos e outros estudiosos do comportamento humano analisassem o empreendedor não como fenômeno, mas como indivíduo dotado de capacidades e habilidades específicas” (Lima et al: 2000).

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Quadro 2: Comportamentalistas que se preocuparam em estudar o empreendedorismo

Fonte: Adaptado de FILION (1999a, p.5-28).

A preocupação por parte dos comportamentalistas era definir o que são os empreendedores e quais suas características. “Um número significativo de pesquisas foi realizado a partir da década de 50, com enfoques diversos1, para dar caráter de cientificidade a um perfil mais ou menos homogêneo do empreendedor” (Lima et al, 2000). Dentre estas pesquisas a mais importante é atribuída a McClelland, que “mostrava que as pessoas que seguem carreiras semelhantes à de empreendedores têm uma necessidade de realização social além de gostarem de correr risco, fato que as levam a despenderem maiores esforços” (Greatti & Senhorini, 2000: 22-23). Apesar do resultado das inúmeras pesquisas terem “sido surpreendentes, não foi possível traçar um perfil psicológico do empreendedor” (Filion, 2000). Na verdade o que se obteve foi

1 Qualidades empreendedoras que devem ser destacadas em uma pessoa para que obtenha êxito como empreendedor; a personalidade empreendedora; as diferenças no estilo de empreender e de gestão associadas ao gênero; as diferenças de comportamento associadas com atividades empreendedoras em diferentes estágios do ciclo de vida; associação de características pessoais, valores, estilos administrativos, características organizacionais para iniciar o negócio; e a existência da relação entre tipo de personalidade executiva e comportamento estratégico (Gimenez et al, 2000).

Bannock (1981) Brockhaus (1982) Burdeau (1979) Chell (1985)

Collins & Moore (1970)

Collins, Moore & Unwalla (1964) David C. McClelland (1961;

1971)

Durand (1975)

Durand & Shea (1974) Du Toit (1980)

Ellis (1983) Eysenk (1967)

Filion (1988; 1990; 1991; 1999) Gasse (1978; 1982)

Gibb & Ritchie (1983)

Gunder (1969) Hornaday (1982)

Hull, Bosley & Udeel (1980) Hundall (1971)

Kennedy (1988) Kets de Vries (1985) Kunkel (1965) Lynn (1969)

Lorrain & Dussault (1988) Marx (1844; 1848) Max Weber (1930) McGuire (1964; 1976)

Meredith, Nelson & Neck (1982)

Neck (1971) Newman (1981)

Patel (1975)

Rosenberg & Birdzell (1986) Rotter (1966)

Scase & Goffee (1980) Schrage (1965) Sing (1970)

Sing, N. & Sing, K. (1972) Stanworth & Curran (1973) Tawney (1947)

Timmons (1971; 1973;

1978)

Toulouse (1979)

Toulouse & Brenner (1992) Toynbee (1976)

Vachet (1988)

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uma listagem com inúmeras características mais comuns atribuídas aos empreendedores (quadro 3).

Quadro 3: Características mais freqüentemente atribuídas aos empreendedores pelos comportamentalistas

Inovação Liderança Riscos

Moderados Independência Criatividade Energia Tenacidade Originalidade

Otimismo Orientação para

resultados Flexibilidade Habilidade para

conduzir situações Necessidade de

realização Autoconsciência Autoconfiança Envolvimento a longo

prazo

Tolerância à ambigüidade e à incerteza

Iniciativa Capacidade de

aprendizagem

Habilidade na utilização de recursos

Sensibilidade a outros Agressividade

Tendência a confiar nas pessoas

Dinheiro como medida de desempenho

Fonte: Hornaday (1982); Meredith, Nelson & Neck (1982); Timmons (1978) (apud FILION, 1999a).

No final do século XIX e início do século XX, os empreendedores foram confundidos com gerentes ou administradores, considerando que organizavam a empresa, pagavam os empregados, planejavam, dirigiam e controlavam as ações desenvolvidas na organização (Dornelas, 2001: 28-31). Durante muitos séculos houve a preocupação em se estudar o empreendedor, contudo ainda hoje prevalece a discordância sobre a conceituação do termo empreendedor.

Geralmente quando se busca na literatura adotar uma definição para utilização não é raro ter opção de escolha. O grande número de estudos realizados é reflexo da problemática em se explicar o termo empreendedorismo/

empreendedor.

Desta forma, muitos estudiosos se preocuparam e se preocupam em trabalhar com o termo empreendedorismo, relacionando-o a outras variáveis, a fim de contribuir para a explicação de tal conceito. Mas, qual a importância de se conceituar e/ou definir os termos? Na verdade, tais conceitos “são pontos de

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partida dos pesquisadores para os estudos das condições que levam o empreendedor ao sucesso. É através desse entendimento que é possível ensinar alguém a ser empreendedor. Por isso, o estudo do perfil de empreendedores é o tema central das pesquisas e tem sido de grande valia para a educação na área” (Dolabela, 1999b: 29).

Cada vez mais, principalmente com o avanço tecnológico (quadro 4), os empreendedores têm sido forçados a acompanhar as exigências do mercado, a fim de que estejam preparados para atuar como agentes de transformação e inovação.

Quadro 4: Invenções e conquistas do século XX

1903: Avião motorizado

1915: Teoria geral da relatividade de Enstein 1923: Aparelho televisor

1928: Penicilina 1937: Nylon 1943: Computador 1945: Bomba Atômica

1947: Descoberta da estrutura do DNA abre caminho para a engenharia genética

1957: Sputnik, o primeiro satélite

1958: Laser

1961: O homem vai ao espaço 1967: Transplante de coração 1969: O homem chega à Lua;

Início da Internet, Boeing 747 1970: Microprocessador

1989: World Wide Web

1993: Clonagem de embriões humanos 1997: Primeiro animal clonado: ovelha Dolly 2000: Seqüenciamento do genoma humano Fonte: Dornelas (2001: 20).

Mas, quem são estes indivíduos ou equipes de trabalho? Huxley acredita que este indivíduo, ou seja, o empreendedor “é a personalidade criativa;

sempre lidando melhor com o desconhecido, perscrutando o futuro, transformando possibilidades em probabilidades, caos em harmonia” (apud Degen, 1989). Quando se aborda a figura do empreendedor deve-se pensar nele como um dos papéis assumidos pelo indivíduo na condução dos negócios (Gerber, 1996), relacioná-lo com o meio no qual está inserido (Filion, 2000) e por fim considerar que a forma de trabalhar de quem é empreendedor é o reflexo de si próprio e do meio em que vive (Souza, 1998). Portanto, neste estudo o empreendedor é uma pessoa, homem ou mulher, que busca dirigir e

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gerenciar os negócios de forma inovadora e criativa, tendo como base as inovações tecnológicas pelas quais a sociedade vem passando.

Apesar das inúmeras pesquisas que são realizadas na área do Empreendedorismo verifica-se que não existe concordância a respeito do que venha a ser o empreendedor, entretanto Filion considera que o empreendedor geralmente desenvolve maneiras de ser e de fazer as coisas que se diferem daquilo que é o padrão da sociedade (apud Dolabela, 2000). Freqüentemente o empreendedor consegue desenvolver formas de saber ser e saber fazer diferentes daquelas que são modelos de sucesso veiculados na maior parte das sociedades, mas os seus modelos de aprendizagem, de saber aprender e de vir a ser manifestam-se de maneira variada.

Gerber (1996: 21), nos força a imaginar o típico empreendedor como alguém que tem ou revela força extraordinária, ou seja, “um homem ou mulher enfrentando, sozinhos os elementos hostis, lutando corajosamente contra obstáculos quase invencíveis, escalando faces de ameaçadores penhascos – tudo apenas para realizar o sonho de criar o seu próprio negócio”. Mas será que esta afirmação consegue realmente resumir a figura do empreendedor?

Será que o empreendedor não é muito mais que isto, uma vez que o meio onde atua e vive se encontra em contínuo processo de transformação?

Em qualquer estudo sobre o empreeendedorismo encontra-se pelo menos os seguintes aspectos referentes ao empreendedor: 1) iniciativa para criar um novo negócio e paixão pelo que faz; 2) utilização de recursos disponíveis de forma criativa transformando o ambiente social e econômico onde vive; e 3) aceitação em assumir os riscos e a possibilidade de fracassar (Dornelas, 2001). A figura do empreendedor pode ser considerada como um dos papéis que o indivíduo assume diante de determinada circunstância. Tal papel normalmente é assumido quando o indivíduo percebe, no meio em que vive, fatores externos, ambientais, sociais e até mesmo, aptidões pessoais que possibilitarão com que inicie um negócio. Muitas pessoas fazem com que este momento prevaleça durante toda a sua atuação nos negócios, entretanto existem pessoas que só têm entusiasmo no momento em que iniciam e com o

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passar dos anos vão perdendo o interesse pelo que fazem e esquecem-se de manter viva a chama que as conduzem no caminho do empreendedorismo. E como manter viva esta chama do empreendedor?

O primeiro passo é buscar atuar com base nas atitudes positivas, pois elas fazem com que o exercício do trabalho se torne mais estimulante e interessante. O resultado de um trabalho bem feito não só irá satisfazer o empreendedor, como também a equipe de trabalho que se encontra a sua volta e os indivíduos que fazem uso do produto ou serviço oferecido pela organização. O segredo é trabalhar com ânimo, coragem, experiência e perseverança a fim de que se obtenha êxito no empreendimento.

O empreendedor é uma pessoa qualquer, ou seja, sem distinção de sexo, origem, crença e costume, mas uma pessoa que sabe assumir seu papel por inteiro e que tem capacidade de descobrir e avaliar oportunidades de negócios, reunindo desta forma recursos necessários para aproveitá-los e trabalhando de forma adequada para que obtenha êxito em suas atividades, não importando qual a área que se dispôs a atuar (Souza, 1998). Onde estão estes empreendedores? É uma atividade exclusiva do mundo dos negócios?

Freqüentemente o empreendedor está mais relacionado com a área de negócios considerando que este é o campo de estudo do empreendedorismo, cujo tema volta-se ao estudo de “pessoas que inovaram sem temer riscos, que buscam o próprio espaço e não fogem do compromisso de melhorá-lo”

(Dolabela, 2000). Apesar dos estudos e pesquisas estarem direcionados para esta área de estudo, é importante estimular o desempenho deste papel não só na área de negócios, mas em todos os ramos de atividade humana como as artes, o esporte, a política, a música, entre outras (Blatt & Okamoto, 2000), a fim de que cada vez mais existam pessoas que busquem realizar feitos que agreguem valor não só econômico como cultural, à sociedade, contribuindo para o desenvolvimento do indivíduo e do meio a que pertencem. Entretanto, para que isto ocorra, deve-se, em primeiro lugar, compreender as relações mantidas pelo indivíduo com a sociedade, para que depois o estimule a atuar

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enquanto agente de transformação e inovação no ramo de atividade em que se encontra alocado.

2.2 Representações Sociais e a mulher empreendedora

Abordar a questão do empreendedorismo feminino no meio rural associando-o com representações sociais permite que se analise a postura e a conduta assumida pela mulher na sociedade da qual faz parte. A representação social da mulher enquanto empreendedora agropecuarista é objeto de estudo, inicialmente por se tratar de um setor de atividade considerado por muito tempo como de domínio exclusivamente masculino, no qual as mulheres se encontravam na retaguarda, auxiliando seus familiares (pai, marido) ou atuando como trabalhadora rural.

Entretanto, o que se vem notando é que existe um número crescente de mulheres atuando neste setor, não só como trabalhadoras, mas como proprietárias e empreendedoras. Tal atuação abre espaço para que pesquisadores busquem analisar como a mulher tem trabalhado com sua representação social e qual a importância que é dada a este papel, enquanto agente responsável pela geração de novos negócios e empregos na sociedade.

A Teoria das Representações Sociais nasceu e cresceu buscando explicar certas contradições e dilemas existentes no meio social. Uma das principais contradições diz respeito a relação indivíduo-sociedade, ou seja, o modo como este tipo de relação se constrói e se mantém (Jovchelovitch, 1995:

63). Na verdade as representações sociais expressam a realidade, explicando- a, justificando-a e até mesmo questionando-a (Minayo, 1995: 89), a fim de identificar como determinados fatores a influenciam.

Três grandes autores clássicos (Durkheim, Marx e Weber) abordam o conceito de representações sociais, cada um expressando uma corrente de pensamento. Para Durkheim, as representações sociais são expressas como

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“categorias de pensamento através das quais determinada sociedade elabora e expressa sua realidade”, ou seja, elas correspondem a fenômenos reais que possuem propriedades e comportamento específico baseando-se na realidade social da qual se originam (apud Minayo, 1995: 90).

Em Weber, as representações sociais são apresentadas como juízos de valor que os indivíduos dotados de vontade possuem. Enquanto Weber utiliza- se dos termos: idéias, espírito, concepção e mentalidade como sinônimos para expressar a visão do mundo que as pessoas possuem, Marx adota-se a categoria consciência para explicar as representações sociais, considerando que “as idéias, os dogmas, as ilusões são produzidos e reproduzidos” pela consciência humana (Minayo, 1995: 97).

Analisando a caracterização de cada autor clássico é possível afirmar que as representações sociais demonstram um retrato da realidade, onde os indivíduos são atores permanentes e responsáveis pelas transformações que ocorrem na sociedade. Tal afirmação justifica as funções essenciais apresentadas por Abric (1994) em relação às representações sociais: a) função de saber – compreensão e explicação da realidade; b) função identitária – posicionamento dos indivíduos e grupos no campo social; c) função de orientação – orientação do comportamento e práticas; e d) função justificadora – justificam as tomadas de posição e os comportamentos.

Assim como as funções apresentadas anteriormente, verifica-se a importância do indivíduo no processo de representação social, que consciente ou inconscientemente através de suas atitudes, sentimentos e condutas, influencia o meio. Doise argumenta que as representações sociais expressam a subjetividade individual a partir do momento em que são entendidas como

“princípios geradores de tomadas de posição ligadas a inserções específicas num conjunto de relações sociais” (apud Craemer et al, 2001: 50). Tais representações são traduzidas na comunicação e nas práticas sociais, é através da linguagem que o indivíduo poderá exercer certa intervenção nas relações de poder e nas restrições impostas pela situação podendo mudar todo um comportamento social pré-estabelecido.

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A participação crescente de mulheres brasileiras no mercado de trabalho é uma das mudanças sociais mais notáveis no país desde os anos 60. Com ela padrões e valores relacionados ao papel social da mulher têm passado por mudanças, ou seja, reformulação de conceitos e atribuições tradicionalmente instituídos pela sociedade. O trabalho feminino permite que a mulher: 1) possa alcançar sua independência econômica, além de contribuir no orçamento familiar; 2) complemente a renda familiar; e 3) aumente suas expectativas de consumo (Rossini, 2002).

Desta forma, entender a representação social da mulher possibilitará que se avalie como esta inserção no mercado vem se processando, tanto em relação ao trabalho assalariado ou empreendedor no meio rural ou urbano. As representações coletivas trarão à tona como o grupo se avalia nas relações com objetos que o afetam, ou seja, quais fatores ou aspectos traduzem suas expectativas e valores sociais dentro do setor no qual estão inseridos.

Graças a uma revolução que ocorreu no recém-terminado século 20 foi possível que a situação e o papel da mulher na sociedade fossem reavaliados.

Entretanto, esta transformação ocorreu em parte devido a uma luta reivindicatória semelhante à empreendida pelas minorias sociais e como conseqüência de todos os avanços do conhecimento humano. Mesmo com a reavaliação do papel da mulher na sociedade, é importante frisar que muitas das injustas diferenças de tratamento entre homem e mulher, principalmente a remuneração do trabalho, ainda não foram superadas (Tabela 3) .

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Tabela 3: Rendimento Médio (1) dos Ocupados, por sexo, segundo setor de atividade

Brasil 1995-1999 (em reais)

Setor de 1995 1999

Atividade Total (2) Mulheres Homens Total (2) Mulheres Homens

Agrícola 176,50 44,16 218,36 162,88 48,03 199,73

Industria de Transformação 622,20 381,01 712,20 538,74 358,77 613,26 Construção Civil 472,70 691,78 468,39 393,18 330,58 395,57 Outras Indústrias 732,23 545,90 769,85 718,08 589,65 742,57

Comércio 542,52 362,18 657,06 488,12 350,49 580,63

Prestação de Serviços 313,32 208,68 486,50 306,02 206,30 464,56 Outros Serviços 751,87 540,77 972,74 727,10 559,43 897,84 Administração Pública 796,34 723,16 832,68 834,16 748,65 877,81 Outros Setores 1159,91 957,03 1267,67 1048,62 945,81 1109,71 Fonte: Fundação IBGE. Tabulações Especiais da PNAD de 1995 e 1999; Fundação Seade.

(1) Em 1995, valores inflacionados pelo INPC com base em setembro de 1999 e expressos em salários mínimos de 1999.

(2) Inclusive outras atividades maldefinidas ou não declaradas.

Analisando os resultados apresentados pela tabela 3, verifica-se que mesmo trabalhando mais, a mulher continua recebendo bem menos do que um homem que exerça a mesma atividade profissional. De acordo com os dados do IBGE, em 1999 os percentuais variaram de 320% a 20% em quase todos os setores de atividade, apenas na categoria Administração Pública e Outros Setores é que as diferenças foram menores, ou seja, permaneceram em torno de 17,26%.

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Tabela 4: Rendimento Médio (1) dos Ocupados, por sexo, segundo Nível de Instrução (2)

Brasil 1995-1999 (em reais)

Setor de 1995 1999

Atividade Total Mulheres Homens Total Mulheres Homens

Menos de 1 ano de estudo (4) 164,46 104,26 194,19 158,26 101,80 182,47 1 a 3 anos de estudo 228,99 125,83 280,36 207,71 125,53 246,54 4 anos de estudo 352,31 187,39 445,64 313,55 178,66 389,77 5 a 7 anos de estudo 332,65 203,15 406,97 297,19 182,58 359,81 8 anos de estudo 500,37 301,15 617,02 427,45 277,26 517,04 9 a 10 anos de estudo 447,50 288,81 564,77 365,57 250,73 451,77 11 anos de estudo 740,61 491,50 972,03 619,08 427,14 798,52 12 anos ou mais de estudo 1639,89 1046,94 2227,43 1469,09 1029,47 1922,70 Sem declaração 320,03 197,05 418,65 294,75 222,63 349,53 Fonte: Fundação IBGE. Tabulações Especiais da PNAD de 1995 e 1999; Fundação Seade.

(1) Em 1995, valores inflacionados pelo INPC com base em setembro de 1999 e expressos em salários mínimos de 1999.

(2) Anos de estudo concluídos.

Um outro aspecto a ser observado é que mesmo estando qualificada para exercer uma atividade, a mulher obtém rendimentos inferiores além de se deparar com barreiras como o fenômeno do teto de vidro2, que a impedem de assumir posições mais elevadas, permanecendo assim em ponto de estagnação. Na tabela 4 estas diferenças de rendimento podem ser destacadas, observe que em 1999 a diferença percentual mais alta se encontrava no nível de instrução “4 anos de estudo “ (118%), e o menor no nível “Menos de 1 ano de estudo“ (54%).

No decorrer da história são encontradas muitas mulheres que sempre trabalharam no campo. Apesar de trabalharem mais obtinham menos privilégios e direitos legais que os cedidos aos homens, mesmo sendo consideradas “o esteio sobre o qual repousava a sociedade inteira” (Muraro,

2 “Este conceito foi introduzido na década de 80 nos Estados Unidos, e foi utilizada esta representação simbólica para descrever a existência de uma barreira sutil, transparente e forte, que impossibilita a ascensão de mulheres aos níveis mais altos da hierarquia organizacional”

(Munhoz & Rodrigues, 2000: 140).

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1995: 127). Ainda hoje, o trabalho é maior para a mulher do que para o homem. Observe que:

as mulheres trabalham mais do que os homens. Na verdade, o uso do tempo da mulher é muito diferente do homem. O tempo remunerado é maior entre os homens e o não remunerado é maior entre as mulheres.

A mulher gasta em média, mais de 30 horas de trabalho por semana com afazeres domésticos. Em certos ciclos da vida, o trabalho se torna extremamente intenso. Isso ocorre quando se combinam o trabalho fora de casa, com os afazeres domésticos e o cuidado das crianças pequenas (Pastore, 2002).

Um aspecto importante a ser trabalhado diz respeito à questão de classe social, que interfere nas diferenças do modo de vida e até mesmo na concepção que a mulher tem sobre o trabalho a ser executado. É possível afirmar que a condição social da mulher varia muito de acordo com a classe social a que pertence. As mulheres que pertencem à classe média, na maioria dos casos, possuem condição financeira e recebem incentivos por parte da família para estudar. Tais estímulos possibilitam que estudem e cursem uma universidade, ao passo que para a mulher de classe social mais baixa isto se torna bem mais difícil. Geralmente na classe média “a presença feminina no sistema formal de educação praticamente equipara-se à masculina, chegando mesmo a superá-la no segundo e terceiro graus” (Ammann, 1997: 101). Na universidade, as mulheres correspondem a mais da metade dos estudantes e, junto com as operárias e camponesas, somam quase 40% da força de trabalho (Muraro, 1995: 157).

Um outro aspecto que também pode ser ressaltado é a elitização do Ensino Superior, ou seja, um percentual cada vez maior de mulheres pertencentes às classe média e alta têm acesso ao ensino superior. De 53,7%

em 1992 a participação saltou em 1999 para 57,1% (Almanaque Abril, 2002), ou seja, cada vez mais as estudantes de classe média e alta buscam profissionalização através de um curso superior. Entretanto um outro contexto é apresentado nas classes mais pobres, onde a maioria das mulheres é

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analfabeta e as que possuem estudo geralmente se limitam a nível primário.

Tal situação é caracterizada pela necessidade de tais mulheres serem as responsáveis pela manutenção do lar e cuidado com os filhos, que as impossibilitam de continuarem seus estudos. É nesta classe que se concentra o maior número de lares monoparentais considerando que a mulher nestes lares é a chefe de família3. Ela é a responsável pela renda familiar, geralmente oriunda do trabalho doméstico e/ou informal que realiza. De acordo com a (OIT, 1995: 4), a situação das mulheres desta classe só vem confirmar a frase que diz que: “Mais de dois terços dos pobres do mundo são mulheres” (apud Ammann, 1997: 99), considerando que os níveis de remuneração são muito baixos e as condições de vida são extremamente deploráveis.

Já na classe dominante é encontrado duplo padrão de comportamento, ou seja, “explicitamente a mulher tem um discurso puritano e familiar, mas por debaixo dos panos” rompe sem culpa nem punição a muitas regras impostas pela sociedade. Tal comportamento contribui para que estruturas como a da família e da Igreja refaçam seus valores e moral, possibilitando que filhos do sexo masculino rompam também as regras do setor privado, as normas da legalidade do Estado e da economia, beneficiando a si próprio e a classe social da qual faz parte (Muraro, 1995: 157-158).

Hoje a mulher é vista em muitos redutos antigamente tidos como tipicamente masculinos, ou seja, ela “vem conseguindo derrubar clichês que apresentam seu gênero como intelectualmente limitado” e demonstra

“capacidades e aptidões para ocupar espaços que lhe eram vedados”

(Ammann, 1997: 101). Muitas mulheres já ocupam posições de destaque em todos os meios e campos de atividade, quer seja “na pesquisa científica, na administração empresarial4, na vida acadêmica, na medicina, na política, na magistratura, na comunicação, na cultura, nas artes” (Estado de SP, 09/03/2001). “No Brasil, um levantamento do grupo Catho, especializado em

3Em 2000, de acordo com os dados do IBGE, as mulheres chefiavam 26% das famílias. Tal fato está relacionado com a separação de casais, pois quase sempre com a ruptura do casamento, a guarda dos filhos é repassada a ela e então passa a dirigir a família.

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recursos humanos mostra que nos últimos anos a participação das mulheres na cúpula das empresas brasileiras – nas posições de presidente ou principal executiva – aumentou em significativos 49%” (Maerker, 2000: 14).

Tal participação demonstra que além do papel de filha, esposa, amante, mãe e trabalhadora, a mulher tem se inserido em outros meios além do doméstico. Uma identidade importante que também vem sendo assumida pela mulher é a de mulher empreendedora e/ou empresária. Mas o que significa ser uma mulher empreendedora nos dias atuais? Quais qualidades são consideradas importantes para desempenhar tal papel?

2.2.1 Mulher empreendedora

Souza (1998: 121) considera a mulher empreendedora como aquela

“que tem a capacidade de descobrir e avaliar oportunidades nos negócios, de reunir os recursos necessários para aproveitá-los e de trabalhar de forma apropriada para conseguir êxito”. Contudo, ressalta que qualidades como: a) confiança em si própria; b) consciência de tarefa necessária e do resultado buscado; c) consciência de assumir riscos; d) originalidade; e) consciência do futuro; f) flexibilidade; g) necessidade de realização e h) grande desejo de ser independente são muito importantes para o desempenho deste papel.

Possuir qualidades para ser uma empreendedora não é o suficiente para que a mulher desempenhe este papel, antes de tudo é necessário que exista toda uma estrutura pessoal e familiar que contribua para o êxito das atividades.

Porém é válido identificar como a mulher vem se posicionando perante o trabalho e a família ao exercer o papel de empreendedora e/ou empresária.

Silva (2001), argumenta “que negócio e família não estão em pólos opostos: há vantagens que o negócio traz para a família e vice-versa”, ou seja, entre ambos existe um sistema de troca que contribui para o desenvolvimento profissional da mulher. Em Cramer et al (2001: 52) verifica-se a existência de “uma certa

4Inclui-se também a atividade agropecuarista exercida pela mulher empreendedora conforme apresentado por Tóffolo (2001) considerando que tal atividade é considerada como tradicionalmente masculina.

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concorrência da atividade empreendedora com a dedicação à família”, ou seja, existe “um desestímulo, por parte dos familiares, à abertura de um negócio por estes desacreditarem de sua competência para gerir e administrar a atividade com sucesso”.

Deve-se ressaltar que apesar das inúmeras transformações no que diz respeito à participação da mulher no mercado de trabalho, percebe-se que muitas mulheres enfrentam “muitas barreiras, como a hierarquia tradicional e até mesmo as pressões familiares”. Geralmente, as barreiras que impedem as mulheres de atingir o sucesso estão relacionadas a fatores externos (empresa e família) e internos (medo, insegurança e falta de conhecimento). “A melhor estratégia que elas podem usar para vencer tais barreiras é seguir o exemplo das mulheres que tomaram a dianteira e alcançaram o sucesso profissional e pessoal apesar de tudo” (Brooks, 1999: 145). Para que tais barreiras sejam superadas “um dos principais antídotos para isso é manter a mente aberta, ativa, atualizada, deixando em segundo plano o que a maioria das pessoas classificam de “limites do possível”.

O mundo é grande demais e está aí para nos oferecer uma gama ilimitada de possibilidades e oportunidades. “Essa capacidade de trabalhar com possibilidades, prevendo o que está por vir, entre problemas, fatos e atos que ainda não aconteceram, é aspecto fundamental para o sucesso, sempre”

(Maerker, 2000: 21-24). Hoje, para que a mulher atue neste ambiente é necessário antes de tudo que disponha de conhecimentos gerais para analisar as situações, e que se mantenha aberta ao aprendizado, buscando através de seus relacionamentos identificar e perceber o que realmente contribuirá para êxito em suas atividades.

Além de munir-se de conhecimento, a mulher precisa contornar a resistência exercida tanto no ambiente de trabalho, quanto no ambiente familiar fazendo-se impor de maneira que consiga provar e comprovar que tem capacidade de gerir e manter negócios de sucesso. Contudo, para que tais resistências sejam superadas é necessário que a mulher mantenha-se em constante processo de transformação e luta, considerando que vivemos em

Referências

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