An´ eis
R e f e r ˆe n c i a s Sobre a aritm´etica dos inteiros: N´umeros-Uma Introdu¸c˜ao `a Matem´aticade C´esar Polcino Milies e Sˆonia Pitta Coelho. Editado pela Editora da Universidade de S˜ao Paulo (Edusp), 2000.
Para saber mais sobre an´eis e o dom´ınio principal dos inteiros: Curso de ´Algebra, Volume 1de Abramo Hefez, Cole¸c˜ao Matem´atica Universit´aria, Sociedade Brasileira de Matem´atica (SBM), 1998.
Sobre an´eis, extens˜oes alg´ebricas de corpos e grupos:Introdu¸c˜ao `a Algebra´ de Adilson
Gon¸calves, Projeto Euclides, IMPA, 2000.
A Matem´atica faz parte do nosso cotidiano e, em particular, recorremos aos n´umeros para descrever diversas situa¸c˜oes do dia a dia.
Contamos com os n´umeros naturais, repartimos um bolo usando os n´umeros racionais, medimos comprimentos com os n´umeros reais, contabili- zamos preju´ızos com n´umeros negativos. Comparamos dois n´umeros inteiros, dois n´umeros racionais e dois n´umeros reais. Calculamos ra´ızes de polinˆomios com coeficientes reais com n´umeros complexos.
Estamos familiarizados com n´umeros naturais, inteiros, racionais, reais e complexos, que est˜ao relacionados pelas seguintes inclus˜oes:
N⊂Z⊂Q⊂R⊂C.
Esses conjuntos est˜ao munidos com opera¸c˜oes de adi¸c˜ao e multiplica¸c˜ao, que tˆem diversas propriedades.
Nosso objetivo ´e introduzir o estudo de estruturas alg´ebricas, abor- dando os conceitos de anel, dom´ınio, dom´ınio ordenado e dom´ınio principal, ideais de um anel comutativo, homomorfismo de an´eis e a fatora¸c˜ao ´unica em dom´ınios principais.
O conjunto dos inteiros ´e o primeiro exemplo de dom´ınio principal, ser´a estudado sobre o ponto de vista alg´ebrico e aritm´etico e faremos um estudo detalhado das suas propriedades no contexto dos dom´ınios principais.
Introduziremos o conceito de indu¸c˜ao, uma t´ecnica muito utilizada em demonstra¸c˜oes.
N˜ao faremos a constru¸c˜ao axiom´atica dos n´umeros naturais, usaremos apenas as no¸c˜oes intuitivas.
Usaremos a divis˜ao euclidiana para escrever os n´umeros inteiros n˜ao- negativos em uma baseb > 1.
Conceito de anel
Vamos introduzir a estrutura alg´ebrica de anel e dar exemplos. Veremos os conceitos de anel comutativo e de anel com unidade, assim como diversos exemplos.
Vocˆes conhecem v´arios conjuntos, onde est˜ao definidas opera¸c˜oes de adi¸c˜ao e multiplica¸c˜ao entre seus elementos e essas opera¸c˜oes tˆem diversas propriedades. Lembramos algumas dessas estruturas alg´ebricas:
• os n´umeros naturais N={ 0, 1, 2, 3, . . .}.
• os polinˆomios com coeficientes reais, denotados por R[x];
• as matrizes Mn×n(R);
• os n´umeros inteirosZ={ . . . ,−3,−2,−1, 0, 1, 2, 3, . . .};
• os n´umeros racionais Q= m
n | n, m∈Z e n6=0
;
• os n´umeros reais R;
• os n´umeros complexos C={ a+bi | a, b∈R e i2= −1 };
• os n´umeros inteiros, racionais e reais podem ser comparados com uma rela¸c˜ao de ordem ≤. Veremos que as opera¸c˜oes de adi¸c˜ao e multi- plica¸c˜ao, a ordem e as propriedades que as relacionam caracterizar˜ao os n´umeros inteiros.
Defini¸c˜ao 1 (Opera¸c˜ao)
Dizemos que um conjunto A est´a munido com opera¸c˜oes de adi¸c˜ao ( + ) e multiplica¸c˜ao ( · ) se, e somente se, para todo par (a, b) ∈ A×A sabemos associar um ´unico elemento c ∈ A e um ´unico elemento d ∈ A denotados, respectivamente, por:
Lembre que uma associa¸c˜ao desse tipo ´e uma fun¸c˜ao.
c=a+b e d=a·b.
Nesse caso, dizemos que as opera¸c˜oes est˜ao fechadas no conjunto A, isto ´e, para quaisquer a, b∈A, temosa+b∈A e a·b∈ A.
A adi¸c˜ao e a multiplica¸c˜ao s˜ao descritas por fun¸c˜oes + : A×A −→ A
(a, b) 7−→ c=a+b e · : A×A −→ A (a, b) 7−→ d=a·b
Exemplo 1
Todos os conjuntos listados acima s˜ao conjuntos munidos de opera¸c˜oes de adi¸c˜ao e multiplica¸c˜ao.
Defini¸c˜ao 2 (Anel)
Um anel A ´e um conjunto munido com opera¸c˜oes de adi¸c˜ao ( + ) e de multiplica¸c˜ao (· ), tendo as seguintes propriedades:
A1 (Associativa) Para quaisquera, b, c∈A, temos(a+b)+c=a+(b+c).
A2 (Comutativa) Para quaisquer a, b∈A, temosa+b=b+a.
A3 (Existˆencia de elemento neutro para a adi¸c˜ao)
Existe θ∈A, tal que a+θ=θ+a=a, para todo a∈A.
A4 (Existˆencia de sim´etrico)
Para cadaa∈A, existe a′ ∈A, tal que a+a′ =a′+a=θ.
M1 (Associativa) Para quaisquer a, b, c∈A, temos (a·b)·c=a·(b·c).
AM (Distributiva) Para quaisquera, b, c∈A, temosa·(b+c) =a·b+a·c e(a+b)·c=a·c+b·c.
Exemplo 2
Nn˜ao ´e um anel.
A adi¸c˜ao e multiplica¸c˜ao tˆem as propriedades A1, A2, A3, M1 e AM, mas n˜ao vale a propriedade A4.
Exemplo 3
Z,Q,ReC, respectivamente, inteiros, racionais, reais e complexos s˜ao an´eis, onde o elemento neutro para a adi¸c˜ao ´e o n´umero inteiro 0.
Exemplo 4
Mn×n(R) = { X = (Xij) ; Xij ∈ R, onde 1 ≤ i, j ≤ n }´e um anel, com as opera¸c˜oes usuais de adi¸c˜ao e multiplica¸c˜ao de matrizes, definidas por:
Z=X+Y, ondeZij=Xij+Yij, para 1≤i, j≤n;
Z=X·Y, onde Zij= Xn k=1
Xik·Ykj, para1≤i, j≤n, para X, Y ∈Mn×n(R).
De fato, a adi¸c˜ao e multiplica¸c˜ao tˆem as propriedades A1, A2, A3, A4, M1 e AM, conforme j´a foi verificado em um curso b´asico de ´Algebra Linear.
Volte a um texto de ´Algebra Linear, para recordar as opera¸c˜oes com matrizes e suas propriedades.
Para ilustrar vamos verificar duas dessas propriedades: AM e M1.
Sejam X, Y, Z∈Mn×n(R). Para quaisquer i, jtais 1≤i, j≤n, temos
Usamos a defini¸c˜ao da multiplica¸c˜ao e adi¸c˜ao de matrizes e, sucessivamente, as seguintes propriedades das opera¸c˜oes do anelR:
AM, A2, A1. Depois, novamente, usamos a defini¸c˜ao de multiplica¸c˜ao e adi¸c˜ao de matrizes.
(X·(Y+Z))ij = Xn
r=1
Xir·(Y+Z)rj
= Xn
r=1
Xir·(Yrj+Zrj)
= Xn
r=1
(Xir·Yrj+Xir·Zrj)
= Xn
r=1
Xir·Yrj+ Xn
r=1
Xir·Zrj
= (X·Y)ij+ (X·Z)ij
= (X·Y+X·Z)ij,
mostrando queX·(Y+Z) =X·Y+X·Z e vale AM.
Usamos duas vezes a defini¸c˜ao de multiplica¸c˜ao de matrizes e ap´os,
sucessivamente, as seguintes propriedades das opera¸c˜oes do anelR: AM, M1, A2, A1.
Depois, novamente, usamos duas vezes a defini¸c˜ao de multiplica¸c˜ao de matrizes.
(X·(Y·Z))ij = Xn
r=1
Xir·(Y·Z)rj
= Xn
r=1
Xir· Xn
s=1
Yrs·Zsj
!
= Xn
r=1
Xn s=1
Xir·(Yrs·Zsj)
!
= Xn
r=1
Xn s=1
(Xir·Yrs)·Zsj
= Xn
s=1
Xn r=1
(Xir·Yrs)
!
·Zsj
= Xn
s=1
(X·Y)is·Zsj
= ((X·Y)·Z)ij,
mostrando queX·(Y·Z) = (X·Y)·Z e vale M1.
A matriz n por n com todos os elementos nulos, Xij= 0 para 1 ≤ i, j≤ n, denotada porO, ´e o elemento neutro da adi¸c˜ao.
Lembramos que o sim´etrico deX´e a matrizY, tal que Yij= −Xij, para todo 1≤i, j≤n. Costumamos escrever Y = −X.
Exemplo 5
Consideremos o intervalo I = (−1, 1) e seja F(I) o conjunto de todas as
fun¸c˜oes deI em R, isto ´e, Vocˆe tem familiaridade com
as fun¸c˜oes de vari´avel real e valores reais.
F(I) = {f : I−→R | f´e uma fun¸c˜ao }.
Para quaisquer f, g∈ F(I), as opera¸c˜oes usuais de adi¸c˜ao e multiplica¸c˜ao de fun¸c˜oes s˜ao definidas por:
(f+g)(x) = f(x) +g(x), para todo x∈I e (f·g)(x) =f(x)·g(x), para todo x∈I . Com essas opera¸c˜oes, F(I) ´e um anel.
De fato, vamos mostrar que valem as seis propriedades das opera¸c˜oes da Defini¸c˜ao 2.
Primeiramente, para quaisquer f, g, h∈ F(I), temos:
((f+g) +h)(x) (1)= (f+g)(x) +h(x)
(2)= (f(x) +g(x)) +h(x)
(3)= f(x) + (g(x) +h(x))
(4)= f(x) + (g+h)(x)
(5)= (f+ (g+h))(x), para todox∈I,
implicando que(f+g) +h=f+ (g+h), portanto vale a propriedade A1;
Em (1),(2),(4) e (5) usamos a defini¸c˜ao da adi¸c˜ao de fun¸c˜oes e em (3) a propriedade (A1) da adi¸c˜ao de n´umeros reais.
substituindo a adi¸c˜ao pela multiplica¸c˜ao, de modo an´alogo, ((f·g)·h)(x) (1)= (f·g)(x)·h(x)
(2)= (f(x)·g(x))·h(x)
(3)= f(x)·(g(x)·h(x))
(4)= f(x)·(g·h)(x)
(5)= (f·(g·h))(x), para todo x∈I,
implicando que(f·g)·h=f·(g·h), portanto vale a propriedade M1;
Em (1),(2),(4) e (5) usamos a defini¸c˜ao da multiplica¸c˜ao de fun¸c˜oes e em (3) a propriedade (M1) da multiplica¸c˜ao de n´umeros reais.
((f+g)·h)(x) (1)= (f+g)(x)·h(x)
(2)= (f(x) +g(x))·h(x)
(3)= f(x)·h(x) +g(x)·h(x)
(4)= (f·h)(x) + (g·h)(x)
(5)= ((f·h) + (g·h))(x), para todo x∈I,
implicando que(f+g)·h =f·h+g·h, portanto, vale a propriedade AM.
Em (1) e (4) usamos a defini¸c˜ao da multiplica¸c˜ao de fun¸c˜oes, em (2) e (5), a defini¸c˜ao de adi¸c˜ao de fun¸c˜oes e em (3), a propriedade distributiva (AM) da multiplica¸c˜ao n´umeros reais.
Vale que (g +h)· f = g· f+h ·f, porque a multiplica¸c˜ao de fun¸c˜oes ´e comutativa (verifique).
Para quaisquer f, g∈ F(I) e x∈I, temos:
(f+g)(x) = f(x) +g(x)
= g(x) +f(x)
= (g+f)(x)
Lembre que . . . a adi¸c˜ao de n´umeros reais ´e
comutativa.
implicando quef+g=g+f e, assim, vale a propriedade A2.
O elemento neutro ´e a fun¸c˜ao o, tal que o(x) = 0, para cada x ∈ I. Note que, para toda f∈ F(I) e para todo x∈I,
(o+f)(x) =o(x) +f(x) = 0+f(x) = f(x)⇐⇒o+f=f.
O n´umero real zero ´e elemento neutro aditivo, no anelR.
O elemento neutro aditivo ´e a fun¸c˜ao constante e igual a zero no intervalo I, valendo a propriedade A3.
Vale, finalmente, a propriedade A4, pois o sim´etrico def´e a fun¸c˜aogdefinida por g(x) = −f(x), para cada x ∈ I. O gr´afico do sim´etrico de f ´e obtido fazendo a simetria com respeito ao eixox dos pontos do gr´afico def. Exemplo 6
Consideremos 2Z={ 2x | x∈Z }, o conjunto dos n´umeros inteiros pares.
Vamos mostrar que2Z´e um anel com a adi¸c˜ao e a multiplica¸c˜ao de n´umeros inteiros.
Primeiramente, observe que para quaisquera, b∈2Z, existem x, y∈Z, tais quea=2x, b=2y e
a+b=2x+2y=2(x+y)∈2Z e a·b=2x·2y=2(2x·y)∈2Z.
Observe que
x+y∈Z e 2x·y∈Z.
Logo, a adi¸c˜ao e a multiplica¸c˜ao de n´umeros inteiros ´e fechada em 2Z.
As propriedades A1, A2, M1 e AM valem em 2Z, pois essas propriedades valem emZ e 2Z ´e um subconjunto deZ.
Como0=2·0∈2Z, ent˜ao2Z tem elemento neutro aditivo.
Al´em disso, o sim´etrico dea=2x´ea′ = −2x=2(−x)∈2Z. x∈Z⇐⇒−x∈Z.
Portanto, valem as propriedades A3 e A4 e2Z´e um anel.
Observamos que a multiplica¸c˜ao nos an´eis dos Exemplos 3, 5 e 6 ´e comutativa, enquanto no anel do Exemplo 4 ´e n˜ao-comutativa sempre que a ordem da matriz ´e maior do que 1.
O que ´eM1×1(R)?
De fato, ´e claro que a multiplica¸c˜ao nos inteiros, nos racionais e nos reais ´e comutativa.
Sejam x =a+bi, y=c+di∈C. Ent˜ao, a, b, c, d∈R, i2= −1 e
Usamos aqui que
a multiplica¸c˜ao de n´umeros reais ´e comutativa.
x·y = (a+bi)·(c+di)
= (a·c−b·d) + (a·d+b·c)i
= (c·a−d·b) + (d·a+c·b)i
= (c+di)·(a+bi)
= y·x ,
mostrando que a multiplica¸c˜ao de n´umeros complexos ´e comutativa.
Para verificar a comutatividade da multiplica¸c˜ao emF(I), consideremos f, g∈ F(I) e x∈I, ent˜ao
(f·g)(x) = f(x)·g(x)
= g(x)·f(x)
= (g·f)(x)
Lembre que . . . a multiplica¸c˜ao de n´umeros
reais ´e comutativa.
implicando quef·g=g·f.
Para n ≥ 2, o produto de matrizes n por n ´e n˜ao-comutativo, pois X·Y 6=Y·X para as seguintes matrizes:
X11 = 1, X12 = 1, X21 = 0 e X22 = 0 ; Y11 = 1, Yij = 0, para todo (i, j)6= (1, 1).
Temos que X·Y = 1 1
0 0
!
· 1 0 0 0
!
= 1 0 0 0
! e
Y·X= 1 0 0 0
!
· 1 1 0 0
!
= 1 1 0 0
!
A multiplica¸c˜ao em 2Z ´e a multiplica¸c˜ao de n´umeros inteiros, logo tamb´em ´e comutativa.
Os fatos acima motivam a seguinte defini¸c˜ao.
Defini¸c˜ao 3 (Anel comutativo)
Dizemos que um anel A´ecomutativo se, e somente se, tem a propriedade:
M2 (Comutativa) Para quaisquer a, b∈A, a·b=b·a.
Exemplo 7
Nos an´eis Z, Q, R, C, F(I) e 2Z vale M2.
No anel Mn×n(R), onde n≥2n˜ao vale M2.
Os an´eis dos Exemplos 3, 4 e 5 tˆem um elemento neutro multiplicativo, a saber:
• o n´umero inteiro 1 satisfaz
para todo a ∈ A, temos a·1 =1·a =a , nos casos A= Z, A = Q, A=R ouA=C;
• A matriz identidadeI∈Mn×n(R), com os elementos da diagonal iguais a1 e os elementos fora da diagonal iguais a 0, tem a propriedade
Matriz identidadeI Iij =
1 , sei=j 0 , sei6=j , para qualqueri, jcom
1≤i, j≤n.
para qualquer X∈Mn×n(R), X·I=I·X=X.
• a fun¸c˜ao constante e igual a1no intervaloI, isto ´e,e(x) =1, para todo x ∈I, satisfaz
para qualquer f∈ F(I) e para todo x∈I, temos
(f·e)(x) =f(x)·e(x) =f(x)·1=f(x), tamb´em (e·f)(x) =e(x)·f(x) = 1·f(x) =f(x),
mostrando que f·e=f·e=f.
Entretanto, o anel 2Z n˜ao tem elemento neutro multiplicativo, moti- vando a seguinte defini¸c˜ao.
Defini¸c˜ao 4 (Anel com unidade)
Dizemos que o anel A tem unidade, se e somente se, A tem a propriedade:
M3 (Existˆencia de elemento neutro multiplicativo)
Existe um elemento e∈A, tal que a·e=e·a=a, para todo a∈A.
Exemplo 8
Nos an´eisZ, Q, R, C, Mn×n(R) e F(I) vale M3.
No anel2Z n˜ao vale M3.
Resumindo, h´a an´eis que tˆem propriedades adicionais e s˜ao chamados de nomes especiais: quando a multiplica¸c˜ao ´e comutativa (M2) o anel ´e chamado comutativo; quando o anel tem elemento neutro multiplicativo (M3)
´e chamado de anel com unidade.
Exerc´ıcios
1. Seja n um n´umero natural com n≥2.
Mostre que nZ = { n·x | x ∈ Z } ´e um anel comutativo com as opera¸c˜oes de adi¸c˜ao e multiplica¸c˜ao de n´umeros inteiros.
2. Seja Z[√
2] ={ a+b√
2 | a, b∈Z }.
(a) Mostre que a adi¸c˜ao e multiplica¸c˜ao de n´umeros reais ´e fechada em Z[√
2], verificando que:
para qualquer a, b, c, d∈Z, x=a+b√
2 ey=c+d√ 2
x+y = (a+c) + (b+d)√
2∈Z[√ 2]
x·y = (a·c+2b·d) + (a·d+b·c)√
2∈Z[√ 2]
(b) Mostre que Z[√
2]´e um anel.
(c) Mostre que Z[√
2]´e um anel comutativo com unidade.
x+y´e a adi¸c˜ao ex·y´e a multiplica¸c˜ao de n´umeros reais, apenas reescrevemos as parcelas de modo conveniente, usando as propriedades comutativa, associativa e distributiva das opera¸c˜oes dos n´umeros reais.
3. Seja Z[i] ={ a+bi | a, b∈Z e i2= −1 }.
(a) Mostre que a adi¸c˜ao e multiplica¸c˜ao de n´umeros complexos ´e fe- chada em Z[i], verificando que:
para qualquer a, b, c, d∈Z, x =a+bi e y=c+di x+y = (a+c) + (b+d)i
x·y = (a·c−b·d) + (a·d+b·c)i
x+y´e a adi¸c˜ao de n´umeros complexos e x·y´e a multiplica¸c˜ao de n´umeros complexos.
Z[i]´e conhecido como o anel dos inteiros de Gauss.
(b) Mostre que Z[i]´e um anel.
(c) Mostre que Z[i]´e um anel comutativo com unidade.
4. Seja A=
X= x11 x12
x21 x22
!
; xij∈Z, para todo1≤i, j≤2
, o conjunto das matrizes 2 por 2 com coeficientes inteiros.
ParaX, Y, Z∈A, definimos a adi¸c˜ao e multiplica¸c˜ao emA por:
Z=X+Y ⇐⇒ zij=xij+yij, com1≤i, j≤2 Z=X·Y ⇐⇒ zij=xi1y1j+xi2y2j, com1≤i, j≤2
Observe que as opera¸c˜oes de adi¸c˜ao e multiplica¸c˜ao s˜ao as usuais.
Costumamos denotarApor M2×2(Z).
(a) Mostre que A´e um anel com as opera¸c˜oes acima.
(b) Mostre que A´e um anel n˜ao-comutativo com unidade.
5. Seja F(R) ={ f : R−→R, f fun¸c˜ao }.
Para qualquer f, g ∈ F(R), as opera¸c˜oes usuais de adi¸c˜ao e multi- plica¸c˜ao de fun¸c˜oes s˜ao definidas por:
(f+g)(x) =f(x) +g(x), para qualquer x∈R e (f·g)(x) =f(x)·g(x), para qualquer x∈R . (a) Mostre que com essas opera¸c˜oes F(R)´e um anel.
Copie o que foi feito no Exemplo 5, fazendo as modifica¸c˜oes convenientes.
Na verdade, vocˆe pode verificar queF(I)´e um anel, para qualquer intervaloIda reta real.
(b) Mostre que F(R)´e um anel comutativo.
(c) Mostre que F(R)´e um anel com unidade.
Propriedades elementares
Mostraremos agora algumas propriedades elementares, v´alidas em um anel, tais como: a unicidade do elemento neutro aditivo, do sim´etrico e, quando existe, do elemento neutro multiplicativo.
Proposi¸c˜ao 1 (Unicidade) Seja A um anel. Ent˜ao,
(i) o elemento neutro aditivo ´e ´unico;
(ii) o elemento neutro multiplicativo, se existe, ´e ´unico;
(iii) o sim´etrico ´e ´unico.
Demonstra¸c˜ao:
(i): Sejamθ eθ′ elementos neutros aditivos do anel A. Ent˜ao, θ=θ′+θ=θ′,
onde a primeira igualdade segue do fato deθ′ ser elemento neutro da adi¸c˜ao e a segunda, de θser elemento neutro da adi¸c˜ao.
Logo, θ=θ′ e o elemento neutro aditivo ´e ´unico.
(ii): SejaA um anel com unidades e e e′. Ent˜ao, e=e′·e=e′,
onde a primeira igualdade segue do fato dee′ ser unidade e a segunda, de e ser unidade.
Logo, e=e′ e o elemento neutro multiplicativo ´e ´unico.
(iii) Sejama′ ∈A ea′′ ∈Asim´etricos de a∈A.
Ent˜ao, θ=a+a′′, θ=a′+a e
a′ =a′+θ=a′+ (a+a′′) = (a′+a) +a′′=θ+a′′=a′′, onde na terceira igualdade usamos a associatividade da adi¸c˜ao.
Logo, o sim´etrico ´e ´unico.
Pela unicidade do elemento neutro aditivo, do sim´etrico e do elemento neutro multiplicativo (se existe), daqui por diante, denotaremos num anelA:
• o elemento neutro da adi¸c˜ao pelo s´ımbolo 0;
• o sim´etrico de a pelo s´ımbolo −a;
• a unidade ou elemento neutro multiplicativo, se existe, pelo s´ımbolo 1.
Al´em disso, escrevemos
a−b=a+ (−b),
e chamamos desubtra¸c˜ao.
A subtra¸c˜ao ´e a adi¸c˜ao com o sim´etrico.
As seguintes propriedades s˜ao muito ´uteis e importantes.
Proposi¸c˜ao 2 (Outras propriedades)
SejaA um anel. Ent˜ao, para quaisquer a,b ec∈A, temos:
(i)a·0=0e 0·a=0;
(ii) −(a·b) = (−a)·b=a·(−b);
(iii) a·(b−c) =a·b−a·c e (b−c)·a=b·a−c·a;
(iv) se A´e um anel com unidade, ent˜ao (−1)·a= −a=a·(−1).
Demonstra¸c˜ao:
Lembre que . . . Em um anelAa multiplica¸c˜ao nem sempre ´e comutativa.
(i): Como 0 = 0+0, multiplicamos `a esquerda, ambos os membros dessa igualdade, pelo elemento a, e usamos a distributividade (AM), obtendo
a·0=a·(0+0) = a·0+a·0,
que ´e equivalente a a·0=a·0+a·0.
Somando o sim´etrico −(a·0)dea·0a ambos os membros da igualdade acima e usando em (1) a propriedade associativa da adi¸c˜ao (A1), temos:
0=a·0−a·0 = (a·0+a·0) −a·0
(1)= a·0+ (a·0−a·0)
= a·0+0
= a·0,
Multiplicando pora`a direita, tomando o sim´etrico
−(0·a)de0·ae fazendo as modifica¸c˜oes convenientes, mostre que0·a=0.
donde conclu´ımos que 0=a·0.
(ii) Vamos mostrar que −(a·b) = (−a)·b.
Como 0 =a+ (−a), multiplicando `a direita ambos os membros dessa igualdade porb, usando (i) e a distributividade AM, obtemos:
0=0·b = (a+ (−a))·b
= a·b+ (−a)·b
Fa¸ca as modifica¸c˜oes convenientes para demonstrar que
−(a·b) =a·(−b).
A igualdade acima significa que (−a)·b ´e o sim´etrico dea·b.
Logo, −(a·b) = (−a)·b.
(iii): Vamos demonstrar a primeira igualdade e deixamos a segunda para vocˆe tentar, fazendo as modifica¸c˜oes convenientes.
a·(b−c) (1)= a·(b+ (−c))
(2)= a·b+a·(−c)
(3)= a·b−a·c.
Em (1) usamos a defini¸c˜ao de subtra¸c˜ao, em (2), a distributividade AM e em (3), o item (ii).
(iv) Seja A um anel com unidade 1. Ent˜ao, 0= 1+ (−1). Multiplicando `a direita ambos os membros dessa igualdade por a, usando (i) e a distributi- vidade, obtemos:
O s´ımbolo−1deve ser lido como ”o sim´etrico da unidade”.
0=0·a= (1+ (−1))·a=1·a+ (−1)·a=a+ (−1)·a,
significando que(−1)·a´e o sim´etrico dea. Como denotamos o sim´etrico de apor −a, da unicidade do sim´etrico, temos −a= (−1)·a.
A igualdade−a=a·(−1)´e an´aloga e vocˆe deve tentar fazer repetindo a id´eia acima, mas fazendo a multiplica¸c˜ao pora `a esquerda.
Vimos na Se¸c˜ao anterior que h´a an´eis sem unidade.
Quando um anel A tem unidade, escrevemos a sua unidade com o s´ımbolo 1, propositadamente, diferente do s´ımbolo 0 do elemento neutro aditivo. Por quˆe?
Suponhamos que no anel A temos 1=0. A igualdade ao lado deve ser lida como ”os elementos neutros aditivo e
multiplicativo s˜ao iguais”.
Ent˜ao, para todo a∈A, temos
a=a·1=a·0=0,
onde a primeira igualdade ´e conseq¨uˆencia de 1 ser o elemento neutro multi- plicativo e a ´ultima, do item (i) da Proposi¸c˜ao 2. Logo, A={ 0 }.
N˜ao tem a menor gra¸ca estudar esse anel.
Portanto, quando tratamos, teoricamente, de an´eis com unidade supo- mos sempre que os elementos neutros aditivo e multiplicativo s˜ao diferentes, isto ´e,16=0.
Defini¸c˜ao 5 (Divisores de zero)
Seja A um anel. O elemento n˜ao-nulo a ∈ A ´e um divisor de zero se, e somente se, existe um elemento n˜ao-nulob∈Atal que a·b=0oub·a=0.
Exemplo 9
a. No anel F(I), onde I = (−1, 1), s˜ao divisores de zero as fun¸c˜oes f, g:I−→R definidas por
f(x) =
1, sex∈(−1, 0)
0, sex∈[0, 1) e g(x) =
0, sex∈(−1, 0) 2, sex∈[0, 1)
f·g=0, poisf(x)·g(x) =0, para todox∈(−1, 1).
b. No anel M2×2(R) s˜ao divisores de zero as seguintes matrizes
X= 1 0 0 0
!
e Y = 0 0
0 1
!
Os an´eis comutativos com unidade sem divisores de zero s˜ao chamados de dom´ınios.
Defini¸c˜ao 6 (Dom´ınio)
SejaA um anel comutativo com unidade. A´e um dom´ıniose, e somente se, tem a propriedade:
M4 se a·b=0, ent˜ao a=0 ou b=0.
Observamos que a propriedade M4´e equivalente a:
SejamPeQpropriedades e
∼Pe∼Q, respectivamente, suas nega¸c˜oes. Ent˜ao, P=⇒Q
´
e equivalente a
∼Q=⇒∼P.
M4′ se a6=0 eb6=0, ent˜ao a·b6=0.
Exemplo 10
O anel dos n´umeros inteiros Z´e um dom´ınio, pois o produto de dois inteiros n˜ao-nulos ´e um inteiro n˜ao-nulo.
Proposi¸c˜ao 3 (Lei do cancelamento)
SejaA um dom´ınio. Se a·b=a·ccom a6=0, ent˜ao b=c.
Demonstra¸c˜ao: Se a·b=a·c, ent˜ao somando −a·b a ambos os membros dessa igualdade, obtemos0=a·b−a·b=a·c−a·b=a·(c−b). Como a6=0, pela propriedade M4, 0=c−b. Somandob, a essa ´ultima igualdade, temos b=0+b= (c−b) +b(1)= c+ (−b+b) =c+0=c.
Em (1) usamos a propriedade associativa da adi¸c˜ao (A1).
Defini¸c˜ao 7 (Elemento invert´ıvel)
Seja A um anel com unidade. Um elemento a ∈ A ´e dito invert´ıvel se, e somente se, existe um elemento a′ ∈A, tal que a·a′ =a′·a=1.
Nesse caso, dizemos que a′ ´e inversode a ea´e inversode a′. Exemplo 11
No anelM2×2(Z)das matrizes 2por 2 com coeficientes no anel dos inteiros, a matrizX= 2 3
1 2
!
´e invert´ıvel e X′ = 2 −3
−1 2
!
´e seu inverso, pois verificamos, facilmente, que X·X′ =X′ ·X=I.
Volte ao Exerc´ıcio 4 da Se¸c˜ao anterior. Nesse anel, a unidade, conhecida como matriz identidade, ´e
I= 1 0 0 1
!
Exemplo 12
Consideremos o anel comutativo com unidadeZ[√
2]do Exerc´ıcio 2, da Se¸c˜ao anterior. O inverso de1+√
2´e−1+√ 2, pois
(1+√
2)(−1+√
2) = (−1+√
2)(1+√
2) = 1.
Exemplo 13
Os elementos invert´ıveis do anel Zs˜ao 1 e−1.
Proposi¸c˜ao 4 (Unicidade do inverso)
Sejam A um anel com unidade ea∈A. Se a ´e invert´ıvel, ent˜ao seu inverso
´e ´unico.
Demonstra¸c˜ao: Digamos queb e csejam inversos de a, isto ´e, a·b=b·a=1 e a·c=c·a=1.
Ent˜ao,
Em (1) usamos que a multiplica¸c˜ao ´e associativa (M1).
b=b·1=b·(a·c)(1)= (b·a)·c=1·c=c.
Da unicidade do inverso no anel A, costumamos denotar o inverso de apor a−1.
SejaB=Mn×n(A), ondeA
´
e um anel comutativo com unidade. Ent˜ao,B´e um anel com unidade e, para qualquerX∈B, temos X·adj(X) =adj(X)·X= det(X)In, onde adj(X)´e a adjunta cl´assica deX. Al´em disso,X´e invert´ıvel se, e somente se, det(X)´e invert´ıvel emA.
Exemplo 14
a. Os elementos invert´ıveis no anel Mn×n(R) s˜ao as matrizes X com deter- minante n˜ao-nulo, isto ´e, det(X)6=0.
b. Os elementos invert´ıveis no anel Mn×n(Z) s˜ao as matrizes X com deter- minante invert´ıvel emZ, isto ´e, det(X)∈{−1, 1}.
c. Todo n´umero racional n˜ao-nulo ´e invert´ıvel.
d. Todo n´umero real n˜ao-nulo ´e invert´ıvel.
Defini¸c˜ao 8 (Corpo)
Um anel comutativo com unidade ´e chamado decorpose, e somente se, todo elemento n˜ao-nulo ´e invert´ıvel.
Exemplo 15
Q, R e C s˜ao exemplos de corpos.
Defini¸c˜ao 9 (Subanel)
Um subconjunto n˜ao-vazioBde um anel A´e um subanelde Ase, e somente se, B´e um anel com as opera¸c˜oes de A.
Exemplo 16
a. Pelo exerc´ıcio 1 da se¸c˜ao anterior, nZ´e um subanel de Z.
b. Pelo exerc´ıcio 2 da se¸c˜ao anterior, Z[√
2] ´e um subanel de R.
c. Pelo exerc´ıcio 3 da se¸c˜ao anterior, Z[i]´e um subanel de C.
d. Pelo exerc´ıcio 4 da se¸c˜ao anterior, M2×2(Z)´e um subanel de M2×2(R).
Proposi¸c˜ao 5
Um subconjunto n˜ao-vazioBde um anel A´e umsubanel deAse, e somente se,
(i) se a, b∈B, ent˜ao a+b∈B;
(ii) se a, b∈B, ent˜ao a·b∈B;
(iii) 0A∈B;
(iv) se b∈B, ent˜ao −b∈B.
Demonstra¸c˜ao : Suponhamos queB´e um subanel deA. Ent˜ao, as opera¸c˜oes de A est˜ao fechadas em B e logo, (i) e (ii) s˜ao v´alidas; al´em disso, todo elemento de B tem sim´etrico em B e vale (iv). Por outro lado, tomando b∈B, por (iv), −b∈B e, por (i),0A=b+ (−b)∈B. Logo, 0B=0A∈B.
Reciprocamente, suponhamos v´alidas as propriedades (i) a (iv) em B.
Logo, as opera¸c˜oes de A est˜ao fechadas em B e valem A3 e A4. As propri- edades A1, A2, M1 e AM valem em B porque s˜ao v´alidas em A e B ⊂ A.
Portanto, B´e um anel com as opera¸c˜oes de A.
Exemplo 17 Z[√
3]´e um subanel de R.
De fato, sejama, b, c, d∈Z. Ent˜ao, com a adi¸c˜ao e multiplica¸c˜ao de n´umeros reais, temos:
(a+b√
3) + (c+d√
3)(1)= a+c+b√
3+d√
3(2)= (a+c) + (b+d)√ 3;
Em (1) usamos A1 e A2 e em (2), A1 e AM do anelR.
Em (3) usamos AM, M2 e
em (4), A2 e A1 do anelR. (a+b√
3)(c+d√
3) (3)= a·c+a·d√
3+b·c√
3+3b·d
(4)= (a·c+3b·d) + (a·d+b·c)√ 3.
Al´em disso, a+b√
3=0, a, b∈Zse, e somente se, a=b=0 e
−(a+b√
3) = (−a) + (−b)√
3∈Z[√
3], para quaisquer a, b∈Z.
Defini¸c˜ao 10 (Subcorpo)
Sejam K e L corpos, com K ⊂ L. Dizemos que K ´e um subcorpo de L se, e somente se, K´e um corpo com as opera¸c˜oes de L.
Exemplo 18
(1)Q´e um subcorpo de R.
(2)R´e um subcorpo de C. (3)Q´e um subcorpo de Q(√
2).
(4)Q(√
2)´e um subcorpo de R. (5)Q(i) ´e um subcorpo de C.
Veja os exerc´ıcios 12 e 13, item (a)
Agora, para cada dom´ınio D vamos construir um corpo K, chamado corpo de fra¸c˜oes deD, tal que
(i) D⊂K
(ii) as opera¸c˜oes de adi¸c˜ao e multiplica¸c˜ao de Ds˜ao as de K.
(iii) se L´e um corpo contendo D como subanel, ent˜aoK⊂L.
As condi¸c˜oes acima significam que todo dom´ınio D ´e subanel de um corpo e o menor corpo com as propriedades (i) e (ii) acima ´e o corpo de fra¸c˜oes deD.
Para isto, consideramos o conjunto
S=D×D\{0}={(a, b) ; a, b∈Deb6=0}. Para (a, b),(c, d)∈S, definimos
(a, b)∼(c, d)⇐⇒a·d=b·c.
Proposi¸c˜ao 6
A rela¸c˜ao bin´aria acima ´e uma rela¸c˜ao de equivalˆencia em S.
Demonstra¸c˜ao: De fato, para todo (a, b) ∈ S, temos a ·b = b· a, logo (a, b)∼(a, b).
Suponhamos que (a, b)∼(c, d). Ent˜ao,a·d=b·c e d·aM2= a·d=b·cM2= c·b. Logo, (c, d)∼(a, b).
Suponhamos que (a, b) ∼ (c, d) e (c, d) ∼ (e, f). Ent˜ao, a·d (1)= b·c e c·f (2)= d·e. Multiplicando a igualdade (1) por f e a igualdade (2) por b, obtemos a·d·f = b·c·f = b·d·e. Pelas propriedades M2 e M1 da multiplica¸c˜ao em D, temos d·(a·f) = d·(b·e). Como d 6=0, pela lei do cancelamento em D, temosa·f=b·e. Portanto,(a, b)∼(e, f).
Consideremos o conjunto quociente K=S/∼. Ent˜ao, K=D×D\{0}/∼={(a, b) ; (a, b)∈D×D\{0}}.
Denotamos por ab a classe de equivalˆencia de (a, b), isto ´e, ab= (a, b).
Desta maneira,
a
b = (a, b) = (c, d) = dc ⇐⇒(a, b)∼(c, d)⇐⇒a·d=b·c. K=a
b; a, b∈Deb6=0 , onde ab = dc se, e somente se, a·d=b·c.
Chamamos o elemento ab deK defra¸c˜ao ea eb6=0 em D, respectiva- mente, denumerador e denominadorda fra¸c˜ao.
Podemos dar a Kuma estrutura de corpo.
Proposi¸c˜ao 7 (Corpo de fra¸c˜oes de um dom´ınio D) SejaK=a
b ; a, b∈Deb6=0 com as opera¸c˜oes
a
b+dc = a·d+bb·d·c e ab· dc = b·da·c,
onde no numerador e no denominador as opera¸c˜oes s˜ao as do dom´ınio D.
Ent˜ao, valem as seguintes propriedades:
(i)K ´e um corpo,
(ii) D´e um subanel de K,
(iii) seL ´e um corpo contendo D como subanel, ent˜ao K⊂L.
O corpo K ´e chamado corpo de fra¸c˜oes do dom´ınio D e, pelas proprie- dades (iii) e (ii), ´e o menor corpo contendoD como subanel.
Demonstra¸c˜ao:
(i) Primeiramente, precisamos mostrar que a soma e o produto independem do representante da classe, isto ´e, que as opera¸c˜oes est˜ao bem definidas.
De fato, suponhamos que ab= ab′′ e cd= cd′′. Ent˜ao, a·b′ (1)=b·a′, c·d′ (2)= d·c′ e
N˜ao esque¸ca que todo dom´ınio ´e um anel comutativo com unidade.
Em (3) usamos AM, M2, M1. Em (4) usamos M2, (1) e (2). Em (5) usamos M2, M1, AM. Em (6) usamos M2 e M1. Em (7) usamos M2, (1) e (2). Em (8) usamos M2.
b′ ·d′·(a·d+b·c) (3)= (b′·a)·(d′·d) + (b′·b)·(d′·c)
(4)= (a′·b)·(d′·d) + (b′·b)·(c′·d)
(5)= b·d·(a′·d′+b′·c′). Logo, a·db+b·d·c = a′·db′′+b·d′′·c′.
(a·c)·(b′·d′) (6)= (a·b′)·(c·d′)
(7)= (a′·b)·(c′·d)
(8)= (b·d)·(a′·c′)
Logo, ba·c·d = ba′′·d·c′′ ˙.
Agora devemos mostrar: A1, A2, A3, A4, AM, M1, M2, M3, concluindo queK´e um anel comutativo com unidade. Observe que as propriedades das opera¸c˜oes de K s˜ao induzidas das propriedades das opera¸c˜oes deD.
Faremos algumas delas.
A2: ab+dc = a·d+bb·d·c = c·b+d·ad·b = dc +ab EmDvalem M2 e A2.
A3: O elemento neutro da adi¸c˜ao ´e 01, pois para todo ab∈K temos
0
1 +ab = 0·b+1·a1·b = ab. M1: ab· cd
· ef = a·cb·d· ef = (a·c)·e(b·d)·f = b·(a·(c·e)d·f) = ab·d·fc·e = ab dc ·ef
M3: O elemento neutro multiplicativo, a unidade de K, ´e 11, pois para todo
a
b∈K temos
1
1· ab= 1·a1·b= ab
Falta verificar as
propriedades: A1, A4 e M2.
Verifique as outras propriedades.
Observe que ab = 01 se, e somente se, a=a·1=b·0=0.
Assim, todoab 6= 01´e invert´ıvel eba ∈K´e seu inverso, pois ab·ba = a·bb·a = 11. (ii) Observamos que a1 = b1 ∈K se, e somente se,a=b.
Podemos ver D como um subconjunto de K, identificando cada a∈D com a1 ∈K. Neste caso, D={a1 ; a∈D} e
a
1 + b1 = a·1+b1·1·1 = a+b1 , a1 +−a1 = 01 e a1 · b1 = a1·1·b= a·b1 .
A segunda igualdade significa que
−a1 =−a1 .
Logo, D´e um subanel de K.
(iii) Se L ´e um corpo que cont´em D como subanel, ent˜ao para quaisquer a, b∈D com b6=0 temos: a·b−1∈L e
a·b−1=c·d−1se, e somente se,a·d= (a·b−1)(b·d) = (c·d−1)(b·d) =b·c.
Logo, K⊂L. .
Veja os Exerc´ıcios 12 e 13, item (d).
Exemplo 19
(1) O corpo dos n´umeros racionais Q=a
b ; a, b∈Zeb6=0 ´e o corpo de fra¸c˜oes do dom´ınio Z.
(2) O corpo Q(√
2)´e o corpo de fra¸c˜oes do dom´ınio Z[√ 2].
(3) O corpo Q(i)´e o corpo de fra¸c˜oes do dom´ınio Z[i].
Exerc´ıcios
1. Mostre que num anel A valem as seguintes propriedades:
(a) Se a+c=b+c, ent˜ao a=b.
(b) Se a+b=a para algum a, ent˜ao b=0.
(c) −(a+b) = −a−b.
(d) Se Atem unidade 1, ent˜ao −1 ´e invert´ıvel.
2. Seja A um dom´ınio. Mostre que valem as seguintes propriedades:
(a) a2=0 se, e somente se,a=0.
(b) se a·b=0 eb6=0, ent˜aoa=0.
(c) a2=a se, e somente se,a=0 oua=1.
3. Mostre que todo corpo ´e um dom´ınio.
4. Sejam A eB an´eis eA×B={(a, b) ; a∈A, b∈B}. (a) Mostre que A×B´e um anel com as opera¸c˜oes:
(a, b) + (c, d) = (a+c, b+d) e (a, b)·(c, d) = (a·c, b·d), onde na primeira coordenada a adi¸c˜ao e a multiplica¸c˜ao s˜ao do anel A e na segunda coordenada, do anel B.
(b) Mostre que se A e B s˜ao an´eis com unidades 1A e 1B, respectiva- mente, ent˜ao A×B ´e anel com unidade.
(c) Mostre que A×Btem divisores de zero.
(d) Determine os elementos invert´ıveis de A×B, se A e B s˜ao an´eis com unidades 1Ae 1B, respectivamente.
5. SejaAum anel com unidade. DefinimosA∗ ={a∈A; a´e invert´ıvel }. Para cada anelA determine A∗:
(a) A=M2×2(Z).
(b) A=Z×Z.
(c) A=Z[i] ={a+bi∈C; a, b∈Z}.
(d) A=Q.
6. Sejam A=Z×Z e B=Z×{0}. Mostre que:
(a) A´e um anel comutativo com unidade e n˜ao ´e um dom´ınio.
(b) B´e um subanel de A.
(c) B´e um dom´ınio e 1B6=1A.
7. Mostre que se A ´e um dom´ınio e B ´e um subanel de A tal que B tem unidade 1B, ent˜ao 1B=1A.
8. Mostre que B´e um subanel do anel A:
(a) A=Q e B= x
2n; x∈Zen=0, 1, 2, . . . .
(b) A=F(R) eB=C(R) ={f∈ F(R) ;f ´e cont´ınua}. (c) A=C(R) eB={f∈ C(R) ; f ´e deriv´avel}.
9. Sejam Aum anel, a ∈A e B={x∈A; x·a=0}.
(a) Mostre que B´e um subanel de A.
(b) Se A=Z ea∈Z ´e n˜ao-nulo, determineB.
(c) Se A=Z×Z ea= (b, 0) com b6=0, determine B.
(d) Se A=M2×2(Z) e a= 1 1 0 0
!
, determine B.
10. Mostre que todo n´umero racional pode ser representado por uma fra¸c˜ao com denominador positivo.
11. Seja Q(√
3) ={x+y√
3;x, y∈Q}. Mostre que:
(a) Q(√
3)´e um subanel de R.
(b) Q(√
3)´e um corpo.
(c) Z[√
3]´e um subanel de Q(√ 3).
(d) Q(√
3)´e o corpo de fra¸c˜oes de Z[√ 3].
12. Seja Q(√
2) ={x+y√
2;x, y∈Q}. Mostre que:
(a) Q(√
2)´e um subanel de R.
(b) Q(√
2)´e um corpo.
(c) Z[√
2]´e um subanel de Q(√ 2).
(d) Q(√
2)´e o corpo de fra¸c˜oes de Z[√ 2].
13. Seja Q(i) = {x+yi; x, y∈Q}. Mostre que:
(a) Q(i)´e um subanel deC.
(b) Q(i)´e um corpo.
(c) Z[i]´e um subanel deQ(i).
(d) Q(i)´e o corpo de fra¸c˜oes de Z[i].
Polinˆ omios com coeficientes em um anel comutativo com unidade
Nesta se¸c˜ao definiremos o anel dos polinˆomios com coeficientes em um anel comutativo com unidade. Veremos que as propriedades das opera¸c˜oes dos polinˆomios est˜ao relacionadas diretamente com as propriedades da adi¸c˜ao e multiplica¸c˜ao do anel, e aprenderemos a efetu´a-las na pr´atica.
Vocˆes est˜ao familiarizados com express˜oes do tipo ax2 +bx + c e ax+b, sendo a, b e c n´umeros reais fixados e a 6=0, sob o ponto de vista geom´etrico. Estas express˜oes s˜aopolinˆomios com coeficientes reais e v˜ao ser estudadas agora sob o ponto de vista alg´ebrico, isto ´e, essas express˜oes ser˜ao manipuladas, usando opera¸c˜oes de adi¸c˜ao e multiplica¸c˜ao.
Seja A um anel comutativo com unidade 1A. Seja x um s´ımbolo n˜ao pertencente ao anel A, chamado uma indeterminada ou vari´avel sobre A.
Para cada n´umero natural j ≥ 1, designamos a j-´esima potˆencia de x porxj e escrevemos x1=x.
Defini¸c˜ao 11 (Polinˆomio)
Umpolinˆomio com coeficientes em A´e uma express˜ao do tipo
O s´ımboloP
lˆe-se como somat´orio ou soma e convencionamos escrever a0x0=a0.
f(x) =a0+a1x+a2x2+· · ·+anxn= Xn
j=0
ajxj, onde n´e um n´umero natural e aj∈A, para0≤j≤n.
Para 0 ≤ j ≤ n, os elementos aj s˜ao chamados de coeficientes, as parcelas ajxj de termos e os termos ajxj tais que aj 6= 0 de monˆomios de grau j do polinˆomio f(x). O coeficiente a0 ´e chamado de termo constante.
Convencionamos:
(a)Para cada n´umero naturaln, chamar0(x) =0+0x+· · ·+0xndepolinˆomio identicamente nuloe escrever 0(x) =0.
(b)Chamar f(x) =a0 depolinˆomio constante.
(c) Escrever o polinˆomio f(x) com as j-´esimas potˆencias de x em ordem crescente ou em ordem decrescente, a saber,f(x) =a0+a1x+a2x2+· · ·+anxn ouf(x) =anxn+· · ·+a2x2+a1x+a0.
(d) N˜ao escrever o termo ajxj sempre que aj = 0, quando houver algum termo n˜ao-nulo no polinˆomio.
Exemplo 20
a. Dados os n´umeros reais a0 = 3
2, a1 = −1, a2 = √
2 e a3 = 1, temos f(x) = 3
2 −x+√
2x2+x3∈R[x].
b. Dados os n´umeros reais a0 = 2, a1 = −√
5, a2 = 0, a3 = −π, a4 = 0 ea5 = −2
,
4, temos g(x) = 2−√5x−πx3−2
,
4 x5∈R[x].c. Dados os n´umeros reais a0 = 0, a1 = −1, a2 = 3, a3 = 0 e a4 = −3, temos h(x) = −x+3x2−3x4∈R[x].
d. Dados os n´umeros reais a0 = 5, a1 = −1 e a2 = 3, temos r(x) = 5−x+3x2∈R[x].
e. Dados os n´umeros reais a0 = 2, a1 = −1, a2 = 3, a3 = 0 e a4 = −3, temos s(x) =2−x+3x2−3x4∈R[x].
f. Dados os n´umeros reais a0 = 2, a1 = −1, a2 = 3, a3 = 0, a4 = −3 ea5 =a6=0, temost(x) = 2−x+3x2−3x4∈R[x].
g. As express˜oes u(x) = x−2+3√
x+x5 e v(x) = 6√
x3−4x2+5 n˜ao s˜ao polinˆomios porque nem todos os expoentes da vari´avel x s˜ao n´umeros naturais.
O polinˆomio f(x) = a0+a1x+· · ·+anxn ∈ A[x] pode tamb´em ser escrito comof(x) =a0+a1x+· · ·+anxn+0xn+1+0xn+2+· · ·+0xn+m, para todo n´umero naturalm≥1. Portanto, quando comparamos dois polinˆomios f(x), g(x)∈A[x], ´e poss´ıvel assumir que os termos de ambos tˆem as mesmas potˆencias de x.
Igualdade de polinˆomios:
Os polinˆomios f(x) = a0 + a1x1 + a2x2 + · · · + anxn ∈ A[x] e g(x) =b0+b1x1+b2x2+· · ·+bnxn∈A[x] s˜ao iguais se, e somente se, aj=bj para todoj, tal que 0≤j≤n. Escrevemos f(x) = g(x).
Isto ´e, f(x) e g(x) s˜ao iguais apenas quando todos os coeficientes das correspondentes potˆencias de x em f(x) e g(x) s˜ao iguais.
Observe que, se f(x) eg(x)n˜ao s˜ao iguais, ent˜ao existe algum n´umero naturalj, com 0≤j≤n eaj6=bj. Neste caso, dizemos que f(x)e g(x) s˜ao diferentes e escrevemos f(x)6=g(x).
No Exemplo 20, os coeficientes dos termos constantes dos polinˆomios h(x) = −x +3x2 −3x4 e t(x) = 2 −x +3x2 −3x4 s˜ao diferentes; logo h(x) 6= t(x). Enquanto s(x) = t(x), pois todos os coeficientes das mesmas potˆencias de x em s(x) et(x) s˜ao iguais.
Exemplo 21
Os polinˆomiosf(x) =x4−x5+4x2+3−2x e g(x) = 3+4x2−2x−x5+x4 s˜ao iguais, porque os seus coeficientes ajda j-´esima potˆencia xj s˜ao: a0=3, a1= −2, a2=4, a3 =0, a4 =1 e a5= −1.
Escrevendo os polinˆomios com as potˆencias dex em ordem crescente, visua- lizamos imediatamente a igualdade dos polinˆomios. Temos
f(x) =g(x) =3−2x+4x2+x4−x5.
O s´ımbolo6≡lˆe-se como n˜ao
´ e idˆentico.
O s´ımbolo grau(f(x))lˆe-se como grau de f dex.
Em todo polinˆomio n˜ao identicamente nulo,f(x)6≡0, algum coeficiente deve ser diferente de zero, ent˜ao h´a um maior n´umero natural n, tal que an 6= 0. Definimos o grau de f(x) por grau(f(x)) = n e, nesse caso, an ´e chamado de coeficiente l´ıder def(x).
Os polinˆomios de grau ncom coeficiente l´ıder an=1 s˜ao chamados de polinˆomiosmˆonicos.
Importante: N˜ao definimos o grau do polinˆomio identicamente nulo,0(x)≡0.
Exemplo 22
O polinˆomio constante w(x) = 5 n˜ao ´e identicamente nulo e grau(w(x)) = 0. Volte ao Exemplo 20 e observe que grau(f(x)) = 3, grau(g(x)) = 5, grau(h(x)) =4, grau(r(x)) =2, grau(s(x)) =4, grau(t(x)) =4 e que f(x)´e o ´unico polinˆomio mˆonico.
Note que:
grau(f(x)) = 0 se, e somente se, f(x) =a6=0, a∈A.
Denotamos o conjunto de todos os polinˆomios na vari´avel x com coefi- cientes no anel comutativo com unidade 1Apor A[x].
A[x] ={f(x) = a0+a1x+· · ·+anxn | n∈N, aj∈A, 0≤j≤n}. No conjuntoA[x]est˜ao definidas as opera¸c˜oes de adi¸c˜ao e multiplica¸c˜ao de polinˆomios.
Defini¸c˜ao 12 (Adi¸c˜ao de polinˆomios)
Definimos a adi¸c˜ao dos polinˆomios f(x) = Xn
j=0
ajxj e g(x) = Xn
j=0
bjxj de A[x] por
f(x) +g(x) = Xn
j=0
cjxj, ondecj=aj+bj, para0≤j≤n.
O resultado da adi¸c˜ao de dois polinˆomios ´e chamado de soma.
Exemplo 23
Sejamf(x) =4x3−3x2+4x+5,g(x) =2x2−5x−2eh(x) = −4x3+5x2−3x+1 em Z[x]. Ent˜ao,
Lembre que a−b=a+ (−b), para quaisqueraebno anel
A.
f(x) +g(x) = (4+0)x3+ (−3+2)x2+ (4+ (−5))x+ (5+ (−2))
= 4x3−x2−x+3,
f(x) +h(x) = (4−4)x3+ (−3+5)x2+ (4−3)x+ (5+1)
= 0x3+2x2+x+6
= 2x2+x+6.
No exemplo anterior, observamos que
grau(f(x)) =grau(h(x)) =3e grau(f(x) +h(x)) =2, enquanto grau(g(x)) = 2 e grau(f(x) +g(x)) = 3= m´aximo{grau(f(x)), grau(g(x))}.
Na adi¸c˜ao de polinˆomios vale a seguinte propriedade do grau.
Propriedade do grau: (Adi¸c˜ao de polinˆomios)
Sejam f(x) = Xn
j=0
ajxj, com an6=0, eg(x) = Xm
j=0
bjxj, com bm6=0.
Se f(x) +g(x)6≡0, ent˜ao
O s´ımbolo max significa o maior ou o m´aximo dos
n´umeros. grau(f(x) +g(x))≤max{grau(f(x)),grau(g(x))}=max{n, m} valendo a igualdade sempre que grau(f(x)) =n6=m=grau(g(x)).
A adi¸c˜ao de polinˆomios tem diversas propriedades, que s˜ao conseq¨uˆencia das propriedades da adi¸c˜ao no anel A, conforme veremos a seguir.
Propriedades da adi¸c˜ao:
Sejam f(x) = Xn
j=0
ajxj, g(x) = Xn
j=0
bjxj e h(x) = Xn
j=0
cjxj em A[x].
(A1) Associativa: (f(x) +g(x)) +h(x) =f(x) + (g(x) +h(x)),
Lembre que a adi¸c˜ao no anelA´e associativa (A1) e comutativa (A2).
pois para quaisquer aj, bj, cj ∈ A e 0 ≤ j ≤ n, temos que (aj+bj) +cj=aj+ (bj+cj).
(A2) Comutativa: f(x) +g(x) =g(x) +f(x),
pois para quaisquer aj, bj∈A e0≤j≤n, temos aj+bj=bj+aj. (A3) Existˆencia de elemento neutro:
Como o polinˆomio identicamente nulo0= Xn
j=0
0xj, ent˜aof(x) =0+f(x), pois para qualquer aj∈A, 0≤j≤n, temosaj=0+aj.
Lembre que no anelA 0´e o elemento neutro aditivo.
(A4) Existˆencia de sim´etrico:
Dadof(x) = Xn
j=0
ajxj, o polinˆomio−f(x) = Xn
j=0
(−aj)xj´e osim´etricode f(x), sendo
f(x) + (−f(x)) = Xn
j=0
0xj,
Lembre que no anelA
−a´e o sim´etrico dea.
poisaj+ (−aj) = 0 para qualquer aj∈A, 0≤j≤n.
Exemplo 24
Consideremos os polinˆomiosf(x) =4x3−3x2+4x+5,g(x) =2x2−5x−2 eh(x) = −4x3+5x2−3x+1 do Exemplo 23.
a. No Exemplo 23 determinamos f(x) +g(x) =4x3−x2−x+3.
Assim, (f(x) +g(x)) +h(x) = (4x3−x2−x+3) + (−4x3+5x2−3x+1)
= (4−4)x3+(−1+5)x2+(−1−3)x+(3+1) =0x3+4x2−4x+4=4x2−4x+4.
b. A adi¸c˜ao de polinˆomios pode ser feita facilmente se escrevemos os po- linˆomios numa tabela, onde nas primeiras linhas est˜ao cada um dos po- linˆomios com as potˆencias xj em ordem decrescente, e na ´ultima linha o resultado da adi¸c˜ao, de maneira similar `a adi¸c˜ao de n´umeros reais. Calcula- remosg(x) +h(x) desse modo.
2x2 − 5x − 2 (+) − 4x3 + 5x2 − 3x + 1
− 4x3 + 7x2 − 8x − 1 Nesse caso,g(x) +h(x) = −4x3+7x2−8x−1.
c. Podemos usar este processo para calcular a soma de m polinˆomios, construindo uma tabela com m +1 linhas e tantas colunas quantas forem necess´arias. Por exemplo, para calcular f(x) + g(x) +h(x) a tabela ter´a quatro linhas
4x3 − 3x2 + 4x + 5 2x2 − 5x − 2 (+) − 4x3 + 5x2 − 3x + 1 0x3 + 4x2 − 4x + 4 Logo, f(x) +g(x) +h(x) =4x2−4x+4.
Defini¸c˜ao 13 (Multiplica¸c˜ao de polinˆomios)
Definimos amultiplica¸c˜aodos polinˆomiosf(x) = Xn
j=0
ajxj e g(x) = Xm
j=0
bjxj em A[x] por
f(x)·g(x) =
n+mX
j=0
cjxj
O resultado da multiplica¸c˜ao de dois polinˆomios ´e chamado de produto.
sendo
c0 =a0·b0
c1 =a0·b1+a1·b0
c2 =a0·b2+a1·b1+a2·b0 ...
cj =a0·bj+a1·bj−1+· · ·+aj·b0 = X
λ+µ=j
aλ·bµ
...
cn+m =an·bm.
Propriedade do grau: (Multiplica¸c˜ao de polinˆomios)
Sejam A um dom´ınio ef(x) = Xn
j=0
ajxj, coman6=0, e g(x) = Xm
j=0
bjxj, com bm6=0. Ent˜ao,
Lembre que em um dom´ınio a·b=0⇐⇒a=0oub=0.
grau(f(x)·g(x)) = n+m
pois o coeficiente l´ıder de f(x)·g(x) ´e cn+m=an·bm6=0. A multiplica¸c˜ao de polinˆomios tem as seguintes propriedades.
Propriedades da multiplica¸c˜ao:
Sejam f(x) = Xn
j=0
ajxj, g(x) = Xm
j=0
bjxj e h(x) = Xr
j=0
cjxj elementos deA[x].
(M1) Associativa: (f(x)·g(x))·h(x) =f(x)·(g(x)·h(x)). (M2) Comutativa: f(x)·g(x) =g(x)·f(x),
Lembre que no anelAa multiplica¸c˜ao ´e
associativa e comutativa. pois para todo j com 0≤j≤n+m, vale a identidade X
λ+µ=j
aµbλ= X
λ+µ=j
bλaµ. Note que, em vista da defini¸c˜ao das opera¸c˜oes:
• Para quaisquer j, k∈N, vale a identidade: xj·xk=xj+k.
• Se f(x) =a e g(x) =b0+b1x+· · ·+bmxm, ent˜ao f(x)·g(x) =a·g(x) =a·
Xm k=0
bkxk
!
= Xm k=0
(a·bk)xk
= (a·b0) + (a·b1)x+· · ·+ (a·bm)xm,