TYZYTABA’U
TRANÇADORES DE
PALAVRAS E COISAS
Aspectos de uma História Social da Língua Wapichana em Roraima (1932-1995), defendida em 2016 no Programa de Pós-Graduação em História Social da UFRJ. Nele é apre- sentada, a partir das tramas do falar e do trançar, a complexidade das práticas culturais Wapichana. A lín- gua Wapichana faz parte do tronco linguístico Aruak e tanto os objetos feitos recentemente, quanto aque- les guardados no Museu Nacional/
UFRJ, fazem parte da vida e da his- tória desse povo indígena. Como não encontramos uma palavra na língua Wapichana signifi cando ar- tesão, artesanato ou mesmo arte, por aproximação adotamos tyzytaba’u, como signifi cante de ‘trançador’ e
‘artista’. Assim, o nome do livro é Tyzytaba’u: Trançadores de Palavras e Coisas.
O livro sintetiza o que a auto- ra ouviu das narrativas históricas e compartilha aproximações pos- síveis com a língua e a cultura wapichana, no que tange à constru- ção das casas, relações de trabalho, forma de processar alimentos, de comer, de cantar, de dançar, de fes- tejar, de ritualizar, de trançar, de tecer, de desenhar, de pintar, de esculpir objetos, de viver e de pen- sar. Nele estão incluídas fotografi as
TYZYTABA’U
TYZYTABA’U
TRANÇADORES DE
PALAVRAS E COISAS
Diretor do Museu Nacional Alexander Kellner Chefe do Setor de Etnologia e Etnografia
e Curador das coleções etnográficas João Pacheco de Oliveira Presidente da Associação Amigos
do Museu Nacional Mariangela Menezes
editor João Pacheco de Oliveira revisão Wilson Milani
projeto gráfico Marisa Araujo
Ddados internacionais de catalogação na publicação (cip) (câmara brasileira do livro, sp, brasil)
Aline Graziele Benitez — Bibliotecária — crb 1/3129 Machado, Ananda
Tyzytaba’u : trançadores de palavras e coisas / Ananda Machado.
– 1. ed. – Rio de Janeiro : Ed. do Autor, 2022. – (Etno museu ; 3) Bibliografia.
isbn: 978-65-00-43491-0
1. Etnografia – Brasil 2. Roraima (Estado) – História social 3. Wapichana – Gramática – Estudo e ensino 4. Wapichana – Vocabulários, glossários etc I. Título II. Série.
22-107516 cdd: 498.3829807
Todos os direitos reservados ao
Setor de Etnologia e Etnografia do Museu Nacional.
Este livro foi patrocinado pelo Instituto Cultural Vale.
Distribuição gratuita.
Museu Nacional UFRJ Quinta da Boa Vista, São Cristóvão CEP 20.940-040 – Rio de Janeiro-RJ
A escrita deste livro seria tarefa impensável sem a par- ticipação ativa e direta dos indígenas Wapichana e Atoraiu.
Muitos dos que colaboraram com a pesquisa foram generosos no exercício de compartilhar seus conhecimentos. Agradeço a todos os entrevistados, colaboradores nas transcrições e nas traduções, especialmente a Nilzimara de Souza Silva, Miriam de Souza Chaves, Joceline Araujo Veras, Joice Alberto de Souza, Frank das Chagas Silva e Maria Shirlene Silva Souza.
Agradeço ao coordenador dos professores de língua Wapichana, Odamir de Oliveira, aos professores colaborado- res com os quais interagimos nos encontros de professores de línguas indígenas da Região da Serra da Lua desde 2012, e ao professor Dr. Manoel Gomes dos Santos, que muito contribuí- ram para a preparação de material educativo para o ensino da língua Wapichana e para a construção das reflexões deste livro.
Agradeço a minha família, principalmente aos meus filhos Pedro, Clarice e Manoel, que entenderam minhas ausências e apoiaram minhas lutas, à orientadora Maria Paula Nascimento Araújo. Sou grata a todos que me encorajaram, criticaram e não me deixaram desistir. Agradeço à CAPES e aos idealizadores do
Agradeço a supervisão do pós-doutorado pelo professor João Pacheco de Oliveira, assim como ao convite para publicar com a UFRJ este livro e por em 2013 ter recebido a pesquisa no Setor de Etnologia e Etnografia do Museu Nacional.
Agradeço a deputada Joênia Wapichana, por ser essa mulher liderança exemplar para todas nós, pela redação do prefácio deste livro e pelo apoio ao trabalho no Instituto Insikiran de Formação Superior Indígena (UFRR) por meio de emendas parlamentares.
Faço minha homenagem póstuma a Alfredo de Souza e a Casimiro Manoel Cadete, que tive a honra de conhecer e entre- vistar, com eles compartilhando momentos especiais de vida.
Apresentação João Pacheco de Oliveira
11
Prefácio Joenia Wapichana
15
Palavras introdutórias 19
As tranças da vida de Alfredo Souza 25
Fazeres de palha e da terra 45
Entre as tramas da vida Wapichana e de seus objetos no Setor de Etnologia e Etnografia do Museu Nacional
61
A Za’Apun ‘tanga’ de Kaxuru ‘miçanga’ e o Saadkariweinau ‘desenhos’ Wapichana
74
Objetos Wapichana de buriti e arumã 81
O chimery ‘ralo’ 85
Armas e armadilhas 86
O fazer arte com imi, ‘barro’ 95
Zamak ‘rede’ 99
Cocares, duwad ‘cabaça’, puchi ‘cuia’, zapu ‘tanga’
e baru ‘machado’
104
113 As festas Wapichana: as tranças ancestrais
contemporâneas
123
Acabamento provisório 131
Referências 133
Posfácio 137
Caderno de fotos 147
A autora 196
João Pacheco de Oliveira
Este livro trata de aproximações e encontros entre o povo Wapichana e o acervo etnográfico do Museu Nacional (MN).
Seu começo ocorreu em 2013 quando Ananda Machado, lin- guista de formação mas cursando o doutorado em História Social da UFRJ, me procurou interessada em conhecer as co- leções indígenas de Roraima existentes no Setor de Etnologia e Etnografia (SEE) do Museu Nacional. Durante vários meses visitou de maneira sistemática o SEE convivendo longamen- te com tais objetos, registrando-os em fotos, pesquisando nos livros de tombo, na biblioteca e nos arquivos.
Em seguida, em sucessivas etapas de trabalho de campo junto aos Wapichana, pode reencontrar aqueles objetos em performances rituais, em atividades cotidianas e nas memórias de Alfredo de Souza e alguns líderes e intelectuais indígenas das malocas da Malacacheta, Taba Lascada e outras da Terra Indígena Jacamim. Tal material foi utilizado em sua tese de doutoramento defendida em 2016.
Com o trágico incêndio do Palácio da Quinta da Boa Vista, em 2018, as coleções etnográficas do MN foram destruídas.
A forma de existência daqueles objetos passou a ser a de re- gistros de memória, tal como os mitos e rituais celebradas no passado, que apenas se materializam e voltam a brilhar através de relatos feitos por pessoas específicas em situações também singulares.
Em 2019 uma parte daquele rico material que integrava a tese veio a ser cuidadosamente retrabalhado e desenvolvido durante Pós Doc realizado por Ananda Machado, sob a minha supervisão acadêmica, no PPGAS/MN. Estava agora substan- cialmente acrescido de novas informações e conhecimentos procedentes de oficinas com professores indígenas, ocorridas nas comunidades indígenas no município de Boa Vista e Serra da Lua. Aproveitava e incorporava assim as suas práticas e ex- periências de docência realizadas no Insikiran/Universidade Federal de Roraima.
Neste livro estão presentes igualmente as antigas coleções do MN assim como as falas dos historiadores (kuadpayzu), trançadores (tyzyaba’u) e pajés (marynau), muitas vezes apre- sentadas em seu próprio idioma. Recuperar tais objetos em sua densidade cultural e histórica, nas sensações múltiplas e na afetividade que evocam, constitui um grande desafio – o de interrelacioná-lo com as vozes, o pensamento e o fazer Wapichana. Uma vez feito tal trabalho precisa ser tornado acessível e ser fonte de conhecimento ao público em geral mas também às futuras gerações de indígenas.
É com enorme satisfação que o SEE e o Etno Museu (Laboratório de Antropologia Pública), propicia aos leitores interessados o acesso a este livro, intitulado por sua autora, com muita precisão e poesia, Tyzytaba’u – Trançadores de Palavras e Coisas. Obra de um processo criativo que se inspirou no trabalho
dos próprios artistas Wapichana, num espelhamento generoso e sútil, e que refluirá em que uma parte de sua tiragem estará voltada para a distribuição e circulação nas escolas indígenas.
Por outro lado concretiza uma linha curatorial, baseada em uma antropologia radicalmente histórica e dialógica1, que tem inspirado a atuação do SEE nas últimas décadas e repercutido em exposições (como Os Primeiros Brasileiros, sobre os povos indígenas do nordeste, agora em versão digital, e Kumbukumbu, sobre as coleções africanas e afro-brasileiras), livros (como No Coração do Brasil e Mil Peças, ambos editados em 2020)2, par- cerias de trabalho e alianças políticas (como o Museu Maguta, dos Ticunas, e o Aty Guasu, dos Guarani Kaiowá).
Uma mensagem de grande força este livro traz para os debates sobre o futuro dos museus e coleções etnográficas.
Os objetos étnicos não são jamais seres mudos e anônimos, de uma materialidade finita, que necessitam de um espírito externo que lhes atribua funções claras e significados supos- tamente exatos. Que lhes dote de razão e beleza e atribua as comunidades de origem um implacável destino.
Ao contrário, os objetos étnicos, portadores de luz pró- pria e inesgotável, quando de algum modo se reencontram com suas comunidades de origem tornam-se outra vez vivos e livres, alimentam novas performances culturais e ganham novos sentidos em função das lutas contemporâneas.
Reconstruir uma coleção não pode ser assim buscar es- pécimes similares segundo morfologia, função ou valor de
1 Vide Pacheco de Oliveira, João – “Perda e superação” In Santos, Rita - No Coração do Brasil. Rio de Janeiro, SEE, 2020, pgs. 7-23. <https://museunacional.ufrj.br/
see/publicacoes.html>
2 Vide o site mencionado na nota 1para visitar as exposições e fazer download nos livros.
mercado. Nem muito menos pretender privar o artista de sua contemporaneidade, transformando-o em porta-voz impessoal de tradições imemoriais. É preciso acompanhar a coletivida- de em sua auto-produção, resgatando o artista e o pensador enquanto experiências concretas, remetidas a contextos his- tóricos e etnográficos, como criações humanas, produto de intenções, carências e desejos.
Se, em virtude de uma linha curatorial e de uma diretiva institucional de compartilhamento, as novas coleções forem concebidas como fruto do rompimento do cordão umbilical com as comunidades de origem, os museus poderão não ser exclusivamente templos de celebração do pretérito e do morto, mas locais de vida e de inclusão social, instrumentos para o debate e a construção do futuro.
É o que esperamos com este livro, que foi pensado para circular também nas escolas e nas aldeias, numa perspectiva alargada e de compromisso ético com as múltiplas funções sociais de um museu.
Joenia Wapichana
As palavras tem vida. As artes trazem histórias de vidas.
É uma honra apresentar o “Tyzytaba’u: Trançadores de Palavras e Coisas”, que reúne memórias, conhecimentos, artes e prá- ticas do Povo Indígena Wapichana organizados pelo trabalho de pesquisa da doutora Ananda Machado.
Tyzytaba’u é uma historiografia preciosa do mundo indíge- na. Dedica bom espaço para relatar a partir da vida de Alfredo Souza, patriarca de uma família Wapichana, sua trajetória e experiências acumuladas em vida há mais de 100 anos de existência, a memória do fluxo constante dos Wapichana nas áreas de fronteira Brasil-Guiana Inglesa-Brasil, registrada so- mente na transmissão oral entre gerações familiares. Um fator que chama a atenção é a importância da língua Wapichana no registro, tanto da história, como também da cultura indígena.
A transmissão oral dos saberes e práticas indígenas predomina nas relações entre famílias para repassar conhecimentos, rea- lizar comércios e manter contatos nesses espaços geográficos.
O subtítulo “Trançadores de Palavras e Coisas” instiga a curiosidade do leitor na busca do seu significado. A conclusão
do leitor vai depender da leitura atenta das entrevistas feitas durante o trabalho de campo da autora. Na minha compreensão a publicação reflete o tempo indígena, afirma a importância da cultura e mostra as características do Povo Wapichana:
que muito ouve e também muito aprende, com paciência e tranquilidade, e ao mesmo tempo, utiliza as palavras para analisar, debater, se manifestar, num estilo que, por meio da arte de trançar, mostra a cultura e transmite o conhecimento.
Demonstra claramente a arte viva dos Wapichana.
No decorrer da pesquisa, a autora encontrou um rico acervo no Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Os objetos registrados mostram a resistência do povo indígena numa época de coloni- zação. Mas também demonstra uma imensa e rica diversidade cultural refletida nos objetos de arte brasileira e herança coleti- va Wapichana. Reforça a necessidade de políticas públicas para assegurar que esse patrimônio seja protegido e ao mesmo tempo compartilhado por quem não teve a oportunidade de conhecer.
Interessante que os desenhos ou grafismos Wapichana contam as narrativas sobre sua vida, criação, princípios, visões, temores e desafios. Essas artes aparecem em peças guardadas no Museu Nacional, e podem mostrar com o tempo, algumas ameaças que estão se confirmando, por exemplo, a vida indí- gena vir do “Urupiru” (Cobra grande) que está sendo destruída pelos impactos do garimpo ilegal nas terras indígenas.
Trançar os utensílios para uso doméstico e artes ainda estão forte nos dias de hoje. As comunidades indígenas da Serra da Lua visitadas pela autora demonstram a sua impor- tância na reprodução cultural, na proteção do meio ambiente, no uso sustentável da natureza para fazer tais objetos. Poderia afirmar que a vida Wapichana nessa região é um exemplo de
boas práticas, de repasse de saberes, desde o plantio até o uso sustentável por eles.
A publicação deste livro tem um destaque especial para o papel das mulheres indígenas. Em diversas partes do livro pode-se observar a importância e o protagonismo delas na pro- dução dos objetos indígenas, seja a rede de algodão, panelas de barro, tipoias, vestimentas, e demais utensílios.
A terceira parte do livro mostra objetos utilizados nos rituais Wapichana. É um paralelo entre o passado e o presen- te, no qual a autora tenta explicar as tradições e práticas nos rituais Wapichana. Eu diria que é um tema bastante forte e ousado, carregado de mistérios fascinantes e assim contribui para manter as crenças indígenas vivas em cada um que tenta explicar o significado das palavras, da dança o Parichara, e do trabalho dos pajés.
Ananda reuniu informações importantes da vida dos Wapichana. Um trabalho que vai ser lido por muitos que não conhecem essas histórias. Ressalto ainda que as fontes des- sas informações são os resultados de uma pesquisa de campo, feita por ela, em diferentes comunidades indígenas e com al- guns entrevistados como Sr. Alfredo e falas imortalizadas de Casimiro Cadete, que é também uma grande referência para os Wapichana. Assim como os demais parentes Wapichana, professores e professoras indígenas que se fizeram essenciais para esta publicação.
Kaimen Manawyn!
Precisamos de modelos para entender um universo (que é afinal um pluriverso ou um multiverso) e que foi construído em permanente mudança, no meio do caos e do imprevisível. Esses modelos simplificam o que só pode ser entendido como entidade com- plexa e complicam o que só em simplicidade pode ser apreendido (Mia Couto).
Este livro pretende, a partir das tramas do falar e do trançar, apresentar a complexidade das práticas culturais Wapichana.
Espera-se que o leitor perceba a força de suas palavras e ges- tos. A língua Wapichana faz parte do tronco linguístico Aruak e tanto os objetos feitos recentemente, quanto antes dos anos 1840 e guardados no Museu Nacional (UFRJ), fazem parte da vida e da história desse povo indígena.
Como não encontramos uma palavra na língua Wapichana significando artesão ou artesanato, muito menos alguma que traduzisse arte, por aproximação adotamos tyzytaba’u, como significante de ‘trançador’ e ‘artista’. A formação desta palavra dá-se a partir do verbo tyzytan ‘trançar’, que perde suas termi- nações verbais e recebe o sufixo nominalizador -ba’u, assim,
com a colaboração de alguns(as) professores(as) indígenas Wapichana, escrevemos e nomeamos este livro de Tyzytaba’u:
Trançadores de Palavras e Coisas.
O texto é uma adaptação de um dos capítulos da tese Kuadpayzu, Tyzytaba’u na’ik Marynau: Aspectos de uma História Social da Língua Wapichana em Roraima (1932-1995), defen- dida em 2016 no Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), orien- tada pela Profª Drª Maria Paula Araújo. O objetivo da tese foi evidenciar as mudanças vividas pelo povo Wapichana no pe- ríodo de 1932 a 1995. Na pesquisa da história social da língua Wapichana, reconstituímos alguns aspectos do que aconteceu em Roraima nesse período por meio das histórias de vida (de- zoito entrevistas realizadas com os kuadpayzu ‘historiadores’, tyzyaba’u ‘trançadores’ e marynau ‘pajés’).
No capítulo tomado como base e que dá título a este livro, enfocamos as entrevistas sobre o trabalho dos trançadores, partindo da simplicidade de suas ações para, a partir daí, abor- dar esse complexo campo do conhecimento, de uso da língua Wapichana, de trabalho, de produção artística e cultural desse povo.
Como metodologia, sistematizamos conhecimentos obti- dos por meio da observação etnográfica do uso da língua e dos objetos Wapichana, do trabalho de entrevistas em campo, do fichamento bibliográfico, da análise de documentos, fontes primárias3 e secundárias.
Constatamos que muitos desses conhecimentos vêm sendo repassados há anos pelas narrativas orais, gestuais e em lín-
3 Sobre os Wapichana encontramos: Documentação da Comissão Rondon, Política indigenista do SPI, vocabulários de línguas indígenas. Comissão Rondon, 1875-1953.
Museu do Índio. Relatórios pesquisadores SEDOC-Museu do Índio, 1950-1994.
gua Wapichana. Percebemos que, de modo mais intenso nas comunidades quase monolíngues na língua portuguesa, esses conhecimentos e práticas culturais Wapichana recebem, ao longo do tempo, novos significados e de forma adaptada con- tinuam a ser vividos.
Esses saberes estão presentes nas histórias de vida, na forma da construção das casas, nas relações de trabalho, na forma de produzir alimentos, de comer, de cantar, de dançar, de festejar, de ritualizar, de trançar, de tecer, de desenhar, de pintar, de esculpir objetos, enfim, de viver e de pensar. O pro- cesso de ouvir e transcrever as narrativas históricas contribuiu para entender as dificuldades, as aproximações possíveis e im- possibilidades de tradução cultural, linguística e as dinâmicas das mudanças na vida Wapichana. Assim, partimos das entre- vistas e das fotografias dos objetos para construir os sentidos.
Realizamos entrevistas projetivas, ou seja, centradas em materiais visuais (fotografias). Minayo (1993) afirma que esse tipo de entrevista é usado para aprofundar determinado tema, como forma de ativar a memória dos entrevistados. Aplicamos então essa metodologia para sistematizar e aprofundar co- nhecimentos sobre os objetos fotografados por nós em 2013 no Museu Nacional (UFRJ). Sempre que possível incluímos as falas originais em língua Wapichana aqui traduzidas para o português, optando por deixá-las em notas de rodapé para manter a fluência do texto.
Percebemos, por um lado, o orgulho, principalmente dos mais velhos, por conhecerem suas tradições e, por outro, o medo de que sejam esquecidas, uma vez que poucos jovens têm tido interesse em aprender. Há, de fato, desinteresse dos filhos e netos pelo aprendizado da língua Wapichana, do ar-
tesanato, do trabalho na roça e dos demais conhecimentos transmitidos por seus ancestrais.
A cultura material Wapichana é rica e diversificada na forma de cestos, cuias, trançados, saias, cerâmica, e diferentes formas de tecer. Como cultura material, no caso deste estudo, consideramos os objetos materiais. Trabalhamos aqui também a cultura imaterial, os conhecimentos e práticas da vida social, cultural e espiritual Wapichana. Assim, os tyzyaba’u ‘trançado- res’ continuam criando essas formas e sentidos como modo de produção material e imaterial da existência. Analisaremos aqui principalmente as falas que tratam de diversos exemplos de trabalho com arte nas experiências cotidianas.
Os artistas desempenham papel importante e muitos dos objetos etnográficos feitos pelos Wapichana estão relaciona- dos a antigos rituais que acontecem desde o tempo dos antigos.
Alguns deles, como os que envolvem encantações, são menos praticados pela influência de algumas escolas, das religiões, das fazendas, dentre outros; mas continuam de forma discreta transmitindo esses conhecimentos, mesmo os proibidos pelas instituições que invadiram seus territórios.
Neste livro analisamos principalmente as entrevistas rea- lizadas com Alfredo de Souza nas comunidades Malacacheta e Tabalascada; as trabalhadas na Terra Indígena Jacamim, em dezembro de 2014, outubro de 2015 e abril de 2016, dentre outras. As entrevistas com Alfredo de Souza foram todas rea- lizadas na língua Wapichana porque ele escutava pouco, assim como entendia e falava com dificuldade a língua portuguesa.
Os outros entrevistados também usam muito mais a língua Wapichana do que a portuguesa no seu cotidiano, o que exigiu que traduzíssemos as questões para língua Wapichana, com a colaboração de intérpretes.
Incluímos ainda neste livro um posfácio com fotos que não fizeram parte da tese, assim como resultados da conti- nuidade da pesquisa no pós-doutorado supervisionado pelo professor João Pacheco de Oliveira Filho, no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (Museu Nacional), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Há ainda no posfácio, material organizado a partir de oficinas realizadas com os professores de línguas indígenas que atuavam nas es- colas municipais nas Terras Indígenas de Boa Vista (de 2016 a 2018) e na Região Serra da Lua, municípios Bonfim e Cantá- RR (de 2012 até a atualidade).
Alfredo nasceu no dia 1º de janeiro de 1916, de pais Atoraiu (língua da família Aruak). Foi criado até os sete anos pelo pa- drinho no país que hoje é chamado de República Cooperativa da Guiana. Depois veio para o Brasil ainda criança, trazido por Luis Cadete, vivendo com ele inicialmente na comunidade Tabalascada e depois no Canauanim. Alfredo trabalhou com balata (látex da árvore popularmente chamada de balateira), garimpo e roça. Ele sabia trançar jamaxim, tipiti, peneiras e conseguiu repassar seus conhecimentos aos filhos e netos, que falam fluentemente a língua Wapichana.
Tivemos acesso a esse documento (figura 1 no caderno de fotos) dia 04 de setembro de 2021 e nos surpreendemos com o nome George Alfred, diferente de Alfredo de Souza, como até então o conhecíamos. A data de nascimento no documento acima é de 10 anos depois em relação ao que seus filhos nos informaram.
Fomos ao aniversário que sua família comemorava os 100 anos de Alfredo e ele faleceu dia 26 de novembro de 2020 segundo os seus com 104 anos, portanto consideramos a palavra tão va- liosa quanto o documento acima, reafirmando a idade que sua família atribuiu e desconfiando da veracidade deste documento.
Realizamos com Alfredo três entrevistas; a professora Nilzimara de Souza Silva, sua neta, participou da primeira, traduzindo nossas perguntas da língua portuguesa para língua Wapichana, colaborando assim para a comunicação com ele.
As entrevistas foram filmadas e gravadas, sendo a maior parte da transcrição e tradução das duas primeiras entrevistas da língua Wapichana para a portuguesa feita por Miriam Chaves de Souza, tradutora e intérprete que colaborou conosco nos projetos de extensão (UFRR) de 2010 a 2015. A terceira entre- vista foi realizada em 2017, com a participação de Silvestre, filho de Alfredo que respondeu muitas questões junto a ele.
Esse momento foi bastante emocionante e ambos já se foram deste plano, restando-nos a oportunidade de homenageá-los neste livro.
Alfredo falou durante todo o tempo na língua Wapichana e nos recebeu muito bem, colaborando com a pesquisa durante duas horas no primeiro dia de entrevista. Compreendemos, na- quele momento, apenas parte do que foi dito por ele na língua Wapichana. A dinâmica da entrevista diferiu das metodolo- gias de história oral que estudamos até então por incluir uma língua indígena; no entanto, entendemos que foi adequada para este caso.
Eu não sei como eu vivia, eu morava com meus pais no mato, mato, mato. Meus avós moravam no mato, os Atoraiu, eles colhiam castanhas do Brasil no mato. O local deles se chama Parubaz na Guiana, é na Guiana que se localiza Parubaz. É um mato assim com lavrado, lá que morava os Atoraiu antigamen- te, construíam o local deles, se multiplicaram e cresceram lá.
Aí depois eles foram embora, foram embora para longe. Eu nem sei pra onde de novo, mas os meus avós são diferentes,
morreram aqui em Karaudarnau que se chama a comunidade, aí os locais onde eles roçavam eram chamados de Turaraton, tem outro Uwaynau, que é Serra do Macaco. E assim a gente vai, tem outro lá que se chama Boca da Mata, que é local deles de novo na beira do mato4.
Pelo que compreendemos, o aprendizado e o uso da língua Atoraiu por Alfredo, antes de vir para o Brasil, manteve-se na fuga para o mato, lugar tido como refúgio do uso dessa língua indígena. Alfredo repetiu três vezes a palavra mato, deixan- do entender que era um local bem distante, lá para dentro da Guiana. De fato, a maioria dos que vivem usando apenas a lín- gua Wapichana, moram em casas mais distantes do centro das comunidades indígenas, e alguns não frequentaram a escola, como Alfredo. Mas, com isso, não queremos reforçar a ideia de que “indígena é apenas quem vive no mato”. Sabemos que há, inclusive, muitos Wapichana que falam bem a língua in- dígena e moram há anos na capital Boa Vista e que, nem por isso, esqueceram sua cultura e sua língua. Muitos professores de Wapichana que escrevem bastante nessa língua moram no centro das comunidades, perto da escola, e usam bastante também a língua Wapichana inclusive no seu trabalho.
4 Aunaa un aichapan na’apam unmaxaapayzun zii, unmaxapan undarunau diaypaichan ungary kanuku ii, kanukuba’u ii, kanukuba’u ii. Undukuzynau maxapan kanuku bau- sannau aturadanau inminhaypan kanuku ii inwiiz yy Parubaz Guiana ii, Guiana inhau wyyry’y parubaz kikizei. Kanuku kaipa’a baraz ty’yz, baraz ty’yz kaipa’a kanuku zikun ii mixi na’ii wyyry aturadanau maxapayzun kutya’anaa an inkeawiiztinhan na’ii na’iana inbyan, indaypain na’ii, aizii wyry’y inmeakukinhaa kidia’anaa inmeakun mynapu naa aunaa un aichipan na’itim naa kuxan inmeakun mazan wyryy undukuznau pa’na ipei inmeukan na’a da’a karaudaznau kikizei dakutkau wyryy amazada wiizei, aizii inwiiz sudkid inkezakaniapkiz kainha’a dakutikau, turatun, kainha’a bauran uwaunau, makun wyry’y kainha’a baura di’iaa dakutykau buxu mutu (Boca da Mata kiau) inwiiz kuxan kanuku danumaiakkau (Entrevista com Alfredo de Souza no dia 18 de julho de 2014).
Revisão dos textos na língua Wapichana: Maria Shirlene Souza Silva.
Nas escolas da Região Serra da Lua nunca houve o ensino de Atoraiu, desconhecemos dicionário ou livro de histórias desse povo. E a bíblia pelo que conseguimos averiguar não foi traduzida para a língua Atoraiu. Talvez por todos esses moti- vos, dentre outros, a língua Atoraiu vem sendo esquecida. Por isso, é provável que as famílias já não encontrem motivação para transmiti-la a seus filhos. Há relatos de que na Guiana há famílias que falam Atoraiu, mas ainda não conseguimos realizar uma pesquisa específica para averiguar.
Eu não sei, eu sei um pouco, mas não todas as palavras, algu- mas, eu não sei mais direito. Antigamente meus avós falavam tudo pra mim em Atoraiu. Meus pais também, quando eu era criança, eu falava em Atoraiu e quando escutava compreendia.
Mas depois, quando eu fiquei velho, não falo mais, aí todos os Atoraiu morreram também, não tem mais ninguém pra falar comigo5.
Alfredo, em muitos momentos, disse que não sabia mais falar a língua Atoraiu e não lembrava o que perguntávamos, mas sua neta Nilzimara, no momento de nossa terceira entre- vista, conseguiu gravar uma música que ele cantou em Atoraiu.
Seus filhos Silvestre e Noberto nos contaram muita coisa que ele conhece e detalhes de histórias da sua vida que ouviram no passado. Como as situações das entrevistas não foram mo-
5 Aunaa an un aichapan, un aichap kaikapa aunaa patamaka an man, bayday ki’ana karikeunan aunaa naa uunaichapan kaimeimen. Wyry’y kuty’anaa unwyzunau para- dapan un’at aturad idian, ipei undarynau unkaikesudindun, ungary paradan aturad idia’an, ykayan unwabat padamat, mazan ydayan untynarynawyn py’ana aunaa an, yryy inmaukan kidana ipei wyry’y aturad nhawyz aunaa an kanam paradapa’u nii un’ati.
(Entrevista realizada com Alfredo Souza no dia 18 de julho de 2014).
mentos de fala espontânea, talvez na convivência, com mais tempo, poderíamos ter aprofundado a temática e ouvido suas histórias ao seu tempo e modo.
Eu não sei, mas eu já ouvi falar em trocas com os brancos, que chegaram e trouxeram anzóis, trouxeram arma, trouxeram sal e todas as coisas. [...] Os antigos não comiam sal, mas achavam peixes e eles viviam comendo peixe. Como eles eram do mato, comiam de tudo: queixada, porco do mato, anta, tudo que está em cima de árvore como macacos, cuatá, cuxiu, guariba, todos os bichos os Atoraiu comiam6.
Nilzimara contou-nos que o tio de Alfredo o entregou em troca de sal para o pai de Casimiro Cadete. Sobre esse tema, uso do sal, Alfredo falou dos peixes e carnes que consumiam mesmo sem terem o sal. Na sequência, ele começou a contar como foi sua infância:
Meu pai morreu, eu não sei que altura eu estava, ele faleceu.
Ele faleceu e tem a minha mãe, mas ela não cuidou da gente direito, somos assim em Wapichana, a conta é assim, um, dois, três, quatro, cinco contando comigo, é assim, aí somos de um pai só. O nosso pai faleceu, a nossa mãe ela não presta, ela nos abandonou por aí, ela não soube cuidar da gente, não soube criar a gente direito, ela fez foi jogar. E essa nossa mãe correu atrás de outra pessoa, com outro homem, deixou nós. Até so-
6 Aunaa un aichipan, un abatannaa ykuadapayzukau na’ap kainha’a inkeauana pa- rangarynau, kaikini’i kawan na’ak kubau, inhaaka’a mukau, ipei inha’akapan mukau inhaka’a dyu, ipei wyry’y kaipa’a nikeizukariwei. [...] Ipei inha’akapan mukau inhaka’a dyu, ipei wyry’y kaipa’a nikeizukariwei maskaydaysud kii inhau tan kutyainhaunau aunaa inniken dyu mazan inkuda kupay inmeaxapan kupay dia’na. Aizii kainha’a na’apanxaa ydakutkau atii inkudan panikennii kanukusannau wyry’y mixii inniken wyryy ipei kanam:
bichi, bakyry, kudui, ipei dukunuinhau puaty, rumi, wixi, sybyry, ipei wyry’y panaukazi- nhau aturada niken.(Entrevista com Alfredo dia 18 de julho de 2014).
fremos, eu estava passando dificuldades, a minha roupa suja, não tinha com que lavar roupa, não tinha sabão e não tinha como lavar nada. Aí tinha meu tio, ele disse: “vamos você carre- ga esse abóbora na sua rede pra gente comprar sabão lá com os negros”. Ele me deu uma abóbora desse tamanho, aí eu enrolei e carreguei na minha rede, depois encontramos com a pessoa que estava voltando lá dos negros, aí foi ele quem me criou, o Luis Cadete, me encontrou, é assim eu estava indo com meu tio. ‘Ele é seu filho?’ Perguntou Cadete [...]7.
Alfredo teve uma infância difícil, pois perdeu o pai e foi abandonado pela mãe. Em sua narrativa, percebemos traços da vida Wapichana da época, eles usavam a rede para dormir e também para carregar objetos. Ele fez referência ainda aos
“negros” como comerciantes. Alfredo contou que conheceu o pai de Casimiro Cadete quando ele voltava do comércio com os “negros”.
Com 100 anos em 2014, Alfredo foi um dos artesãos que fez parte da história que reconstituímos. Ele veio adotado por
7 Undary maukan, aunaa un aichapan na’apam ungary, dukua’anaa, kaikep man, undary maukan, kainha’a undaru, mazan aunaa utaapan waynau kaimen, kaipa’u da’i, waynau wapichan kian aicharibei baydap, diaytam, idikinhayda’y, paminhaytamkii, bakaiayda’y wapichan aichan (contar). Mixi kaipayda’y waynau, wadary dan, undary maukan! Undaru aunaa ukaimenan, kabuuta’akan waynau di’it karikeunan, aunaa uaichapan pataaoan waynau, aunaa udiupaichan waynau kaimen, kabubi’ian. Yryy wadaru dimeakan naa ba’uran pidian tyma’anaa, ba’uran daunaiura tyma’anaa makun,wa’akabian naa way- nau ipei. Wapatakaytinhan naa ungary kachamidikii, unkamichan kaniribe,aunaa kanam id unchiken, aunaa chikeribei nii, aunaa kanam dia’an chiken aimeakan. Aizii kainha’a papai kian wamaku puduwayt wyry’y kawiam piximek zuan, waturinakkiz chi- keribei di’ia’a mikurunau di’ii, taa kawiam, kaipa’a ytybaryn, duwaytan unximek dia’a, bazupata’akan naa. Dayna’an waikudapan pidian wa’ati’u na’ki’u mikurunau di’ik’u wa’atin. Yryy arawy’y! Yryy naa diupaichau ungary, yryy Luiz Cadete ikudupan ungary, yryy unmakun papain tyma’u, xa’apayzin arawy’y? Cadete kian. (Entrevista realizada com Alfredo, no dia 26 de outubro de 2015).
Luis Cadete da República Cooperativa da Guiana e trabalhou para a família deles no Brasil.
‘Aqui é a Tabalascada’, ele disse: ‘é mesmo! Agora você vai morar aqui com a gente, vou comprar roupa pra você, vou comprar sua calça, camisa e vou comprar a sua rede’. Aí ele comprou e fiquei morando com eles e trabalhando pra ele, ajudando ele na roça, aí eu já era empregado dele, mas ele me tratava bem.
Me dava comida e muito mais8.
No período da figura 2 no caderno de fotos Alfredo tinha uns 11 anos. Encontramos essa imagem no Museu do Índio (RJ), é um microfilme da época da comissão Rondon. Observamos as casas com teto de palha e paredes de barro. Aparentemente quem estava visitando a comunidade deve ter distribuído rou- pas, pois principalmente as crianças parecem estar vestidas com “uniforme”.
Observa-se, entre os indígenas, um sistema parecido com o que os fazendeiros usavam quando adotavam ou apadri- nhavam crianças, o que se praticava na época para obtenção de mão de obra. Assim, ao invés de contratar, tomavam como
“parentes” quem passava a trabalhar para a família.
É possível observar um homem segurando uma sanfona à esquerda, o marechal Rondon à direita e quem usa um cha- péu provavelmente era o tuxaua na época. E quem está com os pés aparecendo na fotografia encontra-se descalço.
8 Da’a’a Tabalascada. Aizii da’aunii pymaxaapan waynau tym turikizi’inaa pa’i pyka- michan nii, pychuran nii, kamichan nii, puxuutun nii, unturikiz piximek, unturikiz! Yryy turina naa, unmaxaapan naa, kaydinhan naa yati’i naa. (Entrevista realizada com Alfredo em 26 de outubro de 2015).
Alfredo faleceu na comunidade Tabalascada em 2020, no meio da pandemia de Covid-19. Na ocasião de nossa pri- meira entrevista, em 2014, ele morava no Gavião, na beirada da estrada que vai para comunidade Jacaminzinho. Gavião e Jacaminzinho são comunidades que fazem parte da Terra Indígena Malacacheta, município Cantá(RR).
Alfredo repetiu bastante em suas falas o fato de não es- crever e de não saber nada, por isso, reforçamos, em nosso diálogo com ele, o valor dos conhecimentos que ele adquiriu mesmo sem ir à escola e conseguiu ensinar para seus filhos e netos. “Eu não sei escrever, nem sei escrever meu nome, então eu envelheci assim mesmo não sei de nada, eu só sei a língua Wapichana. É só isso!”9. Observamos que muitas famílias que conseguem continuar a transmissão desses conhecimentos mantêm uma vida mais voltada para o interior da comunida- de, ao contrário de outras que passam muito tempo viajando e participando de reuniões fora.
Na continuação da entrevista, Alfredo contou sobre quan- do não existia escola e o fato de ele desconhecer a escrita.
Entretanto, foi curioso chegarmos à sua casa para a segunda entrevista e encontrá-lo sentado na rede folheando um livro didático antigo, provavelmente de um dos seus netos. Ele lia as imagens.
Em sua fala, citada abaixo, Alfredo diz que quem estuda conhece datas. De fato a memória segue uma lógica mais cí- clica do que a da datação cronológica, escrita e linear. É de se observar que, na fala de outros Wapichana, os números e as datas são expressos em língua portuguesa, mesmo quando a fala é toda na língua Wapichana. O sistema de numeração
9 Entrevista com Alfredo em 26 de outubro de 2015.
Wapichana tem base cinco, os dedos de uma mão. Assim, quanto maior o número, mais mãos, pés e corpos precisarão ser incluídos, fazendo com que terminem falando os números grandes em português.
Constatamos que as escolas indígenas na Região Serra da Lua seguem a lógica do sistema de educação, que por mais que se tente modificar, ainda lhes é imposto. Essas institui- ções, bem claramente, trazem para dentro das comunidades uma dose muito maior de conhecimentos exógenos em língua portuguesa, do que privilegiam e fortalecem o que é próprio daquele lugar.
Não tinha escola lá, então eu não tenho conhecimento sobre as palavras, eu não entendo como a pessoa vai falando no livro. É, faz tempo que estou assim desde criança, mas só com as pessoas que estou andando, então eu não sei. Agora quan- do eu cheguei de viagem, lá pra onde eu morava de novo para Karaudarnau, aí já tinha a escola, já tinha pessoas estudando, já sabiam a data, eles já tinham conhecimento, eu não, cheguei assim mesmo. Eu envelheci assim mesmo, não tenho estudo10.
Durante toda a primeira entrevista, uma das bisnetas de Alfredo de cinco anos ficou ao seu lado, ou brincando por perto. Observamos que essa estratégia familiar certamente vem garantindo o repasse de conhecimentos. E dentre eles, o
10 Aunaa school naa ii, yka’yan aunaa untuminpen. Aunaa un ainhatinhan paradakary da’y. Aunaa un aichapan na’apam pidian kadakuinpen karichi dia’a, ka’yan kuty’y un- makun kuraidiaunaa pidiannau tym. Unmakun da’ati’i, karikeunan chi’ikpan, ka’yan aunaa un aichapan. Aizii unkaawan di’iki’i chi’ikepkiz ik di’iti’i unmaxaapkiz it kuxan Karaudaz it kainha’anaa school, kainha’anaa pidiannau aichapa’anaa, tuminpen, in ainhatinhan ipei, kaipa’anaa diayn, ungary aunaa, aunaa un aichapan, unkaawan na’apan kaipa’a tynarynawyn na’apan karikeunan, aunaa un aichapan. (Entrevista com Alfredo realizada no dia 26 de outubro de 2015).
falar a língua Wapichana. No passado, antes de começarem a ir com quatro anos para escola, as crianças ficavam muito tempo com os avós.
Na atualidade, a escola e os serviços assalariados modi- ficam esse quadro. Entretanto, em algumas comunidades, a influência dessas instituições que vieram de fora para dentro é pequena, sendo certo que os filhos faltam à escola para tra- balhar na roça, pescar, caçar e fazer farinha. Observamos que, nessas comunidades, tais práticas são mantidas de forma mais forte do que em outras, incluso o uso da língua Wapichana.
Há tentativas de incluir as práticas de roça, pesca, caça e casa de farinha em projetos das escolas indígenas, faltan- do ainda, todavia, encontrar uma forma de integração desses projetos com os conteúdos das diversas disciplinas ou temas contextuais. Parece-nos um caminho interessante incluir o trabalho das famílias na rotina das escolas indígenas, siste- matizando as informações, refletindo sobre as dificuldades e encontrando soluções. Assim, ao invés de o aluno faltar à aula para ajudar sua família, ou deixar esse aprendizado de lado, ele passa a colaborar em casa, podendo a escola também contri- buir nos ‘ajuris’ (trabalhos coletivos) comunitários. Percebemos que isso já acontece em algumas comunidades.
O antropólogo Alessandro Roberto Cardoso de Oliveira (2012) entende a articulação do “tempo dos avós” com o “tempo dos netos” como essencial à análise da sociologia Wapichana atual. O caso de Alfredo confirma a importância dessa con- vivência, uma vez que todos os seus filhos e netos falam fluentemente a língua Wapichana, tendo aprendido com ele o que veio de seus ancestrais. No entanto, alguns bisnetos, fi- lhos de seus netos que se tornaram professores, assumiram
cargos de liderança e ficam menos tempo em casa, já não estão aprendendo a falar sua língua, apenas entendem.
Alfredo criticou a forma de as famílias se organizarem na atualidade, deixando de lado esses saberes: “eu não sei por que os pais deles fizeram filhos desse jeito? Não os ensinaram a falar língua, só falam português, isso eles gostam muito de falar. Tem apenas alguns que sabem”. Efetivamente, atualmente, apenas 30% dos moradores da comunidade Malacacheta, onde vivia Alfredo, falam a língua Wapichana. A partir de 2017 iniciou-se o Inventário Nacional da Diversidade Linguística Wapichana e Macuxi da Região Serra da Lua(RR) e em breve saberemos com mais precisão o resultado do diagnóstico sociolinguístico.
Em 1985, a liderança indígena Quintino contou como vi- viam antigamente os Wapichana: “naquela época não tinha escola, não escreviam. A escola era as tranças. Os velhos ensi- navam bem” (CIRD, 1985, p. 2). Na época de Quintino já não aprendiam a trançar na escola, que ensinava a ler e a escrever sobre outra temática e em língua portuguesa.
Em sua tese, Nádia Farage (1997) fez referência às crianças brincarem na casa das avós e às trocas cotidianas nos conjuntos sociológicos Wapichana, mencionando que as filhas casadas moravam próximo às mães para compartilhar trabalho, ali- mento, receber ajuda no parto, nas doenças, caminhar junto para a roça, fiar algodão e ralar mandioca.
Na comunidade Marupá, em entrevista realizada com Anastácio de Souza, no dia 16 de dezembro de 2014, ele rela- tou: “quando dava aula de Wapichana não ensinava artesanato.
Todo mundo sabia trançar. Hoje os próprios professores não sabem. Só querem arrumar emprego, não querem aprender”.
Em reuniões comunitárias e assembleias indígenas ouvimos
sobre essa necessidade de os professores saberem transmitir esses conhecimentos ou convidarem quem sabe para colabo- rar em suas aulas.
Ouvimos uma fala semelhante na Reunião Equatorial de Antropologia, em que o pajé Antônio, Kariri Xocó de Alagoas, disse que precisam incluir nas escolas indígenas “professores de raízes”. Reclamou que enquanto o povo dele não ouve o que ele diz, a universidade o convida para palestrar. “O professor indígena não aprendeu, o velho precisa ser considerado” (julho de 2015 em Maceió).
Alfredo contou como buscava materiais, quais os objetos que sabe fazer e como tinha aprendido artesanato com seu avô:
Até entrei, eu entrei na floresta pra procurar cipó titica, cortei a cipó titica e dividi. Depois eu coloquei um pedacinho de pau na trança e com a outra eu fiz um tipiti bem grande, eu tranço jamaxim. Tudo isso é meu trabalho. Aí eu aprendi, quem me ensinava antigamente era só o vovô. Ele era bom em trança, ele fazia de todo tipo de trança, tipo bolsa, peneira, jamaxim, tudo isso ele fazia. Foi ele que me ensinou a fazer tranças, então eu sei fazer11.
Casimiro Cadete, irmão de criação de Alfredo, contou que o pai dele quem o ensinou a trançar, e que ele, Casimiro, ensinou o pai a escrever. Continuamos conversando sobre o
11 Mukurutan, unmakun kanukubau it. Durutan mukuru, dykytan mukuru, xaidian, kaa- wan xaidiapan, dayna’an tyzytypan, dayna’an kanam saykan atamynytaba’y nii tyzytan...
tyzyt ba’uran nizu nii, kaimen, nizu za’abai kid, dupawai nii, tyzyt kuxan dupawai. Ipei unkaydinkiz kuas. Wyry’y... Yryy tuminpen... Tuminpen... kanam tuminhakididia’u un- gary suu ku’ukuukyty’yanaa, suu ku’ukuu tuminhapkid, ku’ukuu tyzytybau da’i. tyzytan kanam sud kid: dazuan, ipei kanam, manary, dupawai ipei utyzytan. Uruu tuminhapki- dian ungary tyzytkary da’y. ka’yan un aichap ipei tyzytkary, mazan kai, aunaa untyyryan untyzytpan, un awyn ixan naa, aunaa naa untykypan na’apam naa tyzytkary. (Entrevista com Alfredo realizada em 26 de outubro de 2015).
assunto na entrevista com Casimiro e, em tom de lamento, ele afirmou sobre a realidade da comunidade Canauanim (2013).
Aqui podiam aprender, mas só que não querem aprender a pró- pria língua. Os pais não se esforçam de ensinar os filhos quando pequenos. Agora eu tenho falado muito e já começam a falar, estão ensinando os filhos pequenos. Desde quando começou a escola aprendeu a escrever e não quer mais o Wapichana.12
Tal como fez Casimiro, Alfredo também reclamou sobre essas mudanças, contando-nos um pouco mais a respeito de sua experiência com o avô na feitura de artesanato e lembrou- -se também do que aprendeu com os balateiros.
O meu avô era artesão, eu vi como era trançar, aí eu tentei fazer, aí eu comecei a trançar também. Depois eu aprendi mais com os balateiros, eles que sabem fazer artesanatos, aí me ensina- ram mais ainda. Assim peneira para fazer farinha, peneira para fazer beiju, abanador de fogo, tipiti e tem diferentes formas de fazer também, tem um trançado chamado reto e tem outro unurukanay, esses que eu sei, mas tem outros tipos13.
Alfredo sabia fazer três tipos de traçado, sendo que, se- gundo ele, utu, ‘cascudo’, que imita as formas desse peixe, é o mais difícil. Durante a entrevista, quando mostramos a Alfredo algumas fotos dos objetos Wapichana que estavam guarda-
12 Entrevista com Casimiro em 26 de maio de 2013.
13 Aizii undary tyzytpayz untykpan na’apam tyzyzkary yryy untiwen naa untyzytan, unsa- kadan naa untyzyzpan kapam dayna’an untuminpen pawa’azii kapam iziiarasannau tym, yryy aichapainhau patyzytpan, yryy intuminhapkidian naa pawa’azii ungary. Kaipeura u’i tan naa, baditan naa, awaribei, manary, dupawai, nizu, aizii wyry’y pabi’inak kida’u wyry’y kapam itumka’u, dakutka’u sakitpayz, kainha’a taramiz dakutkau. (Entrevista com Alfredo no dia 18 de julho de 2014).
dos no SEE antes do incêndio de 2018, teve dificuldade em enxergar e reconhecer o que era cada um deles: “Agora não tenho mais como trançar, não enxergo mais a trança, meus olhos estão cegos e não sei mais”. Ele começou a nos contar como trabalhou com os balateiros e garimpeiros no passado.
Consideramos importante saber mais sobre o assunto e ele explicou o seu trabalho com a balata.
Subiu no pé, fez aqui, tem um saco assim para pegar leite de ba- lata, Wapichana disse que é leite de balata, começando no saco, aí depois foi lixando e cortando, cortando, vai subindo, vai até em cima; depois desce quando o saco está cheio, aí você coloca dentro de outro saco, se está cheio é assim com outro de novo e derrubou, é assim até guardar toda balata. Agora depois de guardar, ia trazendo da floresta né, trazendo da floresta você ia carregando. E a pessoa deixa para secar assim quando derrama, amassa e faz uma pequena caixa. Aí os Wapichana chamam isso de caixinha pequena e depois você tira balata, coloca pra secar e secava toda essa balata. Agora depois você passava o leite por cima de novo, aí você pode guardar bem, depois que terminar, aí você joga para o sol pra esquentar um pouquinho para dobrar direitinho, enrola assim pap, pap desse tamanho assim; depois carrega e vai embora de novo até o local onde se vende a bala- ta, carregou até lá na vila, oferece, como dizem os Wapichana, oferecendo lá, aí eles compravam e pagavam tudo, aí era o fim, não trabalham mais com isso, isso terminou. É só isso14.
Alfredo não lembrava determinadas palavras que usava quando trabalhou com os “brancos”. Ele viveu um período no
14 Entrevista com Alfredo no dia 26 de outubro de 2015.
qual a borracha tinha muita importância econômica. Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon coordenou os trabalhos no estado de Mato Grosso em 1907 e posteriormente conti- nuou a instalação das linhas telegráficas para os estados do Amazonas e Acre:
O desconhecimento geográfico das fronteiras, a importância econômica da borracha, a necessidade de controlar a região após a anexação do Acre e de impulsionar o povoamento desses ser- tões levaram o presidente Afonso Pena a convidar Rondon para chefiar a nova Comissão de Linhas Telegráficas e Estratégicas de Mato Grosso ao Amazonas (Oliveira; Freire, 2006, p. 108).
Percebe-se que tal iniciativa tinha interesses geopolíticos e econômicos, na medida em que essas regiões despontavam-se como as principais produtoras de borracha naquele momento.
Há referências de que um fazendeiro de sobrenome Melville, na Guiana, trabalhava com os indígenas a extração de balata.
Na Terra Indígena Malacacheta há ainda, na atualidade, um seringal, mas deixaram de extrair balata.
Alfredo nos contou que trabalhou com a balata no Brasil e na Guiana. Silvestre, o filho mais velho de Alfredo, participou da última entrevista que tivemos, afirmando que já trabalhou com balata também e foi aprofundando alguns detalhes:
A balata é feita assim: é tirada do pé da balateira. O pé da ba- lata tem leite. Colocamos esporas, sapato, bota, para subir no pé da balata. É liso e amolado. Ao subir no pé da balata você corta: tá, tá, você sobe com seu saco e pega a balata. Sobe até a ponta da árvore, pode escorregar e cair. Às vezes abre o saco.
É muito perigoso trabalhar com balata. Você anda descalço no chão, carrega, faz uma canoa ou uma caixa e derrama dentro.
Às vezes você acha até 60 litros de leite de balata. Aí você faz qualquer coisa, bacia e você derrama dentro. Aí você coloca no sol para secar, abre bem, passa dois, três ou quatro dias para ficar fino aí você tira do sol. Você tira, descasca com duas pessoas, enrola ou estende na forquilha, amarra e guarda tudo. A casca você descasca. Dá umas dez cascas. Aí, seco, você enrola igual couro de gado. Ao terminar de fazer seu trabalho você retira cipó ou envira para pendurar. Tinham pessoas esperando para comprar a balata. Vendia tudo. Depois que vendíamos o pes- soal dava rancho para nós. Como lima, terçado, café e outras coisas. Aí, depois de trabalhar você descansa e vai novamente.15
15 Iziary tumkau, na’apauram yiaradan, na’apauram idikau, tyryy man wasu’utan idi- kin! Na’apauram aimeakan! Uu ian na’apauran iziary idikin. Uu waaipen ydawyn! Iziary kadynaa kaibe’u myydan espora, wamyyda, wamyyda dazikidii, bota, pirazkary dimen, kaimen pyzaydian, na’ik saykan da, da. Zaidian, pysakun tym, sautan iziary yy. Atii zaidian atamyn dakusab it, tyryy pidizektan na’ik wautan. Pichi’iken madazkidiidayn imi’iba- ra’a, panadun dakaatin pysakun, kichanaikia’u kaydinkery iziary da’y. Puduwaytan, puduwaytan, tyryy putuman kanau putuman caixa, box (kinnhai) tyryy puxuutan nazuu it. Yryy ikudan, aunaa un aichian na’apam wapichan dia’an dakutkau, diaytam pidian tiniin 40 latas, wapichan dakutan idikinhayda’y latas wyry’y 60 litros iziary aibe iku- daka’u, yryy pytuman xa’apauram aimeakan, pyabata pidiannau paradan kian, tumam kulala, ipei basian, yryy pyxuutan nii basii nazu it, yryy puzuichannyz, aunaa un aicha- pan na’apaydym tinii u litros taan. Yryy pymyydan naa kamuu di’it u darakadan kamuu di’it, kaimen pyda’atan, na’an atii diaytam kamuu, idikinhayda’y kamuu u paminhay- tamkii kamuu naa ii. Marinha’akiz madidikan yryy pysu’utan kamuu di’ik, pyxaxutan, diaytan pidian tym, u purubian u pydarakadan atamyn dakuri timpe’u (forquilha) dia’a.
Yryy pysykyrytan, pysaaban naa. Da’ian ymud, xutan yry 10 ymyda, yry wapichan kian baukukau, imad yry iaradan, yry zurudian, zurudian, ikuu tapi’iz mad kuan, zuridkau.
Yry daian pyduwaitan pysuwaichian. Yry naa inturimpenan na’ii,yry ipei in tan pidian kaydinkinhau tin nii. Intan supara, kirikiri, kana suu, karikeunan, raxin suu, cafii (wi- chisudi’u), ipei inchan pidian waykinii, yry id intan pidian kaydinkiz wyry da’y. Yry intan pidian kaydinkiz wyry day! Yryy intan ipei pidian waykini nii. Yryy ipeinian pysukpan naa atii bauran dun. (Entrevista realizada com Alfredo, na comunidade Malacacheta, com seu filho Silvestre, no dia 01 de outubro de 2017. Transcrita e traduzida da língua Wapichana para a portuguesa por Joceline Araújo Veras (bolsista do Programa de Valorização das Línguas e Culturas Macuxi e Wapichana em 2017).
Na narrativa anterior fica evidente os riscos que envolvem esse tipo de trabalho e como havia relação de exploração, uma vez que quem realizava todo o serviço conseguia depois apenas o rancho (alguns alimentos). E, mudando de atividade, passou a trabalhar com algo também perigoso, tendo sido mais uma vez explorado. Alfredo passou a contar com detalhes como foi sua ida e seu trabalho no garimpo:
Quem me levou foi o Casimiro, faz tempo, antes de ir morar na Tabalascada, eu não tinha andado no garimpo ainda, e o Casimiro chegou do garimpo e me encontrou. Ele disse: ‘hei, meu irmão. Hei, irmão, agora vamos, pra trabalhar, vamos tra- balhar no garimpo’. ‘Tudo bem!’ Aí a gente foi e encontramos para nosso patrão o Rangel, que era o nome do branco. A gente foi com ele. Até que Casimiro me deixou lá no Tepequém. Ele que me levou e me deixou trabalhando no Tepequém. Aí eu aprendi a trabalhar de garimpeiro. Me deixou, mas eu estava indo bem, disse ‘vou ficar’. Eu morei dez anos no garimpo do Tepequém. Depois de sair, eu adoeci com uma doença na perna que se chama beribéri, não sei como se chama em Wapichana, só em português. Então a minha perna inchou igual a mamão maduro. ‘Pode ir, pode ir, de repente você morre aqui’. Aí eu sai do Tepequém. Aí eu vim pra cá, até fiquei bom e não voltei mais, vim pra ficar16.
16 Kanam na’akan ungary Cassimiro man, makun kuty’anaa kiwin, aunaa zii kaawan da’atii Tabalascada at. Chi’ikipan garimpo ia. Aizii Cassimiro kaawan garimpo ik, yryy ikudan ungary. – Ei cham! – ei un inhawyz unkian wapichan, ba’uran wapichan – Ei un inhawyz. – Ei cham! - Axa! Aizii wamaku cham, wamaku kaydinkizei it, garimpo it. – Kaimen! Tão wamaku’unaa, waikud wanaubanaa nii Rangel kia’u y yy karaiwe, yryy tym wamakun. Atii Cassimiro wa’ak ungary na’ii Tepequém ii. Yryy maku’u, na’aka’u ungary, ywa’ak ungary na’ii, kaydinhan zii tepequém ii. Yryy untuminpeakan naa kaimen ga- rimpo da’y. Yryy ywa’akan! Aizii ungary makun naa wyry’y. – kaimen, ungary na’an nii zii, wapichan kian, baukupka’y wyn unmaxaapan garimpo ii. Baukupka’y wyn! Karaiwe
Casimiro Manoel Cadete também nos contou sobre sua experiência no garimpo do Tepequém. Ele disse que depois de um tempo deixou de ir para o garimpo, pois percebeu que sua família tinha razão em pedir que não voltasse para lá, consi- derando que o risco daquele trabalho não valia o que ganhava.
Ele achou que não aproveitava o ouro que conseguia: “eu brin- cava com o dinheiro”.
Fui para o garimpo com Bento Brasil Filho, era o dono do ga- rimpo Tepequém em 1940. Trabalhei lá seis verões, passava o inverno em casa e voltava no verão. Depois fui para o Maú [nome de um rio], trabalhei lá um ano. Depois, quando eu voltei de lá meus pais não deixaram mais eu voltar porque souberam minha notícia que tinham me matado no garimpo17
Felizmente a notícia mencionada anteriormente estava er- rada e Casimiro estava vivo. O aspecto econômico na relação com os garimpeiros apareceu fortemente na narrativa tanto de Casimiro, quanto de Alfredo. Alfredo ficou mais tempo do que Casimiro no garimpo, e continuou sua narrativa com mais detalhes sobre como era a vida no garimpo:
Eu trabalhei com bateia, peneiras, todo tipo de material, com picareta, picava assim e com a enxada puxava esse material, depois carregava para beira do rio pra lavar. Aí, lavou tudo,
dia’an dez anos, karaiwe dia’an. Dez anos unmaxaapan garimpo ii, Tepequém ii, bauku- pka’y wyn wapichan kian. Dayna’an unkudichan, karinhan, un ikudan taba’y rinha’a nii na’ii Beribéri kia’u dakutka’u! Na’ap man, aunaa un aichapan wapichan dakutan yryy, un abatan karaiwenau dakutan Bariberi. Ka’yan taba’y xiian, unkidibe ma’apai uzukan kawan, taba’y puudan. Pumaku, ba’uran, pumaku’unaa panadun pumaukan da’a’a. Yryy unkudichan na’ ik Tepequém ik. Yryy unwa’atin naa, yryy unkakydan da’a’a, aunaanaa unkiwen pawa’a it, unna’annaa. (Entrevista com Alfredo no dia 26 de outubro de 2015).
17 Entrevista com Casimiro Cadete no dia 10 de setembro de 2014.
colocava dentro da caixa de novo. Agora tem sugador que está pegando diamante. Eu trabalhava com peneira dentro da água, tirando pedras e jogando os diamantes para a caixa, aí lá tem caixão que lava com outra peneira, os diamantes que iam fi- cando no meio, eles pegavam. Aí eu trabalhava dentro da água, a água estava bem por aqui em mim, eu estava todo cinza de barro. Depois, quando era meio dia íamos almoçar, eu banhava um pouquinho. Nem demorava já estávamos indo pra terminar o nosso trabalho. Chamavam: ‘vamos!’ A gente ia e trabalhava de novo e terminava esse trabalho até carregar para dentro da caixa, eu pegava tudo. Agora já quando acabava o material íamos descansar. É só isso!18
Enquanto contava, Alfredo gesticulava, reproduzindo os movimentos e mostrando a altura que a água atingia em seu corpo, para cima da cintura, perto do peito. E Alfredo tam- bém falou sobre a relação dos garimpeiros com o artesanato Wapichana: “tinha muitos garimpeiros também lá que eles queriam muito jamaxim, os Wapichana também compram as cordas do jamaxim, feitas de fibras de buriti, fizeram tudo, aí
18 Kaydinhan kanum da’y, pá, palin, ipei karikeunan kanum kaydinkizei, kanam picare- ta dia’an, sampa, pidian kian wapichan kian: sampa, wyry’y material, kikizei. Dayna’an duwaytan, chikeanan ywa’uz danum ii na’akan. Ipei unchiken caixa nazua’an chikeakan kuxan kainha’a chegador da’a’a yryy zamapa’u diamante peneira dia’anyryy zamatan.
Ungary kainha’a unkaydinhan na’ap wyn tym kiapan kanam , kyba su’utan, kabuutan kyba, diamante maku’unaa di’itii caixa, di’it, kainha’a caixão di’it. Kainha’u chikea- pa’u manary dia’an zamatan saiwenan wyry’y arady kidian diamante izikuny’y, yryy yzamatan na’ii. Yryy kaydinhan na’ap, atii unkaydinhan wyn bauku’u, wyn da’a’anaa undamutinpen. Ipei unkadadan imi’i id, daari id, ah! Dayna’an sakichap kamuu, aizii waarupanka’anaa, wamaku’u naa waarupa’anaa, kaupa’akan maskayda’y. maskayda’y dayna’an waipeianka’anaa wakaydinkiz, então wamaku’unaa kaydinha’anaa kuxan, at. Ipei waxa’apatan caixa zua’u, wazarikuakan naa, at. Aizii ipei material, aizii at, marina’anaa, suka’akan naa, yryy kadyz. (Entrevista com Alfredo no dia 26 de outubro de 2015).
eles vão comprar”19. Na segunda entrevista com Alfredo, per- guntamos se ele trocava ou vendia seu artesanato, para quem entregava e ele respondeu que quando esteve no garimpo ven- dia e que, até hoje, nas comunidades há quem compre cestos, peneiras, tipiti, abanos e jamaxim. Vivenciamos esse comér- cio e percebemos que principalmente o tipiti ainda é bastante procurado e usado pelos Wapichana.
Quando perguntamos com o que mais ele já trabalhou, Alfredo esclareceu que não tinha experiência em fazenda:
Agora o boi bravo me atacou, então o boi é bravo, eu não trabalho com gado. Então é só isso, não sei como trabalhar, eu trabalho só de roça. Eu não trabalhei com os brancos em fazenda não, nunca trabalhei, eu não sei trabalhar com gado, não sei andar de cavalo, não sei peiar a perna de gado com a corda, não sei jogar corda na cabeça do gado. Então não tenho interesse de trabalhar com gado. Não quero saber disso. Só isso!20
Em suas falas, Cassimiro e Alfredo ressaltaram como hoje o comércio sobressai nas comunidades. “Na minha comuni- dade a gente compra tudo, caxiri a gente compra, a gente faz caxiri, mas mesmo assim a gente compra”.21
19 Wyry’y irib garimpeironau kapam naa ii inhau pan aiap dupawai, wapichannau kapam inturiak kaikapa’u didimei, diywyz idib idi’u itumkau dupawai zynaa nii ipei itumkau yryy inturian nii wyry’y, yryy turiaka’u wyry’y inda’y naa ii, da’a’a aunaa wana’apan. Aunaa mixi (Entrevista com Alfredo em 18 de julho de 2014).
20 Tu’uru tapi’iz, zuian ungary. Tapi’iz tu’ura’u wyry’y ka’yan aunaa unkaydinhan tapi’iz da’y. Yryy kadyz. Aunaanaa un aichapan na’apam kaydinhan. Yryy id suu zakap da’y karikeunan kaydinhan. Ka’yan aunaa unmakun karaiwe di’it man, Fazenda di’it man, aunaa. Aunaa unkaydinhan tapi’z da’y, aunaa un aichapan zaidian kawaru, aunaa un aichapan unbu’utipen, aunaa un aichapan papidian tapi’iz taba’y bu’utii dia’an. Aunaa un aichapan bu’utichan tapi’iz zuay, ka’yan aunaa undiaytan kaydinhan tapi’iz da’y.
Ungaryz. (Entrevista com Alfredo no dia 26 de outubro de 2015).
21 Mazan unwiiz ii ipei waturiakan, parakari waturiaka watum nii parakari padamat, mazan ipy’y waturian. (Entrevista com Alfredo em 18 de julho de 2014).