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A TRADUÇÃO NO CENÁRIO DO ENSINO DE LÍNGUAS ESTRANGEIRAS

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A TRADUÇÃO NO CENÁRIO DO ENSINO DE LÍNGUAS ESTRANGEIRAS

GOMES, Almir Anacleto de A. Graduado em Letras - UFCG

RESUMO: O uso da tradução e/ou língua materna no ensino de língua estrangeira é um

tópico que merece uma reflexão mais aprofundada do mesmo na área de ensino aprendizagem de língua estrangeiras, pois se trata de uma área que apesar de polêmica não tem uma posição consolidada. Este artigo tem o propósito de provocar questionamento e reflexões a respeito desse uso da tradução no ensino de língua estrangeira, através de um panorama dos métodos e abordagens de ensino de língua estrangeira e sua relação com a tradução e língua materna (RICHARDS & RODGERS, 2001), uma breve exposição da abordagem funcionalista da tradução (NORD, 2000; BRANCO, 2011, CACHO & BRANCO, 2011; SANTOS & FERNANDES, 2011). Expõe-se então, a relação da tradução e o ensino de língua estrangeira com base em (FERREIRA, 1999; LUCINDO, 2006; SANTOS, 1997; GOMES, 2008). Para fins de conclusão, aponta-se o quadro atual da questão do ensino de línguas estrangeiras e o uso da tradução ou língua materna.

Palavras-Chave: Tradução, Ensino de Línguas, Abordagem Funcional. 1. Introdução

O ensino de línguas estrangeiras vem passando por uma série de momentos distintos desde o seu início até os dias atuais e vislumbra ainda mudanças, pois a cada momento é difundido novas pesquisas que mostram novas metodologias e abordagens de ensino, quase sempre considerada a melhor ou a mais apropriada para aquele contexto ou ocasião por seus arguidores. As diversas fases dos métodos de ensino de línguas deram ênfase a aspectos ou habilidades distintas segundo os seus objetivos. Um dos aspectos que vem sendo alvo de críticas, por apaixonados e de seus abominadores durante todo este tempo da história do ensino de línguas estrangeiras é a tradução ou do uso da língua materna.

Este trabalho propõe-se a conduzir uma reflexão a respeito da tradução e do uso de língua materna no ensino de línguas estrangeiras com foco na língua inglesa levando em consideração o histórico do ensino de línguas e suas abordagens bem como da tradução e sua relação com o ensino de línguas estrangeiras. Portanto, pretende-se com este trabalho expor um breve histórico dessa relação da tradução com os métodos de ensino de línguas com base em Ferreira (2008) e discutir como a Abordagem Funcionalista da Tradução pode desempenhar um papel positivo no ensino de línguas. Levanta-se também, baseado em Lucindo (2006), o papel da tradução interiorizada, exteriorizada e explicativa no ensino de línguas.

Neste artigo, são utilizados os termos tradução e uso de língua materna no contexto de ensino de línguas estrangeiras como se referindo a mesma ideia, isto é, o uso de atividades de tradução ou uso de língua materna para explicações, tradução de termos, atividades no processo de ensino e aprendizagem de línguas estrangeiras, entre outros tipos de uso da língua materna do aprendiz no ensino de língua estrangeira. Apesar de o artigo mencionar o ensino de línguas estrangeiras, tem como foco o ensino de língua inglesa como língua estrangeira no contexto Brasil, entendendo-se, no entanto, que tais considerações são válidas para outras línguas e em contextos variados.

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2 A discussão a respeito do papel da tradução e/ou do uso da língua materna no ensino de língua estrangeira é algo em evidência no momento e urgente a ser discutido, pois o uso da tradução no ensino de línguas estrangeiras perpassa a história desse campo, como mencionado anteriormente, há bastante tempo, no entanto as discussões a respeito da mesma é algo recente, o que não permite até o momento que se tenha posições estáveis a respeito do mesmo, uma vez que alguns professores, por falta de conhecimento teórico e prático a respeito de tal questão, podem considerar a tradução importante para o ensino de línguas, mas não sabem o modo mais adequado para o uso da mesma em suas salas de aulas (LUCINDO, 2006). Por outro lado, outros professores abominam o uso da tradução em suas aulas sem saberem sequer o porquê de tal atitude, levando ao uso de língua materna no ensino de línguas estrangeiras serem um caso de amor e ódio. Ora a tradução é vista como o caminho para a aprendizagem de uma língua estrangeira, ora é vista como a grande vilã do ensino.

Diante de tal fato, assume-se neste trabalho que seja praticamente impossível distanciar o uso da língua materna da aprendizagem de uma língua estrangeira, uma vez que o aprendiz não tem como esquecer a sua língua materna enquanto aprende outra língua. Com isso, este artigo tem como objetivo discutir a relação da tradução com o ensino de línguas estrangeiras, tendo como foco os diferentes métodos e abordagens de ensino de línguas e como se dá a relação de tais métodos ou abordagens com a tradução. Para contribuir ou fundamentar esta discussão, será levado em consideração argumentos e dados levantados por Ferreira (2008), que apresenta um panorama do status da tradução durante o século XXI; Nord (2008), ao trazer a visão da tradução funcionalista mostrando não apenas a tradução profissional, mas dando suporte ao uso de tradução no ensino de línguas estrangeiras. Ainda como suporte para uma melhor discussão a respeito dos métodos de ensino de línguas, Richards & Rodgers (2001) traz uma contribuição muito boa a respeito dos métodos de ensino de línguas mais disseminados. Além destes, Lucindo (2006) traz uma visão de como a tradução pode ser usada de maneira positiva no ensino de línguas estrangeiras.

A seguir, será traçado um breve histórico dos métodos de ensino de línguas que vêm atuando no cenário do ensino/aprendizagem de línguas estrangeiras, para então, ser abordado logo após o tema da tradução tendo em vista o ensino de línguas e a sua visão funcionalista.

2. Um breve histórico da tradução no ensino de línguas estrangeiras

Durante os séculos XVII a XIX o ensino de Latim nas escolas da Europa baseava-se no ensino de regras gramaticais, estudo das declinações e conjugações, tradução e cópia de frases como exemplo da gramática estudada, diversas vezes como um paralelo bilíngue entre textos (RICHARDS & RODGERS, 2001). Esse método de ensino tornou-se então, o método de ensino das línguas estrangeiras. O foco era na língua escrita e as instruções e explicações eram feitas em língua materna como mostra Lucindo (2006). Como o objetivo principal na época era capacitar os aprendizes a ler textos literários ou religiosos, Leffa (1988 apud LUCINDO, 2006) menciona três passos básicos de aprendizagem no método que se estabelecia a partir de então, seria: memorização de vocabulário, estudo de regras gramaticais e exercícios de tradução. De acordo com Malmkjer (1998 apud FERREIRA, 2008) e Richards & Rodgers (2001), o aprendiz estudava a gramática da língua e lia textos com ajuda de dicionário e, por fim, escrevia uma tradução do texto.

No método Gramática-Tradução (GT), a língua materna é o sistema de referência na aquisição da segunda língua (STERN 1983, apud RICHARDS &

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3 RODGERS, 2001). Outra característica marcante deste método é a tradução de sentenças, uma vez textos seriam muito complexos para os aprendizes. Como podemos perceber, a língua materna tem um papel fundamental no ensino: é o meio de instrução usado para explicar vocabulário e pontos gramaticais novos, bem como serve de comparação com a língua alvo.

A tradução de textos, no entanto, era considerada “vazia” no sentido de que os textos, que os aprendizes traduziam eram muitas vezes incompletos e não tinham informação da fonte de tais textos, que tipo de textos era e por que estavam traduzindo. A única informação é que seria necessário traduzi-lo para o professor avaliar a competência dos mesmos na língua alvo ou sua capacidade de tradução (FERREIRA, 2008).

No final do século XIX, com o Movimento de Reforma, a tradução passou a ser evitada, mesmo sendo permitido o uso da língua materna para explicar itens novos ou checar a compreensão (RICHARDS & RODGERS, 2001). Neste período o latim perdeu espaço para as línguas modernas, o método Gramática-Tradução também começou a perder seu espaço para os métodos naturais e o método Direto. Com tais métodos, o foco deixou de ser a língua escrita como anteriormente e passou a ser a língua oral (LUCINDO, 2006). Malmkjaer (1998, apud CACHO & BRANCO, 2011) afirma que tais objeções ao uso da tradução baseavam-se em três princípios:

1) a primazia da fala; 2) a importância de textos completos para que os aprendizes pudessem estabelecer associações apropriadas na língua estrangeira (indo de encontro ao uso de sentenças descontextualizadas para o aprendizado da LE utilizado no Método Gramática-Tradução); e 3) a prioridade da metodologia oral em sala de aula.

Os grandes precursores dos métodos naturais baniam a tradução de todas as maneiras, ou seja, nas instruções, exercícios ou testes, pois acreditam que os professores deveriam treinar os aprendizes a dissociarem as duas línguas (materna e alvo) para que não houvesse interferência na aprendizagem da língua estrangeira (FERREIRA, 2008). A partir de então a língua materna e a tradução são vistas como vilãs no processo de aprendizagem de uma língua estrangeira.

Já no século XX, na década de 1980, surge a abordagem oral e o método situacional que tem como característica principal conduzir o aluno para a vida real através de situações de uso da língua. Também, neste método a língua usada em sala de aula é a língua alvo. Quanto aos significados de palavras novas, não é permitido a explicação ou a tradução para a língua materna (tradução interlingual), nem mesmo a explicação na língua alvo (tradução intralingual), mas o aprendiz deve induzir o significado a partir da situação (RICHARDS & RODGERS, 2001).

Surge a partir de então o método áudio-lingual, cuja base é a formação de hábitos. Para seus defensores, o individuo aprende a língua através da repetição, para isto, a língua alvo domina o ambiente de aprendizagem de modo que o uso da língua materna é proibido no contexto de aulas. De acordo com Brooks (1964 apud RICHARDS & RODGERS, 2001), os aprendizes praticam a tradução apenas como exercícios literários em nível avançado.

A abordagem comunicativa surge então com uma nova visão na qual o significado e não a estrutura gramatical seria primordial. A contextualização é a premissa básica do ensino, uma vez que aprender língua significa aprender a comunicar-se (RICHARDS & RODGERS, 2001). A língua materna pode comunicar-ser usada de maneira

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4 sensata durante as aulas, mas apenas em realmente situações necessárias. A partir de então, a língua materna começa a ter, embora que muito pouco, outro papel no ensino de línguas estrangeiras. Vista pelos outros métodos como a vilã, começa a ser considerada não tão mal assim, apesar de que de maneira muito tímida.

A abordagem comunicativa ainda é amplamente usada hoje em dia, muitas vezes sem uma reflexão a respeito da mesma. Como mencionado anteriormente, muito professores utilizam a língua materna em sala de aula ou não utilizam, mas não sabem explicar o porquê de tal atitude, muitas vezes até mesmo, com explicações do tipo: uso para economizar tempo ou algo parecido. Na verdade a língua materna pode ser usada de maneiras diversas e com benefícios variados dependendo do contexto ou da situação de aprendizagem.

Segundo Carreres (2006 apud SANTOS & FERNANDES 2011) a tradução deixa de ser aplicada em sala de aula devido a uma interpretação errônea dos métodos audio-lingual e da abordagem comunicativa:

Proponents of the audio-lingual and communicative methods firmly believed that the use of the mother tongue was counter-productive in the process of acquiring a new language, and that therefore the use of translation in the classroom could do more damage than good, holding back learners from taking the leap into expressing themselves freely in the second languages.1

3. A tímida reaparição da tradução no ensino de línguas

A tradução é de fundamental importância para o funcionamento das sociedades atuais, tanto em relação à comunicação como em relação aos diálogos entre os povos (SANTOS & FERNANDES, 2011), corroborando essa ideia Campos (2004, apud SANTOS & FERNANDES 2011) afirma que:

“Vivemos num mundo em tradução. Os progressos tecnológicos no campo da comunicação viabilizaram a troca de informações entre os pontos mais remotos da terra com rapidez jamais vista. Sem o recurso da tradução, isso não seria possível, e dificilmente os seres humanos chegariam a compreender-se. O mundo precisa agora, mais do que nunca, do diálogo entre os povos. A tradução é um dos caminhos para esse desejável entendimento (...).”

Assim, ao inserir a tradução no ensino de língua estrangeira permite-se ao aprendiz ter acesso a uma ferramenta que lhe garantirá trocas de informação entre culturas e povos.

Segundo Lucindo (2006), a Abordagem Comunicativa, por entender a aprendizagem como centrada no aprendiz, talvez tenha dado um pouco de crédito ao uso da tradução e da língua materna, mesmo que com um papel secundário. Mesmo professores que defendem o uso da Abordagem Comunicativa como sendo a ideal, muitos deles, acabam defendendo a ideia de que língua materna e tradução devem ser

1

Princípios dos métodos audio-lingual e comunicativo acreditam veemente que o uso da língua materna se revela como improdutivo no processo de aquisição de uma nova língua, e que, portanto o uso da tradução em sala poderia prejudicar mais do que fazer o bem, impedindo os aprendizes de se expressarem livremente na segunda língua”. (Tradução do autor)

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5 proibidas nas aulas de língua estrangeira, justamente pela falta de reflexão a respeito dos métodos e abordagens de ensino (LUCINDO, 2006).

A língua materna de a língua estrangeira podem ser considerados como que dois lados da mesma moeda no ensino de língua estrangeira, isto é, não há como anular o uso da língua materna de tal contexto de aprendizagem, pois no caso do Brasil, por exemplo, em que este artigo tem como foco, é praticamente impossível que o aprendiz ou mesmo o professor “pense” em língua portuguesa, uma vez que esquecer a língua em que o aprendiz construiu o seu ser é complicado de ocorrer, pois como aponta Branco (2011 p.16),

“a educação inicial do aluno, seu conhecimento de mundo, sua cultura, suas crenças, etc. são construídas em LM” [Lingua Materna], portanto, pedir que o aluno pare de pensar em sua LM significa apagar [grifos do autor] o sujeito em sua essência (...) e na maioria dos casos, o professor também é falante não-nativo de LE [Língua estrangeira] e brasileiro.”

Confirmando tais argumentos, Albir (1998 apud LUCINDO, 2006) afirma que em níveis elementares o aprendiz de língua estrangeira recorre à tradução de quase tudo para a sua língua materna e não há como impedir tal uso, pois o aprendiz constrói a língua estrangeira a partir da língua materna.

Por outro lado, Malmkjaer (1986, apud FERREIRA, 2008) traz uma lista de argumentos levantados pelos oponentes do uso da tradução no ensino de línguas:

Translation:

• is independent of the four skills which define language competence: reading, writing, speaking and listening.

• is radically different from the four skills.

• takes up valuable time which could be used to teach these four skills.

• is unnatural.

• misleads students into thinking that expressions in two languages correspond one-to-one.

• prevents students from thinking in the foreign language. • produces interference.

• is a bad test of language skills.

• is only appropriate for training translators.2

2

A tradução

• é independente das quatro habilidades que definem a competência linguística: leitura, escrita, fala e escuta;

• radicalmente diferente das quatro habilidades;

• toma um tempo em sala de aula que poderia ser usado para o desenvolvimento das quatro habilidades;

• não é natural;

• faz com que os alunos acreditem que expressões nas duas línguas podem corresponder uma com a outra;

• evita que os alunos pensem na língua estrangeira; • produz interferência;

• não é um bom teste de habilidades; e

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6 Na verdade, tais argumentos vêm sobrevivendo há muito tempo no contexto do ensino de línguas o que pode suscitar verdades nos mesmos. No entanto, é de fácil percepção que tais argumentos dependem basicamente do tipo de tradução e uso da mesma na aula de línguas para se ter tal visão da mesma.

Com o desenvolvimento das atividades econômicas, cientificas e tecnológicas surgiu à abordagem funcionalista da tradução que se origina da teoria do “Skopos” (Skopos Theory) a qual advogava a respeito do propósito da tradução como o princípio que determinava qualquer ação tradutória (NORD, 1997 apud FERREIRA, 2008). Segundo Cacho & Branco (2011) a abordagem funcionalista entende a tradução tendo um propósito, levando em consideração três aspectos principais: a função do texto traduzido no contexto de chegada; o contexto e a cultura de chegada; e o público que receberá esse texto, pontos estes, que são ou podem ser comuns ao considerar o ensino de língua estrangeira, uma vez que o aprendiz ao usar a língua alvo, partindo de sua língua materna para comunicar-se adequadamente em um contexto de língua alvo, contempla os pontos mencionados acima da abordagem funcionalista, mostrando assim, convergência entre tal abordagem e ensino de língua estrangeira.

Ter como foco o contexto/situação comunicativo onde as línguas são usadas, permitindo que as escolhas linguísticas sejam baseadas em determinada situação comunicativa faz da abordagem funcionalista muito útil para o ensino-aprendizado de língua estrangeira, ao contrário do que argumentam alguns autores que são contrários ao uso da tradução no ensino de língua estrangeira. Além disso, ter conhecimento em tradução pode auxiliar o aprendiz de língua estrangeira a prever possíveis problemas linguísticos na língua alvo que possam ter origem na sua língua materna, (CACHO & BRANCO, 2011) contribuindo assim, para um aprendizado mais eficaz e para uma maior autonomia do aprendiz de língua estrangeira.

Com essa visão funcionalista da tradução, percebemos o quanto a mesma pode e deve estar inserida na aprendizagem de língua estrangeiras, uma vez que o tradutor funcionalista deve:

• estar consciente do fato que, atualmente, na prática da tradução, traduções são necessárias para atender a uma grande variedade de funções comunicativas; • saber que fatores situacionais e culturais guiam a escolha de signos linguísticos e não linguísticos; • ter competência intercultural, identificando comportamentos adequados às culturas.

• saber que estruturas aparentemente similares no par linguístico trabalhado nem sempre são usadas com a mesma frequência ou na mesma situação, devido a convenções culturais;

• ter a habilidade de produzir um texto alvo funcional, mesmo que o texto fonte tenha problemas; entre outros. (NORD, 2001)

Tais características são importantes serem desenvolvidas não só para formar um tradutor profissional, mas também, aprendizes de língua estrangeira precisam dominá-las. A competência metacognitiva, ou seja, a capacidade de reconhecimento das funções e diferenças entre a língua e cultura mãe e a língua e cultura alvo, bem como a competência intercultural é fundamental não só no aprendizado da língua, mas como na tradução, o que dar indícios da estreita relação entre tradução e ensino de línguas estrangeiras (NORD, 2001).

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7 Percebe-se dessa forma que o uso da língua materna e no contexto de ensino-aprendizagem de língua estrangeira não tem interferência negativa se for levada em consideração aspectos como adequação linguística, adequação textual e adequação ao usuário, que são imprescindíveis tanto para o ensino de língua materna, de língua estrangeira ou de tradução e usa-se para tal, a tradução em todas elas, mesmo que de forma indireta (BRANCO, 2011).

Outro ponto estreita relação entre tradução e ensino-aprendizagem de língua estrangeira é apontado por Malmkjaer (1998 apud CACHO & BRANCO 2011) que são cinco atividades que podem ser consideradas semelhantes nos dois contextos citados acima, são eles: antecipação, exploração de fontes, cooperação, revisão e tradução. Atividades essas que envolvem as quatro habilidades da língua e uso da língua materna, pois caso não haja cuidado no uso da tradução ou do uso da língua materna em sala de aula de língua estrangeira, pode-se ter outro problema, caso o aprendiz acredite que há equivalência no nível da palavra ou no nível estrutural da palavra como aponta Branco (2011).

Por outro lado, Nord (2001), argumenta que o aluno deve ter competência linguística e cultural sólida para poder fazer tradução, ou seja, a língua e a cultura estrangeira não devem ser objetos de aprendizagem, mas ferramentas no processo tradutório, pois ao contrário, as aulas tornar-se-iam aulas de línguas aquisição de línguas estrangeiras. No entanto, o objetivo deste trabalho é discutir o uso da tradução no ensino de línguas estrangeiras e, portanto, entende-se que a tradução pode ser usada como ferramenta para o ensino e aprendizagem de línguas estrangeiras, principalmente através do uso da análise contrastiva que permite o aprendiz a perceber nuances das duas línguas os quais não teria percebido sem uma comparação de códigos, além de permitir um controle maior da interferência da língua materna na aprendizagem da língua estrangeira.

Segundo Albir (1998 apud LUCINDO, 2006), a tradução no ensino/aprendizagem de línguas pode ser interiorizada, pedagógica ou explicativa. Segundo o mesmo, a tradução interiorizada é usada por todos os aprendizes de língua, com mais frequência nos estágios iniciais e não há controle do professor. Por outro lado, a tradução pedagógica é usada como exercícios didáticos com a principal função de favorecer a aquisição da língua alvo.

A tradução interiorizada ocorre principalmente porque o aprendiz tem como sistema linguístico de referência a sua língua materna. Albir (1988 apud SANTOS & FERNANDES, 2011 p.103) afirmam que:

(...) La lengua materna está presente porque es el punto de referencia del alumno con el mundo del lenguaje; por esto, sobretodo al principio del aprendizaje, descubre y construye la lengua extranjera a partir de la experiencia de su lengua materna.3

Ainda corroborando esta ideia, Gomes (2008) afirma:

“Segundo a literatura de Pinker (2004), Vygotski (2005), C. Santos (2007), é acionado na mente do aprendiz o conhecimento de mundo e lingüístico que o mesmo já adquiriu de alguma

3

“(...) A Língua materna está presente porque se trata do ponto de referência do aluno com o mundo da linguagem; por assim dizer, no que se refere ao princípio da linguagem, aprendiz descobre e constrói a língua estrangeira a partir das experiências vividas através da língua materna.” (Tradução do autor)

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8 forma na sua vida. Isto ocorre em sua maioria inconscien-temente, na tentativa de facilitar o processo de aprendizagem de L2”.

Fator este muito importante de ser esclarecido, já que muitos professores orientam seus alunos a não pensarem em língua materna, mas usar a língua estrangeira para tal, tarefa esta que para mim, parece bem pouco provável de acontecer, pois não vejo como separar a capacidade cognitiva do aprendiz da sua língua materna ou como fazê-lo esquecer da sua língua materna enquanto o mesmo está aprendendo a língua estrangeira. Lucindo (2006 p.4) corrobora essa ideia ao afirmar que “Ainda que se queira, não é possível suprimir este tipo de tradução, por isso é importante que o professor ajude o aluno a traduzir significados e não palavras”.

Assim também com as atividades de tradução pedagógica deve ter como foco o significado e não a tradução de palavras, pois como afirma Nord (2001), a utilização da análise contrastiva de textos autênticos, os quais mostrem como intenções comunicativas podem ser verbalizadas de maneiras diferentes em culturas diferentes é muito mais útil que usar o modelo da gramática-tradução no ensino.

A tradução explicativa, mencionada por Lucindo (2006) está relacionada ao uso de explicações feitas pelo professor com o sentido de ajudar os aprendizes em determinas situações de aprendizagens. Deve ser então, usada em casos especiais nos quais fica seria difícil uma compreensão por parte dos aprendizes.

4. O que se delineia atualmente?

Nos últimos anos, percebe-se que apesar de ainda haver certa rejeição da tradução ou do uso da língua materna no ensino de língua estrangeira, principalmente por parte dos professores mais jovens, como aponta Santos (2007), tem havido interesse de pesquisadores em desenvolverem seus estudos na área de tradução em relação como a sala de aula de língua estrangeira, o que demonstra que há avanços nas teorias que tratam do uso de língua materna no ensino-aprendizagem de língua estrangeira, contribuindo assim para um melhor desempenho dos profissionais de língua estrangeira como mostram Santos & Fernandes (2011), o que vem corroborar Pegenaulte (1996 apud SANTOS & FERNANDES, 2011 p.131):

“a tradução pode representar em sala de aula um leque de possibilidades didáticas que ensina a traduzir, que ajuda no aperfeiçoamento do idioma estrangeiro e do materno, bem como auxilia na formação intelectual, melhorando a leitura de maneira considerável”.

Com isso, verifica-se uma mudança não só na postura das teorias e metodologias de ensino de línguas, mas também nos profissionais do ensino de línguas estrangeiras, ao perceberem de forma plausível a grande variedade de possiblidade que a tradução pode oferecer ao ensino, adquirem uma nova postura em relação à mesma.

No entanto, há uma preocupação nas mudanças que vem ocorrendo, para que não haja equívocos no uso de língua estrangeira como aponta Santos (2007 p. 5):

“a L1 começa a assumir um papel, de certa forma relevante para estes professores-informantes, uma vez que ela deixa de ser apenas a causadora de erros na L2; salva-vidas do aluno fraco; perda de tempo do professor; auxiliar na compreensão das

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9 diferenças entre ela e a L2; facilitadora do processo de aquisição de estruturas complexas da gramática de L2”.

Apesar dos avanços nas pesquisas a respeito do papel da tradução e/ou uso da língua materna no ensino de língua estrangeira, como Santos (2007), Branco (2011), Cacho & Branco (2011), Ferreira (2007), Lucindo (2006) se faz necessário que haja muitos outros estudos na área para que a mesma possa se consolidar, aniquilando assim, os preconceitos que ainda existem quanto ao uso da tradução e/ou de língua materna no ensino de língua estrangeira, pois como afirma Santos (2007) “não apenas o professor ou o ambiente agem sobre o indivíduo facilitando e/ou dificultando este processo, mas também e, principalmente, a L1” o que permite inferir-se que a quebra do preconceito quanto ao uso da língua materna no ensino de língua estrangeira pode ajudar num ensino mais adequado e coerente para com as necessidades dos aprendizes, sempre tendo em consideração que o professor deve ter bem claro, que tipo de tradução ele está usando em sua sala de aula, como é abordado a língua materna nas aulas de língua estrangeira para que não tenha-se prejuízo devido a uma interferência negativa da mesma na aprendizagem da língua alvo.

5. Considerações finais

Como mencionado acima, este artigo propôs-se a discutir brevemente a questão da tradução e o seu papel no ensino de línguas estrangeiras. A princípio foi exposto este papel que a tradução tem desempenhado durante muito tempo no ensino de línguas em diferentes métodos de ensino, ou seja, esbouçou-se um panorama dos métodos e abordagens de ensino de língua inglesa com foco no status da tradução nos mesmo, tendo base os trabalhos de Richards & Rodgers (2001), Ferreira (2008) e Lucindo (2006). Logo após foi discutido brevemente sobre a abordagem funcionalista da tradução, baseado em Nord (2011) entrelaçada aos métodos de ensino de língua estrangeira.

Acredita-se assim, que este artigo possa ter contribuído para um esclarecimento a respeito da visão do uso da tradução por muitos professores que a usam ou deixa de usar, mas não sabem justificar o porquê de tal atitude.

REFERÊNCIAS

BRANCO, Sinara de Oliveira. Linguística e tradução: Contribuições para o ensino de línguas. In: Anais do VII Seminário Nacional sobre o Ensino de Língua Materna e

Estrangeiras e de Literatura. Campina Grande, UFCG, 2011.

CACHO, M. & BRANCO, S. O papel da tradução na sala de aula de línguas estrangeiras. IN: Anais do VII Seminário Nacional sobre o Ensino de Língua

Materna e Estrangeiras e de Literatura. Campina Grande, UFCG, 2011.

FERREIRA. Following the Paths of Translation in Language Teaching. In: Cadernos

de Tradução. Florianópolis: UFSC, n. 4, p. 355-371, 1999.

GOMES, Almir Anacleto de Araújo. A L1 e a aquisição de sufixo na formação de

substantivos e adjetivos em L2. Monografia, Campina Grande: UEPB, 2007

LUCINDO, E. S. Tradução e Ensino de Línguas Estrangeiras. In: Revista Scientia

(10)

10 NORD, C. Training Functional Translators. In: Cadernos de Tradução. Florianópolis: UFSC, v. 1, n. 5, p. 27-45, 2000.

Richards, J. & Rodgers, T. Approaches and methods in language Teaching. 2ed, Cambridge: Cambridge University Press, 2001.

SANTOS, Cleydstone Chaves dos. As faces da L1 no processo ensino-aprendizagem

de L2. I CONEL Linguagem Como Prática Social: Fronteiras e Perspectivas, UFRN,

Natal, 2007.

SANTOS, Cleydstone Chaves dos & FERNANDES, Lincoln P. Da antiguidade à era informatizada: um breve percurso histórico da tradução no ensino de línguas. IN: Anais

do VII Seminário Nacional sobre o Ensino de Língua Materna e Estrangeiras e de Literatura. Campina Grande, UFCG, 2011.

Referências

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