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AS SOCIEDADES LIMITADAS E O NOVO CÓDIGO CIVIL

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AS SOCIEDADES LIMITADAS E O NOVO CÓDIGO CIVIL

Joaquim Mendes Santana Sócio do Escritório AF Seabra Advocacia Empresarial S/C, de São Paulo. Extraído da Internet: http://conjur.uol.com.br

Entrou em vigor no dia 11.01.2003 o novo Código Civil Brasileiro trazendo inúmeras modificações que interferem na estrutura, constituição, funcionamento e administração das sociedades limitadas.

A primeira grande novidade trazida é a obrigação instituída pelo artigo 979, no sentido de que agora o empresário deverá também arquivar no Registro Público de Empresas Mercantis (Juntas Comerciais) os pactos e declarações antenupciais, o título de doação, herança, ou legado, de bens clausulados de incomunicabilidade ou inalienabilidade. Cabe lembrar que antes a obrigação de registro existia apenas com relação aos Cartórios Civis.

Questão que foi outrora objeto de acesos debates, que já estava superada desde há algum tempo, e que agora volta a ser objeto de preocupação, é a da sociedade entre cônjuges. De acordo com o artigo 977 da nova lei, a sociedade entre marido e mulher não será permitida na hipótese de serem casados no regime de comunhão universal ou no da separação obrigatória.

Outra inovação introduzida refere-se ao quorum necessário para deliberar a respeito de modificações no contrato social. De acordo com a legislação anterior, o sócio que detivesse 51% do

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alteração no contrato. Hoje, no entanto, modificações no contrato social passam a depender do voto de sócios titulares que representem pelo menos 75% do capital social. Isso vale dizer que o sócio que atualmente é titular de mais de 50%, mas menos do que 75% do capital social, perdeu o controle da sociedade e não poderá mais decidir isoladamente sobre as alterações do contrato social e, tampouco, determinar a direção das alterações do contrato social necessárias à sua adaptação ao novo Código Civil.

Ainda no que se refere às deliberações, prescreve a nova Lei que serão elas tomadas em assembléia ou reunião, convocada pelos administradores caso a sociedade possua mais de dez sócios, relativamente aos seguintes assuntos: 1) aprovação das contas da administração; 2) designação dos administradores, quando feita em separado; 3) destituição dos administradores; 4) modo de remuneração dos administradores quando não prevista em contrato; 5) modificação do contrato social; 6) incorporação, fusão e dissolução da sociedade ou a cessação do estado de liquidação; 7) nomeação e destituição dos liquidantes e julgamento de suas contas; 8) pedido de concordata; e 9) outros assuntos previstos em contrato.

Poderá, no entanto, ser dispensada a convocação da assembléia quando todos os sócios comparecerem ou declararem por escrito que estão cientes do local, data, hora e ordem do dia. Outrossim, poderá ser igualmente dispensada a realização da assembléia ou reunião se todos os sócios manifestarem seus votos por escrito relativamente à matéria que seria discutida.

O novo Código Civil estabelece procedimentos específicos para a convocação e instalação das assembléias ou reuniões dos sócios, que se constitui agora no órgão de maior poder da

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sociedade limitada. Estabelece ainda a Lei o quorum que deverá ser obedecido para a aprovação de determinadas matérias.

Assim, por exemplo, para deliberar a respeito de alteração do contrato social, e de incorporação, fusão, dissolução e cessação do estado de liquidação da sociedade, será necessário que a decisão seja tomada por sócios que representem 75% do capital social. Já no que se refere à aprovação das contas dos administradores bastará que a maioria dos presentes decida pela sua regularidade.

Importante esclarecer que a assembléia dos sócios, criada pelo novo Código Civil, somente poderá ser instalada, em primeira convocação, se estiverem presentes no mínimo 75% (3/4) do capital social e, em segunda convocação, com qualquer número.

Embora a lei não esclareça nem faça referências ao fato, fica evidente que a assembléia instalada em segunda convocação, com sócios que representem menos do que 75% do capital social, não poderá deliberar sobre matérias que exijam quorum maior. Dessa forma, por exemplo, uma assembléia convocada para deliberar a respeito de aumento de capital da sociedade poderá ser instalada em segunda convocação com qualquer número de sócios presentes. Todavia, a matéria não poderá ser objeto de votação uma vez que falta à assembléia o quorum mínimo exigido para decidir sobre o aumento.

Merece ser lembrado que a convocação e instalação da assembléia dos sócios da sociedade limitada, assim como os procedimentos relativos aos trabalhos durante a sua realização são bastante semelhantes à assembléia geral das sociedades por ações.

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Destarte, o anúncio de convocação da assembléia será publicado por três vezes, no mínimo, no Diário Oficial da União ou do Estado, conforme o local da sede da empresa e também em jornal de grande circulação. Deverá haver um prazo mínimo de oito dias entre a data da primeira convocação e a realização da assembléia. Já para a segunda convocação esse prazo deverá ser no mínimo cinco dias.

Por sua vez a assembléia deverá ser presidida e secretariada por sócios escolhidos entre os presentes, sendo lavrada, no livro próprio, a ata dos trabalhos e deliberações que deverá ser assinada pelos membros da mesa e por sócios participantes da reunião, no mínimo por quantos bastem para a validade das deliberações, sem prejuízo dos demais presentes que quiserem assiná-la.

De acordo com a Lei a assembléia dos sócios deve realizar-se ao menos uma vez por ano, nos quatro meses seguintes ao término do exercício social com a finalidade de analisar as contas dos administradores e deliberar sobre o balanço patrimonial e o de resultado econômico; para designar administradores, quando for o caso e para tratar de qualquer outro assunto constante da ordem do dia.

Para que os sócios que não exerçam a administração tenham condições de participar da assembléia, os administradores deverão por escrito colocar à disposição deles, até trinta dias antes da data marcada para sua realização, tanto o balanço patrimonial como as demonstrações financeiras (balanço de resultado econômico).

Ganha relevância essa assembléia de verificação de contas, pois, a aprovação, sem reservas, do balanço patrimonial e do de resultado

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econômico, salvo erro, dolo ou simulação, exonera de responsabilidade os membros da administração e do Conselho Fiscal, se houver. Todavia é importante salientar que as deliberações das assembléias que aprovarem disposições contrárias ao contrato social ou à lei tornam responsáveis de forma ilimitada aqueles que expressamente as aprovaram. Daí a importância do parecer do Conselho Fiscal.

Aliás, o Conselho Fiscal é outra inovação trazida pelo novo Código Civil para as sociedades limitadas. Sua instituição, que não é obrigatória, poderá ser feita no próprio contrato, e será composto de no mínimo três membros e respectivos suplentes, sócios ou não, residentes no País, eleitos na assembléia anual.

Não poderão fazer parte do Conselho Fiscal aqueles que tenham sido condenados a pena que vede o acesso a cargos públicos ou por crime falimentar, prevaricação, peita ou suborno, concussão, peculato, contra a economia popular, contra o sistema financeiro nacional, contra as normas de defesa da concorrência, contra as relações de consumo, contra a fé pública ou a propriedade, enquanto perdurarem os efeitos da condenação. Não poderão igualmente fazer parte do Conselho Fiscal os membros dos demais órgãos da sociedade, como da diretoria, por exemplo, ou de outra sociedade por ela controlada, assim como os empregados de qualquer delas ou dos respectivos administradores, além do cônjuge ou parente desses até terceiro grau.

Fica assegurado aos sócios minoritários, que representem pelo menos 20% do capital social, o direito de eleger, separadamente, um dos membros do Conselho Fiscal e o respectivo suplente.

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Cabe ao Conselho Fiscal, além de outras atribuições determinadas na lei ou no contrato social, as seguintes obrigações: 1) examinar, pelo menos trimestralmente, os livros e papéis da sociedade e o estado do Caixa e da Carteira, devendo os administradores prestar-lhes as informações solicitadas; 2) lavrar no livro de atas e pareceres do conselho fiscal o resultado dos exames referidos no item anterior; 3) exarar no mesmo livro e apresentar à assembléia anual dos sócios parecer sobre os negócios e as operações sociais do exercício em que servirem, tomando por base o balanço patrimonial e o de resultado econômico; 4) denunciar os erros, fraudes ou crimes que descobrirem, sugerindo providências úteis à sociedade; 5) convocar a assembléia dos sócios se a diretoria retardar por mais de trinta dias a sua convocação anual, ou sempre que ocorram motivos graves e urgentes; e 6) praticar, durante o período de liquidação da sociedade, os atos especificados nos itens anteriores, tendo em vista as disposições especiais reguladoras da liquidação. Finalmente, o Conselho Fiscal poderá escolher um contabilista legalmente habilitado par assisti-lo no exame dos livros, dos balanços e das contas, mediante remuneração aprovada pela assembléia dos sócios. No que se refere ao aumento de capital, lembrando que de acordo com o novo Código Civil sempre será necessária a aprovação de sócios que detenham no mínimo 75% do capital social, a lei exige, para validade do aumento, que as quotas já existentes estejam totalmente integralizadas e que seja concedido um prazo de até trinta dias para que os sócios possam exercer, ou não, seu direito de preferência para a aquisição de novas quotas, na proporção das quotas que possuam. Na hipótese de não pretender subscrever o aumento de capital, o sócio poderá ceder o seu direito de preferência na forma que for disciplinada pelo contrato social. Na omissão do contrato, o sócio pode ceder seu direito

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total ou parcialmente a quem já seja sócio, independentemente de ouvir os demais, ou ainda a estranhos, se não houver oposição de titulares que representem mais de 25% do capital social.

Decorrido o prazo para o exercício da preferência, e assumida pelos sócios, ou por terceiros, a totalidade do aumento, haverá reunião ou assembléia dos sócios para que seja aprovada a alteração contratual.

O legislador disciplina também a hipótese de redução do capital social da empresa nos casos de perdas irreparáveis e também quando o capital se revelar excessivo em relação ao objeto da sociedade. No caso de perdas irreparáveis, para a redução, é imprescindível que primeiramente o capital tenha sido integralizado. Nestas circunstâncias far-se-á a redução do capital mediante a redução proporcional do valor nominal das quotas, tornando-se efetiva a partir da averbação da ata da assembléia que a tenha aprovado no Registro Público de Empresas Mercantis (Junta Comercial). Já na hipótese de o capital se revelar excessivo para o objeto da empresa, a redução será feita mediante a restituição de parte do valor das quotas aos sócios ou dispensando-se as integralizações ainda não realizadas, com a diminuição proporcional, em ambos os casos, do valor nominal das quotas. Na hipótese de redução por excesso, qualquer credor quirografário por título anterior à deliberação poderá opor-se a essa decisão dentro do prazo de noventa dias contado da data da publicação da ata da assembléia que aprovar a redução.

Aspecto interessante é tratado agora pelo novo Código Civil, relativamente ao sócio que é admitido posteriormente na sociedade, no que se refere à administração da empresa. Ou seja, até então, quando o contrato social atribuía a

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administração da sociedade a todos os sócios, era pacífico que a admissão de novo sócio, sem qualquer ressalva no contrato, importava em que o sócio recém admitido também participaria da administração. Com o novo Código Civil o que passa valer é a regra no sentido de que a administração não se estende ao sócio posteriormente admitido, ainda que o contrato diga expressamente que tal função cabe a todos os sócios.

Ainda no que se refere à administração da sociedade, se o contrato social permitir que pessoas que não sejam sócios exerçam a função de administração (gerência), a designação de tais administradores deverá ter a aprovação unânime de todos os sócios, enquanto o capital não estiver totalmente subscrito, ou no mínimo de 2/3 após a total integralização do capital social.

Caso a nomeação do administrador não conste expressamente do contrato, hipótese em que sua indicação será então feita mediante instrumento separado, deverá ele assinar termo de posse no livro de atas da administração. Se o termo de posse não for assinado nos trinta dias seguintes à sua nomeação, ficará ela sem efeito. Afora o termo de posse que deve ser assinado por aquele designado em ato separado, o administrador nomeado deve requerer, dentro do prazo de dez seguintes à sua investidura, a averbação da sua nomeação no Registro de Comércio, mencionando, além de sua qualificação completa, o ato e a data de sua nomeação, bem como o prazo de sua gestão. Dentro do mesmo prazo de dez dias de seu desligamento deverá também ser comunicada a cessação do exercício do cargo de administrador.

A destituição do administrador que seja sócio, cuja designação tenha constado do contrato social, somente poderá ser realizada pela aprovação

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de titulares que representem no mínimo 2/3 das quotas do capital social, caso o contrato não contenha disposição diferente. Já no caso de administrador que não seja sócio a destituição poderá ocorrer a qualquer tempo pela maioria de votos dos sócios quotistas.

A questão da exclusão do sócio da sociedade encontra-se disciplinada de forma clara no novo Código Civil. Assim, caso haja previsão contratual, o sócio poderá ser excluído da sociedade pela maioria dos sócios, na hipótese de se entender que um ou mais sócios estejam colocando em risco a continuidade da empresa em virtude de atos de inegável gravidade. Tal exclusão somente poderá ser determinada em reunião ou assembléia especialmente convocada para esse fim, e dado ciência ao acusado em tempo hábil para permitir o seu comparecimento e o exercício do direito de defesa. Não havendo previsão contratual para exclusão do sócio, o seu desligamento compulsório somente poderá ocorrer mediante processo judicial. Sendo excluído ou retirando-se voluntariamente da sociedade, qualquer que seja a forma de seu desligamento, o sócio responde perante a sociedade e terceiros pelas obrigações que tinha como sócio até dois anos depois de averbada a modificação no contrato social.

Ainda relativamente às obrigações e responsabilidades, dispõe o novo Código Civil que os administradores respondem solidariamente perante a sociedade e perante terceiros prejudicados por culpa no desempenho de suas funções. Se os bens da sociedade não cobrirem as dívidas, respondem os sócios pelo saldo, na proporção em que participem das perdas sociais, salvo cláusula de responsabilidade solidária. Cabe lembrar que o sócio admitido em sociedade já constituída será igualmente responsável pelas dívidas anteriores à

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sua admissão. Ademais, está expresso agora no texto legal que os administradores são obrigados a prestar contas de sua administração aos sócios, apresentando-lhes o inventário, bem como o balanço patrimonial e o balanço de resultado econômico. A questão do direito de recesso que até então era disciplinado pelo artigo 15 da Lei nº 3.708/19 agora é disciplinado pelos artigos 1.077 e 1.029 do novo Código Civil. Assim, quando houver modificação no contrato, fusão da sociedade, incorporação de outra, ou dela por outra, o sócio que não concordar terá o direito de retirar-se da sociedade, nos trinta dias seguintes à reunião ou assembléia. Não havendo divergência ou quaisquer dos motivos previstos na hipótese anterior, ainda assim o sócio que não desejar permanecer na sociedade poderá dela se retirar notificando os demais sócios com antecedência de 60 dias.

No que se refere à publicação dos atos societários, embora não haja determinação expressa da Lei, entendemos que deverão ser objeto de publicação na imprensa oficial e jornal de grande circulação apenas as convocações de assembléias e as atas delas lavradas. Entendemos que não devem ser publicados os balanços e demonstrações financeiras.

Finalmente, quanto ao prazo para atendimento das novas disposições legais, o texto legal é bastante claro ao determinar que as sociedades e os empresários têm o prazo de um ano para adaptar-se a elas, ou seja, até 11.01.2004. No entanto, cumpre esclarecer que as alterações contratuais que forem sendo realizadas durante esse tempo deverão seguir a orientação do novo Código Civil.

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