ECLI:PT:TRE:2005:907.05.2.72
http://jurisprudencia.csm.org.pt/ecli/ECLI:PT:TRE:2005:907.05.2.72
Relator Nº do Documento
álvaro Rodrigues
Apenso Data do Acordão
02/06/2005
Data de decisão sumária Votação
unanimidade
Tribunal de recurso Processo de recurso
Data Recurso
Referência de processo de recurso Nivel de acesso
Público
Meio Processual Decisão
Agravo provido
Indicações eventuais Área Temática
Referencias Internacionais Jurisprudência Nacional Legislação Comunitária Legislação Estrangeira Descritores
Sumário:
I - O artº 413º do Código de Processo Civil que dispõe:
1. Quando careçam de competência para decretar embargo administrativo, podem o Estado e as demais pessoas colectivas públicas embargar, nos termos desta subsecção, as obras, construções ou edifícios iniciadas em contravenção da lei ou dos regulamentos.
II – Neste caso não é necessário a, alegação de um direito subjectivo, etc., pois trata-se de uma providência específica ao abrigo do artº 413º do CPC, e não do artº412º do mesmo Código, embora com este conjugado.
Trata-se de regimes diferentes, dada a diversidade dos interesses prosseguidos.
III- Assim, a não indicação da acção a propor, não constitui, fundamento para indeferimento da requerida providência.
Decisão Integral:
Agravo nº 907/05 – 2
(Ratificação Judicial de Embargo de O. Nova) Nº 1699/04.4 TBFAR
1º Juízo Cível de Faro
Acordam na Secção Cível da Relação de Évora:
RELATÓRIO
P., em representação do Parque Natural da Ria Formosa, de que é Director, instaurou contra A. e M. procedimento cautelar de Ratificação de Embargo Extrajudicial de Obra Nova, alegando, em síntese, que em 8 de Outubro de 2004, os Vigilantes do Parque Natural da Ria Formosa detectaram que, num terreno junto à EN 125, no ….., concelho de …., propriedade dos Requeridos, estavam a ser executados, a mando do Requerido A., obras de construção de um edifício.
Os trabalhos em execução consistiam na colocação de vigas de ferro com 3 metros de altura para suporte de um pré-fabricado em madeira com 7 metros de cumprimento, 5 metros de largura e 3 metros de altura, carecendo tais trabalhos do parecer vinculativo favorável do Requerente,
porquanto as obras descritas se traduzem numa infracção prevista pelos artºs 7º, nºs 1, 3 e 4, artº 8º, nº1, alínea d), punida pelo artº 19º, nº1 do Decreto-Lei 373/87 de 9 de Dezembro.
Nessa data foi levantado o auto de embargo e a suspensão dos trabalhos e o embargo determinado, foram notificados na pessoa de J..
Alega também que com a revogação do Dec. -Lei 92/95 de 9 de Maio, o Director do PNRF deixou de ter competência para decretar embargo administrativo.
Os Requeridos deduziram oposição, tendo alegado, em resumo, que se tratava de uma obra de carácter provisório, que o embargo da obra foi efectuado no dia 8 de Outubro, mas que os proprietários da referida obra só tomaram conhecimento de tal embargo em 11 de Outubro, segunda-feira.
temporária e foi adquirida numa empresa de venda e montagem de pré-fabricados em madeira, que identificam, tendo tal empresa informado os Requeridos que, dado o carácter provisório de tal construção, a instalação da mesma não carecia de qualquer licença administrativa ou parecer de mesma natureza.
Acrescentam que o embargo foi notificado na pessoa de um empregado da sociedade J. & M., Lda. no dia 8/9, tendo a obra sido concluída no dia 9 do mesmo mês (sábado), posto que o referido embargo só chegou ao conhecimento dos requeridos no dia 11 (segunda-feira).
Pedem o indeferimento da falada providência cautelar.
O Exmº Juiz designou data para audiência final e, logo após constatar que não era possível a conciliação das partes, e sem a produção da prova informatória, proferiu decisão, em acta, considerando que o Requerente não indicou o concreto direito a acautelar, nem a atinente acção principal, que fundamenta a pretendida ratificação na violação das normas relativas ao
condicionamento da edificação, construção, reconstrução ou ampliação dentro dos limites do Parque Natural da Ria Formosa (artºs 1,nº1, 7º nºs 1 e 3 e 8º, nº1 al.) do Dec. -Lei 373/87 de 9/12), mas que tais normas prendem-se com a preservação, conservação e defesa lagunar do Sotavento algarvio, não conferindo qualquer direito subjectivo ao Parque e muito menos do tipo dos supra enunciados, sendo certo que só a ofensa de qualquer destes é que é tutelada pelo embargo em questão.
Apoia-se, para tal conclusão, em António Geraldes, Temas da Reforma do Processo Civil, IV, pg 254.
Desta sorte, considerou que não estão reunidos in limine os pressupostos que permitiriam o
deferimento da providência, evidenciando-se, desde já, a sua manifesta improcedência, e indeferiu a mesma.
Inconformado com tal decisão, o Requerente trouxe recurso de Agravo da mesma para este Tribunal da Relação, rematando a sua alegação com as seguintes:
Conclusões:
a)O embargo previsto no artigo 413° difere do art. 412 em que não é já um instrumento de defesa do direito subjectivo privado (ou da posse), mas um instrumento ao serviço do direito público administrativo.
b)Quando a pessoa colectiva de direito público actua em reacção à ilegalidade consistente em não se terem observado as normas administrativas que condicionam a realização da obra, a pessoa colectiva de direito público move-se no campo do direito administrativo e não no das relações jurídico-privadas, aplicando-se o artigo 413° do C.P.C.
c) Não se aplicam ao caso em apreço os requisitos previstos no artigo 412°, mas os previstos no artigo 413°.
d)Na petição de embargo o requerente, ora agravante alega que Em 8 de Outubro de 2004, que, num terreno junto à E. N. 125, no sítio dos ………, concelho de …., propriedade de A. e M., estavam a ser executas, a mando de A., obras de construção de um edifício, que consistiam na colocação de vigas de ferro com 3 metros de altura para suporte de um pré-fabricado em madeira com 7 metros
de comprimento, 5 metros de largura e 3 metros de altura.
e)O próprio agravado, na sua oposição, reconhece que efectuou uma obra.
f) As obras foram efectuadas num terreno junto à E.N. 125, no sítio dos ….., concelho de ….., zona que se insere no Parque Natural da Ria Formosa, conforme dispõe o Decreto – Lei n.º 373/87, de 9 de Dezembro
g) A alínea d) do n.º 1 do Artigo 8. ° do citado diploma legal prescreve que dentro dos limites do Parque ficarão sujeitos a licenciamento a edificação, construção, reconstrução ou ampliação, cuja violação consubstancia a prática de uma contra ordenação.
h)Os requeridos não dispunham de licença para as obras efectuadas.
i) A falta de competência para decretar o embargo administrativo, é uma questão que não foi levantada no despacho de indeferimento e, portanto, não está em causa no presente recurso. j) Não obstante, caso se entenda não se verificar o presente requisito, sempre será válido o embargo extrajudicial.
g)Verificam-se assim todos os requisitos necessários para que o embargo seja decretado.
h)A situação em apreço enquadra-se no estatuído no n.º 1 do Artigo 413. ° do Código de Processo Civil estando reunidos os pressupostos legais que permitem o deferimento da providência.
FUNDAMENTOS
Antes de analisarmos o thema decidendum do presente recurso, convoquemos o inciso legal em que se estribou o Requerente para instaurar o presente procedimento cautelar!
Trata-se do artº 413º do Código de Processo Civil que dispõe:
1. Quando careçam de competência para decretar embargo administrativo, podem o Estado e as demais pessoas colectivas públicas embargar, nos termos desta subsecção, as obras, construções ou edifícios iniciadas em contravenção da lei ou dos regulamentos.
2. O Embargo previsto no número anterior não está sujeito ao prazo fixado no nº 1 do artigo 412º. Como bem anota Lebre de Freitas , aliás citado pelo Recorrente « Este embargo difere do artº 412º
do CPC, em que já não é um instrumento de defesa do direito subjectivo privado( ou da posse), mas um instrumento ao serviço do direito público administrativo.
Quando a pessoa colectiva de direito público esteja defendendo um seu direito um seu direito privado( real ou pessoal de gozo)ou a sua posse, actua como se fosse um sujeito de direito privado e tem aplicação, tal como para as pessoas singulares ou colectivas de direito privado, o regime geral de embargo de obra nova. Mas quando actua em reacção à ilegalidade consistente em não se terem observado as normas administrativas que condicionam a realização da obra, a pessoa colectiva de direito público está-se movendo já no campo do direito administrativo e não do das relações jurídico-privadas. É nestes casos que o artigo em anotação se aplica.» ( Lebre de Freitas Código de Processo Civil anotado, II, pg. 146).
Mas daqui emerge a questão da competência material do Tribunal, pois primo conspectu, poderia questionar-se se tratando-se de uma providência ao serviço do direito administrativo, seriam os Tribunais comuns os competentes para decretar ou ratificar o Embargo de Obra Nova.
O citado Professor é claro: « Feito o embargo administrativo, os particulares cujos interesses com ele sejam afectados poderão impugnar o acto no contencioso administrativo. tudo se passando fora do âmbito dos tribunais judiciais. Quando, porém, não tenha ao seu alcance este meio
administrativo, a pessoa colectiva pode, na dependência da acção civil ( de demolição, de alteração da obra, de proibição de construir),recorrer á tutela cautelar do embargo de obra nova, que constitui assim um meio subsidiário.
Assim, por exemplo, não tendo a entidade militar competência para embargar administrativamente obra efectuada em prédio sujeito a servidão militar, resta-lhe tão-só o recurso, em tribunal comum, ao embargo de obra nova
( Ac. TRP de 8.10.98, CJ, 1988, IV,206)» ( ibi, ibidem).
A propósito da competência do Tribunal, questão que não foi levantada no presente recurso, mas que, como se sabe , é de conhecimento oficioso, constituindo pressuposto processual da validade da instância,, também a Relação do Porto, no seu Acórdão de 26.10. 1992 assim sentenciou:
«Perante uma obra, construção ou edificação que os particulares comecem em contravenção da lei, o Estado pode optar entre o embargo administrativo ou o embargo judicial.
II. O embargo extrajudicial levado a cabo por um funcionário do Estado, no cumprimento de uma simples ordem interna, dada por quem de direito, dentro da respectiva hierarquia , não reveste a natureza de acto administrativo, estando sujeito a ratificação, para a qual é competente o tribunal comum» ( BMJ, 420, 647).
Esta doutrina continua, em nosso entendimento, a ter plena validade, pois a única alteração
surgida é a que consta da própria redacção actual do falado artº 413º do Código P. Civil que, como é sabido, expressamente limitou a possibilidade de o Estado e as demais pessoas colectivas de direito público recorrerem a esta providência cautelar apenas quando não tenham competência para decretar embargo administrativo, não havendo, agora, a possibilidade de opção.
Estabelecida, assim a competência ratione materiae do tribunal comum, como bem salienta o
Agravante, os demais requisitos são a existência de obra, construção ou edificação, a contravenção de lei ou regulamento e a falta de competência para decretar o embargo administrativo.
Tais requisitos mostram-se alegados no requerimento inicial, carecendo agora da necessária prova informatória, isto é, aquela que é possível obter ao nível da summaria cognitio que informa as
providências cautelares.
Não são, pois exigíveis os requisitos mencionados na decisão recorrida, tais como a indicação do concreto direito a acautelar, alegação de um direito subjectivo, etc., pois trata-se de uma
providência específica ao abrigo do artº 413º do CPC, e não do artº412º do mesmo Código, embora com este conjugado.
Trata-se de regimes diferentes, dada a diversidade dos interesses prosseguidos.
Quanto à acção referida na decisão, é sabido que as providências cautelares podem ser
preliminares ou antecipatórias das acções definitivas, não constituindo a inexistência, por ora, da acção, fundamento para indeferimento da requerida providência.
Não são precisas mais palavras, portanto, para se concluir pelo provimento do Recurso interposto. DECISÃO
Tudo visto e ponderado, acordam os Juízes desta Relação em conceder provimento ao Agravo interposto e, em consequência, revogar a decisão da 1ª Instância, ora recorrida, e em ordenar que o processo baixe ao 1º Juízo Cível de Faro a fim de, mediante a produção da prova, prosseguir a ulterior tramitação.
Sem custas.
Processado e revisto pelo relator.
Évora,