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água limpa Solange Granadier é moradora da Vila Independência, em Quem quer

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130 Trilha da cultura Trilha da cultura 131

S

olange Granadier é moradora da Vila Independência, em

Piracicaba, há 18 anos. “Quando mudamos para o bairro, o cheiro já era bem forte. Até pensamos se ali seria um bom lugar para morarmos. Nós tínhamos vergonha de receber as visitas, pois dava a impressão de que o cheiro vinha da casa. Por isso, acabávamos gastando muito com produtos de limpeza. O verão era a época em que o problema ficava mais evidente. Devido ao mau cheiro, a casa tinha que ficar toda fechada. Com o tempo, pensamos na possibilidade de vender o imóvel. Es-távamos tendo dores de cabeça constantes e também problemas respiratórios. Além disso, houve um aumento significativo de insetos.”

Essa não é uma realidade incomum no Brasil. A chegada do tra-tamento de esgoto aos domicílios muda a perspectiva de vida do morador. Solange continua seu relato: “Quando começou a mudança no tratamento pela estação de esgoto, tudo melhorou. Agora, não sentimentos mais o cheiro e também podemos deixar a casa aberta. Temos um ambiente mais arejado e estamos mais à vontade para receber nossas visitas”.

No Brasil, apenas 30% dos municípios possuem uma estação de esgoto. Mais de 9 mil toneladas de rejeitos são produzidos por dia pela população e apenas 45% deles passa por algum tratamento antes de voltar aos cursos d’água. A ideia de pegar rio acima e soltar rio abaixo foi regra em terras nacionais por séculos, até se perceber que mais abaixo haviam outras cidades, outras famílias e pessoas que beberiam da mesma água – sem falar que tudo, ao final, desemboca no mar, fonte de sal, peixes, mariscos, algas e outros produtos para o consumo humano.

Algumas cidades brasileiras

resolveram enfrentar

a questão da água

e do esgoto e conseguiram

avanços significativos

Quem quer

água

limpa

Texto | Neuza Árbocz

Salto do Rio Piracicaba. O município de mesmo nome, no interior de São Paulo, trata praticamente todo o esgoto dos cerca de 400 mil habitantes

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Ed s on G r a n d is ol i

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134 Trilha da cultura

Por mais que a natureza se esforce para filtrar, evaporar e re-generar as águas, em alguns locais o impacto humano se tornou tão intenso que ela não dá mais conta, a água precisa efetivamente ser tratada. O resultado são mais de 110 mil km de trechos de rios brasileiros com a qualidade comprometida por excesso de carga orgânica, sendo que em 83 mil km não é mais permitida a captação para abastecimento público devido à poluição e em 27 mil km a captação pode ser feita, mas requer tratamento avançado. Enfrentam essa situação milhares de rios, da importância do Paraíba do Sul, que percorre os estados de São Paulo, Minas Gerais e do Rio de Janeiro. A boa notícia é que soluções estão em curso. Entre elas estão as cidades de Piracicaba, interior de São Paulo, e Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul. A primeira atingiu praticamente 100% de saneamento dos esgotos de seus quase 400 mil habitantes; a segunda, com mais de 820 mil moradores, o raro patamar de 80%. Isso graças a investimentos pesados em redes subterrâneas, emissários, estações elevatórias e de tratamento.

Ambas contam com sistemas que permitem ligar e desligar equi-pamentos à distância, ter informação se as unidades estão em ope-ração, verificar os níveis de vazão e pressão, assim como a segurança e o desempenho das instalações.

melhorandoabaciadopiracicaba

O Plano Nacional de Resíduos Sólidos, de 2010, determinou que todas as cidades deveriam tratar os resíduos até 2014.

Em Piracicaba, o tratamento dos efluentes líquidos foi resolvido por meio de uma parceria com o setor privado.

“Enquanto no Brasil quase metade dos domicílios não possuem sequer ligação com a rede coletora de esgotos, Piracicaba garante 100% de domicílios com esgotamento sanitário e promove o trata-mento de todo esgoto coletado”, informa Francisco Rogério Vidal e Silva, secretário de Defesa do Meio Ambiente de 2005 a 2012 e de 2013 a 2016.

“O Serviço Municipal de Água e Esgoto atingiu 72% de trata-mento de esgoto com recursos próprios, e, em seguida, por meio de uma parceria público-privada com a Águas do Mirante, atingiu rapidamente os 100%”, complementa.

Por contrato, essa empresa assumiu por 30 anos, a partir de 2012, os compromissos de ampliação da rede de esgoto; recupe-ração e melhorias dos sistemas existentes; implantação e substi-tuição de hidrômetros; e construção e ampliação de estações de tratamento de esgoto.

Nessa linha, o poder público buscou uma solução semelhante, também parceria público-privada, para resolver a questão dos resí-Caixas com

medidor de volume para consumo adequado de água, instaladas no Museu da Água, espaço onde funcionou a primeira Estação de Captação e Bombeamento de Água de Piracicaba Em Campo Grande, onde 80% do esgoto é tratado, um moderno sistema controla as operações e permite verificar níveis de vazão e pressão e a segurança das instalações © D iv u lG a ç ã O /Á G ua S G ua R iR O B a © h El D ER P R a DO /P ES C a DO R D E i M a GE N S /C O R TE S ia

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137 Trilha da cultura

duos sólidos na cidade. Desta forma, a cidade parou de contribuir com a asfixia do rio de quem herdou o nome, originário do tupi, cuja tradução mais aceita significa “lugar onde o peixe descansa”.

Quem sentiu essa mudança de perto foi Agostinho Benites, ge-rente do Restaurante Mirante. “No mundo existem poucos esta-belecimentos gastronômicos que oferecem acesso à natureza aos clientes. Posso afirmar com toda certeza que nós, piracicabanos, somos privilegiados pela oportunidade de termos uma vista tão bo-nita e deslumbrante do Rio Piracicaba. Cerca de 90% dos clientes que frequentam o restaurante são atraídos pelo rio. Por isso, a ampliação do tratamento de esgoto nos auxiliou em vários aspectos, tanto pela eliminação do mau odor quanto pela preservação do Piracicaba.”

Uma das principais vias hídricas no estado de São Paulo, impor-tante rota de barcos e navios no passado, o Rio Piracicaba começou a sofrer na década de 1960, quando o governo paulista construiu diversas represas nas nascentes da sua bacia hidrográfica, conhecida como PCJ por incluir os rios Capivari e Jundiaí. Essa medida visou fortalecer o Sistema Cantareira, maior responsável pelo abasteci-mento de água da Grande São Paulo. A captação e desvio de águas de seus formadores reduziu o nível de seu leito e de seus afluentes.

Nas décadas de 1970 e 1980, a situação se agravou com a chegada de indústrias de porte na região. Naquele tempo, houve um aumento de consumo local e de poluição, sem uma legislação adequada para fazer frente a essas ameaças. A criação de órgãos reguladores e os aumentos nas tarifas permitiram as primeiras respostas, como a construção da primeira estação de tratamento de esgoto em 1992. De fato, o Rio Piracicaba ainda registra com frequência águas impróprias para consumo humano e animal em grande parte do seu curso. Mas essa situação está mudando conforme avança o alcance do saneamento nos 70 municípios da PCJ. Pelo menos a cidade de Piracicaba já fez sua parte.

resistênciaculturalnomatogrossodosul

O caminho escolhido pela prefeitura de Campo Grande para solucionar a questão do saneamento foi a concessão do serviço de água e de esgotos para a iniciativa privada. Em 2000, quem ficou com o contrato foi a empresa Águas Guariroba. Seu compromisso é alcançar 70% de coleta e tratamento do esgoto na cidade até 2025. Em 2017, já tinham atingido 80%, segundo o Atlas de Esgotos da Agência Nacional das Águas.

Um dos principais desafios é mudar uma cultura de descarte incorreto. Como há duas taxas, uma da água, outra do esgoto, é preciso mostrar as vantagens da adesão à coleta dos dejetos. “Esgo-to tratado é saúde”, esse é o principal argumen“Esgo-to. De fa“Esgo-to, de 2003

O Rio Piracicaba é atração turística do município e local de lazer de moradores por causa da pesca e dos passeios de barco

a Ponte Pênsil, de 1992, liga a avenida Beira-Rio e o Engenho Central, um dos grandes patrimônios culturais de Piracicaba a Estação de Tratamento de Esgoto Piracicamirim foi a primeira de grande porte do município de Piracicaba © J O ã O P R u D EN TE /P u lS a R i M a G EN S

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C h r is ti a n o d iE h l n Et o /a EGE a /d iv u lG ão

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140 Trilha da cultura

a 2015, a média anual das internações por diarréia, por exemplo - problema que tem a ingestão de água contaminada como sua principal causa -, diminuiu de 157 para 13, a cada 100 mil habitantes, na capital sul-matogrossense.

Segundo o Instituto Trata Brasil, dedicado à universalização do saneamento básico no Brasil, quem mais sofre são as crianças. Na faixa de 1 a 6 anos, a mortalidade é 32% maior em áreas sem esse cuidado básico. Além disso, o risco de bebês nascerem mortos au-menta em 30%. A lista das doenças que podem ser agravadas com o contato com esgoto é extensa: poliomielite, hepatite A, giardíase, febre tifóide, diarréias e disenterias bacterianas (como a cólera) e várias outras.

Estudo do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômi-co e Social) atesta que 65% das internações hospitalares de crianças menores de 10 anos se devem à falta de rede de água e esgotos, o que prejudica a frequência escolar e o desenvolvimento como um todo.

Segundo cálculos da Organização Mundial de Saúde (OMS), cada real investido em saneamento gera uma economia de 4 reais em tratamentos médicos.

o sanEamEnto no Brasil

Fonte: Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS 2016); Atlas dos Esgotos - ANA (2017); Atlas de Saneamento (IBGE 2011); Instituto Trata Brasil; Censo Escolar 2014

No Brasil, a prestação dos serviços de saneamento é feita pelos estados, municípios ou empresas privadas contratadas por eles. Saiba qual é a agência reguladora que fiscaliza os serviços de saneamento da sua região em http://app3.cidades.gov.br/snisweb/src/Sistema/index. (Sistema Nacional de Informações sobre o Saneamento, do Ministério das Cidades)

de brasileiros nas 100 maiores cidades do país despejam esgoto irregularmente, mesmo tendo redes coletoras disponíveis de habitantes no Brasil

ainda não têm acesso a banheiro da população brasileira utiliza métodos alternativos de descarte do esgoto doméstico, como fossas Com a Estação de Tratamento de Esgoto Bela vista, 20 milhões de litros de esgoto deixaram de ser lançado no Rio Piracicaba

83

%

12

%

22

apenas das maiores cidades brasileiras tratam acima de dos esgotos

80

%

52

%

dos brasileiros contam com abastecimento de água tratada da população tem acesso à coleta de esgoto © P a u lO M u N h O z /a EG Ea /D iv u lG a ç ã O

Conheça alguns dados que refletem a distância que o país está em

atender a toda população brasileira com saneamento básico

45

%

dos esgotos do país são tratados

3,5

milhões

Mais de apenas

Para saber mais: www.tratabrasil.org.br/saneamento/principais-estatisticas-no-brasil

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142 Trilha da cultura Trilha da cultura 143

preveniracontaminaçãoéfundamental

Esses dados colaboram na sensibilização da população. “Quando começamos, em 2006, a adesão à ligação com a rede de esgoto era baixíssima. Havia localidades que nem nos recebiam. Hoje, temos comunidades ansiosas pela chegada do esgoto e mobilizadas, in-clusive, com abaixo-assinados exigindo esse serviço”, relata William Carvalho, coordenador de Projetos Sociais da Águas Guariroba.

A engenheira bioquímica Fernanda Barreto relata que a Estação de Tratamento de Esgoto Los Angeles, a principal da cidade, além de lidar com quase 900 litros de esgoto por segundo, recebe também muito lixo sólido. “Desde coisas pequenas, como tampinhas de gar-rafa, absorventes, preservativos, potes, até carrinho de brinquedo e animais mortos.”

O óleo de cozinha é o grande vilão nesse cenário. Ele se solidifica, forma camadas gordurosas que entopem a tubulação, dificulta a ação das bactérias que digerem a matéria orgânica e, ainda, forma uma película sobre a superfície das águas, o que retém a entrada de luz e de oxigênio.

Para combater esse problema, a professora de química Déborah Viana convidou as turmas de EJA (Educação de Jovens e Adultos) da Escola Estadual Professora Thereza Noronha de Carvalho, no Parque do Lageado, em Campo Grande, para o projeto Sabão Ecológico. Em 2017, a iniciativa evitou que 700 litros de óleo usado fossem descar-tados de forma errada e transformou os hábitos dos frequentadores da escola. “Antes, eu jogava na pia. Agora, além de não fazer mais isso, alerto outras pessoas”, conta a aluna Sueli Garcia Ramos.

Outra ação que combate o descarte inadequado na cidade é o Eco Plantar, espaço que recebe óleo de cozinha, garrafas e eletrônicos e os encaminha para reaproveitamento. “As pessoas, em geral, não se sentem responsáveis pelo lixo que produzem, a ponto de algumas perguntarem por que não coletamos o material em suas casas”, relata o coordenador do projeto Rodrigo Pereira de Albuquerque.

Já grandes geradores desse resíduo, como lanchonetes, restau-rantes e supermercados, contam com esse serviço graças à parceria com a empresa Katu Oil. “Há uma variedade de formas de reutilizar o óleo de fritura, além do sabão, para biodiesel, tinta, massa de vidro, vela e ração animal”, explica o sócio-proprietário da empresa Caio Arakaki Gasparini. A empresa já recolheu 1,3 milhão de litros, desde o início de 2014.

“Saneamento não é só saúde. É mais emprego, mais turismo, mais qualidade de vida enfim. Todos ganham. As crianças faltam menos na escola e os adultos no trabalho. É muito importante esse investimento para que as cidades melhorem”, defende Edison Carlos, presidente do Instituto Trata Brasil.

©alExaNDRE TOkiTaka /PulSaR iMaGENS

O lago formado próximo à nascente do Córrego Prosa é um dos atrativos do Parque das Nações indígenas, cartão-postal de Campo Grande

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