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(2) SANDRA LIA RODRIGUES FRANCO. A MÍDIA IMPRESSA E OS ASPECTOS PSICOSSOCIAIS DO ESTUDANTE UNIVERSITÁRIO. Tese apresentada em cumprimento parcial às exigências do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social, da UMESP - Universidade Metodista de São Paulo, para obtenção do grau de Doutor. Orientador: Prof. Dr. Sebastião Carlos de Moraes Squirra. Universidade Metodista de São Paulo Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social São Bernardo do Campo, 2007.
(3) FOLHA DE APROVAÇÃO. A Tese de Doutorado sob o título. A MÍDIA IMPRESSA E OS ASPECTOS PSICOSSOCIAIS DO ESTUDANTE UNIVERSITÁRIO elaborada por Sandra Lia Rodrigues Franco, foi defendida e aprovada no dia 22 de fevereiro de 2007, perante a Banca Examinadora formada por. Prof. Dr. José Tolentino Rosa. UMESP. Profa. Dra. Elizabeth Moraes Gonçalves. UMESP. Profa. Dra. Noeli Prestes Padilha Rivas. USP/RP. Prof. Dr. Laan Mendes de Barros. FCL. ____________________________________ Prof. Dr. Sebastião Carlos de Moraes Squirra Orientador ____________________________________ Prof. Dr. Sebastião Carlos de Moraes Squirra Coordenador do Programa de Pós-Graduação São Bernardo do Campo, 22 de fevereiro de 2007.. Área de concentração: Processos Comunicacionais Linha de pesquisa: Comunicação Especializada Projeto Temático: Comunicação e Tecnologias.
(4) Gastei uma hora pensando em um verso que a pena não quer escrever. No entanto, ele está cá dentro inquieto, vivo. Ele está cá dentro e não quer sair. Mas a poesia deste momento inunda minha vida inteira. Carlos Drummond de Andrade.
(5) Parabenizo-a,. Sandra. Lia,. pela. intuição. e. criatividade no empenho de aplicar a EDAO – Escala Diagnóstica Adaptativa Operacionalizada – oriunda de minha Teoria da Adaptação – ao estudo dos problemas relativos aos fenômenos sociais. Procurou ampliar a visão do psicólogo clínico, que necessariamente. se. ocupa. da. adaptação. individual. e. familiar, ao âmbito mais amplo das interações intergrupais. Coloca, assim, ao alcance de um grande número de profissionais das ciências humanas um instrumento que, de outro modo, permaneceria inacessível. Acredito que sua disciplinada aplicação permitirá efetuar. uma. nova. mirada,. possibilitando. vértices. de. observação inéditos, propiciando a descoberta de aspectos originais. E, como a operacionalização favorece a integração entre a teoria e a técnica, provavelmente serão alcançados resultados práticos muito aproveitáveis. Ryad Simon.
(6) Agradecimentos Este processo “criativo-científico” foi acompanhado, direta e indiretamente, por tantas pessoas, e a todas elas eu dedico meu agradecimento, com carinho e respeito. Há, porém, algumas a quem gostaria de agradecer de maneira especial e, por isso, deixo seus nomes registrados para que os leitores possam conhecer um pouco daqueles que estiveram perto de mim durante este trajeto e, com certeza, permanecem ao meu lado, cada um de seu jeito, e dentro de suas possibilidades. Ao Criador, Aquele que habita o meu ser, Aquele que me ensina a essência do amor. Aos meus pais (in memoria m), Sylvio Rodrigues e Dra. Vitalina Conceição Rodrigues, que são o alicerce de minha vida no que tange ao meu caráter, à minha educação e à minha eterna garra de viver, amar e trabalhar. Ao meu marido Augusto que, como sempre, abriu mão do seu tempo de lazer e descanso para me ajudar; ouviu- me de maneira atenta, prestativa, paciente e, incansavelmente, deu- me continência e irrestrito apoio nos momentos de inquietação. Aos meus filhos, Gabriel e Gustavo, meus meninos de amor e de ouro que, muitas vezes, precisaram abaixar o volume dos jogos do computador, do vídeo- game, o volume da televisão; e, ainda tantas outras vezes, diminuíram o barulho das brincadeiras com amigos, enfim, reduziram a “bagunça geral”, para não atrapalhar as minhas leituras, as minhas digitações, os meus pensamentos. À minha psicoterapeuta, Dra. Maria José Ferreira Mota, que acompanhou e incentivou meu trabalho através de sua forma tão especial de ouvir, compreender e acolher. À profa. Dra. Noeli Prestes Padilha Rivas que, por acreditar em meu trabalho, ajudou-me a abrir portas importantes de minha vida profissional. Ao jovem Fábio Alexandre de Oliveira, que me auxiliou na idealização e confecção dos primeiros gráficos desta tese e a quem admiro pela competência e forma carinhosa de ajudar. À equipe da Universidade Metodista de São Paulo, em especial às minhas queridas áreas de estudo: Psicologia e Comunicação Social, iniciando por aquela que tem sido meu alicerce há tantos anos, aquela que me ensinou coisas essenciais, e me auxiliou na trilha do dia a dia profissional e pessoal, e à qual devo respeito e admiração:.
(7) Psicologia Ao Prof. Dr. José Tolentino Rosa a quem, carinhosamente, chamo de meu CD ambulante e, hoje, “pendrive”, devido à sua invejável capacidade de armazenar minhas dúvidas e informações e à sua forma tão profunda de entender a essência do meu trabalho: ajudou-me a construí- lo com eficácia, fortificando ainda mais a admiração que tenho por ele, desde a época em que foi meu professor no Mestrado. Ao Prof. Dr. Ryad Simon que, ao me “emprestar um pouco” a sua fabulosa EDAO, e ao me incentivar na ousadia de transportá- la para a área da Comunicação Social, deixou-me mais segura e, também, mais desejosa de arcar com tal responsabilidade. À Secretária Elisabeth Chiroto, arrimo de tantos alunos e de tantos professores, que através de seu trabalho tão íntegro e disponível, esteve sempre no meu coração.. Comunicação Social Ao Prof. Dr. Sebastião Carlos de Moraes Squirra que, ao me ensinar o beabá da Comunicação e a entender a mídia de forma mais crítica, ajudou- me transpor os obstáculos do desconhecido. À Profa. Dra. Elizabeth Moraes Gonçalves que me deu tantos “puxões de orelha” e, por outro lado, tantos “colos” que me ajudaram a suportar alguns momentos críticos, facilitando, desta forma, a minha “entrada” na Comunicação Social. À equipe da Secretaria Acadêmica que, dentro de seu modo reservado e carinhoso de me receber, ajudou- me nas questões burocráticas, facilitando a trajetória desde o momento da minha transferência da Psicologia para a Comunicação Social, até o dia da defesa desta Tese. A todos profissionais da Comunicação Social que me apoiaram no desenvolvimento deste trabalho, pois, ao responder ao questionário com valiosos comentários, ajudaram- me a obter amplos resultados. Não obstante, fizeram crescer o meu entendimento sobre essa área tão rica que, se anteriormente, era por mim vista como algo que “apresentava relação” com a Psicologia, hoje, sinto-a bem próxima, não só enquanto profissional, mas enquanto pessoa. Este trabalho na área da Comunicação Social tornou- me uma leitora mais crítica e, portanto, mais questionadora dos bastidores da mídia.. A todos, muito obrigada..
(8) Conteúdos Introdução............................................................................................................................ 12. 1.. Justificativa ............................................................................................................. 15. 2.. Problema da Pesquisa .............................................................................................. 17. 3.. Hipóteses................................................................................................................... 18. 4.. Objetivos................................................................................................................... 19. 5.. Material e Método..................................................................................................... 20. Capítulo I – Comunicação e Psicologia................................................................................ 27. Capítulo II – A articulação da linguagem nos processos comunicacionais ......................... 32. Capítulo III – O estudante universitário e suas representações sociais................................ 39. Capítulo IV – Eficácia adaptativa de estudantes universitários........................................... 46. 1.. Narrativas de Melissa............................................................................................... 50. 2.. Narrativas de Tácio................................................................................................... 59. 3.. Queixas freqüentes no discurso de universitários..................................................... 66. 4.. Características psicológicas do discurso de universitários....................................... 69. Capítulo V – Análise dos resultados dos jornais Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e A Tribuna........................................................................................................................... 73. Parte 1 - Análise da incidência setorial........................................................................... 87. 1. Incidência dos setores adaptativos – forma pura...................................... 88. 2. Incidência das mesclas setoriais – duplas e trios...................................... 92. 3. Incidência setorial total............................................................................. 103. 4. Ranking da incidência setorial.................................................................. 111. 5. Abrangência setorial................................................................................. 116. Parte 2 - Análise do setor afetivo-relacional................................................................... 121. 1. Incidência de comportamentos “aceitos” e “não aceitos”......................... 122. 2. Análise do setor AR ................................................................................. 124. Parte 3 - Análise da aplicabilidade da EDAO no discurso da mídia impressa................ 126. Parte 4 - Análise do questionário enviado aos jornalistas............................................... 128. Capítulo VI – Cons iderações finais...................................................................................... 146. Conclusões e Sugestões........................................................................................................ 156. Referências........................................................................................................................... 162. Anexo 1 – Termo de consentimento da pesquisa psicológica Anexo 2 – Questionário enviado aos jornalistas.
(9) FRANCO, Sandra Lia Rodrigues. A mídia impressa e os aspectos psicossociais do estudante universitário. São Bernardo do Campo - SP. Universidade Metodista de São Paulo- UMESP, 2007.. Resumo. A mídia impressa não especializada apresenta variados assuntos sobre estudantes universitários e esta tese objetiva verificar que aspectos psicossociais desses estudantes são abordados com mais freqüência. Para o desenvolvimento da pesquisa foram selecionadas notícias sobre estudantes de graduação veiculadas pelos jornais Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e A Tribuna. A análise das notícias foi norteada pela Teoria Evolutiva da Adaptação, de Ryad Simon, mais especificamente, no que tange aos setores adaptativos afetivo-relacional, produtivo, orgânico e sócio-cultural. Verificou-se que a mídia impressa dá mais relevância aos setores produtivo e sócio-cultural dos alunos, em detrimento dos setores afetivo-relacional e orgânico. Com a finalidade de investigar o posicionamento de jornalistas frente aos resultados da análise setorial, foi- lhes enviado um questionário com base nos resultados obtidos, e verificou-se que a maioria desses profissionais está ciente da hegemonia dos setores produtivo e sócio-cultur al, mas consideram importante a presença de todos os setores adaptativos nas notícias publicadas.. Palavras-chave: Comunicação – Psicologia – mídia impressa – estudante universitário – EDAO..
(10) FRANCO, Sandra Lia Rodrigues. La prensa escrita y los aspetos ps icosociales del estudiante universitário. São Bernardo do Campo. Universidade Metodista de São Paulo – UMESP, 2007.. Resumen. La prensa escrita no especializada presenta variados temas sobre estudiantes universitários, y esta tesis busca verificar que aspectos psicosociales de esos estudiantes son abordados com más frecuencia. Para el desarrollo de la investigación fueron seleccionadas noticias sobre estudiantes de graduación, dirigidas por los diários Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo y A Tribuna. El análisis de las noticias fue orientado por la Teoría Evolutiva de la Adaptación, de Ryad Simon, más específicamente, en lo que atañe a los sectores adaptativos afectivorelacional, productivo, orgánico y sócio-cultural. Se verifico que la prensa escrita da más relevancia a los sectores productivo y sócio-cultural de los alumnos, em detrimento de los sectores afectivo-relacional y orgánico. Con la finalidad de investigar el posicionamiento de periodistas frente a los resultados del análisis sectorial, lês fue enviado um cuestionario con base em los resultados obtenidos, y se verifico que la mayoría de esos profesionales está conciente de la hegemonía de los sectores producivo y socio-cultural, pero consideran importante la presencia de todos los sectores adaptativos en las noticias publicadas.. Palabras-clave: Comunicación – Psicología – prensa escrita – estudiante universitario – EDAO..
(11) FRANCO, Sandra Lia Rodrigues. The printed media and university students’ psychosocial aspects. São Bernardo do Campo – SP. Universidade Metodista de São Paulo – UMESP, 2007.. Abstract. The non specialized printed media shows several pieces concerning university students and this thesis aims to verify which psycho-social aspects are most frequently included. Selected news about university students were chosen from Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo and A Tribuna newspapers. The news analysis was led by the Ryad Simon’s Adaptative Evolution Theory, especially with the concern of adaptative sectors named relational-affective, productive, organic and social-cultural. It was verified that the printed media cares more intensively of the students’ productive and social-cultural sectors rather than the relationalaffective and organic ones. Aiming to investigate the journalists’ way of thinking about these results, they were requested to fill out a questionnaire and it was verified that the majority of journalists are aware of the productivity and social-cultural sectors’ relevancy, but still consider all adaptative sectors’ presence important in their articles.. Index terms: Communication – Psychology – newspapers - university student - EDAO..
(12) Introdução Ao ler os jornais com observação atenta ao estudante universitário, percebe-se que dentre as diferentes ma térias veiculadas sobre esses jovens que, em geral, se encontram em final de adolescência e início de vida adulta, existem diversos assuntos relativos à sua produtividade. É como se, durante a época de graduação, seu sucesso ou fracasso estivessem voltados, com maior intensidade, às questões de estudo ou trabalho. Por outro lado, aspectos como a afetividade, os cuidados com a saúde e também com a sexualidade parecem portar menor relevância. A mídia impressa, ao noticiar sobre universitários, sinaliza a intenção de representá- los “positivamente” através daquilo que produzem (participação em congressos, produções científicas etc) e, por outro lado, “negativamente”, ao veicular notícias a respeito de seus comportamentos socialmente inadequados, como “rachas”, “crimes por ciúme”, participação “agressiva” em greves etc. Tomando como ponto de partida essas observações feitas apenas empiricamente, torna-se necessário entender de que forma o estudante universitário é, realmente, representado por essa mídia, ou seja, que imagem é levada ao leitor no que tange aos seus sucessos e fracassos, sua história de vida, seu modo de pensar, agir, estudar e se relacionar consigo mesmo, e com o outro. A idéia de desenvolver este trabalho em Comunicação Social é originária de um estudo psicológico realizado em serviço de apoio psicopedagógico universitário, denominado Pronto Socorro Psicopedagógico – PSP. Desta forma, é importante que se faça um elo entre as duas ciências, Comunicação e Psicologia: a Comunicação, ciência que dent re tantas especificidades, “empresta- nos”, agora, a mídia impressa para análise; e a segunda, a Psicologia, ciência que sustenta o estudo psicológico anterior, berço do presente trabalho, e também nos empresta um de seus instrumentos de trabalho, a Escala Diagnóstica Adaptativa Operacionalizada – EDAO (SIMON, 1989). Assim como a pesquisa psicológica anterior fez uso desta escala, aqui, também, optou-se por utilizá- la, mais especificamente, os seus quatro setores adaptativos que serão, gradativamente, abordados no decorrer deste trabalho. O teor que se quer ressaltar neste presente estudo é a incidência setorial que apresenta maior relevância nas notícias da mídia impressa veiculadas por três jornais: Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e A Tribuna. Como conseqüência, são tecidas considerações a respeito da “aplicabilidade ou não” da EDAO nos discursos escritos, haja vista que esta escala foi, origina riamente, elaborada para uso em discursos orais que contemplam entrevistas psicológicas, anamneses, triagens e indicações psicoterapêuticas..
(13) Não obstante, como se primou por analisar apenas um aspecto da mídia - notícias sobre universitários - não se discorrerá sobre as diversas teorias da Comunicação Social, sendo estas analisadas apenas quanto aos construtos teóricos de linguagem, discurso e forma de abordagem de seus autores, na medida em que proporcionam a intersecção entre Comunicação e Psicologia. Visando obter uma coleta ampla, variada e consistente de notícias para a realização da pesquisa, o instrumento utilizado para a seleção dos exemplares de jornais foi a “semana construída” (RIFFE; AUST; LACY, 1993, p.93). Por outro lado, a incidência setorial das notícias foi analisada à luz da Teoria Evolutiva da Adaptação (SIMON, 1989), mais especificamente, os setores adapativos da EDAO, sendo que ambos os instrumentos serão descritos em outro momento. Após a leitura das notícias e análise dos resultados setoriais foi elaborado e enviado a diversos jornalistas um questionário para verificar a forma de este profissional entender e se posicionar frente aos resultados obtidos na incidência setorial. Tomando-se como ponto de partida as situações aqui pinceladas, dá-se início ao desenvolvimento desta tese que contempla esta Introdução, cujo conteúdo se divide nas seguintes partes: Justificativa, Problema da Pesquisa, Hipóteses, Objetivos, Material e Método. Em seguida, seguem-se três capítulos que se calcam nos referenciais teóricos e fundamentam sobre os seguintes temas: Comunicação e Psicologia, Articulação da Linguagem e as Representações Sociais do estudante universitário, respectivamente, 1º, 2º e 3º. capítulos. Quanto aos referenciais teóricos, optou-se por utilizá- los de maneira gradual, isto é, ao invés de se fazer dos referenciais e respectivos autores um capítulo à parte, eles foram, pouco a pouco, incorporados a cada capítulo. O primeiro capítulo - Comunicação e Psicologia - retrata as diversas intersecções entre as duas ciências, e a forma como as interfaces as aproximam, levando em consideração o estudo do homem enquanto um ser biopsicossocial e cultural. O segundo capítulo - A articulação da linguagem nos processos comunicacionais aborda a mane ira como a linguagem se articula durante os processos da comunicação das duas ciências e, dentre as suas diversas dimensões, são analisadas a psicológica e a social. O terceiro capítulo - O estudante universitário e suas representações sociais discorre sobre alguns aspectos psicossociais dos jovens que se encontram no período de graduação, bem como as representações sociais criadas sobre esses estudantes através das notícias veiculadas pela mídia impressa..
(14) Após esse corpo teórico, chega-se ao quarto capítulo – Eficácia adaptativa de estudantes universitários - que apresenta e discute a pesquisa psicológica realizada junto à universidade que, conforme já mencionado, propiciou as condições para o desenvolvimento desta tese. O quinto capítulo – Análise dos resultados – refere-se à análise das notícias veiculadas pelos três jornais acima mencionados e, devido à extensão, foi dividido em quatro partes: 1. Análise da incidência setorial – diz respeito aos resultados obtidos pelos. setores adaptativos; 2. Análise do setor afetivo-relacional – concerne, exclusivamente, aos resultados das notícias sobre o comportamento dos jovens; 3. Análise da aplicabilidade da EDAO no discurso da mídia impressa; e 4. Análise do questionário enviado aos jornalistas e suas considerações sobre as notícias que a mídia impressa publica sobre universitários. Após esses capítulos com a revisão da literatura, considerações sobre a pesquisa psicológica e análise dos resultados, chega-se ao sexto capítulo - Considerações Finais. Para finalizar a tese, encontram-se as Conclusões e algumas Sugestões para pesquisadores que tenham por objetivo o estudo dos aspectos psicossociais do ser humano. Em seguida, são listadas as Referências (ENDNOTE, 1988-2002) que incluem as referências específicas da tese e aquelas utilizadas para o desenvolvimento da pesquisa junto ao PSP – Pronto Socorro Psicopedagógico. Em separado, listam-se as referências das notícias utilizadas como material desta pesquisa. Finalizando, encontram-se dois anexos: I- Termo de consentimento da pesquisa psicológica, e II- Modelo do questionário enviado aos jornalistas. Para melhor situar o leitor, é importante pontuar que o embrião desta tese data do ano 2001, quando tiveram início os atendimentos a estudantes universitários junto ao serviço de apoio psicopedagógico de uma universidade particular da Baixada Santista. Mais tarde, em 2002, a pesquisa referente aos atendimentos já estava em andamento sob a supervisão docente do Programa de Pós-Graduação em Psicologia, da Universidade Metodista de São Paulo. Em 2004, houve a transferência da aluna para o Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social, da mesma universidade, e optou-se por utilizar os mesmos resultados que ainda não haviam sido publicados, para verificar de que forma esses jovens se encontram representados pela mídia impressa..
(15) 1. Justificativa A constante leitura da mídia impressa e a observação de que o universitário parece ser representado muito mais por aquilo que ele produz do que por sua forma de ser, pensar e de se relacionar, levou- me a refletir sobre o trabalho que desenvolvi, durante alguns anos, numa universidade particular da Baixada Santista. Entre os anos 2001 e 2005, época em que era docente da disciplina de Psicologia em diversos cursos dessa universidade, alguns alunos costumavam me procurar nos intervalos das aulas para conversar sobre assuntos e dificuldades de ordem pessoal. Desde o início, embora encontrasse certa dificuldade para ouvi- los, dado o restrito tempo dos intervalos entre as aulas e o espaço não adequado para se falar “a dois”, a atitude de escuta já surtia efeito, pois alguns deles voltavam a me procurar mais tarde, e agradeciam- me como se eu tivesse resolvido o seu problema; na realidade, nada mais fazia do que ouvi- los, pontuando- lhes, quando possível, algumas de suas dificuldades, ajudando-os a percorrer o seu próprio caminho. Muitos alunos traziam como queixa algum problema acadêmico, porém, após alguns minutos de bate-papo (como eles diziam), deixavam transparecer conflitos pessoais, como sentimentos de solidão por estarem longe de casa, dificuldade para lidar com alguns colegas e com pessoas da família, resistência para aceitar determinações acadêmicas e, também, inseguranças pessoais e profissionais (no caso daqueles que já atuavam como profissionais em profissões correlatas e não correlatas ao curso de escolha). Eram situações rotineiras de um ambiente universitário, porém, quando somadas à história de vida de cada um, tornavam-se, às vezes, obstáculos para um desenvolvimento satisfatório tanto acadêmico como pessoal. Há alguns anos, venho observando e estudando o comportamento do estudante universitário e tal experiência se fortalece a partir de três vivências diferentes que convergem, de alguma forma, para essa faixa etária: experiência enquanto docente universitária, atendimentos a jovens na faixa etária entre 18 a 25 anos (final de adolescência e início de vida adulta) e, finalmente, minha pesquisa de Mestrado em Psicologia da Saúde, na Universidade Metodista de São Paulo, sobre o grau de eficácia adaptativa dos alunos do curso de Psicologia (FRANCO, 2001). Com base nessas experiências e no desejo de aprofundar meus estudos nessa área, propus à universidade onde eu era docente que criássemos um serviço de orientação psicológica aos alunos, Pronto Socorro Psicopedagógico - PSP, ajudando-os, dessa forma, a.
(16) encontrar respostas ou soluções adequadas para as diversas situações em que encontravam dificuldade Até meados de 2002, quando o Pronto Socorro Psicopedagógico que, doravante será chamado de PSP, ainda não contava com uma ampla divulgação devido à recente instalação, muitos daqueles jovens eram ou já haviam sido meus alunos. Era como se essas pessoas encontrassem um tipo de autoridade que não tivesse apenas a conotação de obediência ou superioridade; ali, na universidade, essa autoridade era sentida como respeito ou mesmo idealização para aqueles jovens (PHILLIPS, 1997, pp.105-116). Isto significa que o fato de ser docente e, ao mesmo tempo, responsável pelos atendimentos, não interferiu na procura por esse tipo de ajuda ou, se o fez, aconteceu de maneira positiva; era, inclusive, comum, durante os atendimentos, ouvir dos alunos: [...] “a Psicologia mexe tanto comigo, acho que quando a senhora estava falando naquele tal mecanismo de projeção, eu me vi direitinho quando a minha mãe joga a culpa na gente porque ela não se dá com o meu pai[...]” ou ainda: “[...] sabe aquele dia que você falou sobre o tal do id, quando a gente se liga mais em ficar com a galera do que estudar? Eu fiquei até quente, de tão vermelho. Parecia que eu ‘tava levando uma dura, mas valeu [...]”.. Durante os atendimentos, muitas queixas denotavam dificuldades de ordem emocional e, quando se referiam a problemas de baixo rendimento deviam-se, às vezes, a algum tipo de desarranjo emocional, desavenças em casa, dificuldades financeiras e, também, pouco tempo para estudar. Raramente se constatava que aquelas limitações para o aprendizado ocorriam por causa de dificuldades de ordem cognitiva, ou mesmo, dificuldade de organização de pensamento. O que se percebia é que havia uma gama de situações difíceis naquele momento de suas vidas que os impedia de seguir com tranqüilidade as diversas etapas dos anos de graduação. Ora, se o estudante universitário apresenta tantas inquietações em seus aspectos psicossociais, isto é, na forma de estar no mundo e com ele se relacionar nas mais diversas situações, será que a imagem do estudante que a mídia impressa leva ao leitor também reflete essas situações a ponto de propiciar uma ampla visão sobre quem é esse jovem? Visando dirimir esta dúvida e, possivelmente, contribuir para uma ligação mais estreita entre Comunicação e Psicologia, julguei necessário fazer uma leitura cuidadosa, crítica e, cientificamente, mensurada das notícias que envolvem esses jovens estudantes. Não obstante, cuidar da imagem do universitário, isto é, entendê- lo e, quando necessário, procurar meios de auxiliá- lo é, também, atentar aos futuros profissionais que, em breve, estarão no comando de nossas escolas, empresas e sociedade civil..
(17) 2. Problema da Pesquisa O tema desta pesquisa versa sobre os aspectos psicossociais que a mídia impressa, mais especificamente, o jornal, veicula sobre o estudante universitário. Na pesquisa psicológica realizada no PSP, foi constatado que, embora o universitário apresente queixas sobre dificuldades de aprendizagem e/ou dificuldades financeiras e, às vezes, também sobre algum problema de saúde, o foco da busca de ajuda, em geral, são as situações relativas aos relacionamentos interpessoais. As queixas sobre aprendizagem, dificuldades para custear os estudos e saúde também podem aparecer relatadas como o motivo que leva o universitário a buscar ajuda junto ao serviço de apoio, mas, às vezes, podem encobrir outras dificuldades de ordem pessoal. Da mesma forma que essas diferentes queixas podem camuflar a verdadeira necessidade do pedido de ajuda por parte do aluno, também o corpo docente, em geral, solicita- lhes atendimento devido a dificuldades cognitivas e, muitas vezes, financeiras. O que se constata é que, aparentemente, a necessidade da busca de ajuda psicopedagógica nem sempre é clara e nem sempre reflete a real necessidade do aluno. Isto significa que a imagem que se tem do estudante universitário, mesmo dentro da universidade, é, muitas vezes, criada pelos motivos aparentes e não pela sua essência. Enfim, os aspectos produtivos, sociais e orgânicos são, de forma geral, menos passíveis de preconceitos e constrangimentos e, portanto, mais aceitos; por outro lado, os aspectos afetivos não podem ser desprezados ou colocados em segundo plano, pois constituem a essência do ser humano. Ora, se dentro do próprio ambiente acadêmico, espaço que deveria estar voltado ao acolhimento do aluno como um todo, existe dificuldade para ver e lidar com algumas necessidades que vão além da transmissão do conhecimento, isto é, permeiam as questões de sociabilização, cidadania, bem como inserção no mercado de trabalho, como será o comportamento de outros âmbitos a que pertencem esses estudantes? Se a época de graduação é capaz de aflorar ou acentuar os mais diversos sentimentos e, também algumas inquietações frente às questões acima mencionadas, será que em outros espaços, a situação é a mesma? Em sendo a mídia, dentre as suas mais diversas especificidades, propagadora da imagem que se cria sobre os acontecimentos e sobre as pessoas, será que consegue abstrair do universitário alguns desses aspectos mais profundos ou também fica na superficialidade? Ao noticiar o universitário, a mídia abarca essas questões pessoais, ou o seu papel é apenas retratar o universitário como sendo mais um fato, um acontecimento que faz notícia porque produz ciência, instrumento que mantém o ibope e, portanto, mantém ativo o jornal a que pertence?.
(18) 3. Hipóteses Considerando os resultados obtidos na pesquisa psicológica quanto à hegemonia de aspectos afetivos e produtivo s nas queixas dos atendimentos ao jovem universitário, em detrimento dos aspectos sócio-culturais e orgânicos; Considerando que as notícias sobre comportamentos inadequados chamam à atenção do leitor, sendo motivo de constantes comentários nas diversas camadas da sociedade; Considerando que a Escala Diagnóstica Adaptativa Operacionalizada - EDAO, devido à sua consistência instrumental, foi de grande valia na identificação dos entraves que interferem negativamente na vida de estudantes, durante a época de graduação, levantam-se algumas hipóteses: 1. A mídia impressa, ao noticiar o estudante universitário, prioriza os assuntos relativos aos aspectos afetivo-relaciona is e produtivos desses jovens; 2. Ao abordar notícias sobre o setor afetivo-relacional de universitários, a mídia impressa dá mais ênfase aos comportamentos considerados inadequados, em detrimento daqueles socialmente aceitos; 3. A EDAO, utilizada em entrevistas e atendimentos (discurso falado), pode ter sua utilização ampliada para área da Comunicação Social, no que tange à análise do discurso da mídia (discurso escrito)..
(19) 4. Objetivos . Geral Através da análise setorial da EDAO, verificar de que forma os jornais Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e A Tribuna fazem a representação social do estudante universitário e, em que medida este instrumental se adequa à análise da mídia impressa. . Específicos 1. Identificar qual é o setor da EDAO de maior incidência nas notícias publicadas pela mídia impressa sobre o estudante universitário; 2. Verificar se, ao abordar notícias sobre o setor afetivo-relacional, a mídia enfatiza os comportamentos socialmente aceitos, ou se as notícias sobre comportamentos considerados inadequados são aquelas que veiculam com predominância; 3. Analisar em que medida a EDAO pode ser útil na área da Comunicação no que tange ao discurso da mídia impressa; e 4. Verificar o posicionamento de jornalistas frente aos resultados obtidos na análise da incidência setorial de notícias sobre estudantes universitários..
(20) 5. Material e Método Para o desenvolvimento, bem como posterior análise quali-quantitativa desta pesquisa, foram utilizados dois instrumentos: a semana construída (RIFFE; AUST; LACY, 1993) e a EDAO (SIMON, 1989). Além desses instrumentos que serviram, respectivamente, para selecionar as notícias e analisar sua incidência setorial, foi elaborado e enviado a jornalistas um que stionário, com a finalidade de se verificar como esses profissionais se posicionam frente aos resultados obtidos na análise setorial adaptativa. Tendo em vista os diferentes instrumentos que ajudaram a construir este trabalho, as questões metodológicas encontram-se descritas em três etapas, a saber: 1ª. etapa - Seleção dos exemplares dos três jornais e das notícias sobre universitários; 2ª. etapa - Análise setorial das notícias; e 3ª. etapa - Questionário enviado aos jornalistas.. 1ª. etapa Nesta primeira etapa, foi utilizada a semana construída (RIFFE; AUST; LACY, 1993) para selecionar os dias de coleta dos exemplares produzidos por três jornais impressos: Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, jornais de repercussão no Estado, e A Tribuna, principal jornal da Baixada Santista, local onde foi realizada a pesquisa psicológica anterior, descrita no Capítulo IV desta tese. A semana construída tem sido um dos instrumentos utilizados em pesquisas para se estipular o número ideal de exemplares de jornais a serem confeccionados para atingir uma determinada população. Através da análise de outras pesquisas com semelhantes objetivos, esses estudiosos fizeram uma comparação entre três técnicas diferentes. A primeira técnica consistia em escolher os dias de emissão dos jornais de maneira aleatória – técnica randômica. A segunda técnica consistia em analisar as notícias de jornais emitidos em dias consecutivos. Finalmente, a semana construída, resumia-se em iniciar o trabalho de análise num determinado dia da semana e, na semana seguinte, dar seqüência à análise utilizando o dia posterior, e assim por diante, até que todos os dias da semana fossem utilizados. Após alguns estudos esses pesquisadores verificaram que a semana construída era a mais confiável, pois apresentava o menor número de falhas..
(21) “Semanas construídas poduzem melhores estimativas do que as amostras puramente randomizadas porque evitam que os domingos sejam utilizados como amostra, de maneira repetida […] amostras retiradas de dias consecutivos são bem fáceis e mais convenientes de se usar e, desta forma, os dias da semana conseguem ser representados, porém este tipo de instrumento pode não ser um meio confiável para se fazer estimativas de períodos de seis meses ou mais”. (RIFFE; AUST; LACY, 1993, p.93).1 (tradução da autora da tese).. Desta forma, para o desenvolvimento desta tese foi ut ilizada a semana construída, porém, ao invés de apenas 01 semana, foram utilizadas 02 semanas construídas visando coletar um número maior de notícias veiculadas na mídia impressa sobre estudantes universitários e, conseqüentemente, dar mais consistência aos resultados obtidos. A coleta das amostras teve início no dia 07 de agosto de 2005 (domingo), e terminou no dia 19 de novembro (sábado) do mesmo ano :. As notícias analisadas, num total de 61, foram coletadas em 42 exemplares veiculados durante 14 semanas, conforme demonstrado na tabela acima; desta forma, os jornais foram lidos em dias diferentes, a cada semana, obtendo-se, assim, uma visão panorâmica sobre as notícias que tratavam do estudante universitário durante os meses de agosto a nove mbro de 2005. Para delimitar o campo de trabalho de forma clara e consistente, foram selecionadas apenas as notícias que se reportavam ao aluno universitário, excluindo, portanto, as notícias sobre cursos oferecidos pelas universidades, ofertas de emprego para universitários, estágios, lista de aprovações em vestibular, publicações de professores, pesquisas de pós-graduandos, etc.. 1. Texto no original: “Constructed weeks produce better estimates than purely random samples of days because they avoid the possibility of over sampling Sundays […] consecutive day samples are very easy and convenient to use and different weekdays may be represented, but they are not a reliable means of estimating content for a six-month period or longer” (RIFFE; AUST; LACY, 1993, p.93)..
(22) Ressalta-se que o termo notícia deve ser entendido no sentido jornalístico do termo, isto é, um artefato lingüístico que representa aspectos da realidade sendo um resultado de um processo de construção onde também interagem outros fatores de natureza pessoal, social, ideológica, cultural (SOUZA, 1999). Esta apreciação do termo notícia parece também ampliar o pensamento de Alsina quando de sua conotação enquanto representação social da realidade cotidiana que se produz institucionalmente e se manifesta na construção de um mundo possível (ALSINA, 1989). Desta forma, aqui, a notícia deve ser entendida como um dos elementos primordia is à construção das sociedades, pois, também, é a partir delas que se constróem as representações sociais do objeto de estudo, neste caso, o estudante universitário. Assim, devido ao papel relevante que as notícias ocupam na imagem que constróem da realidade, o seu acesso vai, pouco a pouco, auxiliando a formar uma identidade comum na população leitora daquela mídia, fazendo com que novas realidades sejam construídas. A mídia, por sua vez, vocábulo originário da língua inglesa (media) deve ser aqui entendido como meio de comunicação que, segundo Fausto Neto, estrutura e estrutura-se no espaço público (FAUSTO NETO, 1999). Desta forma, serve como mediadora de diferentes campos da sociedade e, neste caso específico, com base no discurso escrito, auxiliou no processo de representação social criada sobre o estudante universitário. 2ª. etapa. Após a seleção dos exemplares e das notícias, partiu-se para a segunda etapa, ou seja, a verificação da incidência setorial em cada notícia publicada sobre o estudante universitário. Decorridos os dias estipulados para a semana construída, as notícias foram analisadas de acordo com os setores adaptativos da Escala Diagnóstica Adaptativa Operacionalizada - EDAO, pertencente à Teoria Evolutiva da Adaptação (SIMON, 1989). Nessa teoria, Simon afirma que todos os indivíduos se encontram, de alguma forma, adaptados, isto é, para estar adaptado, basta estar vivo; o que varia é o grau de sua adaptação à vida. Desta forma, pode-se dizer que existem indivíduos que se encontram mais eficazmente adaptados e outros que, por algum motivo, encontram-se menos adaptados. Resumidamente, a adaptação pode ser entendida como o conjunto de respostas que uma pessoa apresenta para satisfazer as suas necessidades com a finalidade de se manter viva. A EDAO é o instrumento diagnóstico criado a partir desses estudos e começou a ser elaborada em 1970, quando Simon assumiu a coordenação do Setor de Saúde Mental do.
(23) Serviço dos Alunos, a cargo do Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina. O objetivo da escala era fazer uma triagem da população estudantil de maneira mais simples que as escalas psiquiátricas tradicionais, evitando, inclusive, que os alunos que se encontravam mais desgastados emocionalmente, tivessem que aguardar muito tempo na fila de atendimento. Através das respostas que um indivíduo emite durante uma entrevista diagnóstica, a EDAO consegue detectar qual é a sua situação-problema, isto é, pontua os fatores ambientais que, ao interagirem com fatores intrapsíquicos desse sujeito, podem lhe provocar algum tipo de desequilíbrio. Para fins didáticos, o autor divide o ser humano em quatro setores adaptativos (SIMON, 1989):. Pelos dados colhidos na entrevista, pode-se avaliar a adequação de cada um desses setores e, desta forma, detectar em que setor se encontram as questões em que esses indivíduos apresentam maior dificuldade. Deve-se levar em conta que a adequação ou inadequação de um setor pode interferir substancialmente em outro, como se fossem as próprias reações colaterais do indivíduo (SIMON, 2005, p. 89). Isto significa que o fato de um setor se encontrar desestruturado pode levar ao comprometimento de qualquer outro setor. Por exemplo, uma situação de perda de emprego (PR) pode levar um indivíduo a adoecer (OR) 2 . Por outro lado, quando um setor se apresenta de maneira bastante eficaz, também poderá auxiliar na reestruturação de um outro setor que esteja comprometido. Por exemplo, o fato de se sentir querido e apreciado (AR) pode levar este mesmo indivíduo a lutar por uma. 2. OR – a abreviação deste setor, segundo Simon, é ORG. Aqui, optou-se pela utilização de apenas duas letras para ficar semelhante aos outros setores adaptativos (AR, PR e SC).
(24) nova colocação no mercado de trabalho (PR) e, conseqüentemente, o setor OR, que também estava desestabilizado tende a se recuperar com mais rapidez.. Como se vê, a EDAO também objetiva “classificar” os indivíduos em grupos de maior ou menor adequação, e, desta forma, identifica a melhor forma de lidar com este indivíduo, seja através de orientação psicológica ou outro tipo de intervenção. Como o objetivo desta tese não é a classificação dos estudantes ou de notícias sobre os mesmos em grupos diagnósticos, tampouco fazer intervenções clínicas, ater-se-á apenas à identificação do setor adaptativo e sua maior ou menor incidência nas notícias publicadas sobre esses jovens, pelos três jornais mencionados. Na pesquisa psicológica realizada com os universitários (capítulo IV), verificou-se que a maioria das queixas dos estudantes se refere ao setor afetivo-relacional. Questões relativas à produtividade, embora também apareçam em grande escala, são menos incidentes quando comparadas às do setor afetivo-relacional e, quando surgem, servem, muitas vezes, como uma forma de camuflagem de uma dificuldade afetiva, talvez uma maneira menos angustiante de trazer à tona as dificuldades de ordem pessoal. Finalmente, queixas referentes ao setor orgânico apresentam baixa incidência e não há queixas referentes ao setor sócio-cultural, salvo quando essas queixas se mesclam ao setor afetivo-relacional. Estes dados foram colhidos através de entrevistas, atendimentos e orientações psicológicas, e ajudam a compreender o aluno como um todo. Nesta tese, portanto, a partir da análise setorial das notícias sobre universitários, busca-se verificar se alguns desses dados obtidos na pesquisa psicológica costuma m ser retratados pela mídia impressa e que grau de importância ela lhes atribui. Ressalta-se, ainda, que a EDAO, diferentemente da forma por que foi elaborada, isto é, visando o discurso falado, análise setorial, identificação de situações-problema, bem.
(25) como indicação de modalidades psicoterapêuticas (breve, tradicional, etc) foi, nesta tese, utilizada como eixo de identificação setorial de notícias veiculadas pela mídia impressa. Como se pode perceber, existem duas inovações quanto à utilização da EDAO nesta tese: em primeiro lugar, a aplicação da escala em área diferente da Psicologia, isto é, na Comunicação Social; em segundo lugar, a sua utilização para analisar a incidência setorial de notícias veiculadas através do discurso escrito e não falado. 3ª. etapa. A terceira e última etapa metodológica envolveu um questionário enviado a 100 jornalistas (Anexo II) e que, por questões éticas, não foram identificados por nome, tampouco por seu local de trabalho ou moradia. Trata-se de um questionário com 10 perguntas de múltipla escolha, cada uma com 04 alternativas (a, b, c, d), e tem como base os resultados obtidos na análise setorial da EDAO sobre as notícias selecionadas através da semana construída. Devido à multiplicidade de respostas, os resultados quantitativos foram demonstrados gradativamente, abordando uma questão de cada vez, iniciando pelo maior percentual obtido até o percentual mais inferior, de cada questão, separadamente. Isto significa que a ordem em que as alternativas aparecem nesta análise (Capítulo V – parte 4) não é, necessariamente, a mesma em que apareceram no questionário enviado aos jornalistas. Quando da ocorrência de respostas que acusassem as alternativas a, b ou c, foi feita a respectiva tabulação e os resultados foram analisados quantitativa e qualitativamente. As respostas relativas às alternativas d foram, em geral, analisadas apenas qualitativamente, pois se referem aos comentários dos jornalistas quando de sua discordância sobre as alternativas apresentadas pela pesquisadora, ou momentos em que esses profissionais quiseram expor opiniões sobre o questionário. Desta forma, optaram pela alternativa d que, além de se referir a um espaço aberto e, portanto, mais difícil de levantamento estatístico, a freqüência pela sua escolha foi relativamente baixa, o que reforça a não necessidade de análise quantitativa, na maioria dos casos. Por outro lado, quando o percentual relativo a esta alternativa foi relevante, isto é, mais alto do que o maior percentual alcançado pelas demais alternativas, o levantamento quantitativo da questão foi, naturalmente, realizado. Após essas três etapas metodológicas que nortearam o desenvolvimento da pesquisa sobre os aspectos psicossociais do estudante universitário veiculados pela mídia impressa, isto é, seleção das notícias, análise da incidência setorial e o questionário enviado.
(26) aos jornalistas, foram feitas algumas sugestões sobre as possibilidades da utilização da EDAO em outros tipos de discurso. Antes, porém, de descrever os resultados obtidos, é interessante que se canalize a atenção para os aspectos teóricos abordados, bem como à descrição da pesquisa psicológica junto ao PSP, embrião da presente tese..
(27) Capítulo I - Comunicação e Psicologia Embora a Comunicação e a Psicologia pertençam, acadêmica e profissionalmente, a campos diferentes de atuação, estabelecem, por vezes, algumas intersecções. Levando-se em conta a Comunicação enquanto área de desenvolvimento desta tese, em especial no que concerne à mídia impressa, e a Psicologia enquanto área de estudo do homem, seu comportamento e, também, sua subjetividade, cabe fazer alguns paralelos entre as duas ciências, através da alusão a autores que, há muito, corroboram estes estudos. Não se pretende, aqui, discorrer sobre os diversos conceitos teóricos da Comunicação ou da Psicologia, mas se quer apontar como o ato comunicacional subsidia o comportamento do homem e as relações que ele estabelece com o meio, e de que forma os aspectos psicológicos também acabam por subsidiar o ato da comunicação. Partindo da premissa que as duas áreas visam o homem enquanto um ser biopsicossocial e cultural, analisam-se, então, as possíveis intersecções que permeiam as duas ciências, a forma como a linguagem se articula para constituir o processo comunicacional, bem como as implicações nele envolvidas. Para introduzir o conceito de linguagem, mesmo que de forma resumida, é importante situar, no tempo e no espaço, a Teoria da Informação cuja essência é a transmissão da mensagem e a relação entre os elementos desta transmissão. Vários estudos foram realizados com base em sistemas matemáticos e, conforme Matterlart, a Teoria da Informação foi elaborada pelo matemático e engenheiro elétrico Claude Elwood Shannon, por ocasião de seu trabalho com códigos secretos, durante a Segunda Guerra Mundial. (MATTELART; MATTELART, 2004, pp.58-59) Shannon entendia que o sistema geral de comunicação consistia na reprodução, em um dado ponto, de uma mensagem selecionada em outro ponto, o que significa que o sistema comunicacional funcionava de maneira linear. O sistema consistia da fonte (informação) que produzia uma mensagem (a palavra no telefone), ainda, o emissor que transformava a mensagem em sinais (telefone), o canal (cabo telefônico), o receptor, que reconstruía a mensagem, e, finalmente, a destinação, isto é, a quem a mensagem era transmitida. O objetivo de Shannon era delinear o quadro matemático no interior do qual se tornava possível quantificar o custo de uma mensagem e obter a diminuição deste custo através da redução de seus ruídos, isto é, as perturbações aleatórias que poderiam distorcer a correspondência entre os dois pólos, emissor e receptor..
(28) O modelo criado por Shannon teve origem em diversos estudos, dentre os quais se destacam os trabalhos de Markov sobre as cadeias de símbolos na literatura, o dígito binário e a oposição binária de Hartley e o esque ma para tratar essa informação, de Turing, a máquina de calcular eletrônica para medir as trajetórias balísticas de Neumann e, finalmente, os estudos ligados à cibernética, de Wiener. Como se pode observar, o processo da comunicação baseado nesses modelos acima citados é linear, ou seja, a mensagem é emitida pelo emissor e decodificada pelo receptor, sem que seja levado em conta o sentido que o receptor atribui à mensagem, tampouco a intenção do emissor no momento em que a emite. Mais tarde, ainda de acordo com Mattelartt, o antropólogo Gregory Bateson, auxiliado por estudiosos de diversas áreas, impulsionou a criação da Escola de Palo Alto, nos Estados Unidos, em 1940 (MATTELART, 2002, p.67). Essa escola era também chamada Colégio Invisível, e seus estudos culminaram no modelo circular de comunicação que, anteriormente, já havia sido proposto por Wiener. Este estudioso via a necessidade de a informação se estender aos meios de utilizar, estocar e de ser transmitida através da utilização do rádio, da imprensa, enfim, uma forma de evitar que tal informação pudesse circular de forma deficiente. Os estudiosos que primavam pela idéia de circularidade na transmissão de uma mensagem entendiam que a comunicação deveria ser estudada pelas ciências humanas, com embasamento em uma abordagem sistêmica, isto é, interativa, levando-se em conta a Lingüística e a Lógica. O grupo já pontuava que as relações entre os elementos da comunicação tinham considerável importância no processo comunicacional e fundamentaram a existência de uma lógica no que concerne à relação entre as mensagens do contexto horizontal (sucessivas), e aquelas do contexto vertical (relação entre os elementos e o sistema). Esta teoria também admitia que as perturbações psíquicas pudessem ocasionar perturbações da comunicação entre o indivíduo e o meio (MATTERLART, op.cit., p.68); inclusive, Bateson e seus colaboradores foram criticados por desprezarem algumas situações de conflito que predominam em diferentes fases psicossexuais (MARCONDES, 2003, p.228), o que poderia interferir sobremaneira nas futuras relações interpessoais dos indivíduos. Esta idéia, de alguma forma, contradiz as premissas da Escola de Palo Alto porque para os estudiosos da escola, o comportamento humano possui uma gramática que, de forma consciente ou não, é utilizada nas relações interpessoais e, portanto, afeta a comunicação e,.
(29) sendo assim, as fases psicossexuais deveriam ser lembradas enquanto possíveis geradoras de conflitos durante a vida adulta. A despeito de críticas que, sem dúvida, foram construtivas porque levam à reflexão e ao aprofundamento da análise, a Escola de Palo Alto foi pioneira no entendimento da Comunicação enquanto um processo circular de informação e entende o comportamento humano, seja verbal ou não-verbal, como um processo contínuo e conjunto. A postura Batesoniana reforça a utilização de uma linguagem que, embora manifesta através de gramáticas e regras talvez inconscientes, é calcada em escolhas de uma determinada cultura e dentro de um processo sócio-histórico. É esta linguagem que permeia o discurso humano e, portanto, acompanha a sua evolução, mantendo-se como o elo central que propicia a interface do homem psíquico e social e o meio, através dos tempos. A linguagem, veículo da comunicação enquanto elemento de interação social, vem sendo estudada há muitos anos, sendo Ferdinand de Saussure, no início do século XX, o precursor do estudo sistematizado da linguagem humana, a Lingüística. Ainda, por volta de 1930, encontra-se Pierce que, através de seus estudos na área da Semiologia, apresenta uma preocupação voltada não só à linguagem humana, como também animal. No que se refere à comunicação, preocupa-se com a dinâmica existente entre emissor e receptor, não no sentido de uma simples transferência da informação entre os dois, mas numa transferência do sistema de um para o sistema do outro (TEMER; NERY, 2004, p.128). Isto significa que a comunicação precisa levar em conta não apenas “o quê”, mas “de que forma” e “sob que condições” as mensagens são elaboradas e emitidas, pois se trata de uma ciência voltada aos signos e à forma como esses signos se inserem nos aspectos humanos, sejam eles culturais ou psicológicos. Corroborando a idéia de que as línguas e, conseqüentemente, a linguagem, só existem na medida em que se associam aos grupos humanos, Orlandi sugere que as questões históricas implicam nas questões sociais e vice- versa, não existindo autonomia quanto às modificações que ocorrem tanto na língua como nas sociedades em que esta língua se insere (ORLANDI, 1987, p.90). No que diz respeito à mídia impressa, este construto teórico remete à idéia de uma ligação intrínseca e circular entre homem-discurso- mundo- homem, isto é, a comunicação só se torna produtiva na medida em que consegue enxergar e respeitar a presença e a atuação do homem no ambiente que o cerca; caso contrário, um fato ocorrido, ao ser analisado de forma alheia a um determinado contexto sócio-cultural, seria apenas um fato estanque e, portanto, não se tornaria notícia..
(30) Na realidade, o interesse pela linguagem e pelos textos, data de muitos anos e se divide em duas práticas, a interpretativa e a retórica. A prática interpretativa teve início com os antigos oráculos gregos sendo, mais tarde, utilizada nos textos religiosos, jurídicos e literários, enfim, uma prática voltada às ciências humanas e sociais, isto é, História, Sociologia, Antropologia, Lingüística e Psicologia. A prática retórica, por sua vez, teve origem nas colônias gregas da Sicília, no ano 484 a.C.; era conceituada como um conjunto de técnicas para criação de texto políticos, de tribunal e de homenagem e tratava de textos proferidos ao vivo (PINTO, 2002, p.67). Percebe-se, então, que desde tempos muitos remotos, a comunicação já engatinhava como forma de interação social; a escrita, por exemplo, encontra suporte na utilização de tabuletas de madeira, marfim, bambu, pétalas de flor, papiro, papel e, enfim, a imprensa (PENA, 2005, p. 27), objeto de investigação desta tese. Como se vê, o conceito de comunicação vem, há muito, sendo estudado e, desta forma contribui, substancialmente, para o entendimento do homem em seus aspectos diversos. Dentre esses aspectos, ressaltam-se os fatores biopsicossociais, isto é, o homem enquanto um ser que se comunica para expressar seus anseios, dificuldades, sentimentos, enfim, as diversas possibilidades de garantir sua existência no mundo. Por outro lado, este entendimento da comunicação também se estende ao homemtrabalho, ou seja, aquele que se utiliza da ciência Comunicação para realizar projetos profissionais, dentre os quais, o auxílio no processo de captação, redação e divulgação de ocorrências de fatos, de maneira rápida e eficaz, isto é, a mídia. A priori, embora o papel da mídia não seja acelerar a comunicação entre emissor e receptor, acaba por fazê- lo e, neste sentido é que se torna importante entender como acontece o processo comunicacional, não apenas enquanto processo de transmissão da informação, ou como a rapidez com que este processo acontece, mas também, através das inúmeras transformações técnicas por ele sofridas e que o mantêm em constante progresso. Para lembrar Squirra, o progresso das técnicas de comunicação, em especial, nos último 40 anos, representa uma conquista e um desafio para a Humanidade (SQUIRRA, 1995). Não obstante, há que levar em conta não apenas as mudanças de ordem técnica, mas a situação atual da profissão jornalista que, no passado, embora dependesse dos grandes proprietários e da autoridade do capital, ainda conseguia exercer poder através do uso da sensibilidade da opinião pública. Hoje, esse mesmo profissional se vê pressionado por uma qualidade diferente do poder, isto é, ele se desloca em relação direta com as pessoas, através da tecnologia (MARCONDES, 2002, pp.57-58)..
(31) Corroborando esta visão da importância da tecnologia, Veronezzi acrescenta que, no lugar da mensagem, o meio se tornou o principal pólo do processo da comunicação pois é transferido ao receptor o poder de decidir quando, o quê, quanto e onde ele quer ver, ouvir, ler ou arquivar as informações sobre as quais tem acesso e interesse (VERONEZZI, 2005, p.196). Assim, há a necessidade de aceitar e lidar com os constantes avanços tecnológicos, ficando à mercê das mudanças e sendo, então, obrigado a romper com alguns paradigmas construídos ao longo dos tempos. É a partir deste desafio que também acontece a interdisciplinaridade científica, neste caso, da Comunicação e da Psicologia. Se por um lado, a Comunicação está preocupada em colocar no mercado profissionais preparados para abarcar os avanços tecnológicos, a Psicologia, neste caso, a Psicologia Social, preocupa-se em entender e auxiliar a adaptação do homem aos novos valores do processo comunicacional. Quando se fala sobre processo comunicacional, pensa-se na circularidade da informação e, neste caso específico, faz-se referência à informação prestada pela mídia impressa e sua chegada ao leitor. Este processo, embora não verbal, é contínuo e implica um todo comunicacional calcado em construtos teóricos, tanto da Comunicação como da Psicologia e, portanto, envolve diversos aspectos do ser humano, em especial, a sua forma de se situar no mundo. É como se as duas ciências, em alguns momentos, estivessem ligadas pela existência do homem; aqui, especialmente, alude-se à linguagem enquanto uma das formas que este homem, não apenas técnico, mas também psicológico e social, encontra para expressar seu trabalho, isto é, produzir a notícia..
(32) Capítulo II - A articulação da linguagem nos processos comunicacionais Com base nesses diferentes estudos citados no capítulo anterior, pode-se perceber que a linguagem perpassa as questões lingüísticas, sendo constituída, desde a sua mais antiga utilização, por outras duas dimensões: uma dimensão psicológica e uma dimensão social. Em seu aspecto psicológico, a linguagem é vista como uma forma de conhecimento, ou seja, uma forma de cognição. Por outro lado, em seu aspecto social, a linguagem é concebida como um instrumento do qual o indivíduo se vale para interagir com o mundo que o rodeia. Transcendendo as origens do estudo da linguagem cujo objetivo é vencer o espaço e abolir a distância (JAKOBSON, 1997, p.24) e, de certa forma, também rompendo com a tradição estruturalista de Saussure e de Pierce, em que o processo de comunicação tinha como base as formas gramaticais e o entendimento de códigos lingüísticos, começaram a surgir outros autores, que entendem o processo comunicacional como um fenômeno social. Bakhtin, por exemplo, faz uma crítica à função apenas comunicativa da linguagem e julga necessário que o ato de nos comunicar com o outro seja configurado como um processo comunicacional (BAKHTIN, 1997, p. 290). Isto significa que, em detrimento da passividade do receptor, como rezava o esquema estruturalista anterior, faz-se, então, necessário que o processo implique em um “todo” comunicacional porque o receptor, ao receber a mensagem, concorda ou discorda, completa, adapta-se, enfim, seu papel é tão ativo quanto o do emissor. Tendo em vista esses aspectos da Comunicação referentes à linguagem e de que forma ela se articula para constituir a comunicação é que foi desenvolvido este trabalho. Neste caso, a articulação da linguagem não deve ser entendida como relativa à clareza que propicia uma compreensão adequada de mensagens, mas como a ligação entre duas coisas (O'SULLIVAN; HARTLEY; SAUNDERS; MONTGOMERY; FISKE, 2001, p.28), isto é, a linguagem e suas interfaces em cada discurso noticiado. Desta forma, leva-se em conta a função de representação e simbolização (FREITAS, 1992, pp.24-25), sendo entendida não apenas como um acessório do ser humano que se comunica através da veiculação da notícia, mas inerente a todo um sistema psicossocial, onde acontecem as interações homem- mundo. Partindo da premissa que o processo comunicacional possui um modelo circular, seja no discurso falado ou escrito, infere-se que a comunicação da mídia impressa, neste caso, o jornal, também se constitui desta forma..
(33) O jornalista, ao se manifestar, tem a intenção de atingir um determinado público, ou seja, manifesta-se ativa e intencionalmente. O leitor, por sua vez, reage de maneira favorável ou não e, conforme citado, este receptor se posiciona de forma tão ativa quanto o emissor, o jornalista. É, pois, esta circularidade que mantém ativo o processo comunicacional; neste caso específico, quanto ao processo “jornalista – notícia sobre estudantes universitários – leitor”, pode-se, então, inferir que o jornalista, ao noticiar sobre o universitário, traz em seu discurso uma fala que, embora técnica, tem como autor não apenas o jornalista enquanto “profissional”, mas o “homem jornalista”, um ser biopsicossocial e cultural que recebe interferências, conscientes ou não, em seu modo de pensar, agir e, naturalmente, redigir. O leitor, por sua vez, ao receber a mensagem, compreende-a não só do ponto de vista da decodificação lingüística, mas a recepção desta mensagem também perpassa este leitor “homem”, este leitor “social”, implicando uma reação particular de cada um que a lê. Em ambos os casos, com base na circularidade da mensagem que liga os componentes dessa relação, jornalista e leitor, há que se levar em conta a subjetividade de cada um e dos diferentes grupos sociais que têm acesso a essa leitura, bem como o fato de a mídia pertencer a um âmbito de domínio público. Isto significa que esses discursos transcendem a esfera da linguagem enquanto instrumento de comunicação e alcançam a dimensão de uma prática social. Como exemplo desta prática social, alude-se ao jornalista que, ao noticiar sobre universitários, também necessita atingir leitores de outros níveis culturais, isto é, além dos próprios universitários, suas mensagens são, aleatoriamente, também destinadas aos alunos de Ensino Médio que se preparam para adentrar a universidade, aos pais desses alunos, aos acadêmicos, aos desportistas que buscam patrocínio universitário, às donas de casa que folheiam o jornal, enfim, as mensagens destinam-se a pessoas de diferentes interesses e níveis culturais. Isto sugere a existência de uma preocupação que se volta não apenas à acessibilidade léxica dos leitores da mídia não especializada, mas necessita apresentar um discurso através de enfoques sociais que despertem o interesse de diversos leitores, em detrimento de posturas que, embora abstraídas da ciência, necessitam ser transformadas em teor de interesse público. Como exemplo da situação apontada, poder-se-ia pensar em notícias de catástrofes, onde o teor poderia ser um terremoto, uma chuva mais intensa ou mesmo um clima exaustivamente quente; ora, se estas situações não forem contextualizadas, isto é, colocadas como precursoras de um risco social local, nacional ou mesmo internacional, o fato.
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