Revisão do processo penal: os recursos
1Uma primeira palavra de agradecimento à Escola de Direito da Universidade
do Minho e à Associação Jurídica de Braga pelo honroso convite que me dirigiu, para
participar no Simpósio de Direito Processual Penal, que em boa hora decidiu
empreender.
Com efeito, com o futuro do direito processual penal como tema actual,
celebra-se, nos 20 anos de vida do Código, a importância do direito processual penal na
realização da Justiça Penal2, homenageando-se do mesmo passo, o Senhor Professor
Doutor Jorge de Figueiredo Dias, uma indesmentível e incontornável referência de
cidadania e do nosso direito e processo penal, Presidente da Comissão de Elaboração
do Código de Processo Penal.
E o momento, em que se anuncia uma revisão ampla deste diploma, com o
espaço acrescido de diálogo que pode gerar, é sem dúvida apropriado.
É, pois, com gosto que modestamente me associo a tal iniciativa.
I
Entrando no tema escolhido, importa começar por salientar a importância da
matéria dos recursos no âmbito do processo penal.
Proclama-o a parte final do n.º 1 do art. 32.º da Constituição, que a partir da
revisão constitucional de 19973, inclui expressamente o recurso entre as garantias de
defesa, que o processo penal deve assegurar.
Mas já devia entender-se (e se entendia) do mesmo modo anteriormente4.
1 Intervenção em Sessão subordinada ao tema: «Do processo penal interno ao processo penal internacional:
alguns aspectos críticos», integrada no Simpósio de Direito Processual Penal, organizada pela Escola de Direito da Universidade do Minho, quinta-feira, 25 de Janeiro de 2007, 21.30 horas na Associação Jurídica de Braga. Publicado em Que futuro para o direito processual penal?: simpósio em Homenagem a Jorge de Figueiredo Dias, por ocasião dos 20 anos do Código de Processo Penal Português / coordenação Mário Ferreira Monte [et al.], Coimbra Editora, 2009.
2 Na concreta realização dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos e na afirmação do Estado de
Direito Democrático.
O recurso apresenta-se como meio processual destinado a sujeitar a decisão a
um novo juízo de apreciação, agora por parte de um tribunal hierarquicamente
superior, imposto pela necessidade de garantir a principal via de reapreciação das
decisões em processo penal, ante o auto-esgotamento do poder jurisdicional, em cada
instância5; é o principal caminho legal para corrigir os erros cometidos na decisão
judicial.
“O direito ao recurso constitui uma das mais importantes dimensões das
garantias de defesa do arguido em processo penal”
6, como lembrou o Tribunal
Constitucional
7, o que significa que, no domínio processual penal, se afirma o princípio
do direito a um duplo grau de jurisdição
8.
Ele integra, na jurisprudência do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, o
julgamento equitativo a que se refere o n.º 1 do art. 6.º da Convenção Europeia dos
Direitos do Homem
910, e o art. 10.º da Declaração Universal dos Direitos do Homem
11.
4 Como o vinha afirmando o Tribunal Constitucional. A «jurisprudência do Tribunal Constitucional tem
tido oportunidade para salientar, por diversas vezes, que o direito ao recurso constitui uma das mais importantes dimensões das garantias de defesa do arguido em processo penal».
5 «Que o tribunal superior possa, por via de recurso, alterar ou revogar a sentença ou despacho é
perfeitamente compreensível; que seja lícito ao juiz reconsiderar e dar o dito por não dito, é de todo intolerável, sob pena de se criar a desordem, a incerteza, a confusão» ( J. A. Reis, CPC Anotado, V, 127).
6 O que significa que só o direito ao recurso do arguido goza de tutela constitucional, sem que daí derive a
impossibilidade legislativa de atribuir esse direito a outros sujeitos processuais, mas resultando que seja o quadro legislativo quanto ao direito ao recurso do arguido que deva ser aferido constitucionalmente.
7 Ac. do TC n.º 49/2003.
8 Tem entendido o Tribunal de Estrasburgo que o Estado goza de um largo poder de apreciação para
consagrar as modalidades de exercício do direito de recurso, incluindo o de o limitar, v.g. às questões de direito, se se visar um objectivo legítimo e não atinja a essência desse direito. Cfr a indicação da jurisprudência em Ireneu Cabral Barreto, op. cit. pág. 377.
No mesmo sentido se tem pronunciado o Tribunal Constitucional que se afastou de “um absoluto e completo duplo grau de jurisdição” – AcTC n.° 171/94, AcTC n.º 573/98 e AcTC n.º 189/2001
9 Primeira parte: «Toda a pessoa tem direito a que a sua causa seja examinada equitativa e publicamente,
num prazo razoável por um tribunal independente e imparcial, estabelecido pela lei, o qual decidirá […] sobre o fundamento de qualquer acusação em matéria penal dirigida contra ela. julgada por um tribunal independente e imparcial que decida dos seus direitos e obrigações ou das razões de qualquer acusação em matéria penal que contra ela seja deduzida.»
10 O direito a um duplo grau de jurisdição não está consagrado neste artigo, mas, como se verá, no art. 2.º
do Protocolo n.º 7 à Convenção. Alerta, no entanto, Ireneu Cabral Barreto, A Convenção Europeia dos Direitos do Homem, 3.ª Edição, pág. 141, que “um Estado que se dota de jurisdição desta natureza tem a obrigação de cuidar que os interessados gozem das garantias fundamentais aqui estabelecidas”. “O artigo 6.º não impõe aos Estados a instituição do duplo grau de jurisdição. O estado que estabelece tribunais de recurso vai para além das obrigações derivadas do artigo 6.º. Mas o Estado violaria este artigo, combinado com o artigo 14.º, se ele recusasse a utilização do recurso a certas pessoas sem razão legítima, enquanto permitiria a outras no mesmo tipo de processos (op.. cit., pág. 232). Tem entendido o TEDU que o prazo razoável do procedimento abrange as instâncias de recurso. É feita ainda referência no art. 35.º, n.º 1 da Convenção, a propósito das condições de admissibilidade das queixas, ao esgotamento de todas as vias de recurso interno.
Aliás, o Protocolo n.º 7 à Convenção, veio explicitar que «qualquer pessoa
declarada culpada de uma infracção penal por um tribunal tem o direito de fazer
examinar por uma jurisdição superior a declaração de culpabilidade ou a
condenação.»
121314Já anteriormente o Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos
dispunha: «qualquer pessoa declarada culpada de crime terá o direito de fazer
examinar por uma jurisdição superior a declaração de culpabilidade e a sentença em
conformidade com a lei»
15.
II
Mas, como se situou, neste domínio, o legislador do Código de Processo Penal?
Com o Código de Processo Penal de 1987, o regime dos recursos em processo
penal sofreu uma autêntica revolução, que obedeceu a uma ideia concreta: ruptura
praticamente total com o sistema de recursos em processo civil, mercê da criação de
um estatuto autónomo e próprio
16.
Isso mesmo, de resto, foi enfaticamente sublinhado pelo novo legislador, não
apenas no esqueleto que concebeu para os «novos recursos em processo penal», como
na justificação que apresentou à comunidade jurídica relativamente ao modelo que
imaginou para o futuro: um expediente com ditames próprios onde passou a imperar
«a ideia do recurso unitário, em princípio idêntico para a Relação e para o Supremo e abarcando,
na medida do possível e conveniente, tanto a questão de direito como a questão de facto».
11 «Toda a pessoa tem direito, em plena igualdade, a que a sua causa seja equitativa e publicamente
julgada por um tribunal independente e imparcial que decida dos seus direitos e obrigações ou das razões de qualquer acusação em matéria penal que contra ela seja deduzida.»
12 Resolução da Assembleia da República n.º 22/90. Art. 2.º, n.º 1, cujo segmento final reza: «o exercício
deste direito, bem como os fundamentos pelos quais ele pode ser exercido, são regulados pela lei». Dispõe-se no n.º 2 desDispõe-se artigo: «este direito pode Dispõe-ser objecto de excepções em relação a infracções menores, definidas nos termos da lei, ou quando o interessado tenha sido julgado em primeira instância pela mais alta jurisdição ou declarado culpado e condenado no seguimento de recurso contra a sua absolvição».
13 A referência ao exame da declaração de culpabilidade ou a condenação, restringe o seu âmbito de
aplicação aos processos que as contenham.
14 À Luz do art. 2.º do Protocolo n.º 7 o duplo grau de jurisdição pode ser objecto das seguintes excepções
(i) Infracções que não são passíveis de prisão (infracções menores); (ii) Condenação no seguimento de recurso contra a absolvição; (iii) Julgamento em primeira instância pela mais alta jurisdição.
15 Art. 14.º, n.º 5. Cfr. a Lei n.º 29/78, de 12 de Junho.
16 Na verdade, segundo o figurino do Código de 1929, a matéria – salvo alguns preceitos contendo umas
quantas regras específicas – regulava-se pelas prescrições do parente próximo civilista, já que, como preceituava o corpo do art. 649.º daquele texto, «os recursos em processo penal serão interpostos, processados e julgados como os agravos de petição em matéria cível, salvo as disposições em contrário deste Código».
Pretendeu-se um recurso diferentemente estruturado e modelado que, nas
palavras do legislador, abandonasse o velho «labor meramente rotineiro executado sobre
papeis» – o modelo do processo civil – em favor de uma via moderna de impugnação,
de «estrutura acusatória, com a consequente exigência de uma audiência onde seja respeitada a
máxima da oralidade».
1718Esta filosofia de base foi respeitada nas alterações que foram introduzidas, tendo
o legislador sentido a necessidade de enfrentar a novidade da autonomia do regime
com a novidade de princípios informadores, que a sustentassem
19.
Traçou, assim, o legislador a ossatura do regime dos recursos em processo
penal:
— Como alicerce, o rompimento com a subordinação da matéria ao esteio do
processo civil;
— Como traves mestras do edifício:
— o figurino unitário para ambos os tribunais de recurso (Relações e
Supremo) com aligeiramento formal,
— a possibilidade de rejeição liminar de expedientes manifestamente
condenados ao malogro
20;
— a introdução do princípio do acusatório com audiência oral
21;
diferenciação do tribunal de recurso conforme a natureza do tribunal
recorrido: Tribunal da Relação, em apelação, para conhecimento dos
recursos interpostos de decisões interlocutórias e finais do juiz singular e de
decisões interlocutórias emitidas pelo tribunal colectivo, e, eventualmente
17 In Preâmbulo do DL n.º 78/87, de 17 de Fevereiro.
18 Foi o que, numa síntese feliz, expressivamente vincou Cunha Rodrigues: «Salvo pormenores de
regulamentação que devem procurar-se, por via analógica, no Código de Processo Civil (art. 4.º do Código), os recursos penais passam a obedecer a princípios próprios, formam uma estrutura normativa autónoma e desenvolvem-se segundo critérios a que não é alheia uma opção muito clara sobre a necessidade de valorizar a atitude prudencial do juiz. O Código rompe abertamente com tradição que, há quase um século, geminou os recursos penais e cíveis» - Jornadas de Processo Penal do CEJ.
19 «Esta filosofia de base veio para ficar, mantendo-se por isso incólume sempre que se decidiu mexer no
Código, pois que a introdução sucessiva de alterações mais ou menos profundas no respectivo texto nunca pôs em causa o princípio original de autonomia dos recursos penais. Para o futuro ficou, assim, uma conquista importante e decisiva neste sector do procedimento processual penal que brotou, se desenvolveu e consolidou de modo que poderemos considerar irreversível.» – Simas Santos e Leal-Henriques, O Novo Código e os Novos Recursos, Estudos em Homenagem a Cunha Rodrigues, I, págs. 767-99.
20 A possibilidade de «matar à nascença» recursos inviáveis, aliviando dessa forma os tribunais de recurso
de tarefas de pura inutilidade e nada prestigiantes para a sua dignidade institucional.
21 Tentando, desse modo, como se explicava, evitar um desenvolvimento frio e assente meramente em
renovar a prova, STJ, em revista, para conhecimento das decisões do
tribunal do júri e das decisões finais do tribunal colectivo;
— consagração do que se veio a chamar de revista alargada: reexame
da matéria de facto, através da ponderação do texto e das regras de
experiência para eventual detecção de determinados vícios relevantes
daquela matéria.
Parâmetros que constavam da Lei de Autorização Legislativa concedida ao
Governo para o efeito
22.
Foi à luz destes limites, fixados na lei
23, mantidos intocáveis durante cerca de
10 anos, que se viveu o novo ciclo em matéria dos recursos penais.
III
Veio, no entanto, o Legislador a ponderar que a aplicação do Código ficara
aquém das expectativas, existindo razões suficientes para o reexame de soluções
consagradas, face erosão, que se teve por manifesta, de alguns princípios:
— a precarização dos poderes de cognição do Supremo Tribunal de Justiça
— a incomunicabilidade entre instâncias de recurso
— a indesejável duplicação de tribunais de recurso que julgam, por regra, em
última instância
— a debilitação de garantias,
— a persistente insegurança jurídica em alguns domínios
22 Lei n.º 43/86, de 26 de Setembro, cujo art. 2.º, n.º 2, als. 70 a 75, é claro quanto ao sentido de fundo a dar
ao novo regime de recursos.
– Introdução de um princípio de tramitação unitária para todas as espécies de recursos e consagração, para todos eles, da possibilidade de este ser liminarmente rejeitado por manifesta falta de fundamento;
– Consagração, para todas as espécies de recurso ordinário interposto de decisão final, da garantia do contraditório, sem possibilidade, porém, de réplica nos recursos que sejam exclusivamente de direito; – Atribuição ao Tribunal da Relação de competência para conhecer, em apelação, dos recursos interpostos de decisões interlocutórias e finais do juiz singular e de decisões interlocutórias emitidas pelo tribunal colectivo, e, para, em certos casos, renovar a prova, caso não reenvie o processo para o tribunal colectivo, – Atribuição ao STJ de competência para conhecer, em revista, das decisões proferidas com intervenção do júri, de decisões finais do tribunal colectivo e de decisões proferidas em 1.ª instância pela Relação;
– Definição de um regime de subida dos recursos interpostos de decisões interlocutórias juntamente com o recurso interposto da decisão final, excepto tratando-se de decisões proferidas em matéria de liberdade provisória ou de prisão;
– Regulamentação, em termos autónomos e eventualmente alargados relativamente à disciplina vigente em processo civil, do recurso para fixação de jurisprudência ou de um recurso no interesse da lei».
23 Sem que ao Tribunal Constitucional, em sede de fiscalização prévia, acudisse então qualquer dúvida
— o enfraquecimento da função real e simbólica do Supremo Tribunal de
Justiça
Entendeu o legislador ser de ultrapassar esses bloqueios, com propósito de
conferir à malha legislativa vigente nova vida e nova dinâmica.
Assim nasceu a revisão trazida pela Lei n.º 59/98, de 25 de Agosto
2425.
A respectiva Exposição de Motivos procurou explicar, da seguinte forma, o
sentido e amplitude dessas mudanças no complexo dos recursos, assumindo que não
se pretendeu consagrar uma inversão de concepções básicas
26:
— Restituir-se ao Supremo Tribunal de Justiça a sua função de tribunal que
conhece apenas de direito, com excepções em que se inclui a do recurso interposto do
tribunal de júri;
— Ressalvar-se a ideia da tramitação unitária, que deixa, no entanto, de
corresponder à configuração de um único modelo de recurso;
— Fazer-se um uso discreto do princípio da «dupla conforme», harmonizando
objectivos de economia processual com a necessidade de limitar a intervenção do
Supremo Tribunal de Justiça a casos de maior gravidade;
— Admitir-se o recurso per saltum, justificado pela medida da pena e pela
limitação do recurso a matéria de direito;
— Retomar-se a ideia de diferenciação orgânica, mas apenas fundada no
princípio de que os casos de pequena ou média gravidade não devem, por norma,
chegar ao Supremo Tribunal de Justiça;
24 O anterior DL n.º 317/95, de 28 de Dezembro, em matéria de recursos, apenas alterou disposições do art.
409.º do CPP (reformatio in pejus), unicamente para afeiçoar o texto à revisão do Código Penal, introduzida pelo DL n.º 48/95, de 15 de Março.
25 Críticas ao mérito da revisão de 1998 podem recolher-se em Damião da Cunha, A Estrutura dos Recursos
na Proposta de Revisão do CPP, Algumas Considerações, RPCC, 8, 251 e ss, em Simas Santos, O Processo Penal em Revisão, pág. 73 e ss, Recursos em Processo Penal – Revisão de 1998, Revista Jurídica da Universidade Portucalense, , n.º 10, pág. 143, Nótula Sobre a Admissibilidade do Recurso para o Supremo Tribunal de Justiça, Revista Jurídica da Universidade Portucalense, n.º 11, pág. 167, Uma Leitura do Relatório de Avaliação dos Recursos, RPCC, ano 16, pág. 283, Simas Santos e Leal-Henriques, O Novo Código e os Novos Recursos, Estudos em Homenagem a Cunha Rodrigues, I, págs. 767-99 e Recursos em Processo Penal, Rei dos Livros, Lisboa, 5.ª Edição; A. G. Lourenço Martins, O Instituto dos Recursos, O Processo Penal em Acção, U Lusíada de Lisboa; José Mouraz Lopes, Breves considerações sobre as implicações do novo sistema de recursos no Código de Processo Penal, CJ STJ VIII, 2, 5; António Henriques Santos Cabral, O regime de recursos em processo penal, CJ STJ, VIII, 3, 21; e Relatório de Avaliação dos Recursos, do Ministério da Justiça, disponível no sítio oficial.
26 N.º 16: «As alterações introduzidas em matéria de recursos não pretendem consagrar uma inversão de
concepções básicas. Pelo contrário, continua a apostar-se em objectivos de economia processual, de eficácia e de garantia, só que através de instrumentos mais consistentes, adequados e dialogantes, obtidos a partir da reavaliação dos meios disponíveis, da tradição jurídica e da cultura prevalecente».
— Ampliarem-se os poderes de cognição das Relações, evitando-se que
decidam, por sistema, em última instância;
— Assegurar-se um recurso efectivo em matéria de facto;
— Alterar-se o regime do recurso para uniformização da jurisprudência,
valorizando as ideias de independência dos tribunais e de igualdade dos cidadãos
perante a lei e evitando os riscos de rigidez jurisprudencial.
Como escrevemos noutra oportunidade
27, em nossa opinião, mesmo não
havendo um novo modelo de recursos o certo é que seguramente o figurino anterior foi
significativamente «sacudido», com aquela revisão.
IV
Prepara-se agora uma nova revisão do Código de Processo Penal com uma
significativa incidência sobre a temática dos recursos, iniciativa que se desdobra em
dois momentos distintos
28.
Num primeiro momento, o Gabinete de Política Legislativa e Planeamento, do
Ministério da Justiça, produziu e apresentou um relatório também sobre os recursos
27 Cfr. Simas Santos e Leal-Henriques, O Novo Código e os Novos Recursos, Estudos em Homenagem a Cunha
Rodrigues, I, págs. 767-99, que acompanhamos de perto. Salienta-se aí que «Propôs-se o legislador, dignificar a posição institucional do Supremo Tribunal de Justiça, através de uma redefinição das suas competências.
Foi aqui significativa a inovação efectuada. Partiu-se da regra de um único grau de recurso cuja tramitação contende com os próprios poderes de cognição do tribunal superior, em que existem dois recursos de revista, mais alargada relativamente ao Tribunal da Relação. O recurso do tribunal colectivo tinha características particularmente nítidas de remédio jurídico em que a reapreciação dos factos não é mais do que uma válvula de segurança. Cunha Rodrigues (Recursos, Jornadas do C.E.J.) bem cedo reconheceu a necessidade de mudança em tal capítulo quando lhe endereçou as seguintes referências:
«A regra é a de um único grau de recurso cuja tramitação contende... com os próprios poderes de cognição do tribunal superior...»
O que se passa entre nós é que «não só o recurso do tribunal do júri é interposto directamente para o S.T.J., como do tribunal colectivo não há, em rigor, recurso da matéria de facto. O que existem são dois recursos de revista, mais alargada, é certo, relativamente ao Tribunal da Relação...
... Assegurada a efectiva colegialidade do tribunal, garantido o contraditório e obtida uma mais completa possível imediação, o recurso do tribunal colectivo tem características particularmente nítidas de remédio jurídico. A previsão de um mecanismo de reapreciação dos factos não pode – não deve – ser senão uma válvula de segurança.
Justifica-se, neste contexto, que se recorra directamente para o mais elevado órgão jurisdicional e que se confira a este órgão poderes que lhe permitam despistar situações indiciadoras de erro judiciário.»
É este o sentido da presente reforma, é esta a economia do recurso para o STJ, a que poderíamos chamar, com rigor, de revista alargada».
28 Não se esquecem outras iniciativas com vista à revisão, que conheceram projectos quer do Governo,
quer dos partidos políticos, mas que, no entanto, não desembocaram numa revisão efectiva e que os limites desta intervenção não permitem abordar.
penais, que, publicado e disponibilizado, foi motivador de sessões de discussão em
diversas Universidades
29, e depois transmitido a uma outra estrutura.
Com efeito, o Conselho de Ministros
30criou a Unidade de Missão para a
Reforma Penal com vista, além do mais, a preparar iniciativas legislativas com vista à
revisão do Código de Processo Penal.
Esse projecto está já na Assembleia da República como Proposta de Lei n.º
109/X-2 e tem divergências sensíveis em relação às propostas do GPLP.
29 O Relatório de Avaliação do Sistema de Recursos em Processo Civil e Processo Penal foi apresentado à
discussão pública a 17 de Maio de 2005 e tiveram lugar sessões públicas, designadamente, nas Universidades Nova de Lisboa, do Minho, do Porto, de Coimbra.
30 Resolução n.º 138/2005, de 17 de Agosto. dirigida por um Coordenador e integrando um conselho
composto por representantes da Polícia Judiciária, do Centro de Estudos Judiciários, da Direcção-Geral dos Serviços Prisionais, do Instituto de Reinserção Social, do Instituto Nacional de Medicina Legal, do Gabinete de Política Legislativa e Planeamento e do Gabinete para as Relações Internacionais, Europeias e de Cooperação, bem como por um membro do gabinete do Ministro da Justiça. Podem ainda ser convidados a participar nas reuniões representantes do Conselho Superior de Magistratura, do Conselho Superior do Ministério Público e da Ordem dos Advogados ou ainda professores universitários. Podem ver-se, a propósito, as notas críticas insertas por José António Barreiros e Rui do Carmo, respectivamente nos Blogs. Patologia Social e Cum Grano Salis, o artigo Marginalizar as magistraturas , de António Bernardo Colaço, no Jornal Expresso de 17.9.05.
Quando intervim na sessão realizada na Universidade do Porto, em 22.09.05, tive ocasião de secundar essas críticas, quanto à forma como fora organizada a colaboração dos magistrados na revisão em curso, quer no âmbito do GPLP, quer da UMRP, designadamente dos juízes do STJ, da seguinte forma:
«Esta audição deficiente, no processo legislativo, dos magistrados dos Tribunais Superiores, designadamente do Supremo Tribunal de Justiça, atento o seu estatuto de Tribunal de revista e uniformizador da jurisprudência, acaba, aliás, de ser preocupantemente replicada na composição da Unidade de Missão para a Reforma Penal, criada por Resolução do Conselho de Ministros em que mesmo a audição do Conselho Superior da Magistratura, do Conselho Superior do Ministério Público, coisa diversa da audição dos magistrados a quem cumpre velar pela aplicação da lei, é considerada como eventualidade, contrariamente à prática anterior.
Anteriormente, as comissões de elaboração ou revisão das leis mais importantes integravam magistrados judiciais ou do Ministério Público, designadamente do Supremo Tribunal de Justiça ou da Procuradoria-Geral da República (re)conhecidos nas respectivas áreas, o que minorava os inconvenientes daquela prática.
Deve notar-se que o texto dos juízes da Secção Criminal do Supremo Tribunal de Justiça, de que fui relator juntamente com o Conselheiro Lourenço Martins e que está disponível em (tendo sido tido em conta pelo GPLP) nasceu exactamente da sensação, que todos sentiam, de que a sua experiência não era aproveitada, que o resultado do seu labor se atomizava, que o sistema actual de uniformização de jurisprudência é insuficiente, pretendeu somente levantar algumas das questões mais carenciadas de intervenção legislativa imediata, reveladas pela prática do Supremo Tribunal de Justiça, mas sem a preocupação de as exaurir. Este desenho metodológico, não obstante a referência feita a visitas aos tribunais Superiores e a entrevistas a magistrados, torna mais difícil distinguir os escolhos práticos que obstam a uma decisão reflectida, rápida e boa e discernir as lições a aprender e os obstáculos a serem removidos.
Tem-se, assim, a sensação de que o pulsar do desenvolvimento processual dos recursos e do processo de produção das decisões sobre eles está ausente do relatório, do imenso esforço inútil que muitas vezes é necessário desenvolver no processo de decisão para chegar ao que verdadeiramente é controvertido e carente de decisão.»
Na respectiva Exposição de Motivos, diz-se expressamente que o «conjunto de
alterações propostas em sede de recursos pressupõe que o direito de recurso constitui
uma garantia de defesa, hoje explicitada no n.
º1 do artigo 32.
ºda Constituição, e um
corolário da garantia de acesso ao direito e aos tribunais (artigo 20, n.
º1, da
Constituição), mas deve subordinar-se a um desígnio de celeridade associado à
presunção de inocência e à descoberta da verdade material».
O que se constitui um curioso guia de leitura das alterações pensadas: agora
que, como se viu, o direito ao recurso se inscreve expressamente na Constituição como
uma garantia de defesa do arguido, é que o legislador se “resolve” a subordiná-lo a
“um desígnio de celeridade”, se bem que associado à “presunção de inocência” e à
descoberta da verdade material”, entidades com tempos seguramente bem diversos e
com dificuldades de compatibilidade.
É certo que a celeridade dos recursos é um objectivo a visar em qualquer
reforma, mas enquanto conformadora do elemento temporal pressuposto do processo
equitativo (incluindo o recurso), a decorrer num prazo razoável e que não deve
prejudicar a presunção de inocência (que também pode sair ferida do confronto com a
celeridade) e a verdade material que exige, muitas vezes, um tempo mais detido.
Na sequência da assunção deste princípio reitor, a Exposição de Motivos
apresenta o articulado proposto, quanto aos recursos, pela forma que aqui se sintetiza:
— Restrição do recurso de segundo grau perante o Supremo Tribunal de Justiça
aos casos de maior merecimento penal, fazendo-se referência no art. 400.º às
penas concretas e aos casos em que a Relação, em recurso, não conhecer a
final do objecto do processo;
— Admissão da interposição de recurso quanto à indemnização civil mesmo
que não caiba recurso da matéria penal
31;
— Inclusão na proibição de reformatio in pejus do prejuízo dos arguidos não
recorridos, no recurso contra um só arguido e limitação da agravação da
pena de multa à quantia fixada para cada dia
32.
31 Não apreciaremos esta questão no texto, mas deve dizer-se que a redacção proposta para o n.º 2 do art.
400.º toma, sobre a questão controvertida de saber se a inadmissibilidade de recurso quanto à questão penal se estende à questão da indemnização, toma posição inversa à jurisprudência fixada pelo STJ: «no regime do Código de Processo Penal vigente - n.º 2 do artigo 400.º, na versão da Lei n.º 59/98, de 25 de Agosto - não cabe recurso ordinário da decisão final do Tribunal da Relação, relativa à indemnização civil, se for irrecorrível a correspondente decisão penal» (Ac. n.º 1/02 de 14/03/2002, DR IS-A de 21-05-2002.). É uma opção respeitável, embora seja problemática a compatibilidade com o princípio de adesão consagrado no art. 71.º, pois que então os caminhos a seguir naquelas questões passam eventualmente a separar-se com prejuízo daquele princípio, no âmbito do recurso.
32 A propósito desta questão escrevemos já (Nótulas sobre os Recursos em Processo Penal, RMP, n.º 108): «2.2.
Artigo 402.° – É introduzido um n.º 3 que dispõe que o recurso interposto apenas contra um dos arguidos, em caso de comparticipação, não prejudica os restantes.
Este dispositivo, não passou na revisão efectuada em 1998, onde era então aditado, não ao art. 402.º, mas, de forma dogmática e sistematicamente mais adequado, ao art. 409.º, que trata da proibição da reformatio in pejus. O próprio Anteprojecto acaba por ter o mesmo entendimento ao referir na Exposição de Motivos a inclusão do prejuízo dos arguidos não recorridos, no recurso contra um só arguido como reforço da proibição de reformatio in pejus.
Voltaremos a esta questão ao analisar esse art. 409.º, mas sublinhe-se, desde já, que a sua redacção se apresenta como pouco precisa, o que poderia melhorar se se apresentasse assim: “…não pode prejudicar, a final, os restantes”.(…)
2.7.1. Na Exposição de Motivos do Anteprojecto refere-se a limitação da agravação da pena de multa à quantia fixada para cada dia, o que é concretizado na alteração proposta para o n.º 2 deste artigo, que se refere à possibilidade de agravação em recurso da pena de multa, sem distinguir os respectivos contornos: agravação dos dias ou só da quantia fixada?
Entendia-se que dada a condição que desencadeia a possibilidade de agravação: melhoria sensível da situação económica e financeira do arguido, a agravação só podia incidir sobre a quantia fixada, a única relacionada com a melhoria daquela condição.
Foi esse mesmo entendimento explicitado na nova redacção do n.º 2.
2.7.2. A propósito da alteração proposta ao art. 402.º (não prejuízo do arguido não recorrido), entendeu-se que este seria o local adequado para a consideração de tal problemática.
Na verdade, se é certo que a proibição de, em caso de comparticipação, retirar consequências desfavoráveis do julgado de um recurso em relação a arguido não recorrente, é uma limitação ao dever prescrito na al. a) do mesmo art. 402.º: «aproveitar ao co-arguido, em caso de comparticipação», deve reconhecer-se que o actual n.º 2, al. a) ao usar o vocábulo «aproveitar» já afasta o prejuízo que é exactamente o oposto.
Depois, colocam-se hoje questões, a propósito do alcance do princípio da proibição da reformatio in pejus, designadamente das suas consequências processuais, que poderiam abranger a questão levada ao n.º 3 do art. 402.º, mas que vão muito além e que continuam, nesta revisão, sem tratamento normativo adequado. É que as consequências também podem colocar-se em relação ao co-arguido em situações que não são de comparticipação, resultantes de apensação por conexão ou autoria paralela, e em relação ao próprio arguido recorrente.
Basta considerar, v.g., o caso em que o arguido é o único recorrente e vê, como pediu, anulado em recurso o julgamento da 1.ª instância. O novo julgamento abrange os restantes co-arguidos não recorrentes? E a sentença subsequente pode aplicar penas mais graves do que a infligidas no seguimento do julgamento anulado?
Esta questão já foi objecto da atenção da doutrina (Cfr.Damião da Cunha, O Caso Julgado Parcial) e da jurisprudência desencontrada do Supremo Tribunal de Justiça [Como exemplo, transcreve-se o seguinte sumário de um acórdão que relatei: (1) - Decorre do princípio da proibição da reformatio in pejus que, se em recurso só trazido pelo arguido, for ordenada a devolução do processo, não poderá a instância vir a condenar o recorrente em pena mais grave do que a infligida anteriormente. (2) - Tal compreensão daquele princípio integra o processo justo, o processo equitativo, tributário da estrutura acusatória do processo, consagrada constitucionalmente e do princípio da acusação, que impõe que nos casos em que a acusação se conforma com uma decisão e o recurso é interposto apenas pelo arguido, ou no seu interesse exclusivo, fiquem limitados os parâmetros da decisão e condicionado no processo o poder de decisão à não alteração em desfavor do arguido. (3) - O recurso estabelece, assim, um limite à actividade jurisdicional, constituído pelos termos e pela medida da condenação do arguido (único) recorrente, mesmo se o arguido tenha pedido no recurso a anulação do julgamento ou o reenvio para outro tribunal, por se postularem as mesmas razões, sendo que a solução contrária se traduziria em atribuir ao tribunal do reenvio (ou do novo julgamento ou da devolução) poderes que não estavam cometidos ao tribunal de recurso. (4) - Se o Supremo Tribunal de Justiça, depois de alterar em recurso a qualificação jurídica efectuada nas instâncias, reenvia o processo para a determinação da medida concreta da pena, por admitir como possível a aplicação da pena de substituição de suspensão da execução, a nova decisão a proferir não só não poderá agravar a medida da pena, como só poderá manter a pena inicial fazendo a demonstração cabal de que tal se impõe no caso. (5) - Mas terá de respeitar as considerações em que se fundou o STJ
— Inversão da regra da oralidade das audiências de recurso e supressão das
alegações escritas.
— Eliminação da exigência de transcrição da audiência de julgamento. A
motivação só refere as concretas provas que impõem decisão diversa,
indicando-se as passagens das gravações. O tribunal ad quem procede à
audição ou visualização das passagens indicadas e de outras que,
porventura, considere relevantes.
— Admissão do recurso per saltum para o Supremo quanto à matéria de direito
(de acórdãos finais do tribunal colectivo ou de júri), sendo então
expressamente proibida a interposição de recurso para a Relação;
— Admissão de recurso para as relações dos acórdãos finais do tribunal do júri
quanto à matéria de facto.
— Redução da vista ao Ministério Público à transmissão do processo, quando
tiver sido requerida audiência
33;
para alterar a qualificação jurídica, quer na ponderação dos graus de culpa e ilicitude, quer na ponderação das circunstâncias que levaram aquele tribunal a reenviar para determinação da nova pena e a não a fixar de imediato. (AcSTJ de 08/07/2003, proc. n.º 2616/03-5)], do que dá conta, com cópia de informação, um artigo publicado na Revista MaiaJurídica (da autoria de Jorge Dias Duarte, Ano I, n.º 2, pág. 205).
Importaria, pois, aproveitar a oportunidade e tomar posição mais alargada sobre a questões que se poderia apelidar de consequências processuais do princípio da reformatio in pejus.
33 2.12. Artigo 416.° — É aditado um n.º 2 ao art. 416.º (Vista do M.º P.º no Tribunal Superior, antes de o
processo ser apresentado ao Relator) que dispõe que, tendo sido requerida audiência (n.º 5 do art. 411.º), essa vista se destina apenas a tomar conhecimento do processo.
Na exposição de Motivos é assim apresentada essa inovação:
«A vista ao Ministério Público passa a destinar-se exclusivamente a tomar conhecimento do processo sempre que tiver sido requerida audiência (art. 416.º).
Nesse caso, o Ministério Público junto ao tribunal de recurso terá oportunidade de intervir na própria audiência.
Um visto prévio com conteúdo inovador desencadearia o contraditório, arrastando injustificadamente o processo.»
Mas, salvo o devido respeito, não se teve em devida conta o tipo de intervenção diversificado do Ministério Público, assumindo-se que nesse caso a pronúncia seria só sobre o funda da causa, a ter lugar em audiência.
Ora, não faz sentido que dentro desse âmbito não possa o Ministério Público pronunciar-se quanto a questões formais que podem impedir o julgamento, ou mesmo de fundo, no caso de uma possível rejeição por manifesta improcedência.
Com efeito, tendo sido requerida audiência oral, fica o Ministério Público impedido de se pronunciar sobre questões como a recorribilidade da decisão, a legitimidade ou o interesse em agir do recorrente e a eventual manifesta improcedência do recurso, questões que obstam à presença do recurso em audiência, única oportunidade em que o Ministério Público se poderia pronunciar.
Aliás o Supremo Tribunal de Justiça já teve ocasião, em dois acórdãos (que relatei e cujo sumário se segue), de sublinhar o carácter multifacetado dessa intervenção do Ministério Público no âmbito deste artigo, e que é assim descaracterizada por se ter apressadamente pensado que tendo sido requerida a audiência, tudo seria aí apreciado e decidido o que não é necessariamente verdade.
— Funcionamento do tribunal de recurso em três níveis: relator, conferência em
reclamação e audiência. Alteração da formação da secção.
— Admissão do reenvio do processo para novo julgamento no mesmo
tribunal
34;
— Obrigatoriedade para o Ministério Público de recurso para fixação de
jurisprudência;
— Estabelecimento do prazo de 30 dias para recurso de decisão proferida
contra jurisprudência fixada a partir do trânsito em julgado dessa decisão;
— Aditamento de novos fundamentos ao recurso extraordinário de revisão;
— Admissibilidade de segundo recurso de revisão
35.
«(1) - A vista a que se refere o art. 416.º do CPP destina-se a transmitir os autos ao Magistrado que assegura a representação do Ministério Público no tribunal ad quem, mas permite ainda que esse Magistrado se debruce sobre as questões formais que serão objecto de exame preliminar do relator (n.º 3 do art. 417.º) e que exare nos autos o resultado desse exame, lavrando nota sobre a "regularidade" ou sobre a "irregularidade" detectadas. (2) - Permite também que exerça o seu poder-dever de se pronunciar sobre as questões a conhecer em conferência, sejam elas prévias ou incidam sobre o mérito do recurso, podendo ainda antecipar, em relação às alegações, a sua posição sobre o mérito do recurso, emitindo parecer que condense o seu entendimento. (3) - Se entender que devem ser resolvidas questões que não vem colocadas na motivação do recurso, designadamente nas respectivas conclusões, ou que não vem apontadas na resposta a essa motivação, deverá então o Ministério Público indicá-las, nesse visto, com precisão, assim permitindo ao Tribunal ad quem a percepção dessa modificação (art. 417.º, n.ºs 3 e 6) ou orais (art. 423.º, n.º 1). (4) - Desta forma, também os demais sujeitos processuais afectados pela interposição do recurso e pela posição assumida pelo Ministério Público no Tribunal ad quem serão dela notificados, podendo então responder no prazo de 10 dias (n.º 2 do art. 417.º). (5) - Se só em alegações escritas é feita referência a essas alterações, deve então ser cumprido o disposto no n.º 2 do art. 417.º do CPP.« AcSTJ de 04/12/2003, proc. n.º 3293/03-5. No mesmo sentido o AcSTJ de 11/12/2003, proc. n.º 3293/03-5.
34 No n.º 1 do art. 426.º-A da Proposta é introduzida uma alteração susceptível de resolver algumas
dificuldades que se vinham sentindo na aplicação da norma anterior quanto ao reenvio, derivada da existência de vários tribunais com sede no mesmo local e em que não fazia sentido a remessa para um tribunal mais próximo, quando os impedimentos previstos no art. 40.º permitiam afastar do mesmo tribunal os juízes que tendo intervido no anterior julgamento ainda aí prestassem serviço. Assim, em caso de reenvio, o novo julgamento compete, em primeira linha, ao tribunal que tiver efectuado o julgamento anterior, sem prejuízo do disposto no artigo 40 º, ou, no caso de não ser possível, ao tribunal que se encontre mais próximo, da mesma categoria e composição às do tribunal que proferiu a decisão recorrida. Cfr. o AcSTJ de 04/03/2004, 4048/03-5, que adopta uma solução idêntica no reenvio para tribunal com vários juízes.
Refira-se, nesta sede, a inovação introduzida no n.º 2 do art. 426.º que vem resolver a questão de saber para onde é feito o reenvio do processo para novo julgamento ordenado pelo Supremo Tribunal de Justiça no âmbito de recurso interposto, em 2.ª instância. E resolve-a, de forma adequada, estabelecendo que o mesmo tem lugar para a Relação, que admite a renovação da prova ou reenvia o processo para novo julgamento em 1.ª instância, como resulta para o processo civil do n.º 2 do art. 729.º do CPC. O que compreenderá a possibilidade de a Relação conhecer novamente a questão de facto, à luz do direito definido pelo Supremo Tribunal de Justiça, se a prova estiver documentada.
35 A norma do art. 465.º actual permite ao Procurador-Geral, e não ao Ministério Público em geral, a
Não cabendo nesta oportunidade uma análise completa das alterações
propostas, apontar-se-ão algumas das mais expressivas mudanças sugeridas, tendo
presentes as intenções sucessivamente declaradas do legislador e a evolução anterior.
4.1.
Uma dessas mudanças prende-se com a chamada, no âmbito da revisão,
“inversão da regra da oralidade das audiências de recurso e supressão das alegações
escritas”.
Na Exposição de Motivos explica-se essa opção: «no sentido de evitar a realização
de actos processuais supérfluos, e tendo presente que a audiência no tribunal de recurso
corresponde a um direito renunciável, prevê-se que o recorrente requeira a sua realização,
especificando os pontos que pretende ver debatidos (artigo 411.º).
Com o mesmo objectivo,
suprimem-se as alegações escritas, que a experiência demonstrou constituírem pura repetição
das motivações.»
Uma primeira constatação se impõe, a de que a oralidade enquanto um elemento
relevante na construção dos recursos sofre, por esta via, um rude golpe.
Como se viu, no programa assumido pelo Legislador do Código e expresso no
Preâmbulo do diploma
36que o aprovou, o recurso penal foi concebido como uma via
moderna de impugnação, de «estrutura acusatória, com a consequente exigência de uma
audiência onde seja respeitada a máxima da oralidade»
37.
E na Exposição de Motivos respeitante à Revisão de 1998 continuava-se a referir
a manutenção da oralidade nos recursos
38, na crença de que os poderes de iniciativa do
constituindo uma válvula de segurança do sistema, quando sendo evidente o erro judiciário, já se havia esgotado a possibilidade oferecida por uma 1.ª revisão indeferida.
Agora essa possibilidade alargada a todos aqueles que podiam formular um primeiro pedido, na sequência do Ac do T. Constitucional de 9.5.06, Proc. nº 602/2005. Mas estabelece um outro requisito: o de que não haverá nova revisão se não for apresentado um “fundamento diferente”, numa formulação, pois, capaz de gerar dificuldades de interpretação: trata-se de um fundamento de facto diferente ou é um fundamento de alínea diferente? Seria preferível a opção pela seguinte redacção: “… não pode haver nova revisão com invocação do mesmo fundamento”
Mas ao mesmo tempo, a formulação proposta apesar do alargamento efectuado destruiu a mencionada válvula de segurança do sistema, que permitia que o Procurador-Geral da República formulasse um segundo pedido de revisão, ainda que com o mesmo fundamento, verdadeiramente renovado, dada a sua especial autoridade e posicionamento no sistema de justiça.
36 DL n.º 78/87, de 17 de Fevereiro.
37 A Lei de Autorização Legislativa, Lei n.º 43/86, de 26 de Setembro, no art. 2.º, n.º 2, als. 70 a 75, refere-se
ao sentido de fundo a dar ao novo regime de recursos, entre os quais a consagração, para todas as espécies de recurso ordinário interposto de decisão final, da garantia do contraditório, sem possibilidade, porém, de réplica nos recursos que sejam exclusivamente de direito.
38 Mas deve notar-se que a estrutura acusatória que exigia uma audiência com a máxima oralidade (versão
originária), passa a razoável efectivação dos princípios do acusatório e do contraditório a exigir a audiência (versão de 1998).
tribunal e os princípios do acusatório e do contraditório só podem razoavelmente
efectivar-se, nesta fase, em audiência; bem como a manutenção da autonomia entre
motivação (formatada, destinada a definir e fundamentar o objecto do recurso, com
vista ao seu recebimento) e alegações (destinadas à justificação e a discussão do mérito
do recurso).
Oralidade em audiência a que se refere o Tribunal Constitucional
39, no sentido
da conformidade constitucional da “revista alargada”: “há acrescentar ainda que, no
recurso de revista alargada (…), sendo, também ele, de estrutura acusatória, há lugar a
uma audiência; e, nesta, pode haver alegações orais”.
Reconhecia-se naquela Exposição de Motivos (1998) que o modelo de audiência
no Tribunal Superior, com a oralidade, tinha encontrado dificuldades no seu
desenvolvimento e estabilização, que a própria imprensa havia reportado. Mas o certo
é que não se seguiu um caminho que pudesse contribuir para a ultrapassagem de tal
dificuldade, quando a remissão genérica para as disposições da audiência em 1.ª
Instância
40e a imposição de prolação imediata dos acórdãos que conheciam do
recurso
41, foram muitas vezes a razão e/ou o pretexto das práticas menos produtivas e
adaptadas ao modelo do Código.
No já referido Relatório do GPLP era proposta a inversão da regra (oralidade)
que passava a ser excepção (requerida).
Escrevemos a propósito que a “compreensão de que as dificuldades do efectivo
funcionamento da oralidade nas audiências penais, não nos devem afastar desse
princípio que o próprio Relatório
42reconhece que é apontado pelo direito comparado e
pelos compromissos assumidos pelo Estado português. A solução de substituir a regra
da oralidade pela excepção: alegações escritas, não partiu da análise da forma como
decorrem as audiências e procura antes responder aprioristicamente a essa dificuldade.
Pode agir-se sobre a qualidade da intervenção oral e pode-se, perante a falta quase
sistemática dos advogados às audiências, tomar um de dois caminhos: cominação de
desistência no caso de 2ª falta do advogado, ou dispensa das alegações orais,
prosseguindo o processo imediatamente para decisão em conferência
43”.
Mas nunca se procurou agir sobre aquelas regras, permitindo o prolongar e
aprofundar das dificuldades
44.
39 AcTC n.º 322/93.
40 N.º 5 do art. 423.º, que se mantém. 41 N.º 3 do art. 425.º.
42 Como reconhece na conclusão 25.ª.
43 Regra que poderia ser introduzida no n.° 1 do art. 422.° do CPP, como sugeri e foi adoptado num
Projecto de Revisão do Partido Socialista.
44 Com o inerente fosso: os advogados repetiam o que estava na motivação, pois os juízes não faziam
Empobrece-se assim a oralidade que, de regra no julgamento dos recursos,
passa a excepção, passando as alegações orais a actos processuais supérfluos e a audiência
no tribunal de recurso a um direito renunciável, invocação dogmaticamente anódina
pois já antes o era e não obstante a regra era a da oralidade.
Mas, do mesmo passo, mesmo no caso em que há audiência com alegações orais
o seu objectivo é mudado, numa mudança não explicada e que não se compreende
imediatamente.
Agora é o recorrente, que pede a audiência, que especifica os pontos que
pretende ver debatidos
45, o que retira sentido à norma do art. 423.º, n.º 1: indicação pelo
relator das questões que o tribunal entende merecerem exame especial, ou, pelo menos
estabelece uma contradição difícil de reduzir, quando é certo que as alegações orais
não existem para recreação do recorrente, mas para esclarecimento do Tribunal. Aliás,
e com frequência, no Supremo Tribunal de Justiça, o Relator não só indica os pontos a
abordar especialmente nas alegações, como questiona o orador a propósito de questões
que o Tribunal entende deverem ser melhor esclarecidas, função primordial das
alegações.
Por outro lado, inverte-se a relação regra (oralidade) versus excepção (alegações
escritas); mas também se extinguem as alegações escritas, apelidadas agora de “pura
repetição das motivações”, quando anteriormente, como se viu, se afirmava a
“manutenção da autonomia entre motivação (formatada, destinada a definir e
fundamentar o objecto do recurso, com vista ao seu recebimento) e alegações
(destinadas à justificação e a discussão do mérito do recurso)”.
Deve notar-se que estas alterações alargam o espaço de tramitação unitária dos
recursos nas relações e no STJ, aproximando-os, reforçando uma das linhas de
orientação do Código.
De todo o modo, a audiência oral, uma trave mestra dos recursos no Código sai
ferida deste confronto.
4.2.
Outra das novidades desta Revisão traduz-se no funcionamento do tribunal de
recurso em três níveis: relator, conferência em reclamação e audiência, acompanhado
da alteração da formação da secção.
Numa síntese breve pode dizer-se que esses três níveis do tribunal de recurso,
se desenvolvem na forma seguinte:
Ao Relator, passa a competir-lhe:
acórdão que fora elaborado com base na motivação e respectiva resposta e que não tinham tido necessidade de alterar dada a falta de novidades em audiência, num círculo vicioso inextrincável.
— a homologação da desistência do recurso
46;
— o convite para apresentar, completar ou esclarecer as conclusões formuladas
pelo recorrente;
— decidir sobre a manutenção do efeito atribuído ao recurso;
— decidir sobre se há lugar à renovação da prova;
— apreciar o recurso quando este deva ser rejeitado, exista causa extintiva do
procedimento ou da responsabilidade e a questão a decidir já tenha sido
apreciada antes de modo uniforme e reiterado
4748.
À conferência cabe conhecer:
— da reclamação que cabe (sempre) do despacho do relator;
— do recurso quando a decisão do tribunal a quo não constituir decisão final;
— quando não houver sido requerida a realização de audiência
49.
À audiência compete o julgamento só nos restantes casos.
Com esta repartição de competências, a proposta de revisão visou
confessadamente a racionalização do funcionamento dos tribunais superiores,
promovendo-se uma maior intervenção dos juízes que os compõem, a título singular.
É de saudar esta inovação sobre uma questão que, no Relatório sobre os
Recursos elaborado pelo GPLP, era tratada (poderes do Relator e das decisões
sumárias) somente a propósito dos recursos em processo civil
50, quando ela se
mostrava importantíssima no plano penal, em que esses poderes são hoje muito mais
reduzidos do que no processo civil.
46 De acordo com a redacção proposta para o art. 415.º. 47 Art. 417 .º-A.
48 Assim, no exame preliminar a que procede, o Relator profere uma decisão singular (a decisão sumária)
sobre o recurso sempre que: (i) Alguma circunstância obstar ao conhecimento do recurso [a)]; (ii) Existir causa extintiva do procedimento ou da responsabilidade criminal que ponha termo ao processo ou seja o único motivo do recurso [c)]; ou (iii) O recurso dever ser rejeitado [b)]; (iv) for manifesta a sua improcedência[421.º, n.º 1, al a)]; (v) Se verifique causa que devia ter determinado a sua não admissão nos termos do artigo 414.º, n.º 2[421.º, n.º 1, al b)]; ou (vi) o recorrente não apresente, complete ou esclareça as conclusões formuladas e esse vício afectar a totalidade do recurso, nos termos do n.º 3 do artigo 417.º [421.º, n.º 1, al c)]; (vii) A questão a decidir já tiver sido judicialmente apreciada de modo uniforme e reiterado [d)].
Essa decisão de rejeição limita-se a identificar o tribunal recorrido, o processo e os seus sujeitos e a especificar sumariamente os fundamentos da decisão (n.º 2).
49 Art. 419.º.
Como lembraram os juízes das Secções Criminais do STJ
51:
«Diferentemente do que sucede com o processo civil (art. 700.º) e com o
processo no Tribunal Constitucional (art. 78.º-B da LOFTC), o Código de Processo
Penal não dispõe sobre os poderes do juiz relator nos Tribunais Superiores. Por
identidade de razão, seria de todo o interesses consagrar regras de teor semelhante
para os Tribunais Superiores.
Idem para a formulação de regras adaptadas de possibilidade de decisão
sumária a tomar pelo relator.»
Da decisão do relator cabe sempre reclamação para a conferência
52, mas a
conferência passa a ter uma composição mais restrita, englobando apenas o relator, um
vogal (e não dois) e o presidente da secção que só tem voto de desempate
53.
É assim introduzida uma mudança extensiva à composição do tribunal que
merece adesão quando restringe o número de juízes adjuntos em audiência no
Supremo Tribunal de Justiça
54, que passam a ser dois e não três como anteriormente,
mas que merece dissentimento quando prevê a redução, em conferência, para um só
adjunto e que o presidente da secção em todas as conferências terá voto de desempate
e será o segundo adjunto em todas as audiências.
Ora esta intervenção sistemática do presidente merece-nos bastantes reservas,
podendo mesmo mostrar-se de praticabilidade duvidosa.
Na verdade, o presidente que só dirigia a discussão e votava para desempatar
em audiência no STJ, passa a votar sempre nas audiências e a desempatar nas
conferências
55, nas Relações e no Supremo, o que pode significar que em cada sessão
semanal, poderá ter que intervir em mais de duas dezenas de acórdãos. É excessivo,
eventualmente incomportável, mesmo sem pensar que já tem novas funções atribuídas
por esta Revisão: decidir conflitos.
Por outro lado, pode conduzir a um afrouxamento do sentido de própria
jurisprudência, que, pela composição e sucessivas formações dos colectivos dos
tribunais superiores, postulava uma intervenção equilibrada de todos os juízes, sem
supremacia de nenhum deles.
51 Reflexão dos Juízes Conselheiros das Secções Criminais do STJ sobre a reforma processual penal,
disponível em www.verbojuridico.net, pareceres, de que fui relator com o Conselheiro Lourenço Martins.
52 Previsão constante do n.º 8 do art. 417.º proposto, que no entanto não abrange o despacho de
homologação da desitência pelo relator, de acordo com o art. 415.º
53 Art. 419.º, n.º 2, proposto.
54 Agora passam a intervir sempre 3 juízes, assim se uniformizando o recurso nas Relações e no Supremo
Tribunal de Justiça, o que se mostra adequado, pois que tal facto faz diminuir de forma razoável a intervenção de cada um dos juízes da secção que passa, assim, a ter que “conhecer” um menor número de recursos, sem perda de qualidade e do carácter colegial da decisão.
A intervenção em todos os processos do Presidente da Secção vai-lhe dar uma
intervenção acrescida capaz de romper aquele equilíbrio e atribuir-lhe uma mal sana
(?) supremacia, empobrecendo e prejudicando o carácter colectivo e equilibrado de que
se devem revestir as decisões dos Tribunais Superiores
56.
4.3.
Uma outra inovação prende-se com a recorribilidade para o Supremo Tribunal
de Justiça, quer das Relações, quer directamente da 1.ª Instância.
No que se refere ao recurso de segundo grau perante o Supremo Tribunal de
Justiça é proclamada a restrição aos casos de maior merecimento penal, “pelo que se
passa a fazer referência no art. 400.º às penas concretas e aos casos em que a Relação,
em recurso, não conhecer a final do objecto do processo”.
O Supremo Tribunal de Justiça é um «tribunal cuja função própria e normal é
restabelecer o império da lei, corrigindo os erros de interpretação e aplicação das
normas jurídicas cometidos pela relação ou pelo tribunal da l.ª instância, contribuindo
para a uniformização da jurisprudência».
57Como já tivemos ocasião de escrever, «acompanha, assim, o nosso Supremo
Tribunal de Justiça o ensinamento do direito comparado de, em primeiro lugar, velar
pela boa aplicação das regras jurídicas pelas jurisdições inferiores e, por essa forma,
assegurar ao direito unidade, clareza e certeza; em segundo lugar, modernizar o
direito, isto é, adaptá-lo às novas condições sociais e às aspirações contemporâneas: e
56 Se, como espera o Projecto de Revisão, diminuir drasticamente o número de processos a julgar em
audiência, poderia, quando muito, praticável que o presidente da secção tivesse intervenção na deliberação respeitante a esses processos, pois que os acompanha necessariamente ao presidir à audiência.
57 Alberto dos Reis, Código de Processo Civil Anotado, VI, pág. 2.
Pág. 1-15: «Pelo facto de estar colocado no mais alto grau da hierarquia judicial, de ser tribunal único, e de ser presumível que a jurisprudência estabelecida pelos seus acórdãos venha a ser adoptada, de futuro, em casos semelhantes, é natural que os tribunais de 1ª e 2ª instância se inspirem na interpretação e aplicação que o Supremo for dando aos textos legais.»
«O que dá aos acórdãos do Supremo um prestígio e valor especial é a circunstância de emanarem do mais alto tribunal e de dever supor-se que o Supremo manterá, de futuro, a sua jurisprudência, em casos semelhantes. Esta força, senão de persuasão, ao menos de supremacia, tenderá a produzir o seguinte resultado prático: os tribunais inferiores, mesmo quando não concordem com a doutrina emitida pelo Supremo, serão levados naturalmente a aceitá-la e a aplicá-la. Podem, certamente, reagir contra ela, quando a considerarem errada; e a cada passo reagem. Mas se o Supremo insistir na sua jurisprudência, se se mantiver fiel a ela, os tribunais inferiores acabarão por desarmar e por se submeter, certos de que a sua luta será inglória e inútil. A jurisprudência do Supremo acabará por triunfar contra as veleidades de resistência dos tribunais de instância. Pouco a pouco, por uma lei natural do espírito humano, os juízes dos tribunais inferiores vão-se conformando com as directrizes traçadas pelo Supremo em matéria de interpretação e aplicação das normas jurídicas. Este o mecanismo indirecto que conduz à uniformização da jurisprudência. Mecanismo lento, mas de resultado seguro. A acção deste mecanismo pressupõe a condição já assinalada: que o Supremo se mantenha fiel à sua própria jurisprudência ».
Cfr também Karl Larenz, a importância da jurisprudência para a actividade jurídica prática in Metodologia da Ciência do Direito, 2ª Ed., C. Gulbenkian, pág. 277.
só reflexamente fazer boa justiça ao recorrente»
58. Um Supremo Tribunal
59(…) que
seria híbrido – nem um terceiro grau de jurisdição que se não distingue das 1ª e 2ª
instâncias a não ser pela sua supremacia, uma vez que conhece igualmente de matéria
de facto e de direito, nem o oposto que tem exclusivamente por função o controle do
respeito da lei – e só poderia ser chamado a intervir sobre questões de direito mas
poderia alterar a decisão de fundo, sempre que os factos fossem suficientemente
claros
60.
Em síntese breve, trata-se de um Tribunal de revista entre o recurso normativo
e o recurso hierárquico, entre a cassação e a plena jurisdição, segundo pressupostos
objectivos de admissibilidade, como a dupla conforme e a rejeição manifesta.
Mas, o recurso penal deve ser, de algum modo, poupado às restrições, atenta a
natureza das questões visadas que contendem frequentemente com direitos
fundamentais e a perspectiva material-simbólica que assume o direito penal. E não se
pode esquecer que o Supremo Tribunal de Justiça acaba por ser a única fonte material
de sentencing, dada a ausência das respectivas políticas.
Aceita-se, a essa luz, a necessidade de retirar do âmbito do Supremo Tribunal
de Justiça os recursos respeitantes aos crimes de menor gravidade, purificando, do
mesmo passo, o seu papel de tribunal de revista, objectivos sucessivamente afirmados
pelo(s) legislador(es)
61.
Como se viu, a revisão de 1998 permitia o renascimento do duplo grau de
recurso, envolvendo o STJ
62, o que foi mitigado com a limitação dos casos em que as
Relações não decidem em última instância.
Assim se seleccionaram as situações em que as decisões proferidas pelas
Relações em via de recurso seriam recorríveis para o Supremo, com base na gravidade
das penas aplicáveis e no princípio da dupla conforme, evitando a asfixia deste
Tribunal.
58 Medida da Pena, Disparidades.
59 Cfr. o número especial da Revue Internationale de Droit Comparé, intitulado La Cour Judiciaire Suprême.
60 Cfr., no mesmo sentido a intervenção de Costa Andrade, no decurso da discussão sobre a consagração
constitucional das regras de acesso ao Supremo Tribunal de Justiça, Diário da AR, II Legislatura, 2ª Sessão Legislativa, II Série, 2º suplemento ao n.º 44 de 24-1-82, pág. 904 (51).
61 Diz-se na conclusão 36.ª do Relatório…, «quanto ao processo penal, em sede de diferenciação orgânica
entre as instâncias de recurso, deve, em primeiro lugar, aprofundar-se a orientação, iniciada coma Revisão de 1998, de atribuir às Relações a competência para julgar os recursos interpostos das decisões proferidas pelos tribunais de 1.ª instância e de purificar a função do Supremo Tribunal de Justiça como tribunal que conhece apenas da matéria de direito.
62 Pela atribuição às Relações da competência para a apreciação dos recursos das decisões dos tribunais
colectivos (e agora, como se sugere do Tribunal de júri) com a reserva da última palavra, no tocante à matéria de direito, ao Supremo.