AS FORMULAÇÕES PARA CAROLINA MARIA DE JESUS E QUARTO DE DESPEJO: interpretação e efeitos de sentido das designações em
manchetes de jornais
Texto de qualificação apresentado à Universidade de Franca, como exigência parcial para a obtenção do título de Mestre em Linguística.
Orientadora: Profa. Dra. Aline Fernandes de Azevedo Bocchi.
FRANCA
2021
Buranelli, Gabriela Moreira
B966f As formulações para Carolina Maria de Jesus e Quarto de despejo : interpretação e efeitos de sentido das designações em manchetes de jornais / Gabriela Moreira Buranelli ; orientador: Aline Fernandes de Azevedo Bocchi. – 2021
88 f. : 30 cm.
Dissertação de Mestrado – Universidade de Franca
Curso de Pós-Graduação Stricto Sensu – Mestre em Linguística
1. Linguística – Discurso. 2. Análise do discurso. 3. Jesus, Carolina Maria de, 1914-1977. 4. Interpretação. 5. Designação. 6. Nome próprio. I.
Universidade de Franca. II. Título.
CDU – 801:82-5
¹ Esta classificação poderá ser mantida por até um ano a partir da data de defesa. A extensão deste prazo suscita justificativa junto Coordenação do Curso. Todo resumo estará disponível para reprodução. ² Texto (PDF); Imagem (JPG ou GIF); Som (WAV. MPEG. AIFF. SND); Vídeo (MPEG. AVI. OT): Outros (Específico da área).
2. Identificação do documento/autor Universidade Instituição: Universidade de Franca - UNIFRAN
Pós-Graduação: MESTRADO EM LINGUÍSTICA Stricto Sensu Lato Sensu Área de concentração (Tabela CNPQ): LINGÜÍSTICA
Título: AS FORMULAÇÕES PARA CAROLINA MARIA DE JESUS E QUARTO DE DESPEJO: INTERPRETAÇÃO E EFEITOS DE SENTIDO DAS DESIGNAÇÕES EM MANCHETES DE JORNAIS.
Autor: GABRIELA MOREIRA BURANELLI
RG:409146109 CPF:42207130851
Orientador(a) Prof.(a) Dr.(a): ALINE FERNANDES DE AZEVEDO BOCCHI
RG:193460002 CPF:28344099862
Número de páginas: 88 (conforme o exemplar impresso corrigido após a defesa) Data de defesa: terça-feira, 9 de março de 2021
Data de Entrega do arquivo à Secretaria: sexta-feira, 9 de abril de 2021
3. Informações de acesso ao documento
sim não
Ocasionará registro de patente?
total parcial total
Pode ser liberado para publicação?
Em caso de publicação parcial, assine as permissões:
Sumário Conclusões Introdução Bibliografia
Proposição Capítulos. Especifique:
Material e Métodos Outras restrições:
Qual período permanecerá a publicação parcial?
Na qualidade de titular dos direitos de autor da publicação supracitada, de acordo com a Lei n° 9610/98, autorizo o Sistema de Bibliotecas da Cruzeiro do Sul Educacional e o IBICT, a disponibilizar gratuitamente, sem ressarcimento dos direitos autorais, conforme permissões assinadas acima, do documento, em meio eletrônico, na Rede Mundial de Computadores, no formato especificado², para fins de leitura, impressão e/ou download pela Internet, a título de divulgação da produção científica gerada pela Universidade à qual estou/estive vinculado, a partir desta data. O conteúdo poderá ser alterado conforme orientações da banca, dentro de um prazo de 60 dias, onde o aluno é responsável em remeter a versão final aos setores responsáveis.
Local: Franca Data: 09/04/2021
_____________________________________________
Assinatura do autor
_____________________________________________
Assinatura do orientador
Aos nove dias do mês de março de dois mil e vinte e um, reuniu-se, no(a) Bloco Cdi - Sala 51, a Comissão Julgadora designada pela Comissão da Unifran - Pós-Graduação, constituída pelos professores doutores: Profa. Dra. Aline Fernandes de Azevedo Bocchi (Orientadora), Profa. Dra. Luciana Carmona Garcia Manzano (Titular),Profa. Dra. Gloria da Ressurreição Abreu França (Titular), para examinar a candidata Gabriela Moreira Buranelli na prova da defesa de sua dissertação intitulada: AS FORMULAÇÕES PARA CAROLINA MARIA DE JESUS E QUARTO DE DESPEJO: INTERPRETAÇÃO E EFEITOS DE SENTIDO DAS DESIGNAÇÕES EM MANCHETES DE JORNAIS. A Presidente da Comissão Profa. Dra. Aline Fernandes de Azevedo Bocchi, iniciou os trabalhos às 14h, solicitando à candidata que apresentasse, resumidamente, os principais pontos do seu trabalho. Concluída a exposição, os examinadores arguiram alternadamente a candidata sobre diversos aspectos da pesquisa e da dissertação. Após a arguição, que terminou às 20h, a Comissão reuniu-se para avaliar o desempenho da candidata, tendo chegado ao seguinte resultado: Profa. Dra. Aline Fernandes de Azevedo Bocchi( __________________ ), Profa.
Dra. Gloria da Ressurreição Abreu França ( __________________ ),Profa. Dra. Luciana Carmona Garcia Manzano(
__________________ ). Em vista deste resultado, a candidata Gabriela Moreira Buranelli foi considerada _____________________, fazendo jus ao título de Mestre pelo programa de Mestrado em Linguística . Sendo verdade, eu, Prof.
Dr.Thercius Oliveira Tasso, Secretário de Pós-Graduação Stricto Sensu, confirmo e lavro a presente ata, que assino juntamente com os Membros da Banca Examinadora.
Franca, 09 de março de 2021.
Novo título (sugerido pela banca) :
PROFA. DRA. ALINE FERNANDES DE AZEVEDO BOCCHI
PROFA. DRA. LUCIANA CARMONA GARCIA MANZANO
PROFA. DRA. GLORIA DA RESSURREIÇÃO ABREU FRANÇA
aprovada
aprovada aprovada
aprovada
Prof. Dr. Thercius Oliveira Tasso
Secretário de Pós-Graduação Stricto Sensu
AS FORMULAÇÕES PARA CAROLINA MARIA DE JESUS E QUARTO DE DESPEJO: interpretação e efeitos de sentido das designações em manchetes de
jornais
COMISSÃO JULGADORA DO PROGRAMA DE MESTRADO EM LINGUÍSTICA
Presidente: Profa. Dra. Aline Fernandes de Azevedo Bocchi Universidade de Franca
Titular 1: Profa. Dra. Glória da Ressurreição Abreu França Universidade Federal do Maranhão
Titular 2: Profa. Dra. Luciana Carmona Garcia Manzano Universidade de Franca
Franca, 09/03/2021
É chegada a hora em que as lembranças dessa trajetória, tomam conta do meu ser e me fazem ver como foi trilhar o caminho até aqui. É a hora de finalizar esse ciclo importante e finalmente dizer obrigada. Nesse sentido, os meus mais sinceros agradecimentos para aqueles que estiveram comigo nessa empreitada:
À Marília, minha primeira orientadora, mulher forte e aguerrida, que além de apresentar a história de Carolina Maria de Jesus, me ensinou a ter coragem e desbravar o mundo acerca das pesquisas. Obrigada por todas as trocas, momentos, contribuições e, sobretudo, por me ensinar a enfrentar. Esse meu caminho trilhado até aqui, e tão importante para mim, foi graças ao seu convite para nos aventurarmos na história de Carolina. Infinitamente, obrigada!
À Aline, minha orientadora, mulher forte e inteligente, que me acolheu em um momento de angústia e ensinou, acima de tudo, a tomar a palavra e posicionar a existência do meu eu em cada uma delas, em cada linha. Obrigada por contribuições tão ricas, atentas e minuciosas. Obrigada pela profunda intensidade das trocas, orientações e conversas. Meu intenso obrigada!
À Glória França e Luciana Manzano por participarem das bancas de qualificação e defesa. Obrigada por seus olhares atentos e minuciosos que enriqueceram esta pesquisa. Muito obrigada por contribuírem de maneira tão rica e pertinente.
À Marli, minha mãe, mulher de fibra e garra, que partilha a vida comigo há 25 anos e me ensina sobre ser forte, independente e construir a minha história. Obrigada por tamanha compreensão que não encontraria em outro lugar que não fosse em você. Obrigada por me dar a vida e fazer com que ela chegasse aqui, nessa apoteose. Meu eterno obrigada!
Ao Elio, meu pai, que habita outro plano espiritual há 24 anos e às vezes me visita para (re)lembrar que a vida, assim como os ciclos, tem fim. Obrigada por nossas conversas silenciosas e por me escutar e acalentar em silêncio. Obrigada por tanto, mesmo muito longe.
Ao Rafael Nakamura, representação de amor intenso, por converter a angústia das inseguranças em sonhos e confiança, por sempre direcionar as melhores palavras e me acolher nas horas improváveis. Obrigada por tanto apoio, presença e afeto.
Obrigada!
À Maria Maximiana, Viviane, Lorena, Thais Balda, Giovanna e Renato por serem tão amigos e queridos. Obrigada pelos conselhos horas a fio nessa trajetória. Vocês foram importantes, obrigada!
À CAPES, pelo financiamento e oportunidade de dedicação plena a essa pesquisa.
e no farfalhar do meio som solto o grito do grito do grito e encontro a fala anterior, aquela que emudecida, conservou a voz e os sentidos nos labirintos da lembrança.
Conceição Evaristo
BURANELLI, Gabriela Moreira Buranelli. As Formulações para Carolina Maria de Jesus e Quarto de Despejo: interpretação e efeitos de sentido das designações em manchetes de jornais. Orientadora: Aline Fernandes de Azevedo Bocchi. 2021. 88f. Dissertação (Mestrado em Linguística) – Universidade de Franca, Franca.
Carolina Maria de Jesus foi uma das primeiras escritoras negras do Brasil, considerada uma das mais relevantes para a literatura nacional. Ela desponta no cenário editorial em 1960, com a publicação de Quarto de Despejo: Diário de uma favelada, que teve grande repercussão nacional e internacional, tornou-se best-seller com circulação em 40 países e tradução para 13 idiomas. Negra, catadora de papel e moradora da favela do Canindé, Carolina era designada pela imprensa nacional daquela época como “a favelada” ou “escritora-favelada”, o que a distanciava da possibilidade de ser interpretada como autora. Esta pesquisa propõe problematizar como a mídia interpretou a autora no ano em que foi lançado Quarto de Despejo, em 1960. Para isso, recorre- se a um corpus construído com recortes de manchetes de jornais desse período histórico, o qual possibilitará a análise das designações que significam Carolina e Quarto de Despejo, tendo em vista os pressupostos teóricos da Análise do Discurso pecheutiana. Intenta-se compreender os gestos de interpretação para Carolina na imprensa, os funcionamentos ideológicos que determinam os nomes e os processos de estereotipagem produzidos por eles. Verifica-se, no funcionamento discursivo das manchetes de jornais, a perpetração de silenciamentos históricos acerca da mulher negra. Os resultados indiciam processos de silenciamento e estereotipagem que funcionam nos discursos sobre Carolina, o que confirma o caráter estrutural do racismo e a importância dos movimentos antirracistas, sobretudo no que tange às mulheres. O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001.
Palavras-chave: Carolina Maria de Jesus; Análise do discurso; Interpretação; Designação;
Nome próprio.
BURANELLI, Gabriela Moreira Buranelli. As Formulações para Carolina Maria de Jesus e Quarto de Despejo: interpretação e efeitos de sentido das designações em manchetes de jornais. Orientadora: Aline Fernandes de Azevedo Bocchi. 2021. 88f. Dissertação (Mestrado em Linguística) – Universidade de Franca, Franca.
Carolina Maria de Jesus was one of the first black writers in Brazil, considered one of the most relevant for national literature. She emerged in the editorial scene in 1960, with the publication of Quarto de Despejo: diário de uma favelada, which had great national and international repercussions, becoming a best seller with circulation in 40 countries and translated into 13 languages. Black, a paper collector and resident of the Canindé slum, Carolina was designated by the national press as “the slum dweller” or “favelada-writer”, which distanced her from the possibility of being interpreted as an author. This research proposes to problematize how the media interpreted the author in the year in which Quarto de Despejo was launched, in 1960. For this, we use a corpus built with clippings from newspaper headlines from this historical period, which will enable the analysis of the designations meaning Carolina and Quarto de Despejo, in view of the theoretical assumptions of Pecheut's Discourse Analysis. We intend to understand the gestures of interpretation for Carolina in the press, the ideological workings that determine the names and the stereotyping processes sought by them. In the discursive operation of newspaper headlines, there is the perpetration of historical silences of black women. The results indicate silencing and stereotyping processes that work in discourses about Carolina, which confirms the structural character of racism and the importance of anti-racist movements, especially regarding women. This work was carried out with the support of the Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brazil (CAPES) - Financing Code 001.
Keywords: Carolina Maria de Jesus; Discourse Analysis; Interpretation; Designation; Proper noun.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 - Manchete do jornal Correio Paulistano 39 Figura 2 - Manchete do jornal Diário da Noite 41 Figura 3 - Manchete do jornal Diário da Noite 42
LISTA DE TABELAS
Tabela 1 – Relação de veiculação 39
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 12
1 ANÁLISE DE DISCURSO E INTERPRETAÇÃO: FUNDAMENTOS TEÓRICOS .. 16
1.1 LÍNGUA, DISCURSO E EFEITOS DE SENTIDO ... 17
1.2 A TEORIA DA IDEOLOGIA E A INTERPELAÇÃO DO SUJEITO ... 18
1.3 GESTOS DE INTERPRETAÇÃO SOBRE CAROLINA ... 21
1.4 DITOS, NÃO-DITOS, SILÊNCIOS E SILENCIAMENTOS ... 23
1.5 MEMÓRIA, EFEITO DE PRÉ-CONSTRUÍDO E DE-SIGNIFICAÇÃO ... 26
2 A CONSTRUÇÃO DO DISPOSITIVO TEÓRICO ANALÍTICO ... 30
2.1 TRAJETOS DE LEITURA NO ARQUIVO DIGITAL DA BIBLIOTECA NACIONAL 30 2.3 O CORPUS E O ARQUIVO: UMA PROBLEMÁTICA DISCURSIVA ... 34
2.4 NOÇÃO DE TRAJETO TEMÁTICO ... 36
3 O FUNCIONAMENTO DAS DESIGNAÇÕES NOS JORNAIS DE 1960 ... 39
3.1 CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO ... 39
3.1.1 Sentidos da favela: vestígios da ideologia higienista ... 41
3.1.2 Quarto De Despejo: sentidos postos à margem ... 45
3.2 O ACONTECIMENTO JORNALÍSTICO ... 49
3.3 O FUNCIONAMENTO DAS DESIGNAÇÕES NOS PERIÓDICOS ... 50
3.4 A NOÇÃO DE ESTEREÓTIPO E O PROCESSO DE ESTEREOTIPAGEM ... 58
3.5 O FUNCIONAMENTO DO NOME PRÓPRIO: EFEITOS DE UMA INVERSÃO ... 60
3.6 DE QUE MULHERES ESTAMOS FALANDO? ... 63
3.7 A "ESCRITORA NEGRA" E A FALHA NO RITUAL IDEOLÓGICO ... 69
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 72
REFERÊNCIAS ... 74
ANEXOS ... 80
INTRODUÇÃO
Minhas inquietações acerca deste trabalho começaram em 2016, quando eu ainda cursava o segundo ano da graduação em jornalismo. Tardiamente, em uma noite de muito frio na Universidade de Franca, meu caminho cruzou com a história de Carolina Maria de Jesus quando uma das minhas professoras, e por muito tempo orientadora, contou brevemente sobre a vida e obra da autora. O incômodo foi instantâneo. Depois de ouvir sobre Carolina, questionava: Como era possível durante os meus 20 anos não ter escutado sobre aquela autora? Por que não ouvi sobre ela durante meu percurso escolar? Por que não soube dela nas aulas de literatura?
Ao partilhar meu incômodo com outras pessoas, percebi que raramente conheciam a existência da autora e, quando conheciam, sabiam muito pouco sobre ela. As inquietações aumentaram até chegar em uma apoteose dolorosa ao ter o meu primeiro contato com a obra Quarto de Despejo. À medida que adentrava nesse Quarto, questionamentos acerca dessa autora me instigavam avassaladoramente. Desde então, divido grande parte da minha jornada com essas inquietações que não cessam.
Iniciei, então, um percurso acadêmico com a realização da pesquisa de Iniciação Científica proposta pela minha orientadora na época, Profa. Dra. Marília Giselda Rodrigues, a respeito do ethos de Carolina Maria de Jesus em sua obra, com base nos conceitos de Maingueneau sobre os embreantes paratópicos. Em um momento posterior, passamos pela interlíngua, também de Maingueneau, para compreender como se mobilizava o código linguageiro na primeira obra da autora. Terminado meu percurso de estudo, resgatei minhas primeiras inquietações, que diziam respeito ao fato de poucos conhecerem a autora, e levei para o meu trabalho de conclusão de curso da graduação. Com o intuito de divulgar a história caroliniana, produzi um videodocumentário sobre vida e obra da autora. Durante esse processo, ao entrevistar pesquisadores, autores e Vera Eunice, filha da autora, descobri novas faces e questionamentos sobre aquele universo que não tinha, e não tem, fim.
Ao ingressar no mestrado, vislumbrei a possibilidade de dar mais voz às minhas inquietações acerca de Carolina. A realização de uma pesquisa surgia agora como oportunidade para aprofundar questões intrínsecas ao meu incômodo em relação ao tema. Dessa vez, os
pensamentos rondavam os caminhos de uma problemática específica em relação à obra de Carolina, que parecia romper padrões enunciativos e autorais de escritores da época. Ao examinar jornais do período de lançamento de Quarto de Despejo, percebi uma insistência por parte da mídia em uma interpretação dominante1 de Carolina como “favelada”. As designações para Carolina presentes nesses documentos exibiam vestígios de um processo de significação que insistia em qualificar e caracterizar Carolina na relação com a favela, como produto desta – “uma favelada”.
Carolina, ao causar tantos desassossegos em mim, fez com que a minha atenção se voltasse para entender qual a problemática que envolve o silenciamento de Carolina e sua obra perante a maneira como a mídia interpretava ambos. Em agosto de 1960, a editora Francisco Alves anunciava o surgimento de uma das autoras fundamentais no que tange à literatura negra. Carolina Maria de Jesus, uma potência feminina que nunca se calou diante as mazelas sociais, prenunciava tantas outras Carolinas e uma existência pouco revelada na literatura: a realidade da favela. Ao publicar sua primeira obra, Quarto de Despejo: diário de uma favelada, Carolina provocou alarde, pois seu diário aludia a uma realidade e, sobretudo, a uma escrita e a um lugar de enunciação até então não reconhecidos socialmente, mas de suma importância por questionar não apenas o modelo literário da época, mas, sobretudo, as bases estruturais de uma formação social profundamente desigual, marcada pelo racismo, sexismo e pela aversão e hostilidade à pessoa pobre. Mulher negra e pobre, Carolina extrapola o convencional, caracterizado majoritariamente pelo cânone literário branco, e subverte toda a lógica de produção do mercado editorial da época.
A autora passa a ocupar incansavelmente manchetes de jornais nacionais e internacionais. Mulher negra, que elabora seu diário com base em sua experiência pessoal enquanto moradora da favela do Canindé, a partir de um olhar até então não evidenciado em uma obra literária, alvoraça uma mídia acostumada com uma literatura canônica produzida em aparente harmonia com as “normas” linguísticas. Ao descortinar sentidos da favela que até então não haviam sido abordados, quiçá reconhecidos socialmente, Carolina surge no mercado editorial ao narrar sua vida cotidiana em cadernos “descobertos” e publicados pelo jornalista Audálio Dantas, chamando a atenção da sociedade para questões até então ausentes em livros de autores consagrados.
Quarto de Despejo, ao romper com os padrões do mercado editorial da época,
1 Compreendo que a produção de sentidos de Carolina como “favelada” é hegemônica dada a direção interpretativa ideológica da época mobilizam. No entanto, embora seja dominante, esse sentido não pode ser considerado homogêneo. Há uma heterogeneidade que se dá pelas brechas, pela falha e na quebra do ritual ideológico.
revela uma outra perspectiva até então não interpretada pela mídia: mulher negra, mãe de três filhos, moradora da extinta Favela do Canindé e com menos de dois anos de estudo. Esses elementos fomentam um estranhamento a que a mídia e o mercado editorial não estavam acostumados, já que os autores da época eram majoritariamente homens brancos e de classe média. E as mulheres, notadamente brancas.
O presente trabalho é, então, fruto de uma somatória de inquietações acumuladas e o cerne da pesquisa são os modos de dizer e significar Carolina Maria de Jesus e Quarto de Despejo: diário de uma favelada no ano de lançamento da obra, em 1960. Nessa perspectiva, parto dos seguintes questionamentos: como a mídia informativa interpreta Carolina Maria de Jesus e sua primeira obra no ano de publicação de Quarto de Despejo? Na remissão às condições de produção, como os processos discursivos desenham sentidos que se repetem e/ou deslizam? Desse modo, ao levar em consideração a relação entre as designações para a autora presentes em jornais daquele momento histórico, nas quais prevalecia processos de identificação de Carolina como “a favelada”, pergunto sobre como são construídos historicamente os sentidos para essas designações, percorrendo redes de memória que dispõem ideologicamente sentidos para as mulheres negras pautados pelos discursos da escravidão e do colonialismo.
Procuro responder essas questões à luz dos postulados teóricos e metodológicos da Análise de Discurso, de orientação Francesa, evidenciados sobretudo nos pressupostos que tangem a noção de acontecimento discursivo e memória para Pêcheux (2002; 2008), bem como nos estudos de Eni Orlandi (2007) no que diz respeito aos gestos de interpretação. Deste modo, objetivo investigar como o processo de significação, para autora e obra, retomam ou mantém os sentidos por meio do funcionamento discursivo das manchetes de jornais, bem como as designações que norteiam e conduzem interpretações para Carolina Maria de Jesus.
Como corpus, utilizo um conjunto de manchetes de jornais publicadas em 1960, no lançamento de “Quarto de Despejo”. No que diz respeito ao momento de lançamento da obra, as manchetes foram recortadas de jornais em circulação à época, encontradas no arquivo da Biblioteca Nacional Digital. Desse modo, o material analisado é disposto em um arquivo elaborado para tentar responder como as designações participam de processos de significação da autora e de Quarto de Despejo tendo em vista suas condições de produção.
A partir do que foi exposto, esta dissertação está estruturada em três capítulos.
No primeiro capítulo, apresento as bases epistemológicas da Análise do Discurso, as quais fundamentam essa pesquisa, a fim de compreender conceitos-chave importantes que a
sustentam. Para isso, utilizei os pressupostos teóricos de Pêcheux (1995), bem como de Eni Orlandi (2007), buscando problematizar o funcionamento dos gestos de interpretação ensejados. Além disso, outros autores foram importantes para sustentar a reflexão, desde o contexto de surgimento da AD à conceitos como o de de-significação.
No segundo capítulo, considero a construção do dispositivo teórico analítico em que pontuo a noção de corpus, arquivo e o trajeto temático. Para isso, pormenorizo como se deu a construção do dispositivo ao partir do trajeto de leitura pelos arquivos da Biblioteca Nacional. No terceiro capítulo, explano as condições de produção no lançamento de Quarto de Despejo. Na sequência, direciono a pesquisa para um processo que procuro designar como a midiatização do acontecimento. Em seguida, busco apoio teórico em Zoppi-Fontana (2003) para embasar as análises das designações em 1960, traçando reflexões sobre o nome próprio.
Por fim, me detenho na questão de estereótipo e, para isso, busco apoio em Glória França (2018) para compreender o processo de estereotipagem.
Por fim, apresento um anexo com as manchetes de jornais que circularam em 1960 nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná. Embora nem todas sejam analisadas, julguei pertinente documentar a pesquisa e possibilitar ao leitor verificar outras ocorrências além das trabalhadas nas análises do corpus. O leitor poderá, ainda, constatar as recorrência de designações como “favelada”, bem como a inversão do nome próprio.
1 ANÁLISE DE DISCURSO E INTERPRETAÇÃO: FUNDAMENTOS TEÓRICOS
Vou escrever um livro referente a favela. Hei de citar tudo que aqui se passa. E tudo que vocês me fazem. Eu quero escrever o livro, e vocês com estas cenas desagradaveis2 me fornece os argumentos.
Carolina Maria de Jesus
Inicialmente, é preciso expor a conjuntura epistemológica de surgimento da Análise de Discurso, doravante AD, posto que seus fundamentos fornecem a base teórica que ancora esta pesquisa. A AD articula três áreas do conhecimento científico, a Linguística, Materialismo Histórico e Psicanálise, as quais balizam seus conceitos desde seu surgimento, na década de 60, na França, quando as contribuições e formulações iniciais de Pêcheux e seus colaboradores evidenciaram a problemática do sujeito em relação ao sentido.
O que caracteriza a AD, desde o princípio, é o fato dela “considerar a (re)leitura althusseriana de Marx e o desenvolvimento de Pêcheux do projeto de Althusser em uma teoria materialista dos processos de significação atravessada por uma noção psicanalítica do sujeito”
(BALDINI, ZOPPI-FONTANA, 2013, p. 9). Nessa perspectiva, o sujeito é entendido não como a origem do dizer, mas como efeito da relação intrínseca entre a linguagem e o sentido, sendo esse originado na história e retomado por meio do funcionamento do interdiscurso. As condições de produção (PÊCHEUX, 2010) e circulação de um discurso são constitutivas dos sentidos e remetem à atualização de uma memória que pode reafirmar um já-dito e/ou produzir deslocamentos.
Considerada como uma disciplina de entremeio (ORLANDI, 2007, p. 23), a análise do discurso não se mobiliza entre as outras disciplinas, mas sim por meio da contradição entre elas. Para Orlandi, as disciplinas de entremeio não soam como interdisciplinares tidas na relação comum de uma pela outra. Pelo contrário, ela estabelece que o que determina o discurso é a relação com sua exterioridade, ou seja, nas palavras da autora, “a AD se forma no lugar em que a linguagem tem de ser referida necessariamente à sua exterioridade, para que se apreenda
2 As citações referentes à Carolina Maria de Jesus utilizadas nesta pesquisa respeitam fielmente o padrão ortográfico da autora, tal como está escrito e impresso na 10° edição, da editora Ática, de Quarto de Despejo:
diário de uma favelada.
seu funcionamento, enquanto processo significativo” (ORLANDI, 2007, p. 24).
Orlandi ainda postula que a AD é, na verdade, um tipo de antidisciplina ou desdisciplina, uma vez que coloca
questões da linguística no campo de sua constituição, interpelando-a pela historicidade que ela apaga do mesmo modo que coloca questões para as ciências sociais em seus fundamentos, interrogando a transparência da linguagem sobre a qual elas se assentam (2007, p. 25).
Assim, o que a AD indaga e introduz é a questão fulcral do sujeito e da situação enunciativa, ao descentralizar o sujeito como supostamente a origem do dizer. Ao interrogar possíveis contradições, a AD estrutura-se nesse entremeio, no espaço da contradição. É então a partir dessa teoria de entremeio que mobilizaremos as análises desta pesquisa.
1.1 LÍNGUA, DISCURSO E EFEITOS DE SENTIDO
É importante ressaltar que, para a AD, tanto a questão da linguagem quanto a da língua estão perpassadas pela não-transparência, incompletude e equívoco que engendram o funcionamento do discurso. Isso quer dizer que tomo as manchetes dos jornais e as designações nelas presentes em sua opacidade; procuro, a partir de uma análise da materialidade linguística, chegar aos processos de subjetivação/identificação que constituem sentidos para Carolina e Quarto de Despejo, ratificando para eles uma identidade em confluência com um processo de estereotipagem.
Dito de outra maneira, ao operar uma análise linguística remeto ao que é próprio da língua, posto que ela tem sua especificidade, isto é, uma ordem própria; no domínio da Análise de Discurso, compreende-se que a língua possui uma autonomia relativa e é constituída pelo equívoco. O funcionamento tanto da linguagem quanto da língua relaciona-se com a formação ideológica haja vista que a ideologia estabelece a atualização e possibilidades da significação, na medida em que o sujeito se submete a ela.
Assim, para a AD, o sentido está atrelado ao processo que o produz, uma vez que ambos estão interligados por meio de um funcionamento ideológico. A noção de ideologia, entendida aqui como um mecanismo que resulta em evidência (ORLANDI, 2020) tanto dos sujeitos quanto dos sentidos, é condição para que sujeito e sentido existam, uma vez que “o indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia para que se produza o dizer” (ORLANDI,
2020, p. 44).
A noção de discurso remete “a ideia de curso, de percurso, de correr por, de movimento. O discurso é assim palavra em movimento, prática de linguagem: com o estudo do discurso observa-se o homem falando” (ORLANDI, 2020, p. 15). O discurso é o que media a relação entre o homem e sua inserção no mundo. Isto é, há uma dependência entre sujeito e discurso, de modo que o primeiro é interpelado pelo segundo, por meio de um processo ideológico que opera na língua e determina os sentidos.
Assim, uma leitura discursiva das manchetes de jornais deve estar atenta ao funcionamento da língua, ou seja, ao modo como a ideologia determina sentidos através de efeitos de exclusão e silenciamento decorrentes da construção discursiva da identidade de Carolina enquanto sujeito socialmente discriminado em relação à cidade, ao gênero e à raça. Focalizo, em particular, os processos de identificação para Carolina produzidos pelo funcionamento das designações; coloco em relevo as contradições, as filiações de memória e os silenciamentos, procurando mostrar como a mídia produz e reforça um processo de estereotipagem.
1.2 A TEORIA DA IDEOLOGIA E A INTERPELAÇÃO DO SUJEITO
A ideologia, fundamentada aqui nos preceitos da Análise de Discurso, é entendida não como ocultação da realidade, mas como prática determinante das significações que opera na relação entre sujeito e sentido. Dito com outras palavras, para se significar, o sujeito interpelado pela ideologia esquece que os sentidos derivam do modo como a língua se inscreve na história e cria a ilusão de que existe um “eu” que é detentor da origem do seu dizer. Entretanto, esse sentido é um efeito de sentido já lá; nesse processo há, portanto, a produção da ilusão que o sujeito teria acesso a tudo o que diz (controle sobre os sentidos) e seria origem desse dizer. Assim, “o sujeito só tem acesso a parte do que diz. Ele é estruturalmente dividido, desde a sua constituição. A falta o constitui” (ORLANDI, 1996, p. 28).
Althusser, principal referência de Pêcheux na elaboração da teoria dos processos discursivos, apresenta sua definição de ideologia na obra Ideologia e aparelhos ideológicos do Estado ao propor uma releitura de Marx. Segundo ele, “só existe ideologia pelo sujeito e para sujeitos” (ALTHUSSER, 1980, p. 93). Ao trabalhar a questão da constituição do sujeito pela ideologia, Althusser postula:
[...] toda ideologia tem por função (é o que a define) “constituir” indivíduos concretos em sujeitos. É neste jogo de dupla constituição que se localiza o funcionamento de toda a ideologia, pois que a ideologia não é mais que o seu próprio funcionamento nas formas materiais da existência deste funcionamento (ALTHUSSER, 1980, p. 94).
Desse modo, nos interessa aqui aprofundar mais detidamente uma compreensão do sujeito enquanto sujeito ideológico, uma vez que para a AD o sujeito é interpelado pela ideologia. A evidência do sujeito e do sentido é efeito da interpelação pela ideologia, dado que
“não há aliás realidade sem ideologia. Enquanto prática significante, a ideologia aparece como efeito da relação necessária do sujeito com a língua e a com a história para que haja sentido”
(ORLANDI, 2020, p. 46). Assim, compreende-se que a ideologia estabelece a relação entre linguagem e mundo uma vez que ela “intervém com seu modo de funcionamento imaginário”
(ORLANDI, 2020, p. 46).
Sobre essa questão, postula-se que é por meio da ideologia que o sujeito se constitui, dado que
Pela interpelação ideológica do indivíduo em sujeito inaugura-se a discursividade. Por seu lado, a interpelação do indivíduo em sujeito pela ideologia traz necessariamente o apagamento da inscrição da língua na história para que ela signifique produzindo efeito de evidência do sentido (o sentido-lá) e a impressão do sujeito ser a origem do que diz (ORLANDI, 2020, p. 46).
Para a autora, a interpelação em sujeito pela ideologia, dada sua inserção do simbólico, resulta na mobilização tanto da memória, quanto do esquecimento, pois é justamente por meio do funcionamento de ambos, em trabalho com a ideologia, que o sentido se produz enquanto efeito. Magalhães e Mariani colocam que:
A interpelação produz assujeitamento e isso ocorre em qualquer época histórica, em quaisquer que sejam as condições de produção, pois resulta da inscrição do sujeito no simbólico e, ao mesmo tempo, produz como resultado que esse sujeito, afetado pelo simbólico, expresse a sua subjetividade na ilusão de autonomia e de ser origem do seu dizer (MAGALHÃES e MARIANI, 2010, p. 392).
É propício destacar a relevância do esquecimento no funcionamento da linguagem enquanto processos ideológicos. É por meio do esquecimento que se cria a falsa percepção de que o sujeito é a origem do seu dizer.
Com intuito de compreender a importância do esquecimento, é necessário inferir sobre os esquecimentos número um, da ordem da ideologia, e número dois, referente à enunciação. Com base no que propõe Orlandi (2020, p. 33), o esquecimento número um está
associado a ilusão do sujeito estar na origem do seu dizer. No funcionamento da ideologia, ao falar, o sujeito retoma um sentido já existente e, nessa retomada, “esquece” que o sentido preexiste, já-lá. Para Orlandi, os discursos circulam antes mesmo de nascermos; pressupõe-se então que somos inseridos em processos de significação já existentes. A autora ainda acrescenta que “embora se realizem em nós, os sentidos apenas se representam como originando-se em nós:
eles são determinados pela maneira como nos inscrevemos na língua e na história e é por isso que significam e não passam pela nossa vontade” (ORLANDI, 2020, p. 33).
Para Magalhães e Mariani, o sujeito é entendido como aquele que, além de não controlar ou ser a origem do seu dizer, tem relação com as marcas do Outro, posto que o seu dizer se funde ao dizer do Outro, mas que essa relação é dificilmente percebida por ele. O sujeito, conforme expõem as autoras (2010, p. 404), “não se percebe constituído pelo Outro, por essa rede de significantes que o constituiu. Ou seja, nós nos pensamos espontaneamente como origem de nossos pensamentos, atos e palavras”.
O esquecimento número dois, por sua vez, é o que acontece no nível da enunciação. Compreende-se que esse esquecimento, conforme postula Orlandi, indica que os dizeres sempre podem ser outros de maneira que para falarmos x, não falamos y. Entretanto, não nos damos conta que há diversas formas de dizer; esse esquecimento cria a ilusão de que só é possível dizer x de uma única maneira, com determinadas palavras. Ela ainda ressalta que esse esquecimento é parcial e semiconsciente, pois “muitas vezes voltamos sobre ele, recorremos a esta margem de famílias parafrásticas, para melhor especificar o que dizemos. É o chamado esquecimento enunciativo e que atesta que a sintaxe significa: o modo de dizer não é indiferente aos sentidos” (ORLANDI, 2020, p. 33).
Segundo Bocchi (2019), desde a perspectiva da AD, consentir na interpelação do indivíduo em sujeito pela ideologia nos possibilita afastar a sombra do voluntarismo; “a AD remete para uma compreensão da linguagem como prática simbólica que se constitui pela via do significante, em que se considera os processos de constituição do sujeito” (p. 107). Para essa autora, não é, portanto, do indivíduo que trata a AD, mas de um efeito-sujeito resultante de processos de interpelação-identificação com implicações nos modos de se compreender a noção de interpretação, conforme veremos no tópico que se segue.
1.3 GESTOS DE INTERPRETAÇÃO SOBRE CAROLINA
A Análise do Discurso, ao propor o exame das condições de produção, abre margem para questões que atravessam o discurso, como a noção de interpretação teorizada por Orlandi (2007).
O discurso, entendido como “efeito de sentidos entre locutores” (PÊCHEUX, 2010) é o objeto central de estudo da AD, que visa compreender como os sentidos se constituem a partir de gestos de interpretação no simbólico. À luz teórica de Orlandi, a AD é “uma ciência da interpretação”
(ORLANDI, 2013, p. 3), dado que a interpretação opera na afluência do real dos sentidos com a linguagem, a memória e historicidade da materialidade, de modo que o sentido não é único, mas sempre pode ser outro.
Assim, a interpretação encontra-se articulada à manifestação da linguagem, uma vez que os objetos simbólicos podem ser significados de maneiras diversas; o sentido tem sua especificidade de modo aberto. No entanto, é o gesto de interpretação que interroga a direção do sentido, uma vez que “O gesto de interpretação se dá porque o espaço simbólico é marcado pela incompletude, pela relação com o silêncio. A interpretação é o vestígio do possível. É o lugar próprio da ideologia e é “materializada” pela história” (ORLANDI, 2007, p. 18).
O trabalho da interpretação não se limita a uma formulação interpretativa única, não estaciona em uma só direção possível. O analista de discurso interroga possíveis caminhos, uma vez que ele não interpreta, mas “trabalha (n)os limites da interpretação” (ORLANDI, 2020, p. 59); ele mostra, por meio de seus procedimentos, os gestos de interpretação que direcionam os sentidos. Ainda, considero que o movimento do gesto de interpretação, face à abertura dos processos de significação (ORLANDI, 2013), permite trabalhar as condições de produção dos objetos simbólicos, o como os sentidos são produzidos e significados.
Neste ínterim, examino os gestos de interpretação que direcionam os sentidos constitutivos das designações que significam Carolina e Quarto de Despejo, com o intuito de verificar efeitos de estigmatização, silenciamento, estereotipagem e/ou deslocamentos decorrentes desses processos discursivos. O gesto de interpretação faz funcionar a memória discursiva de modo a ratificar determinados sentidos, inscrevendo para tanto posições-sujeito específicas. Ou seja, o funcionamento do discurso jornalístico fornece uma interpretação determinada sobre Carolina, por meio de designações que dão a ver processos de identificação.
Assim, embora os gestos de interpretação não sejam estagnados e únicos, abrindo os processos de significação para sentidos outros, eles não ocorrem de maneira arbitrária. Se por um lado a mídia mobiliza sentidos ao noticiar o lançamento de Quarto de
Despejo, por outro também os estabiliza a partir de pré-construídos, uma vez que oferece um caminho de interpretação aos leitores, que são direcionados a significar Carolina, no momento do lançamento de Quarto de Despejo, na relação com a periferia, no espaço urbano; “a favelada”, “catadora de reciclagem” etc., nomes que reforçam um certo lugar para essa mulher negra no território, especificam para ela sentidos atrelados a uma significação especifica acerca da favela. Tais designações engendram uma narrativa que condiciona o olhar do leitor para sentidos estabilizados a partir dessas interpretações.
Se a incompletude atesta a condição da linguagem de que a tríade sujeito, sentido e discurso não são estanques, é essa condição, de serem sempre passíveis de deslocamentos, que garante o movimento, a transformação e insurgência de novos sentidos. Isso porque, de acordo com Orlandi (2020, p. 35), ao levar em consideração a língua suscetível ao equívoco, a possibilidade da ruptura pelo real da história e a falha do ritual ideológico dá abertura para que o sujeito se signifique diferentemente, garantindo assim a possibilidade de movimento dos sentidos.
Orlandi articula a problemática da incompletude com a relação entre paráfrase e polissemia. Para ela, sujeito e sentido “estão sempre se fazendo, havendo um trabalho contínuo, um movimento constante do simbólico e da história. É a condição de existência dos sujeitos e dos sentidos: constituírem-se na relação tensa entre paráfrase e polissemia” (ORLANDI, 2020, p. 35). Embora os processos parafrásticos busquem a estabilização da significação, sujeito e o sentido sempre podem ser manejados de formas distintas, comportando-se como outros, isso se dá pelo modo como a língua os afeta, permitindo que se inscrevam no simbólico.
[...] a paráfrase é a matriz do sentido, pois não há sentido sem repetição, sem sustentação no saber discursivo, e a polissemia é a fonte da linguagem uma vez que ela é a própria condição de existência dos discursos pois se os sentidos – e os sujeitos – não fossem múltiplos, não pudessem ser outros, não haveria necessidade de dizer.
A polissemia é justamente a simultaneidade de movimentos distintos de sentido no mesmo objeto simbólico (ORLANDI, 2020, p. 36).
Assim, para a autora, “todo o funcionamento da linguagem se assenta na tensão entre processos parafrásticos e processos polissêmicos” (ORLANDI, 2020, p. 34). Essa especificidade garante que se possa trabalhar o discurso entre o mesmo e o diferente. Enquanto a paráfrase trabalha nos processos da memória, daquilo que se mantém, a polissemia desloca os sentidos de modo a produzir uma ruptura nos processos de significação, possibilitando a manifestação de diferentes sentidos.
No cotejo com o corpus de pesquisa, observa-se que o modo como a mídia
informativa interpreta Carolina no momento de lançamento de Quarto de Despejo é regulado, sobretudo, por processos parafrásticos; nas manchetes de jornais em circulação nesse momento, repete-se algo que se mantém e que condensa sentidos para Carolina a partir da designação
“favelada”. Entretanto, é preciso destacar que os sentidos de favelada não se encontram colados ao nome, mas são constituídos por processos ideológicos que significam a favela, em 1960, a partir de vestígios de uma política higienista de organização das cidades brasileiras difundida no Brasil desde o final do Séc. XIX e início do XX, a qual determina para os corpos considerados “inadequados”, corpos pobres e sobretudo negros, espaços de segregação e divisão que se materializam na linguagem. A ideologia higienista encontra-se no cerne de formação das favelas e está atrelada à intervenção na ordem das cidades para impor disciplina das condições de vida por meio da higiene pública. Em nome do progresso, ela disciplina espaços e corpos, tece “para a cidade um mapa esquadrinhado por relações sociais desiguais, nas quais impera o sexismo e o racismo” (BOCCHI, 2018, p. 223).
Em contrapartida, a polissemia atesta um deslocamento, verificado nas análises do momento do centenário, quando novas formas de dizer Carolina encontram condições para serem formuladas e quando posições-sujeitos e lugares enunciativos interditados em 1960 ganham espaço, inclusive na mídia. Observa-se, nos recortes que serão examinados no terceiro capítulos desta dissertação, designações como “a escritora” sendo formuladas, como vemos em:
“Carolina de Jesus foi a escritora que mais vendeu livros no Brasil”. Ou as designações presentes em: “Luz negra. Carolina Maria de Jesus será a homenageada da edição deste ano da Flink”, onde Carolina é designada “Luz negra” e “a homenageada”, num claro movimento de reconhecimento de seu mérito e de seu trabalho como escritora. A formulação de Carolina na relação com a favela não desaparece. Entretanto, o nome “favela” e seu derivado “favelada”
passam a significar diferentemente.
1.4 DITOS, NÃO-DITOS, SILÊNCIOS E SILENCIAMENTOS
Com base nos pressupostos de Orlandi (2007), é preciso salientar a compreensão do discurso a partir da noção de silêncio. Ao considerar que o dito é também um não-dito, isto é, que ao manifestar determinado enunciado deixa-se de evocar outros, abrimos espaço para uma problematização do silêncio e a sua relação com o sentido.
Em sua teorização sobre o silêncio, Orlandi estabelece a diferenciação entre o silêncio fundador e as políticas do silêncio. Para ela, o silêncio fundador se apresenta como imprescindível, ou seja, necessário, já que confere movimento aos sentidos e que “sempre se diz a partir do silêncio” (ORLANDI, 2007, p. 23). Segundo a autora, “as próprias palavras transpiram silêncio” (ORLANDI, 2007, p. 11):
O silêncio é assim, a “respiração” (o fôlego) da significação, um lugar de recuo necessário para que possa significar, para que o sentido faça sentido. Reduto do possível, do múltiplo, o silêncio abre espaço para o que não é “um”, para o que permite o movimento do sujeito (ORLANDI, 2007, p. 13).
Segundo ela, o silêncio opera em duas instâncias - a primeira, nas próprias palavras, e a segunda no silenciamento, que diz respeito ao fato de que colocar em silêncio pode evocar sentidos outros, tendo em vista que as palavras “produzem silêncio, o silêncio fala por elas, elas silenciam” (ORLANDI, 2007, p. 14). As palavras carregam em si os sentidos do dito, já-dito e não-dito sem esquecer do fato de que o silêncio, no interior da linguagem é um não- dito que significa. Ou seja, o silêncio não pode ser entendido aqui como algo de ordem restritiva, pelo contrário, ele é carregado de historicidade; o silêncio significa.
Acerca do silêncio fundador, é preciso explorar a duplicidade da palavra fundante que, nos dizeres de Baldini (2011, p. 135), pode ser compreendido “como aquilo que funda e como aquilo que dá fundamento, sustentação”. Isso permite entender, então, que o silêncio fundador é aquele que
Atravessa as palavras, que existe entre elas, ou que indica que o sentido sempre pode ser outro, ou ainda que aquilo que é o mais importante nunca se diz, todos esses modos de existir dos sentidos e do silêncio nos levam a colocar que o silêncio é ‘fundante’
(ORLANDI, 2007, p. 14).
Se por um lado o silêncio fundador apresenta um modo próprio de atuar, posto que ele é entendido “como o não-dito que é a história, e que, dada a necessária relação do sentido com o imaginário, é também função da relação (necessária) da língua e ideologia”
(ORLANDI, 2007, p. 22), por outro a política do silêncio atua entre o dito e não-dito e se caracteriza “pelo fato de que ao dizer algo apagamos necessariamente outros sentidos possíveis, mas indesejáveis, em uma situação discursiva dada” (ORLANDI, 2007, p. 73).
Para Orlandi (2007, p. 73), essa distinção acontece porque “a política do silêncio produz um recorte entre o que se diz e o que não se diz, enquanto o silêncio fundador não estabelece nenhuma divisão: ele significa em (por) si mesmo”.Assim, nosso interesse aqui,
para além da noção de silêncio fundador, é compreender a política do silêncio, a qual atua em duas instâncias: silêncio constitutivo e silêncio local.
No que diz respeito à política do silêncio, Orlandi estabelece que o silêncio constitutivo se caracteriza pelo próprio trabalho de recortar, restringir, dividir e disciplinar os sentidos; em que se diga algo, outras coisas deixam necessariamente de ser ditas. Para a autora, trata-se do “mecanismo que põe em funcionamento o conjunto do que é preciso não dizer para poder dizer” (ORLANDI, 2007, p. 74).
Assim, ao recortar e restringir as designações de/para Carolina e Quarto de Despejo, os jornais estabelecem gestos de interpretações que jogam com o silêncio constitutivo, interditando determinados sentidos. Nesta pesquisa, o silêncio constitutivo se dá a ver nas formulações na medida em que as manchetes dos periódicos do ano de 1960 não dizem Carolina como autora, mas como “favelada”. Podemos entender que o silêncio constitutivo opera nas manchetes de jornais impedindo que designações como “autora” e “escritora” sejam atribuídas à Carolina, negando a ela ocupar esses lugares nessa formação discursiva.
Desse modo, entendo que não há espaço, nessa discursividade, para nomear Carolina como escritora; ela é impedida de ocupar essa posição, não por efeito de censura, entendida como a manifestação mais visível da política do silêncio, mas como resultado de um processo histórico ideológico que se materializa como silêncio constitutivo. Diferente da censura, o funcionamento do silêncio constitutivo é de difícil apreensão, posto a opacidade que lhe é própria.
Por essa via, compreendo que a materialidade das manchetes de jornais examinadas neste trabalho evidencia questões relativas ao silêncio. As marcas linguísticas nelas presentes remetem às designações utilizadas para referirem Carolina Maria de Jesus. As manchetes - entendidas aqui como uma materialidade discursiva que possui modo próprio de formulação, constituição e circulação (ORLANDI, 2020) - conduzem o olhar do leitor, direcionam sua interpretação do início ao fim do texto. Depreende-se que o leitor é convocado para um dado lugar de interpretação e assume um dado sentido.
Segundo Zoppi-Fontana, as designações, entendidas como capazes de produzir determinado efeito de sentido e não outro, implicam processos instáveis dado que são
“produzidas pelo cruzamento de diferentes posições de sujeito, a partir das quais instala-se um sentido, apagando outros possíveis/dizeres” (ZOPPI-FONTANA, 2003, p. 203). Ainda nos dizeres da autora, os processos de designação:
Funcionam no texto como indícios dos pontos de estabilização das relações de
referência no interdiscurso, sendo reconfiguradas no acontecimento enunciativo a partir do embate das condições de produção sobre a língua (enquanto estrutura formal capaz de equívoco na história) e sobre a memória (enquanto corpo sócio-histórico de traços discursivos que se constituem em espaço de estruturação, de regularização de sentidos) (ZOPPI-FONTANA, 2003, p. 253).
O modo como as designações referentes à autora são empregadas constrói um percurso de leitura e inscreve um efeito-leitor, em decorrência das projeções imaginárias que constituem as condições de produção. Ao se valer de determinadas designações, as quais negam à Carolina Maria de Jesus uma posição de autoria, as formulações constitutivas das manchetes dos jornais conduzem interpretações.
Em outras palavras, ao mobilizar determinadas escolhas linguísticas e não outras, essas manchetes evidenciam o silêncio operando entre o dito e não-dito nas palavras escolhidas. O funcionamento linguístico das designações utilizadas nas manchetes de jornais dão a ver significações estabilizadas, que se mantém no processo de interpretação para Carolina e sua primeira obra, Quarto de Despejo. Entretanto, como destaca Zoppi-Fontana (2003), esse processo pode ser reconfigurado pelo acontecimento enunciativo, conforme mostrarei nas análises que compõem o último capítulo desta dissertação.
1.5 MEMÓRIA, EFEITO DE PRÉ-CONSTRUÍDO E DE-SIGNIFICAÇÃO
A memória, na perspectiva da Análise de Discurso, pode ser pensada a partir de três noções fundamentais para sua compreensão. São elas: a) o interdiscurso ou memória discursiva; b) a memória de arquivo ou memória institucional; c) a memória metálica.
A primeira delas é a que resvala no interdiscurso ou memória discursiva e diz respeito ao “saber discursivo que faz com que, ao falarmos, nossas palavras façam sentido. Ela se constitui pelo já-dito que possibilita dizer” (ORLANDI, 2020, p. 64). Essa memória decorre do esquecimento que faz com que ao falarmos, esquecemos dos sentidos já-lá; ela manifesta a sensação de que o sentido é criado no próprio sujeito, a ilusão do sentido de origem, uma vez que, para as palavras significarem é preciso que elas já se signifiquem antes. Nas palavras de Zoppi- Fontana, a memória discursiva “é o espaço dos efeitos de sentido que constituem para o sujeito sua realidade, enquanto representação imaginária (e necessária) da sua relação com o real histórico, no qual ele está inserido” (ZOPPI-FONTANA, 2015, p. 168).
Nas palavras de Pêcheux, “algo fala antes, em outro lugar, independentemente”
(PÊCHEUX, 1999, p. 64) e cria a ilusão de que o sujeito é a origem do dizer quando, na verdade, ele faz a retomada e atualização de um sentido já existente, um já-dito. Há, portanto, um esquecimento que regula a memória discursiva, uma vez que ela é “o saber discursivo que torna possível todo dizer e que retorna sob a forma do pré-construído, o já dito que está na base do dizível, sustentando cada tomada da palavra” (ORLANDI, 2020, p. 29)
A segunda noção está no âmbito da memória de arquivo ou memória institucional. É por meio dessa memória que as Instituições, compreendidas aqui como Aparelhos de Estado, como por exemplo, a escola, a Igreja, a mídia, entre outras, realizam o processo de arquivamento e consignação do que uma sociedade deve lembrar; “é a memória que não esquece: é a que se institucionaliza e é arquivada” (ORLANDI, 2014, p. 6).
Por último, a memória metálica, responsável pela significação que circula através das tecnologias de modo repetido e reproduzido; é aquela que mantém seu funcionamento por meio das máquinas, ou seja, “da informatização, da digital, a da informação de massa: a que serializa, repete na horizontalidade, sem se historicizar. Memória descartável”
(ORLANDI, 2014, p. 3).
As memórias discursiva, institucional e metálica comportam-se de modos distintos, mantendo diferentes relações com o esquecimento3 e acarretam diferenças em termos do circuito de constituição, formulação e circulação, afetando a função-autor e o efeito-leitor. Isto porque qualquer forma de memória tem uma relação necessária com a interpretação (e, consequentemente, com a ideologia.) (ORLANDI, 2006, p. 5). Assim, embora as memórias institucional e metálica sejam relevantes para a problematização da construção do corpus de pesquisa, destaca-se no funcionamento das designações a memória discursiva; é dela que tratarei com maior rigor, destacando sua relação com o silêncio constitutivo e com os processos de de-significação trabalhados por Orlandi (1999).
Em “Maio de 1968: os silêncios da memória”, Eni Orlandi (1999, p. 59) parte do fato de que “a memória é feita de esquecimentos, de silêncios. De sentidos não-ditos, de sentidos a não dizer, de silêncios e de silenciamentos”. Compreende-se, então, que falar em memória é também articular a relação existente com as noções de esquecimentos e de silêncio, mas também de interpretação, ideologia e pré-construído.
A noção de pré-construído problematiza as construções prévias e anteriores ao discurso, e que funcionam como aquilo que fala antes, em outro lugar e independentemente. Ou
3 Para uma compreensão dos silêncios de silenciamentos constitutivos da memória de arquivo ver: BOCCHI, Aline Fernandes de Azevedo. O arquivo médico e seus restos: corpos femininos e práticas de resistência. Entremeios:
Revista de Estudos do Discurso, v. 19, jul.-dez., 2019.
seja, o pré-construído é um elemento que, ao ter relação com a exterioridade dos enunciados, ressoa como um efeito construído anteriormente e é estruturado no interdiscurso, na memória.
Dessa maneira, o pré-construído funciona como um já-dito, um discurso anterior que retorna no enunciado.
Segundo Pêcheux (1995), o pré-construído tem como característica a separação fundamental entre o pensamento e o objeto de pensamento, com a pré-existência desse último;
há aí uma “discrepância” em que o sujeito encontra com o impensado de seu pensamento,
“impensado este que, necessariamente, pré-existe ao sujeito” (p. 93). Essa discrepância entre
“o que é pensado antes, em outro lugar ou independentemente” (p. 89), e o que está contido em uma formulação foi o que levou Paul Henry a propor o termo ‘pré-construído’ (PÊCHEUX, 1995, p. 89).
Em Semântica e Discurso, Pêcheux estabelece uma importante relação entre o efeito de pré-construído e as designações, fazendo inclusive reflexões acerca do funcionamento do nome próprio, que do ponto de vista jurídico e inalienável identifica uma pessoa por referência à filiação. Voltarei a essa questão mais à frente, ao abordar o funcionamento do nome próprio nas manchetes analisadas.
Por ora, irei me deter ao funcionamento do silêncio constitutivo nas designações articulado aos processos de de-significação de sentidos. Em um texto já mencionado sobre maio de 1968, Orlandi (1999) postula que “falar é esquecer. Esquecer para que surjam novos sentidos, mas também esquecer apagando os novos sentidos que já foram possíveis, mas foram estancados em um processo histórico-político silenciador. São sentidos que são evitados, de- significados” (1999, p. 61-62).
Para a autora, os sentidos de-significados são os sentidos silenciados, omitidos na rede de memória, excluídos para que não haja um já-dito; de-significação é, portanto, aquilo
“o que está fora da memória não está nem esquecido nem foi trabalhado, metaforizado, transferido. Está in-significado, de-significado” (ORLANDI, 1999, p. 66). Não são processos em que a memória falha, mas processos em que operam faltas a colocar para fora do discurso aquilo que poderia ser significado.
Sustento que os sentidos que ratificam uma mulher negra, moradora de uma favela e que pouco frequentou a escola como escritora estão de-significados, postos fora da memória, por um longo e intenso processo de segregação e racismo que se inicia no período escravocrata e perpassa toda a história do Brasil, com rastros visíveis ainda hoje.
Como argumenta Barbosa Filho (2016) ao investigar o trabalho de rua na
Salvador oitocentista, particularmente no quadro das insurreições que tomaram conta da Bahia, embora protagonizassem o espaço das ruas os negros “ganhadores” foram interditados de protagonizar o espaço da palavra: escaparam à autoria do arquivo, não tiveram lugar de fala no jogo jornalístico, tiveram suas falas consignadas pelas palavras de outrem.
Da mesma forma, o protagonismo de Carolina é confiscado e seu livro desmerecido; a escritora é reduzida ao estereótipo da favelada, pelo jogo de identificações imaginárias que funcionam nas designações, apagando seu nome próprio, sua assinatura, sua legitimidade como autora. Entretanto, como alerta Barbosa-Filho, o real da história faz o silêncio, o não-dito aparecer nas lacunas. O acontecimento de lançamento de Quarto de Despejo cava um buraco na memória, desestabiliza processos de significação, de modo que outros sentidos tornam-se possíveis, como veremos no decorrer das análises.
Considero que Quarto de Despejo produz um “lugar de inscrição subjetiva para uma fala historicamente silenciada, reinscrevendo na história memória feridas, precárias, de um passado de-significado” (BOCCHI; RODRIGUES, 2020, p. 341). Embora tematize a periferia, configurando um discurso sobre o cotidiano da favela do Canindé, o diário de Carolina textualiza modos de subjetivação frente à fome, à miséria e ao preconceito que o funcionamento do discurso midiático tenta obturar no processo de estereotipagem.
2 A CONSTRUÇÃO DO DISPOSITIVO TEÓRICO ANALÍTICO
Aqui todas impricam comigo. Dizem que falo muito bem. Que sei atrair os homens. (...) Quando fico nervosa não gosto de discutir. Prefiro escrever. Todos os dias eu escrevo. Sento no quintal e escrevo.
Carolina Maria de Jesus
Como menciono na introdução deste estudo, o corpus desta pesquisa foi construído a partir de um trabalho de arquivo que resultou em um conjunto de manchetes de jornais publicadas em 1960, no lançamento de “Quarto de Despejo”. No que diz respeito ao momento de lançamento da obra, as manchetes foram recortadas de jornais em circulação à época, encontradas no arquivo da Biblioteca Nacional Digital.
Neste capítulo, descrevo em pormenores os passos de construção do dispositivo teórico-metodológico da pesquisa, bem como os conceitos e noções chave que me permitiram gestos de leitura do/no arquivo, tais como a própria noção de arquivo, erigida nos anos 1980, a qual possibilitou uma profícua articulação entre os campos da Linguística e da História no âmbito do discurso, bem como a noção de trajeto temático.
2.1 TRAJETOS DE LEITURA NO ARQUIVO DIGITAL DA BIBLIOTECA NACIONAL
As manchetes e matérias4 retiradas do site da Biblioteca Nacional consistem em um material informativo veiculado em jornais no período de agosto a dezembro de 1960, e que indiciam os modos com que a imprensa designava Carolina Maria de Jesus, atribuindo a seu nome uma relação com o espaço urbano, particularmente a favela, elemento que contrastava
4 Embora o foco das análises seja as manchetes, elas não serão destacadas do contexto das matérias. Entendo, a partir da perspectiva discursiva, que é preciso situar e remeter as manchetes à notícia ou reportagem da qual ela faz parte, visando a compreensão dos efeitos de sentido ali produzidos. A manchete de jornal é um recorte interpretativo do texto jornalístico que visa conduzir o olhar do leitor em uma direção de sentidos ideologicamente imposta. Dessa forma, confrontar as designações presentes nas manchetes com seus respectivos textos mostra-se fundamental para a compreensão das formulações ali presentes.
com outros escritores da época.
Ao optar por pesquisar as manchetes do ano de 1960 no site da Biblioteca Nacional, levei em consideração sua importância histórica; trata-se de um arquivo que remete há mais de 200 anos e reúne cerca de nove milhões de itens em seu acervo. Por apresentar um panorama abrangente de arquivos históricos, a Biblioteca Nacional permite explorar um acervo a partir de periódicos que foram importantes para a construção da história oficial brasileira5. Nessa perspectiva, validei que parte do corpus seria recortado do site da Biblioteca Nacional, posto a diversidade de periódicos brasileiros ali consignados, o que possibilitaria um vislumbre das relações ideológicas do período em que as manchetes foram veiculadas.
Em face à noção de arquivo, é preciso também mobilizar aqui a noção de arquivo digital, dado que é por esse caminho que a montagem do corpus e os trajetos de leitura desta pesquisa acontecem. É da perspectiva de Orlandi (2007) que suscitamos os preceitos de arquivo digital entendido, segundo a autora, como memória metálica. Isto é, o funcionamento de um arquivo digital acontece por uma memória metálica que “não falha e se apresenta como ilimitada em sua extensão, só produz o mesmo, em sua variação, em suas combinatórias”
(ORLANDI, 2007, p. 16).
Dito em outros termos, ao garantir a circulação do arquivo de modo repetido, a memória metálica retoma uma rede de já-dito; essa repetição ratifica sentidos de totalidade e completude para o arquivo. Para Orlandi (2006, p. 5), o funcionamento da memória metálica acontece de maneira horizontal, “não havendo assim estratificação em seu processo, mas distribuição em série, na forma de adição, acúmulo: o que foi dito aqui e ali e mais além vai-se juntando como se formasse uma rede de filiação e não apenas uma soma”.
Desse modo, os arquivos digitais comportam uma evidência. Isto é, eles supostamente parecem ser completos, abranger todos os sentidos possíveis. No entanto, essa ilusão de que o arquivo digital possa tudo guardar é construída discursivamente. O arquivo, ao agrupar documentos, permite reunir em um só local um conjunto de materiais e cria a ilusão de que os documentos ali consignados remetem à realidade; apaga-se o fato de que qualquer arquivo comporta falhas e furos, lacunas e esquecimentos, sendo, portanto, um recorte de um dado momento ou conjuntura. Nesse quesito, é de grande importância levar em consideração que a aparente completude é, na verdade, um efeito da evidência. Assim, como aponta Dias (2015, p. 974), cuido para “não tomar como uma evidência do arquivo o resultado da busca,
5 Digo história oficial pois considero, com Bocchi (2019, p. 80), que “o arquivo abriga também faltas, furos e restos ignorados e esquecidos de memória. O modo discursivo de apreensão do arquivo impõe, então, considerar a falta como constitutiva do próprio arquivo, de sua materialidade [...]”.