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A "ESCRITORA NEGRA" E A FALHA NO RITUAL IDEOLÓGICO

No documento GABRIELA MOREIRA BURANELLI (páginas 72-89)

Figura 5: Jornal do Brasil, 1960.

Fonte: Jornal do Brasil, 1960, [n.p.]

O recorte acima (fig. 5) foi retirado do Jornal do Brasil, veiculado no Rio de Janeiro, no ano de lançamento de Quarto de Despejo. Embora os outros recortes selecionados e analisados sejam de São Paulo, convoco essa manchete pois ela coloca em circulação outros sentidos, mobilizados através da falha do ritual ideológico. A manchete “São Paulo lança uma escritora negra: Carolina Maria” revela não mais a repetição, mas um novo sentido possível por meio do emprego da designação “escritora”. Infiro ainda que neste recorte podemos perceber que o sentido dominante não é homogêneo dado que pela falha ideológica a heterogeneidade do sentido atua. Isto é, pelas brechas, pode-se notar que há possibilidades diferentes, e não uniforme, de se interpretar Carolina.

Há, aqui, um processo polissêmico, dado que temos um deslocamento no sentido da designação “favelada” encontrada com certa recorrência nas manchetes, ao contrário dos processos parafrásticos, em que há algo da ordem da repetição, neste recorte vemos a polissemia atuar. A manchete em questão (fig. 5) não nos traz os processos de repetição de um sentido que se mantém, ela atesta a ruptura, ele atesta a ruptura, a descontinuidade da designação “favelada”

para o “escritora negra”. Temos, então, um sentido “diferente: nas mesmas condições de produção imediatas (locutores e situação) há no entanto um deslocamento, um deslizamento de sentido (polissemia)” (ORLANDI, 1998, p. 15).

Essa atuação da polissemia na ruptura dos sentidos, em que sinaliza a possibilidade de uma nova designação que até então não aparecia, ela atesta, também, o lugar

da ideologia. Isto é, o “escritora negra”, como na manchete, manifesta uma quebra de sentido e demonstra, ainda, também a potência de Quarto de Despejo como um acontecimento que se faz pelas brechas, pela quebra do ritual ideológico.

Nesse sentido, esse recorte dá a ver que a ideologia é um ritual com falhas, conforme Pêcheux (2009, p. 277):

Apreender até seu limite máximo a interpelação ideológica como ritual supõe reconhecer que não há ritual sem falha; enfraquecimento e brechas, ‘uma palavra por outra’ é a definição da metáfora, mas é também o ponto em que o ritual se estilhaça no lapso (e o mínimo que se pode dizer é que os exemplos são abundantes, seja na cerimônia religiosa, no processo jurídico, na lição pedagógica ou no discurso político...).

A brecha no ritual ideológico possibilita entrever que o acontecimento jornalístico, por mais que tenha se esforçado, não pôde capturar e apagar a potência do acontecimento discursivo que foi a publicação de Quarto de Despejo. A força da escrita de Carolina inaugura discursividades; ela influenciou uma geração de escritoras, militantes e intelectuais que passam a atuar nas décadas subsequentes, ancoradas nas filiações de memória que Carolina e o acontecimento de seu livro possibilita; Quarto de Despejo passa a funcionar como referência básica no imaginário constitutivo do Brasil, estabilizando-se como fundamental na construção da memória dos movimentos das mulheres negras. Um discurso fundador. Entretanto, como nos mostrou Orlandi (1992), o discurso fundador não diz respeito a um princípio absoluto; os sentidos não têm origem determinada.

Ele, o discurso fundador, funciona em função de uma relação de forças que transfigura o sem-sentido em sentido. Carolina permite que determinados sentidos sobre as mulheres negras possam surgir, deslocando o já-dito; seu livro, em sua dimensão de acontecimento, significa o sem-sentido, dá lugar a lugares interditados pelos processos de significação.

Enfatizo, por fim, a potência de acontecimento de Carolina e Quarto de Despejo como produtores de memórias que insistentemente são apagadas e silenciadas, mas se dão pelas lacunas dos sentidos hegemônicos. É nesse ínterim, pelas brechas, que o acontecimento se coloca e é possível uma outra discursividade para Carolina. É partir do discurso fundador, como considera Orlandi, que se “(...) instala as condições de formação de outros, filiando-se à sua própria possibilidade, instituindo em seu conjunto um complexo de formações discursivas, uma região de sentidos, um sítio de significância (...)”. Nesse limiar é que considero Carolina Maria de Jesus como a possibilidade de um novo sentido, Quarto de Despejo inaugura uma

discursividade. Ao designar “escritora negra” em uma manchete posta em circulação em 1960, a formulação indicia uma nova maneira de significar as mulheres negras. A circulação dessa designação, como resultado de processos polissêmicos, nos mostra que Carolina irrompe por meio da sua escrita contundente, com Quarto de Despejo, transformando destinos ao constituir novos modos de significar uma mulher negra.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com aporte teórico em Análise de Discurso, mobilizei conceitos fulcrais para embasar as análises desta pesquisa, com o intuito de compreender os mecanismos pelos quais a mídia interpreta Carolina Maria de Jesus e Quarto de Despejo. Foi preciso percorrer, inicialmente, os fundamentos teóricos, explanados no primeiro capítulo, onde fica evidente a importância da noção de interpretação, o conceito que estrutura pesquisa. Isto é, ao sustentar as análises na interpretação, teorizada por Orlandi (2007), falei sobre sua relação com a língua, discurso, ideologia, silêncio, memória e os efeitos de sentidos. O que me fez chegar ao fato de que a leitura discursiva feita pelas manchetes de 1960, que compõem o corpus, percorreu o imbricamento desses conceitos, uma vez que me permitiram chegar aos efeitos sentidos possíveis provenientes das possibilidades de interpretar a autora e sua obra.

A partir da delineação teórica no primeiro capítulo, no segundo foi preciso apresentar como se deu a construção e constituição do dispositivo analítico. Para tanto, foi necessário também passar por outras concepções teóricas, como a noção de trajeto temático, arquivo e corpus com o intuito de sustentar o gesto de leitura do/no arquivo. Nesse sentido, pontuo a construção do dispositivo analítico a partir de um trajeto de leitura no arquivo da biblioteca nacional. Isto é, a partir da noção de trajeto temático foi possível delinear e selecionar quais manchetes comporiam o corpus ao ter como parâmetro a regularidade de determinadas designações, como a designação “favelada”.

Depois de definir os fundamentos teóricos e delinear a construção do corpus, o terceiro capítulo tratou do funcionamento das designações nos jornais em 1960. Para isso foi necessário explanar as condições de produção em que Quarto de Despejo fora lançado, bem como tratar dos vestígios higienistas da época e dos sentidos não romantizados que a obra possibilitou. Antes de adentrar as análises, foi preciso discorrer sobre acontecimento jornalístico, o que permitiu compreender como a circulação de determinados discursos contribuem para as interpretações que recaem em Carolina e sua obra.

Ainda no terceiro capítulo, as análises são mobilizadas a partir de certas designações e percebe-se um funcionamento de repetição que perpassam o estereótipo e a inversão do nome próprio. Em consonância a essas duas noções, adentrei e percorri a trilha dos

movimentos feministas como forma de verificar que o processo de estereotipagem e a inversão do nome próprio da autora nega à Carolina a existência de um sujeito de direito e, também, seu reconhecimento enquanto mulher negra escritora e autora. Nessas análises foi possível concluir que as designações, por meio do jogo da paráfrase, provocam a repetição e a insistÊncia em um sentido que denega Carolina como autora. Ou seja, a recorrência do termo “favelada” marca um processode estereotipagem e, ao mesmo tempo, apaga o sentido de autora.

Por fim, concluo que as especificidades do aporte teórico em consonância às manchetes que compõem o corpus não se limitam a uma única formulação interpretativa para Carolina Maria de Jesus e sua obra. Dito em outras palavras, infiro que a mídia mobiliza designações que são atribuidas para Carolina e majoritariamente a escritora é reduzida ao estereótipo de favelada, denegando o sentido de autora. No entanto, o funcionamento linguístico das designações empregadas nas manchetes de jornais também é suscetível à falha ideológica.

Isto é, vimos que, na última análise apresentada, se por um lado há a insistência na designação

“favelada”, por outro, a quebra do ritual ideológico permite inaugurar um novo sentido. Em vista disso, concluo, portanto, no jogo da polissemia, que a descontinuidade dos sentidos de “favelada”

torna possível inaugurar uma nova discursividade, a de “escritora negra” para Carolina Maria de Jesus.

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ANEXOS

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1.1 São Paulo

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Diário da Noite, 1960, [n.p]

Diário da Noite, 1960, p. 5

Diário da Noite, 1960, p. 20.

1.2 Rio de Janeiro

Última hora, 1960, [n.p.].

Jornal do Brasil, 1960, [n.p.].

Jornal do Brasil, 1960, [n.p.].

1.3 Paraná

Última Hora, 1960, [n.p.].

Última Hora, 1960, p. 8

Última Hora, 1960, p. 5.

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