3.1 CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO
3.1.2 Quarto De Despejo: sentidos postos à margem
Paulino (2007) localiza a publicação de Quarto de despejo no contexto de surgimento de projetos de urbanização das favelas e do MUD – Movimento Universitário de Desfavelamento que, entre outros fatores, contribuíram para que o assunto ganhasse a opinião pública e intervenções do poder público acontecessem. Isso se dá, justamente, porque o livro de Carolina desestabiliza, como disse, um imaginário romantizado da favela como cartão-postal, inaugura “um modo novo de falar sobre um problema que já vinha sendo tratado havia algum tempo, além do âmbito da música popular, por alguns intelectuais brasileiros”
(PERPÉTUA, 2014, p. 45).
Iniciado no dia 15 de julho de 1955, data do aniversário de Vera Eunice, o diário descreve o cotidiano de sobrevivência de Carolina e seus filhos, registrando suas mazelas. Sobre o aniversário de Vera Eunice, a autora conta:
Pretendia comprar um par de sapatos para ela. Mas o custo dos generos alimentícios nos impede a realização dos nossos desejos. Atualmente somos escravos do custo de vida. Eu achei um par de sapatos no lixo, levei e remendei para ela calçar [...] (JESUS, 2014, p. 11).
Para Meihy e Levine (2015), Carolina representa uma costura entre temas que expõem as fronteiras entre as classes sociais. Discursivamente, é possível considerar Quarto de Despejo um acontecimento que expõe uma formação social dividida e profundamente desigual ao discursivizar, em sua narrativa,
a distância extrema entre as classes sociais, a impermeabilidade da estratificação social, as dificuldades de adaptação de uma categoria a outra, os preconceitos contra a mulher e os negros e, sobretudo, a perpetuação dinâmica dos contingentes pobres (LEVINE e MEIHY, 2015, p. 58).
De acordo com esses autores, o livro de Carolina descontrói uma visão idealizada das favelas, substituindo-as pelas “evidencias testemunhais da violência. De início, a receptividade da história de Carolina foi, em certo nível, fruto da romantização da vida dos pobres” (LEVINE; MEYHI, 2015 p. 59). Entretanto, ao descrever o cotidiano com a crueza da palavra que não oblitera as mazelas e sofrimentos a que eram submetidos seus moradores, Quarto de Despejo rompe, de certo modo, com essa romantização, que não se sustenta face ao relato da autora.
Carolina inicia seu diário em plena década de 50. Conhecida como os anos dourados, foi um período marcado por intensa agitação no campo político durante os governos Vargas e Kubistchek. Com abertura à industrialização nacional, “ao mesmo tempo em que a cidade grande se mostrava receptiva à política do desenvolvimento, camuflava-se na periferia urbana o custo social do projeto com o crescimento da favela” (PERPÉTUA, 2014, p. 42).
No âmbito cultural, o cinema, teatro, a música e a literatura realizavam expressivas mudanças, uma vez que manifestavam interesse em buscar uma identidade brasileira. Nas palavras da autora supracitada (2014, p. 45), naquela época o Brasil encontrava-se numa
“renovação nas abordagens temáticas sobre o país. No cinema e no teatro, buscava-se um modelo nacional, que fugisse dos padrões vigentes na época. Como tema genuinamente brasileiro, a favela ganhava proporções inexploradas até então”.
São essas as condições em que Carolina escreve sua obra, um diário sobre sua vida na favela do Canindé. É também nessa mesma década que a autora conhece o jornalista Audálio Dantas, em 1958, que viabiliza a publicação de Quarto de Despejo. Nesse mesmo ano, alguns trechos da obra são publicados no jornal Folha da Noite. Embora haja registros de outras ocasiões em que poemas da autora foram publicados em periódicos9, é a partir desses trechos
9 Segundo a cronologia biográfica da autora, elaborada por Elizabeth Barboza Pereira em Vida por Escrito: guia do acervo de Carolina Maria de Jesus, há dois momentos anteriores ao lançamento de Quarto de Despejo em que Carolina vai aparecer na mídia. O primeiro em 1940, quando é publicado, no jornal Folha da Manhã, um poema
de Quarto de Despejo, veiculados anteriormente ao ano de lançamento, que Carolina e obra começam a ser noticiados (e interpretados) pela mídia jornalística. Há de se ressaltar aqui, no entanto, que esses trechos veiculados não correspondem com a publicação integral da obra em jornais de circulação da época, mas sim apenas alguns excertos, como pontua Audálio Dantas:
“ao invés de fazer uma reportagem sobre a favela, fiz uma matéria sobre Carolina Maria de Jesus e transcrevi alguns trechos do diário” (2015, p. 15).
Autora e obra tiveram grande repercussão também na mídia internacional.Nas palavras de Fernanda Miranda (2019, p. 114), “ao livro também pertence o mérito de ter sido a primeira obra de uma mulher negra brasileira traduzida”, uma vez que Quarto de Despejo, reimpresso sete vezes no primeiro ano de publicação, foi traduzido para “treze línguas – holandês, alemão, francês, inglês, tcheco, italiano, japonês, castelhano, dinamarquês, húngaro, polonês, sueco e romeno - e circulou em quarenta países. Existiria uma 14° tradução para o russo, não confirmada” (PERPÉTUA, 2014, p. 21).
Para compreender melhor o funcionamento da midiatização de Carolina e de seu livro, é importante mencionar a visão de Miranda (2019) sobre o momento de lançamento de Quarto de Despejo:
Trata-se de uma autora que visibiliza intensamente as marcas da condição nacional racista dentro do sistema literário brasileiro. Quando surgiu, entre o fim da década de 1950 e o começo dos anos 1960, imediatamente tornou-se um fenômeno midiático, em primeiro lugar, porque escrevia, em segundo, porque escrevia sobre si em primeira pessoa, narrando as mazelas de um cotidiano urbano desconhecido pela própria metrópole à altura – a favela. (MIRANDA, 2019, p. 115).
Em agosto de 1960 acontece o lançamento de Quarto de Despejo. A repercussão da obra, já mobilizada previamente com os trechos veiculados antes do lançamento, no jornal Folha da Manhã, confirma a perspectiva da autora sobre a vida na favela não romantizada. Ou, ainda, como pondera Perpétua:
a repercussão do lançamento de Quarto de despejo vai confirmar que muito do seu êxito inicial pode ser compreendido a partir da leitura das reportagens que o precederam, e cuja forma obedece ao modelo de texto que se fortalece então na imprensa diária, com seu conteúdo alinhavado ao momento de participação da sociedade civil nos acontecimentos. (grifo da autora). (PERPÉTUA, 2014, p. 60)
Levine e Meihy (2015, p. 38) delimitam que o início da década foi marcado por
e uma foto da autora ao lado do jornalista Willy Aureli. O segundo momento, em 1950, data da publicação pelo jornal O Defender de um poema da autora sobre Getúlio Vargas.
uma espécie de “onda reformista caracterizada pelo prenúncio de que as camadas pobres poderiam produzir figuras – no caso uma mulher negra – que levantariam a opinião pública”.
Os autores ainda acrescentam:
esse tipo de percepção no passado era limitado pela eficiência da máquina classista que não permitia mobilidade. Particularmente no caso das mulheres, estava definido um papel de subserviência em que restava a condição feminina pobre, no máximo o direito de trabalhar servindo aos brancos como cozinheiras, babás, faxineiras (LEVINE, MEIHY, 2015, p. 38).
O trecho supramencionado remete ao fato de que Carolina e sua obra subvertem o sentido consensual da época e colocam em jogo outros sentidos: mulher negra, à frente de seu tempo, dois anos de estudos, mãe solo e escritora. Assim, o lançamento de Quarto de Despejo indicia uma transformação nos rituais enunciativos, configurando um acontecimento discursivo, que segundo Zoppi-Fontana (1997) funciona como ponto de deslocamento de uma prática discursiva. Para essa autora, o acontecimento participa do processo de produção do real histórico, pela emergência de um enunciado ou de uma posição enunciativa novos.
Entretanto, os sentidos postos em cena pelo discurso jornalístico evidenciam que as possíveis interpretações da mídia sobre Carolina resvalam os preconceitos de sua condição de mulher negra e pobre. No próximo tópico, mostraremos como a mídia, ao produzir um acontecimento jornalístico midiatizado apoiado por um processo de estereotipagem, busca engendrar a absorção do acontecimento do lançamento de Quarto de Despejo no espaço da memória. Há, por assim dizer, uma fragilidade na inscrição do acontecimento, posto que as interpretações para Carolina colocadas em jogo pelos discursos jornalísticos, os quais têm especial força na configuração dos discursos sociais, interditam determinados sentidos, inviabilizando significações.
Entretanto, esses sentidos inviabilizados não desaparecem de todo, como nos ensinou Orlandi (1999, p. 67): “Ficam seus vestígios, de discursos em suspenso, in-significados e que demandam, na relação com o saber discursivo, com a memória do dizer, uma relação equívoca com as margens dos sentidos, suas fronteiras, seus des-limites”. Como belamente disse Barbosa-Filho (2018) “o real da história faz o silêncio, o não-dito aparecer nas lacunas”.