OFICINAS BRAILE: AMPLIANDO SABERES SOBRE A DEFICIENCIA VISUAL
Jamara Nogueira Ladeia¹(IC)* Thaís Stéfane Araújo Gomes¹ (IC) Jerre Adriane Soares Azevedo²(FM) Radival da Costa Nery Júnior³(PQ)
1 Discentes do curso de Licenciatura em Química do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Baiano Campus Guanambi. E-mail: [email protected]
2 Docente da rede municipal de ensino na cidade de Guanambi/BA na Escola Municipal Colônia Agrícola de Ceraíma.
3 Docente do Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia Baiano Campus Guanambi.
RESUMO
O projeto Oficinas Braile: ampliando saberes sobre a Deficiência Visual, foi desenvolvido por bolsistas do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência – PIBID do curso de Licenciatura Plena em Química do Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia Baiano campus Guanambi, com trinta alunos do ensino fundamental II.
Estudantes da Escola Municipal Colônia Agrícola de Ceraíma no município de Guanambi/BA. A proposta do projeto visa proporcionar aos discentes o conhecimento sobre o Braille. Na primeira etapa do projeto realizou-se palestra no qual destacou-se que em tempos remotos, pessoas que nasciam sem a visão eram consideradas doentes, incapazes intelectualmente e por isso, eram desprezadas, rejeitadas até mesmo por seus familiares. Destacou ainda que atualmente, as pessoas com deficiência visual vem conquistando seus direitos na sociedade. Esses direitos foram adquiridos ao longo de muitos anos e fruto de muitas lutas sociais. Em seguida apresentou-se o alfabeto braile para os alunos e os instrumentos necessários para a escrita braile como: a punção e o reglete. Nessa ocasião os alunos tiveram a oportunidade de poder escrever seus nomes em braile. Cada um recebeu livros de histórias infantis com escrita braile. Para finalizar as atividades, os alunos com uma venda nos olhos, assistiram contos infantis com áudio descrição a exemplo de Chapeuzinho Vermelho e Os três porquinhos. O objetivo foi mostrar para os participantes da oficina que o deficiente visual precisa que todas as cenas sejam devidamente descritas para que possam usar sua imaginação e entender a história do começo ao fim. A realização da Oficina Braile: ampliando saberes sobre a Deficiência Visual, mostrou-se enriquecedora, pois os estudantes envolvidos tiveram a oportunidade de conhecer a origem do Sistema Braile e sua importância no processo de emancipação da pessoa com deficiência visual. Momentos como este é importante para despertar nos estudantes o respeito pelas pessoas com deficiência visual a partir do momento que passam a conhecer a realidade de quem não tem a visão para ler e escrever.
Palavras-chave: Oficinas, Braille, Diferentes realidades.
1. INTRODUÇÃO
A deficiência visual pode ser caracterizada como a perda total da visão nos dois olhos e que não há recursos como lentes ou cirurgias para recuperá-la. A
cegueira pode ser adquirida por alguma doença ou ser congênita, isto é, quando a pessoa nasce cega. Compreende baixa visão a pessoa que apresenta grande oscilação de sua condição visual. A pessoa com baixa visão tem sérias dificuldades em adaptar-se à luz e ao escuro, bem como distinguir cores ou letras a depender da distância. Diferentemente da cegueira, o indivíduo com baixa visão pode utilizar recursos que venham a melhorar sua situação ou até mesmo submeter-se a cirurgias. (MOURA; PEDRO, 2006, p.220)
Atualmente, o deficiente visual têm se destacado em nossa sociedade.
Podemos encontrar deficientes visuais que são professores, cantores, atores, atrizes, competidores de olimpíadas, advogados entre tantas outras profissões.
Diante desse panorama que o projeto de Oficinas Braile foi desenvolvido na Escola Colônia Agrícola de Ceraíma por bolsistas do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência – PIBID para alunos do Ensino Fundamental I e II. O objetivo das oficinas é mostrar para esses estudantes o que é deficiência visual, apresentar a escrita Braile: alfabeto, números, seus próprios nomes e os nomes de alguns animais e de objetos.
As oficinas Braile é uma oportunidade de mostrar para esses alunos envolvidos no projeto a realidade do deficiente visual, desenvolvendo a curiosidade em conhecer a escrita que os deficientes visuais utilizam e ampliar o respeito às potencialidades físicas e cognitivas do deficiente visual.
2. MATERIAIS E MÉTODOS
A oficina contou com a participação de vinte alunos. Sendo oito do Ensino Fundamental I e doze do Ensino Fundamental II. A idade dos alunos participantes variou entre 10 e 12 anos. Todos os alunos envolvidos estudam no turno matutino, portanto, as oficinas aconteceram no turno vespertino e em quatro etapas.
No primeiro encontro houve uma palestra com Alaine Batista Vilasboas, estudante do curso de Licenciatura/Química do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Baiano Campus Guanambi e que vem desenvolvendo projetos que vinculam o Ensino de Química para alunos com deficiência visual.
Nessa ocasião foram abordados os seguintes temas: Contexto histórico da
deficiência visual, leis que amparam o deficiente visual na atualidade e a origem da escrita Braile. A palestrante finalizou com uma dinâmica onde os alunos deveriam identificar alguns objetos com os olhos vendados.
Na segunda etapa das oficinas apresentou aos alunos a escrita Braile. Os alunos tiveram acesso ao Reglete, Punção e ao Sorabam. A turma foi dividida em grupos para confeccionarem cartazes com o alfabeto e os números em
Braile.
A terceira etapa consistiu em ensinar aos alunos como escreverem seus nomes de acordo a escrita braile. De uma maneira divertida os alunos aprenderam seus nomes e ainda os nomes de alguns animais. O momento finalizou-se com os alunos manuseando e tentando fazer a leitura de alguns livros infantis totalmente escritos em Braile.
No quarto encontro os alunos assistiram filmes comentados de contos de fadas como Chapeuzinho Vermelho e Branca de Neve baixados do programa MecDAYSE. Todos os alunos tiveram seus olhos vendados enquanto assistiam.
3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
A inclusão escolar é um tema que tem sido amplamente discutido nas instituições de ensino. Cada vez mais pessoas com deficiência visual vem se destacando em diferentes setores da sociedade. Para os estudantes da Escola Municipal Colônia Agrícola de Ceraíma no município de Guanambi havia uma curiosidade: como ocorre a leitura e a escrita para uma pessoa com deficiência visual? Diante desses questionamentos realizou-se nessa escola oficinas para ensinar a escrita Braile no qual inscreveram-se vinte alunos, sendo cinco do Ensino Fundamental I e quinze do Ensino Fundamental II.
Na primeira etapa do projeto realizou-se uma palestra com o tema:
Diferente olhares sobre a deficiência visual.
Figura 01: Palestra sobre os diferente olhares sobre a deficiência visual.
Fonte: acervo pessoal dos autores
A palestrante iniciou o encontro enfatizando o conceito de deficiência com base no Decreto n° 3.956/2001 que estabelece que deficiente é um indivíduo que apresenta “uma restrição física, mental ou sensorial, de natureza permanente ou transitória, que limita a capacidade de exercer uma ou mais atividades essenciais da vida diária, causada ou agravada pelo ambiente econômico e social”.
Destacou-se ainda que o termo deficiência visual é empregado em casos de pessoas que, mesmo depois de tratamentos e/ou cirurgias, perderam total ou parcialmente a acuidade visual em ambos os olhos, ou seja, uma pessoa pode ser totalmente cega ou ter baixa visão (visão subnormal). Um aluno fez a seguinte pergunta: o que leva uma pessoa a perder a visão e como consegue se adaptar a essa realidade?
A palestrante esclareceu que as causas para a cegueira ou baixa visão são inúmeras, porém destacou que podem ser de origem congênita ou adquirida.
Sendo as causas mais comuns provenientes de algumas doenças infecciosas ou genéticas como: retinopatia da prematuridade, coriorrenite, glaucoma, degenerações retinianas, deslocamento da retina, atrofia óptica, catarata dentre outras. (BRASIL, 2001, p. 25)
A palestrante ressaltou que muitos casos de pessoas com deficiência visual no Brasil deve-se a falta de atendimento médico especializado no tempo correto. Em vários casos, o tratamento disponível pela saúde pública não é
suficiente para garantir um tratamento ideal. Com relação à adaptação da pessoa com deficiência visual a palestrante contou a história de vida de Louis
Braille.
O sistema Braille foi criado oficialmente no ano de 1825, na França pelo jovem cego Louis Braille, nascido ao dia 4 de Janeiro de 1809 na cidade de Coupvray, povoado situado ao leste de Paris, Louis Braille era filho de Louis Simon-René que era “seleiro e fabricante de arqueiros do povoado”. (BIRCH, 1990, p.11 apud SANDES, 2009, p.22).
Louis perdeu a visão muito cedo no ano de 1812, aos três anos de idade devido a um acidente ocorrido com ferramentas de trabalho de seu pai, o que levou a um ferimento e consequentemente a uma infecção. A cegueira definitiva aconteceu dois anos mais tarde, quando Louis estava com cinco anos. Aos dez anos de idade ganhou uma bolsa de estudo e ingressou no Instituto Real de Jovens Cegos de Paris. (SANDES, 2009, p.22).
O capitão do Exército Francês criou no início do século XIX, um código de comunicação que consistia numa série de pontos em alto relevo, que podia ser utilizado durante a noite para que os combatentes pudessem se comunicar silenciosamente, sem uso de luminárias, o que evitava ser percebido pelo inimigo, esse código ficou conhecido como escrita noturna. Louis Braille se interessou e iniciou um processo de aperfeiçoamento, para então se chegar ao Braile conhecido atualmente. (SANDES, 2009, p.24).
O Sistema Braile foi adotado no Brasil, a partir de 1854, com a criação do Imperial Instituto dos Meninos Cegos, hoje Instituto Benjamin Constant.
(BRASIL,2006, p.11).
Para finalizar a palestra, realizou-se uma dinâmica na sala. Inicialmente todos os alunos tiveram seus olhos vendados. Para cada um foi entregue um objeto. O desafio era descobrir qual era o objeto utilizando apenas o tato, identificando-o pelo formato, textura, tamanho e nos mínimos detalhes. Alguns alunos tiveram dificuldades de identificar, outros concentraram e exploraram o objeto até dizer com firmeza o que tinham em suas mãos. Essa dinâmica utilizada pela palestrante permitiu que os estudantes pudessem perceber que o deficiente visual utiliza o tato e a audição para sentir o mundo ao seu redor e ao longo do tempo consegue adaptar-se a esse estilo de vida.
Na etapa seguinte foi apresentada aos estudantes a escrita Braile. Para o deficiente ler e escrever e ser alfabetizado é utilizado o Sistema Braile. Essa modalidade de linguagem é reconhecida mundialmente e utiliza como recursos necessários o reglete e o punção.
Figura 02: Reglete e punção.
Fonte: acervo pessoal dos autores
Além disso para os conhecimentos da matemática utiliza-se o soroban.
Com esse recurso o deficiente visual aprende a fazer operações matemáticas como a multiplicação, adição, divisão e a subtração.
Figura 03: Soroban.
Fonte: acervo pessoal dos autores
O sistema de escrita braile é constituído por 63 sinais formados por pontos a partir de um conjunto matricial.
Figura 04: celas braile
Fonte: https://www.google.com.br/search?q=cela+braille+imagens
Este conjunto de 6 pontos chama-se sinal fundamental. O espaço por ele ocupado, ou por qualquer outro sinal, denomina-se cela braille ou célula braille
Os alunos ilustraram um cartaz com cada uma das letras do alfabeto, incluindo as letras com acentuação, crase, cedilha, as celas que representam caixa alta e o sinal de letras maiúsculas.
Figura 05: Cartazes do Alfabeto Braile
Fonte: acervo pessoal dos autores
No sistema de escrita braille também podemos representar os números.
Figura 06: Números em Braile.
Fonte: acervo pessoal dos autores
Solicitou-se que cada um escrevesse o próprio nome na escrita Braile. Foi entregue para cada um material didático adaptado para auxiliar a escrita antes de utilizarem o reglete. Cada aluno deveria pintar as celas de acordo as letras de seus nomes.
Figura 07: Material didático adaptado para auxiliar a escrita.
Fonte: acervo pessoal dos autores
Em seguida cada estudante recebeu um reglete e um punção no qual deveriam escrever seu nome e aprender a técnica de escrever com esse material.
Figuras 08 e 09: Aluno utilizando reglete e punção.
Fonte: acervo pessoal dos autores
No próximo encontro realizou-se o ditado Braile. Nesse desafio os alunos deveriam escrever em braile o nome de alguns animais. A turma foi dividida em cinco grupos e cada um recebeu materiais como papel EVA, cola e tesoura. A proposta é que cada grupo apresentasse o nome dos animais que receberam dentro de um envelope. Os animais selecionados foram: girafa, cavalo, peixe, gato e porco.
Gato
Fonte: acervo pessoal dos autores
O encontro finalizou-se com os alunos manuseando e tentando fazer a leitura de alguns livros infantis totalmente escritos em Braile.
Figura 15: Leitura de livros infantis escritos em Braille.
Figuras10, 11, 12,13e 14:Ditado Braile
C avalo Porco
Girafa Peixe
Fonte: acervo pessoal dos autores
No quarto encontro os alunos assistiram filmes de contos de fadas como Chapeuzinho Vermelho e Branca de Neve baixados do programa MecDAYSE.
Todos os alunos tiveram seus olhos vendados enquanto assistiam. O MecDAYSE é um software desenvolvido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ que permite a leitura/audição de livros no formato Daisy. O formato Daisy – Digital Accessible Information System – é um padrão de digitalização de documentos utilizado para a produção de livros acessíveis.
O MecDAYSE permite a navegação facilitada, de pessoas com deficiência visual, pelos livros e maior interação no momento da leitura, possibilitando a localização de termos e palavras, navegação ágil pelo índice do livro, inclusão de notas, tudo isso através de orientações verbalizadas pelo próprio sistema.
O formato MecDAYSE é um formato livre, ou seja, qualquer pessoa pode utilizá-lo sem necessidade de pagamento de licença ou direitos autorais. O MecDAYSE faz a leitura dos livros através de uma voz sintética (voz digital), desta forma não há necessidade de gravação de frases em estúdio e pagamento de direitos de utilização de voz.
Esse momento propiciou para os alunos e alunas experiências tão ricas, ou seja, puderam vivenciar, por meio de outros sentidos o mundo à sua volta.
4. CONSIDERAÇOES FINAIS
A oficina de Braile desenvolvida na Escola Municipal Colônia Agrícola de Ceraíma teve o objetivo de democratizar a aprendizagem do Sistema Braile entre pessoas que enxergam. A oficina mostrou ser um importante momento de contato com o Braile numa abordagem lúdica, colocando os estudantes em contato com a temática da deficiência visual.
Para os cegos, o Braile é um código de leitura e escrita que possibilita acesso ao conhecimento. Ele é um valioso meio de comunicação. Para quem enxerga, entretanto, a realidade é outra. O braile é sinônimo de complicação. Os estudantes que participaram do projeto disseram que ler e escrever em braile é extremamente difícil.
5. REFERENCIAS
BRASIL. Decreto n° 3.956/2001. 2001. Acesso em 21.04.2006. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/2001/d3956.htm
________. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. Grafia Braille para a Língua Portuguesa / elaboração: Cerqueira, Jonir Bechara... [et al.].
Secretaria de Educação Especial. Brasília: SEESP, 2006.
BIRCH, Beverley. Louise Braille personagens que mudaram o mundo: os grandes humanistas. Rio de Janeiro: Globo, 1990.
MOURA. Giovana Rachel. PEDRO, Eva Neri Rubim. Adolescentes portadores de deficiência visual: percepções sobre sexualidade. Revista Latino-americana de Enfermagem 2006.
SANDES, Liziane Fernandes. A leitura do deficiente visual e o sistema Braille.
Salvador, 2009.