BrazJOtorhinolaryngol.2017;83(3):364---366
www.bjorl.org
Brazilian
Journal
of
OTORHINOLARYNGOLOGY
RELATO
DE
CASO
First
branchial
cleft
fistula:
a
difficult
challenge
夽
Fístula
na
primeira
fenda
branquial:
um
difícil
desafio
Corneliu
Mircea
Codreanu
a,∗,
Corneliu
Codreanu
ae
Margareta
Codreanu
baBr˘ailaCountyHospital,DepartmentofOtolaryngology,Braila,Romênia b‘Dr.Codreanu’ENTClinic,Galati,Romênia
Recebidoem2dejunhode2015;aceitoem16dejulhode2015 DisponívelnaInternetem23demarçode2017
Introduc
¸ão
Anomaliasdaprimeirafendabranquialrepresentam8-10%1,2
detodososdefeitosdefendasbranquiais,queconstituem
17% dos tumores cervicaispediátricos. A baixa incidência
e asvariadas apresentac¸ões clínicas dessas malformac¸ões
congênitasdoaparelhobranquialdificultamodiagnóstico,
mesmoparaootorrinolaringologistaexperiente.Adepender
dotipo daanomalia (fístula,seio oucisto), o trato
fistu-losopodeseapresentarcomlocalizac¸ãomedialoulateral
aonervofacial.OsestudosdeTCproporcionaminformac¸ões
úteissobrealocalizac¸ãodotratofistuloso.
Aqui,descrevemos umcaso rarode fístuladeprimeira
fendabranquialdotipoII emformadeumtratocontendo
duas aberturas --- uma cervical na região submandibular
esquerdae uma pequena fistulosa no assoalho daporc¸ão
cartilaginosadocondutoauditivoexterno(CAE)esquerdo.O
tratamentoconsistiunacompletaexcisãodotratofistuloso
DOIserefereaoartigo:
http://dx.doi.org/10.1016/j.bjorl.2015.07.017
夽
Comocitaresteartigo:CodreanuCM,CodreanuC,CodreanuM. Firstbranchialcleftfistula:adifficultchallenge.BrazJ Otorhino-laryngol.2017;83:364---6.
∗Autorparacorrespondência.
E-mail:[email protected](C.M.Codreanu).
A revisão por pares é da responsabilidade da Associac¸ão BrasileiradeOtorrinolaringologiaeCirurgiaCérvico-Facial.
e emumaparotidectomiasuperficial,compreservac¸ãodo
nervofacial.
Relato
de
caso
Menina, quatro anos, foi levada à clínica
otorrinolarin-gológica com um tumor na parte superior do pescoc¸o,
inicialmentenotadohaviaseismeses.Ointerrogatóriodos
paisrevelouque,duranteepisódiosagudosderinofaringite,
otumor ficavaavermelhadoeinchava,comumasecrec¸ão
esbranquic¸adaerecorrentequevazavaporpequena
aber-turanaregiãolaterocervicalesquerdaepeloCAEesquerdo.
O exame clínicorevelou que o tumor tinha formaovoide
emedia2,5-1cm,eraflutuanteerelativamentemóvelcom
relac¸ãoàsestruturascervicaisprofundas.Foitambém
obser-vadapequenaaberturanaregiãosubmandibularesquerda.
Aotoscopia reveloupequena depressão noassoalhodo
CAEesquerdo,compreservac¸ãodamembranatimpânica.
OestudodeTCrevelouumtratofistulosoqueconectavaa
porc¸ãocartilaginosadoCAEesquerdoàregiãolaterocervical
superiorquecruzavaoloboparotídeoprofundo.Foi
estabe-lecidoodiagnósticodefístuladaprimeirafendabranquial.
Comapacientesobanestesiageral,otratofistulosofoi
excisado como uso daclássica incisão de parotidectomia
descritaporAdsoneOtem1923emodificadaporRedonem
1955.Devidoàdistânciaentreaincisãoeaaberturacutânea
inferiordafístula,foitambémefetuadaumaexcisãoelíptica
daabertura(fig.1).
Firstbranchialcleftfistula:adifficultchallenge 365
Figura1 Aspectointraoperatório:asetaazulindicaotrato fistuloso;averdeapontaotroncodonervofacialesquerdo;ea pretamostraaexcisãoelípticadaaberturainferiordafístula.
Em seguida à identificac¸ão e dissecc¸ão do tronco do
nervofacial, fizemos umaparotidectomia superficial,que
mostrou o trato fistuloso situado sob os ramos do nervo
facial. Omesmofoi excisado,juntamentecoma abertura
cutâneainferior, como cuidadodepreservarosramos do
nervofacial.Finalmente,aaberturasuperiordafístulafoi
excisadajuntamentecomumapequenaporc¸ãodoassoalho
cartilaginosodoCAEesquerdo.
O pós-operatório transcorreu sem contratempos. O
exame histológicodo espécimerevelou que o trato
fistu-losoestavarevestidoporepitélioescamoso,comestruturas
anexaisecartilaginosasdispostasemlamelashialinas,oque
confirmouodiagnósticodefístuladeprimeirafenda
bran-quialdotipoII.
Discussão
As anomalias da primeira fenda branquial são entidades
raras, resultantes do fechamento incompleto da porc¸ão
ectodérmicadessafenda.Aprimeiradescric¸ãodessas
ano-maliasfoipublicadaem1865(Virchow).Em1929,Hyndman
eLightreuniram108casosdaliteraturamédica.
Em1971,Arnotclassificouasanomaliasdoprimeiroarco
e da primeira fenda branquial em: anomalias do tipo 1
(observadasprincipalmenteemadultos),consistememum
cisto pré-tragalque drenana áreaparotídea;eanomalias
dotipo2(geralmenteocorrentesduranteainfância),que
surgemnotriângulocervicalanterior.
A classificac¸ão histológica foi proposta por Work: tipo
I --- origemectodérmica daanomalia (epitélio escamoso);
e tipoII --- origens ectodérmica e mesodérmica (epitélio
escamoso,estruturasanexaisecartilagem).Aanomaliado
tipo Iseapresenta como umcisto epidermoideou fístula
localizada na região periaural, com um trato fistuloso
paralelo ao CAE, que termina em um fundo de saco ao
níveldomesotímpano.As lesões dotipoII seapresentam
na forma de um cisto, seio (trato com abertura para o
exterior), trato fistuloso com abertura superior no nível
dajunc¸ão ósseo-cartilaginosa doCAE ouumacombinac¸ão
desseselementos.AaberturainferiordaslesõesdotipoII
(comonopresenterelatodecaso)estásituadaemumaárea
triangulardescritaporE.Poncet,queficalimitadapeloCAE
superiormente, região mentoniana anteriormente e osso
hioideinferiormente.3 Tambéméimportante saberque as
anomalias do tipo II estão situadas acima das estruturas
vascularesdo pescoc¸oe do músculodigástrico; mas,com
relac¸ãoaonervofacial,suaposic¸ãoévariável:onervopode
estaracima,abaixooupodeatéseratravessadopelalesão.
Finalmente,emumaterceiraclassificac¸ão,Olsendividiu
osdefeitoscomocistos,seios,oufístulas.
Aanálise dasmanifestac¸õesclínicas(cervicais---
geral-menteumapequenadepressãonasproximidadesdoângulo
mandibular;parotídeas---pequenostumoreslocalizadosna
áreadaparótida;eauriculares---otorreiae,emalgunscasos,
umaaderência membranosaentre o assoalho do CAE e a
membranatimpânica---10%dos casosna sériedeTriglia),
dosestudosdeTCouIRMdasáreascervical eparotídeae
dofatodeque essaslesões raramenteestarãoassociadas
aoutrasmalformac¸õesfaciaispoderáconduzirao
diagnós-ticodeanomaliadaprimeirafendabranquial.Emcrianc¸as,
odiagnósticodiferencialdeveconsistiremcistos
auricula-res congênitos, apêndices pré-auriculares e anomalias da
segundafendabranquial.
Com relac¸ão ao nosso caso, a localizac¸ão do tumor
cervical, suas características e os achados otoscópicos,
juntamentecomosdosestudosdeTC,proporcionaram
ele-mentossólidosemfavordodiagnóstico.
Em geral,admite-se queasfístulas frequentementese
localizam medialmente ao nervo,enquanto que os tratos
sinusaistendem a avanc¸ar lateralmente ao nervo.4,5 Com
basenessasobservac¸ões,fizemos aexcisãocirúrgica
com-pletadotratofistuloso,juntamentecomolobosuperficial
daparótida,devido à posic¸ão do tumor (abaixo donervo
facial).Essaparticularsituac¸ãodaanomaliaexplicaa
difi-culdadedessetipodecirurgia,emquehápossibilidadede
ocorrênciadelesãoaonervofacial(40%nasériedeFord2e
15%nasériedeTriglia).
Devemosinsistirnofatodequeexisteumsegundo
pro-blema em relac¸ão à excisão completa dessas lesões sem
lesionaro nervoe que oproblema está ligadoà idade da
crianc¸a: quantomaisjovemfor o paciente,menos
desen-volvidaestaráapontadomastoide;onervofacialtendea
ocuparumaposic¸ãomaissuperficialemseusurgimento
atra-vésdoforameestilomastoideo.Nessecaso,éobrigatóriaa
monitorac¸ãodonervo facial, comalocalizac¸ão dotronco
nervosoeafeituradeumadissecc¸ãoseguradeseusramos.6
Por outro lado, o risco de paralisia facial iatrogênica
durantea remoc¸ãocirúrgicado tumorserá maiorse
hou-ver histórico de infecc¸ões recorrentes e de tratamento
inadequado(incisão, drenagemou excisão incompleta), o
que poderá acarretar a formac¸ão de grandes cicatrizes.
Felizmente, em nosso caso, o diagnóstico foi
estabele-cido precocemente, porque o clínico geral encaminhou
a paciente imediatamente à clínica otorrinolaringológica
etambémporqueaindanãotinhamsidofeitastentativasde
remoc¸ãodalesão,oqueminimizouoriscodeformac¸ãode
366 CodreanuCMetal.
Comrelac¸ãoàporc¸ãosuperiordotratofistuloso,é
essen-cial que uma pequena parte da cartilagem do CAE seja
removidajuntamentecomaaberturafistulosa,paraevitar
recidiva.Emnossocaso,foipossívelabordarasmargensda
aberturasuperioremseguidaàincisão,semcausarestenose
secundáriadoCAE.
Conclusão
As malformac¸ões congênitas da região da primeira fenda
branquialrepresentamentidadescom asquaiso
otorrino-laringologista pode se deparar durante a prática clínica.
Apresentamosumcaso dessararamalformac¸ão pediátrica
e seu tratamento, recomendamos aos clínicos gerais e
outros médicos que tomem ciência das consequênciasde
um diagnóstico equivocado ou de atrasos no tratamento
cirúrgico.Um conhecimento detalhado da embriologia da
regiãocervicofacialégarantiadediagnósticoprecoceede
completa excisão dessas lesões,o que minimizará o risco
decomplicac¸õesgraves,como,porexemplo,umaparalisia
permanentedenervofacial.
Conflitos
de
interesse
Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.
Referências
1.ThamYS,LowWK.Firstbranchialcleftanomalieshaverelevance inotologyandmore.AnnAcadMedSingap.2005;34:335---8. 2.FordGR,BalakrishnanA,EvansJNG,BaileyCM.Branchialcleft
andpouchanomalies.JLaryngolOtol.1992;106:137---43. 3.ChenM-F,UengS-H,JungS-M,ChenY-L,ChangK-P.AtypeII
bran-chialcleftcyst masqueradingasaninfectedparotidWarthin’s tumor.ChangGungMedJ.2006;29:435---8.
4.D’SouzaAR, UppalHS,deR,ZeitounH.Updatingconceptsof firstbranchialcleft defects:a literaturereview.IntJPediatr Otorhinolaryngol.2002;62:103---9.
5.SolaresCA,ChanJ,KoltaiPJ.Anatomicalvariationsofthefacial nerveinfirstbranchialcleftanomalies.ArchOtolaryngolHead NeckSurg.2003;129:351---5.