• Nenhum resultado encontrado

ISSN: 2675-7451 Vol. 03 - n 04 - ano 2022

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2023

Share "ISSN: 2675-7451 Vol. 03 - n 04 - ano 2022"

Copied!
227
0
0

Texto

(1)
(2)

Filipe Lins dos Santos

Presidente e Editor Sênior da Periodicojs CNPJ: 39.865.437/0001-23

Rua Josias Lopes Braga, n. 437, Bancários, João Pessoa - PB - Brasil website: www.periodicojs.com.br

instagram: @periodicojs

(3)

A missão da Revista Gênero e Interdisciplinaridade (GEI) des- tina-se a informar a comunidade acadêmica sobre os desafios e perspec- tivas que revestem a discussão interdisciplinar das ciências humanas e do gênero. O objetivo da GEI é estimular o debate e produção científica com o propósito de produzir conhecimentos e atuar como transformador social e instrumento de reflexão para uma isonomia entre os indivídu- os. O público-alvo de nossa revista é pós-doutores, doutores, mestres e estudantes de pós-graduação. Dessa maneira os autores devem possuir alguma titulação citada ou cursar algum curso de pós-graduação. Além disso, a GEI aceitará a participação em coautoria. A Revista possui um conjunto de Seções para recebimento de trabalhos científicos, como:

•Seção de Estudos Interdisciplinares em Ciências Humanas: Seção interdisciplinar que recebem trabalhos de língua portuguesa, espanhola, inglesa ou francesa produzidos através de pesquisas ou reflexões acadê- micas na área das ciências humanas;

•Seção de Estudos sobre Gênero: essa seção se destina a discutir as- suntos que versem sobre a temática de gênero, podendo abordar temas como: direitos Homoafetivos, lutas LGBTI, teoria queer, direitos huma-

2

(4)

nos e políticas públicas de gênero, saúde, multiculturalismo, religião, povos tradicionais, inclusão social, pensamento africano, populações afro e diáspora negra;

3

(5)

OBSTETRIC VIOLENCE AN ANALYSIS OF SOCIAL REPRE- SENTATIONS

8

CONDITIONS IN THE FEMALE PRISION AND THE FRAGI- LITY OF FUNDAMENTAL RIGHTS

31

WOMEN IN PRISION AND FUNDAMENTAL GUARANTEES FROM THE PERSPECTIVE OF THE DIGNITY OF THE HU-

MAN PERSON 71

Estudos em Gênero

Estudos em Interdisciplinares

4

(6)

FOOD PRODUCTION IN URBAN AREAS 115

THE BEHAVIOR OF THE FAMILY BEFORE THE DIAGNOSIS OF THE CHILD WITH DEAFNESS

140

TERRITORIAL DEVELOPMENT IN THE SEMIARID RE- GION: THE CREATIVE ECONOMY AND SUSTAINABILITY

160

IMPLEMENTATION AND MAPPING OF METHODOLO- GIES AND INSTRUMENTS FOR TECHNOLOGICAL IN- NOVATION IN THE ESPAÇO 4.0 PROGRAM AT A REFE-

RENCE SCHOOL 205

COMPLEMENTARY PENSION PENSION IN BRAZIL: AN

5

(7)

ANALYSIS OF THE LEGAL AND HISTORICAL SYSTEM 247

6

(8)

Estudos em Gênero

7

(9)

8

OBSTETRIC VIOLENCE AN ANALYSIS OF SOCIAL REPRESENTATIONS

Mayla Oliveira Soares1 Sabrina Ribeiro do Nascimento2 Vera Lúcia Cristóvão da Silva3 Késsia Sales Pereira Silva4 Marcelo Silva de Oliveira5

1 Graduanda em Psicologia na Universidade Federal de Campina Grande

2 Graduanda em Psicologia na Universidade Federal de Campina Grande

3 Graduanda em Psicologia na Universidade Federal de Campina Grande

4 Graduanda em Psicologia na Universidade Federal de Campina Grande

5 Graduando em Psicologia na Universidade Federal de Campina Grande

Resumo: O objetivo do presente estudo foi investigar como ocorre a violência obstétrica no contex- to brasileiro sobre o víeis de gê- nero, raça e classe social. Desse modo, busca compreender como a exclusão social pode ser um fator de risco contribuinte para

a violação de direitos da mulher em seu ciclo gravídico-puerpe- ral. A literatura presente sugere que o contexto de vulnerabilida- de social e as relações de poder fomentadas no âmbito hospitalar configuram-se enquanto práticas que ameaçam um gestar sadio

(10)

8 9 e contribuem para a ocorrência

dessa realidade no Brasil.

Palavras chaves: Violência Obstétrica. Desigualdade Social.

Gênero.

Abstract: The aim of this study is to investigate how obstetric violence occurs in the Brazilian context on the basis of gender, race and social class. In this way, it seeks to understand how so- cial exclusion can be a contribu- ting risk factor for the violation of women’s rights in their preg- nancy-puerperal cycle. The pre- sent literature suggests that the context of social vulnerability and the power relations foste- red in the hospital environment are configured as practices that threaten a healthy pregnancy and contribute to the occurrence of this reality in Brazil.

Keywords: Obstetric Violence.

Social inequality. Gender.

INTRODUÇÃO

“Aprox i mad a mente uma em quatro mulheres no Bra- sil sofreu algum tipo de violência durante o parto” (FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO; SESC, 2010). Este dado vai ao encontro do que toda mulher não sonha quando se fala sobre o momento do parto, onde é um grande en- contro de uma mãe ao seu bebê, e que se busca sentimentos de amor durante este processo ma- ternal. Mas nem sempre este é o tipo de sentimento que algumas mães relatam no período gravídi- co e puerperal, onde se queixam da dor ou do sofrimento viven- ciado nestes momentos. O termo violência obstétrica, surgiu na América Latina em 2000, com o surgimento dos movimentos

(11)

10 sociais em defesa do nascimento

humanizado. “O termo, muitas vezes generalizado, é usado para descrever desde a assistência ao parto excessivamente medicali- zado, até a violência física contra a parturiente” (PICKLES,2015 apud OLIVEIRA,2018). Este tipo de prática onde ocorre uma conduta que fere com a mulher, provocando em muitos dos casos abusos, maus tratos e desrespei- to, está sendo denominado como:

violência obstétrica. Para elencar todos os aspectos, a organização não governamental The Women’s Global Network for Reproductive Rights (A Rede Global de Mulhe- res para Direitos Reprodutivos) divulgou em seu panfleto uma definição abrangente, violência obstétrica significaria:

…intersecção entre:

violência institucio- nal e violência con- tra a mulher durante a gravidez, parto e

pós-parto. Ocorre nos serviços de saúde públicos e privados.

Para muitas mulheres [como consequência da violência obstétri- ca] a gravidez é um período associado a sofrimento, humilha- ções, problemas de saúde e até a morte.

A violência obstétri- ca pode se manifes- tar através de: Ne- gação de tratamento durante o parto, hu- milhações verbais, desconsideração das necessidades e dores da mulher, práticas invasivas, violência física, uso desne- cessário de medica- mentos, intervenções médicas forçadas e coagidas, detenção em instalações por falta de pagamen- to, desumanização ou tratamento rude.

Também pode se ma- nifestar através de discriminação base- ada em raça, origem

(12)

11 étnica ou econômica,

idade, status de HIV, não-conformidade de gênero, entre outros (OBSTETRIC VIO- LENCE, 2021).

O termo é uma defini- ção ampla, pois vem sendo cons- truído a partir das denúncias re- latadas pelas mulheres dentro do sistema de saúde e do tratamento que muitas delas sofrem, a vio- lência obstétrica também foi er- guida a partir de um movimento social voltado em prol do parto humanizado e principalmente para a redução de práticas clas- sificadas como agressivas. É cau- sada em sua maioria por quem realiza a assistência obstétrica, e afeta negativamente a qualidade de vida das mulheres, ocasionan- do abalos emocionais, traumas, depressão, dificuldades na vida sexual, entre outros (SECRETA- RIA DO ESTADO DE SAÚDE,

2021).

Essas violações que acontecem com as mulheres em trabalho de parto, não veio de hoje, e do nada se estabeleceu como violência obstétrica, per- passou uma linha na história do tempo. Tradicionalmente, os par- tos e seus cuidados eram reali- zados por mulheres conhecidas popularmente como aparadeiras, comadres ou mesmo de parteiras- -leigas. Estas detinham um saber empírico e assistiam domiciliam ente as mulheres durante a ges- tação, parto e puerpério (como também nos cuidados com o re- cém-nascido) [...]na sua maioria, eram mulatas ou brancas e portu- guesas e pertenciam aos setores populares (BRENES, p.1, 1991).

A partir da medicina que essas práticas começaram a ser realizada em hospitais, e com o avanço da ciência e todo o conhecimento que foi intensi- 10

(13)

12 ficando, as mulheres saíram de

suas próprias casas para parir em outro ambiente com uma equipe de profissionais realizando esta atividade. Conforme o avanço destas práticas, muitas delas não foram esquecidas e eram coloca- das em questão quando a mulher tinha dificuldades para ter o bebê de maneira naturalizada. O rela- to de Rebeca transcreve a difícil realidade da violência obstétrica

“Sentia uma fome e uma sede absurda, estava tão fraca, a boca totalmente seca, me contorcendo de dor quando senti uma lâmina me rasgando. Imediatamente eu perguntei que porra era aque- la, se ele tinha me cortado, por- que eu senti uma dor absurda e parecia que era um mega talho da vagina até o ânus, essa era a sensação que eu tive na hora. Ele não respondeu absolutamente nada” (MATOS et al., p.8, 2021).

Este é um dos relatos que mos-

tra como ocorre a violência obs- tétrica no ambiente hospitalar e na experiência do parto, e pas- sam por outras várias vivências como está relatada, notadamente se reproduzem como práticas ne- gligenciadas oferecida a mulher em trabalho de parto, durante um período anterior em que não se buscava entender o quão eram prejudiciais para a saúde da mãe e do próprio bebê.

Na virada do século XXI, a cesárea estava normali- zada no país. Se tornou proce- dimento preferencial para todos os nascimentos, especialmente entre a classe média e urbana. No Brasil, aproximadamente 55%

dos partos realizados no país são cesáreas (RODRIGUES, 2021).

Partindo desse pressuposto, a baixa procura para se realizar um parto natural é um dos pontos para que as práticas de realizar um parto, fossem consequente-

(14)

13 mente mais rápidas e mais ur-

gentes, e mais violentas. Como exemplos podemos citar algumas dessas condutas, episiotomia sem necessidade, sem anestesia ou sem informar à mulher; ocitoci- na sem necessidade; manobra de Kristeller (pressão sobre a bar- riga da mulher para empurrar o bebê); lavagem intestinal durante o trabalho de parto; raspagem dos pelos pubianos; amarrar a mulher durante o parto ou impedi-la de se movimentar; entre outros.

A luta por espaço para as mulheres é travada em todos os contextos sociais, desde que nascem sua inserção na socieda- de é mantida com a invisibilida- de, principalmente para ter voz;

para conquistar territórios e para sair livremente. A Cedaw1 foi ra- 1 A CEDAW é a grande Carta Magna dos direitos das mulheres e simboliza o resultado de inúmeros avanços principio- lógicos, normativos e políticos construídos nas últimas décadas, em um grande esforço global de

tificada pelo Decreto Legislativo nº 93, de 14 de novembro de 1983, objeto do Decreto nº 4.377/2002 da Presidência da República (18), configurando um importante ins- trumento jurídico de proteção às mulheres no Brasil. A convenção (19) expressa, em seu artigo 12.2, que: [...] os Estados-parte garan- tirão à mulher assistência apro- priada em relação à gravidez, ao parto e ao período posterior ao parto, proporcionando assistên- cia gratuita quando assim for ne- cessário, e lhe assegurarão uma nutrição adequada durante a gra- videz e a lactância. (MARQUES, p.8-9, 2020). São esse tipo de or- ganização que fortalece cada vez edificação de uma ordem interna- cional de respeito à dignidade de todo e qualquer ser humano. Nas palavras da jurista Flávia Piove- san “A Convenção se fundamenta na dupla obrigação de eliminar a discriminação e de assegurar a igualdade. A Convenção trata do princípio da igualdade, seja como obrigação vinculante, seja como um objetivo” (PIMENTEL, p.3, 2013).

(15)

14 mais a garantia que as mulheres

merecem, que por todo o histó- rico de oposição ao direito das mulheres, tendem a ser em um movimento fortificado que gere uma união em massa. O grande aparato jurídico é apenas um ins- trumento para que a mulher pos- sa usufruir de alguma garantia, mas é de suma importância que estas garantias saiam do papel e possam realmente protegê-las.

Não há lei federal no Brasil ou outro tipo de regula- mentação nacional sobre o que configura ou não violência obs- tétrica (ANDRADE; PIMEN- TEL, 2022). Devido aos Estados e Municípios terem a competên- cia concorrente para legislar no que tange à proteção e defesa da saúde em consonância com os ar- tigos 24, XII, e 30, II, da CF (20), muitos já promulgaram leis disci- plinando a proteção às mulheres no parto e puerpério, bem como a

caracterização da violência obs- tétrica. Como exemplo podemos citar a Lei Distrital nº 6.144/2018 (31), a Lei Estadual de Santa Ca- tarina nº 17.097/2017 (32) e Lei Municipal de João Pessoa nº 13.061/2015 (33), dentre outras (MARQUES, p.13, 2020). Além de exemplificar no projeto de lei citado anteriormente, existem 11 projetos encontrados junto ao artigo mencionado, onde apenas um encontra-se arquivado, e os outros em tramitação na câmara dos deputados. Esta é uma reali- dade vivida por muitas mulheres no Brasil, acometida principal- mente na região latino-Ameri- cana, que tem raízes históricas na conduta doméstica e perpassa para a hospitalar, com um pro- cesso que atinge o gênero, a raça e a instituição.

Diante o contexto apre- sentado, o presente estudo tem como principal objetivo compre-

(16)

15 ender como ocorre a violência

obstétrica no Brasil e como o fe- nômeno da exclusão social se faz presente nessa prática.

METODOLOGIA

O presente estudo trata- -se de uma revisão narrativa de literatura (RNL) de rigor qualita- tivo para análise e interpretação da produção científica já exis- tente. Para responder à questão norteadora do estudo “O que a literatura científica, dos últimos dez anos, traz a respeito da ex- clusão social e violência obstétri- ca?” foram realizadas pesquisas nas seguintes bases científicas de dados: Google Scholar, biblioteca eletrônica Scientific Electronic Library Online (SciELO) e na base de dados de Literatura La- tino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS).

O levantamento de da-

dos ocorreu no meses de julho e agosto de 2022, utilizando termos descritores na língua portuguesa Violência Obstétrica e Exclusão social para o levantamento de dados nos últimos 15 anos. Este processo envolveu atividades de busca, identificação e leitura preliminar de modo a selecio- nar produções acadêmicas que tivesse como principal temática a relação entre exclusão social e violência obstétrica. Em segui- da, a literatura encontrada foi ex- portada e organizada no software Microsoft Word, apreendendo de cada obra: a) ano de publicação;

b) idioma; c) público-alvo; d) te- mática e, e) autoria.

Posteriormente, os tra- balhos foram avaliados conforme critérios de inclusão: a) disponi- bilidade integral do conteúdo; b) ter sido escrito em língua portu- guesa; c) ter sido publicado no período que compreende os anos

(17)

16 2007 até 2022; d) ter como pú-

blico-alvo mulheres vítimas da violência obstétrica em contexto brasileiro, excluindo-se produ- ções acadêmicas que retratassem outra temática além da supracita- da.

Os estudos que se en- quadraram nos parâmetros de inclusão foram revisados inte- gralmente com a finalidade de possibilitar a contribuição para a revisão narrativa e a discussão proposta a respeito do tema.

EXCLUSÃO SOCIAL E VIO- LÊNCIA OBSTÉTRICA

De acordo com Souza et al. (2019) a violência obstétrica pode estar associada à violência institucional caracterizada por práticas discriminatórias em re- lação ao gênero, classe social e raça. A distinção que ocorre en- tre as mulheres atendidas, está

relacionada a um conjunto de atributos, como ser mulher, po- bre e de baixa escolaridade, ca- racterizando-as como objetos de intervenções médicas. Fatores como dificuldades econômicas e estruturais estão presentes nos serviços públicos como agravan- te deste cenário de violências, principalmente, nos hospitais pú- blicos.

Coelho (2021) ao trazer a história do parto, destaca que ao longo do tempo a mulher em tra- balho de parto passou a ser consi- derada como “paciente” e o parto passou a ser visto como cirurgia e com isso a mulher passou a ser considerada como doente, sendo impedida de ter sua liberdade de escolha na hora de partejar. As- sim, o parto hospitalar retirou o direito de muitas mulheres, como a privacidade, o direito de decidir como e onde seria o parto, como também a autonomia de escolher

(18)

17 quem iria acompanhá-la nesse

processo. Vale ressaltar que fo- ram inseridos diversos procedi- mentos e recursos invasivos e não naturais.

Nesse sentido, ao excluir a mulher das decisões, desejos e preferências da mulher, em prol ao conhecimento e decisão mé- dica, constitui-se o que Gabriel e Santos (2020) se utilizam do ter- mo injustiça epistêmica. De acor- do com os autores, uma injusti- ça epistêmica é uma exclusão danosa da participação de uma pessoa, ou de um grupo de pes- soas, na produção, disseminação e manutenção de conhecimento.

Exclusões desse tipo são casos de injustiça, segundo ela, quando elas se originam em uma falha em atribuir autoridade epistêmi- ca a uma pessoa por conta de um preconceito de identidade, que faz com que esta pessoa seja vis- ta como menos capaz de contri-

buir para uma troca epistêmica.

Ao relacionar a exclu- são social enquanto contribuição para a violência obstétrica, Sou- za et al. (2019) destacam que, em muitos casos, considerando a rea- lidade socioeconômica de muitas famílias, as mulheres que reali- zam acompanhamento pelo SUS utilizam-se desse serviço por ser o único meio de acesso possível.

Muitas vezes, durante a gestação e período de pós-parto, a mulher que adere ao serviço público en- contra-se fragilizada por não ser acolhida, sendo negligenciada por alguns profissionais na omis- são de cuidados.

Vale trazer as contri- buições de Coelho (2021) que aborda que, a violência obstétrica como sendo todo ato praticado de forma verbal ou física contra a mulher gestante, em trabalho de parto ou que estejam no período do puerpério. Sendo assim, esta

(19)

18 forma de violência não se resume

apenas à assistência ao parto, po- de-se existir em todas as fases do período gravídico e puerperal.

Gabriel e Santos (2021) abordam que, por conta da mar- ginalização social e política e, por consequência, da participa- ção historicamente desigual das mulheres na elaboração e na re- visão de conceitos-chave para explicar experiências cotidianas.

Na ausência do conceito, várias práticas violentas durante o par- to eram tidas por mulheres como normais ou como sofrimento necessário. Entretanto, é impor- tante ressaltar que, mesmo após a definição do termo, dois outros problemas surgem. O primeiro se liga ao fato de que o acesso ao conhecimento do termo e seu significado é desigual em nossa sociedade; raça, classe, letramen- to são elementos que incidem di- retamente no acesso a esse recur-

so e, portanto, na possibilidade de se reconhecer vítima de uma violação. O segundo problema se liga ao fato de que a aplicação, reconhecimento e legitimidade do termo “violência obstétrica”

seguem em disputa.

Diante dessa relação, Souza et al. (2019) destacam que, viver em condição de vulnerabili- dade social, já é resultado de uma violência do Estado, onde os di- reitos fundamentais e os direitos humanos não são assegurados. A vulnerabilidade social pode ser definida por ausências diversas, sendo a precariedade no acesso à renda, desigualdade e fragilidade nos vínculos afetivos e relacio- nais como fatores principais.

Portanto, apoiado na literatura de Souza et al. (2019) pode-se confirmar que, a violên- cia aqui discutida não acontece por fatores isolados, e sim en- quanto resultado de um conjunto

(20)

19 de crueldades que possui o peso

da distinção de classes sociais, o preconceito exposto pelo con- texto em que vive a mulher, bem como por questões de gênero e a notória discriminação racial e de classe.

RAÇA E VIOLÊNCIA OBS- TÉTRICA

No Brasil, ao pensar na estrutura da prática de atendi- mento em instituições de saúde, observa-se um ambiente configu- rado para que a violência obstétri- ca racista aconteça sem nenhum impedimento. Ao longo dos tem- pos as ciências médicas foram formadas com base em tradições coloniais e escravocratas. Desse modo, construiu-se um imaginá- rio de que “mulheres negras são mais resistentes à dor”, “mulhe- res negras têm quadris largos, por isso são parideiras”; “elas

são mais fortes por natureza”

são pensamentos como esses que permeiam o atendimento racista que mulheres negras recebem.

Conforme Silva et al (2022):

“A temática violên- cia obstétrica e ra- cismo obstétrico é frequentemente in- corporada à concep- ção de gênero (Davis et al., 2020), isto é, forma como a vio- lência obstétrica se manifesta por meio do fator de diferen- ças raciais, estigma- tizando e desvalori- zando a maternidade de mulheres negras”

(DAVIS ET AL, 2020 APUD SILVA ET AL 2022. p.6).

O destaque efetuado pelos autores, nos mostra que as manifestações racistas parte de uma visão centrada nos aspectos históricos e culturais da desvalo- 18

(21)

20 rização dos negros, e da negativa

de direito igualitários na assis- tência à saúde de qualidade. Con- forme Castilho (2019) a questão do racismo:

“é uma crença na existência das raças naturalmente hierar- quizadas pela rela- ção intrínseca entre o físico e o moral, o físico e o intelecto, o físico e o cultu- ral” (MUNANGA, 2003), sendo um conceito importan- te para o estudo da violência obstétrica sofrida por mulheres negras e pardas por se apresentar tam- bém tanto na relação de cuidado quanto no acesso e prática ins- titucional. (CASTI- LHO ,2019, p. 5).

Nesse contexto, é pos- sível perceber a presença de algo que Jodelet (1998) nomeia como “alteridade de dentro” a

qual ocorre através de compara- ções sociais mais próximas, em que um determinado grupo tem algo em comum, e marcados pelo “selo” da diferença física, por exemplo, cor, raça, deficiên- cia etc. Esses selos da diferença geram mal-estar e preconceitos sociais e estereótipos de que os negros são “raça forte”, “aguenta dor”, ou seja, os membros desse grupo social enraízam em sua identidade um passado histórico marcado por inferiorização e de- sumanização do grupo. Trata-se, portanto, de um grupo que ne- cessita reconstruir esse passado onde a alteridade caracteriza-se como fruto de um duplo processo de construção social histórica e estrutural (JODELET, 1998).

Nesse sentido, podemos destacar pelo menos três tipos de racismos: racismo institucional, o racismo obstétrico, e o racismo médico.

(22)

21 O primeiro está relacio-

nado “ao fracasso das institui- ções e organizações em prover um serviço profissional e ade- quado às pessoas em virtude de sua cor, cultura, origem racial ou étnica”, além disso, são mani- festações comportamentais que ocorrem diariamente no contexto hospitalar, ou seja, independente do caso, esse racismo visa colo- car pessoas de grupos raciais ou étnicos discriminados em situa- ção de desvantagem no acesso a benefícios gerados pelo Estado e outras instituições e organiza- ções de saúde pública (CASTI- LHO 2019)

O segundo trata-se de

“ações e atos explícitos ou sutis que se configura como uma ame- aça para a saúde e o bem-estar das gestantes e o desfecho neo- natal”. Trata-se de um termo que não se limita a lacunas críticas de diagnóstico; negligência, desdém

e desrespeito. Mas, também são formas de causar dor; e exercer abuso médico por meio de coer- ção, realização de procedimentos ou de realização de procedimen- tos sem consentimento da ges- tante. (DAVIS, 2020. p.7)

Nesse contexto, o racis- mo obstétrico também se apre- senta na forma de segregação e policiamento historicamente constituído e emerge especifi- camente no cuidado obstétrico e coloca as mulheres negras e seus filhos em risco. Trata-se, portanto, de sofrimentos causa- dos a mulheres negras através de estereótipos de cunho racista, isto é, estigmatizando e desvalo- rizando a maternidade e gravidez dessas. Além disso, maioria tem baixa escolaridade, renda, e pou- co acesso aos serviços básicos de saúde.

Já o racismo médico ocorre quando a raça da paciente 20

(23)

22 influência as percepções do mé-

dico, bem como o tratamento e/

ou as decisões relativas ao diag- nóstico, colocando o paciente em risco […]. Por exemplo, pacientes negros têm sido submetidos a diagnósticos racialmente estra- tificados, resultando na negativa de oferta de medicação para dor, com base na crença de que eles suportam melhor a dor do que outros grupos demarcados (HO- FFMAN ET AL. 2016)

Frente a todas as cons- tatações, Santos et al. (2020) nos mostra nitidamente a prática de um discurso discriminatório, nos relatos: “Escutei a recepcionista (durante o pré-natal) falar: ne- gra é como coelho, só dá cria”;

“No parto do meu último filho não me deram anestesia”; “Tinha que ser!’’. “Olha aí, pobre, pre- ta, tatuada e drogada! Isso não é eclampsia, é droga!”. Através dessas expressões, percebe-se

como a violência obstétrica está inserida na assistência prestada às mulheres negras, reiterando a vulnerabilidade vinculada a fa- tores como cor da pele e renda (SANTOS, 2020. p. 11).

Diante do exposto, po- demos perceber que a violência obstétrica contra as mulheres negras nas perspectivas, raça, cor, se configuram como graves problemas que dificultam a supe- ração dessa violência que emer- gem justamente da banalização, invisibilidade e negação das di- versas condutas desrespeitosas e nocivas, as quais estão inseridas no cotidiano da assistência obs- tétrica de forma ‘naturalizada” e rotineira, provocando impactos na saúde das mulheres negras e pobres e em seus recém-nasci- dos. (SANTOS, 2020. p. 14).

Assim, nota-se a re- levância da reflexão acerca da existência desses estigmas que

(24)

23 evidenciam vulnerabilidades re-

lacionadas à saúde que contri- buem para a recorrência de ini- quidades e de violação de direitos à saúde de qualidade, conforme preconiza os princípios do SUS.

Neste sentido, relacionam-se o racismo e a existência de outros fatores de vulnerabilidade com a determinação das condições de saúde pública.

VIOLÊNCIA OBSTÉTRI- CA SERIA UMA FALHA DA SAÚDE PÚBLICA?

Cerca de 45% das mu- lheres que usam o serviço públi- co para acompanhamento gesta- cional, o pré-natal e para o parto, sofrem de violência obstétrica.

Levando esses números em con- sideração, notamos que esse tipo de violência é comum no dia a dia das gestantes que utilizam do serviço público de saúde dos hos-

pitais e maternidades. A médica Melânia Amorim, professora de ginecologia e obstetrícia da Uni- versidade Federal de Campina Grande (UFCG) faz observações sobre os casos de violência obs- tétrica, afirmando ela que “[...]

as mulheres mais vulneráveis à violência obstétrica são as po- bres, pretas, pardas e periféricas (FONTE: FOLHA DE PER- NAMBUCO).

Tal fato é impossível ne- gar, porém, é interessante salien- tar que esses acontecimentos não estão “apenas” restritos a rede de saúde pública. De acordo com dados de uma pesquisa realizada pelo grupo de pesquisa “Nascer no Brasil” Inquérito nacional so- bre perdas fetais, partos e nasci- mentos entre fevereiro de 2011 e outubro de 2012, constatou que cerca de 30% das mulheres aten- didas em redes privadas sofrem por violência obstétrica, apenas

(25)

24 15% a menos das mulheres que

usufruem das instituições públi- cas.

Quando observamos es- ses dados acima citados percebe- mos que a exclusão social não é a única forma de se explicar a vio- lência obstétrica, mas existe tam- bém a violência de gênero, cons- truída socialmente, e esta é um dos motivos de tantas violências na hora do parto. A muito tempo o papel da mulher é moldado pela sociedade e quando essa se torna mãe é dado a ela o jugo de supor- tar todas as dificuldades que esse período traz, porém, não é vista, pois, culturalmente a gravidez foi romantizada como o momento mais belo da vida de uma mulher.

Com todas essas atribui- ções construídas pela sociedade de ter sua feminilidade em torno de um homem, lar ou filho. O pa- pel da mulher na maternidade é de submissão assim como em to-

dos os pontos que circulam à sua volta. Esse tipo de olhar machista deixa transparecer atos como a violência obstétrica, e partindo da citação acima, atos institu- cionais que deixam as mulheres em uma situação de inferioridade outra vez. As boas práticas evi- denciadas por mulheres é algo que não acontece no meio insti- tucional, essas práticas provocam sofrimento psíquico, principal- mente, por serem maneiras sutis e administradas por profissionais da saúde que garantem ser a me- lhor maneira de conduzir esses procedimentos, sendo muitas das vezes atitudes silenciosas e insti- tucionalizada, levando a pensar que devam ocorrer de modo na- tural e ser reproduzidas por con- veniência médica. Mais uma vez a mulher passa por uma impo- tência de escolha e de movimen- to, em um momento de sua vida que deveria ocorrer um cuidado

(26)

25 e acolhimento, e de se sentirem

seguras com uma boa equipe de profissionais.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O objetivo do presen- te estudo foi examinar de qual modo se configura a violência obstétrica na sociedade em re- cortes de gênero, classe e raça.

A pesquisa identificou que que a violência conta mulher é uma re- alidade constatada que atravessa a vida enquanto sujeito e constru- to social. A depender da cultura essas práticas desumanas são legitimadas por diversas institui- ções e naturalizada pela socie- dade, com isso, observa-se que mesmo em ambientes que deve- riam representar um local seguro e acolhedor como a maternidade, acabam se tornando lugar de vio- lentas práticas e de inúmeras vio- lações de direitos.

As implicações da vul- nerabilidade social e das relações de poder constituídas no âmbi- to hospitalar, torna as mulheres enquanto potenciais vítimas de práticas violentas ao seu corpo e para o período gravídico puerpe- ral. A depender de sua classe so- cial ou sua cor a tendência é mais explícita e forte que reforçam a discriminação racial e socioeco- nômica.

Apesar da temática da violência obstétrica ter ganho relevância na mídia e em outros veículos de comunicação, a hu- manização ainda não se configu- ra enquanto realidade frequente.

Essa problemática deve ser dis- cutida não apenas pela sociedade, como também nas instituições de produção de saber em saúde e no campo acadêmico-científico para discutir sobre as repercussões dessa prática e promover espaços para o protagonismo da mulher 24

(27)

26 durante o pré-natal, parto e puer-

pério.

Urge, portanto, da cria- ção de espaços seguros que ga- rantam o direito da mulher e do nascituro, livre de práticas que ocasionam inúmeras sequelas físicas e psicológicas ao gestar.

Humanizar consiste em promo- ver protagonismo e construir a gestação junto à pessoa gestante, com o mínimo de intervenções farmacológicas que possam pre- judicar a saúde e integridade da mãe e do bebê. Também se faz necessário o reconhecimento em lei federal de contra a violência obstétrica no âmbito da justiça brasileira como forma de promo- ver e resguardar esses direitos na proteção contra condutas violen- tas.

Por fim, a presente pes- quisa aponta a necessidade de mais estudos na realidade bra- sileira que considerem diversos

contextos sociais, e consequente- mente, desenvolver estratégias de intervenção no campo da saúde para a humanização do gestar enquanto protagonismo vivo e atuante.

REFERÊNCIAS:

ANDRADE, Carolina; PIMEN- TEL, Thais. Brasil não tem lei federal que trate de violência obstétrica ou parto humaniza- do; maioria dos estados tem le- gislação sobre tema. G1,Belo Horizonte,2022. Disponível em:

<https://g1.globo.com/mg/mi- nas-gerais/noticia/2022/07/17/

brasil-nao-tem-lei-federal-que- -trate-de-violencia-obstetrica- -ou-parto-humanizado-maioria- -dos-estados-tem-legislacao-so- bre-tema.ghtml>. Acesso em:08 de Agosto de 2022.

BRENES, Anayansi Correa.

(28)

27 História da parturição no Brasil,

século XIX. Cadernos de Saúde Pública, v. 7, p. 135-149, 1991.

CASTILHO, Glaucejane Galhar- do da Cruz de. Violência Obs- tétrica: uma análise a partir da perspectiva das gestantes negras.

IX Jornada de políticas públicas.

2019.

CEDAW. Convenção sobre a Eli- minação de todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher.

Disponível em: https://assets compromissoeatitudeipg.sfo2.

digitaloceanspaces.com/2012/11/

SPM2006_CEDAW_portugues.

pdf. [Acesso em:10.out.2019].

COELHO, Renata da Silva. Vio- lência obstétrica no Brasil: uma reflexão acerca das possibilida- des de enfrentamento das mulhe- res negras. Trabalho de Conclu- são de Curso. Universidade do

Sul de Santa Catarina. Tubarão, 2021. Disponível em: https://re- positorio.animaeducacao.com.br/

handle/ANIMA/19490. Acesso em: 01 ago. 2022.

DAVIS, Dána-Ain. TEMPESTA, G.A & ALMEIDA, M.E.T. Ra- cismo obstétrico: a política racial da gravidez, do parto e do nas- cimento. Amazônica - Revista de Antropologia. 12. 751. 10.18542/

amazonica. V12i2. 9194. 2020- Disponível em: https://periodi- cos.ufpa.br/index.php/amazoni- ca/article/viewFile/9194/6927/

Acesso em: 06 ago. de 2022.

FUNDAÇÃO PERSEU ABRA- MO; SESC. Pesquisa de opinião pública. Mulheres Brasileiras e Gênero nos espaços público e privado. 2010. Disponível em:

<https://apublica.org/wp-content/

uploads/2013/03/www.fpa_.org_.

br_sites_default_files_pesqui-

(29)

28 saintegra.pdf>.

GABRIEL, Alice de Barros;

SANTOS, Breno Ricardo Gui- marães. A Injustiça Epistêmica na violência obstétrica. Revista Estudos Feministas, v. 28, 2020.

Disponível em: https://www.

scielo.br/j/ref/a/vqSqgYjmywG- vy6BHTs4DFjK/abstract/?lan- g=pt. Acesso em: 01 ago. 2022.

JANSEN, Mariana. Violência Obstétrica: por que devemos fa- lar sobre?. Politize, 2019. Dispo- nível em: <https://www.politize.

com.br/violencia-obstetrica/>.

Acesso em: 24/07/2022.

LEAL, M. C. ET AL. A cor da dor: iniquidades raciais na aten- ção pré-natal e ao parto no Bra- sil. Cad. Saúde Pública. 2017.

LIMA, M.E.O. Da diferença à indiferença: Racismo contra ín-

dios, Negros e Ciganos no Bra- sil. In TECHIO,E.M.; LIMA, M.E.O. (Orgs.). Cultura e Produ- ção das diferenças: estereótipos e preconceito no Brasil, Espanha e Portugal. Brasília:Technopolitik, 2011.

LIMA, K.D. PIMENTEL, C.

LYRA, T.M. Disparidades ra- ciais: uma análise da violên- cia obstétrica em mulheres negras. Ciência & Saúde Cole- tiva. 2019. [online]. v. 26, suppl 3 [Acessado 6 Agosto 2022], pp. 4909-4918. Disponível em:

<https://doi.org/10.1590/1413- 812320212611.3.24242019>.

MATOS, Mariana Gouvêa de;

MAGALHÃES, Andrea Seixas;

FÉRES-CARNEIRO, Terezinha.

Violência Obstétrica e Trauma no Parto: O Relato das Mães. Psico- logia: Ciência e Profissão, v. 41, 2021.

(30)

29 MARQUES, Silvia Badim et al.

Violência obstétrica no Brasil:

um conceito em construção para a garantia do direito integral à saúde das mulheres. Cadernos Ibero-Americanos de Direito Sa- nitário, v. 9, n. 1, p. 97-119, 2020.

OBSTETRIC VIOLENCE.The Women’s Global Network for Re- productive Rights (A Rede Glo- bal de Mulheres para Direitos Reprodutivos.may 28.org, 2021.

Disponível em: <http://www.

may28.org/obstetric-violence/#_

ftn1>.

OLIVEIRA, Luaralica Gomes Souto Maior de. Violência obsté- trica e direitos humanos dos pa- cientes. 2018.

PIMENTEL, Silvia. Convenção sobre a Eliminação de T Conven- ção sobre a Eliminação de To-

das as Formas de Dis- ormas de Discriminação contra a Mulher criminação contra a Mulher- Ce- daw 1979 -, 2013. Disponível em:

<https://www.onumulheres.org.

br/wp-content/uploads/2013/03/

convencao_cedaw.pdf>. acesso em: 29/07/2022.

RODRIGUES, Karine. No Bra- sil das cesáreas, falta de auto- nomia da mulher sobre o parto é histórica. Fiocruz, Casa de Oswaldo Cruz, 2021. Disponível em: <https://www.coc.fiocruz.

br/index.php/pt/todas-as-noti- cias/1967-no-brasil-das-cesare- as-a-falta-de-autonomia-da-mu- lher-sobre-o-parto-e-historica.

html#:~:text=Brasil%20tem%20 a%20segunda%20maior%20 taxa%20de%20ces%C3%A- 1reas%20do%20mundo&tex- t =Na%20virada%20do%20 s % C 3% A 9 c u l o% 2 0 21, r e- a l i z a d o s % 2 0 n o % 2 0 p a %- 28

(31)

30 C3%ADs%20s%C3%A3o%20

ces%C3%A1reas.>.Acesso em:

27/07/2022.

SANTOS, VC. Morais AC. Souza ZCSN. Silva IAR. Ramos RSS.

Santos JS. Nogueira SDA. [Vio- lência Obstétrica na Perspectiva de Raça/Cor: Uma Revisão Inte- grativa]. Rev Paul Enferm [Inter- net]. 2020.

SECRETARIA DO ESTADO DE SAÚDE (SES). Violência Obstétrica. Governo do Estado de Mato Grosso do Sul. 2021.

Disponível em: <https://www.

as.saude.ms.gov.br/wp-content/

uploads/2021/06/livreto_violen- cia_obstetrica-2-1.pdf>.

SILVA. ET AL. Racismo obsté- trico vivenciado por mulheres negras: uma revisão integrativa da literatura. Research, Socie- ty and Development, v. 11, n. 1.

2022.

SOUSA, Janiely Silva et al. Parto (des)humanizado: as consequên- cias da violência obstétrica em puérperas na condição de vulne- rabilidade social. Serviço Social em Debate, v. 2, n. 2, 2019. Dis- ponível em: https://revista.uemg.

br/index.php/serv-soc-debate/

article/view/5059. Acesso em: 01 ago. 2022

(32)

31

CONDITIONS IN THE FEMALE PRISION AND THE FRAGILITY OF FUNDAMENTAL RIGHTS

Laura Daiana Oliveira Silva1

1 Bacharela em Direito pelo Centro Universitário Univel, Espe- cialista em Direito Penal e Processo Penal Avançado e Especialista em Direito da Família e Sucessões pela Damásio Educacional

Resumo: O presente trabalho propõe-se a investigar as condi- ções das penitenciárias femini- nas, verificando se os direitos das mulheres são efetivados. Será averiguada a condição da saúde das mulheres presas, tratando a respeito da infraestrutura, da hi- giene e do aspecto psicológico.

Quanto à dignidade da pessoa hu- mana, analisar-se-á as condições prisionais, confrontando com a Constituição e tratados interna- cionais. Evidenciará a materni- dade no cárcere, a gestação, o pós-parto e desenvolvimento da

criança na infraestrutura prisio- nal. Por fim, serão demonstradas as políticas públicas, como são aplicadas, e sua efetividade. Para tanto, foi explorada a legislação, doutrina, artigos e dados oficiais do encarceramento feminino.

Palavras chaves: Mulheres. Pri- são. Direitos Fundamentais.

Abstract: The present work pro- poses to investigate the condi- tions of women’s penitentiaries, verifying if the rights protectyed to women are carried out. Will

(33)

32 be investigated the healt, the in-

frastructure, the hygiene, and the psychological aspect. About dignity of the human person, the prisional conditions in confron- tation to constitution and inter- national treaties. There will be an elucidation of the matherhood, the gestation, the postpartum and child development within the prison. Finally, the debate on public policies, how are applied, as well as their effectiveness. To this end, an exploration of legis- lation, doctrine, articles, and offi- cial data on female incarceration was carried out.

Keywords: Women. Prision con- ditions. Fundamental rights.

INTRODUÇÃO

Evidente a existência de diferenças fisiológicas entre or- ganismo feminino e o masculino,

de modo que aquele é eivado de especificidades que demandam tratamento diferenciado que am- pare tais distinções biológicas, inclusive quando se fala nas mu- lheres que se encontram reclusas, visto que os direitos humanos e fundamentais são inerentes à condição humana, independente- mente do isolamento penitenciá- rio.

A Lei de Execução Pe- nal, e demais dispositivos nor- mativos têm previsão legal no sentido de determinar que as pe- nitenciárias estejam adaptadas para que a mulher seja capaz de gestar a criança com os devidos cuidados de pré- natal, bem como para que após o nascimento do fi- lho, as providências necessárias sejam tomadas para o bom de- senvolvimento do infante.

De mais a mais, é ne- cessário que sejam analisadas questões que influenciam na saú-

(34)

33 de psicológica das presas, dentre

as quais, o uso abusivo de subs- tâncias entorpecentes e bebidas alcoólicas, bem como o impacto causado por traumas relaciona- dos à violência doméstica, sexual e agressões de natureza física.

Diante dessas questões deve ser averiguado como (e se) é assegurado o direito fundamen- tal à saúde, constitucionalmente previsto, e garantido por trata- dos internacionais e legislações vigentes, assim como, investigar a respeito de sua efetiva concre- tização.

No que tange ao trata- mento dado às mulheres presas será analisado tratados e con- venções internacionais, e o que dispõe a Constituição Federal a respeito da dignidade da pessoa humana, direitos fundamentais, e proibição à tortura e a tratamen- tos degradantes, desvendando os direitos consagrados pela lei e as

concepções doutrinárias e filosó- ficas a respeito da dignidade hu- mana.

Por fim, será exposto quais as iniciativas estatais para a melhoria na infraestrutura, bem como programas envolven- do as mulheres presas para que desenvolvam atividades voltadas a fim de evitar a reincidência, e inserção da mulher no mercado de trabalho após o cumprimento da pena.

Nesta ótica, o presen- te trabalho contribuirá para de- monstrar a realidade das mulhe- res que se encontrem recolhidas nas penitenciárias brasileiras.

Nota- se relevância no estudo do encarceramento feminino a fim de demonstrar e denunciar as condições das penitenciárias, para que o Estado e a sociedade voltem os olhos para a realidade de tais mulheres.

32

(35)

34 O CÁRCERE FEMINI-

NO EM CONTRAPOS- TO AOS D I R E I T O S FUNDAMENTAIS

Primordialmente, é ne- cessário dar a devida relevância ao fato de que, mesmo com os direitos fundamentais assegu- rados pela Constituição e pelos Pactos Internacionais disporem a respeito da dignidade da pessoa humana, salta aos olhos a fre- quência com que ocorre nas pe- nitenciárias brasileiras, práticas de tortura, e situações vexatórias (ZANINELLI, 2015).

A realidade demonstra que os direitos consagrados não são concretizados, de modo que o cenário que se observa nas pe- nitenciárias brasileiras, é devas- tador:

A má alimentação, a falta de higiene, edu- cação, lazer, visita íntima, atividades

laborais, a super- lotação, os espaços inadequados e insa- lubres combinados com várias formas e modalidades de torturas e violência resultam inevitavel- mente em doenças, fragilidade psíquica e mental (BRASIL, 2008, p.61 apud ZA- NINELLI, 2015, p.

92).

Conforme denota Quei- roz (2019) depender do poder pú- blico para poder se alimentar é absurdamente angustiante, já que alimentos estragados e fora da validade são fornecidos às peni- tenciárias e servidos às mulheres.

Não há nenhuma demonstração de esforço para que o alimento servido seja mais nutritivo ou de- sejável.

A abordagem de Nas- cimento (2019) diz respeito não apenas à tortura física, mas tam-

(36)

35 bém tortura psicológica, que dei-

xa cicatrizes na alma:

Junto ao castigo, também há a hiper- medicalização como tática de controle social. Estamos fa- lando de um cotidia- no estruturado pela tortura, no qual a falta de assistência jurídica, a superlota- ção, as agressões fí- sicas e psicológicas, o banimento social e familiar, a ausência da assistência ma- terial que lhes priva de itens básicos de sobrevivência, o ra- cionamento de água, a ausência de assis- tência médica, as in- cursões militarizadas das tropas de choque e a falta de informa- ção e comunicação geram distúrbios mentais às presas (NASCIMENTO, 2019, s/p).

Segundo o Ministé-

rio da Justiça, estabelecimentos penais são conceituados como aqueles cuja finalidade é o aloja- mento das pessoas presas ou que estejam submetidas à medida de segurança (BRASIL, 2012, p.

01) cujos critérios de construção são dependentes dos pareceres do Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN) o qual emite uma classificação destinada à po- pulação carcerária que a prisão receberá, de acordo com o sexo, idade, nível de segurança e re- gime de cumprimento de pena, bem como propõe um modelo arquitetônico apropriado (BRA- SIL, 2012).

Da precariedade das ca- deias femininas, verifica-se que os direitos das mulheres estão sendo violados na medida em que não são atendidas as deman- das específicas, em razão das pe- culiaridades femininas (LIMA, 2017). O Princípio da Dignidade

(37)

36 da Pessoa Humana, que deveria

nortear todo o ordenamento jurí- dico e a execução penal, infeliz- mente encontra-se em flagrante de violação, diante do tratamento fornecido às mulheres detidas no sistema carcerário brasileiro.

Tais situações fazem com que as reclusas desenvol- vam, cada vez mais e maior ódio ao sistema, inutilizando a finalidade ressocializadora da reclusão e desumanizando a ape- nada. Consoante verificado por Calmon (s/d), a instituição peni- tenciária se transforma em uma

“escola do crime”, na qual os re- clusos ameaçadores se profissio- nalizam, tornam-se calculistas e impossibilitados de conviverem socialmente, eternizando assim o ciclo de injustiças que permeia o sistema penal brasileiro. A visão de Negreiros Neto (2012) corro- bora com tal afirmação, expli- cando que a falha em dividir os

presos de acordo com o delito por eles cometido culmina na troca de conhecimentos a respeito da criminalidade.

No diapasão da situa- ção carcerária no Brasil, afirma Pereira “(...) abandono, miséria, ódio / sofrimento, desprezo, de- silusão, ação do tempo / misture bem essa química / pronto, eis um novo detento” (Racionais MC’s, 1997). De acordo c o m Lacerda (2017) quando se fala em garantias consti- tucionais, não se pode olvidar do princípio do mínimo existencial, que permeia os direitos funda- mentais, e tem como objetivo a garantia da dignidade da pessoa humana. A dignidade, neste sen- tido exige um grau de satisfação das necessidades do homem, isto é, o mínimo de existência que o ser humano necessita para gozar de seus direitos.

O princípio do Mínimo

(38)

37 Existencial faz menção à “proibi-

ção da insuficiência”, cujo esco- po é o auxílio na concretização dos direitos sociais, vez que os direitos fundamentais mínimos estão definidos constitucional- mente, impondo efeito vinculante ao legislador, proibindo-o de su- primir qualquer direito sem que haja uma compensação apropria- da (ISMAIL FILHO, 2016).

Dessa maneira, confor- me alerta Ismail Filho (2017) o mínimo existencial deve vincular a administração pública e ser tra- tado como um ponto de partida, haja vista que se trata do míni- mo para uma existência digna, fixando como objetivo alçadas maiores do que apenas o ínfimo, buscando concretizar os direitos fundamentais em sua integrali- dade.

Assim, as negligências das quais as penitenciárias fe- mininas são vítimas, afrontam o

princípio do mínimo existencial na medida em que é negado às mulheres encarceradas condi- ções irrisórias que possam ga- rantir a efetivação de seus direi- tos e o exercício de sua dignidade (LACERDA, 2017).

A crítica de Lacerda (2017) inteligentemente nota que o erro cometido pelo indivíduo ao praticar um delito não justifica o tratamento degradante que re- cebe nas penitenciárias, uma vez que o Estado acaba por praticar um crime ainda mais grave, des- respeitando seus direitos e o “tra- tando como animal”.

Dessa forma, o Estado nega ao sujeito a possibilidade de ressocialização, que é um dos ob- jetivos da pena, devendo o indiví- duo ser recuperado na cadeia, na medida em que reflete acerca do crime cometido e decide por abs- ter-se de praticar outros delitos.

Com um regime cruel, é impos- 36

(39)

38 sível que seja alcançada a resso-

cialização, na medida em que em vez de combater a delinquência, as prisões estejam estimulando a prática de outros ilícitos penais, possibilitando a degradação do ser humano (LACERDA, 2017).

A SAÚDE FÍSICA E MENTAL DAS DETENTAS

O artigo 14 da Lei de Execução Penal versa que “a as- sistência à saúde [...] compreen- derá atendimento médico, farma- cêutico e odontológico”, ou seja, todos os detentos têm o direito de acesso à saúde em caráter pre- ventivo, como forma de evitar que se instale em seu organismo qualquer tipo de enfermidade, e curativo, realizando tratamentos caso a doença já tenha se insta- lado.

Entretanto, Queiroz (2019) chama a atenção para a

dificuldade em enfrentar surtos de doenças contagiosas, espe- cialmente quando a superlotação estimula a circulação do vírus e o contágio por meio da aglomera- ção. De acordo com pesquisas re- alizadas pela Organização Mun- dial da Saúde, há mais mulheres presas que estão infectadas com HIV e fazendo uso de drogas, do que presos de penitenciárias masculinas.

Isto destoa completa- mente da questão da seguridade do direito à saúde previsto na Carta Constitucional em seu art.

196, no qual dispõe que a saúde é um direito de todos e um dever do Estado, que visará a redução do risco de doença e acesso uni- versal a tratamentos.

De acordo com estu- do realizado por Andrade et al (2016) em uma penitenciária fe- minina do Estado de São Paulo, apenas 31% das mulheres esta-

(40)

39 vam com as vacinas em dia, de-

monstrando a falta de cuidados profiláticos.

Enquanto que apenas 29,8% praticam atividades físicas diárias, ocasionando problemas de saúde relacionados ao sobre- peso.

Cuide-se para a questão de que a mulher possui diversas peculiaridades no que se refere aos cuidados com a saúde, espe- cialmente às doenças sexualmen- te transmissíveis, exames preven- tivos, cânceres que exigem uma série de materiais e medicamen- tos específicos para diagnóstico e tratamento.

Entretanto, em razão de recursos escassos e descaso da gestão pública, os materiais são negligenciados, e a saúde das de- tentas não é provida, a dignidade da reclusa se mostra violada ante da desobediência aos dispositi- vos legais e constitucionais.

Orienta o § 2º do art. 14 da LEP, que quando o estabele- cimento não tiver estrutura ade- quada, a assistência médica será prestada em outro local. Neste sentido, observa Castro e Soa- res (2012) que o Sistema Único de Saúde (SUS) destina atenção à população carcerária, entretan- to, os profissionais e gestores das penitenciárias ignoram tais dis- posições.

Como tentativa de re- solução do problema, o governo emitiu a Portaria Interministerial 1777, instituindo o Plano Nacio- nal de Saúde no Sistema Peniten- ciário (PNSSP), estabelecendo estratégias para ações e serviços de saúde para a população pri- sional. Dentre os objetivos do PNSSP, está a implementação de exames para identificação e tra- tamento de cânceres e DST’s, au- xílio de obstetria e ginecologia, e providências profiláticas contra

(41)

40 as diversas enfermidades mulhe-

res, garantindo o acesso à saúde, e consequentemente, à efetivação da dignidade, inerente ao ser hu- mano (BRASIL, 2003).

Evidencia-se também os problemas psicológicos desen- volvidos durante a pena e o agra- vamento de problemas pré-exis- tentes. De acordo com Argimon e Canazaro (2010) em estudo re- alizado em penitenciária do Rio Grande do Sul, 48,7% das reclu- sas demonstraram sintomas de depressão e ideação suicida.

A insuficiência de pro- fissionais psiquiátricos é um fa- tor que colabora para o agrava- mento do quadro, de acordo com Queiroz (2016) “é comum que calmantes sejam receitados para diminuir o trabalho das carcerei- ras” (p.22), entretanto, tal “trata- mento” não auxilia na melhora do quadro psicológico, na medi- da em que deixa as detentas, cada

vez mais dependentes de medica- mentos, e aumentando, portanto, sua vulnerabilidade.

Há incidência de pro- blemas psicológicos resultados de violência familiar, abusos sexuais, agravados pela situa- ção de isolamento, desenvolven- do depressão e ansiedade, bem como tendências suicidas. De acordo com Argimon e Canazza- ro (2010) a depressão advém do próprio aprisionamento, que faz com que se rompa os laços afe- tivos. Conforme apurado, uma pequena minoria recebe visitas, intensificando os transtornos psi- cológicos.

Conforme demonstra o estudo de Andrade et al (2016) na Penitenciária Feminina no interior do Estado de São Paulo, 31,4% das mulheres, sofreram violência física no último mês antes de ser presa, e 41,6% pre- senciou agressão física na família

(42)

41 antes dos quinze anos de idade,

acarretando traumas de infância para a vida toda.

O mesmo estudo deno- ta que 62,4% das mulheres ha- via feito uso de drogas no último ano antes de ser presa, sendo que 43,5% utilizavam entorpecentes em uma frequência de quatro ou mais vezes na semana (ANDRA- DE et al, 2016).

Como precisa Queiroz (2019) ao ser recluso, o homem tem conhecimento de que sua família continua em casa, no aguardo de sua liberdade. De ou- tra banda, nas situações em que quem foi privada da liberdade é uma mulher, é banal a perda dos familiares: “enquanto o homem volta para um mundo que já o espera, ela sai e tem que recons- truir seu mundo” (p. 44).

Há, de acordo com Cor- deiro (2014) maior percentual de problemas psicológicos nas peni-

tenciárias femininas, que deman- dam auxílio médico, o qual nem sempre se mostra presente nas estruturas prisionais, de modo que o direito à saúde mental de- nota descaso ainda maior, quan- do comparado à saúde física, de modo que a dignidade humana se mostra ferida no que tange a am- bos os aspectos do direito consti- tucional à saúde.

De acordo com o estudo de Andrade et al (2016) mencio- nado anteriormente, a incidência de Transtornos Mentais Comuns na prisão feminina alvo da pes- quisa, é de 66,7%, ou seja, mais da metade da população carcerá- ria feminina sofre com problemas psiquiátricos, não tendo nenhum tipo de assistência ou tratamento médico.

Consoante o estudo de Canazzaro e Argimon (2010) em razão de a mulher sofrer com abusos e com a violência com 40

(43)

42 uma frequência maior, a exclusão

social que acometem os presídios femininos, é também maior, de- sencadeando comportamentos autodestrutivos e prejudiciais a sua saúde.

Ante os problemas psi- cológicos, é necessária a im- plantação de políticas públicas que visem amparar as mulheres vulneráveis perante tais adversi- dades. De acordo com Cordeiro (2014) espera-se que seja im- plementada assistência à saúde psicológica das presas, a fim de aplacar o sofrimento e ajudar na ressocialização.

Azambuja (2013) alu- de que quando a detenta passa pela experiência da maternidade enquanto está sendo privada de sua liberdade, é de fundamental importância, que seja realizado acompanhamento da equipe in- terdisciplinar, com a devida qua- lificação, com o escopo de asse-

gurar à mãe a melhoria de sua saúde mental, bem como o bom desenvolvimento da criança que se vê inserida no contexto prisio- nal.

A QUESTÃO SANITÁRIA E A MATERNIDADE

Como já mencionado, muitas mulheres chegam na pri- são durante a gestação, ou ain- da, aquelas que estão inscritas no Programa de Visitas Íntimas, acabam tendo filhos concebidos durante o regime de cumprimen- to de pena. Diante disso, o art.

14 §3º da Lei de Execução Pe- nal versa que “Será assegurado acompanhamento médico à mu- lher, principalmente no pré-natal e no pós-parto, extensivo ao re- cém-nascido”.

Contudo, de acordo com a Revisão Periódica Universal (RPU) realizada pelo Conselho

(44)

43 de Direitos Humanos das Nações

Unidas, em 2012, as condições carcerárias brasileiras são plena- mente dissonantes das previsões legais e constitucionais: a falta de estrutura viola a Dignidade da Pessoa Humana, intrínseco ao indivíduo. Tanto é assim, que em tal procedimento, o Brasil re- cebeu repreensões, em razão do desrespeito aos direitos humanos em seu sistema carcerário.

Destaca-se o fato de que não raramente, o Estado ignora as diferenças de gênero dos re- clusos, e fornece um único méto- do de punição, no qual a mulher é desamparada, pois os problemas referentes aos cuidados de saúde, a maternidade, a menstruação, e as demais particularidades femi- ninas, são completamente esque- cidas ou ignoradas. De acordo com a Convenção sobre a elimi- nação de todas as formas de dis- criminação contra a mulher:

O comitê também se preocupa com as condições precárias e a superlotação em alguns centros de detenção; as dificul- dades que as reclusas enfrentam quanto ao acesso à justiça, in- clusive a falta de ser- viços de interpreta- ção para as mulheres indígenas; o aumen- to das denúncias de violência sexual nas pressões; e a falta de instalações e servi- ços adequados de saúde, especialmente às gestantes (ONU, 2012, p. 09, Tradu- ção Nossa).

De acordo com o levan- tamento de Informações Peniten- ciárias do Ministério da Justiça - INFOPEN Mulheres do DEPEN, a população carcerária feminina demonstrou crescimento próxi- mo a 700% entre os anos de 2000 e 2018, entretanto, o Estado não

(45)

44 deu atenção às condições de in-

salubridade nas penitenciárias femininas.

Os itens de higiene não são fornecidos, não é feita a dis- tribuição de absorventes ou papel higiênico nas celas, e muitas uti- lizam os poucos recursos como forma de substituição: há a práti- ca de se usar miolo de pão amas- sado como forma de absorver o sangramento menstrual, e de acordo com o relato de algumas é necessário “caçar” jornais sujos pelo chão para substituir o papel higiênico (LUCENA DE QUEI- ROZ, 2016).

Assim, as detentas de- pendem de seus familiares para levar absorventes e demais recur- sos durante o período de visita- ção. Entretanto, muitas reclusas também são esquecidas pela fa- mília, permanecendo sem con- tato com familiares. Conforme Nascimento (2019), “os dados de-

claram a invisibilidade das mu- lheres encarceradas, que durante anos foram esquecidas por seus familiares e pela gestão pública”

(s/p).

De acordo com o Con- selho Nacional do Ministério Pú- blico (2018) uma das proibições estabelecidas pelas Regras de Bangkok, diz respeito à mulher em estado puerperal, sendo ve- dada a contenção das mulheres antes, durante e após o trabalho de parto, e o confinamento e a se- gregação familiar durante a ges- tação e a amamentação. Contudo, se nota nas prisões femininas do Brasil, uma realidade que diver- ge das determinações e recomen- dações internacionais, ferindo a Dignidade Humana.

Queiroz (2019) traz o relato irônico de uma detenta a respeito da situação na qual são submetidas às mulheres quando estão gestantes nas prisões bra-

(46)

45 sileiras:

- Tem mulher que até dá à luz algemada na cama. Como se ela pudesse levantar pa- rindo e sair corren- do. Só homem pode pensar isso. Porque mesmo que ela pu- desse levantar, qual- quer policial com uma perna só andaria mais rápido que ela (p.73).

As Regras de Bangkok garantem às mulheres gestantes, o direito de praticar exercícios físicos e de tratamento nutricio- nal e médico, especialmente nos procedimentos de pré-natal, e estrutura apropriada para o de- senvolvimento do bebê durante a gestação e após o seu nascimen- to, bem como o direito de ama- mentação (LUCENA DE QUEI- ROZ, 2016).

Ademais, o Código de Processo Penal, versa em seu ar-

tigo 292 a respeito do uso de al- gemas nesse tipo de situação, in- serido no ano de 2017 ao códex.

Leia-se:

Parágrafo único. É vedado o uso de al- gemas em mulheres grávidas durante os atos médico-hospi- talares preparatórios para a realização do parto e durante o tra- balho de parto, bem como em mulheres durante o período de puerpério imediato (BRASIL, Código de Processo Penal, 2017).

Consoante à análise de Lucena de Queiroz (2016) a res- peito das Regras de Bangkok, os agentes penitenciários deverão se abster de determinadas san- ções quando se trata de mulheres gestantes, as quais não podem ser submetidas a tratamentos de confinamento solitário, nem ser algemadas após o nascimento do 44

(47)

46 filho. Ainda, as punições ao com-

portamento da presa não poderão envolver o seu afastamento ou proibição de ver os filhos.

A própria Lei de Execu- ção Penal Brasileira traz em seu artigo 1º, a execução penal como meio para concretizar as disposi- ções da sentença e proporcionar a reintegração do indivíduo na so- ciedade, de modo que a plenitude do exercício da Dignidade Hu- mana promove a ressocialização, na medida em que o tratamento digno educa a pessoa e a torna apta para conviver socialmente (BRASIL, LEP, 2012).

De acordo com Azam- buja (2013) as estruturas dos es- tabelecimentos prisionais afron- tam os direitos fundamentais das gestantes e das crianças, consa- grados no art. 227 da Constitui- ção, vez que violam a dignidade da pessoa humana, em virtude das condições insalubres das pe-

nitenciárias

Azambuja (2013) tratan- do a respeito das garantias con- feridas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, lembra que é direito da criança ser criada e receber educação no seio de sua família natural, devendo os pais sustentar, guardar e educar os filhos menores (art. 19, 22 e 25, ECA). Outrossim, a Constituição Federal de 1988 expressa em seu artigo 5º, inciso L, que as presas deverão ter condições para per- manecer com seus filhos durante o período de amamentação. En- tretanto, ao proceder da análise das condições carcerárias, se ve- rifica que tais determinações não são concretizadas.

Percebe-se que por um determinado tempo de sua vida, a criança permanece encarcera- da juntamente com sua genitora para que possa receber os cuida- dos da mesma. Tal situação fere

(48)

47 gravemente o Princípio da Indi-

vidualização da pena, segundo o qual, a pena tem sua aplicação li- mitada ao agente criminoso. Dis- cute-se o que seria melhor para o desenvolvimento da criança: o encarceramento ou a separação precoce de sua genitora.

No diapasão das garan- tias constitucionais, o inciso LIV do art. 5º afirma que “ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal”. Contudo, tal direito é vio- lado na medida em que os filhos das presas são encarcerados sem ter cometido e sem julgamento que enseje a restrição de sua li- berdade. Neste sentido, Fichbein (2012) se refere aos filhos cujos pais estão reclusos em estabe- lecimentos prisionais como ví- timas “esquecidas do crime” ou

“órfãs da justiça”, visto que a única coisa que mantém os filhos prisioneiros é o fato de ser des-

cendente de uma mulher que foi condenada pela prática de algum ilícito, fato com a qual o infante não possui nenhuma relação ou culpa.

Além de proteção cons- titucional, as crianças são ampa- radas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA (Lei 8.069/1990) onde é garantido ao infante, em seu artigo 3º, “todos os direitos fundamentais ineren- tes à pessoa humana”. Logo, vê- -se que a criança que nasce no contexto do ambiente prisional tem dificuldade em gozar de tais direitos (BRASIL, 1990).

Conforme nota Azam- buja (2013) o ambiente da prisão é hostil e inadequado para o de- senvolvimento saudável de uma criança, sem infraestrutura para receber tal público. A esmaga- dora maioria das penitenciárias não têm unidades materno-in- fantis, e o alimento provido não

(49)

48 é o ideal para o desenvolvimento

saudável da criança, bem como o lazer também não é garantido, uma vez que passam o dia com as mães em locais insalubres.

Assim, o desenvolvi- mento saudável de uma crian- ça não ocorre no interior de um presídio, sem acesso à educação ou qualidade de vida, permane- cendo em seus primeiros anos de vida, à mercê das mesmas condi- ções impostas a sua genitora, ou seja, a criança tem contato com a execução penal antes mesmo de se ter capacidade para entender o conceito de crime ou pena.

AS POLÍTICAS PÚBLICAS, A NECESSIDADE E A INSU- FICIÊNCIA

Políticas públicas, de acordo com Alves (2015) podem ser definidas como uma ação a ser tomada pelo Estado com o

objetivo de melhorar o bem-estar social, valendo-se dos recursos públicos. Assim, tenta-se dar fim a um problema de ordem pública por meio de ações governamen- tais que visam garantir o maior bem-estar público possível.

Segundo Höfling (2001) as políticas públicas são de res- ponsabilidade do Estado, cuja prática e manutenção é imple- mentada por meio de tomadas de decisões que abarcam diversos órgãos públicos e governamen- tais, de “diferentes organismos”

e agentes sociais que estão cor- relacionados com a política que será aderida.

Também há as chama- das políticas criminais, que são organizadas exclusivamente para garantir a dignidade dos presidi- ários em virtude de sua vulnera- bilidade. Sem esses programas, dificilmente conseguiriam ter acesso a direitos constitucionais,

(50)

49 de modo que restariam frustradas

os dispositivos que determinas- sem a concessão desses direitos aos detentos (HÖFLING, 2001).

Jesus (2012) observa que as políticas criminais são alvo de grande seletividade, pois indiví- duos de extratos sociais prede- terminados são marginalizados, visto que a falta de recursos e a negligência estatal em prover um bom sistema educacional em co- munidades de baixa renda, faz com que seus integrantes sejam mais propensos ao cometimento de delitos. Por meio de tais es- tigmas, as políticas criminais se tornam “seletivas”, de modo que as carceragens se encontram lo- tadas de pessoas de segmentos sociais marginalizados.

O Relatório sobre Mu- lheres Encarceradas da Comis- são Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA,

2007) já criticava a situação das mulheres e das crianças no cárce- re: os estabelecimentos prisionais têm concentrado sua atuação no sentido de promover a discrimi- nação, o preconceito e a violência de gênero.

Ainda em apresentação política, o Departamento Peni- tenciário Nacional declarou que a partir do diagnóstico realizado é preciso tomar conhecimento da finalidade da Política de Atenção às Mulheres Encarceradas, po- lítica que possui como objetivo geral:

Promover formu- lações de práticas na alçada da justiça criminal e execu- ção penal feminina, contribuindo efetiva- mente, para a garan- tia dos direitos, por meio da implantação e implementação de ações intersetoriais que atendam as espe- cificidades de gênero

Referências

Documentos relacionados

Este estudo foi realizado por meio de revisão da literatura de artigos, livros e dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA) tem por objetivo sistematizar as informações, sobre a

Os estudos originais encontrados entre janeiro de 2007 e dezembro de 2017 foram selecionados de acordo com os seguintes critérios de inclusão: obtenção de valores de

Foram encontradas, também, as pes- quisas de Soares (2007), sob o título “O Sistema Nacional de Avaliação da Educa- ção Superior e a Gestão Estratégica das

Starting out from my reflection on the words cor, preto, negro and branco (colour, black, negro, white), highlighting their basic meanings and some of their

Estudos sobre privação de sono sugerem que neurônios da área pré-óptica lateral e do núcleo pré-óptico lateral se- jam também responsáveis pelos mecanismos que regulam o

O relatório encontra-se dividido em 4 secções: a introdução, onde são explicitados os objetivos gerais; o corpo de trabalho, que consiste numa descrição sumária das

Tem ainda, como objetivos específicos, analisar os tipos de inteligências múltiplas e relacionar a inteligência racional e emocional; estudar a capacidade do indivíduo de

Os principais resultados obtidos pelo modelo numérico foram que a implementação da metodologia baseada no risco (Cenário C) resultou numa descida média por disjuntor, de 38% no