UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA TALMO EVARISTO DO NASCIMENTO
O SISTEMA BRASILEIRO DE INTELIGÊNCIA (SISBIN) E O
DESENVOLVIMENTO INTEGRADO DA ATIVIDADE DE INTELIGÊNCIA POR SEUS ÓRGÃOS
Santa Rosa 2017
TALMO EVARISTO DO NASCIMENTO
O SISTEMA BRASILEIRO DE INTELIGÊNCIA (SISBIN) E O
DESENVOLVIMENTO INTEGRADO DA ATIVIDADE DE INTELIGÊNCIA POR SEUS ÓRGÃOS
Monografia apresentada ao Curso de Pós-Graduação Lato
Sensu em Inteligência de Segurança, da Universidade do
Sul de Santa Catarina, como requisito à obtenção do título de Especialista em Inteligência de Segurança.
Orientador: Prof. Dr. José Luiz Gonçalves da Silveira
Santa Rosa 2017
TALMO EVARISTO DO NASCIMENTO
O SISTEMA BRASILEIRO DE INTELIGÊNCIA (SISBIN) E O
DESENVOLVIMENTO INTEGRADO DA ATIVIDADE DE INTELIGÊNCIA POR SEUS ÓRGÃOS
Esta Monografia foi julgada adequada à obtenção do título de Especialista em Inteligência de Segurança e aprovado em sua forma final pelo Curso de Pós-Graduação Lato
Sensu em Inteligência de Segurança, da Universidade do
Sul de Santa Catarina.
Santa Rosa, 31 de outubro de 2017.
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Orientador: Prof. Dr. José Luiz Gonçalves da Silveira
Universidade do Sul de Santa Catarina
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Prof. Dr. Camel André de Godoy Farah
A minha esposa e a minha filha, pela compreensão e apoio incondicionais ao meu trabalho.
AGRADECIMENTOS
A Deus, por me conduzir no caminho da constante busca pelo aperfeiçoamento. A minha família, fontes eternas de motivação e de inspiração, pela compreensão e incentivo para mais um desafio.
Ao Exército Brasileiro que me proporcionou experiência e oportunidades na importante Atividade de Inteligência.
Aos prezados professores da Universidade do Sul de Santa Catarina, pela fidalguia, camaradagem e irrestrito incentivo que recebi ao longo do período letivo.
RESUMO
O presente estudo explora o fato de que, no dia 7 de dezembro de 1999, a Lei no 9.883 instituiu o Sistema Brasileiro de Inteligência (SIBIN) e, simultaneamente, criou a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN). Atualmente, integram o SISBIN entidades das mais variadas naturezas e com características organizacionais bastante diversificadas. Considerando que cada um dos integrantes do SISBIN possui cultura, estrutura, materiais e doutrinas de emprego distintas, é razoável imaginar que interagir com tamanha diversidade de entidades externas, na prática, não é tarefa fácil. Nesse contexto, a cooperação, a integração, a complementariedade, a legalidade, a adaptabilidade, a flexibilidade, a elasticidade, a modularidade e a unidade de esforços, são alguns dos exemplos dos desafios que a realidade atual impõe aos profissionais de Inteligência do SISBIN. Assim, o presente trabalho buscou apresentar evidências de que a integração deve ser vista como atividade permanente, assim como procurou apresentar possíveis estratégias para o desenvolvimento integrado da Atividade de Inteligência entre os órgãos componentes do SISBIN, sem se descuidar do imperativo da segurança.
SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ... 9 1.1 TEMA ... 10 1.2 DELIMITAÇÃO DO TEMA ... 11 1.3 OBJETIVO ... 11 1.3.1 Objetivo Geral ... 111 1.3.2 Objetivo Específico ... 11 1.4 JUSTIFICATIVA ... 12 1.5 PROBLEMA ... 133 1.6 HIPÓTESE ... 13 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ... 165
2.1 O SISBIN: VISÃO GERAL...16
2.2 O SISBIN COMO AMBIENTE INTERAGÊNCIAS ... 19
2.3 ÓBICES À INTEGRAÇÃO ... 21
3 POSSÍVEIS ESTRATÉGIAS PARA APERFEIÇOAR A INTEGRAÇÃO DOS ÓRGÃOS COMPONENTES DO SISBIN ... 27
3.1 PRESSUPOSTOS BÁSICOS ... 27
3.2 FORTALECIMENTO DA ATUAÇÃO DO DISBIN... 28
3.3 ESTABELECIMENTO DE PADRÕES TECNOLÓGICOS COMUNS ... 29
3.4 ESTABELECIMENTO DE LINGUAGEM COMUM PARA A INTELIGÊNCIA ... 32
3.5 INTERCÂMBIO ENTRE ESPECIALISTAS ... 34
3.6 ESCOLA DE FORMAÇÃO COMUM ... 34
4 CONCLUSÃO ... 36
1 INTRODUÇÃO
No dia 7 de dezembro de 1999, a Lei no 9.883 instituiu o Sistema Brasileiro de Inteligência (SISBIN) e, simultaneamente, criou a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN). Chegava ao fim, nessa data, um período da História em que o Estado brasileiro, ao contrário da maioria das nações, conviveu com a inexistência, em sua estrutura de governo, de uma agência central para a Atividade de Inteligência, uma vez que, em 1990, o Presidente da República Fernando Collor resolveu extinguir o Serviço Nacional de Informações (SNI) no mesmo dia da sua posse (FIGUEIREDO, 2005).
Nesse contexto, nove anos se passaram entre o desaparecimento do SNI e o surgimento da ABIN. Foi inevitável, portanto, que muito da cultura e da doutrina de Inteligência brasileira tivesse perecido diante do longo período de incertezas e de falta de interação entre os principais atores da comunidade brasileira de Inteligência.
Após a instituição do SISBIN, diversas iniciativas vêm sendo observadas na direção de solucionar as dificuldades até então verificadas. As sucessivas modificações no texto do Decreto no 4.376, de 13 de setembro de 2002, que dispõe sobre a organização e o funcionamento do SISBIN, demonstram o esforço que vem sendo realizado na direção da reconstrução e aperfeiçoamento do sistema de Inteligência do País.
Atualmente, integram o SISBIN entidades das mais variadas naturezas e com características organizacionais bastante diversificadas. De acordo com o aludido decreto, hoje fazem parte do SISBIN os seguintes órgãos da alta administração: Casa Civil da Presidência da República, Secretaria de Governo da Presidência da República, Agência Brasileira de Inteligência, Ministério da Justiça, Ministério da Defesa, Ministério das Relações Exteriores, Ministério da Fazenda, Ministério do Trabalho e Previdência Social, Ministério da Saúde, Gabinete de Segurança Institucional, Ministério da Ciência e Tecnologia, Ministério do Meio Ambiente, Ministério da Integração Nacional, Ministério da Transparência e Controladoria-Geral da União, Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Secretaria de Aviação Civil da Presidência da República, Ministério dos Transportes, Ministério de Minas e Energia, e Ministério das Comunicações. Cada um desses atores integra o SISBIN por meio de suas secretarias executivas ou de órgãos especializados, como, por exemplo, o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (CENSIPAM), o Centro de Inteligência do Exército (CIE) e a Diretoria de Inteligência Policial do Departamento de Polícia Federal.
É importante destacar que órgãos como o Centro de Inteligência do Exército (CIE) - o qual atua como órgão central do Sistema de Inteligência do Exército (SIEx) - integram o SISBIN no mesmo nível institucional que muitos atores desse sistema. Dessa forma, considerando que cada um dos integrantes do SISBIN possui cultura, estrutura, materiais e doutrinas de emprego distintas, é razoável imaginar que interagir com tamanha diversidade de entidades externas, na prática, não é tarefa fácil. Contudo, o decreto mencionado anteriormente esclareceu que o funcionamento do Sistema Brasileiro de Inteligência efetivar-se-á mediante articulação coordenada dos órgãos que o constituem, respeitada a autonomia funcional de cada um e observadas as normas legais pertinentes à segurança, sigilo profissional e salvaguarda de assuntos sigilosos (BRASIL, 2002).
Portanto, a integração no âmbito do SISBIN é um imenso desafio. Desafio este de caráter permanente, como é próprio da Atividade de Inteligência. Ao buscar, de forma contínua e objetiva, atender a essa servidão do SISBIN, é necessário escolher, com acerto, estratégias de atuação adequadas para a superação dos óbices e exploração das oportunidades, muitas vezes indo além do já estabelecido como paradigma.
1.1 TEMA
A Atividade de Inteligência deve ser permanentemente exercida. Segundo uma definição livre, essa nobre atividade de natureza técnico-especializada pode ser entendida como aquela que possui a finalidade de produzir conhecimentos para o decisor, ao mesmo tempo em que procura proteger os ativos próprios de ações hostis. No Brasil, o advento da criação do Sistema Brasileiro de Inteligência, em 1999, trouxe alento e fôlego novo para uma atividade de Estado que foi relegada a plano inferior, com a edição da Medida Provisória no 150, de 15 de março de 1990, que extinguiu, no primeiro dia do mandato do ex-presidente Fernando Collor, o Serviço Nacional de Informações (SNI).
Os dezenove incisos do Art. 4º, do Decreto nº 4.376 / 2002, enumeram todos os órgãos que compõem o SISBIN. Nesse contexto, o estudo do desenvolvimento integrado da Atividade de Inteligência pelos diversos componentes do SISBIN é importante para revelar possíveis estratégias de atuação, capacidades a serem desenvolvidas e novas necessidades para que as potencialidades do SISBIN possam ser exploradas com segurança, e que os óbices possam ser superados.
1.2 DELIMITAÇÃO DO TEMA
O Sistema Brasileiro de Inteligência (SISBIN) e o desenvolvimento integrado da Atividade de Inteligência por seus órgãos.
1.3 OBJETIVO
Com o intuito de esclarecer o caminho a ser percorrido e de modo a facilitar o entendimento e, consequentemente, clarificar como é necessário o desenvolvimento integrado da Atividade de Inteligência pelos órgãos integrantes do SISBIN, foram estabelecidos o objetivo geral, que determina a finalidade principal da investigação, apresentando o cerne do questionamento, e os objetivos específicos, que descrevem o encadeamento lógico estabelecido para solucionar o problema que o tema apresenta.
1.3.1 Objetivo Geral
Como objetivo geral, o presente trabalho buscou integrar os conceitos básicos e conhecimentos científicos relevantes e atuais, a fim de se verificar o que tem sido feito para a maior integração entre os órgãos do SISBIN e o que se pretende realizar, a fim de tornar mais sólida e permanente essa integração.
1.3.2 Objetivo Específico
Tendo em vista permitir a persecução do objetivo geral proposto, foram formulados os objetivos específicos, abaixo relacionados, que possibilitaram o encadeamento lógico do raciocínio apresentado neste estudo:
a) apresentar uma visão geral acerca das atuais condições de integração dos órgãos integrantes do SISBIN;
b) mencionar os principais óbices no tocante à referida integração;
c) expor a necessidade de uma integração consistente dos órgãos do SISBIN; e
d) levantar possíveis estratégias para essa integração, com o intuito de, superando os óbices, otimizar a exploração das oportunidades existentes e/ou potenciais.
1.4 JUSTIFICATIVA
A presente monografia expõe sua importância, admitindo que a Atividade de Inteligência no Brasil deve ser conduzida de forma a buscar a integração dos órgãos componentes do SISBIN. Tal assertiva torna-se ainda mais relevante, na medida em que a evolução dos cenários nacional e internacional indicam a necessidade de permanentes aperfeiçoamentos na mencionada Atividade. Nestas circunstâncias, o assessoramento de Inteligência deve possuir elevada credibilidade e efetividade. Dessa forma, torna-se imperativo o substancial comprometimento de todos os órgãos envolvidos.
A diversidade atual de fontes de Inteligência contribui para a obtenção de uma significativa quantidade de dados e de informações. Todavia, para que o conhecimento produzido alcance os usuários interessados com oportunidade, mais uma vez menciona-se a importância da integração interagências. Além disso, verifica-se que antecipar-se às possíveis ameaças, à luz da conjuntura vigente, é de vital importância. Nesse sentido, a realização de um trabalho integrado dos órgãos de Inteligência torna-se fundamental.
Não obstante, vários dispositivos da legislação federal têm procurado aperfeiçoar o trabalho cooperativo e conjunto das agências e órgãos de Inteligência. Observa-se, pois, grande esforço para que a cooperação desenvolvida pelas agências nacionais de Inteligência se torne uma realidade cada vez mais evidente.
Nesse sentido, o presente trabalho justifica sua relevância ao buscar estudar a questão do desenvolvimento integrado da Atividade de Inteligência pelos órgãos do SISBIN, por meio da análise fundamentada em procedimentos científicos, a respeito de um tema que é atual e relevante para a proteção da sociedade e do Estado.
1.5 PROBLEMA
O compartilhamento de dados e informações entre agências e órgãos de Inteligência não é um assunto recente, e a sua ocorrência, em maior ou menor grau, sempre colaborou para melhor atender às necessidades dos seus usuários. Entretanto, por uma série de fatores, seja no âmbito internacional ou no nacional, a sua importância tomou um vulto sem precedentes.
O Brasil obviamente não está alheio a esse processo. Na realidade, o País também está sobremaneira envolvido com as ameaças contemporâneas, como os diversos tipos de tráfico internacional, os delitos cibernéticos e os vários indicadores relativos a terrorismo. Tudo isso é reforçado por ampla gama de eventos internacionais que o Brasil organizou no passado recente, além da deterioração das condições de segurança pública.
O processo de prevenção de ameaças, de gerenciamento de crises e de solução de conflitos raramente se restringe ao emprego exclusivo das capacidades de uma única agência ou entidade. Assim, planos de coordenação devem ser estabelecidos para reconhecer e aproveitar as competências de outras organizações, uma vez que cada vetor envolvido no ambiente interagências traz sua própria cultura organizacional, filosofia, linguagem, missões, práticas, conhecimentos e habilidades (BRASIL, 2013).
Nessas circunstâncias, não há dúvida de que a Atividade de Inteligência é cada vez mais relevante para a prevenção e para o enfrentamento de muitos dos males que afetam a sociedade brasileira. Cumpre, pois, destacar a participação dos órgãos de Inteligência em diversas tarefas ligadas ao assessoramento de alto nível e a necessidade do trabalho integrado entre as agências disponíveis.
Como corolário desse inquietante cenário, o Sistema Brasileiro de Inteligência foi instituído por meio da Lei Nr 9.883, de 7 de dezembro de 1999. Ele congrega diversificados atores, tendo, como o órgão central, a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN). Assim, a problematização, enfoque central do estudo proposto, consolida-se na seguinte questão:
Quais fatores contribuem para a integração entre os órgãos do SISBIN?
1.6 HIPÓTESE
Com a intenção de transpor os óbices existentes e o desejo institucional de implementar os aperfeiçoamentos necessários, a integração entre os órgãos componentes do SISBIN será melhor viabilizada se forem adotadas estratégias para o fortalecimento dos seguintes fatores: linguagem comum de Inteligência; trocas de experiências entre especialistas
dos diversos órgãos; e padrões tecnológicos que favoreçam o intercâmbio seguro de dados e informações.
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Dentro do complexo panorama que permeia a atividade de Inteligência, a pesquisa buscou identificar aperfeiçoamentos necessários para viabilizar o desenvolvimento integrado da Atividade de Inteligência pelos órgãos componentes do SISBIN, para que esse sistema de Inteligência, que atua essencialmente em um ambiente interagências, estabeleça as medidas necessárias para a efetividade da mencionada Atividade no nível estratégico. Sem estudos científicos dirigidos para essa importante temática, somente ao acaso a meta almejada poderia ser alcançada.
2.1 O SISBIN: VISÃO GERAL
O Sistema Brasileiro de Inteligência (SISBIN) foi instituído pela Lei nº 9.883/99. O seu conteúdo traduz o preciso intento de buscar-se a integração entre os órgãos componentes do recém-criado sistema. Uma observação interessante que pode passar despercebida é o fato de que a mencionada Lei inicialmente enfatiza a instituição do SISBIN para, depois, tratar da criação da ABIN. Tudo leva a crer que isso não foi ao acaso, e que a ordem adotada no dispositivo legal teve o intento de destacar a importância do SISBIN como um todo, e não apenas de sua Agência Central, contribuindo para a congregação de esforços.
Figura 1 - Organograma do SISBIN
Fonte: Escola de Inteligência Militar do Exército
As condições atuais de segurança da sociedade e do Estado estão a exigir ações sofisticadas, que envolvem amplas capacidades de Inteligência capazes de trazerem o assessoramento adequado e oportuno. A natureza atual dos conflitos de interesses e as características das ameaças, reais e potenciais, revelam a permanente necessidade da Atividade de Inteligência, integrada, eficaz e oportuna.
Nesse ponto, vale salientar que as diversas normas legais subsequentes procuraram destacar a necessidade de integração entre os diversos órgãos, a cooperação e a articulação, denotando a preocupação em estabelecer meios para viabilizar o trabalho harmonioso entre os
órgãos componentes do SISBIN, conforme se pode constatar a partir da leitura do Art. 5º do Decreto n° 4.376/2002, que dispõe sobre o dispõe sobre a organização e o funcionamento do Sistema Brasileiro de Inteligência (BRASIL, 2002):
Art. 5º O funcionamento do Sistema Brasileiro de Inteligência efetivar-se-á mediante articulação coordenada dos órgãos que o constituem, respeitada a
autonomia funcional de cada um e observadas as normas legais pertinentes a
segurança, sigilo profissional e salvaguarda de assuntos sigilosos (grifo nosso).
Corroborando com essa questão, verifica-se na estrutura da ABIN a existência do Departamento de Integração do Sistema Brasileiro de Inteligência (DISBIN), como parte do esforço realizado para a integração entre os órgãos de Inteligência, conforme se encontra previsto no Art 6º-A do mesmo diploma legal:
Art. 6º-A. A ABIN poderá manter, em caráter permanente, representantes dos órgãos componentes do Sistema Brasileiro de Inteligência no Departamento de Integração do Sistema Brasileiro de Inteligência (Incluído pelo Decreto nº 6.540, de 2008). § 1º Para os fins do caput, a ABIN poderá requerer aos órgãos integrantes do Sistema Brasileiro de Inteligência a designação de representantes para atuarem no Departamento de Integração do Sistema Brasileiro de Inteligência (Incluído pelo Decreto nº 6.540, de 2008).
§ 2º O Departamento de Integração do Sistema Brasileiro de Inteligência terá por atribuição coordenar a articulação do fluxo de dados e informações oportunas e de interesse da atividade de Inteligência de Estado, com a finalidade de subsidiar o Presidente da República em seu processo decisório (Incluído pelo Decreto nº 6.540, de 2008).
§ 3º Os representantes de que trata o caput cumprirão expediente no Centro de Integração do Departamento de Integração do Sistema Brasileiro de Inteligência da ABIN, ficando dispensados do exercício das atribuições habituais no órgão de origem e trabalhando em regime de disponibilidade permanente, na forma do disposto no regimento interno da ABIN, a ser proposto pelo seu Diretor-Geral e aprovado pelo Ministro de Estado Chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República (Incluído pelo Decreto nº 6.540, de 2008).
§ 4º Os representantes mencionados no caput poderão acessar, por meio eletrônico, as bases de dados de seus órgãos de origem, respeitadas as normas e limites de cada instituição e as normas legais pertinentes à segurança, ao sigilo profissional e à salvaguarda de assuntos sigilosos (Incluído pelo Decreto nº 6.540, de 2008) (BRASIL, 2002).
Assim, verifica-se que no campo da dimensão organizacional, a legislação brasileira procurou dotar o SISBIN de mecanismos para favorecer a desejada integração entre os atores da Inteligência. Ao longo da pesquisa, portanto, foram buscados elementos que possam aferir as condições atuais dessa integração e identificar possíveis estratégias para otimizá-la, conforme os objetivos fixados pelo presente trabalho.
Outra estrutura importante presente no cenário nacional é o Subsistema de Inteligência de Segurança Pública. Ele é abordado na monografia em pauta porque também congrega órgãos de nível federal, além da possibilidade de ser integrado pelos de nível estadual e distrital. Esse Subsistema foi criado pelo Decreto nº 3.695, de 21 de dezembro de 2000. Em seu conteúdo observa-se, de igual maneira, a busca da integração das atividades de Inteligência, conforme:
Art.1º Fica criado, no âmbito do Sistema Brasileiro de Inteligência, instituído pela Lei no 9.883, de 7 de dezembro de 1999, o Subsistema de Inteligência de Segurança Pública, com a finalidade de coordenar e integrar as atividades de inteligência de segurança pública em todo o País, bem como suprir os governos federal e
estaduais de informações que subsidiem a tomada de decisões neste campo
(grifo nosso).
O órgão central do Subsistema de Inteligência de Segurança Pública é a Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP) do Ministério da Justiça (Decreto no 3.695/2000). Ainda dentro de uma concepção integradora, foi criado o Conselho Especial do Subsistema de Inteligência de Segurança Pública, órgão de deliberação coletiva, o qual possui representantes de todos os órgãos federais integrantes desse Subsistema. Uma das atribuições desse Conselho é exatamente propor a integração ao SISP dos órgãos de Inteligência de Segurança Pública dos Estados e do Distrito Federal.
2.2 O SISBIN COMO AMBIENTE INTERAGÊNCIAS
Conforme já abordado, o SISBIN congrega, sob a coordenação da ABIN, entidades das mais variadas naturezas e com características organizacionais bastante diversificadas. Dessa forma, verifica-se que a forma de atuação do SISBIN caracteriza-se pela forte presença do ambiente interagências.
Conforme prevê o manual de campanha "Operações em Ambiente Interagências (EB20-MC-10.201)" (2013), elaborado pelo Estado-Maior do Exército, o ambiente interagências é descrito como regido por princípios básicos, ou seja, normas de procedimentos consagrados pela experiência, que visam ao sucesso na condução das operações neste ambiente. Segundo essa visão, a cooperação, a integração, a complementariedade, a legalidade, a adaptabilidade, a flexibilidade, a elasticidade, a modularidade e a unidade de esforços podem ser vistos como alguns dos princípios norteadores das operações interagências aplicáveis à Atividade de Inteligência desenvolvida no SISBIN.
Ainda sobre a diversidade de atores no mesmo ambiente operativo, a doutrina militar dos Estados Unidos da América esclarece que o principal desafio para a integração de esforços governamentais entre civis e militares exige que todas as diferentes agências estejam representadas, integradas e ativamente envolvidas no processo. Prossegue o referida doutrina, reforçando a necessidade de efetiva compreensão da situação e do problema a ser resolvido, buscando a integração e a sincronização de capacidades. Contudo, merece destaque a importância da construção da confiança entre as organizações, do respeito mútuo, sem o qual os esforços governamentais interagências irão fracassar (UNITED STATES OF AMERICA, 2014).
Segundo HERMAN (1999), a Atividade de Inteligência é um trabalho essencialmente interagências, cujo produto final é a disseminação do conhecimento produzido aos usuários envolvidos no processo sequencial de geração desse conhecimento. No entanto, para se atingir o estado de integração ideal, ajustes significativos nas estruturas e na cultura organizacional das agências e órgãos de Inteligência podem ser necessários.
Portanto, para que o SISBIN possa ser efetivo e eficaz nesse complexo ambiente interagências, é também importante a adoção de medidas que solidifiquem o ambiente de confiança.
O ambiente de confiança é construído no dia a dia por meio das atitudes regulares dos integrantes dos órgãos, do respeito às normas de segurança da atividade de Inteligência, da solidez das relações funcionais, da conformidade com a legislação relacionada, do compromisso com o bem comum e a paz social e, sobretudo, por
meio das manifestações inequívocas de comprometimento com a defesa do Estado e da sociedade brasileira. (FARAH, 2015, p. 34).
Contudo, uma das dificuldades para essa integração é, justamente, a gestão da confiança, um ativo de difícil mensuração. Lowenthal (2012) propugnou que uma agência (ou órgão) tem a tendência a conceder maior credibilidade ao seu pessoal, pois conhece o processo interno de seleção, e a labuta diária coletiva colabora para o fortalecimento da confiança mútua. Desse modo, verifica-se que a criação de mecanismos que venham a favorecer o fortalecimento do ambiente da confiança é relevante no caso em estudo.
Por fim, vale destacar no contexto da cooperação e da integração, a atuação do Conselho Consultivo do SISBIN. Esse órgão colegiado, estabelecido pelo Art. 7º do Decreto nº 4.376/2002, reúne os titulares de alguns dos órgãos componentes do SISBIN e tem, entre suas competências:
a) emitir pareceres sobre a execução da Política Nacional de Inteligência;
b) propor normas e procedimentos gerais para o intercâmbio de conhecimentos e as comunicações entre os órgãos que constituem o SISBIN, inclusive no que respeita à segurança da informação;
c) contribuir para o aperfeiçoamento da doutrina de Inteligência;
d) opinar sobre propostas de integração de novos órgãos e entidades ao Sistema Brasileiro de Inteligência; e
e) propor a criação e a extinção de grupos de trabalho para estudar problemas específicos, com atribuições, composição e funcionamento regulados no ato que os instituir.
Desse modo, verifica-se que o Conselho Consultivo do SISBIN tem papel fundamental nesse processo de ampliar a capacidade do sistema na gestão da confiança e da interoperabilidade entre os diversos órgãos componentes do SISBIN.
Logo, é fato que o SISBIN necessita aperfeiçoar a articulação entre os seus órgãos. Todavia, é possível constatar que avanços já vem sendo percebidos em virtude da atuação integrada e das lições aprendidas com os grandes eventos ocorridos nos últimos anos, como os Jogos Pan-Americanos (2007), os Jogos Mundiais Militares (2011), Copa da Confederações (2013), Jornada Mundial da Juventude (2013), a Copa do Mundo da FIFA (2014) e os Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio/2016.
Portanto, pode-se concluir parcialmente que os desafios trazidos pelo século XXI com a atuação de atores estatais e não-estatais em um cenário repleto de incertezas, como já foi assinalado no presente trabalho, nos mostram que as entidades presentes no ambiente
interagências possuem a necessidade permanente de aperfeiçoar a integração. Verifica-se, pois, que a adequada gestão da confiança e o incremento da interoperabilidade são elementos que podem contribuir para a elevação da eficiência do SISBIN, com reflexos para a segurança da sociedade e do Estado.
2.3 ÓBICES À INTEGRAÇÃO
O desenvolvimento integrado da Atividade de Inteligência pelos componentes do SISBIN representa, sem dúvida, um dos aspectos mais importantes para o fortalecimento dessa atividade no País. Os desafios atuais que se impõem, particularmente aqueles relacionados com os ilícitos transnacionais e com as organizações criminosas configuram um quadro em que há diversas ações necessárias a serem implementadas pelas agências de Inteligência. Nesse complexo cenário, não se visualiza a atuação dos órgãos do SISBIN de forma isolada. Entretanto, a concepção de integração não se traduz simplesmente a um trabalho conjunto, sem efetiva integração e coincidência de objetivos, até porque uma atuação nessas condições pode ter resultados mais ineficazes do que uma ação isolada.
É lícito supor que a busca da integração entre as instituições componentes do SISBIN será sempre um realidade dinâmica. Ou seja, configura-se em uma necessidade permanente, em que fatores estruturais e culturais tão distintos entre si, originários de grande variedade de agências, são trabalhados com vistas a desempenharem o papel de vetor unidirecional e profícuo para todos.
Além de todos os indicadores que apontam para a necessidade de integração das instituições componentes do SISBIN, a própria Lei nº 9.883/99 coloca esse assunto como a razão de ser desse Sistema e da própria ABIN. Tal diploma legal persegue o objetivo de integrar as ações de planejamento e execução das atividades da Inteligência do Brasil.
Como primeiro óbice substancial identificado, menciona-se a incipiente Política Nacional de Inteligência (PNI). Uma vez que foi aprovada muito recentemente, em junho do ano passado (2016), a lacuna gerada pela sua longa inexistência provocou falta de sintonia da Administração Pública Federal (APF) em relação ao tema e o desinteresse governamental. Dessa forma, durante um longo período, a atividade de Inteligência no País foi afetada pela falta de segurança na sua execução e de legitimidade, o que passa a ser equacionado pela PNI.
No tocante à figura 2, especificamente com relação ao mencionado questionário aplicado aos especialistas, foram levantados os seguintes óbices ao trabalho conjunto dos órgãos componentes do SISBIN:
Figura 2 - Óbices à Integração de Órgãos do SISBIN Fonte: o autor
O gráfico acima apresenta os óbices identificados pelos especialistas consultados, dentro de um viés quantitativo e principalmente qualitativo. As respostas aos questionamentos formulados aos colaboradores-especialistas indicaram óbices diversificados, em diferentes direções. Porém, os dados obtidos levantaram aspectos relevantes para a discussão dos possíveis dificuldades à integração dos órgãos componentes do SISBIN.
Inicialmente, foi apontada a difusão incorreta dos conhecimentos produzidos como um possível óbice ao trabalho conjunto. Isso decorre, segundo o que foi apurado, de uma série de problemas, entre os quais:
a. compartilhamento incorreto de informações, negligenciando o princípio da "necessidade de conhecer";
b. desconhecimento da legislação que trata sobre segurança da informação; c. falta de observância de aspectos relativos à Segurança Orgânica; e
d. comprometimentos e vazamentos de informações, devido ao tratamento incorreto durante a fase da difusão.
Dessa forma, pode-se inferir que os problemas apontados pela amostra como relativos à “difusão incorreta”, estão ligados à segurança da informação, com repercussões indesejáveis sobre o “ambiente da confiança”. Vale lembrar que nem todos os componentes do SISBIN são órgãos especializados - em sentido estrito - na Atividade Inteligência, o que provavelmente contribui para a ocorrência desse tipo de equívoco.
No tocante à cultura organizacional, esse fator caracteriza os distintos padrões de procedimentos, costumes, normas e comportamentos predominantes em cada órgão de Inteligência. Enquanto que as estruturas criam capacidades e determinam competências funcionais, a cultura possui uma poderosa força invisível capaz de influenciar o modo de ser e de atuar do profissional de Inteligência. A cultura organizacional pode oferecer resistência para a integração em um ambiente interagências, uma vez que aspectos culturais da Inteligência impõem normas internas, como hábitos e valores, que se tornam paradigmas para os profissionais da área e dificultam as mudanças (ZEGART, 2005).
Com relação à falta de sistemas comuns, a pesquisa mostrou esse outro importante óbice. Tais sistemas dizem respeito principalmente à Tecnologia da Informação e Comunicações (TIC). Uma vez que os diversos órgãos utilizam distintas plataformas de TIC, a interoperabilidade, em especial, torna-se sobremaneira prejudicada. Esse assunto será melhor detalhado no capítulo 5.
O espírito de integração deficiente, outra dificuldade levantada pelos especialistas, tem íntima relação com a cultura organizacional. Reflete o trabalho, ainda em grau substancial, "estanque" das agências de Inteligência. Convém observar que, apesar de um sensível avanço relacionado ao trabalho conjunto das agências, de forma geral o desejo de cumprir missões de forma integrada, ou mesmo de compartilhar dados e informações, ainda é muito tímido. Esse quadro também se apresenta como uma consequência da confiança mútua pouco desenvolvida.
A seleção de pessoal é um aspecto muito relevante para a efetividade de um órgão de Inteligência. Trata-se de uma atividade altamente especializada que exige profissionais dotados de atributos específicos e capacitados por sólida formação e especialização. Nestas circunstâncias, eventuais falhas na seleção de recursos humanos podem causar sérios prejuízos aos trabalhos realizados, provocando também reflexos negativos para a confiança mútua entre as agências. Por esses motivos, trata-se de outro óbice bem observado pelos pesquisados.
Outro fator levantado foi o partidarismo político presente em alguns órgãos de Inteligência. Certamente tem-se aqui um óbice bastante significativo para a atividade e, consequentemente, para o trabalho integrado entre as agências. É uma dificuldade que reflete a existência de ideologias em meio à realização das tarefas, possivelmente ferindo um dos grandes princípios da imparcialidade.
Com relação às diferenças de doutrina, é compreensível que este óbice ocorra, bastando levar-se em consideração que o SISBIN é um sistema relativamente recente e o fato
de que é composto por diversos órgãos, conforme será abordado mais adiante. É importante ratificar que distinções doutrinárias prejudicam diversos aspectos referentes à mencionada integração da Atividade de Inteligência, como a interoperabilidade e os problemas de comunicação.
Ainda dentro do universo de óbices levantados, os especialistas consultados mencionaram algumas dificuldades que, embora com menor expressão individual, também revelam observações interessantes. Assim, fatores como a falta de marco legal e o desinteresse de autoridades políticas para com a Atividade de Inteligência, foram também frisados como óbices que, por fim, prejudica o desenvolvimento integrado dessa atividade.
Esse conjunto de problemas conduz à análise de outro grande óbice para a integração entre os órgãos componentes do SISBIN: as deficiências no ambiente de confiança. Alguns órgãos do SISBIN, como já foi dito, não possuem agências de Inteligência. Tal situação diz respeito particularmente àqueles ministérios que participam do Sistema por intermédio de suas secretarias-executivas, por exemplo. Por outro lado, esses órgãos já demonstraram capacidade de produzir e de compartilhar dados de interesse do SISBIN e da Atividade de Inteligência.
Na figura abaixo, observa-se o aumento do número de instituições componentes do SISBIN. Desde a concepção do sistema, em 1999, o ingresso de entidades de diversas naturezas constitui desafio para o estabelecimento do “ambiente da confiança” e para a efetiva integração entre seus órgãos componentes.
Figura 3: evolução do número de integrantes do SISBIN
Diferenças na doutrina de Inteligência, ocorrência eventual de partidarismo político em alguns órgãos do SISBIN, deficiências na seleção de pessoal e no espírito de integração, e a falta de sistemas comuns para a Atividade de Inteligência foram outros óbices identificados pela pesquisa qualitativa-quantitativa. Cabe destacar que o instrumento que veio a disciplinar e tornar mais coerente a entrada de novos integrantes no SISBIN foi o Decreto nº 4.376, de 13 de setembro de 2002. Em que pese todo o esforço do SISBIN em integrar diversas instituições que, em tese, podem cooperar com o processo decisório de mais alto nível, ainda é possível perceber óbices a serem superados.
3 POSSÍVEIS ESTRATÉGIAS PARA APERFEIÇOAR A INTEGRAÇÃO DOS ÓRGÃOS COMPONENTES DO SISBIN
3.1 PRESSUPOSTOS BÁSICOS
Na pesquisa qualitativa-quantitativa realizada, os especialistas de Inteligência foram questionados acerca de ações que poderiam ser implementadas com o objetivo de mitigar os óbices e de otimizar a integração do SISBIN. Neste ponto, cabe ressaltar que o universo pesquisado pôde se manifestar por meio de “resposta livre”, com o objetivo de que se pudesse compreender a percepção de um integrante do SISBIN acerca das possíveis estratégias para o aprimoramento do SISBIN. Como exemplo, um integrante da Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP), assim opinou:
Em primeiro lugar a ABIN precisa se reestruturar por meio de algumas conquistas, [...], bem como se fortalecer tecnologicamente (criação, aquisição de softwares específicos para a atividade), só que isso depende de vontade política. A outra medida são os próprios cursos promovidos aos profissionais dos órgãos do SISBIN, e isso a ABIN já faz, mas é necessário buscar nesses cursos relação mais duradoura com os discentes de forma a torná-los permanentes colaboradores da agência.
Já na opinião do especialista do Departamento de Integração do Sistema Brasileiro de Inteligência (DISBIN), consultado por meio da pesquisa:
Em que pese a criação do Departamento de Integração do Sistema Brasileiro de Inteligência (DISBIN) ter ocorrido em 2008, até a presente data, poucos órgãos do Sistema efetivamente utilizam as salas do Centro de Integração (Cinteg). Uma maior adesão desses órgãos ao Cinteg garantiria a segurança nas comunicações trocadas entre os parceiros, permitiria maior agilidade na troca destas informações, atendendo ao Princípio da Oportunidade, e ainda proporcionaria uma sintonia fina entre as instituições que, aos poucos, iriam conhecendo melhor as estruturas e capacidades umas das outras.
Para o especialista do Centro de Inteligência da Marinha:
Para que o DISBIN possa cumprir integralmente as suas funções, é necessário que haja o interesse de todos os órgãos integrantes do SISBIN em manter pessoal com dedicação exclusiva à atividade de integração. Em acréscimo, em condições financeiras mais favoráveis, a existência de recursos orçamentários específicos para a integração também poderia contribuir para resultados mais expressivos. [...]
Assim, segundo o que se pôde apurar com o universo pesquisado, foram levantadas, em linhas gerais, as seguintes possíveis estratégias:
Figura Nr 4: - Estratégias para Melhorar a Integração dos Órgãos do SISBIN Fonte: o autor
Diante disso, a seguir serão apresentadas as estratégias que mais se destacaram na pesquisa realizada, para aperfeiçoar a integração dos órgãos componentes do SISBIN, onde o DISBIN tem papel fundamental nesse processo.
3.2 FORTALECIMENTO DA ATUAÇÃO DO DISBIN
A ABIN, como órgão central do SISBIN, desde a sua criação tem, entre outras, a complexa tarefa de buscar a integração das instituições componentes do Sistema. E para superar as dificuldades de cumprir essa atribuição, foi criado, em 2008, o Departamento de Integração do Sistema Brasileiro de Inteligência.
Esse Departamento apresenta, como uma de suas atribuições, “coordenar a articulação do fluxo de dados e informações oportunas e de interesse da Atividade de Inteligência de Estado, com a finalidade de subsidiar o Presidente da República em seu processo decisório” (BRASIL, 2008). Assim, por meio de recursos financeiros específicos para a integração e para o fomento à interoperabilidade, dentre outras ações, será possível buscar a adesão e o treinamento dos órgãos componentes do SISBIN às soluções propostas.
3.3 ESTABELECIMENTO DE PADRÕES TECNOLÓGICOS COMUNS
Neste ponto, é relevante frisar que a atuação coordenada de todos os órgãos componentes do SISBIN está distante de ser tarefa fácil. Para que essa integração (em sentido amplo) possa ocorrer, os diversos atores envolvidos devem ser, fundamentalmente, capazes de realizarem trocas de dados e/ou informações. Para isso, é importante, neste momento, apresentar o conceito de interoperabilidade.
Interoperabilidade deve ser entendida como a capacidade de sistemas, unidades ou forças intercambiarem serviços ou informações, ou aceitá-los de outros sistemas, unidades ou forças e, também, de empregar esses serviços ou informações, sem o comprometimento de suas funcionalidades (BRASIL, 2006). No mesmo sentido se posicionou Snyder (1997), ao afirmar que ocorre interoperabilidade somente quando diferentes entidades podem prover ou aceitar serviços de outras forças.
Já para Farah (2015, p. 30), a interoperabilidade em Inteligência traduz-se pela capacidade de uma Agência de Inteligência (AI) integrar-se a outra Agência, de acordo com determinados padrões, realizar intercâmbio de dados e informações, conforme padrões preestabelecidos. A interoperabilidade, portanto, refere-se à cooperação entre estas agências e a capacidade de compartilhar dados e informações.
Outro fator importante na atividade de Inteligência e que é conexo com a questão da interoperabilidade, é o emprego eficiente e seguro da Tecnologia da Informação e Comunicações (TIC). Nesse contexto, a tecnologia da informação (TI) e os recentes avanços nas comunicações impuseram às organizações tradicionais nítidas mudanças de comportamento, que repercutiram na necessidade de novas atitudes e processos, tornando impróprios procedimentos como o não-compartilhamento de informações e a não-colaboração entre entidades que possuem objetivos comuns. Desse modo, os fatores limitadores da disseminação da informação foram drasticamente reduzidos e, por conseguinte, o foco das organizações voltou-se para a busca da agilidade na obtenção e na utilização da informação, e não mais para a sua posse pura e simples, destituída de uma clara finalidade (ILDEFONSO, 2011).
Nesse cenário, há que se fazer uma ressalva. A TIC pode ser um grande instrumento de fortalecimento da integração, mas, de maneira alguma, é a única garantia para tal. Permanece sendo essencial o desejo e o espírito de integração por parte das diversas agências envolvidas em um ambiente interagências.
Em muitas ocasiões, os problemas de falta de interoperabilidade ou de integração são atribuídos à incompatibilidade entre sistemas de tecnologia da informação ou de comunicações. No entanto, para que duas entidades sejam capazes de compartilhar dados, informações e de colaborar uma com a outra deve ser verificada a presença de alguma das condições abaixo (ILDEFONSO, 2011):
- as duas entidades utilizam uma linguagem comum (protocolo); ou
- há um tradutor, capaz de converter uma linguagem em outra, e vice-versa; ou - há uma linguagem comum de referência, e cada uma das partes possui um tradutor capaz de interagir com a linguagem de referência.
Em um ambiente interagências como o SISBIN, é compreensível que órgãos componentes do sistema - impulsionados por suas próprias necessidades, cultura e doutrinas de emprego - venham com o passar do tempo a desenvolver seus próprios sistemas de informação. Nesse cenário, é comum o surgimento de “dutos de informação” ou stovepipes, situação em que diferentes sistemas independentes não são capazes de compartilhar dados e informações com outros sistemas.
Figura 5 – Interações entre múltiplas linguagens Fonte: (ALBERTS e HAYES, 2005)
Desse modo, para evitar o surgimento de stovepipes no âmbito do SISBIN, é necessário que o órgão central do sistema (ABIN) - por meio do DISBIN - realize as coordenações necessárias, para que haja padrões tecnológicos e linguagens comuns entre os diversos órgãos componentes do SISBIN. Neste ponto, é importante destacar que, em razão de que a atuação do SISBIN caracteriza-se pela articulação coordenada dos órgãos que o constituem, respeitada a autonomia funcional de cada um, não há como “impor” qualquer solução tecnológica. Por outro lado, é possível demonstrar aos demais integrantes do Sistema, que a “adesão” a determinada solução tecnológica apresentada pode trazer benefícios a todos, como, por exemplo, facilitar a solução do problema comum a ser resolvido, por meio da interoperabilidade e da sincronização de capacidades entre agências ou órgãos que vierem a “aderir” à solução proposta.
Figura 6 - Exemplo de formação de dutos de informação Fonte: o autor.
3.4 ESTABELECIMENTO DE LINGUAGEM COMUM PARA A INTELIGÊNCIA
Conforme já foi apresentado, em um ambiente interagências é comum a presença de cultura e doutrina diversificadas. Isso também pode ser verificado com a linguagem.
Tomando como exemplo a criação do Ministério da Defesa (MD), em 1999, as Forças Armadas Brasileiras vivenciaram um período de incremento da atuação em operações conjuntas. Assim, percebeu-se a necessidade de ajustes em diversas questões, dentre elas a linguagem operativa.
Nesse cenário, a linguagem utilizada nas operações conjuntas passou a ser gradativamente aperfeiçoada. Assim, jargões e expressões correntes dentro do ambiente de cada Força Singular passaram a ser gradativamente ajustadas para uma linguagem comum a todos os atores envolvidos no ambiente operacional. A fim de reforçar essa tese, no ano de 2007 o MD sentiu a necessidade de publicar a 4ª edição do “Glossário das Forças Armadas”, com a finalidade de facilitar o conhecimento de termos, palavras, vocábulos e expressões utilizadas na linguagem militar brasileira, que sejam de emprego comum a mais de uma Força Armada ou que, embora específicos de uma delas, a divulgação contribua para a maior integração das Forças Armadas, incrementando a interoperabilidade durante as operações militares (BRASIL, 2007).
Figura 7 - superando os dutos de informação Fonte: o autor.
No tocante à Atividade de Inteligência, as tabelas a seguir exemplificam algumas das diferenças na linguagem de Inteligência, atualmente em uso na Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), no Ministério da Defesa (MD), na Marinha do Brasil (MB), no Exército Brasileiro (EB) e na Força Aérea Brasileira (FAB):
Tabela 1 – Diferenças entre Terminologias de Inteligência Fonte: Escola de Inteligência Militar do Exército
Pedido para outra Agência de Inteligência
ABIN EB MD, MB e FAB
Pedido de Conhecimento Pedido de Busca Pedido de Inteligência
Avaliação de Dados – Julgamento da Fonte
ABIN EB MB e FAB
A – Idônea A – Inteiramente Idônea A – Idônea
B- Inidônea B – Normalmente Idônea B – Regularmente Idônea - C – Regularmente Idônea C – Regularmente Inidônea - D - Normalmente Inidônea D – Não pôde ser avaliada
- E – Inidônea -
- F – A idoneidade não pode ser
avaliada -
Avaliação de Dados – Julgamento do Conteúdo
ABIN EB MB e FAB
1 – Confirmado 1 – Confirmado por outras fontes 1 – Confirmado
2- Não confirmado 2 – Provavelmente verdadeiro 2 – Provavelmente verdadeiro - 3 – Possivelmente verdadeiro 3 – Duvidoso
- 4 - Duvidoso 4 – Não pôde ser atribuída
- 5 – Improvável -
- 6 – A veracidade não pode ser
avaliada -
Dessa forma, verifica-se que o estabelecimento de uma linguagem comum para a Atividade de Inteligência do SISBIN irá favorecer a interoperabilidade e, por consequência, a integração entre os seus diferentes órgãos componentes. Diferentes terminologias para o mesmo objeto podem induzir o Sistema a erros, comprometendo a credibilidade do SISBIN.
Portanto, sugere-se, neste ponto, a edição de um “Glossário de Termos de Inteligência para o SISBIN”, como mecanismo (ou estratégia) para aperfeiçoar essa integração.
3.5 INTERCÂMBIO ENTRE ESPECIALISTAS
Os especialistas dos órgãos de Inteligência, de forma frequente, sentem a necessidade de compartilhar informações e experiências entre si. Em geral, trocas de experiências relacionadas a sistemas informacionais, inovações tecnológicas, formação de recursos humanos, dentre outros, são aspectos que podem trazer resultados favoráveis ao desenvolvimento das potencialidades de cada órgão do SISBIN.
Dessa forma, visualiza-se que, a fim de dotar o SISBIN com a sinergia desejável, aspectos de ordem cultural das instituições também podem necessitar de adequações, facilitando o intercâmbio de experiências e a geração de ambiente de confiança. Nesse sentido, de acordo com Farah (2015), a confiança mútua entre os órgãos e agências de Inteligência consiste em existir confiança entre os órgãos e agências que participam do sistema, cultivada pela manutenção do sigilo e o emprego do conhecimento compartilhado de forma ética e isenta de influências político-partidárias ou interesses particulares, estabelecendo-se uma visão de Inteligência de Estado e não de governo.
3.6 ESCOLA DE FORMAÇÃO COMUM
A necessidade de acesso a cursos de formação comuns para os órgãos componentes do SISBIN foi mencionada por 15,10% dos especialistas consultados na fase da pesquisa de campo. O acesso a Estabelecimento de Ensino (EE) comum, segundo alguns pesquisados, poderia aperfeiçoar:
a. a doutrina de Inteligência;
b. a padronização no tratamento de documentos de Inteligência;
c. o conhecimento mútuo entre os profissionais de Inteligência, por intermédio de convivência diária e da troca de experiências;
d. o comprometimento;
e. a busca de soluções comuns e esclarecimentos de eventuais divergências; e f. o desenvolvimento da confiança mútua.
Conforme já foi apresentado, o SISBIN possui em sua constituição entidades de diversas naturezas. Assim, o acesso a uma Escola Comum de Inteligência é importante para o processo de integração, em particular para aquelas instituições que não possuem uma Escola de Inteligência em sua estrutura interna.
4 CONCLUSÃO
Os grandes eventos ocorridos no Brasil na última década e o incremento das operações em ambiente interagências resultaram em progressos expressivos para a Atividade de Inteligência. Os órgãos que compõem o Sistema Brasileiro de Inteligência vêm enfrentando desafios de vulto, dentre eles os de integração e os da atuação coordenada em um ambiente de ameaças difusas e de difícil predição.
Em síntese, a integração, embora necessária, não é tarefa simples. Requer a definição de objetivos estratégicos organizacionais bem concebidos, esforço, recursos humanos e materiais e fomento ao desenvolvimento de soluções adequadas e, principalmente, seguras.
Nesse contexto, a cooperação, a integração, a complementariedade, a legalidade, a adaptabilidade, a flexibilidade, a elasticidade, a modularidade e a unidade de esforços são alguns dos exemplos dos desafios que a realidade atual impõe aos profissionais de Inteligência. Assim, esta monografia buscou apresentar evidências de que, a despeito do êxito já alcançado, a integração deve ser vista como objetivo permanente.
Com relação aos óbices à mencionada integração, cumpre ressaltar que os integrantes das agências de Inteligência devem estar atentos para a busca constante da sinergia a ser praticada entre as instituições. Os diversos problemas levantados, aliados a questões de cultura organizacional de cada órgão, geram um quadro desfavorável caracterizado por uma relativa deficiência no requisito da confiança mútua.
Visando a propor ações para corrigir ou mitigar óbices ao desenvolvimento integrado da Atividade de Inteligência pelos componentes do SISBIN, foram estabelecidas possíveis estratégias. Para tanto, também foi conduzido um trabalho de campo junto a especialistas e integrantes de diversas instituições daquele Sistema. Dentre as estratégias propostas, o intercâmbio entre especialistas destacou-se, na pesquisa em pauta, como um dos aspectos mais relevantes para o incremento da integração entre os órgãos componentes do SISBIN. A partir da implementação de uma estratégia dessa natureza, uma série de óbices pode ter os seus efeitos danosos mitigados. Nesse contexto, aspectos relativos a compartilhamento efetivo de informações, padronização de sistemas informacionais, divulgação de inovações tecnológicas, contribuição para o estabelecimento de um ambiente de confiança mútua, entre outros, são todos solidificados quando há o mencionado intercâmbio de especialistas.
Pelo exposto, salienta-se que estão sendo apresentadas sugestões de estratégias organizacionais que podem vir a facilitar o referido processo de integração. Dessa forma, o fortalecimento da atuação do DISBIN, o estabelecimento de padrões tecnológicos comuns e
de uma linguagem comum para a Inteligência, assim como o acesso a uma escola de formação comum, também podem ser apontados como possíveis mecanismos para melhorar essa integração. Com isso, será possível ao SISBIN superar os atuais óbices, otimizar a explorar as oportunidades existentes e/ou potenciais, pois, conforme se observa, a integração entre os órgãos componentes do SISBIN é uma necessidade permanente.
REFERÊNCIAS
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