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Superior Tribunal de Justiça

RECURSO ESPECIAL Nº 1.698.855 - SP (2017/0200957-2)

RELATOR : MINISTRO HERMAN BENJAMIN

RECORRENTE : FAZENDA NACIONAL

RECORRIDO : LEANDRO JOSE CURYFOLO

ADVOGADO : TÂNIA MARIA ZUFELLATO - SP124556

EMENTA

PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. MANDADO DE SEGURANÇA IMPETRADO POR CREDOR TRABALHISTA CONTRA DECISÃO DO JUÍZO QUE, EM EXECUÇÃO FISCAL GARANTIDA POR PENHORA, DESCONSIDEROU A PENHORA NO ROSTO DOS AUTOS. CRÉDITO TRABALHISTA. PREFERÊNCIA.

1. Controverte-se a respeito do acórdão que julgou Mandado de Segurança impetrado contra decisão do juiz de primeiro grau, proferida nos autos da Execução Fiscal, na qual teria sido adotado o entendimento de desconsiderar a penhora no rosto dos autos, realizada por determinação da Justiça do Trabalho, acarretando a impossibilidade de credor trabalhista específico (in casu, o recorrido) satisfazer sua pretensão relativamente aos valores obtidos com a alienação de bem penhorado em Execução Fiscal movida contra o devedor comum.

2. O ato judicial combatido por meio da impetração teria consignado que o produto da alienação judicial não constituía bem do devedor, pois a quantia inscrita na CDA superava o valor da arrecadação, de modo que inexistiria crédito em seu favor, passível de constrição para garantia do juízo trabalhista. 3. O Tribunal de origem concedeu a Segurança, com base nos seguintes fundamentos: a) preliminarmente, é cabível o writ, com base na Súmula 202/STJ, porque o impetrante (ora recorrido), credor trabalhista, não é parte nos autos da Execução Fiscal e por essa razão não foi naqueles autos intimado do decisum que desconsiderou a penhora no rosto dos autos – considerou-se que a regra do art. 5º, II, da Lei 12.016/2009 incidiria somente se a parte impetrante tivesse sido intimada nos próprios autos da Execução Fiscal; e b) a regra do art. 186 do CTN assegura ao credor trabalhista preferência absoluta, independentemente de haver penhora sobre o mesmo bem que garante o juízo da Execução Fiscal, razão pela qual a invocação dos arts. 674 e 711 a 713 do CPC/1973 não interfere na solução da demanda.

4. A tese de violação dos arts. 449, caput e § 1º, do CPC/1973 e 5º, II, da Lei 12.016/2009 relaciona-se com a inadequação do Mandado de Segurança para atacar ato judicial.

5. O recurso, no ponto, é deficientemente fundamentado. Com efeito, o Tribunal de origem considerou admissível a impetração com base na Súmula 202/STJ ("a impetração de segurança por terceiro, contra ato judicial, não se condiciona à interposição de recurso"), afirmando expressamente que é cabível o writ contra decisão judicial quando se verifica que a parte impetrante não foi intimada do aludido ato nos próprios autos.

6. A ausência de impugnação a esse fundamento atrai a incidência da Súmula 283/STJ.

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7. Quanto ao mérito, o acórdão hostilizado segue a orientação do STJ. Com efeito, entende-se que a regra do art. 186 do CTN, ao estabelecer a preferência do crédito trabalhista sobre os demais, é de Direito Material, não cedendo espaço às normas processuais que disciplinam o concurso de credores. Nesse sentido: AgRg no REsp 1.491.126/RS, Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, DJe 19/12/2014; REsp 1.180.192/SC, Rel. Ministra Eliana Calmon, DJe 24/3/2010.

8. Recurso Especial parcialmente conhecido e, nessa parte, não provido.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos os autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da Segunda Turma do Superior Tribunal de Justiça: ""A Turma, por unanimidade, conheceu em parte do recurso e, nessa parte, negou-lhe provimento, nos termos do voto do(a) Sr(a). Ministro(a)-Relator(a)." Os Srs. Ministros Mauro Campbell Marques, Assusete Magalhães e Francisco Falcão (Presidente) votaram com o Sr. Ministro Relator.

Ausente, justificadamente, o Sr. Ministro Og Fernandes."

Brasília, 16 de novembro de 2017(data do julgamento).

MINISTRO HERMAN BENJAMIN Relator

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Superior Tribunal de Justiça

RECURSO ESPECIAL Nº 1.698.855 - SP (2017/0200957-2)

RELATOR : MINISTRO HERMAN BENJAMIN

RECORRENTE : FAZENDA NACIONAL

RECORRIDO : LEANDRO JOSE CURYFOLO

ADVOGADO : TÂNIA MARIA ZUFELLATO - SP124556

RELATÓRIO

O EXMO. SR. MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Relator):

Trata-se de Recurso Especial interposto, com fundamento no art. 105, III, "a", da Constituição da República, contra acórdão assim ementado:

MANDADO DE SEGURANÇA. DECISÃO QUE INDEFERIU A PREFERÊNCIA DO CRÉDITO TRABALHISTA DO IMPETRANTE NA EXECUÇÃO FISCAL ORIGINÁRIA. TERCEIRO PREJUDICADO. CABIMENTO DO WRIT . DOCUMENTOS NECESSÁRIOS ACOSTADOS. ARTIGO 186 DO CTN. VIOLAÇÃO. ORDEM CONCEDIDA.

- Mandado de segurança impetrado contra ato que indeferiu a preferência legal do crédito trabalhista ao valor da arrematação na ação de execução fiscal originária, ao fundamento de que o registro da penhora foi posterior.

- Prejudicados o agravo regimental e o pedido de reconsideração da União Federal, à vista do julgamento do mandamus.

- O Executivo fiscal originário (n° 0001825-6-.1995.8.26.0161), em curso na Vara da Fazenda Pública do foro em Diadema, é movido pela fazenda nacional contra Trorion S/A, no qual consta ainda como arrematante Continental Parafusos S/A e interessado Evangelista Soares da Silva. Assim, considerado que a autoridade está investida de competência federal delegada e que o impetrante não figura como parte ou interessado, é cabível a presente impetração, à luz da Súmula 202 do STJ (a impetração de segurança por terceiro, contra ato judicial, não se condiciona a interposição de recurso) e à vista de que não teve oportunidade de interpor o recurso cabível contra o ato impugnado, dado que dele não foi intimado, de modo que não incide a vedação do inciso II do artigo 5o da Lei n° 12.016/09 e a Súmula 267 do STF.

- O magistrado, especialmente à luz do disposto no CPC de 1973 (artigos 694 e 711), julgou inviável a incidência de outras penhoras sobre o mesmo bem - incluída a do impetrante - após a arrematação, e concluiu que o produto da venda deve ser inteiramente destinado à União, porquanto é insuficiente para saldar o crédito tributário.

- O entendimento adotado pela autoridade impetrada viola direito líquido e certo previsto no artigo 186 do CTN. O Superior Tribunal de Justiça tem jurisprudência assentada sobre o dispositivo em comento em situação idêntica à presente.

- A inviabilidade da realização de registros de penhora posteriores à arrematação, questão eminentemente processual que foi a razão

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de decidir do ato impugnado, não se confunde com o direito material de preferência do crédito trabalhista, nos termos do dispositivo do código tributário, que, conforme a corte superior, deve ser respeitado, independentemente de haver registro anterior da constrição e pode perfeitamente ser apresentado na fase de arrematação, a fim de que a distribuição do seu resultado observe a preferência disciplinada na norma do CTN.

- Declarados prejudicados o agravo regimental e o pedido de reconsideração da União, rejeitada a matéria preliminar, julgado procedente o mandamus e concedida a ordem.

Não foram opostos Embargos de Declaração.

Aponta a parte recorrente, além de divergência jurisprudencial, violação dos arts. 5º, II, da Lei 11.016/2009, 449, caput e § 1º, 711 e 713 do Código de Processo Civil/1973.

Sem contrarrazões. É o relatório.

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RECURSO ESPECIAL Nº 1.698.855 - SP (2017/0200957-2) VOTO

O EXMO. SR. MINISTRO HERMAN BENJAMIN (Relator): Os

autos ingressaram neste Gabinete em 23.9.2017.

Controverte-se a respeito do acórdão que julgou Mandado de Segurança impetrado contra decisão do juiz de primeiro grau, proferida nos autos da Execução Fiscal, na qual teria sido adotado o entendimento de desconsiderar a penhora no rosto dos autos, realizada por determinação da Justiça do Trabalho, acarretando a impossibilidade de credor trabalhista específico (in casu, o recorrido) satisfazer sua pretensão relativamente aos valores obtidos com a alienação de bem penhorado em Execução Fiscal movida contra o devedor comum.

O ato judicial impugnado teria consignado que o produto da alienação judicial não constituía bem do devedor, pois a quantia inscrita na CDA superava o valor da arrecadação, de modo que inexistiria crédito em seu favor, passível de constrição para garantia do juízo trabalhista.

O Tribunal de origem reformou esse entendimento, com base nos seguintes fundamentos: a) preliminarmente, considerou cabível o writ, com base na Súmula 202/STJ, porque o impetrante (ora recorrido), credor trabalhista, não é parte nos autos da Execução Fiscal e por essa razão não foi naqueles autos intimado do decisum que desconsiderou a penhora no rosto dos autos – considerou-se que a regra do art. 5º, II, da Lei 12.016/2009 incidiria se a parte impetrante tivesse sido intimada nos próprios autos da Execução Fiscal; e b) a regra do art. 186 do CTN assegura ao credor trabalhista preferência absoluta, independentemente de haver penhora sobre o mesmo bem que garante o juízo da Execução Fiscal, razão pela qual a invocação dos arts. 674 e 711 a 713 do CPC/1973 não interfere na solução da demanda.

Feito o esclarecimento acima, passa-se à análise da pretensão recursal. A tese de violação dos arts. 449, caput e § 1º, do CPC/1973 e 5º, II, da Lei 12.016/2009 relaciona-se com a inadequação do Mandado de Segurança para atacar ato judicial.

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O recurso, no ponto, é deficientemente fundamentado.

Com efeito, o Tribunal de origem considerou admissível a impetração com base na Súmula 202/STJ ("a impetração de segurança por terceiro, contra ato judicial, não se condiciona à interposição de recurso"), afirmando expressamente que é cabível o writ contra decisão judicial quando se verifica que a parte impetrante não foi intimada do aludido ato nos próprios autos.

A ausência de impugnação a esse fundamento atrai a incidência da Súmula 283/STJ.

Quanto ao mérito, o acórdão hostilizado segue a orientação do STJ. Com efeito, entende-se que a regra do art. 186 do CTN, ao estabelecer a preferência do crédito trabalhista sobre os demais, é de Direito Material, não cedendo espaço às normas processuais que disciplinam o concurso de credores. Nesse sentido:

PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. EXECUÇÃO FISCAL. ARREMATAÇÃO. REQUISIÇÃO DE NUMERÁRIO PARA SATISFAÇÃO DO CRÉDITO TRABALHISTA. PREFERÊNCIA DESTE EM FACE DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO.

1. Os créditos de natureza trabalhista preferem a todos os demais, inclusive os tributários (art. 186 do CTN), independentemente de penhora na respectiva execução" (AgRg no AREsp 236.428/SP, Rel. Ministro CASTRO MEIRA, SEGUNDA TURMA, julgado em 04/12/2012, DJe 04/02/2013).

2. Vale destacar que essa preferência independentemente da data em que registrada a penhora, pois não é possível sobrepor uma preferência de direito processual a uma de direito material como a do crédito trabalhista.

3. Assim, é possível ao detentor do crédito trabalhista, na fase de arrematação, havendo créditos a serem adimplidos, postular o reconhecimento do seu direito preferencial sobre o crédito obtido na alienação do bem penhorado.

4. Agravo regimental não provido (AgRg no REsp 1.491.126/RS, Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, DJe 19.12.2014).

RECURSO ESPECIAL. CRÉDITO TRABALHISTA. DIREITO DE PREFERÊNCIA. PENHORA. PRETENSÃO DO CREDOR TRABALHISTA DE LEVANTAR O PRODUTO DE ALIENAÇÃO DE BENS PENHORADOS EM EXECUÇÃO DE OUTRO CREDOR. POSSIBILIDADE.

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independentemente da existência de penhora na reclamação trabalhista.

2. Se em outra execução há alienação do bem penhorado, cede a preferência para atender ao credor trabalhista que goza da preferência das preferências.

3. A preferência de direito processual não tem a força para sobrepor-se à preferência de direito material. Precedentes.

4. Recurso especial conhecido, mas não provido (REsp 1.180.192/SC, Rel. Ministra Eliana Calmon, Segunda Turma, DJe 24.3.2010).

Registro, por último, que é despropositada a argumentação fazendária no sentido de discutir uma suposta diferença entre a penhora no "rosto dos autos" e o "concurso de credores".

Reconhecida a existência de pretensão relacionada à satisfação de crédito trabalhista, apresentada ao juízo da Execução Fiscal, está instaurado o concurso de credores, pouco importando discutir se tal formalidade é concretizada por meio de penhora no rosto dos autos ou de pedido de habilitação de crédito trabalhista na Execução Fiscal, em homenagem ao princípio da instrumentalidade das formas .

Com essas considerações, conheço parcialmente do Recurso Especial

para, nessa parte, negar-lhe provimento.

É como voto.

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CERTIDÃO DE JULGAMENTO SEGUNDA TURMA

Número Registro: 2017/0200957-2 REsp 1.698.855 / SP

Números Origem: 00009787920105150076 00018256019958260161 00285340720154030000 18256019958260161 201503000285342 22334925822015826000 285340720154030000 9500018251

PAUTA: 16/11/2017 JULGADO: 16/11/2017

Relator

Exmo. Sr. Ministro HERMAN BENJAMIN Presidente da Sessão

Exmo. Sr. Ministro FRANCISCO FALCÃO Subprocurador-Geral da República

Exmo. Sr. Dr. JOSÉ ELAERES MARQUES TEIXEIRA Secretária

Bela. VALÉRIA ALVIM DUSI

AUTUAÇÃO

RECORRENTE : FAZENDA NACIONAL

RECORRIDO : LEANDRO JOSE CURYFOLO

ADVOGADO : TÂNIA MARIA ZUFELLATO - SP124556

ASSUNTO: DIREITO TRIBUTÁRIO - Crédito Tributário

CERTIDÃO

Certifico que a egrégia SEGUNDA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na sessão realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão:

"A Turma, por unanimidade, conheceu em parte do recurso e, nessa parte, negou-lhe provimento, nos termos do voto do(a) Sr(a). Ministro(a)-Relator(a)."

Os Srs. Ministros Mauro Campbell Marques, Assusete Magalhães e Francisco Falcão (Presidente) votaram com o Sr. Ministro Relator.

Referências

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