4.1
Esperan¸ca
Certamente um dos conceitos mais conhecidos na teoria das probabilidade ´e a esperan¸ca de uma vari´avel aleat´oria, mas n˜ao com esse nome e sim com os nomes de m´edia ou valor esperado. Durante todo este estudo consideraremos X uma vari´avel aleat´oria qualquer com fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao FX.
Estender o conceito de centro de massa para distribui¸c˜oes mais gerais ´e poss´ıvel, embora conte com algumas sutilezas matem´aticas: n˜ao ´e claro que o centro de massa existir´a se X assumir infinitos valores, sejam estes enumer´aveis ou n˜ao.
Se, por exemplo,
P (X = x) = 6 π2x2,
para x = 1, 2,· · · temos que
µ = 6 π2 ∞ ∑ x=1 1 x =∞, isto seguindo o desenvolvimento no Exemplo 4.1.
Defini¸c˜ao 4.1. Suponha X uma vari´avel aleat´oria n˜ao negativa com fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao FX. A esperan¸ca, m´edia ou valor esperado de X, denotado
por E(X), ´e definido como E(X) =
∫ ∞
0
[1− FX(x)] dx, (4.1)
quando a integral esteja bem definida.
Observemos que uma vari´avel aleat´oria X ´e n˜ao negativa se X(w) ≥ 0, ∀w ∈ Ω. Nesta situa¸c˜ao FX(x) = 0, para todo x < 0. Ainda observamos que
E(X) = ∫ ∞ 0 [1− FX(x)] dx = ∫ ∞ 0 P (X > x) dx· (4.2) Na Defini¸c˜ao 4.1 com a frase quando a integral esteja bem definida que-remos dizer que a integral em (4.1) ou em (4.2) possa ser calculada, sendo o resultado finito ou n˜ao.
Teorema 4.1. Se a vari´avel aleat´oria X assume somente valores inteiros n˜ao negativos, ent˜ao
E(X) = ∞ ∑ n=0 P (X > n) = ∞ ∑ n=1 P (X ≥ n)· (4.3)
Demonstra¸c˜ao. Consideramos valores inteiros n˜ao negativos 1, 2, 3,· · · . Ent˜ao P (X > n) = P (X ≥ n + 1), portanto ∞ ∑ n=0 P (X > n) = ∞ ∑ n=0 P (X ≥ n + 1) = ∞ ∑ n=1 P (X ≥ n)·
Sabemos que no caso discreto a fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao pode ser escrita como Logo,
Exemplo 4.2. Dizemos que uma vari´avel aleat´oria tem distribui¸c˜ao uni-forme discreta nos primeiros N n´umeros naturais se
P (X = n) = 1
N, n = 1, 2,· · · , N·
Esta ´e uma situa¸c˜ao de vari´avel aleat´oria discreta positiva, ent˜ao
N ∑ n=1 P (X ≥ n) = 1 + P (X ≥ 2) + P (X ≥ 3) + · · · + P (X ≥ N) = 1 + N− 1 N + N − 2 N +· · · + 1 N = N N + N − 1 N + N − 2 N +· · · + 1 N· Do qual obtemos que E(X) = N + 1
2 .
Vamos agora fornecer uma forma n˜ao intuitiva de calcular o valor esperado para o caso de X geral.
Teorema 4.2. Seja X uma vari´avel aleat´oria definida integr´avel com fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao FX. Ent˜ao E(X) = ∫ ∞ 0 [1− FX(x)] dx− ∫ 0 −∞ FX(x) dx· (4.4)
Demonstra¸c˜ao. Caso a vari´avel aleat´oria assuma somente valores positivos, a express˜ao em (4.4) coincide com a express˜ao em (4.1) da defini¸c˜ao de es-peran¸ca de X.
Vejamos como calcular a integral em (4.4).
Teorema 4.3 (C´alculo da esperan¸ca no caso discreto). Seja X uma vari´avel aleat´oria discreta assumindo valores x1, x2,· · · com probabilidades p1, p2,· · · .
Ent˜ao a esperan¸ca de X calcula-se como E(X) = ∞ ∑ i=1 xiP (X = xi) = ∞ ∑ i=1 xipi, (4.5)
quando a s´erie ´e convergente.
Demonstra¸c˜ao. Sabemos que no caso discreto a fun¸c˜ao de distribui¸c˜ao pode ser escrita como
FX(x) = ∞
∑
i=1
piδ(x− xi)·
Este valor est´a bem definido quando a soma n˜ao depende da ordem dos termos, em particular quando a s´erie converge absolutamente, isto ´e, quando ∑∞
i=1|xi|P (X = xi) <∞.
Exemplo 4.3 (C´alculo da esperan¸ca no caso absolutamente cont´ınuo). Seja X uma vari´avel aleat´oria absolutamente cont´ınua, isto ´e, X tem fun¸c˜ao de
E(X) = ∫ ∞
−∞
xfX(x) dx, (4.6)
quando a integral ´e finita.
Teorema 4.4. Seja X uma vari´avel aleat´oria definida no espa¸co de probabi-lidade (Ω,F, P ). Suponhamos que o momento de X de ordem t exite. Ent˜ao existem os momentos de X de ordem 0 < s < t.
Demonstra¸c˜ao. Seja X uma vari´avel cont´ınua com fun¸c˜ao de densidade f (x). Temos ent˜ao E(|X|s) = ∫ {w∈Ω:|x|s≥1}|x|f(x) dx + ∫ {w∈Ω:|x|s>1}|x|f(x) dx ≤ P (|X|s ≤ 1) + E(|X|t) <∞·
Demonstra¸c˜ao similar pode ser realizada no caso de X discreta.
4.1.1
Propriedades da esperan¸ca
Teorema 4.5. Seja X uma vari´avel aleat´oria integr´avel que satisfaz P (X ≥ 0) = 1. Ent˜ao E(X)≥ 0.
Demonstra¸c˜ao. Exerc´ıcio.
Teorema 4.6. Seja X uma vari´avel aleat´oria. Se X = c, ou seja, X(ω) = c, para todo ω∈ Ω. Ent˜ao E(X) = c.
Esta propriedade pode ser traduzida de v´arias maneiras. Uma ´e que a esperan¸ca de uma constante ´e ela pr´opria ou que a esperan¸ca de uma vari´avel determin´ıstica (degenerada) ´e ela pr´opria.
Teorema 4.7. Sejam X e Y duas vari´aveis aleat´orias. Se X ≤ Y ent˜ao E(X)≤ E(Y ).
Demonstra¸c˜ao. Para esta propriedade ser v´alida basta que as esperan¸cas estejam bem definidas e, com isto, queremos dizer que alguma das esperan¸cas seja finita, ou E(X) =−∞ ou E(Y ) = +∞. Se Y ≤ z ent˜ao X ≤ z, logo
{ω ∈ Ω : Y (ω) ≤ z} ⊆ {ω ∈ Ω : X(ω) ≤ z}·
Portanto, FY(z) ≤ FX(z) e 1− FY(z) ≥ 1 − FX(z). Pela propriedade em
(4.4), E(Y ) = ∫ ∞ 0 [1− FY(z)] dz − ∫ 0 −∞ FY(z) dz ≥ ∫ ∞ 0 [1− FX(z)] dz − ∫ 0 −∞ FX(z) dz = E(X)·
Exemplo 4.4. Sejam X ∼ U(0, 1) e Y = min(X, 1/2), logo Y ≤ X. Ent˜ao
E(Y ) = ∫ y dFY(y) = ∫ 1/2 0 y.1 dy + ∫ 1 1/2 1 2P{Y = 1/2} dy = 1 8+ 1 2P{X ≥ 1/2} = 1 8+ 1 4 = 3 8 < 1 2 = E(X)·
Teorema 4.8. Se E(X) = 0 e P (X ≥ 0) = 1 ent˜ao P (X = 0) = 1.
A moda ´e outra caracter´ıstica num´erica das vari´aveis aleat´orias e define-se unicamente para distribui¸c˜oes discretas ou absolutamente cont´ınuas da seguinte forma.
Defini¸c˜ao 4.2 (Moda). A moda de una vari´avel aleat´oria ou de sua distri-bui¸c˜ao, discreta o absolutamente cont´ınua, ´e aquele ponto onde a fun¸c˜ao de densidade tem um m´aximo local.
Por exemplo, se X ´e una vari´avel aleat´oria discreta com valores x1 <
x2 < . . . com probabilidades respectivas p1, p2, . . . ent˜ao X tem uma moda
no ponto xk se pk−1 ≤ pk≥ pk+1. ´E evidente que podem existir v´arias modas
para uma mesma vari´avel aleat´oria. Quando a moda ´e ´unica se dize que a distribu¸c˜ao ´e unimodal, e quando h´a v´arias modas se dize que ´e multimodal.
4.2
Variˆ
ancia
Um valor central ´e importante por´em, pouco informa se n˜ao consideramos alguma medida de qu˜ao dispersos estiverem os valores da vari´avel ao redor dele. A utilidade do valor esperado, como uma previs˜ao para o resultado de um experimento, ´e maior quando o resultado n˜ao ´e prov´avel que se afaste demasiado do valor esperado. Nesta se¸c˜ao, vamos introduzir uma medida deste desvio, chamado variˆancia. Ent˜ao, a variˆancia de uma vari´avel aleat´oria ´e uma medida do grau de dispers˜ao dos diferentes valores assumidos pela vari´avel. Sua defini¸c˜ao ´e a seguinte.
Se E(Xn) existe para algum inteiro positivo n, chamaremos E(Xn) o
n-´esimo momento de X na origem. Se E|Xα| < ∞ para algum n´umero real
positivo α, o α-´esimo momento absoluto de X ser´a calculado como E|X|α.
Utilizaremos a seguinte nota¸c˜ao
mn= E(Xn)
e
βα = E(|X|α)·
Defini¸c˜ao 4.3. Sejam k um n´umero inteiro positivo e c uma constante. Se a esperan¸ca E(X−c)kexiste o chamaremos de momento de ordem k no ponto c.
Escolhendo c = E(X) = µ, o qual existe dado que E|X|k <∞, chamaremos
E(X−µ)k o momento central do ordem k ou momento de ordem k na m´edia.
Escrevemos
µk= E(X − µ)k· (4.7)
Se conhecermos os coeficientes m1,· · · , mk podemos calcular µ1,· · · , µk
e reciprocamente. Temos que µk = E(X− µ)k = mk− ( k 1 ) µmk−1+ ( k 2 ) µ2mk−2− · · · + (−1)kµk e mk = E(X− µ + µ)k= µk+ ( k 1 ) µµk−1+ ( k 2 ) µ2µ k−2+ µk
Defini¸c˜ao 4.4 (Variˆancia). A variˆancia de uma vari´avel aleat´oria X, deno-tada por Var(X), define-se como a esperan¸ca a seguir, caso exista,
Var(X) = E{[X − E(X)2]}· (4.8)
Observemos que se E(X2) existe, a variˆancia ´e momento de ordem 2 na
m´edia.
Quando X ´e discreta com fun¸c˜ao de probabilidade P (X) e esperan¸ca finita µ a variˆancia de X, quando existe, se calcula como
Var(X) =∑
x
(x− µ)2P (X = x)·
Se X ´e absolutamente cont´ınua com fun¸c˜ao de densidade f (x) e esperan¸ca finita µ, ent˜ao a variˆancia de X, quando existe, ´e calculada como
Var(X) = ∫ ∞
−∞
(x− µ)2f (x) dx·
Observemos que, para qualquer vari´avel aleat´oria X, temos que Var{X} ≥ 0. A variˆancia denota-se regularmente pelo s´ımbolo σ2. `A raiz quadrada positiva
de Var(X) se le conhece como desvio padr˜ao e se denota por σ. Novamente h´a situa¸c˜oes nas quais a variˆancia n˜ao ´e finita, e nestas situa¸c˜oes se disse que a vari´avel aleat´oria n˜ao tem variˆancia. Observe que para calcular a variˆancia ´e necess´ario conhecer primeiro a esperan¸ca. Uma observa¸c˜ao tamb´em ´e que, em geral, Var(X + Y )̸= Var(X) + Var(Y ). Para ver isto, podemos escolher Y = X, com Var(X)̸= 0 e verificamos a n˜ao igualdade.
Teorema 4.9. Seja X uma vari´avel aleat´oria tal que E(X2) seja finita.
Ent˜ao
Var(X) = E(X2)− E2(X)·
Demonstra¸c˜ao. Observemos que
Exemplo 4.5. Seja X uma vari´avel aleat´oria com fun¸c˜ao de probabilidade Bernoulli(θ). Encontremos Var(X). Sabemos que E(X) = θ, ent˜ao devemos calcular E(X2).
E(X2) = 02P (X = 0) + 12P (X = 1) = θ, logo E(X2) = θ e, portanto, Var(X) = θ− θ2 = θ(1− θ).
4.2.1
Propriedades da variˆ
ancia
Teorema 4.10. Seja X uma vari´avel aleat´oria constante, isto ´e, X = c sendo c uma constante real qualquer. Ent˜ao Var(X) = 0.
Demonstra¸c˜ao. Sabemos que E(X) = c, ent˜ao
Var(X) = E[(X − c)2] = E(0) = 0·
Teorema 4.11. Seja X uma vari´avel aleat´oria qualquer. Ent˜ao, para todo a, b∈ R, temos que Var(X + b) = Var(X) e Var(aX + b) = a2Var(X).
Demonstra¸c˜ao. Sabemos que E(aX + b) = a E(X) + b, ent˜ao
Var(aX + b) = E[aX + b− a E(X) − b]2 = E{a2[X − E(X)]2}
= a2Var(X)·
Exemplo 4.6. Assumiremos que E|X|2 <∞ e definamos
Z = X√− E(X) Var(X) =
X− µ σ ·
Percebemos ent˜ao que E(Z) = 0 e Var(Z) = 1. Chamaremos Z de vari´avel aleat´oria padronizada.
Teorema 4.12. Seja X uma vari´avel aleat´oria qualquer. Ent˜ao Var(X)≤ E(X− c)2, para qualquer c̸= E(X).
Demonstra¸c˜ao. Temos que