ALYCIA CARDOSO BRASIL
EFETIVIDADE DA LEI MARIA DA PENHA:
ANÁLISE PROCESSUAL DA APLICABILIDADE DAS MEDIDAS PROTETIVAS DE URGÊNCIA NA COMARCA DE IMARUÍ/SC
Tubarão 2020
ALYCIA CARDOSO BRASIL
EFETIVIDADE DA LEI MARIA DA PENHA:
ANÁLISE PROCESSUAL DA APLICABILIDADE DAS MEDIDAS PROTETIVAS DE URGÊNCIA NA COMARCA DE IMARUÍ/SC
Monografia apresentada ao Curso de Direito da Universidade do Sul de Santa Catarina como requisito parcial à obtenção do título de Bacharel em Direito.
Linha de pesquisa: Justiça e Sociedade
Orientador: Prof. Silvio Roberto Lisboa, Esp.
Tubarão 2020
Dedico o presente trabalho monográfico às mulheres vítimas de violência doméstica, em especial aquelas que residem no município de Imaruí.
AGRADECIMENTOS
Em primeiro lugar, agradeço a Deus por me dar capacidade de passar por mais essa etapa.
Aos meus pais, Wilza e Rodinei, que me deram a oportunidade de realizar esse curso e sempre me encorajaram a seguir meus sonhos. Essa conquista também é de vocês. Obrigada por me trazerem um exemplo de persistência e força, pelo apoio incondicional e pelo incentivo nas horas mais difíceis.
Ao meu irmão, Afonso, que me proporciona os diálogos mais reflexivos e me inspira muito a ser sempre melhor. Também à minha cunhada, Adirlana, por disponibilizar seu tempo para colaborar com essa pesquisa.
Ao meu namorado, Vinícius, pelo companheirismo em cada etapa e por acreditar que eu seria capaz de ultrapassar cada obstáculo que me foi apresentado. Também ao seu primo Renan, que compartilhou seu conhecimento e contribuiu muito com a pesquisa.
Aos amigos que fiz durante o curso por transformarem os momentos de angústia em calmaria, por todo apoio nesse momento tão especial da minha formação acadêmica e pelas trocas de experiência. Quero levá-los para vida.
Ao meu primeiro orientador, professor Moisés Schimitz, por quem tenho muito carinho, e que fez parte da fase do projeto, pelos aprendizados e pela amizade.
Ao meu orientador, professor Silvio Lisboa, que acreditou em meu projeto, prontamente aceitou tal função e a desempenhou com dedicação, indicando o melhor caminho à pesquisa.
Ao professor Leonel pelo auxílio na elaboração da pesquisa e, mais ainda, na complexa fase de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisas com Seres Humanos.
À doutora Cíntia Ranzi Arnt, por me permitir a realização da pesquisa e ir além ao me proporcionar todo suporte necessário, mesmo em tempos atípicos, além de estar engajada em mudar a realidade da Comarca.
À doutora Eliane Cardoso de Albuquerque, que tenho o prazer de chamar de madrinha, pelas correções, ensinamentos e incentivos.
No dia em que for possível à mulher amar em sua força, não em sua fraqueza, não para fugir de si mesma, mas para se encontrar, não para se demitir mas para se afirmar, nesse dia o amor tornar-se-á para ela, como para o homem, fonte de vida e não de perigo mortal (Simone de Beavouir).
RESUMO
O presente trabalho monográfico possui como objetivo geral analisar a efetividade e aplicação das medidas protetivas de urgência previstas na Lei Maria da Penha durante os anos de 2017 e 2018 na Comarca de Imaruí/SC. A natureza da pesquisa quanto ao nível foi descritiva, no tocante à abordagem foi quantitativa e qualitativa. Os procedimentos utilizados para a coleta de dados foram: bibliográfico, documental e de levantamento de dados. A técnica de pesquisa eleita se constituiu na realização de coleta de dados no Sistema de Automação da Justiça (SAJ) do Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina e em questionário à magistrada da Comarca de Imaruí. Foram analisados 67 (sessenta e sete) processos de Violência Doméstica que tramitaram na Comarca de Imaruí/SC, nos anos de 2017 e 2018, por meio de formulário para catalogação documental criado pela autora. Foram excluídos os processos em que não houve a aplicação de Medidas Protetivas de Urgência. O questionário aplicado à magistrada seguiu o roteiro criado também pela autora. Com a análise dos dados, concluiu-se pela parcial efetividade na aplicação de medidas protetivas de urgência na Comarca de Imaruí, bem como, pela possibilidade de se solucionar os problemas encontrados na referida Comarca através da implementação de programas assistenciais.
ABSTRACT
The objective of this study is to analyze the effectiveness and application of emergency protective measures provided for the Maria da Penha Law during the years 2017 and 2018 on the county of Imaruí/SC. The nature of the research as to the level was descriptive quantitative and qualitative approach. The method used for data collection were: bibliographic, documentary and data collection research. The research technique was consisted on data collection on the System of Automation of Justice (SAJ) of Justice’s Court of the State of Santa Catarina and questioning the magistrate of the county of Imaruí/SC. 67 (sixty-seven) Domestic Violence in the county of Imaruí/SC, in the years 2017 and 2018, were analyzed using a form for documentary cataloging created by the author. Proceedings in which there was no application of Emergency Protective Measures were excluded. The questionnaire applied to the magistrate followed the script created also by the author. The analysis of the data concludes by the partial effectiveness in the application of emergency protective measures in the county of Imaruí/SC, as well as, the possibility of solving the problems found in that county, through the implementation of assistance programs.
LISTA DE GRÁFICOS
Gráfico 1: Parentesco 2017... 49
Gráfico 2: Parentesco 2018... 50
Gráfico 3: Parentesco 2017-2018 ... 50
Gráfico 4: Fatos comunicados em 2017 ... 51
Gráfico 5: Fatos comunicados em 2018 ... 51
Gráfico 6: Fatos comunicados 2017-2018 ... 51
Gráfico 7: Medidas protetivas aplicadas 2017-2018 ... 52
Gráfico 8: Medidas aplicadas em 2017 ... 53
Gráfico 9: Medidas aplicadas em 2018 ... 53
Gráfico 10: Motivo do arquivamento 2017-2018 ... 54
LISTA DE PAINEIS
Painel 1: Varas e Juizados Exclusivos de Violência Doméstica contra a Mulher em 21/03/2020 no país ... 40 Painel 2: Varas e Juizados Exclusivos de Violência Doméstica contra a Mulher em 21/03/2020 em Santa Catarina ... 40
LISTA DE TABELAS
Tabela 1- quantidade de processos ... 48 Tabela 2 - quantidade de processos em 2017 e 2018 ... 49
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 13
1.1 DESCRIÇÃO DA SITUAÇÃO PROBLEMA ... 13
1.2 FORMULAÇÃO DO PROBLEMA ... 15
1.3 DEFINIÇÃO DOS CONCEITOS OPERACIONAIS ... 15
1.4 JUSTIFICATIVA ... 16
1.5 OBJETIVOS ... 17
1.5.1 Objetivo geral ... 17
1.5.2 Objetivos específicos ... 17
1.6 DELINEAMENTO DE PESQUISA ... 17
1.7 DESENVOLVIMENTO DO TRABALHO: ESTRUTURA DOS CAPÍTULOS ... 18
2 A LEI MARIA DA PENHA ... 19
2.1 CONTEXTO HISTÓRICO DA LEI ... 19
2.2 FORMAS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA ... 21
2.2.1 Violência física ... 21 2.2.2 Violência psicológica ... 22 2.2.3 Violência sexual ... 24 2.2.4 Violência patrimonial ... 25 2.2.5 Violência moral ... 26 2.3 ÂMBITO DE INCIDÊNCIA ... 27 2.3.1 Unidade doméstica ... 28 2.3.2 Família... ... 28
2.3.3 Relação íntima de afeto ... 29
2.4 DAS MEDIDAS PROTETIVAS DE URGÊNCIA ... 30
2.4.1 Das medidas protetivas que obrigam o agressor ... 31
2.4.2 Das medidas protetivas de urgência à ofendida ... 34
2.4.3 Descumprimento... 36
3 DO JUIZADO DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E DOS PROGRAMAS DE COMBATE À VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER ... 37
3.1 JUIZADO DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR CONTRA A MULHER ... 37
3.1.1 LACUNA DA LEI: CRIAÇÃO DA JURISDIÇÃO ESPECIAL ... 39
3.2 PROGRAMAS DE ENFRENTAMENTO DA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER EM SANTA CATARINA ... 42
3.2.1 Rede Catarina de proteção à mulher ... 42
3.2.2 Polícia Civil por ela ... 43
3.2.3 Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) e Centros Especializados de Referência de Assistência Social (CREAS) ... 43
3.2.4 Centro de Referência de Atendimento às Mulheres ... 45
3.2.5 Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (CEVID) ... 45
4 EFETIVIDADE DA LEI MARIA DA PENHA: ANÁLISE PROCESSUAL DA APLICABILIDADE DAS MEDIDAS PROTETIVAS DE URGÊNCIA NA COMARCA DE IMARUÍ/SC ... 47
4.1 CARACTERIZAÇÃO DO LÓCUS DA PESQUISA ... 47
4.2 ANÁLISE DA APLICABILIDADE DAS MEDIDAS PROTETIVAS DE URGÊNCIA NA COMARCA DE IMARUÍ/SC ... 48
4.3 ENTREVISTA COM A MAGISTRADA: PROGRAMAS ASSISTENCIAIS E CAPACITAÇÃO DOS FUNCIONÁRIOS ... 55
4.4 IMPLEMENTAÇÕES NA COMARCA DE IMARUÍ/SC ... 58
5 CONCLUSÃO ... 60
REFERÊNCIAS ... 63
APÊNDICES ... 68
APÊNDICE A – DECLARAÇÃO DE CIÊNCIA E CONCORDÂNCIA DAS INSTITUIÇÕES ENVOLVIDAS ... 69
APÊNDICE B – DECLARAÇÃO DOS PESQUISADORES ... 71
APÊNDICE C – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO ... 72
APÊNDICE D – PARECER CONSUBSTANCIADO DO CEP ... 76
APÊNDICE E – ALTERAÇÃO DO PESQUISADOR RESPONSÁVEL ... 81
APÊNDICE F – INSTRUMENTO DE COLETA DE DADOS – FORMULÁRIO ... 84
APÊNDICE G – INSTRUMENTO DE COLETA DE DADOS – ROTEIRO DE ENTREVISTA ... 86
1 INTRODUÇÃO
O presente trabalho monográfico tem por objetivo analisar a efetividade da Lei Maria da Penha, através da verificação da aplicação das medidas protetivas de urgência na Comarca de Imaruí/SC, sob a ótica da problemática da não criação do Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, identificar alguns fatores relacionados a vítima e ao agressor, o nível de reincidência e, ainda, obter respostas quanto ao tema em questionário aplicado à magistrada da referida Comarca.
1.1 DESCRIÇÃO DA SITUAÇÃO PROBLEMA
Historicamente, a violência doméstica contra mulheres ocorre desde as civilizações antigas, isso porque há uma fundamentação em valores patriarcais, os quais trazem a ideia de que a condição de gênero impõe direitos e deveres diferentes às mulheres e aos homens.
Esta cultura também está enraizada no Brasil, onde a violência contra a mulher, pela simples condição de ser mulher, tem uma grande fundamentação em valores patriarcais que servem de alicerce para uma relação de dominação e superioridade (BLAY, 2014).
Os primeiros movimentos feministas que questionavam as desigualdades relacionadas ao gênero no Brasil tiveram uma estrita ligação com a ditadura dos anos 1964-1985, e significaram o ingresso das mulheres no espaço público como sujeitos políticos. Em uma segunda fase, a mobilização das mulheres no Brasil teve como sujeito a “mulher trabalhadora” que discutiu a discriminação no mercado de trabalho. A unicidade dos movimentos feministas teve fim na década de 1980, quando subdivisões foram criadas, dentre elas a discussão sobre a violência de gênero (RAMOS, 2017).
Mas foi no ano de 2006 que tais movimentos alcançaram uma mudança significativa no Brasil com a promulgação da lei que tem como objetivo principal o combate à violência doméstica. A Lei nº 11.340 (BRASIL, 2006) foi criada após dezenove anos de luta em busca de justiça por Maria da Penha Maia Fernandes, uma vítima de violência doméstica que usou sua experiência para a conquista de direitos, o que levou à alteração do cenário brasileiro no combate à violência.
Amplamente elogiada, nacional e internacionalmente, a Lei Maria da Penha, como é conhecida, foi um grande marco no avanço do direito das mulheres e possui em seu texto a previsão de meios não apenas punitivos, mas também preventivos para esses casos.
Entre as formas de proteção previstas na lei estão as medidas protetivas de urgência, aplicadas às mulheres em situação de violência doméstica, que visam a coibição e prevenção.
Quando há a necessidade de sua aplicação, o pedido de medidas protetivas de urgência é remetido ao juízo, com prazo para análise de 48 (quarenta e oito) horas. Independentemente disso, será instaurado um inquérito policial, remetido também ao juízo em até 10 dias. Além das medidas requeridas pela vítima ou Ministério Público, pode o juiz de ofício aplicar outras que julgar necessárias e, ao magistrado, é também facultado a possibilidade de incluir a vítima em programas assistenciais (DIAS, 2015).
As medidas protetivas previstas na Lei nº 11.340 dividem-se em: medidas protetivas de urgência que obrigam o agressor, que são aquelas que proíbem a realização de determinadas condutas, presentes em seu artigo 22 e; as medidas protetivas de urgência à ofendida, que são aquelas que visam à proteção da vítima, elencadas nos artigos 23 e 24. (BRASIL, 2006).
Távora e Alencar, (2017, p. 937) assim as definem:
Estas são medidas administrativas visando a proteção da mulher, de cunho nitidamente cautelar, com caráter obrigacional, imprimindo uma série de imposições ao agressor, como afastamento do lar, proibição de aproximação da ofendida, implemento de alimentos provisórios ou provisionais etc.
A lei prevê, ainda, em seu artigo 14, a criação de juizados especializados para os processos decorrentes de violência doméstica, nomeando-os de Juizado de Violência Doméstica contra a Mulher, com competência cível e criminal, a fim de processar, julgar e executar as causas desse gênero, in verbis:
Art. 14. Os Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, órgãos da Justiça Ordinária com competência cível e criminal, poderão ser criados pela União, no Distrito Federal e nos Territórios, e pelos Estados, para o processo, o julgamento e a execução das causas decorrentes da prática de violência doméstica e familiar contra a mulher.
Parágrafo único. Os atos processuais poderão realizar-se em horário noturno, conforme dispuserem as normas de organização judiciária. (BRASIL, 2006). A criação desses juizados representa o reconhecimento de que os procedimentos relacionados à violência doméstica se diferem em muito dos procedimentos comuns e necessitam de profissionais capacitados que entendam as peculiaridades dos casos.
Ocorre que, atualmente, completados treze anos da promulgação da supracitada lei, há ainda uma grande lacuna entre o que está positivado e a sua aplicação de fato, isso porque os Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher ainda se concentram apenas em centros urbanos.
Nas Comarcas em que não existe a jurisdição especializada, as varas criminais e cíveis cumulam a competência comum com a dos casos de violência doméstica. Sobre o tema Luciane
Bortoleto, Juíza de Direito do Tribunal de Justiça do Paraná e Assessora da Comissão Permanente de Acesso à Justiça e Cidadania do Conselho Nacional de Justiça, entende que:
A abordagem das causas e o tratamento dispensado às partes requer trabalho bastante específico e diferenciado, o que uma vara com outras competências não consegue atender, pois desde o magistrado, o servidor da Secretaria, até aquele que integra as equipes técnicas multidisciplinares, todos devem estar sensibilizados e capacitados para entender o fenômeno da violência doméstica e familiar, não apenas para a resolução dos casos concretos, mas também para compreender que a violência familiar é grande, se não o maior, gerador da espiral de violência social. (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2013, p. 24).
Desse modo, é possível visualizar uma grande problemática em relação a efetividade da Lei Maria da Penha, haja vista que os mecanismos de combate à violência que estão previstos dependem em grande parte da criação desses juizados.
É de conhecimento público que o município de Imaruí, localizado no interior de Santa Catarina, ainda não possui todos os instrumentos preventivos e punitivos contra violência doméstica, dentre eles a implantação do juizado especializado, bem como se sabe que essa forma de violência ainda está presente na realidade de muitas mulheres, desse modo é inegável o interesse pelo estudo dessa realidade.
1.2 FORMULAÇÃO DO PROBLEMA
A aplicação das medidas protetivas de urgência, previstas na Lei Maria da Penha durante os anos de 2017 e 2018 na Comarca de Imaruí/SC, foram efetivas?
1.3 DEFINIÇÃO DOS CONCEITOS OPERACIONAIS
Efetividade das Medidas Protetivas de Urgência: para fins desta pesquisa, serão
classificadas como efetivas as medidas protetivas de urgência que cumprirem o seu papel, isto é, assegurar a proteção da mulher em situação de violência doméstica. Serão considerados indicadores de efetividade as medidas que, ao serem aplicadas, asseguram a proteção da vítima, não havendo prática de novos crimes, ou seja, não ocorreu a aplicação de outras medidas protetivas contra o mesmo agressor (reincidência), ainda que não tenham acontecido nos anos em que se fará a análise ou contra a mesma vítima. Serão analisados também quais medidas estão sendo aplicadas.
1.4 JUSTIFICATIVA
O interesse pelo tema surgiu, primeiramente, durante a realização, pela autora, de estágio não obrigatório no Tribunal de Justiça de Santa Catarina, especificamente na Comarca de Imaruí/SC, quando obtive um maior conhecimento da forma de aplicação da Lei nº 11.340/06 nos casos encontrados nessa unidade do Tribunal.
Verificou-se, nesse período, que na Comarca de Imaruí/SC não foi criado o Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, bem como a inexistência de institutos de atendimento à vítima, surgiu então um grande questionamento sobre a efetividade da Lei Maria da Penha diante dessas circunstâncias.
É de suma importância discutir o tema da violência doméstica, principalmente em municípios em que ainda se mantêm pensamentos conservadores e valores patriarcais, maiores fatores associados ao acontecimento dessa forma de violência, tendo por objetivo a visualização das medidas necessárias para que essa realidade seja alterada.
Esta análise permitirá tomar conhecimento da realidade prática da lei, que pode viabilizar o combate à violência doméstica. Contribui não somente com a comunidade acadêmica, mas também com o município em que será realizado o estudo, haja vista que abrirá um espaço para futuras discussões e eventuais melhorias na aplicabilidade da lei.
Ademais, nas pesquisas acerca do tema efetuadas nas bases de dados da SCIELO, CAPES e BDTD, além do repositório institucional de monografias da UNISUL, não se logrou êxito em encontrar trabalhos realizados sobre a Comarca de Imaruí/SC quanto ao tema violência doméstica. Quanto à abordagem da efetividade das medidas protetivas, encontrou-se a dissertação realizada por Dias (2014) na base de dados BDTD, com o título: A Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher e a Efetividade da Lei Maria da Penha na Justiça: uma análise da aplicação das medidas protetivas de urgência na cidade de Imperatriz-MA, assemelhando-se na abordagem temática com o do presente trabalho e diferenciando-se quanto à problemática apresentada, pois foi aplicada a pesquisa em outro contexto. Na plataforma RIUNI foi encontrado, em pesquisa do ano de 2019, alguns trabalhos de análise de medidas protetivas de urgência (FERREIRA, 2019; HASSAN, 2019; SCHMITZ, 2019). Na base de dados SCIELO não foram encontrados artigos relacionados a efetividade e medidas protetivas, em pesquisa por medidas protetivas de urgência também não se obteve êxito em encontrar.
Justifica-se, portanto, em função da relevância do projeto para o meio acadêmico e profissional, por sua inovação na abordagem, e por possibilitar o conhecimento da efetividade da Lei Maria da Penha em uma Comarca interiorana, que por muitas vezes não possui o mesmo
enfoque de um município localizado no meio urbano, apesar de apresentar níveis semelhantes (ou ainda maiores) de violência.
1.5 OBJETIVOS
1.5.1 Objetivo geral
Analisar a efetividade e aplicação das medidas protetivas de urgência previstas na Lei Maria da Penha durante os anos de 2017 e 2018 na Comarca de Imaruí/SC.
1.5.2 Objetivos específicos
Apresentar um breve histórico e contexto dos fatos que levaram a criação da Lei Maria da Penha, descrevendo a luta feminina por direitos igualitários.
Enunciar as medidas protetivas previstas na Lei Maria da Penha.
Identificar a problemática da não criação do Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher em municípios interioranos.
Analisar a reincidência dos agressores na prática de violência doméstica na Comarca de Imaruí/SC, bem como identificar as medidas protetivas aplicadas e reconhecer alguns dos fatores relacionados à vítima e ao agressor.
Conhecer através de questionário aplicado à magistrada titular da Vara Única da Comarca de Imaruí/SC respostas quanto à efetividade das medidas protetivas de urgência, aos programas assistenciais aplicados, bem como quanto à capacitação dos funcionários da referida Comarca.
1.6 DELINEAMENTO DE PESQUISA
A classificação da pesquisa quanto ao nível é descritiva, haja vista que possui “[...] finalidade de identificar possíveis relações entre variáveis” (GIL, 2019, p. 26). Quanto à
abordagem caracteriza-se por ser de natureza quantitativa e qualitativa, uma vez que se
pretende levantar os dados das medidas protetivas aplicadas na Comarca de Imaruí/SC, a efetividade destas e aplicar questionário à magistrada, dessa forma realizar contato indireto e contato direto com seres humanos. Os dados da pesquisa qualitativa serão coletados no Sistema de Automação da Justiça (SAJ) do Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina e, para tanto,
será solicitado acesso por meio de login e senha disponibilizados pela Juíza da Comarca de Imaruí/SC. O uso do sistema será exclusivamente para a coleta de dados da pesquisa.
Quanto ao procedimento utilizado para coleta de dados caracteriza-se pela natureza documental, tendo em vista a análise de processos, conforme Gil (2019, p. 29) “[...]
recomenda-se que seja considerada fonte documental quando o material consultado é interno à organização [...]”. Serão analisados 67 processos de Violência Doméstica que tramitaram na Comarca de Imaruí/SC nos anos de 2017 e 2018. Serão excluídos os processos em que não foram aplicadas Medidas Protetivas de Urgência.
Será utilizado também o levantamento de campo, através de entrevista com a
magistrada. Conforme conceituam Marcomim e Leonel (2015, p. 20) “este tipo de pesquisa leva o pesquisador a questionar diretamente os pesquisados acerca do foco da pesquisa”.
Serão utilizados dois meios para coleta de dados: para pesquisa documental será utilizado um formulário para catalogação documental (Apêndice F) e para a pesquisa de levantamento de campo será aplicado questionário à magistrada da Comarca (roteiro no Apêndice G).
Por fim, quanto ao procedimento, utilizar-se–á também o bibliográfico para conceituações e historicização, com pesquisa em livros e bases de dados.
1.7 DESENVOLVIMENTO DO TRABALHO: ESTRUTURA DOS CAPÍTULOS
Além desta introdução, o presente trabalho apresentará no segundo capítulo um breve histórico sobre a criação da Lei Maria da Penha e discorrerá sobre as formas de violência doméstica, os âmbitos de incidência e as medidas protetivas de urgência previstas na referida lei.
O terceiro capítulo abordará os Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher e ainda os programas de enfrentamento da violência contra a mulher existentes em Santa Catarina.
Já no quarto capítulo, expôs-se a apresentação e discussão dos resultados obtidos e, no quinto e último capítulo, tem-se a conclusão.
2 A LEI MARIA DA PENHA
A Lei nº 11.340/06, popularmente conhecida como Lei Maria da Penha, sancionada em 7 de agosto de 2006, criou mecanismos para prevenir e coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, em conformidade com a Constituição Federal (art. 226, § 8°) (BRASIL, 1998) e os tratados internacionais ratificados pelo Estado brasileiro (Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres e da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher), dispôs sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, alterou o Código de Processo Penal, Código Penal e a Lei de Execução Penal, além de outras providências (BRASIL, 2006).
2.1 CONTEXTO HISTÓRICO DA LEI
A Lei nº 11.340/06 representa a luta das mulheres por uma vida sem violência, em especial a luta de Maria da Penha Maia Fernandes, homenageada com a referida lei batizada em seu nome, a qual usou de sua experiência em situação de violência doméstica para garantir que a impunidade não mais ocorreria no Brasil.
Maria da Penha Maia Fernandes é farmacêutica e bioquímica, formou-se na Faculdade de Farmácia e Bioquímica da Universidade Federal do Ceará em 1966 e é Mestre em Parasitologia em Análises Clínicas pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo, em 1977. Ela, inclusive, conheceu seu agressor enquanto realizava o curso de mestrado, um colombiano estudante de pós-graduação em economia na mesma instituição, com quem iniciou um relacionamento amoroso (INSTITUTO MARIA DA PENHA, 2020).
No ano de 1976 Maria da Penha se casou, com o término do mestrado o casal mudou-se para Fortaleza, onde estabeleceram sua família com o nascimento de suas três filhas. A partir da naturalização do seu agressor, devido à constituição de uma família no Brasil, aquele que até então se demonstrava prestativo e atencioso, a partir da sua estabilidade no país, profissional e economicamente, começou a ser agressivo e intolerante (FERNANDES, 2012).
Além das inúmeras agressões de que Maria da Penha foi vítima, em duas oportunidades seu esposo tentou matá-la. Em sua primeira tentativa, no ano de 1983, o agressor deu um tiro em suas costas enquanto dormia ao simular um assalto e, como resultado, Maria da Penha ficou paraplégica. (DIAS, 2019). Após quatro meses hospitalizada, o agressor manteve Maria da Penha em cárcere privado por quinze dias, período em que realizou nova tentativa de homicídio, dessa vez tentou eletrocutá-la durante o banho (FERNANDES, 2012).
Em vista dos fatos, Maria da Penha compreendeu que se encontrava em um ciclo de violência. Com a ajuda de familiares e amigos, conseguiu sair de casa, quando iniciou, então, sua luta por justiça.
As investigações começaram em junho de 1983, ofertada a denúncia pelo Ministério Público apenas em 1984. Em 1991, o réu foi condenado pelo tribunal de júri a oito anos de prisão, com o direito de recorrer em liberdade, o que o fez; e, após um ano, o julgamento foi anulado. Novamente no ano de 1996, sob novo júri popular, o réu foi condenado a dez anos e seis meses de prisão, recorreu em liberdade; e só dezenove anos e seis meses após os fatos, em 2002, foi preso, e cumpriu apenas dois anos de prisão (DIAS, 2019).
Mesmo diante de toda fragilidade advinda das agressões sofridas e do desânimo perante a impunidade de seu agressor, Maria da Penha manteve-se firme na luta, e chegou a escrever um livro onde relata sua história, publicado no ano de 1994, com o título: “Sobrevivi... posso contar”.
A repercussão da história de violência doméstica vivida por Maria da Penha, e sua luta por justiça sem êxito, foi tão significativa, que o Centro pela Justiça e o Direito Internacional – CEJIL, em parceria com o Comitê- Latino Americano do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher- CLADEM, realizou uma denúncia para a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos – OEA. Diante disso, a Comissão solicitou informações ao Estado brasileiro por quatro vezes, mas não recebeu qualquer resposta (DIAS, 2019).
Em 2001, o Brasil foi condenado internacionalmente, por negligência, omissão e tolerância à situação de violência doméstica em que se encontravam muitas das mulheres brasileiras. O relatório da OEA (Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos) determinou reparações à vítima Maria da Penha, com o pagamento de uma indenização; que se concluísse de forma célere e efetiva o processo penal em desfavor de seu agressor; que se responsabilizasse as irregularidades que tivessem impedido a efetividade do processo penal; além de determinar uma reparação simbólica à vítima (INSTITUTO MARIA DA PENHA, 2020; DIAS, 2019).
Além das medidas direcionadas à Maria da Penha, houve recomendações ao Estado para melhoria da sua forma de tratar os casos de violência doméstica:
Prosseguir e intensificar o processo de reforma que evite a tolerância estatal e o tratamento discriminatório com respeito à violência doméstica contra mulheres no Brasil. A Comissão recomenda particularmente o seguinte: a) Medidas de capacitação e sensibilização dos funcionários judiciais e policiais especializados para que compreendam a importância de não tolerar a violência doméstica; b) Simplificar os procedimentos judiciais penais a fim de que possa ser reduzido o tempo processual,
sem afetar os direitos e garantias de devido processo; c) O estabelecimento de formas alternativas às judiciais, rápidas e efetivas de solução de conflitos intrafamiliares, bem como de sensibilização com respeito à sua gravidade e às consequências penais que gera; d) Multiplicar o número de delegacias policiais especiais para a defesa dos direitos da mulher e dotá-las dos recursos especiais necessários à efetiva tramitação e investigação de todas as denúncias de violência doméstica, bem como prestar apoio ao Ministério Público na preparação de seus informes judiciais; e) Incluir em seus planos pedagógicos unidades curriculares destinadas à compreensão da importância do respeito à mulher e a seus direitos reconhecidos na Convenção de Belém do Pará, bem como ao manejo dos conflitos intrafamiliares (INSTITUTO MARIA DA PENHA, 2020).
Nesse momento, o Estado brasileiro precisou criar medidas para o enfrentamento dessa forma de violência, visto que as leis até então adotadas não supriam tal necessidade, qual seja a de considerar a violência doméstica uma forma de violência relacionada ao gênero.
Diante disso, no ano de 2002, foi formado um consórcio de ONGs (Organizações não Governamentais) Feministas a fim de elaborar uma lei para o combate da violência doméstica.
O projeto de lei, sob a coordenação da Secretaria Especial de Políticas para as mulheres, foi enviado em 2004 ao Congresso Nacional, onde foram realizadas alterações pelo Senado Federal, e, por fim, foi sancionada pelo Presidente da República, em 07 de agosto de 2006 a Lei nº 11.340/06 que entrou em vigor em 22 de setembro de 2006 (DIAS, 2019). A referida lei foi considerada pela Organização das Nações Unidas (ONU) umas das três mais avançadas do mundo (INSTITUTO MARIA DA PENHA, 2019).
2.2 FORMAS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA
O artigo 7º da Lei nº 11.340/06 (BRASIL, 2006) elenca formas de violência doméstica. No entanto, difere-se do direito penal onde o rol de delitos é taxativo, referida lei apresenta um rol exemplificativo, portanto, poderá haver o reconhecimento de outros delitos, ainda que não estejam presentes na lei supracitada.
2.2.1 Violência física
A violência física é a primeira forma de violência apresentada pela Lei Maria da Penha: “Art. 7º [...] I - a violência física, entendida como qualquer conduta que ofenda sua integridade ou saúde corporal” (BRASIL, 2006).
Dias (2019, p. 79) explica que “ainda que a violência não deixe marcas aparentes, o uso da força física que ofenda o corpo ou a saúde constitui vis corporalis, expressão que define a violência física”.
Embora inexista elementos comprobatórios de que ocorreu a lesão corporal, a palavra da vítima basta para que sejam aplicadas as Medidas Protetivas de Urgência de acordo com o enunciado 45 do Fórum Nacional de Juízes da Violência Doméstica (FONAVID)1, assim ocorrerá a inversão do ônus da prova e caberá ao acusado comprovar que as agressões não aconteceram. Neste sentido, Feix (2011, p. 220) afirma que:
[...] marcas deixadas no corpo não são requisitos para configuração desse tipo de violência, entendida como toda a forma de utilização da força física que ofenda o corpo ou a saúde da mulher agredida. Nesse sentido, a violência física continuada, mesmo que mais sutilmente empregada (sem marcas), pode gerar transtornos psicológicos que promovem o aparecimento de enfermidades psicossomáticas e oportunistas decorrentes de baixas imunidades. Muitas enfermidades estão sendo hoje associadas com baixa autoestima e sentimentos de desvalia, raiva e não gestão das emoções, tais como dores e fadiga crônicas e também o câncer.
Portanto, além das agressões que não deixam marcas, é necessário considerar aquelas que surgem pelos transtornos causados pela violência.
Importante compreender o motivo pelo qual ocorre a violência física na situação de gênero, trata-se de prática cultural para afirmação de autoridade, que utiliza de castigos físicos a fim de perpetuar uma posição de poder (FEIX, 2011).
A Lei nº 10.886/2004 acrescentou ao artigo 129 do Código Penal (BRASIL, 1940), que versa sobre lesão corporal, a seguinte redação: “§ 9o Se a lesão for praticada contra ascendente, descendente, irmão, cônjuge ou companheiro, ou com quem conviva ou tenha convivido, ou, ainda, prevalecendo-se o agente das relações domésticas, de coabitação ou de hospitalidade” (BRASIL, 2004). Com a promulgação da Lei Maria da Penha não houve mudanças na descrição do tipo penal, mas apenas a ampliação na interpretação do termo “relações domésticas”, que incluiu qualquer relação de afeto (DIAS, 2019).
A Lei Maria da Penha (BRASIL, 2006), foi omissa quanto à violência física que ocorre de forma culposa, desse modo somente poderá ser punida a que ocorrer de forma dolosa.
2.2.2 Violência psicológica
A segunda forma de violência prevista pela Lei Maria da Penha (BRASIL, 2006), é a violência psicológica, ou seja, aquela que fere a autoestima e a saúde psicológica da vítima.
Art. 7º [...]
II - a violência psicológica, entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da autoestima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno
1 ENUNCIADO 45: As medidas protetivas de urgência previstas na Lei 11.340/2006 podem ser deferidas de forma autônoma, apenas com base na palavra da vítima, quando ausentes outros elementos probantes nos autos. (APROVADO no IX FONAVID – Natal).
desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, violação de sua intimidade, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação. A violência psicológica utiliza-se de três estratégias: submissão pelo medo, desqualificação da imagem e bloqueio das formas de sair (GÓNGORA apud DIAS, 2019).
Essa forma de violência está intimamente relacionada às demais, e sua justificativa encontra-se no desejo do agressor em impedir a mulher de exercer sua autonomia de vontade, ou seja, sua livre escolha e independência em relação ao agressor, perdendo assim valores fundamentais que caracterizam sua condição de sujeito de direito (FEIX, 2011).
Há críticas doutrinárias quanto a previsão dessa forma de violência, devido sua amplitude, no entanto, aqueles que criticam a necessidade dessa previsão não compreendem o contexto histórico e cultural que torna indispensável o tratamento diferenciado às mulheres, em especial as que se encontram em situação de violência doméstica. A sociedade patriarcal contribui para que as mulheres sejam objetificadas, sujeitas ao poder masculino, e dessa forma, a desigualdade favorece o cenário da violência (DIAS, 2019).
A violência psicológica é uma das mais recorrentes e provavelmente a menos denunciada, visto que é difícil até mesmo para a vítima perceber que se encontra sob essa forma de violência, já que não constata o aumento gradual das agressões verbais, ameaças, silêncios prolongados, tensões e manipulações. O termo gaslighting explica a manipulação que ocorre na violência psicológica em que o agressor distorce, omite ou simplesmente inventa fatos de forma a controlar a vítima, anulando-a, gerando dúvidas sobre seus próprios sentimentos, sua sanidade e sua percepção. Assim a vítima deixa de confiar em si mesma, e passa, cada vez mais, a depender do seu agressor; consequentemente, permanece presa nessa situação. Em muitos casos, a vítima acaba por se isolar de outros meios sociais, afasta-se de amigos e familiares (DIAS, 2019).
Uma nova prática de violência é a chamada revenge porn, quando o agressor divulga em redes sociais ou outras mídias fotos, vídeos ou conversas íntimas obtidas durante a relação afetiva com a vítima, caracterizando, assim, violência psicológica diante da violação da intimidade, passível de indenização (DIAS, 2019).
Nesta forma de violência não há marcas exteriores, portanto, faz-se ainda mais necessária a credibilidade na palavra da vítima. Destaca-se, ainda, a sua dificuldade em reconhecer a violência que está sofrendo e obter coragem para denunciá-la.
2.2.3 Violência sexual
A Lei nº 11.340/06 prevê, em seu inciso III essa forma de violência: Art. 7º [...]
III - a violência sexual, entendida como qualquer conduta que a constranja a presenciar, a manter ou a participar de relação sexual não desejada, mediante intimidação, ameaça, coação ou uso da força; que a induza a comercializar ou a utilizar, de qualquer modo, a sua sexualidade, que a impeça de usar qualquer método contraceptivo ou que a force ao matrimônio, à gravidez, ao aborto ou à prostituição, mediante coação, chantagem, suborno ou manipulação; ou que limite ou anule o exercício de seus direitos sexuais e reprodutivos (BRASIL, 2006)
Historicamente há uma resistência em admitir que essa forma de violência ocorre dentro do âmbito familiar, isso porque se entende a atividade sexual como uma das obrigações do casamento, utiliza-se inclusive a expressão “débito conjugal”, como se a mulher tivesse o dever de se submeter aos desejos sexuais de seu companheiro (DIAS, 2019).
Desse modo, com intuito de manter o matrimônio, haja vista que era possível anteriormente a anulação desse por falta de contato sexual, o crime de estupro pelo marido não era reconhecido, sob o irracional argumento de que se tratava do exercício regular de um direito advindo do casamento. Destarte, a exigência desse “direito” podia ser realizada com o uso da força. Outro termo igualmente inadequado, que também era utilizado, é o de “legítima defesa da honra”, que vem de encontro com a dignidade da pessoa humana (DIAS, 2019).
O desrespeito à liberdade da mulher em escolher ética e moralmente, de expressar sua vontade, traz a naturalização do uso da força a fim de obrigá-la que faça aquilo que o seu par quer. Feix (2011, p. 222) argumenta que é “Como se o “sim” dito no cartório, no altar, no bar ou no motel impusesse à mulher um consentimento permanente, inquestionável, infalível, irretratável”.
Importante ressaltar que impedir o uso de métodos contraceptivos também configura violência sexual, e está relacionado a outro estereótipo criado pela sociedade: “toda mulher nasceu para ser mãe”. Assim, forçar a mulher à reprodução, seja por ato sexual ou impedimento de métodos contraceptivos, é violência doméstica e violação aos direitos humanos (FEIX, 2011).
Foram necessárias muitas mudanças para tentar combater os estereótipos que existem sobre a mulher, inclusive na linguagem da legislação, com a alteração da designação dos crimes sexuais antes denominados “crimes contra os costumes” para “crimes contra a dignidade sexual” (FEIX, 2011). O título IV da Parte Especial do Código Penal, elenca as formas de violência sexual (BRASIL, 1940).
Os crimes sexuais trazem grande risco à saúde da mulher, por esse motivo a Lei Maria da Penha assegura à vítima o acesso às contracepções de emergência e profilaxia das doenças sexualmente transmissíveis. A previsão se encontra no artigo 9º da Lei nº 11.340/06 (BRASIL, 2006). O objetivo dessas providências é evitar uma gravidez indesejada, provinda de uma relação sem consentimento. Neste sentido, a Lei nº 9.263/1996 (BRASIL, 1996b), conhecida como Lei do Planejamento Familiar, assegura os métodos contraceptivos através do Sistema Único de Saúde (SUS), e inclui o aborto para os casos de estupro, independentemente de autorização judicial (DIAS, 2019).
Tendo em vista a gravidade deste delito e a urgência das providências a serem tomadas, ressalta-se novamente a necessidade da credibilidade na palavra da vítima, além da quebra dos estereótipos acima mencionados, a fim de garantir o acesso aos tratamentos já previstos em lei.
2.2.4 Violência patrimonial
Em seu inciso IV artigo 7º a Lei Maria da Penha define a violência patrimonial como “[...] qualquer conduta que configure retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades” (BRASIL, 2006).
A violência patrimonial está prevista no Código Penal no título II, Delitos Contra o Patrimônio (BRASIL, 1940). Após a Lei Maria da Penha, foi reconhecido também como espécie de violência doméstica, não sendo alteradas a tipologia e as disposições materiais, mas havendo ampliações no rol de condutas desse crime. A violência patrimonial tem como núcleo três condutas: subtrair, destruir e reter. Cabe ainda destacar que o objetivo desta forma de violência é atingir a vítima, não havendo importância o valor do objeto, portanto, o princípio da bagatela não é aplicado nesses casos, conforme entendimento jurisprudencial (DIAS, 2019). Essa forma de violência reforça a cultura de submissão da mulher, atinge sua autonomia econômica e a torna ainda mais dependente do agressor. Conforme Feix (2011, p. 224):
A retenção, subtração ou destruição de bens, ainda que parcial, e o impedimento a sua utilização enfraquecem e a colocam em situação de vulnerabilidade, atingindo diretamente a segurança e dignidade, pela redução ou impedimento da capacidade de tomar decisões independentes e livres, podendo ainda alimentar outras formas de dependência como a psicológica.
Grande parte da população ainda é educada tendo o homem como provedor do sustento familiar, onde ele é visto como chefe da família e administrador dos recursos financeiros. Desse modo, mantêm-se a condição de domínio e pode haver chantagens para que a vontade masculina seja feita, permanecendo a situação desigual entre gêneros (BIANCHINI, 2016).
Faz-se necessário quebrar estes paradigmas e empoderar cada vez mais a independência feminina, a fim de evitar que essa forma de violência continue a ocorrer.
Nos casos de violência patrimonial em que a vítima é mulher com quem o agressor possui vínculo afetivo, não se aplicam as imunidades previstas nos artigos 181 e 182 do Código Penal (BRASIL, 1940), isso pois não se pode admitir o afastamento da pena nestes casos. O Estatuto do Idoso prevê ainda para estes casos que, se a vítima possua mais de 60 anos, não será necessário a representação (BRASIL, 2003b). O Código Penal em seu artigo 61, inciso II, alínea f, (BRASIL, 1940) prevê o agravamento da pena para violência patrimonial ocorrida no âmbito doméstico ou de relações de afeto (DIAS, 2019).
Outra prática prevista na esfera da violência patrimonial contra a mulher, está descrita no artigo 244 do Código Penal (BRASIL, 1940). Dias (2019, p. 90) assim define “deixar o alimentante de atender a obrigação alimentar, quando dispõe de condições econômicas, além de violência patrimonial, a omissão tipifica o delito de abandono material”. Para que se configure tal prática, não se faz necessário que os alimentos estejam fixados judicialmente, basta que o cônjuge se omita em prestar a subsistência da mulher durante a vida em comum, enquanto essa não possua condições para gerir seu próprio sustento.
A Lei Maria da Penha considerou ainda os objetos adquiridos pelo casal durante a relação, respeitada as exceções da lei, como de ambas as partes, com a adoção de medidas preventivas para no caso de violência doméstica resguardar os bens patrimoniais em comum, o que possibilita, por exemplo, a proibição temporária para compra, venda e locação dos bens comuns, suspensão de procuração concedida pela vítima e restituição dos bens subtraídos pelo agressor (FEIX, 2011).
2.2.5 Violência moral
A previsão dessa forma de violência tem por objetivo proteger a honra da vítima, de modo que estão previstos os delitos de calúnia, difamação e injúria, in verbis: “Art. 7º [...]: V - a violência moral, entendida como qualquer conduta que configure calúnia, difamação ou injúria” (BRASIL, 2006).
Dias (2019, p. 91), conceitua que:
Na calúnia, o fato atribuído pelo ofensor à vítima é definido como crime. Na injúria não há imputação de fato determinado, mas na difamação ocorre a atribuição de fato ofensivo à reputação da vítima. A calúnia e a difamação atingem a honra objetiva; a injúria atinge a honra subjetiva. A calúnia e a difamação consumam-se quando terceiros tomam conhecimento da afirmativa, a injúria consuma-se quando o próprio ofendido toma conhecimento da imputação.
No Código Penal estes crimes estão previstos no título V – Delitos Contra a Honra, com previsão de agravamento da pena quando perpetrados contra mulheres no âmbito do vínculo familiar ou afetivo (BRASIL, 1940).
A violência moral se relaciona fortemente com a violência psicológica, e traz efeitos ainda mais amplos, considerando que no caso da calúnia e difamação a imagem da vítima é denegrida perante terceiros. Feix (2011, p. 226) afirma que “apresentada na forma de desqualificação, inferiorização ou ridicularização, a violência moral contra a mulher no âmbito das relações de gênero sempre é uma afronta à autoestima e ao reconhecimento social”.
Com o surgimento de novas tecnologias essa forma de violência tem alcançado novos patamares e, assim, é necessário que o direito se atente aos novos padrões de violência. Ocorre atualmente a divulgação de ofensas pelo meio virtual em uma dimensão muito maior e de difícil combate, tal conduta fortalece a desigualdade de gênero e propaga a discriminação, que tem por propósito anular a condição de sujeito das mulheres (FEIX, 2011).
Na sentença penal condenatória poderá o juiz fixar, independentemente de provas, reparação ao dano moral causado (DIAS, 2019).
2.3 ÂMBITO DE INCIDÊNCIA
A Convenção Interamericana para Prevenir, Punir, e Erradicar a Violência Contra a Mulher (“Convenção do Belém do Pará”) define a violência contra a mulher como: “[...] qualquer ação ou conduta, baseada no gênero, que cause morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher tanto no âmbito público como no âmbito privado” (BRASIL, 1996a).
Este conceito serviu de norte para o legislador definir meios de combater a violência contra a mulher. A Lei Maria da Penha vai além da violência relacionada ao gênero e cria proteção também à entidade familiar ao mencionar em seu texto a violência doméstica. Há críticas à amplitude do conceito de violência dado pela lei, no entanto, é preciso entender que não será considerado violência doméstica qualquer violência praticada contra a mulher, mas somente aquelas praticadas em razão da convivência familiar ou relações afetivas. Dessa forma, para se obter o conceito de violência doméstica é necessária a interpretação dos artigos 5º e 7º da Lei Maria da Penha, conjuntamente, dessa maneira, violência doméstica é a prática de qualquer dos delitos previstos no artigo 7º da Lei Maria da Penha, contra a mulher em razão do vínculo familiar ou afetivo (DIAS, 2019).
O artigo 5º da Lei Maria da Penha prevê em seus incisos I, II, e III, os espaços em que podem ocorrer a violência doméstica (BRASIL, 2006).
2.3.1 Unidade doméstica
A Lei Maria da Penha define a unidade doméstica como “[...] o espaço de convívio permanente de pessoas, com ou sem vínculo familiar, inclusive as esporadicamente agregadas” (BRASIL, 2006).
Bianchini (2016, p. 35) destaca três pontos quanto a esse dispositivo:
a) unidade doméstica: de acordo com a Lei, representa o espaço de convívio permanente de pessoas, não abrangendo, por exemplo, a mulher que foi fazer uma visita (amiga de um dos familiares) ou fazer entrega domiciliar de algum produto; b) não se exige o vínculo familiar (tal exigência aparece no inciso seguinte); c) abarca as pessoas esporadicamente agregadas: incluem‐se, assim, as mulheres tuteladas, curateladas, sobrinhas, enteadas e irmãs unilaterais.
Havia questionamentos quanto à aplicação da Lei Maria da Penha nos casos de violência contra empregada doméstica, nesse sentido, a doutrina majoritária entende que é possível a aplicação da referida lei. Para Bianchini (2016, p. 37) a Lei complementar 150/2015 (BRASIL, 2015) deixou claro a possibilidade da aplicação da Lei Maria da Penha nesses casos, ao prever em seu artigo 27, parágrafo único, VII, a possibilidade de rescisão do contrato por culpa do empregador, quando esse praticar qualquer conduta prevista no artigo 7º da Lei Maria da Penha (BRASIL, 2006).
2.3.2 Família
O inciso II do artigo 5º da Lei nº 11.340/06 define o âmbito da família como: “[...]a comunidade formada por indivíduos que são ou se consideram aparentados, unidos por laços naturais, por afinidade ou por vontade expressa” (BRASIL, 2006).
O conceito de família passou por muitas transformações, tendo em vista a necessidade de uma visão plural das estruturas familiares, e passou então a inserir nesse conceito o termo “vínculos afetivos”, abandonou-se o modelo patriarcal de definição de família, e dessa forma se deu mais amplitude ao conceito (DIAS, 2019).
A própria Constituição possui conceito abrangente quanto à família, nesse sentido Paulo Lôbo (2002 apud DIAS, 2019, p. 58) afirma que:
[...] A interpretação de uma norma ampla não pode suprimir de seus efeitos situações e tipos comuns, restringindo direitos subjetivos. A referência constitucional é norma
de inclusão, que não permite deixar ao desabrigo do conceito de família – que dispõe de um conceito plural- a entidade familiar homoafetiva.
Ressalta-se que o que identifica a família é a sua origem, ou seja, o vínculo afetivo, e é preciso lembrar que estão inseridas nesse conceito famílias LGBTI (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e intersexuais). Por haver grande discriminação com essas pessoas, por muito não foram reconhecidas como família, e desse modo não estavam protegidas pela Lei Maria da Penha, não havendo explicações sensatas para que não sejam reconhecidos seus direitos. Porém, tal impasse foi vencido pela jurisprudência e pela própria lei, que em seu parágrafo único afirma que as previsões da lei “[...] independem de orientação sexual” (BRASIL, 2006). Houve ainda julgamento do Supremo Tribunal Federal, com efeito vinculante, que reconheceu as relações homoafetivas como família e Resolução do Conselho Nacional de Justiça para aplicação das previsões da Lei nº 11.340/06 nesses casos, não havendo mais o que se questionar quanto à aplicação da Lei Maria da Penha e o reconhecimento dessas famílias (DIAS, 2019).
Outra relação que merece reconhecimento são as relações paralelas, ou relações concomitantes, como são conhecidas, pois caracterizam unidade familiar e merecem assim proteção. Alice Bianchini (2011, p. 45), afirma “havendo uma relação de namorados, ex‐ namorados, ainda que sem coabitação, aplica‐se a Lei Maria da Penha. O mesmo se dá para a relação entre amantes. Nessas situações, o que a Lei Maria da Penha exige é uma relação íntima de afeto”.
2.3.3 Relação íntima de afeto
O inciso III do artigo 5º da Lei nº 11.340/06 traz a previsão da relação íntima de afeto “na qual o agressor conviva ou tenha convivido com a ofendida, independentemente de coabitação” (BRASIL, 2006).
Diante dessa previsão, não mais pode haver limitações quanto à abrangência da Lei Maria da Penha. O tempo de duração do relacionamento, o lapso temporal entre o rompimento e a violência, a convivência em uma mesma casa, não mais importam, basta comprovar que a violência ocorreu devido à relação de afeto que as partes possuem ou possuíram, é necessário esse nexo entre a violência e a relação afetiva. Com essa previsão, até mesmo as relações que fogem do conceito de família passam a ter a proteção da Lei Maria da Penha (DIAS, 2019).
A Lei Maria da Penha passou a ser aplicada nas situações de namoro a partir do caso do goleiro Bruno, que em 2010 matou a modelo Eliza Samudio, isso porque a vítima registrou ocorrência na Delegacia da Mulher e, posteriormente, a magistrada não reconheceu a
competência do Juizado de Violência Doméstica, alegando que o casal não possuía uma relação estável. Hoje, considera-se qualquer relação afetiva, mesmo que passageira, para a aplicação da Lei Maria da Penha, desde que haja um nexo causal entre a relação e a agressão, há inclusive entendimento do Superior Tribunal de Justiça quanto à competência do Juizado de Violência Doméstica para estes casos (DIAS, 2019).
2.4 DAS MEDIDAS PROTETIVAS DE URGÊNCIA
A fim de garantir a efetividade do objetivo da Lei Maria da Penha, essa elenca um rol de medidas que asseguram à mulher o direito a uma vida sem violência, através da detenção do agressor e da garantia da segurança pessoal e patrimonial à vítima e sua prole. O dever de garantir tais medidas deixou de ser unicamente da polícia e passou a ser também do juiz e do Ministério Público, desse modo, todos devem agir conjuntamente e de forma eficiente para que seja alcançado o propósito da lei. Tais medidas não se encontram em apenas alguns artigos, estão na verdade espalhadas por toda lei e são todas voltadas à proteção da mulher vítima de violência (DIAS, 2019).
As medidas protetivas de urgência serão aplicadas apenas quando solicitadas pela vítima e dependem, assim, de sua vontade e iniciativa. A partir da sua solicitação o juiz poderá aplicar as medidas que entender necessárias ao caso (DIAS, 2019).
A Lei nº 13.827/2019 alterou a Lei Maria da Penha e trouxe a possibilidade de aplicação de medidas protetivas pelo delegado de polícia nos casos em que o município não for sede da Comarca e, ainda, quando não houver delegado de polícia disponível no momento da denúncia, possibilita a aplicação das medidas por outro policial. Nesses casos, o juiz será comunicado das medidas aplicadas no prazo de 24 (vinte e quatro) horas, com prazo igual para decidir entre manter ou revogar tais medidas (BRASIL, 2019).
Importante ressaltar que as medidas protetivas podem ser aplicadas em qualquer fase do processo e que podem ser requeridas ainda em processos cíveis, iniciados pela vítima ou pelo Ministério Público, com origem na violência doméstica. O juiz poderá nesses casos, determinar a aplicação de medidas de proteção à vítima e seus familiares, em especial quando há crianças envolvidas (DIAS, 2019).
As medidas protetivas foram uma das principais inovações da Lei Maria da Penha, pois trazem um aumento no sistema de prevenção e combate à violência, e proporciona, ao magistrado, uma gama maior de possibilidades a serem aplicadas de acordo com cada caso. Destaca-se ainda que a referida lei possui em seus dispositivos diversas naturezas jurídicas, o
que possibilita ao magistrado atuar em diversas áreas para garantir a proteção da mulher (BIANCHINI, 2016).
A Lei nº 11.340/06 prevê ainda a possibilidade de, a qualquer momento, serem alteradas as medidas protetivas para outras que se entenderem cabíveis ao caso, podem ser a requerimento da vítima ou ainda a requerimento do Ministério Público (Art. 18, III, e art. 19 e § 3º), a fim de garantir sua efetividade. O artigo 22, § 3º, prevê a possibilidade de requisitar auxílio à força policial pelo juiz, e o artigo 20 dispõe sobre a faculdade do magistrado de decretar a prisão preventiva do agressor de ofício, ou a requerimento do Ministério Público ou por representação da autoridade policial (DIAS, 2019).
A Lei Maria da Penha possui um capítulo para previsão das medidas protetivas, como antes mencionado, esse é um rol exemplificativo, ou seja, há a possibilidade de aplicação de medidas que não estejam previstas na lei. O artigo 22 da referida lei traz as medidas protetivas que obrigam o agressor, bem como a seção III traz as medidas protetivas de urgência à ofendida (DIAS, 2019).
2.4.1 Das medidas protetivas que obrigam o agressor
O artigo 22 da Lei Maria da Penha prevê as medidas protetivas que obrigam o agressor, conforme segue:
Art. 22. Constatada a prática de violência doméstica e familiar contra a mulher, nos termos desta Lei, o juiz poderá aplicar, de imediato, ao agressor, em conjunto ou separadamente, as seguintes medidas protetivas de urgência, entre outras:
I - suspensão da posse ou restrição do porte de armas, com comunicação ao órgão competente, nos termos da Lei nº 10.826, de 22 de dezembro de 2003 ;
II - afastamento do lar, domicílio ou local de convivência com a ofendida; III - proibição de determinadas condutas, entre as quais:
a) aproximação da ofendida, de seus familiares e das testemunhas, fixando o limite mínimo de distância entre estes e o agressor;
b) contato com a ofendida, seus familiares e testemunhas por qualquer meio de comunicação;
c) frequentação de determinados lugares a fim de preservar a integridade física e psicológica da ofendida;
IV - restrição ou suspensão de visitas aos dependentes menores, ouvida a equipe de atendimento multidisciplinar ou serviço similar;
V - prestação de alimentos provisionais ou provisórios.
VI – comparecimento do agressor a programas de recuperação e reeducação; e (Incluído pela Lei nº 13.984, de 2020)
VII – acompanhamento psicossocial do agressor, por meio de atendimento individual e/ou em grupo de apoio. (Incluído pela Lei nº 13.984, de 2020)
[...] (BRASIL, 2006)
Um dos grandes marcos do início da aplicação da Lei Maria da Penha foi a inclusão das medidas protetivas de urgência que obrigam o agressor. Tais medidas podem ser aplicadas em qualquer fase do processo, conforme já mencionado, e tem por objetivo assegurar a eficácia
desse, ao garantir segurança à mulher e seus familiares, para que se possa romper o ciclo da violência. O rol de medidas foi elaborado pelo legislador com base no conhecimento das atitudes costumeiras dos agressores e que tornam a denúncia difícil para vítima (BELLOQUE, 2011).
Tendo em vista que a violência doméstica ocorre, em sua maioria, dentro do lar, onde residem o agressor, a vítima e demais integrantes da família, geralmente o primeiro se aproveita dessa situação de convivência para amedrontar a vítima e, assim, impede que essa denuncie as agressões às autoridades. Esse cenário contribui para naturalização dessa forma de violência e a vítima passa a aceitá-la, com a finalidade de manter sua família(BELLOQUE, 2011).
Quanto ao tema Wallauer (2019) defende que:
[...] para quebrar o ciclo de violência, a gente precisa constantemente repensar o nosso conceito de família. Ampliar o conceito de família, para que uma mulher sozinha, com três filhos, cuidando com amor e afeto, represente tudo que o valor de família significa, em sua completude, sem faltar nada; e para que uma família onde uma criança seja criada assistindo violência todos os dias, sempre com medo e sempre insegura, seja uma traição a este valor [...]
O rol de medidas protetivas não é exaustivo, ou seja, podem ser aplicadas outras medidas previstas em lei, quando forem necessárias para a proteção da vítima, conforme já mencionado. Existe ainda a possibilidade de se aplicar simultaneamente mais de uma medida protetiva, desde que seja a forma mais adequada a garantir a efetividade da lei. Destaca-se ainda que toda decisão pelo magistrado deverá ser motivada, com justificação expressa (BELLOQUE, 2011).
A primeira medida prevista, dentre as que obrigam o agressor, é a de suspensão ou
restrição da posse de arma, essencial para a proteção da vítima. Cunha (2015 apud DIAS,
2019, p. 168) explica que:
Suspender tem o sentido de privar temporariamente a utilização da arma. Pode o juiz, com efeito, determinar que no curso do processo o agente seja proibido de portar arma de fogo [...] restringir tem acepção de limitar. Assim, pode o juiz, por exemplo, determinar que um policial porte a sua arma apenas no serviço, deixando-a em seu local de trabalho no final da jornada, evitando-se, com isso, que a tenha consigo no recesso do lar.
Para possuir arma de fogo, faz-se necessário o devido registro, conforme dispõe o artigo 3º da Lei nº 10.826/03 (BRASIL, 2003a). Quando o agressor tiver a posse legal da arma de fogo sua restrição ou suspensão só poderá ocorrer a requerimento da vítima como medida protetiva; caso o agressor não tenha a posse ou uso legal as providências poderão ser tomadas pela autoridade policial, desde que configurada a prática de qualquer dos delitos previstos na Lei Maria da Penha (DIAS, 2019).
Essa medida é de suma importância para garantir a proteção da vítima de forma efetiva, conforme Dias (2019, p. 169): “Se o homem agride a mulher, de modo a causar-lhe lesão corporal, se possuir arma de fogo, é possível que, no futuro, progrida para o homicídio”.
A segunda medida prevista é o afastamento do agressor do lar, essa medida preserva a saúde física e psicológica da vítima, visto que o agressor não mais se encontrará na casa em que reside a vítima, diminuindo, assim, o risco iminente de agressões. Preserva-se também o patrimônio da vítima, que não mais poderá ser destruído ou subtraído com facilidade. Importante ressaltar que é comum que o agressor tenha tais atitudes a fim de fazer com que a vítima diminua sua determinação e desista do prosseguimento da persecução criminal (BELLOQUE, 2011).
O inciso III do artigo em estudo prevê a proibição de determinadas condutas, com a finalidade de proteger a integridade física e psicológica da mulher, bem como impedir que o agressor de qualquer forma intimide a vítima de forma a perturbar o andamento processual. Quanto à alínea “a”, proibição de aproximar-se da vítima, o magistrado poderá decidir em metros a distância necessária que o agressor deverá manter em relação à vítima. A alínea “b” prevê a vedação de contato com a vítima, a qual abrange todos os meios de comunicação. Ambas as medidas têm por objetivo evitar que o agressor persiga a vítima, seus familiares e as testemunhas de modo a prejudicar a colheita de provas ou causar-lhes danos. A alínea “c” prevê a proibição de frequentar determinados lugares, com o objetivo de preservar os espaços de convivência da vítima e de seus familiares (BELLOQUE, 2011).
Outra medida prevista é a de restrição ou suspensão de visita aos dependentes
menores pelo agressor, apesar da previsão mencionar que deverá ser ouvida a equipe
multidisciplinar, em caso de iminente risco poderá ser aplicada a medida anteriormente ao parecer técnico, e, ainda assim, o juiz não é vinculado a tal parecer, de modo que poderá decidir livremente. Geralmente esta medida é aplicada conjuntamente com a de proibição de frequentar os espaços de convivência dos infantes. Em casos específicos poderá o juiz determinar que as visitas do agressor aos seus dependentes sejam realizadas de forma assistida, a fim de preservar a integridade da mulher e não afetar a convivência do agressor com seus filhos (BIANCHINI, 2016).
O inciso V prevê a prestação de alimentos provisionais ou provisórios, a depender da comprovação de parentesco e da relação de dependência econômica, não é necessário larga produção de provas. Habitualmente, quando a mulher se encontra economicamente dependente do agressor, esse usa dessa situação para intimidar a mulher, a fim de que não denuncie a violência em que se encontra para proteger a sobrevivência digna sua e de seus filhos. Dessa
forma, a aplicação de tal medida pode ser essencial para efetividade do processo (BELLOQUE, 2011).
Por fim, a Lei 13.984/2020 acrescentou os dois últimos incisos ao artigo em comento: o inciso VI prevê o comparecimento do agressor em programas de recuperação e reeducação e o inciso VII prevê o acompanhamento psicossocial do agressor (BRASIL, 2020).
A inclusão dos referidos incisos tornou obrigatório o comparecimento nesses programas quando determinado pelo juiz, dando mais eficácia às medidas que já vinham sendo aplicadas, podendo o agressor responder pelo crime de descumprimento, que será visto posteriormente, quando ocorrer sua falta injustificada. A realização desses programas é reconhecida como método para coibir, prevenir e reduzir a reincidência dessa forma de agressão (MASCOTTE; BALBINO, 2020).
2.4.2 Das medidas protetivas de urgência à ofendida
Os artigos 23 e 24 da Lei nº 11.340/06 preveem as medidas protetivas voltadas à ofendida, conforme segue (BRASIL, 2006):
Art. 23. Poderá o juiz, quando necessário, sem prejuízo de outras medidas:
I - encaminhar a ofendida e seus dependentes a programa oficial ou comunitário de proteção ou de atendimento;
II - determinar a recondução da ofendida e a de seus dependentes ao respectivo domicílio, após afastamento do agressor;
III - determinar o afastamento da ofendida do lar, sem prejuízo dos direitos relativos a bens, guarda dos filhos e alimentos;
IV - determinar a separação de corpos.
V - determinar a matrícula dos dependentes da ofendida em instituição de educação básica mais próxima do seu domicílio, ou a transferência deles para essa instituição, independentemente da existência de vaga. (Incluído pela Lei nº 13.882, de 2019)
Art. 24. Para a proteção patrimonial dos bens da sociedade conjugal ou daqueles de propriedade particular da mulher, o juiz poderá determinar, liminarmente, as seguintes medidas, entre outras:
I - restituição de bens indevidamente subtraídos pelo agressor à ofendida;
II - proibição temporária para a celebração de atos e contratos de compra, venda e locação de propriedade em comum, salvo expressa autorização judicial;
III - suspensão das procurações conferidas pela ofendida ao agressor;
IV - prestação de caução provisória, mediante depósito judicial, por perdas e danos materiais decorrentes da prática de violência doméstica e familiar contra a ofendida. As medidas protetivas voltadas à mulher não possuem natureza criminal, tem por finalidade a proteção física e psicológica da vítima e podem ser aplicadas cumulativamente de acordo com as peculiaridades de cada caso (BIANCHINI, 2016).
As medidas protetivas de urgência à ofendida, assim como as medidas protetivas de urgência que obrigam o agressor, podem ser requeridas pela vítima no momento do registro da ocorrência, aplicadas de ofício pelo magistrado ou ainda a pedido do Ministério Público.