Conforme dito anteriormente, a pesquisa ocorreu na Comarca de Imaruí/SC, que não possui o Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, assim, com a finalidade de conhecer melhor a sua realidade, foi realizada para essa pesquisa uma entrevista com a magistrada titular da referida Comarca, sendo que as informações obtidas serão expostas na sequência, denominando-se a entrevistada como magistrada.
Há peculiaridades na Comarca de Imaruí/SC, referente à Comarca inicial, ou seja, por se tratar de Comarca inicial o juiz tem que lidar com todas as competências, portanto existe a necessidade de atender de forma especializada os vários tipos de processo, cuja lei determine como prioritários, tais como: infância e juventude, violência doméstica, idosos, réus presos, medicamentos, entre outros (magistrada). “Quando você trabalha em uma Comarca em que você tem um reduzido número de servidores para trabalhar em todos os tipos de demanda, fica muito difícil você se especializar em algo, o que acontece muitas vezes é que a gente se torna generalista em tudo, e especialistas em nada”(magistrada).
Apesar de no Brasil nós contarmos com leis muito bem desenvolvidas, que são referências mundiais, e até mesmo utilizadas em outros países, esbarramos sempre no mesmo problema, qual seja: falta de investimento. A Lei Maria da Penha, prevê a criação de uma Delegacia Especializada, nós não conseguimos implementar; prevê também a criação do juizado especializado, que demanda um espaço físico próprio, servidores especializados, também não conseguimos implementar (magistrada).
O atendimento especializado requer um psicólogo, não há uma vaga destinada a esse profissional na Comarca de Imaruí/SC; requer também que o assistente social tenha disponibilidade de se capacitar para tratar dos casos de Maria da Penha, o que também não foi possível na referida Comarca. Desse modo hoje, no âmbito da Comarca de Imaruí/SC, não possuímos um servidor capacitado exclusivamente para os casos de Maria da Penha (magistrada).
Quanto à programas assistenciais voltados à vítima, no âmbito do fórum da Comarca de Imaruí/SC não existem, já na esfera municipal quem realiza esse tipo de atendimento são os Centros Especializados de Referência de Assistência Social (CREAS), após o encaminhamento
da vítima, que recebe atendimento por uma equipe técnica de proteção social especial de média complexidade, da Secretaria Municipal de Assistência Social, o que ocorre no município de Imaruí/SC é a falta de publicidade desse atendimento, as vítimas não chegam a ter conhecimento desse serviço. Este programa é de orientação e não de proteção, para ocorrer a efetiva proteção da vítima demandaria um efetivo da polícia militar, com rondas na casa da vítima e do agressor. “Em alguns aspectos específicos, quando a gente percebe que existe essa necessidade [de proteção por meio de rondas policiais], já há essa determinação, mas o que acontece é que como não existe um programa implementado de forma oficial, periódica, frequente e constante, a proteção acaba ficando deficitária” (magistrada).
Quanto à programas assistenciais voltados aos agressores, não existem na Comarca de Imaruí/SC, devido a isso, em alguns casos considerados mais complexos, os agressores foram encaminhados para a Comarca de Imbituba/SC onde há um programa de palestras para conscientizá-los. Não é possível, nesses casos, obrigar que o agressor compareça, devido à necessidade de locomoção para outro município, no entanto três agressores aceitaram e compareceram nas palestras, e foram aceitos pelo setor responsável apesar de o programa não abarcar o município de Imaruí/SC (magistrada).
Sobre os níveis de reincidência: “Como é uma Comarca pequena a gente tem condições [de lembrar]; a proporção dos casos é grande, mas o número de casos é pequeno para se avaliar; nesse contexto a gente tem uns quatro ou cinco agressores, réus, que a gente percebe que reincidem. Quando chega o pedido a gente vê que realmente já conhece, já tem um histórico; vai tirar uma certidão de antecedentes, vê que já tem medidas protetivas” (magistrada).
No tocante ao descumprimento das medidas protetivas de urgência aplicadas, depende de a vítima comunicar, pois não há na Comarca um efetivo policial para fiscalizar, bem como, não são colocadas tornozeleiras eletrônicas para que ocorra o monitoramento do distanciamento do agressor em relação à vítima. O que se pode afirmar, no entanto, é que não há muitas notícias de descumprimento (magistrada).
A noção que se tem é de que as medidas protetivas de urgência tem sido efetivas na Comarca de Imaruí/SC, visto que são deferidas de forma ágil, havendo uma ordem de serviço expedida pela magistrada que determina o encaminhamento pelo cartório da solicitação do pedido de medidas protetivas no mesmo dia ao gabinete, sendo despachado para cumprimento pelo oficial de justiça também no mesmo dia, ainda que em regime de plantão. Todas as medidas que possuem o mínimo de substrato probatório são deferidas, e, ainda, nas situações quando há dúvida ou poderia ter sido ouvido mais uma testemunha, é deferido o pedido, para que não se
postergue a ponto que a ameaça se concretize. Acredita-se eficaz inclusive como forma de coibir a prática de novos crimes, visto que quando há represalia para um crime a sociedade entende que não ficará impune se praticá-lo (magistrada).
A magistrada acrescenta ainda que: “Em Imaruí em 2019 nós tivemos 39 registros de medida protetiva, no decorrer do ano. Com certeza para uma população que tem em torno de 10 mil habitantes; se a gente levar em consideração que muitos deles não vão ao centro, muitos deles não moram naquela região próxima à delegacia; com certeza esses casos de violência doméstica são infinitamente maiores. Como não há um programa de conscientização da população a respeito do que é [a violência doméstica], não se tem uma conscientização também da população do que é um relacionamento abusivo, o que é uma agressão, que uma ameaça também é uma agressão passível de registro de boletim de ocorrência. A gente sabe que tem uma questão cultural muito grande, muito forte, envolvida, então acreditamos que esses casos de violência sejam muitos maiores. Em 2020 nós tivemos 18 [registros de medidas protetivas de urgência], então se você comparar que em 2019; de janeiro de 2019 a maio de 2019 nós tivemos 12 entradas; e de janeiro de 2020 a maio de 2020 nós tivemos 18, em termos numéricos não parece muito, mas em percentual, é um aumento de 33%, talvez até em função dessa pandemia, do convívio mais intenso em casa. Então acreditamos que a concessão das medidas protetivas ela é um vetor na luta contra essa grande problemática em torno, que é muito mais cultural do que jurisdicional” (magistrada).
Por fim, sobre as mudanças necessárias para redução do número de casos a magistrada complementa que: “infelizmente o processo não resolve tudo na sociedade, a gente queria que resolvesse; a punição também não resolve todos os problemas. O que a gente tem que trabalhar na verdade, não é só a educação e a conscientização, é um conjunto de elementos, para tentar reduzir esses números; mas um deles, certamente, é sim a mudança cultural, que tem que ser incutida, tem que ser falado sobre; tanto com as adolescentes, que começam os relacionamentos em torno dos 13 ou 14 anos, pra que não aceitem que se replique aquilo que elas veem em casa como normal; e assim também como aquelas mulheres que já vivem relacionamentos de anos, e que já estão acostumadas, que a amiga também é vítima, a prima, a mãe também foi; e se entende que é algo que faz parte da natureza dos relacionamentos, quando a gente sabe que em hipótese alguma poderia ser assim”(magistrada).