2.4 DAS MEDIDAS PROTETIVAS DE URGÊNCIA
2.4.1 Das medidas protetivas que obrigam o agressor
O artigo 22 da Lei Maria da Penha prevê as medidas protetivas que obrigam o agressor, conforme segue:
Art. 22. Constatada a prática de violência doméstica e familiar contra a mulher, nos termos desta Lei, o juiz poderá aplicar, de imediato, ao agressor, em conjunto ou separadamente, as seguintes medidas protetivas de urgência, entre outras:
I - suspensão da posse ou restrição do porte de armas, com comunicação ao órgão competente, nos termos da Lei nº 10.826, de 22 de dezembro de 2003 ;
II - afastamento do lar, domicílio ou local de convivência com a ofendida; III - proibição de determinadas condutas, entre as quais:
a) aproximação da ofendida, de seus familiares e das testemunhas, fixando o limite mínimo de distância entre estes e o agressor;
b) contato com a ofendida, seus familiares e testemunhas por qualquer meio de comunicação;
c) frequentação de determinados lugares a fim de preservar a integridade física e psicológica da ofendida;
IV - restrição ou suspensão de visitas aos dependentes menores, ouvida a equipe de atendimento multidisciplinar ou serviço similar;
V - prestação de alimentos provisionais ou provisórios.
VI – comparecimento do agressor a programas de recuperação e reeducação; e (Incluído pela Lei nº 13.984, de 2020)
VII – acompanhamento psicossocial do agressor, por meio de atendimento individual e/ou em grupo de apoio. (Incluído pela Lei nº 13.984, de 2020)
[...] (BRASIL, 2006)
Um dos grandes marcos do início da aplicação da Lei Maria da Penha foi a inclusão das medidas protetivas de urgência que obrigam o agressor. Tais medidas podem ser aplicadas em qualquer fase do processo, conforme já mencionado, e tem por objetivo assegurar a eficácia
desse, ao garantir segurança à mulher e seus familiares, para que se possa romper o ciclo da violência. O rol de medidas foi elaborado pelo legislador com base no conhecimento das atitudes costumeiras dos agressores e que tornam a denúncia difícil para vítima (BELLOQUE, 2011).
Tendo em vista que a violência doméstica ocorre, em sua maioria, dentro do lar, onde residem o agressor, a vítima e demais integrantes da família, geralmente o primeiro se aproveita dessa situação de convivência para amedrontar a vítima e, assim, impede que essa denuncie as agressões às autoridades. Esse cenário contribui para naturalização dessa forma de violência e a vítima passa a aceitá-la, com a finalidade de manter sua família(BELLOQUE, 2011).
Quanto ao tema Wallauer (2019) defende que:
[...] para quebrar o ciclo de violência, a gente precisa constantemente repensar o nosso conceito de família. Ampliar o conceito de família, para que uma mulher sozinha, com três filhos, cuidando com amor e afeto, represente tudo que o valor de família significa, em sua completude, sem faltar nada; e para que uma família onde uma criança seja criada assistindo violência todos os dias, sempre com medo e sempre insegura, seja uma traição a este valor [...]
O rol de medidas protetivas não é exaustivo, ou seja, podem ser aplicadas outras medidas previstas em lei, quando forem necessárias para a proteção da vítima, conforme já mencionado. Existe ainda a possibilidade de se aplicar simultaneamente mais de uma medida protetiva, desde que seja a forma mais adequada a garantir a efetividade da lei. Destaca-se ainda que toda decisão pelo magistrado deverá ser motivada, com justificação expressa (BELLOQUE, 2011).
A primeira medida prevista, dentre as que obrigam o agressor, é a de suspensão ou
restrição da posse de arma, essencial para a proteção da vítima. Cunha (2015 apud DIAS,
2019, p. 168) explica que:
Suspender tem o sentido de privar temporariamente a utilização da arma. Pode o juiz, com efeito, determinar que no curso do processo o agente seja proibido de portar arma de fogo [...] restringir tem acepção de limitar. Assim, pode o juiz, por exemplo, determinar que um policial porte a sua arma apenas no serviço, deixando-a em seu local de trabalho no final da jornada, evitando-se, com isso, que a tenha consigo no recesso do lar.
Para possuir arma de fogo, faz-se necessário o devido registro, conforme dispõe o artigo 3º da Lei nº 10.826/03 (BRASIL, 2003a). Quando o agressor tiver a posse legal da arma de fogo sua restrição ou suspensão só poderá ocorrer a requerimento da vítima como medida protetiva; caso o agressor não tenha a posse ou uso legal as providências poderão ser tomadas pela autoridade policial, desde que configurada a prática de qualquer dos delitos previstos na Lei Maria da Penha (DIAS, 2019).
Essa medida é de suma importância para garantir a proteção da vítima de forma efetiva, conforme Dias (2019, p. 169): “Se o homem agride a mulher, de modo a causar-lhe lesão corporal, se possuir arma de fogo, é possível que, no futuro, progrida para o homicídio”.
A segunda medida prevista é o afastamento do agressor do lar, essa medida preserva a saúde física e psicológica da vítima, visto que o agressor não mais se encontrará na casa em que reside a vítima, diminuindo, assim, o risco iminente de agressões. Preserva-se também o patrimônio da vítima, que não mais poderá ser destruído ou subtraído com facilidade. Importante ressaltar que é comum que o agressor tenha tais atitudes a fim de fazer com que a vítima diminua sua determinação e desista do prosseguimento da persecução criminal (BELLOQUE, 2011).
O inciso III do artigo em estudo prevê a proibição de determinadas condutas, com a finalidade de proteger a integridade física e psicológica da mulher, bem como impedir que o agressor de qualquer forma intimide a vítima de forma a perturbar o andamento processual. Quanto à alínea “a”, proibição de aproximar-se da vítima, o magistrado poderá decidir em metros a distância necessária que o agressor deverá manter em relação à vítima. A alínea “b” prevê a vedação de contato com a vítima, a qual abrange todos os meios de comunicação. Ambas as medidas têm por objetivo evitar que o agressor persiga a vítima, seus familiares e as testemunhas de modo a prejudicar a colheita de provas ou causar-lhes danos. A alínea “c” prevê a proibição de frequentar determinados lugares, com o objetivo de preservar os espaços de convivência da vítima e de seus familiares (BELLOQUE, 2011).
Outra medida prevista é a de restrição ou suspensão de visita aos dependentes
menores pelo agressor, apesar da previsão mencionar que deverá ser ouvida a equipe
multidisciplinar, em caso de iminente risco poderá ser aplicada a medida anteriormente ao parecer técnico, e, ainda assim, o juiz não é vinculado a tal parecer, de modo que poderá decidir livremente. Geralmente esta medida é aplicada conjuntamente com a de proibição de frequentar os espaços de convivência dos infantes. Em casos específicos poderá o juiz determinar que as visitas do agressor aos seus dependentes sejam realizadas de forma assistida, a fim de preservar a integridade da mulher e não afetar a convivência do agressor com seus filhos (BIANCHINI, 2016).
O inciso V prevê a prestação de alimentos provisionais ou provisórios, a depender da comprovação de parentesco e da relação de dependência econômica, não é necessário larga produção de provas. Habitualmente, quando a mulher se encontra economicamente dependente do agressor, esse usa dessa situação para intimidar a mulher, a fim de que não denuncie a violência em que se encontra para proteger a sobrevivência digna sua e de seus filhos. Dessa
forma, a aplicação de tal medida pode ser essencial para efetividade do processo (BELLOQUE, 2011).
Por fim, a Lei 13.984/2020 acrescentou os dois últimos incisos ao artigo em comento: o inciso VI prevê o comparecimento do agressor em programas de recuperação e reeducação e o inciso VII prevê o acompanhamento psicossocial do agressor (BRASIL, 2020).
A inclusão dos referidos incisos tornou obrigatório o comparecimento nesses programas quando determinado pelo juiz, dando mais eficácia às medidas que já vinham sendo aplicadas, podendo o agressor responder pelo crime de descumprimento, que será visto posteriormente, quando ocorrer sua falta injustificada. A realização desses programas é reconhecida como método para coibir, prevenir e reduzir a reincidência dessa forma de agressão (MASCOTTE; BALBINO, 2020).