HEITOR WALDOW
LEI DO DESARMAMENTO: CONSIDERAÇÕES ACERCA DO COMÉRCIO, PORTE E POSSE DE ARMA DE FOGO NO BRASIL
Monografia final do Curso de Graduação em Direito da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – UNIJUI, apresentado como requisito parcial para a aprovação no componente curricular Pesquisa Jurídica. DCJS - Departamento de Ciências Jurídicas e Sociais.
Orientador: Sérgio Fernandes Pires
Santa Rosa (RS) 2018
RESUMO
O presente trabalho tem como tema Lei do Desarmamento: considerações acerca do comércio, porte e posse de arma de fogo no Brasil, por meio do qual busca-se verificar os aspectos que se destacam nas discussões e posicionamentos, favoráveis e contrários, em torno do comércio, da posse e porte de arma de fogo no Brasil. Conjuntamente analisar a Lei do Desarmamento, especialmente as compreensões sobre os principais fatores que envolvem esta lei. A discussão em tela ganha contornos relevantes, dado o momento crítico na segurança pública dos Estados brasileiros cujos números de crimes contra vida são alarmantes. De maneira que se busca fomentar uma discussão sobre o direito a ter uma arma de fogo regularizada conforme decidiu democraticamente a maioria da população brasileira, e as políticas públicas que envolvem o tema, impostas pelo Poder estatal, sem, contudo, defender o armamento indiscriminado da população civil.
Palavras chave: Arma de fogo. Estatuto do desarmamento. Posse de arma de fogo.
ABSTRACT
El presente trabajo tiene como tema Ley del Desarme: consideraciones acerca del comercio, porte y posesión de arma de fuego en Brasil, por medio del cual se busca verificar los aspectos que se destacan en las discusiones y posicionamientos, favorables y contrarios, el comercio, la tenencia y el porte de armas de fuego en Brasil. Conjuntamente analizar la Ley del Desarme, especialmente las comprensiones sobre los principales factores que involucran esta ley. La discusión en pantalla gana contornos relevantes, dado el momento crítico en la seguridad pública de los Estados brasileños cuyos números de crímenes contra la vida son alarmantes. De manera que se busca fomentar una discusión sobre el derecho a tener un arma de fuego regularizada conforme decidió democráticamente la mayoría de la población brasileña, y las políticas públicas que envuelven el tema, impuestas por el Poder estatal, sin, sin embargo, defender el armamento indiscriminado población civil.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 03
1 ARMAS DE FOGO NO BRASIL ... 05
1.1 CONCEITO DE ARMAS E FOGO ... 05
1.2 EVOLUÇÃO DOS DISPOSITIVOS JURÍDICOS SOBRE O PORTE DE ARMAS DE FOGO ... 07
1.3 O ESTATUTO DO DESARMAMENTO ... 12
2 CARACTERIZAÇÃO DO COMÉRCIO, POSSE E PORTE DE ARMAS DE FOGO NO BRASIL ... 18
2.1 TIPIFICAÇÃO CRIMINAL: POSSE E PORTE DE ARMAS ... 24
3 SOBRE A LEGALIZAÇÃO DO COMÉRCIO, POSSE E PORTE DE ARMAS DE FOGO NO BRASIL ... 28
3.1 ARGUMENTAÇÕES FAVORÁVEIS E CONTRÁRIAS ... 28
CONCLUSÃO ... 32
INTRODUÇÃO
A referente pesquisa foi desenvolvida sobre o tema Lei do Desarmamento: considerações acerca do comércio, porte e posse de arma de fogo no Brasil, por meio do qual busca-se verificar os aspectos que se destacam nas discussões e posicionamentos, favoráveis e contrários, em torno do comércio, da posse e porte de arma de fogo no Brasil. Conjuntamente, analisar a Lei do Desarmamento, especialmente as compreensões sobre os principais fatores que envolvem esta lei.
Nos últimos meses, o debate sobre as armas de fogo e o seu impacto na violência vem ocupando grande espaço nos principais meios de comunicação no País. Em torno da discussão sobre o estatuto do desarmamento, as opiniões se dividem entre aqueles que defendem medidas mais rígidas para o comércio, a posse e o porte de armas de fogo, e aqueles que afirmam o direito do “cidadão de bem” de possuir armas de fogo como forma de garantir a defesa e segurança. Assim, o presente estudo verificou a evolução da legislação que trata do comércio, da posse e do porte de armas de fogo, analisando particularmente a Lei do Desarmamento (Lei n. 10.286/2003), e as discussões que a permeiam, destacando as argumentações e proposições utilizadas pelos dois segmentos: contrários e favoráveis.
Para tanto, partiu-se da hipótese de que, com base no teor da Lei n. 10.286, de 22 de dezembro de 2003, a qual ficou conhecida como Lei do Desarmamento, constata-se que a partir desta se tornou mais difícil que armas de fogo e munição sejam adquiridas legalmente. A Lei n. 10.286/2003 determina, que para adquirir uma arma de fogo, de uso permitido, além de declarar a efetiva necessidade, é preciso comprovar idoneidade, ocupação lícita, residência certa e capacidade técnica e de aptidão psicológica para o manuseio de arma de fogo.
Considerando-se ainda que as exigências impostas pela Lei do Desarmamento implicaram aumento do custo final de aquisição legal de armas de fogo. Condição esta que poderia repercutir no aumento da compra ilegal de armas de fogo e munição, no entanto, a lei também tornou mais rígidas as penalidades para a posse e porte ilegal de armas de fogo. Desde a regulamentação da lei, o porte ilegal de armas de fogo, acessório ou munição de uso permitido, mas em desacordo com a lei, implica pena de detenção de um a três anos e multa.
Apesar de parecer insustentável a ideia de que seja possível em nome de um suposto direito adquirido ou de uma garantia individual, o enfrentamento da violência armada, tanto do ponto de vista da doutrina como das ciências modernas. Ainda assim, a corrida armamentista, mostra-se como uma ação coletiva em resposta ao apelo da sociedade na busca da segurança negligenciada pelo Estado.
De outro lado, as argumentações em favor do desarmamento se identificam com a noção de luta por um mundo melhor, mais digno e mais humano. Apresentam aspectos condizentes com a exigência de critérios e normas voltados ao planejamento democrático, valorizando a educação e a cidadania. Trata-se de uma vertente que segue paralela àquelas que defendem a questão do Ambientalismo e do Desenvolvimento Econômico sustentável ou responsável.
A principal justificativa para o tema proposto foi a intensa discussão nos mais variados segmentos da sociedade sobre o comércio, posse e porte de armas de fogo. Observa-se que de um lado se tem uma gama de indivíduos defendendo que os cidadãos de bem possam comprar e/ou portar arma de fogo para garantir sua segurança. De outro, existe a ideia de que o comércio, posse e porte de arma de fogo implica aumento da violência, e não representa garantia de aumento da segurança.
Para a realização deste trabalho monográfico, utilizou-se a pesquisa do tipo exploratório, bom base na coleta de dados em fontes bibliográficas disponíveis em meios físicos e na rede de computadores, na legislação, doutrina e também em artigos publicados sobre o tema, informações que abordadas pelo método hipotético-dedutivo, e estão apresentadas em três capítulos.
No primeiro capítulo, apresenta-se o conceito de arma de fogo, e a evolução dos dispositivos jurídicos sobre o porte de armas de fogo, inclusive o Estatuto do Desarmamento. O segundo capítulo aborda a caracterização do comércio, posse e porte de armas de fogo no Brasil, bem como a tipificação criminal da posse e porte de armas. No terceiro desenvolve-se as argumentações favoráveis e contrárias em torno da legalização do comércio, posse e porte de armas de fogo no Brasil.
1 ARMAS DE FOGO NO BRASIL
Nos últimos meses, o debate sobre as armas de fogo e o seu impacto na violência vem ocupando grande espaço nos principais meios de comunicação no País. Em torno da discussão sobre o estatuto do desarmamento, as opiniões se dividem entre aqueles que defendem medidas mais rígidas para o comércio, a posse e o porte de armas de fogo, e aqueles que afirmam o direito do “cidadão de bem” de possuir armas de fogo como forma de garantir a defesa e segurança. Assim, neste primeiro capítulo pretende-se inicialmente apresentar o conceito que define o que é arma de fogo, em seguida se apresenta a evolução da legislação que trata do comércio, da posse e do porte de armas de fogo, e finalmente se finaliza este capítulo analisando particularmente a Lei n. 10.286/2003, que ficou conhecida como a Lei do Desarmamento.
1.1 CONCEITO DE ARMAS DE FOGO
Segundo o Decreto n. 3.665, de 20 de novembro de 2000, arma é definido como: “artefato que tem por objetivo causar dano, permanente ou não, a seres vivos e coisas”. Arma de fogo, por sua vez, é:
[...] arma que arremessa projéteis empregando a força expansiva dos gases gerados pela combustão de um propelente confinado em uma câmara que, normalmente, está solidária a um cano que tem a função de propiciar continuidade à combustão do propelente, além de direção e estabilidade ao projétil. (artigo 3, inciso XIII, DECRETO N. 3.665, 2000).
Observa-se que quando a propulsão do projétil se dá por outro meio que não pelos gases provenientes de explosão, como por exemplo, pressão, mola ou força mecânica, não se aplica, no Brasil, os dispositivos referentes a armas de fogo, e sim leis e dispositivos específicos.
De acordo com o expresso por Reimer (2009), a legislação brasileira divide as armas de fogo em duas categorias, as armas de fogo de uso restrito e as armas de fogo de uso permitido. Esta denominação não é correta, pois dá a entender que alguma arma seria de uso “permitido”, e, portanto, irrestrito, enquanto no Brasil, o uso de qualquer arma tem restrições, sendo que as de uso “restrito” tem restrições maiores do que as de uso “permitido”.
16, e as de uso permitido pelo art. 17. A divisão, além de classificar como de uso restrito as armas de maior potência e calibre, também classifica da mesma forma as armas que tenham qualquer semelhança com as usadas pelo exército nacional e as automáticas, que se referem àquelas que realizam mais de um disparo quando se pressiona o gatilho uma única vez.
Inicialmente a ideia desta divisão seria criar duas categorias de armas de fogo, com requisitos e regulamentos diferentes para a circulação. Supõe-se que algumas armas tenham um potencial destrutivo maior do que outras, e que, portanto, devem ser mais controladas. Algumas podem, por exemplo, perfurar coletes à prova de bala, carros blindados, atingir alvos a distância muito grandes ou perfurar paredes, e, portanto, seriam incompatíveis com o intuito básico de legítima defesa ou com a maioria das modalidades esportivas. Este tipo de armamento, seria restrito ao Estado e suas forças policiais e militares (REIMER, 2009).
A lei 10.826 de 2003 determina, em seu art. 26 que “São vedadas a fabricação, a venda, a comercialização e a importação de brinquedos, réplicas e simulacros de armas de fogo, que com estas se possam confundir.”
Cabe ainda mencionar que a legislação brasileira também regula a aquisição de alguns outros artefatos, que são considerados armas, apesar de não apresentarem potencial lesivo, mas em função do efeito de intimidação que podem causar, como é o caso das utilizadas no chamados “esportes de ação”, como o “paintball” e o “airsoft”. Para a prática desses esportes se faz necessário o uso de equipamentos que são classificados como armas; os quais foram regularizados a partir da Portaria n. 006-D LOG, de 29 de novembro de 2007.
Já com relação aos simulacros, que muitas vezes constituem réplicas perfeitas de armas de fogo, mas que não possuem poder de disparo, a sua fabricação depende da autorização do Comando do Exército, e só podem ser adquiridas, mediante fiscalização e autorização da Diretoria de Fiscalização de Produtos Controlados (DFPC), para os fins específicos de instrução, adestramento ou colecionamento de usuário cadastrado no exército.
Como se pode verificar, existe a preocupação com relação à fabricação, comércio e uso, não só das armas de fogo com potencial de morte, como também daquelas que imitam visualmente estas. No próximo item será apresentada uma breve evolução histórica referente à legislação que trata do porte e posse de armas de fogo no Brasil
1.2 EVOLUÇÃO DOS DISPOSITIVOS JURÍDICOS SOBRE O PORTE DE ARMAS DE FOGO
A legislação brasileira que trata de regular a utilização, porte e posse de armas de fogo, sempre se mostrou controversa, por vezes incompreensível, abrindo espaço para diversas emendas ao longo de sua vigência, e com isso, sendo modificada ao longo dos anos, o que implica certa insegurança jurídica no que se refere à utilização, posse e porte de armas de fogo.
Sobre o controle das armas de fogo no Brasil por meio de previsões legais, Gomes e Oliveira (2002, p. 72) expressam que “A evolução do tratamento jurídico penal da matéria sempre foi marcada por uma ideia de necessário controle sobre tais objetos.” Desde o tempo de D. Pedro, tem-se disposições legais referentes às armas de fogo, as quais naquele período eram chamadas de “armas defesas”. A Lei de 16 de Dezembro de 1830, conhecido como Código Criminal do Império, já tratava do tema, ao dispor no Capítulo V, artigos 297 a 299, sobre o uso de armas de defesa:
[...]
Art. 297. Usar de armas offensivas, que forem prohibidas. Penas - de prisão por quinze a sessenta dias, e de multa correspondente á metade do tempo, atém da perda das armas.
Art. 298. Não incorrerão nas penas do artigo antecedente: 1º Os Officiaes de Justiça, andando em diligencia.
2º Os Militares da primeira e segunda linha, e ordenanças, andando em diligencia, ou em exercicio na fórma de seus regulamentos.
3º Os que obtiverem licença dos Juizes de Paz.
Art. 299. As Camaras Municipaes declararão em editaes, quaes sejam as armas offensivas, cujo uso poderão permittir os Juizes de Paz; os casos, em que as poderão permittir; e bem assim quaes as armas offensivas, que será licito trazer, e usar sem licença aos occupados em trabalhos, para que ellas forem necessarias. (BRASIL, 1830).
Como se pode observar o §3º do artigo 298 determinava que o porte legal de armas de fogo já estava previsto naquela época, sendo que poderia gozar desse direito somente quem obtivesse licença concedida pelos Juízes de Paz. Por outro lado, o artigo 297, trazia o verbo “usar”, sem tratar quanto a portar ou possuir, portanto, de modo que só incorreria na pena deste artigo, aquele que utilizasse de uma arma proibida, abrindo o precedente para que se pudesse ter dentro de sua residência qualquer arma.
Constata-se que essa legislação não previa a realização de testes, tanto psicológico quanto prático, para a aquisição ou porte de arma. Ademais, não fazia menção alguma quanto a possuir uma arma, apenas quanto a portá-la. Deste modo, entende-se que era permitido a qualquer pessoa adquirir e ter dentro de sua propriedade uma ou mais armas.
O artigo 299 apresentava certa preocupação e cautela quanto ao tipo, funcionamento ou calibre das armas que poderiam ser portadas pela população, porém, essas declarações expressas na lei citada, alcançariam somente as armas que estivessem sendo portadas, sem se estender àquelas guardadas na residência dos cidadãos.
O Código Penal de 1890 trouxe apenas dois artigos sobre o uso e fabricação de armas de fogo, sem abordar aspectos que tratassem dos calibres, tipo de funcionamento ou tipo de armas permitidas ou não.
CAPITULO V
DO FABRICO E USO DE ARMAS
Art. 376. Estabelecer, sem licença do Governo, fabrica de armas, ou pólvora: Penas – de perda, para a Nação, dos objetos apreendidos e multa de 200$ a 500$000. Art. 377. Usar de armas ofensivas sem licença da autoridade policial:
Pena – de prisão celular por 15 a 60 dias. Parágrafo único. São isentos de pena: 1º, os agentes da autoridade publica, em diligencia ou serviço;
2º, os oficiais e praças do Exercito, da Armada e da Guarda Nacional, na conformidade dos seus regulamentos. (BRASIL, 1890).
Verifica-se que o artigo 376 do Código Penal de 1890, veda a fabricação de armas sem a autorização de autoridade competente, no entanto, não dispõe qual é a autoridade competente para autorizar ou não a fabricação de tais objetos. Já o artigo 377, vedava o uso de armas sem licença da autoridade policial, não dispondo quanto à territorialidade desta autorização (federal ou estadual), e também, não informava qual era a autoridade policial que poderia deferir ou não o porte de arma para um civil.
Percebe-se, que tanto o Código Criminal do Império (1830), quanto o Código Penal de 1890, previam o porte de arma para os oficiais de justiça enquanto em diligência. O Código Penal de 1940 (Decreto-Lei número 2.848, de 07 de dezembro de 1940), nem mesmo dispunha acerca das armas de fogo, apenas de causas de aumento e diminuição de penas, agravantes e atenuantes, bem como sobre bandos armados, sem porém fazer qualquer menção sobre autorização do uso de armas de fogo.
A Lei de Contravenções Penais (Decreto-lei número 3.688, de 03 de outubro de 1941), em seus artigos 18 e 19, dispunha sobre o porte, a fabricação, importação, exportação, posse e comércio de armas de fogo, sem tratar acerca de tipo, espécie, calibre ou funcionamento das armas que seriam ou não permitidas ao uso civil.
PARTE ESPECIAL CAPÍTULO I
DAS CONTRAVENÇÕES REFERENTES À PESSOA
Art. 18. Fabricar, importar, exportar, ter em depósito ou vender, sem permissão da autoridade, arma ou munição:
Pena – prisão simples, de três meses a um ano, ou multa, de um a cinco contos de réis, ou ambas cumulativamente, se o fato não constitui crime contra a ordem política ou social.
Art. 19. Trazer consigo arma fora de casa ou de dependência desta, sem licença da autoridade:
Pena – prisão simples, de quinze dias a seis meses, ou multa, de duzentos mil réis a três contos de réis, ou ambas cumulativamente.
§ 1º A pena é aumentada de um terço até metade, se o agente já foi condenado, em sentença irrecorrível, por violência contra pessoa.
§ 2º Incorre na pena de prisão simples, de quinze dias a três meses, ou multa, de duzentos mil réis a um conto de réis, quem, possuindo arma ou munição: a) deixa de fazer comunicação ou entrega à autoridade, quando a lei o determina; b) permite que alienado menor de 18 anos ou pessoa inexperiente no manejo de arma a tenha consigo; c) omite as cautelas necessárias para impedir que dela se apodere facilmente alienado, menor de 18 anos ou pessoa inexperiente em manejá-la. (BRASIL, 1941).
Como se pode verificar, o artigo 18, já bania o comércio ilegal de armas de fogo, porém não citava os calibres e tipos de armas que poderiam ser comercializadas legalmente; também bania a fabricação de qualquer tipo de arma sem autorização de autoridade competente, no entanto, não citava qual seria a autoridade competente que teria a função de fiscalizar ou autorizar o comércio, importação, exportação ou fabricação de armas de fogo.
O artigo 19 demonstra a preocupação do legislador quanto ao porte ilegal de armas de fogo, pois previa sanção penal para quem portasse arma de fogo sem autorização (porte). Considerava-se uma causa de aumento, quem já condenado com sentença transitada em julgado por violência contra pessoa, fosse flagrado portando arma de fogo. Verifica-se ainda a referência quanto à disparo de arma de fogo no artigo 28 dessa lei.
CAPÍTULO III
DAS CONTRAVENÇÕES REFERENTES À INCOLUMIDADE PÚBLICA Art. 28. Disparar arma de fogo em lugar habitado ou em suas adjacências, em via pública ou em direção a ela:
Pena – prisão simples, de um a seis meses, ou multa, de trezentos mil réis a três contos de réis.
multa, de duzentos mil réis a dois contos de réis, quem, em lugar habitado ou em suas adjacências, em via pública ou em direção a ela, sem licença da autoridade, causa deflagração perigosa, queima fogo de artifício ou solta balão aceso. (BRASIL, 1941).
Percebe-se que fora equiparado o potencial ofensivo de um disparo de arma de fogo, à queima de fogo de artifício, o que é notadamente absurdo, visto que um artifício pirotécnico tem teoricamente menor potencial ofensivo do que um disparo de arma de fogo.
Em 1997, foi promulgada a Lei 9.437, denominada Lei das Armas de Fogo. Essa pode ser considerada um tanto quanto concisa, face a importância da matéria da qual tratava. A referida legislação, em muitos aspectos é semelhante ao Estatuto do Desarmamento, porém esta deu origem e atribuiu funções ao Sistema Nacional de Armas (SINARM), conforme expresso nos artigos 1º e 2º, in verbis:
Art. 1º Fica instituído o Sistema Nacional de Armas - SINARM no Ministério da Justiça, no âmbito da Polícia Federal, com circunscrição em todo o território nacional.
Art. 2° Ao SINARM compete:
I - identificar as características e a propriedade de armas de fogo, mediante cadastro; II - cadastrar as armas de fogo produzidas, importadas e vendidas no País;
III - cadastrar as transferências de propriedade, o extravio, o furto, o roubo e outras ocorrências suscetíveis de alterar os dados cadastrais;
IV - identificar as modificações que alterem as características ou o funcionamento de arma de fogo;
V - integrar no cadastro os acervos policiais já existentes;
VI - cadastrar as apreensões de armas de fogo, inclusive as vinculadas a procedimentos policiais e judiciais. Parágrafo único. As disposições deste artigo não alcançam as armas de fogo das Forças Armadas e Auxiliares, bem como as demais que constem dos seus registros próprios. (BRASIL, 1997).
Em relação ao artigo 1º, Gomes e Oliveira (2002, p. 20) expressam que:
O próprio legislador passou a encarar as armas de fogo como verdadeiros produtos controlados, sobre os quais o Estado deve manter uma rigorosa tutela. Para viabilizar esses controles, tornou-se necessária a criação de toda uma estrutura administrativa especial, corporificada e instrumentalizada por meio de um novo organismo denominado Sistema Nacional de Armas, ou simplesmente SINARM.
O artigo 2º atribui as competências do SINARM, definindo que este tem atribuições somente quanto ao cadastramento das armas, sem que suas funções se estendam à sua fiscalização, cabendo ao Ministério do Exército tal atribuição. Neste sentido, Gomes e Oliveira (2002, p. 22) argumentam que: “O cadastro a que se refere a nova legislação abrange não somente as armas de fogo, mas também seus proprietários.”
Observa-se que a Lei 9.437/97 foi a primeira a demonstrar preocupação em atribuir um proprietário à uma arma de fogo, pois até então, quando da aquisição de armas de fogo, estas, não haviam qualquer cadastramento em órgão de fiscalização ou controle destas. Sobre este aspecto Teixeira (2001, p. 23) afirma:
A lei citada acima possui apenas vinte e um artigos e está dividida em cinco capítulos, mas, no entanto, grande é a sua importância, independentemente do fato de ela ser uma boa ou má lei. E grandes são as discussões que ela gerou. Seus objetivos eram reduzir a criminalidade existente em nosso país e coibir a violência, por meio da restrição do acesso das pessoas ás armas de fogo.
Em função das diversas lacunas que a Lei 9.437/97 deixou, ainda em 1997 foi criado o Decreto 2.222/97, que qual teve a finalidade de regulamentar e suprir algumas falhas anteriormente existentes. Em se tratando da ineficácia e da falta de estrutura da Lei 9.437/97, Facciolli (2010, p. 16) explica:
Vários avanços puderam ser sentidos ao longo de pouco mais de seis anos da vigência da Lei, tais como: criminalizou o porte de arma de fogo; disciplinou o registro e o porte; estabeleceu objetivos programáticos para o sistema; inaugurou a “Política Nacional de Controle de Armas de Fogo”, dentre outros. A sociedade esperava mais... - ou melhor, aspirava apenas à redução da violência armada, o que acabou não acontecendo! A frustração social foi o principal fator que contribuiu para ruírem as estruturas do 1º SINARM.
De acordo com o Regulamento R-105 do Decreto 3.665 de 20 de novembro de 2000, ficou a cargo do Comando do Exército o Sistema de Gerenciamento Militar de Armas (SIGMA), a fim de controlar as armas de fogo, acessórios e munições de colecionadores, atiradores e caçadores, permitindo que armas de uso restrito, como as armas com poder de fogo e capacidade igual ou superior das utilizadas pelas Forças Armadas, fossem adquiridas por cidadãos comuns.
Conforme Brito (2005), ambos os sistemas, SINARM e o SIGMA, deveriam registrar um histórico completo da arma de fogo, ou seja, seu “nascimento, vida e morte” identificando as características de toda a arma de fogo produzida, importada e vendida em território brasileiro, bem como os dados de seu proprietário.
Como se pode verificar a preocupação por parte do legislador brasileiro em regulamentar a posse e o porte de arma, advém desde 1830, com conhecido como Código
Criminal do Império, até mais recentemente com a Lei 9.437 de 1997, denominada Lei das Armas de Fogo. No entanto, como resultado de intensas discussões, principalmente da sociedade cansada com a extrema e contínua violência, em 2003, foi promulgada a Lei n. 10.826, que dentre as novidades que apresentou, estava à definição da realização de um Plebiscito que tratava da questão do desarmamento; aspectos dessa lei serão abordados no próximo item deste estudo.
1.3 ESTATUTO DO DESARMAMENTO: LEI n. 10.826/2003
Em 2003, foi promulgada a Lei n. 10.826/03, que ficou conhecida como Estatuto do Desarmamento, a qual foi resultante do clamor da população. Neste sentido, Facciolli (2010, p. 19) argumenta: “Pressão intensa da mídia e de ONGs promoveram a ilusão de que a proibição da venda e da restrição ao porte de armas de fogo poderia acabar com a violência que domina os grandes centros urbanos.”
A aprovação do Estatuto do Desarmamento, ficou vinculado ao resultado de um referendo para a realização de uma consulta popular, o qual deveria ter os mesmos moldes de uma eleição para cargos políticos, por meio do que se buscaria saber a opinião da população quanto à proibição ou não do comércio de armas de fogo no Brasil.
Assim, em 2005, o governo promoveu um referendo popular sobre a proibição da comercialização de armas de fogo e munições. Porém, à medida que proibiria a venda e comércio foi rejeitada pelo eleitorado, não entrando em vigor.
Ou seja, o resultado deste referendo apresentou um índice nacional de 63,94% dos votos contrários ao desarmamento da população e 36,06% a favor, no entanto destaca-se que, em alguns estados, como o Rio Grande do Sul, 86,83% da população, optou pelo direito de possuir armas de fogo (FOLHA UOL, 2012, p. 1).
Salienta-se que um importante marco da Lei 10.826/03 é seu caráter essencialmente restritivo, por meio do qual se buscou dificultar o acesso da população às armas de fogo, por meio de disposições legais. Sobre a determinação e eficácia destes limitadores, Facciolli (2010, p. 19) comenta que “Infelizmente, a cultura que se desenvolveu em torno das armas de fogo no Brasil é a de repulsa, aversão – ‘visão antiarmas’. O instrumento em si (arma) não é
venal; o que o torna nocivo é o seu mau uso [...].”
A Lei 10.826/03 apresentou algumas limitações a quem pretende ter armas de fogo, gerando obrigações para estes indivíduos, como a obrigatoriedade de teste de aptidão psicológica, bem como as técnicas adequadas de manuseio de arma de fogo, conforme define o artigo 4º:
Art. 4o Para adquirir arma de fogo de uso permitido o interessado deverá, além de declarar a efetiva necessidade, atender aos seguintes requisitos:
I - comprovação de idoneidade, com a apresentação de certidões negativas de antecedentes criminais fornecidas pela Justiça Federal, Estadual, Militar e Eleitoral e de não estar respondendo a inquérito policial ou a processo criminal, que poderão ser fornecidas por meios eletrônicos; (Redação dada pela Lei nº 11.706, de 2008) II – apresentação de documento comprobatório de ocupação lícita e de residência certa;
III – comprovação de capacidade técnica e de aptidão psicológica para o manuseio de arma de fogo, atestadas na forma disposta no regulamento desta Lei.
§ 1o O SINARM expedirá autorização de compra de arma de fogo após atendidos os requisitos anteriormente estabelecidos, em nome do requerente e para a arma indicada, sendo intransferível esta autorização.
§ 2o A aquisição de munição somente poderá ser feita no calibre correspondente à arma registrada e na quantidade estabelecida no regulamento desta Lei. (Redação dada pela Lei nº 11.706, de 2008).
A obtenção de registro de arma de fogo é elemento indispensável para a aquisição de forma legal de uma arma, conforme o expresso na legislação atual, sendo necessário ainda que o indivíduo apresente seus documentos pessoais, bem como certidões negativas no âmbito Federal, Estadual, Militar e Eleitoral, e também, que comprove não estar respondendo a inquérito policial ou a processo criminal; além disso, deverá apresentar comprovante de residência, e submeter-se a exames psicológicos e de capacidade técnica para manuseio de arma de fogo.
O caput do artigo 4º exige a “declaração de efetiva necessidade”, o qual é tido como subjetivo por diversos doutrinadores, dentre os quais Facciolli (2010, p. 80) se expressa:
O direito à aquisição (melhor ainda: o direito ao acesso à propriedade – de arma de fogo) é, essencialmente, um tema que gravita na órbita constitucional. A legitimação à propriedade somente pode ser limitada pela funcionalidade social do bem, sendo a segurança consagrada como um direito social fundamental na Lex máxima. A presente assertiva é importante pois, ao longo do texto normativo, percebe-se o intento em criar embaraços ao cidadão de bem em adquirir uma arma de fogo. Arriscamo-nos a ir mais longe e constatar uma vontade em desestimular não a aquisição, mas a própria intenção na propriedade – mina-se a expectativa pelo direito, por via oblíqua.
Quanto à faixa etária para a aquisição de arma de fogo, o artigo 28 alterou a previsão da Lei 9.437/97, vedando a compra de arma de fogo por menor de 25 (vinte e cinco) anos: “Art. 28. É vedado ao menor de 25 (vinte e cinco) anos adquirir arma de fogo, ressalvados os integrantes das entidades constantes dos incisos I, II, III, V, VI, VII e X do caput do art. 6o desta Lei”.
Observa-se que essa definição de idade difere das faixas etárias da responsabilidade civil, criminal ou eleitoral, as quais variam entre 18 (dezoito) e 21 (vinte e um anos), definindo o legislador, que indivíduos menores de 25 (vinte e cinco) anos, não seriam capazes de possuir uma arma de fogo, mas seriam sim capazes de, por exemplo, conquistar um cargo de prefeito municipal ou deputado federal. Sobre este tema, Facciolli (2010, p. 331) assevera:
A intenção do legislador foi clara: desarmar as faixas etárias com idade inferior a 25 anos por acreditar que, com esta medida reduziria os níveis de violência e homicídios no Brasil. A idade – 25 anos – por si só não pode ser usada como termômetro para avaliar o grau de maturidade ou de responsabilidade do cidadão. O uso de armas é atividade técnica, que, por si só, contribui para disciplinar o indivíduo. O tiro não é uma modalidade desportiva?
Basicamente com base na interpretação do Estatuto do Desarmamento, ficou definido que a aquisição de armas por particulares (civis) permaneceu permitida, mas com ressalvas, como por exemplo, possuir idade mínima de 25 anos; possuir ocupação licita e residência certa; comprovar idoneidade por meio de apresentação de certidões negativas de antecedentes criminais e certidões negativas de distribuição de processos criminais; não estar respondendo inquérito policial; apresentar capacidade técnica e aptidão psicológica; declarar efetiva necessidade; efetuar o pagamento de taxa;
Além disso, faz-se necessário que este acompanhamento seja feito por um psicólogo credenciado, responsável por esta avaliação, e após isto, realizar uma prova pratica onde são observadas as capacidades de manuseio e a sua destreza ao realizar os tiros e outros atos relacionados.
Desse modo, após finalizar as etapas, o cidadão poderá adquirir por meio de um lojista ou vendedor autorizado pelo Superintendente Regional da Polícia Federal, e assim deverá efetuar seu registro, será permitido manter a sua arma no interior de sua propriedade ou quando titular de um estabelecimento comercial.
Já com relação à validade do Certificado de Registro, este terá vigor por três anos, devendo ser renovado seguindo o mesmo processo descrito acima, sendo este registro realizado no SINARM.
Cabe aqui realizar uma ressalva, destacando que no SIGMA, há uma maior restrição nas autorizações de compra, devendo se limitar aos colecionadores, atiradores ou caçadores, no qual começa com uma apresentação de requerimento ao chefe do serviço de fiscalização de produtos controlados, com certidões de antecedentes criminais e outros documentos, valendo-se também por três anos.
Apesar de ambos os sistemas apresentarem regimes rígidos, estes se diferenciam no que se refere ao tipo de armas que permitem o registro, uma breve comparação entre eles indica que enquanto o SINARM autoriza armas de uso permitido a pessoas civis (comuns), o SIGMA permite a aquisição de armas tanto de uso permitido quanto para uso restrito.
Outro aspecto de que trata a Lei 10.826/2003 é referente à distinção entre posse e porte de arma de fogo, a qual está especificada no artigo 12, conforme expresso in verbis:
Art. 12. Possuir ou manter sob sua guarda arma de fogo, acessório ou munição, de uso permitido, em desacordo com determinação legal ou regulamentar, no interior de sua residência ou dependência desta, ou, ainda no seu local de trabalho, desde que seja o titular ou o responsável legal do estabelecimento ou empresa.
Portanto, se a arma, acessório ou munição, estiver na residência ou na empresa, na qual o infrator seja o dono ou o chefe hierarquicamente superior aos demais funcionários, configura-se a posse. Se o autor do fato estiver em uma residência a passeio, por exemplo, ou se for apenas funcionário da empresa onde a arma for encontrada, trata-se de porte de arma de fogo, enquadrando-se na regra do art. 14, se a arma for de uso permitido ou no art. 16, se de uso restrito.
Cabe mencionar que existe uma diferença entre o certificado de registro e o porte de arma de fogo, pois de acordo com o artigo 5º da Lei 10.826/03 e o artigo 16 do Decreto 5.123/04, o certificado concede ao proprietário o direito de mantê-la apenas e exclusivamente no interior de rua residência ou dependência do local de trabalho, isso se o dono da arma for
também o titular ou o responsável legal do estabelecimento. De forma que, o proprietário deverá escolher, no momento da solicitação do registro, o endereço no qual a arma será guardada, tendo validade no período de três anos.
O artigo 30 concedeu, inicialmente, o prazo de 180 (cento e oitenta) dias para que os possuidores e proprietários de arma de fogo providenciassem o registro. As prorrogações de prazo se sucederam até o dia 31/12/2008, mas tão somente em relação às armas de fogo de uso permitido (Lei 11.706⁄2008).
Os possuidores de armas de fogo em situação irregular, seja por falta de registro até 31/12/2008 ou por não ser possível comprovar a aquisição lícita, poderiam, espontaneamente, entregá-las à Polícia Federal, mediante indenização, para se livrarem-se de ação penal em curso em razão da referida arma, enquanto que aos possuidores e proprietários de armas de fogo já regularizadas, estes poderão, a qualquer tempo, entregá-las à Polícia Federal.
Com base no teor da Lei n. 10.286, de 22 de dezembro de 2003, a qual ficou conhecida como Lei do Desarmamento, constata-se que a partir desta se tornou mais difícil que armas de fogo e munição sejam adquiridas legalmente. A Lei n. 10.286/2003 determina que para adquirir uma arma de fogo, de uso permitido, além de declarar a efetiva necessidade, é preciso comprovar idoneidade, ocupação lícita, residência certa e capacidade técnica e de aptidão psicológica para o manuseio de arma de fogo.
As exigências impostas pela Lei do Desarmamento implicaram o aumento do custo final de aquisição legal de armas de fogo. Condição esta que poderia repercutir no aumento da compra ilegal de armas de fogo e munição, no entanto, a lei também tornou mais rígidas as penalidades para a posse e porte ilegal de armas de fogo. Desde a regulamentação da lei, o porte ilegal de armas de fogo, acessório ou munição de uso permitido, mas em desacordo com a lei, implica pena de detenção de um a três anos e multa.
Apesar de parecer insustentável a ideia de que seja possível em nome de um suposto direito adquirido ou de uma garantia individual, o enfrentamento da violência armada, tanto do ponto de vista da doutrina como das ciências modernas. Ainda assim, a corrida armamentista mostra-se como uma ação coletiva em resposta ao apelo da sociedade na busca da segurança negligenciada pelo Estado.
De outro lado, as argumentações em favor do desarmamento se identificam com a noção de luta por um mundo melhor, mais digno e mais humano. Apresentam aspectos condizentes com a exigência de critérios e normas voltados ao planejamento democrático, valorizando a educação e a cidadania. Trata-se de uma vertente que segue paralela àquelas que defendem a questão do Ambientalismo e do Desenvolvimento Econômico sustentável ou responsável.
2 CARACTERIZAÇÃO DE COMÉRCIO, POSSE E PORTE DE ARMAS DE FOGO NO BRASIL
Neste capítulo irá se tratar dos aspectos que envolvem o comércio, a posse bem como o registro, e ainda o porte de armas de fogo no Brasil, considerando para tanto a legislação pertinente ao tema.
Romero (2018) explica que o Estatuto do Desarmamento define como sendo proibida, de modo genérico, a comercialização de arma de fogo e munição em todo o território nacional. Ocorre, entretanto, que tal vedação não é absoluta, havendo a possibilidade de uma série de indivíduos poder adquirir armas de fogo para diferentes motivos ou finalidades. Para que isso ocorra, determinado indivíduo não só deve amparar seu pedido em justificativa válida elencada nos dispositivos pertinentes, bem como seguir e adequar-se às normas e regras vigentes na legislação, voltadas para cada caso em questão.
Com algumas exceções, a exemplo do rol elencado no artigo 6º do Estatuto do Desarmamento, três são as classes de indivíduos que podem, em concordância com as determinações legais e administrativas, adquirir arma de fogo própria (ROMERO, 2018). São elas:
Cidadão: Há uma série de requisitos obrigatórios, conforme disposto no artigo 4º do Estatuto do Desarmamento, que permitem ao cidadão comum possuir uma arma de fogo, dos quais são alguns a declaração de necessidade, comprovação de residência fixa e ocupação lícita, idoneidade, apresentação de certidões negativas criminais, entre outros. A competência para registro e fiscalização nesses casos é da Polícia Federal, através do SINARM. Deste modo, a pessoa física (ou jurídica, a depender do caso e com suas especificidades) que tiver interesse de adquirir uma arma de fogo para defesa pessoal, seja em sua residência ou trabalho (desde que este seja o proprietário do mesmo), deverá encaminhar-se a uma loja autorizada de armas de fogo, escolher a arma a ser comprada, encaminhar a solicitação de compra ao SINARM e seguir o procedimento obrigatório. A liberação da arma pela loja ocorrerá após a completa realização do registro e esta ficará adstrita ao local especifico para qual fora realizado o pedido (residência, domicílio, local de trabalho). Há outros modos de se adquirir arma de fogo, como através de herança ou compra de particular, por exemplo, que seguem as mesmas regras, cada qual com suas especificações.
Atirador Desportivo: É a pessoa física regularmente inscrita em clube de tiro desportivo e possuidor de CR (certificado de registro). A competência para registro e fiscalização nesses casos é do Comando do Exército. Aquele que tiver interesse em tornar-se atirador desportivo, deve procurar um clube de tiro, realizar sua matrícula e inscrição, e procurar a Região Militar responsável por sua área e iniciar os procedimentos para obtenção de seu CR, para só posteriormente iniciar os trâmites separadamente para cada arma que pretender adquirir. Fazem parte de tais procedimentos, entre outros, o exame de aptidão técnica com arma de fogo, exame psicológico, prática habitual de tiro, apresentação de certidões negativas criminais e instalação adequada para guarda da arma.
Colecionador: É a pessoa física ou jurídica que tem por finalidade adquirir, reunir e manter sob sua guarda acervo de produtos controlados pelo exército concernentes à arma de fogo e afins, preservando-os e divulgando-os como patrimônios culturais históricos.
Caçador: É a pessoa física vinculada a entidade de caça ou tiro desportivo, cuja finalidade é a do abate de fauna conforme regulamentação do IBAMA. Nota-se que colecionadores e caçadores também possuem fiscalização de competência do Exército, vez em que grande parte dos procedimentos para registro de CR e obtenção de arma de fogo são semelhantes ou idênticos aos dos atiradores desportivos.
Pode-se verificar a gama de possibilidades fáticas que o cidadão ainda possui para adquirir legalmente uma arma de fogo no Brasil, excetuando-se as divergências institucionais de cada estado da Federação e não adentrando-se ao mérito das questões sociais e políticas acerca do tema.
Com base no que se pode inferir da Lei n. 10.826/03, “posse” significa possuir ou manter sob sua guarda arma de fogo, no interior de sua residência ou dependência dela ou em seu local de trabalho, desde que seja o titular ou o responsável legal do estabelecimento ou empresa. Ou seja, possuir arma de fogo, significa tê-la em casa ou no trabalho, sem trazê-la consigo fora de suas propriedades. Dentro de sua casa o indivíduo pode usar sua arma carregada na condição que se desejar.
criminais, que alegue necessidade, sendo que não é necessário provar, e capacidade psicológica e técnica para o manuseio.
O Art. 3º afirma que é obrigatório o registro de arma de fogo no órgão competente, que no caso é a Polícia Federal. As armas de fogo de uso restrito (pistolas automáticas de grosso calibre, metralhadoras, fuzis e as de operação de guerra) serão registradas no Comando do Exército, na forma do regulamento da Lei n. 10.826/03.
O Certificado do Registro tem validade de três anos, e a cada renovação deverá ser comprovado o preenchimento aos requisitos previstos no art. 12, incisos IV, V, VI e VII do Decreto n. 5.123/04, o qual tem a finalidade de regulamentar a Lei n. 10.826/03.
O conteúdo do registro será ser relativo aos dados do interessado na concessão de aquisição da arma e os dados específicos da arma referentes a identificação do cano da arma, as características das impressões de raiamento e de microestriamento de projétil disparado, em conformidade com o art. 15 do mesmo decreto.
Além disso, uma arma pode ser comprada diretamente de outra pessoa, desde que seja registrada e autorizada pela Polícia Federal; e através do SINARM a arma receberá um novo registro. No entanto, em casos de colecionadores, atiradores, caçadores e de representantes estrangeiros em competição internacional de tiro, realizada em território nacional, cabe então, ao Comando do Exército registrar e conceder o porte de trânsito de arma de fogo. Portanto, há uma exceção na lei para casos de portes de armas, pois um colecionador não poderá adquirir em sua residência apenas uma arma.
Os cursos de especializados de tiro e manuseio de arma de fogo é de suma importância para que comprove a capacidade técnica do indivíduo, além dos exames psicológicos através do laudo expedido pelo psicólogo cadastrado pela Polícia Federal.
Cabe ainda destacar que a autorização de arma de fogo é pessoal e intransferível, não podendo assim, o requerente transferi-la para outra pessoa, sob pena de responsabilidade criminal. Vale ressaltar que:
a) A munição deve ser do mesmo calibre;
da compra da munição (documento de identidade, autorização para a compra e o porte de arma);
c) Caso o comprador apresente documentação falsa, além de não vender, deve-se informar a polícia Federal para que providencias cabível sejam tomadas;
d) Empresas que comercializarem arma de fogo em território nacional, deverá comunicar à Polícia Federal.
Em caso de transferência da arma de fogo, é feita com prévia autorização do SINARM através da Polícia Federal; e uma vez concretizada a transação, a arma será registrada em nome do novo proprietário que não terá direito ao porte, porque este é proibido tirando as exceções.
É valido lembrar que o registro será pessoal e intransferível, pois em caso da arma adquirida por herança não poderá ser transacionada. Em caso de herança e se a arma já era registrada, deve ser então, requerida a transferência para o novo proprietário, tendo assim um novo registro. Se a arma não possuía registro anterior, o interessado fará uma declaração de bem de herança, sob as penas do art. 299 do CP, reconhecerá a sua firma em cartório e a enviará à Polícia Federal requerendo o registro da arma.
O registro de arma de fogo tem validade em todo o território nacional, porém os registros expedidos pelos órgãos de segurança dos Estados tiveram validade pelo prazo de 90 (noventa) dias após a data da publicação do Estatuto do Desarmamento (22/12/2003), já que os órgãos de segurança estatuais deixaram de ter competência para expedir registro de arma e porte.
Em tese, portar alguma coisa significa trazê-la consigo. Quando se fala em arma de fogo, significa trazê-la consigo e pronta para o uso (alimentada, municiada, carregada e coldreada ou nas próprias mãos).
O legislador, contudo, resolveu ampliar um pouco este conceito para ter certeza de cercear ao máximo as liberdades do brasileiro. O porte de armas de fogo é proibido no Brasil desde 2003, com a vigência do Estatuto do Desarmamento. A própria Lei estabeleceu 11 exceções, em sua maioria pertinentes a funcionários públicos, a saber:
I – os integrantes das Forças Armadas;
II – os integrantes de órgãos referidos nos incisos do caput do art. 144 da Constituição Federal;
III – os integrantes das guardas municipais das capitais dos Estados e dos Municípios com mais de 500.000 (quinhentos mil) habitantes, nas condições estabelecidas no regulamento desta Lei;
IV – os integrantes das guardas municipais dos Municípios com mais de 50.000 (cinqüenta mil) e menos de 500.000 (quinhentos mil) habitantes, quando em serviço; (Redação dada pela Lei nº 10.867, de 2004)
V – os agentes operacionais da Agência Brasileira de Inteligência e os agentes do Departamento de Segurança do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República;
VI – os integrantes dos órgãos policiais referidos no art. 51, IV, e no art. 52, XIII, da Constituição Federal;
VII – os integrantes do quadro efetivo dos agentes e guardas prisionais, os integrantes das escoltas de presos e as guardas portuárias;
VIII – as empresas de segurança privada e de transporte de valores constituídas, nos termos desta Lei;
IX – para os integrantes das entidades de desporto legalmente constituídas, cujas atividades esportivas demandem o uso de armas de fogo, na forma do regulamento desta Lei, observando-se, no que couber, a legislação ambiental.
X – integrantes das Carreiras de Auditoria da Receita Federal do Brasil e de Auditoria-Fiscal do Trabalho, cargos de Auditor-Fiscal e Analista Tributário. (Redação dada pela Lei nº 11.501, de 2007)
XI – os tribunais do Poder Judiciário descritos no art. 92 da Constituição Federal e os Ministérios Públicos da União e dos Estados, para uso exclusivo de servidores de seus quadros pessoais que efetivamente estejam no exercício de funções de segurança, na forma de regulamento a ser emitido pelo Conselho Nacional de Justiça – CNJ e pelo Conselho Nacional do Ministério Público – CNMP.
Como se pode verificar, as empresas de segurança privada e as de transporte de valores têm o direito de possuir armas devido o risco que correm nas suas atividades. Seus agentes não podem portar arma fora do serviço. As armas que utilizam pertencem exclusivamente às empresas sendo todas registradas em nome delas. O extravio e a perda de arma da empresa devem ser comunicadas pela diretoria ou gerência das empresas à Polícia Federal que enviará as informações ao SINARM a fim que sejam tomadas as providências cabíveis. A omissão na comunicação lhes acarretará responsabilidade penal.
No caso de residentes rurais que comprovem a necessidade do uso de arma de fogo, no entanto, será autorizado na categoria de caçador, que por sua vez, deverá primeiro deverá ser cadastrado e registrado no IBAMA para obter a licença e poder caçar o necessário para sua subsistência e de sua família.
A ideia também é essencialmente relevante para os chamados CACs (Colecionadores, Atiradores e Caçadores), os quais, de acordo com o Art. 6º do estatuto tem o direito de portar armas para esta categoria (inciso IX), o que é razoável, considerando que estes têm preparo e são devidamente treinados para o uso e manuseio das armas que possuem. Assim, ao requerer
a licença para a compra da arma e o porte na modalidade “caçador” deverá apresentar o certificado de registro e a licença do IBAMA, além das demais documentações exigidas pelo SINARM. A arma de caça é a espingarda, não podendo o caçador se utilizar de outro tipo de armamento, e não pode ser portada publicamente e em locais incompatíveis sob pena de ser apreendida, bem como a licença e o porte serem caçados e o infrator responde criminalmente.
Além disso, os estados têm competência para legislar sobre o consentimento do porte de arma para os casos julgados especiais. Pode-se citar como exemplo os policiais aposentados. A autorização, neste caso, está implícita na Carteira Funcional que o policial recebe ao se aposentar. No entanto, este ato governamental justifica, pois, os policiais e seus familiares sempre correm risco de vingança da parte de marginais, por isso, devem portar arma para a sua defesa e de sua família. Porquanto, os integrantes de Forças Armadas, poderão portar, sem sombras de dúvidas, portar arma independente de autorização.
Salienta-se que a lei procura coibir o uso de arma de fogo em pequenas cidades, cujo efetivo da guarda municipal destaca-se apenas para a proteção dos bens públicos municipais.
O porte de arma de fogo é pessoal e intransferível, de forma que, a lei considera crime ceder ou emprestar arma a outra pessoa, mesmo que essa também possua porte.
Em se tratando de porte de arma de fogo, cabe diferencia-lo de transporte, na medida em que no caso do porte a arma está pronta para o uso imediato, enquanto que no simples transporte a arma não deve ter condições de uso imediato. De forma que, em tese, quem está levando uma arma desmuniciada, não está portando, mas sim transportando uma arma de fogo. Porém, a Lei n. 10.826/03 não deixa clara essa diferença, já que mesmo quem esteja transportando uma arma pode responder pelo crime de porte de arma de fogo.
Em 2004 foi promulgado o Decreto 5.123/04 que equiparou o conceito de porte ao de transporte, ao regular o inciso IX do Art. 6º da Lei 10.826/03, apresentando o termo “porte de trânsito”, o qual deverá ser solicitado junto à Polícia Federal, na hipótese de o proprietário de arma de fogo de uso permitido, mudar de domicílio, ou na ocorrência de outra situação que implique no transporte da arma.
técnica para o manuseio, ou extrema necessidade ou em casos de atividade profissional de risco ou de ameaça à sua integridade física, assim como o art.10, § 1º, I.
O Decreto 5.123/04 prevê que a suspensão do Porte ocorrerá na hipótese de o titular deixar de comunicar imediatamente, a mudança de domicílio ao órgão expedidor do Porte, e, também, quando deixar de comunicar o extravio, furto ou roubo da arma à Unidade Policial mais próxima e, posteriormente, à Polícia Federal. O prazo a ser estipulado para suspensão ficará a cargo da autoridade concedente do porte conforme expresso no art. 25.
De acordo com o art. 26 desse decreto, haverá cassação do porte e a respectiva apreensão da arma se o titular do Porte de Arma de Fogo conduzi-la ostensivamente, ou com ela adentrar ou permanecer em locais públicos ou locais que haja aglomeração de pessoas, e ainda se a estiver portando em estado de embriaguez ou sob efeito de drogas ou medicamentos que provoquem alteração do desempenho intelectual ou motor.
2.1 TIPIFICAÇÃO CRIMINAL: POSSE E PORTE DE ARMAS
Com as mudanças do ordenamento jurídico que regula o Porte e a Posse de arma de fogo, nota-se que estas foram separadas em artigos diferentes, visto que deveriam ser diferenciadas a fim de não mais se confundir os tipos penais.
O Estatuto do Desarmamento traz em seu artigo 12 essa tipificação penal:
Art. 12. Possuir ou manter sob sua guarda arma de fogo, acessório ou munição, de uso permitido, em desacordo com determinação legal ou regulamentar, no interior de sua residência ou dependência desta, ou, ainda no seu local de trabalho, desde que seja o titular ou o responsável legal do estabelecimento ou empresa:
Pena - detenção, de 1 (um) a 3 (três) anos, e multa(BRASIL, 2003).
Como se pode verificar, o Estatuto do Desarmamento em seu art. 12, trata sobre a posse irregular de arma de fogo, que por sua vez, pressupõe que o fato ocorra no interior da própria residência do agente ou dependência desta, ou ainda, no ambiente de trabalho do infrator, diferenciado do porte que é trazer a arma junto de si, transitar com ela.
No caso da posse irregular de arma de fogo, em casos de omissão de cautela, trata-se de crime culposo na modalidade de negligência ou imprudência do proprietário da arma em
deixá-la às vistas do menor de 18 anos ou de pessoa portadora de deficiência. A pena é de detenção de 1 (um) a 2 (dois) anos e multa. No entanto, as mesmas penas incorrem ao proprietário ou diretor de uma empresa de segurança ou de transportes de valores deixarem de registrar ocorrência policial e de comunicar à Polícia Federal, perda, furto, roubo ou outras formas de extravio de fogo.
Diferenciando os crimes de posse irregular e porte ilegal de arma de fogo, Fernando Capez (2006, p. 14):
O registro assegura o direito à posse da arma de fogo pelo interessado nos locais indicados pela lei. A ausência do registro torna a posse irregular, caracterizando a figura criminosa do art. 12 (arma de fogo de uso permitido) ou art. 16 (arma de fogo de uso restrito). A concessão do porte de arma de fogo, por sua vez, permite que o sujeito traga a arma de fogo consigo, transportando-a de um lugar para outro. O porte ilegal de arma configura os crimes previstos nos arts. 14 (arma de fogo de uso permitido) ou 16 (arma de fogo de uso restrito).
No caso de porte ilegal de arma de fogo de uso permitido, se pessoa não tem autorização para portar arma fora de seu domicílio estará infringindo o disposto no art. 14, mesmo que tenha o registro da arma em seu nome.
O artigo 14 do Estatuto do Desarmamento, é exaustivo quanto à maneiras de configurar o delito de porte ou posse ilegal de arma de fogo:
Art. 14. Portar, deter, adquirir, fornecer, receber, ter em depósito, transportar, ceder, ainda que gratuitamente, emprestar, remeter, empregar, manter sob guarda ou ocultar arma de fogo, acessório ou munição, de uso permitido, sem autorização e em desacordo com determinação legal ou regulamentar:
Pena – reclusão, de 2 (dois) a 4 (quatro) anos, e multa.
Parágrafo único. O crime previsto neste artigo é inafiançável, salvo quando a arma de fogo estiver registrada em nome do agente.
É evidente que desta vez o legislador concluiu que o porte ilegal de arma de fogo de uso permitido é um crime grave, salvo se a arma é registrada em nome de seu detentor.
O bem jurídico tutelado pelos tipos penais de posse e porte ilegal de arma de fogo são a segurança coletiva e a incolumidade pública, visando amortizar a circulação de armamentos. Sendo assim, a norma penal contém uma presunção abstrata de que a utilização desses artefatos em desacordo com os preceitos de lei ou de regulamentos causa perigo de lesão aos bens jurídicos protegidos, que são, como dito, a segurança coletiva e a incolumidade pública
nos dois primeiros tipos, acrescidos do controle pelo Estado das armas existentes no país, na norma contida no art. 16 e seu parágrafo único.
Percebe-se que a lei procurou abranger qualquer possibilidade de porte ou posse irregular de uma arma de fogo. Facciolli (2010, p.220) afirma que: “Não temos a menor dúvida de que a intenção do legislador foi a de esgotar, ao máximo, o rol de ações passíveis de enquadramento penal, com o fito de intimidar criminosos e pessoas que usam de forma indiscriminada e sem controle armas, munições ou acessórios.”
Apesar disso, esse crime vem sendo questionado sobre sua tipicidade levando em consideração a existência de punibilidade para os crimes de perigo abstrato.
Segundo Damásio de Jesus, ao citar Roxin:
Perigo presumido (ou abstrato) é considerado pela lei em face de determinado comportamento positivo ou negativo (valoração ex ante). Não precisa ser provado. Ocorre nos casos em que o comportamento não apresenta probabilidade real de dano ao bem jurídico, i.e., não o expõe a perigo de dano. É a lei que o presume júris et de jure, sob o fundamento de que a periculosidade típica da conduta já é motivo para a sua apenação, sem que fique na dependência da produção de dano [...]. Diante disso, para que o perigo seja considerado não é necessário provar sua superveniência (ROXIN, 2001 Apud JESUS, 2006, p. 03).
A partir deste conceito, verifica-se que o perigo abstrato ou perigo presumido ocorre quando não há probabilidade real do dano. Diversas são as hipóteses do Perigo Abstrato em que sua suposição legal é a de que algumas condutas põem em risco o bem jurídico tutelado não se exigindo um perigo efetivo para configurar os elementos do tipo penal. Já que, de acordo com a lei, constitui crime meras condutas como de possuir, deter, portar, adquirir, etc. Sendo assim, o pressuposto da criminalização não é tomado pelo legislador como lesividade concreta a um bem jurídico neste delito.
Também é crime disparar arma de fogo. A pena é de reclusão de 2 (dois) a 4 (quatro) anos e multa; e é inafiançável. Se caso o disparo resultar em lesão corporal a outrem, o infrator responderá pelo crime de lesão corporal culposa, art.129, § 6º do CP, com detenção de 2 (dois) meses a 1 (ano). Mas, se o disparo resultar na morte da vítima, o infrator responderá por infração ao art. 121, § 3º do CP (homicídio culposo).
Se o agente disparar a arma em local de grande afluência de pessoas e chegar a matar alguém, sem ao menos ter a intenção da ação, também responderá por infração do art.121,caput. No entanto, em caso de posse ou porte ilegal de arma de fogo de uso restrito, vai de 3 (três) a 6 (seis) anos de reclusão e multa.
Consuma-se crime o simples fato de o agente raspar o número, emblema ou qualquer sinal de identificação da arma para torná-la irreconhecível caracteriza o crime doloso que se consuma de imediato, isto é, instantâneo. Trata-se de crime inafiançável, porque a pena é a de reclusão e multa.
Além disso, o comércio ilegal de arma de fogo e tráfico de armas, configura-se crime previsto no Estatuto do Desarmamento, e suas penas vão de 4 (quatro ) a 8 (oito) anos de reclusão e multa.
3 SOBRE A LEGALIZAÇÃO DO COMÉRCIO, POSSE E PORTE DE ARMAS DE FOGO NO BRASIL
Nos últimos tempos a discussão sobre a conveniência ou não da limitação do acesso da população, sem antecedentes criminais, a armas de fogo para fins de autodefesa pessoal e patrimonial, tem se intensificado, em função da crescente criminalidade que assola o país. Afirma-se que os obstáculos legais somente têm efetividade quanto ao acesso às armas de fogo pelas pessoas não envolvidas em criminalidade ou que não tenham por fim essas práticas. Quanto aos criminosos, como é de sua natureza, pouco se lhes importa as proibições ou autorizações legais. Essa alegação é realmente procedente. O infrator da lei realmente não se importa nem mesmo um mínimo que seja com a existência ou não de um “Estatuto do Desarmamento”. Por outro lado, a população em geral, não envolvida em práticas criminosas, se vê às voltas com toda uma burocracia legal para a posse e, especialmente, a autorização do porte legal de uma arma de fogo.
Muitas são as dúvidas sobre os efeitos do armamento civil e sua possível relação com um aumento de confrontos lesivos e letais em situações do cotidiano, bem como uma possível facilitação do acesso dos criminosos a essas armas que estariam então de posse da população civil. Do mesmo modo, questiona-se se a flexibilização do acesso às armas poderia resultar na redução dos índices criminais, como defendem os armamentistas, ou poderia implicar em um maior número de armas disponíveis ao acesso dos criminosos; neste sentido apresentam-se as argumentações favoráveis e contrárias.
3.1 ARGUMENTAÇÕES FAVORÁVEIS E CONTRÁRIAS
Vários fatores mostram-se relevantes quando se debate a questão do desarmamento. Um argumento frequentemente apresentado pela corrente que é contra a liberação das armas à população refere-se ao grande número de homicídios que marca as estatísticas criminais brasileiras. Em resposta a isso, os defensores da liberação destacam que a estatística crua não revela o fato de que a quase totalidade desses homicídios é perpetrada por criminosos contumazes com armas ilegais ou por jovens violentos que não teriam acesso às armas legalizadas (SANTOS, 1999).
Em contraponto, destaca-se a situação de que o armamento da sociedade civil não afetaria o comércio ilegal de armas de fogo, pelo contrário, a viabilização desse comércio
fatalmente acarretaria na redução dos valores das armas no “mercado negro”. Justamente em função disso, é que considera-se ilusória a ideia de que a mudança na lei tornaria possível um maior controle sobre a circulação de armas no país, haja vista que, além dos criminosos, muitos cidadãos tidos como pessoas de bem, também optariam pelo comércio ilegal cujos valores seriam bem mais atrativos.
Outra possibilidade é o de que o civil armado, ao tentar resistir a uma abordagem de um criminoso, num roubo, por exemplo, possa se ferir ou mesmo ser morto, aumentando a letalidade que já é enorme no Brasil e ainda ensejando ao infrator a possibilidade de subtração de mais uma arma de fogo e munição. Demais disso, sustenta-se que armas de fogo são, sobretudo, instrumentos de ataque e não de defesa, o que, ao menos em tese, traria mais riscos aos cidadãos armados.
Neste sentido Cerqueira e Mello explicam que geralmente os argumentos são os seguintes:
i) o indivíduo que possui uma arma de fogo fica encorajado a dar respostas violentas para a solução de conflitos interpessoais; ii) o possuidor de armas fica com poder para coagir; iii) do ponto de vista do criminoso, a posse da arma de fogo faz aumentar a produtividade e diminuir o risco de o perpetrador cometer crimes; e iv) o aumento da facilidade e do acesso às armas significa diminuição do custo da arma pelo criminoso no mercado ilegal. (CERQUEIRA; MELLO, 2012, p. 7).
Ehrlich (2002) menciona que em países como o Canadá, onde a população não costuma ter armas de fogo em casa, os índices de invasões residenciais para roubos, mesmo com os moradores presentes, é “três vezes maior” do que em países como os Estados Unidos, “onde o porte de armas é mais comum”; o que demonstraria que a presença de armas nas residências dos cidadãos civis pode implicar na redução dos crimes que envolvam arrombamentos e roubos as moradias.
No entanto, o estudo realizado por Cerqueira e Mello (2012, p. 7), sobre o tema, indicou exatamente o contrário, inclusive citam outros trabalhos realizados, por “Bronars e Lott Junior (1998), Lott Junior e Mustard (1997), Kleck (1979) e Bartley e Cohen (1998)”, os quais indicam que “mais armas significam menos crimes.”
[...] não se alcançou ainda um consenso acerca do efeito causal entre armas de fogo e aumento da criminalidade. Possivelmente isto decorre das dificuldades metodológicas envolvidas, que passam pela busca por uma medida confiável de prevalência de armas de fogo nas cidades, além dos clássicos problemas de simultaneidade e de variáveis omitidas.
Há quem veja inconstitucionalidade nas normas restritivas em relação ao uso de armas de fogo por parte dos cidadãos – este é um dos aspectos guerreados nas ações de inconstitucionalidades que ora tramitam na Corte Suprema - pois a lei que pretende proibir a aquisição e o porte de arma de fogo por qualquer cidadão, excetuando-se, logicamente, aqueles que por dever profissional e por amparo legal devam portar armas, seria flagrantemente contrária ao espírito da Constituição.
Isso porque foi o Estatuto Político que preceituou o direito à segurança, dentre aqueles enunciados no “caput” do art. 5º, dispositivo que perfaz a síntese dos direitos e garantias individuais. E no capítulo constitucional que trata da segurança pública, no art. 144, dispõe que a segurança é dever do Estado e responsabilidade de todos, nestas letras: “A segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos [...]” (BRASIL, 1988) infere-se, portanto, que a propriedade, bem como o porte de arma de fogo, constitui instrumento hábil para a defesa pessoal, já que o Estado está impedido de, por meio de seus agentes públicos, dotados do poder de polícia de segurança, encontrar-se, de forma onipresente, em todas as situações em que se apresente o delito, a ameaça à vida, ao patrimônio e a outros bens jurídicos julgados relevantes pelo legislador (ANDRADE, 1999).
Analisando a questão do desarmamento sob a ótica dos “Direitos Humanos”, Santos (1999) aponta para o fato de que tanto a legislação brasileira, quanto os documentos legais externos que garantem esses direitos, não se mostram como sendo impeditivos da autodefesa do cidadão quando sofre exatamente uma violação de seus próprios direitos por parte de criminosos que atacam sua liberdade, sua integridade física, seu patrimônio e, até mesmo, sua vida. Nesse sentido, os óbices ao armamento civil do cidadão seriam obstáculos, em última análise, à efetividade da “legítima defesa própria e de terceiros” em momentos em que o Estado não se faz presente para garantir a Segurança Pública.
Ou seja, um dos argumentos apresentados por aqueles que defendem a legalização do porte de arma de fogo é que, diante da impossibilidade do Estado em proporcionar segurança pública à sociedade, o uso de armas de fogo por cidadãos de bem reduzirá a criminalidade