INSTITUTO DE ESTUDOS DA LINGUAGEM
FLAVIO DA ROCHA BENAYON
REVOLUÇÃO EM 1930: SENTIDOS EM DISPUTA NA
CONSTITUIÇÃO DA HISTÓRIA
CAMPINAS,
2017
CONSTITUIÇÃO DA HISTÓRIA
Dissertação de mestrado apresentada ao Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas para obtenção do título de Mestre em Linguística.
Orientadora: Profa. Dra. Suzy Maria Lagazzi
Este exemplar corresponde à versão final da Dissertação defendida pelo aluno Flavio da Rocha Benayon e orientada pela Profa. Dra. Suzy Maria Lagazzi.
CAMPINAS,
2017
Ficha catalográfica
Universidade Estadual de Campinas Biblioteca do Instituto de Estudos da Linguagem
Crisllene Queiroz Custódio - CRB 8/8624
Benayon, Flavio da Rocha,
B431r BenRevolução em 1930 : sentidos em disputa na constituição da história / Flavio da Rocha Benayon. – Campinas, SP : [s.n.], 2017.
BenOrientador: Suzy Maria Lagazzi.
BenDissertação (mestrado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Estudos da Linguagem.
Ben1. Análise do discurso. 2. Movimentos sociais - Brasil - 1920-1930. 3. Designação (Lingüística). 4. Memória coletiva Brasil. 5. Brasil História Tenentismo 19221934. 6. Brasil História Revolução, 1930. 7. Brasil -História - Aliança liberal - 1930. I. Lagazzi, Suzy,1960-. II. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Estudos da Linguagem. III. Título.
Informações para Biblioteca Digital
Título em outro idioma: Revolution in 1930 : senses in dispute in the constitution of history Palavras-chave em inglês:
Discourse analysis
Social movements - Brazil - 1920-1930 Designation (Linguistics)
Collective memory - Brasil
Brazil - History - Tenentism - 1922-1934 Brazil - History - Revolution, 1930 Brazil - History - Liberal alliance, 1930 Área de concentração: Linguística Titulação: Mestre em Linguística Banca examinadora:
Suzy Maria Lagazzi [Orientador] Vanise Gomes de Medeiros Guilherme Adorno de Oliveira Data de defesa: 12-05-2017
Programa de Pós-Graduação: Linguística
BANCA EXAMINADORA: Suzy Maria Lagazzi
Vanise Gomes de Medeiros Guilherme Adorno de Oliveira
Claudia Regina Castellanos Pfeiffer Luciana Nogueira
IEL/UNICAMP 2017
Ata da defesa com as respectivas assinaturas dos membros encontra-se no processo de vida acadêmica do aluno.
e confiança, além do amor e segurança, que me possibilitaram constituir um percurso acadêmico e de vida.
Ao IEL, pelo espaço que proporcionou encontros extraordinários. Agradeço pelas derivas que tiveram ocasião nas aulas, a partir da exposição do confronto singular de diferentes professores com os saberes que se arriscavam a enunciar; às conversas acompanhadas de cafés; às reuniões para a escrita de cartas-manifesto nos tempos de luta – que perduram; às discussões, que não devem cessar.
Em meu percurso pelo IEL, a presença de Suzy Lagazzi, minha orientadora, foi imprescindível. Agradeço pelas aulas instigantes, pelas leituras atentas de minha dissertação – que foram determinantes para a constituição de meu trabalho – e pelos textos de sua autoria, que me consumiam vorazmente, possibilitando-me uma compreensão outra da prática materialista. Também sou grato por sua leveza e humanidade enquanto orientadora.
Aos professores da UNICAMP, especialmente aos que tive a oportunidade e o prazer de escutar em suas aulas provocantes: Suzy Lagazzi, Lauro Baldini, Mónica Zoppi, Nina Leite, Sheila Elias, Eduardo Guimarães e Aquiles Tescari. Agradeço também a Juanito Avelar, por me permitir acompanhá-lo como PED e pelas excelentes aulas na graduação. Sou igualmente grato aos funcionários da UNICAMP, pela eficiência e disposição.
Às valiosas amizades constituídas na pacata Barão Geraldo. Além de serem preciosas pela relação singular criada, foi o motivo fundamental para que a alegria existisse no cotidiano de Campinas. Pelas conversas, pelos cafés, pelas brigas, pelos cinemas, pelas viagens, pela embriaguez, não posso deixar de nomear aqueles com quem pretendo manter uma amizade por um tempo infinito, para além do trabalho acadêmico: Ricardo Bezerra, Vinícius Castro, Aline Machado, Mirielly Ferraça, Arnaldo de Lima, Felipe Nascimento, Renata Brandão, Guilherme Adorno, Lilian Braga, Sérgio Toledo.
Em meu percurso pela UFF, espaço por onde circulei antes de chegar ao IEL, tive a oportunidade de me deparar com encontros inesquecíveis. Agradeço, especialmente, à Vanise Medeiros, por ter me encantado quando entrei em contato, pela primeira vez, com a Análise do Discurso, em suas aulas na graduação. Posteriormente, por desenvolver comigo
O LAS-UFF foi fundamental para o começo de minha formação como analista do discurso. Os encontros e grupos de estudo que debatiam animadamente em torno da teoria fundada por Pêcheux tiveram grande importância para mim. Agradeço, particularmente, pelo contato com a sedutora psicanálise, através das aulas de Bethania Mariani, e às frutíferas aulas de Silmara Dela Silva.
Tenho certeza que encontrarei, por anos a fio, os amigos de Niterói, do LAS-UFF, que continuam sempre carinhosos, divertidos e especiais. Espero poder continuar num movimento constante de influência mútua, especialmente com Sarah Casimiro, Milene Leite, Wellton da Silva, Fernanda Mello, Elisa Guimarães, André Cavalcante e Mariana Vita.
Em particular, agradeço aos amigos do Rio, que me acompanham por muitos anos e que, incontáveis vezes, parte de suas histórias se confundem com as de minha vida. A esses amigos, Daniel Capecchi, Ísis Paes e Flávio Max, espero que, apesar da distância, sempre tenhamos a afinidade e a ternura que nos une. Outros amigos, por quem também tenho grande carinho e com quem espero contar até o fim da vida, são Gabriel Andrade, Juliana Barros, Priscilla Fróes, Iana Assumpção e Ana Paula Caamaño.
Faço um agradecimento especial a Gabriel Aires, um amigo muito próximo contra o qual as intempéries da vida foram muito violentas e cruéis. Seu nome fica aqui cravado.
Agradeço à minha família.
Agradeço à banca, constituída por Suzy Lagazzi, Vanise Medeiros e Guilherme Adorno. Obrigado pela preciosa leitura e pela possibilidade de debate.
Agradeço à Capes pela bolsa concedida. Esse financiamento foi decisivo para a constituição deste trabalho.
A partir da Análise do Discurso Materialista, esta dissertação questiona a história institucionalizada sobre a designação revolução, em 1930, na formação social brasileira. Esse período foi marcado pelo movimento revolucionário que levou Getúlio Vargas ao poder da República após a deposição de Washington Luís e impedimento de posse de Júlio Prestes. Ao recortar e analisar sequências discursivas enunciadas ao longo da década de 1920 e em 1930, defendo o caráter contraditório que constitui a designação revolução. Em 1930, posições em relação complexa constituíram o movimento revolucionário, produzindo efeitos de sentido em disjunção. Essa relação complexa compareceu na produção de determinações discursivas em disputa para revolução, principalmente em torno das designações luta, ordem e eleições, analisadas a partir da enunciação de Vargas, Borges de Medeiros e Juarez Távora, que configuram posições representativas do movimento. Em minhas análises, destaca-se também o retorno de uma memória de revolução ao longo da década de 1920. Essa designação, sob diferentes formas linguísticas, compareceu na Revolta do Forte de Copacabana, na guerra civil do Rio Grande do Sul, no movimento revolucionário paulista e na Coluna Prestes. Alguns desses eventos filiam-se ao tenentismo, de forma que a memória dessas manifestações, não somente pela designação revolução, é atualizada no movimento revolucionário. Além de alguns tenentistas comporem a fileira militar do evento de 1930, designações e práticas retornaram, possibilitando a chegada de Vargas ao poder. Esse retorno atualizou o prestígio do tenentismo que estava em jogo, ao menos, desde a Coluna Prestes. Outros eventos também foram atualizados em 1930, como a formação de uma coligação que tentou produzir uma ruptura na política do café com leite, o retorno da questão da fraude eleitoral e a constituição de um movimento que tentou impedir a posse de um candidato do Partido Republicano. Os sentidos de revolução enunciados por Vargas foram os institucionalizados, contudo outras possibilidades de significação foram produzidas no período, como as que comparecem na enunciação de Carlos Prestes, cuja posição de sujeito produz sentidos em relação de oposição à oficial. Devido ao retorno de diferentes significações de revolução, à produção de sentidos em disjunção no interior do movimento revolucionário e à disputa de sentidos pelo mesmo evento a partir de posições em relação de oposição em 1930, defendo, neste trabalho, o caráter dividido do objeto revolução.
Palavras-chave: Análise do Discurso. Revolução em 1930. Movimento revolucionário. Retorno da memória de revolução. Objeto dividido.
From the Materialistic Discourse Analysis point of view, this dissertation inquires the institutionalized history about the revolution denomination, in 1930, inside Brazilian social formation. This period was marked by the revolutionary movement, which took Getúlio Vargas to the Republic power after Washington Luís deposition and Júlio Prestes impediment. Cutting out and analysing discoursive sequences uttered over the1920s and 1930s, I defend the contradictory nature that constitutes revolution denomination. In 1930, positions in complex relation constituted the revolutionary movement producing disjunctive effects of meaning. This complex relation attended in competitive discursive determinations produced for revolution, mainly over fight, order and elections denominations analyzed inside Vargas, Borges de Medeiros and Juarez Távora utterances, which set the movement representative positions. The analysis, therefore, points to the split nature of revolution. In my analysis, the return of a memory of revolution over the 1920s also stands out. This denomination, in different linguistic forms, attends in the Revolt of Copacabana’s Fort, in the civil war in Rio Grande do Sul, in the paulista revolutionary movement and in Coluna Prestes. Some of these events join the lieutenant movement, what makes the memory of these demonstrations, not only by revolution denomination, to be improved as revolutionary movement. Apart from the fact that some lieutenants join the military row of 1930 event, denominations and practices return, what allow the advent of Vargas to the power. This return refreshed the prestige that the lieutenant movement held. Other events were also improved in 1930 such as the formation of a coalition which tried to break the coffee and milk politics, the return of election fraud topic and the creation of a movement that tried to stop a candidate from the Republican Party to take office. The meanings of revolution uttered by Vargas were institutionalized, however other possible meanings were produced in that moment, such as the ones attending in Carlos Prestes utterance whose subjective position produces opposite meanings against the official ones. Because different meanings of revolution return and disjunctive meanings inside the revolutionary movement are produced and also because there is a competition of meanings over the same event from opposite related positions in 1930, I defend, in this work, the split nature of the revolution object.
Keywords:Discourse Analysis. Revolution in 1930. Revolutionary movement. The return of
APRESENTAÇÃO ... 9
I. INTRODUÇÃO ... 15
a) A contradição na formação social ... 15
b) A contradição no discurso ... 18
c) Corpus discursivo e questões de ancoragem ... 24
II. ALIANÇA LIBERAL: REVOLUÇÃO INSTITUCIONALIZADA ... 29
a) O equívoco na luta: entre as eleições e as armas ... 29
b) A divisão na Aliança Liberal: a ordem e o regime postos em questão ... 38
c) Lei, eleição e fraude... 45
d) A revolução em Vargas ... 52
e) A revolução em um tenentista: Juarez Távora... 61
f) Uma regularidade sobre o movimento revolucionário em diferentes posições ... 64
III. REVOLUÇÕES APAGADAS PELO DISCURSO OFICIAL ... 71
a) Revolução na década de 20 em quatro atos ... 76
a.i) Ato I: a revolta no Forte de Copacabana ... 76
a.ii) Ato II: revolucionários em armas no Rio Grande do Sul... 85
a.iii) Ato III: o movimento revolucionário paulista ... 90
a.iv) Ato IV: um encontro revolucionário sob a Coluna Prestes ... 99
b) A designação movimento revolucionário em 1930 ... 108
c) Revolução e revolucionários no manifesto de Prestes ... 113
d) Outros sentidos de revolução e revolucionários em Prestes ... 116
IV. CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 119
BIBLIOGRAFIA DO CORPUS DISCURSIVO ... 124
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 128
APRESENTAÇÃO
O evento de 1930 ainda não acabou. É possível ouvir ecos distantes de vozes silenciadas junto às palavras enunciadas pelas bocas que narram a história institucionalizada. E a cada fragmento escutado, formas outras de contar a história são enunciadas, de modo que a leitura dominante a cada vez torna-se um pouco fragilizada, ainda que a narrativa oficial resista. Nesse mesmo tempo de escuta outra, joga-se com a possibilidade de uma fissura, mínima, que seja, na dominância exercida sobre as múltiplas instâncias que estruturam a atual configuração da formação social, pois abre-se um minúsculo espaço para sentidos marginais, desafiando a arrogância do poder que se perpetua pela enunciação do sentido legítimo. Dessa forma, a relação entre forças contraditórias concorre para ser transformada.
A história institucionalizada conta que em 3 de outubro de 1930 teve início, no Rio Grande do Sul, o movimento revolucionário. Pouco tempo depois, Washington Luís, presidente na ocasião, foi deposto por uma junta de militares que, no começo de novembro, passou o poder a Getúlio Vargas, que se tornaria chefe do governo provisório. Após sua posse, Carlos Prestes lançou o manifesto “Aos revolucionários do Brasil”, em que uma revolução diferente da produzida pelo movimento revolucionário era significada. A memória de Prestes filiava-se fortemente ao movimento designado por tenentismo, o qual enunciava um desejo de revolução desde 1922, no levante do Forte de Copacabana, e, também, em 1924, na revolução paulista e na Coluna Prestes. Alguns tenentistas, em 1930, juntaram-se a Vargas, compondo a coligação política nomeada de Aliança Liberal. Fez parte dessa Aliança o líder político de Vargas, Borges de Medeiros, que foi governador do Rio Grande do Sul em 1923, ocasião em que os revolucionários rio-grandenses, liderados por Assis Brasil, combateram o governo suspeitamente eleito. Assis Brasil compôs também a Aliança Liberal. Os sentidos de revolução, na década de 1920 e em 1930, são constituídos em uma configuração complexa da formação social no Brasil.
A complexidade que envolve a constituição de um objeto, entretanto, não se opõe a um efeito de evidência. Quando lemos revolução, essa designação parece óbvia, pois significa a partir de determinada posição. No entanto, quando a revolução ganha corpo na história, a obviedade de diferentes posições é materializada em espaços de confronto. Revolução, em 1930 e ao longo da década de 1920, funciona como um objeto dividido, mobilizando forças em disputa. Contudo, uma significação, a institucionalizada, ocupa o lugar de evidência quando se olha para trás e se enuncia movimento revolucionário, apagando as
outras revoluções em jogo e a história de suas relações. Porém, esse apagamento não é total, pois algo resta na língua que perpetua o passado enquanto memória. Assim, as disputas de forças pretéritas estão na forma material que restou e em sentidos atualizados. Ao seguir os rastros que podem ser analisados, especialmente em 1930, ao menos algumas questões podem ser colocadas: que apagamentos funcionam no movimento revolucionário? A partir de que divisões esse movimento foi constituído? Quais revoluções se confrontam nas condições de 1930? Que memórias de revolução são atualizadas?
Os rastros que se perpetuam em um evento continuam a nos contar sobre ele e sobre as disputas que o antecederam. Essas disputas produzem um efeito sobre o presente. Os modos pelos quais as leituras sobre o evento de 1930 são conduzidas, isto é, como certos sentidos organizam diferentemente o arquivo, ao menos quando se diz do movimento revolucionário, são indícios das disputas que continuam indefinidamente a se travar. Acerca das forças em concorrência que constituem os diferentes gestos de leitura, Pêcheux afirma sobre sua relação com o arquivo: “Seria do maior interesse reconstruir a história deste sistema diferencial dos gestos de leitura subjacente, na construção do arquivo, no acesso aos documentos e à maneira de apreendê-los [...]”. E, ainda: “Assim começaria a se constituir um espaço polêmico das maneiras de ler, uma descrição do ‘trabalho do arquivo enquanto relação do arquivo com ele-mesmo, em uma série de conjunturas, trabalho da memória histórica em perpétuo confronto consigo mesma’.” (PÊCHEUX, 2010, p.51, grifos do autor).
Não direcionei minha análise para pensar a história do sistema diferencial dos gestos de leitura, contudo mostra-se produtiva a relação entre esse sistema e o evento. As diferentes tradições de leitura sobre um evento colocam no campo de uma história institucional as relações de forças que são o sintoma de conflitos surgidos no passado. Assim, as disputas que ocorrem entre os variados gestos de leitura não são formas de ler melhor o evento, mas são um modo de perpetuar as lutas sobre as quais uma memória oficial impôs o esquecimento. A existência do evento coloca em circulação modos em concorrência de organização do arquivo, de forma que as disputas que tiveram ocasião em 1930 também encontram lugar nas leituras sobre 30 que se perpetuam. Assim, não é de se surpreender que a cada ano uma nova obra seja publicada sobre aquele período, trazendo à tona deslizamentos.
Os espaços polêmicos das maneiras de ler configuram-se a partir de posições de sujeito, constituídas pela ação da ideologia. As diferentes clivagens subterrâneas – isto é, diferentes recortes orientando distintos percursos de sentidos – que organizam o arquivo, apontam para as divergências entre posições constituídas a partir de formações discursivas em
relação de contradição. Desse modo, acessar o arquivo se dá a partir de uma posição, e, sendo assim, aquela que se perpetua como legítima é uma entre outras. Outras leituras possíveis podem comparecer, tal qual um sintoma, em novas leituras que se fazem constantemente sobre o passado. Esse é o indício de que o passado está presente. Algo do pretérito grita, retorna insistentemente, sendo reformulado, demonstrando seus outros modos de ser narrado, através das vozes que clamam por ser escutadas. Equivocamente, a fala dessas vozes não possui pré-existência.
O retorno de uma memória e os gestos de leitura que a significam têm implicações com o presente. Walter Benjamin formulou dezoito teses e dois apêndices sobre o conceito de história. Recorto o primeiro apêndice a fim de refletir sobre a inscrição do passado no tempo contemporâneo:
O historicismo se contenta em estabelecer um nexo causal entre vários momentos da história. Mas nenhum fato, meramente por ser causa, é só por isso um fato histórico. Ele se transforma em fato histórico postumamente, graças a acontecimentos que podem estar dele separados por milênios. O historiador consciente disso renuncia a desfiar entre os dedos os acontecimentos, como as contas de um rosário. Ele capta a configuração em que sua própria época entrou em contato com uma época anterior, perfeitamente determinada. [...] (BENJAMIN, 1987 [1940], p.232).
Retomo o momento em que Benjamin afirma que um fato “se transforma em fato histórico postumamente, graças a acontecimentos que podem estar dele separados por milênios”. A memória histórica, que frequentemente é lida com uma regularidade religiosa, que se configura como um fato, é resultado dos sentidos legitimados, das memórias estabilizadas e dos arquivos oficializados que as narrativas dominantes estabeleceram na duração dos eventos que produziram a atual configuração social. Os fatos históricos não existem independentemente, como fósseis a serem descobertos. Entretanto, nas equações da história, os sentidos dominantes podem ruir, e o acontecimento de outrora, que permanece a ressoar, pode ser ressignificado, derivando para outros dizeres. E assim, um novo acontecimento pode determinar novos fatos históricos, de modo que os fatos são construções produzidas a partir de posições ideológicas. Os tempos de hoje reclamam sentidos nos tempos de outrora, fazendo significações derivarem. Daí que, conforme Benjamin, o historiador
consciente1 “capta a configuração em que sua própria época entrou em contato com uma
1 Dizer historiador consciente certamente não corresponde à perspectiva da Análise do Discurso
Materialista, mas insisto em trazer a citação por conta da consequente relação entre presente e passado apresentada por Benjamin.
época anterior”. As reconfigurações das relações contraditórias entre as posições ideológicas irão contar novos fatos sobre o passado.
---A produção sobre o ano de 1930, no Brasil, é vasta e, ainda, efervescente. Os textos produzidos, levando em conta as distintas materialidades, desde livros a filmes, organizam diferentemente o arquivo, marcando disputas entre distintos gestos de leitura e constituindo novos fatos históricos sobre 1930. Apenas no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), na UNICAMP, no campo identificado a uma prática materialista de estudos discursivos, pelo menos desde a década de 80, há trabalhos que direta ou indiretamente tratam do movimento revolucionário de 30. Para citar alguns, em 1988, Bethania Mariani, em sua dissertação, analisou enunciados de dois jornais da época, Correio da Manhã e O País. A pesquisadora abordou a relação entre a imprensa de 1930 e a constituição da memória histórica. Em 1999, foi lançada a segunda edição de Argumentação e discurso político, de Haquira Osakabe, professor do Instituto, que analisou enunciados produzidos por Vargas de 1930 à 1937. Em 2015, dois projetos de dissertação propuseram recortar o período como objeto de análise. O trabalho de Renata Brandão, a partir do quadro teórico da Semântica do Acontecimento, estuda os discursos de Vargas de 1930 adiante. O outro texto, no caso, este, filiando-se à Análise do Discurso Materialista, propõe trabalhar as relações de forças em jogo no evento de 30, considerando a produção de apagamentos que constituíram a história institucionalizada.
Além dos exemplos mencionados, são inúmeros os trabalhos produzidos em outras áreas, como na história, economia, sociologia. Ademais, a imensa maioria dos compêndios de história do Brasil trata, ainda que brevemente, do movimento revolucionário. A fim de rastrear um insistente retorno do evento de 1930, é suficiente citar algumas poucas obras de história e biográficas. Em 1992, Edgar Carone publicou “Brasil, anos de crise”; em 1997, Boris Fausto lançou um livro intitulado “A revolução de 1930”; em 2012, Lira Neto iniciou uma trilogia biográfica sobre Getúlio Vargas; em 2015, Anita Prestes editou “Luiz Carlos Prestes: um comunista brasileiro”. De distintas maneiras, todas as obras citadas passam pelo ano de 1930, produzindo diferentes significações para o evento. Os variados trabalhos, situados em campos teóricos distintos ou não, discursivizam diferentemente o evento em questão até hoje.
O evento não cessa de produzir sentidos. A respeito das eleições francesas que levaram F. Mitterand à presidência, Pêcheux afirma a existência de enunciados em disputa que remetem ao mesmo fato, mas não constroem as mesmas significações. E formula: “O confronto discursivo prossegue através do acontecimento...” (PÊCHEUX, 2015, p.20). Nos enunciados recortados por Pêcheux, no caso, a partir das eleições francesas, há uma disputa que se coloca no campo político, onde o mesmo “fato” é diferentemente significado. Quanto à citação trazida, proponho uma leitura em que tal confronto nunca cessa, pois as disputas que tiveram ocasião sempre prosseguem, ainda que opacamente. Assim, os sentidos que determinaram o evento de 1930 estão em tensão no presente, mantendo uma relação contraditória de antagonismos e alianças para significar, por exemplo, a revolução de Prestes e a da Aliança Liberal.
Dessa forma, até hoje, o evento não cessa de se reinscrever, nem de significar, apesar dos esforços das forças dominantes por estabilizar e perpetuar os sentidos legitimados naquela época e que entram em ressonância com as demandas do presente. Uma afirmação de Bethania Mariani é extremamente pertinente para iniciar uma reflexão sobre essas questões:
Um arquivo, qualquer que seja, representa uma instituição que congrega em seu funcionamento aspectos políticos, técnicos, jurídicos e éticos. Em qualquer arquivo se inscreve a historicidade de uma política de silenciamento (ORLANDI, 2001) resultante das condições históricas e ideológicas de sua institucionalização e de sua inserção nas redes de memória. Assim, na organização de qualquer arquivo há sentidos colocados para serem lidos e repetidos (o que é canônico, hegemônico) e há também sentidos recalcados, silenciados, interditados. Podemos pensar, então, que nos arquivos se inscrevem sintomas da época em que foram organizados e é com esses sintomas que um pesquisador se depara. (MARIANI, 2016, p.17). O sintoma da época, inscrito nos arquivos, retorna, desde 1930 até hoje, insistentemente, sob diferentes formas, em diversas áreas, reclamando sentidos outros, interditados. A impossibilidade de tudo dizer sobre o evento e o funcionamento do apagamento apontam para o que torna o movimento revolucionário um objeto tão intrigante e incessante. O sintoma da época percorreu os anos da história do Brasil e ainda percorre. Num agitado mar de memórias que não cessam de se emaranhar numa disputa por serem lembradas, seja numa biografia, tese, dissertação ou artigo, os pesquisadores funcionam como posições que sustentam as revoluções em contradição que cabem dentro do evento de 1930. A história de 30 não está morta, nem plenamente estabilizada, ela ainda disputa, pois a história de 30 acontece hoje, através dos pesquisadores dessa época e, em um nível mais subterrâneo, nas disputas que têm lugar na formação social atual.
Ainda sobre as eleições de F. Mitterand, cito Pêcheux: “uns e outros vão começar a ‘fazer trabalhar’ o acontecimento [...] em seu contexto de atualidade e no espaço de memória que ele convoca e que já começa a reorganizar: o socialismo francês de Guesde a Jaurès, o Congresso de Tours, o Front Popular, a Liberação...” (Pêcheux, 2015, p.19). As forças intrincadas disputam pela reorganização do espaço de memória, seja apagando ou produzindo outras significações. E a cada novo evento, aqueles de outrora se constituem no espaço de memória que é colocado em jogo pelas disputas entre discursividades. Assim, pergunto: que relação quase noventa anos atrás mantém com a atualidade? Arrisco a responder que as disputas que tiveram ocasião em 1930 se materializaram em toda a história e continuam na contemporaneidade, sob diferentes formas, mantendo alguns sentidos e deslocando outros. A cada nova reconfiguração das condições de produção, a partir das quais ruas são ocupadas, golpes de Estado são conduzidos, e pesquisadores disputam sentidos sobre seus objetos, as relações contraditórias de 30, e as anteriores a esse evento, se perpetuam, sempre no sinuoso jogo de relações de forças em conflito. Sob esse aspecto, há semelhanças entre ontem e hoje: quando se trata de pensar a história das lutas de classes, a história é a mesma. As disputas existem!
I. INTRODUÇÃO
a) A contradição na formação social
O momento histórico de mudança abrupta do poder do Estado, cujo assento da presidência da República é forçosamente tomado de um governo por outro, é frequentemente precedido por disputas violentas entre forças concorrentes. Tais forças se enfrentam, por vezes, nas trincheiras montadas provisoriamente nas ruas, onde civis e militares, às vezes de armas em punho, encarnam as posições ideológicas que se encontram contraditoriamente relacionadas. O aparelho midiático é outra trincheira na qual forças heterogêneas travam sua perpetuação, por exemplo, quando diferentes jornais concorrem por seus candidatos. Em
1930, encontramos, na escrita de diferentes historiadores2, um cenário radical de divisão na
qual a formação social brasileira estava inscrita.
Fez parte desse cenário a composição da Aliança Liberal, que reuniu políticos de
oposição a Júlio Prestes3, candidato de Washington Luís e membro do Partido Republicano
Paulista (PRP). Os presidentes filiados a partidos republicanos governavam o país há anos sob o acordo da política do café com leite, de forma que o poder era alternado entre mineiros e paulistas. O presidente do período, Washington Luís, era do PRP e o candidato oficial também, o que implicava na quebra do acordo. Essa quebra figurou entre as condições para a formação da aliança entre políticos de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba. Entre os aliados rio-grandenses estavam Borges de Medeiros e Assis Brasil, cujos nomes evocavam a memória de forças antagônicas na guerra civil que teve ocasião em 1923, no sul. Após a derrota de Vargas, em 1º de março de 1930, deflagrou-se o movimento revolucionário, sendo constituído pelos membros da Aliança Liberal e pelos tenentistas, contra os quais, num passado não muito distante, políticos dessa coligação tinham lutado de armas em punho. As condições de 30 impunham uma reconfiguração das disputas passadas, entretanto, não sem
que essas colocassem efeitos na forma de uma Aliança contraditória4.
Na formação social que estruturava as disputas de 1930, Vargas figurava enquanto porta-voz contra Washington Luís. Ao mesmo tempo, a partir da posição na qual um antigo tenentista enunciava, Carlos Prestes, havia a recusa em sustentar uma filiação ao movimento
2 Para citar alguns: Boris Fausto (1997); Lira Neto (2012); Anita Prestes (2015).
3 Júlio Prestes, membro do Partido Republicano Paulista, não deve ser confundido com Carlos Prestes, tenentista e, depois, membro do Partido Comunista Brasileiro.
revolucionário ou ao PRP. Neste momento complexo, diferentes designações circularam como sintoma das disputas que constituíram o período, sendo enunciadas a partir de diferentes posições de sujeito: movimento revolucionário, na enunciação de Getúlio Vargas; movimento subversivo, em enunciados de Washington Luís; e contra-revolução, na enunciação de Carlos Prestes. As forças em contradição disputavam pela tomada do poder e pela perpetuação do sentido legítimo, de forma que os efeitos da divisão na formação social da época ganharam contornos acentuados.
A divisão é constitutiva de todas as sociedades, em todos os momentos. Dito de outro modo, podemos ler essa afirmação como uma paráfrase da célebre frase do Manifesto do Partido Comunista: “A história de todas as sociedades que existiram até nossos dias tem sido a história das lutas de classes.” (MARX, ENGELS, 2008, p.8). Se a história de uma sociedade é estruturada pelas lutas de classes, essa contradição fundamental deve ser pensada conjuntamente com as relações que configuram a existência de posições ideológicas, que todo sujeito é interpelado a ocupar. A tese central de Althusser, na qual “A ideologia interpela os indivíduos como sujeitos.” (ALTHUSSER, 1996, p.131) coloca como ponto fundamental que para ser sujeito é preciso ser interpelado ideologicamente.
O investimento teórico de Althusser concorre na direção da formulação de uma teoria geral da ideologia, que, inevitavelmente, implica numa leitura das ideologias particulares. Para o autor:
Por um lado, penso ser possível afirmar que as ideologias têm uma história própria (ainda que esta seja determinada, em última instância, pela luta de classes); e por outro, creio ser possível afirmar que a ideologia em geral não tem história – não num sentido negativo (sua história lhe é externa), mas num sentido absolutamente positivo. (Ibidem, p.125, grifos do autor).
O sentido positivo da ideologia em geral não ter história configura-se em sua realidade oni-histórica, isto é, em ser um funcionamento imutável e eterno da história. A ideologia em geral, recrutando a todos, “funciona” ao interpelar o indivíduo em sujeito, que, sendo sempre já sujeito, se encontra já chamado pelas ideologias particulares, que “sempre expressam posições de classe” (Ibidem, p.124, grifos do autor). Para Althusser, “uma teoria das ideologias se baseia, em última instância, na história das formações sociais, e, portanto, dos modos de produção combinados nas formações sociais e das lutas de classes que se desenvolvem dentro delas.” (Idem, grifos do autor). Ainda, para o autor, as ideologias particulares “têm uma história cuja determinação, em última instância, situa-se claramente fora das ideologias em si, embora as suponha” (Idem).
As ideologias particulares, que doravante designo de formação ideológica, denominação condizente com a usada por Pêcheux, têm uma história situada fora de si e localizada na história das formações sociais. Cabe dizer que compreendo as formações sociais como o espaço de relações contraditórias com as formações ideológicas, sendo estas recortes ideológicos daquelas. Ou seja, não se trata de uma relação de conteúdo e continente, mas de uma intrincação entre formações, funcionando de maneira imbricada. A história de uma formação ideológica, estando fora de si e encontrando-se nas formações sociais, é determinada a partir de sua relação com outras formações ideológicas num espaço de relações de forças. Desse modo, a ideologia, oni-histórica, interpela o indivíduo em sujeito, que chamado por uma formação ideológica, torna-se mais um recrutado nas fileiras de determinada posição-ideológica. Contudo, tal posição ideológica, expressão de uma formação ideológica, constituída em uma formação social cujo espaço é estruturado pela contradição, está em relação com outras posições ideológicas, que em última instância concorrem para sua constituição e existência. Assim, a história de uma formação ideológica traz em si, potencialmente, a história de outras formações, considerando o espaço contraditório no qual elas se constituem. Com isso, chego à formulação de que outras posições estão inevitavelmente inscritas na ilusão de unidade que constitui o sujeito.
No Brasil de 1930, as condições de produção que determinavam o funcionamento da formação social do período se configuraram pelas disputas de forças que concorriam pela tomada do poder e pela legitimidade outorgada pelo discurso oficial. Ou seja, as condições de produção em 1930, levando em conta como sua parte constituinte tudo aquilo que estrutura a história – e sobretudo uma história do Brasil, nas primeiras décadas do século XX, atravessada pela eclosão de manifestações como o tenentismo, a Coluna Prestes, a revolução paulista, e problemas advindos da política do café com leite –, possibilitaram uma violenta materialização dos conflitos latentes nas relações de poderes heterogêneos. Assim, naquele ano, encontramos diferentes forças: as de orientação governista, organizada em torno do Partido Republicano Paulista (PRP); as de oposição ao governo, organizadas sob a legenda da Aliança Liberal, contraditória já em sua constituição; as forças de oposição ao governo e, ao mesmo tempo, aos membros da Aliança Liberal, das quais Carlos Prestes era membro de destaque. Essas forças compunham relações de disputas, de forma que um comboio partiu do Rio Grande do Sul para tomar o poder no Distrito Federal – na época, localizado no Rio de Janeiro; um tenentista, identificado com o comunismo, escreveu um manifesto contra o novo poder que se instituiria, marcando sua dissidência com os membros tenentistas que
compuseram a Aliança Liberal; uma junta militar depunha o presidente até então instituído; um candidato eleito à presidência pelo PRP, sob suspeita de fraude e após a tomada de poder por Getúlio Vargas, foi impedido de tomar posse; entre outros episódios que servem como índice do evento.
Esses episódios foram produzidos a partir da relação tensa entre diferentes formações ideológicas. As forças que chegaram ao poder em 1930 foram as que se perpetuaram como dominantes, constituindo um modo regular de enunciar aquele acontecimento histórico. Em decorrência, outros modos de contar sobre 30 ficaram apagados, contudo, ao nos remetermos aos dizeres oficiais do período, é possível analisar a presença de outros sentidos, marginais, que subsistem na constituição daqueles que se propõem enquanto unidade. Dessa forma, se, durante o evento, as memórias foram atravessadas pela heterogeneidade que marcava as condições de produção, tais marcas se perpetuaram também através de sua inscrição no discurso oficial. Com isso, cabe citar Pêcheux em uma reflexão sobre a porosidade da memória:
E o fato de que exista assim o outro interno em toda memória é, a meu ver, a marca do real histórico como remissão necessária ao outro exterior, quer dizer, ao real histórico como causa do fato de que nenhuma memória pode ser um frasco sem exterior. (PÊCHEUX, 2015b, p.50).
b) A contradição no discurso
As contradições de 1930, materializadas nas práticas de sujeitos falantes, foram constituídas a partir de diferentes discursividades, assumindo diferentes formas. As posições ideológicas em contradição guardam uma relação estreita com as diferentes posições discursivas. A respeito disso, deve-se considerar a leitura que Pêcheux fez de Althusser, especificamente quando este afirmou que o indivíduo é interpelado em sujeito pela ideologia. Pêcheux reformulou essa tese, pensando especificamente a relação sujeito e discurso, e propôs: “os indivíduos são ‘interpelados’ em sujeitos-falantes (em sujeitos de seu discurso) pelas formações discursivas que representam ‘na linguagem’ as formações ideológicas que
lhes são correspondentes.” (PÊCHEUX, 2009, p.147, grifos do autor)5. Essa relação entre
ideologia e discurso implica que a contradição entre formações ideológicas estruture também,
5 A respeito da relação entre Formação Ideológica e Formação Discursiva, Pêcheux afirma haver uma intrincação entre ambas, contudo, observa em nota: “Diremos apenas que não se pode tratar nem de uma pura equivalência (ideologia = discurso) nem de uma simples distribuição de funções (‘prática discursiva’ / ‘prática não-discursiva’). Seria, antes, conveniente falar de uma ‘intrincação’ das formações discursivas nas formações ideológicas, intrincação cujo princípio se encontraria precisamente na ‘interpelação’.” (PÊCHEUX, 2009, p.147, nota 9).
ainda que não por uma correspondência direta, as formações discursivas. Assim, a interpelação discursiva produz sujeitos-falantes que significam diferentemente objetos que, por esse motivo, são historicamente divididos.
A noção de objetos divididos6 aponta para a impossibilidade da sua pré-existência,
isto é, para a impossibilidade de haver um sentido originário. Ou seja, é histórico ao objeto ser dividido, recebendo sua consistência material e seus sentidos a partir da formação discursiva e ideológica em que se inscreve. Pêcheux observa:
[...] as formas discursivas nas quais aparecem os ‘objetos’ tais como o balão, a estrada de ferro ou a toupeira são sempre conjunturalmente determinados enquanto objetos ideológicos; nem universais históricos, nem puros efeitos ideológicos de classe, esses objetos teriam a propriedade de ser ao mesmo tempo idênticos a eles mesmos e diferentes deles mesmos, isto é, de existir como uma unidade dividida, suscetível de se inscrever em um ou outro efeito conjuntural, politicamente sobre-determinado (poderíamos, em nossa contemporaneidade ideológica fazer observações análogas sobre noções como a de ‘mudança’ ou de ‘liberdade’).
Isto suporia que não há, de início, uma estrutura sêmica do objeto, e em seguida aplicações variadas dessa estrutura nesta ou naquela situação, mas que a referência discursiva do objeto já é construída em formações discursivas (técnicas, morais, políticas...) que combinam seus efeitos em efeitos de interdiscurso. (PÊCHEUX, 2014, p.158).
Questões importantes podem ser colocadas a partir das observações de Pêcheux com relação à divisão que constitui revolução. Em 1922, a partir de um interrogatório a um tenentista preso após o levante de uma unidade militar, comparece a formulação movimento revolucionário. Em 1923, na guerra civil deflagrada no Rio Grande do Sul, a designação revolucionários é enunciada. Em 1924, na revolução paulista, quando tenentistas tomaram por um breve período o poder em São Paulo, há esta revolução. Também em 1924, no Rio Grande do Sul, no levante tenentista que deu origem à Coluna Prestes, que perduraria até 1927, circulou os revolucionários e a revolução no Brasil. Em 1930, no discurso de posse de Vargas, comparece movimento revolucionário. No mesmo período, na enunciação de Carlos Prestes, constituída a partir de outra posição que não a dos antigos companheiros do movimento tenentista que se aliaram a Vargas, há Revolução. Essas formas relacionadas a designações semelhantes significam diferentemente? Em que medida os sentidos produzidos
6 Mobilizo a noção de objetos divididos para ser consequente com a elaboração de Pêcheux em Metáfora e interdiscurso, texto de grande força para as minhas análises, contudo a noção de objetos paradoxais, presente em um importante percurso de leitura apresentado em Objetos paradoxais e Ideologia, por Mónica Zoppi-Fontana, também levanta questões relativas ao caráter contraditório dos objetos.
para revolução convergem ou divergem, apontando para diferenças ou semelhanças entre posições?
A designação revolução foi enunciada a partir de posições constituídas em diferentes condições de produção, como, para citar um exemplo, o levante de 1922, contra Artur Bernardes, e o de 1930, contra Washington Luís. Esse “mesmo objeto”, que não possui uma estrutura sêmica originária, mobiliza sentidos constituídos a partir de posições aparentemente em disputa, como o movimento revolucionário, da Aliança Liberal, sendo designado de contra-revolução a partir da posição de Prestes. As redes de memória, as quais cada discursividade retoma para se constituir, fornecem a obviedade do objeto, de forma que o mecanismo que possibilita tais evidências inscreve-se intradiscursivamente na sequência através do pré-construído, do discurso transverso e do discurso relatado. Esse funcionamento que se materializa na sequência é anterior à enunciação realizada pelo sujeito, tendo sua origem nos processos de interpelação discursiva e interpelação ideológica. Levando em conta que todo objeto é atravessado pelo efeito de evidência que funciona a partir de uma posição de sujeito, cabe aprofundarmo-nos nos mecanismos que fornecem sentidos às designações, como revolução. Contudo, o termo designação, produtivo neste trabalho, precisa ser especificado antes.
A partir de uma posição materialista, considero de antemão a impossibilidade de haver uma relação direta entre um nome e um objeto, isto é, que apenas um nome refira um objeto através de uma relação unívoca. Considero também que o gesto de designar produz sentidos sobre um objeto, de forma que não há pré-existência possível. Afirmar a possibilidade de dizer sobre a existência dos objetos no mundo exterior à linguagem é formular um postulado filiado à existência de um sentido único, cuja base de funcionamento é a noção de verdade. Ao considerar a interpelação do sujeito pela ação da ideologia, considero também que todos os objetos são efeito das filiações ideológicas e discursivas. As considerações feitas anteriormente sobre os objetos divididos colocam a impossibilidade de uma relação intrínseca entre nome, sentido e objeto. Assim, o termo designação inscreve na história, a partir de uma posição de sujeito, os sentidos que são produzidos ao se enunciar, rompendo com a noção de relação intrínseca e colocando em funcionamento posições em contradição. O modo como compreendo designação tem sua base na formulação de Eduardo Guimarães:
A designação é o que se poderia chamar de significação de um nome, mas não enquanto algo abstrato. Seria a significação enquanto algo próprio das
relações de linguagem, mas enquanto uma relação linguística (simbólica) remetida ao real, exposta ao real, ou seja, enquanto uma relação tomada na história. É neste sentido que não vou tomar o nome como uma palavra que classifica objetos, incluindo-os em certos conjuntos. (GUIMARÃES, 2005, p.9, grifos do autor).
A afirmação de que não há, de início, uma estrutura sêmica do objeto implica em dizer que o sentido sempre pode ser outro, pois o objeto, não sendo a priori semanticamente estruturado, recebe sua significação a partir de regiões de sentido diferentes. A essas regiões, Pêcheux nomeou de Formação Discursiva (FD), definindo-as como “aquilo que, numa formação ideológica dada, isto é, a partir de uma posição dada numa conjuntura dada, determinada pelo estado da luta de classes, determina o que pode e deve ser dito” (PÊCHEUX, 2009, p.147, grifos do autor). Dessa forma, compreende-se porque um mesmo objeto produz sentidos divididos, isto é, significa diferentemente, como revolução, pois sua estrutura sêmica pode ser constituída a partir de uma FD e não de outra. De toda forma, isso não elimina a possibilidade de FDs antagônicas significarem um mesmo objeto de forma semelhante. O que se pretende ressaltar é que o sentido, por não existir de antemão, se constitui a partir de uma FD através da relação que um objeto mantém com outros objetos em uma mesma região discursiva. Assim:
[...] se uma mesma palavra, uma mesma expressão e uma mesma proposição podem receber sentidos diferentes – todos igualmente ‘evidentes’ – conforme se refiram a esta ou aquela formação discursiva, é porque – vamos repetir – uma palavra, uma expressão ou uma proposição não tem um sentido que lhe seria ‘próprio’, vinculado a sua literalidade. Ao contrário, seu sentido se constitui em cada formação discursiva, nas relações que tais palavras, expressões ou proposições mantêm com outras palavras, expressões ou proposições da mesma formação discursiva. (PÊCHEUX, 2009, p.147-148, grifos do autor).
As designações e enunciados que produzem sentidos semelhantes por fazerem parte de uma mesma FD remetem a famílias parafrásticas semelhantes. Os limites das redes de sentidos podem ser testados na relação que as designações mantém com outras semelhantes, de modo que as equivalências lexicalizadas entre substituíveis são produtoras intradiscursivas de significação que permitem constituir os limites entre redes. Esse é um dos meios de trabalhar as semelhanças e as diferenças entre posições com relação a alguns objetos, pois as famílias parafrásticas e as redes de sentidos operam uma regularidade sobre uma posição de sujeito. Entretanto, ao considerar que o discurso outro estrutura uma sequência discursiva, a regularidade de sentidos de uma posição pode ser afetada. Sendo assim, os enunciados produzidos a partir de uma posição filiada à determinada FD constituem uma estabilidade relativa, pois podem ser afetados pela memória de outras FDs.
O funcionamento parafrástico da produção de sentidos, mencionado acima, remete a uma certa leitura materialista de Saussure, especificamente da noção de valor. Saussure afirma, sobre a correspondência entre valores e conceitos, que “subentende-se que são puramente diferenciais, definidos não positivamente por seu conteúdo, mas negativamente por suas relações com os outros termos do sistema. Sua característica mais exata é ser o que os outros não são.” (SAUSSURE, 2006, p.136). Essa afirmação é colocada em relação ao sistema da língua, contudo podemos compreendê-la articulada ao mecanismo pelo qual uma posição de sujeito, constituída a partir de uma FD, produz os sentidos que negativamente, pelo jogo parafrástico mobilizado, a diferencia de outra. Ou seja, os sentidos de uma FD se diferenciam dos de outra pelas designações e enunciados que ela mobiliza como rede de substituíveis, que são negativamente diferentes da rede de substituíveis mobilizada por outra FD. Esse funcionamento constitui um importante mecanismo para a Análise do Discurso: “a expressão processo discursivo passará a designar o sistema de relações de substituição, paráfrases, sinonímias etc., que funcionam entre elementos linguísticos – ‘significantes’ – em uma formação discursiva dada.” (PÊCHEUX, 2009, p.148, grifos do autor). O que produz a
evidência de um objeto dividido, portanto, é o esquecimento7, configurado pela relação
negativa que uma rede parafrástica, produzida a partir de uma posição de sujeito, mantém com outras redes parafrásticas, garantindo, ao mesmo tempo, a produção dos sentidos.
O processo discursivo, então, orienta a produção linguística de sentidos, sendo a FD sua matriz. Contudo, as fronteiras que delimitam as redes de sentidos são porosas, numa relação onde o estranho sempre habita o familiar, onde sentidos só produzem sentido numa relação com o outro. Assim, em uma sequência enunciada a partir de uma posição emparelhada à Aliança Liberal, apesar de o processo discursivo orientar a produção de sentidos tendo na base de seu funcionamento o efeito de unidade, em tal enunciado, o discurso outro pode se inscrever pelo não-dito, por exemplo, quando ocorre intradiscursivamente o apagamento de outros movimentos, mas, ao mesmo tempo, se diz da existência desses movimentos. Esse é o caso de um recorte presente na enunciação de Fragoso, um dos militares que compôs a junta que depôs Washington Luís. A seguir, o recorte: “O movimento revolucionário que V. Ex. dirigiu é singular em nosso país; pelo seu caráter, extensão e simultaneidade não encontra nenhum símile comparável na nossa história.”. Enunciar “nenhum símile comparável na nossa história” é dizer que haveria símiles em outras condições. Então, a partir do funcionamento do outro estruturando a sequência, ao menos uma
importante questão se formula: quais os símiles apagados – mas que deixaram rastros – do movimento revolucionário?
Deve-se levar em conta, ainda, que as disputas por determinar o evento ocorrem a partir de posições de sujeito, constituídas em filiação a FDs. Ou seja, o sujeito do discurso é sempre uma posição produzida na relação com uma FD, não existindo a priori, portanto sendo um efeito de discurso. Nesse ponto, encontra-se o insuportável do materialismo histórico, quando em confronto com o idealismo: o insuportável da peste do assujeitamento, pois o
sujeito não escolhe as memórias com que se identifica, nem é dono de seu dizer8. Dessa
forma, é um sujeito despossuído de si, ou seja, determinado pelas leis da história e do inconsciente. Sendo assim, o sujeito é posição, determinada pelas condições de produção, estando em uma relação contraditória com outras posições a partir das quais sentidos em concorrência são produzidos. Nesses termos, podemos afirmar a existência de objetos divididos, cuja significação sempre pode ser outra.
Assumindo que os sentidos sempre podem ser outros, também é correto afirmar que as forças em disputa concorrem por estabilizar um sentido em dada configuração social, garantindo-lhe maior legitimidade em detrimento de outros, que por vezes são apagados. Um evento também é dividido no ponto em que diferentes posições de sujeito tentarão determinar seus sentidos, constituindo relações de forças em confronto e configurando um dizer dominante, porém nenhuma será suficiente para esgotar as marcas daquele evento. Eni Orlandi, ao dizer de redes de sentidos censuradas, traz uma reflexão que cabe aos discursos apagados pelo efeito da história oficial:
Para terminar, eu gostaria de dizer que o real histórico faz pressão, fazendo que algo irrompa nessa objetividade material contraditória (a ideologia). O que foi censurado não desaparece de todo. Ficam seus vestígios, de discursos em suspenso, in-significados e que demandam, na relação com o saber discursivo, com a memória do dizer, uma relação equívoca com as margens dos sentidos, suas fronteiras, seus des-limites. (ORLANDI, 2015, p.61).
8 Temos então duas pestes, a do assujeitamento, conforme o materialismo histórico, e a da psicanálise, sob a forma do inconsciente: “Em 1955, durante uma conferência na Sociedade de Neuropsiquiatria de Viena, Jacques Lacan afirma ter ouvido da boca de Carl Gustav Jung a seguinte história. Em 1909, ao chegar ao continente americano para uma série de conferências na Universidade Clark, de Worcester, Freud teria murmurado no ouvido de seu jovem discípulo: 'Eles não sabem que lhes estamos trazendo a peste.'" (ROUDINESCO, 2009, p.126). Lacan comenta o engano de Freud, pois a América que havia suprimido o poder de subversão da psicanálise. Entretanto, para esta nota, fico apenas com a peste.
c) Corpus discursivo e questões de ancoragem
O gesto analítico que compõe este trabalho circunscreve-se à materialidade significante verbal. Essa especificidade é orientada pelo corpus discursivo, compreendido por Courtine como “[...] um conjunto de sequências discursivas, estruturado segundo um plano definido em relação a um certo estado das CP [condições de produção] do discurso.” (COURTINE, 2014, p.54). Ainda, segundo o autor, a constituição do corpus discursivo é uma operação “que consiste em realizar, por meio de um dispositivo material de uma certa forma (isto é, estruturado conforme um certo plano), hipóteses emitidas na definição dos objetivos de uma pesquisa.” (Ibidem, p.54). O estado das condições de produção considerado para a montagem do conjunto de sequências discursivas foi aquele que constituiu o evento de 1930, especificamente os sentidos mobilizados pela designação revolução. As questões de ancoragem, mostradas à frente, orientaram os objetivos que ajudaram na constituição do corpus e, portanto, na reunião do conjunto de enunciados.
Tais sequências discursivas foram recortadas de textos compostos inicialmente como manifestos, entrevistas a jornais, cartas e discurso de posse da presidência da República. Em alguns casos, sua primeira enunciação pública assumiu a forma de materialidade significante verbal oral, e apenas posteriormente ganhou uma versão oficial escrita, como foi o caso do discurso de posse de Getúlio Vargas. O critério de seleção dos textos foi orientado pela relação que esses mantinham com o evento e o modo como apresentavam regularidades que correspondiam às questões de ancoragem. Tais questões, estruturantes deste trabalho, são a seguir formuladas: que sentidos foram produzidos para revolução no evento de 1930? Que apagamentos foram produzidos? A escolha dos textos não foi uma fase anterior às análises, pois estas possibilitaram constantemente uma nova seleção daqueles, incluindo-os no trabalho, conforme o movimento da pesquisa demandava – orientado pelas questões de ancoragem. Um gesto inicial foi considerar a legitimidade investida na figura do porta-voz do movimento revolucionário e analisar o “Discurso pronunciado pelo Dr. Getúlio Vargas por ocasião de sua posse como chefe do governo provisório da República”. Nele, compareceu o apagamento de outras posições que produziram sentidos para revolução, como foi o caso da posição de sujeito a partir da qual se constitui Carlos Prestes. Com isso, outros textos foram selecionados para compor a análise. Ao levar em conta o apagamento da memória dos levantes do começo da década de 20 e, sobretudo, da Coluna Prestes que compunha a designação movimento revolucionário, foi possível trabalhar com os tenentistas e selecionar textos em que esses produziam sentidos para revolução. Assim, através desse percurso, foi
possível constituir um corpus discursivo em que posições configuraram-se em uma relação complexa.
A respeito de texto, na Análise do Discurso Materialista, essa noção movimenta uma especificidade discursiva que o faz ultrapassar o efeito de unidade que pode produzir em outros campos do conhecimento. Orlandi afirma que “Não vemos nos textos os ‘conteúdos’ da história. Eles são tomados como discursos, em cuja materialidade está inscrita a relação com a exterioridade.” (ORLANDI, 2010, p.68). Desse modo, um texto, tomado em análise, remete às condições de produção que possibilitaram sua constituição, não sendo esse inteiramente uma unidade, mas um material que aponta para as disputas que lhe possibilitaram sua constituição a partir de uma posição de sujeito. Assim, o trabalho com o texto é produtivo não somente pelas relações semânticas que são mantidas em seu interior, mas principalmente pelo não-dito que o sustenta, e por isso afirmo que ele não é inteiramente uma unidade. Há, dessa forma, a impossibilidade de uma leitura analítica se limitar à história institucionalizada, tomando os sentidos que circulam no material como uma obviedade, pois o trabalho do analista remete insistentemente à exterioridade, ou seja, às relações de forças que podem contar uma história diferente da legitimada. Recorto uma afirmação pertinente, de Orlandi, que aponta para a heterogeneidade que constitui o texto:
Os textos individualizam – como unidade – um conjunto de relações significativas. Eles são assim unidades complexas, constituem um todo que resulta de uma articulação de natureza linguístico-histórica. Todo texto é heterogêneo: quanto à natureza dos diferentes materiais simbólicos (imagem, som, grafia etc.); quanto à natureza das linguagens (oral, escrita, científica, literária, narrativa, descrição etc.); quanto às posições do sujeito. Além disso, podemos considerar essas diferenças em função das formações discursivas: em um texto não encontramos apenas uma formação discursiva, pois ele pode ser atravessado por várias formações discursivas que nele se organizam em função de uma dominante. (Ibidem, p.70).
Quanto à figura do porta-voz, desempenhada sobretudo por Vargas, no caso das posições identificadas com as discursividades que compõem a Aliança Liberal, ela desempenha uma função em que se destaca de seus representados, sendo dotada de visibilidade, o que implica em um ganho de legitimidade que os demais não detêm. Essa figura também possui dupla visibilidade, na medida em que dialoga com diferentes posições, especialmente com aqueles que detêm o poder legal e com os seus representados que investiram-no como porta-voz. Esse mecanismo de dupla visibilidade garante a posição privilegiada perante o evento, já que mantém relação com posições dominantes e dominadas. Pêcheux explica o porta-voz como
[...] ator visível e testemunha ocular do acontecimento: o efeito que ele exerce falando ‘em nome de...’ é antes de tudo um efeito visual, que determina esta conversão do olhar pela qual o invisível do acontecimento se deixa enfim ser visto: o porta-voz se expõe ao olhar do poder que ele afronta, falando em nome daqueles que ele representa, e sob o seu olhar. Dupla visibilidade (ele fala diante dos seus e parlamenta com o adversário) que o coloca em posição de negociador potencial, no centro visível de um ‘nós’ em formação e também em contato imediato com o adversário exterior. (PÊCHEUX, 1990, p.17).
No evento de 1930, Getúlio Vargas foi o porta-voz do movimento revolucionário, falando em nome da Aliança Liberal e daqueles que estavam identificados com ela, constituindo um nós que produzia como efeito de sentido uma representação da totalidade da dissidência ao poder da República. Assim, no movimento de exposição ao olhar do poder que afrontava, no caso, o governo de Washington Luís, outras possibilidades de dissidência foram tomadas e apagadas na voz de Vargas. O apagamento não se configura apenas em relação às posições antagônicas que são incluídas no nós universalista, mas também na distância entre o porta-voz e seus representados das classes populares, cujo afastamento necessário para aquele tomar a frente e se converter em uma posição visível e legítima torna estes opacificados. Dessa forma, as palavras de Zoppi-Fontana fazem sentido sobre o porta-voz, no evento de 30, e o funcionamento da divisão interna apagada pelo nós: “Relação imaginária de representação, pela qual o porta-voz se destaca do grupo como seu legítimo representante; operação de universalização, pela qual essa operação primeira de divisão interna é apagada pela legitimação jurídico-institucional do poder do Estado” (ZOPPI-FONTANA, 2014, p.79).
Quanto ao tratamento dos recortes, assumo a equivocidade da designação revolução e sua materialidade como espaço de inscrição onde sentidos em contradição se relacionam, contando histórias não institucionalizadas sobre 1930 e uma longa e importante parcela da história do Brasil, em parte, esquecida. A produção desse esquecimento, entretanto, não é impeditivo para que a memória recalcada funcione, produzindo sentidos que retornem na história, de maneira deslocada. A equivocidade implica em disputa de sentidos entre diferentes posições que concorrem por estabilizar a legibilidade de um enunciado. Sendo assim, assumo minha inscrição epistemológica no terreno materialista quando afirmo que a significação não é anterior ao valor que um significante estabelece em relação a outro, ou seja, o sentido não preexiste à palavra, mas se constitui no fio do dizer, que evoca uma rede de relações com o não dito.
Um momento determinante no evento de 1930 foi aquele designado por movimento revolucionário. Esse movimento reuniu integrantes da Aliança Liberal (AL), que
contava com a participação de políticos que, em anos anteriores a 30, compuseram lados
partidariamente opostos9. A AL iniciou a empreitada de levar Vargas ao poder federal e depor
Washington Luís. Na duração desse evento, Carlos Prestes, antigo líder da Coluna que compôs um dos momentos mais tensos do tenentismo, declarou sua divergência aos tenentistas que se juntavam à Aliança Liberal. Ao considerar as condições da época, este trabalho parte da opacidade dos sentidos, das fronteiras porosas das formações discursivas e da contradição como funcionamento que rege tais formações para analisar a produção de sentidos para revolução, e pôr em suspenso as evidências que determinam tal objeto.
O gesto de leitura sobre o ano de 1930 é o de tomá-lo como um evento aberto a múltiplas possibilidades de revolução, constituídas a partir de diferentes posições. A história oficial, entretanto, produziu como única leitura possível uma relação intrínseca entre o movimento revolucionário, conduzido pela AL, e o evento que irrompeu naquele ano. Contudo, as análises, ao apontarem para os silenciamentos e as disputas por revolução, indicam a contradição constitutiva do evento, como também as outras revoluções que eram possíveis além daquela da AL. Com isso, se um gesto importante é tomar a designação em jogo como um objeto dividido, abrindo para a possibilidade de sentidos outros comparecerem, outro gesto fundamental é pensar o evento enquanto tal, isto é, não determiná-lo enquanto criação da vontade das posições aliadas a Vargas, mas enquanto irrupção possível a partir das condições de produção nas quais diferentes formações discursivas disputavam por determinar sentidos para o evento. Nesse viés, o movimento revolucionário foi bem sucedido, pois comumente o lemos como sinônimo do que irrompeu em 1930. Todavia, o evento não se fecha a uma discursividade, pois ele é ocasião de disputa entre diferentes posições.
Regularmente, os textos oficiais e a história disciplinarizada constituem versões relativamente estabilizadas de um acontecimento histórico, provocando o apagamento de outras forças que disputaram, um dia, os sentidos do(s) objeto(s) em jogo. Contudo, as marcas do discurso outro, recalcado, apagado, permanecem produzindo sentidos no enunciado oficial, como analisaremos futuramente. Tais marcas também permanecem em uma relação equívoca com sentidos que são produzidos hoje, seja sendo ressignificadas, quando não sofrem censura, ou negociando suas margens com os discursos que se perpetuam, quando censurados. Antes de trabalhar os mecanismos de produção de sentidos para revolução, trago a seguinte
9 Refiro-me a Borges de Medeiros e Assis Brasil, que disputaram o governo do Rio Grande do Sul, em1923, e, após os resultados das eleições, deflagraram uma guerra civil.
afirmação de Bethania Mariani, em sua dissertação sobre a imprensa de 1930, que diz das memórias perpetuadas:
[...] qual dessas representações do Brasil foi cristalizada, perpetuada na história? Com certeza não foi o país sério e moralista de Washington Luiz. Também não foi a dos comunistas... Não é preciso ir muito longe nem prolongar mais esta charada. Com certeza, a revolução vitoriosa de 1930, ou melhor, seus vencedores são os responsáveis pelo desenvolvimento de determinada visão da história oficial. (MARIANI, 1988, p. 207-208).
II. ALIANÇA LIBERAL: REVOLUÇÃO INSTITUCIONALIZADA
O estado de espírito do povo brasileiro é de franca revolta. Tomei médias e creio não errar orçando em 90% o índice das criaturas que, quando se abrem na intimidade, denunciam este estado de revolta. Do espírito de revolta ao espírito revolucionário a transição é mínima. Basta que deflagre um movimento militar para que a passagem se opere e o revoltado se transforme em revoltoso. Revoltoso platônico, é verdade, mas perigosíssimo, pois dará à explosão a força moral das suas simpatias e a material, sendo-lhe possível.
(...)
Entre nós, por que persiste o cancro das revoluções militares? Por que o povo se revela tão simpático a tais movimentos, sejam encabeçados por quem for? É porque o povo não se sente ligado ao governo, e não vê diferença entre governo revolucionário e legalidade usurpada. Opere-se o casamento, cesse o divórcio, e para esmagar levantes militares não será preciso recorrer à força: o eleitor defenderá o seu elegido. Como vão as coisas, vejo tudo negro. Esta revolução não será a última, porque a revolução está na alma de toda a gente. Reprimida aqui, ressurgirá além, e o nosso pobre Brasil não fará outra coisa senão curar feridas periodicamente reabertas.
A repressão não atinge a causa última do fenômeno. Equivale a combater a febre, em vez de atacar a causa da febre. De que valeu a terrível repressão castilhista no Sul? Cada degolado dava origem a dez futuros revoltosos seus filhos e parentes, e a revolução lá está, em perpétua incubação, com explosões periódicas. É preciso atacar as causas últimas do espírito de revolta, o que só se conseguirá dando ao povo o que ele quer: direito de eleger livremente, por meio do voto secreto. Não fazer isto é incubar eternamente o ovo da revolução. (Monteiro Lobato, Alcibíades Pizza, Manifesto em prol do voto secreto, 9 de agosto de 1924).
a) O equívoco na luta: entre as eleições e as armas
As articulações que constituíram a Aliança Liberal e a candidatura de Vargas como presidente da República, eclodindo posteriormente no movimento revolucionário, remontam à quebra da política do café com leite, como já afirmado. O impasse entre o Partido Republicano Mineiro (PRM) e o Partido Republicano Paulista (PRP), sucedido após Washington Luís apoiar Júlio Prestes como candidato oficial, o que implicava na perpetuação da política paulista sobre a mineira, contribuiu para resultar em uma tríplice aliança entre Minas, Paraíba e Rio Grande do Sul. Ao mesmo tempo, o nome de Vargas na composição da chapa evocava uma maior participação gaúcha na política nacional. Além disso, a instabilidade no decorrer da década de 20, especialmente na forma de conflitos armados em que circulava a designação revolução, concorria para novas possibilidades no cenário político nacional.