PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS
MESTRADO EM LINGUÍSTICA EDIPUCRS
A PUCRS NA CULTURA DIGITAL
A Interpretação Semântico-pragmática na Interface do Discurso Digital e do Discurso Tradicional
Projeto de Pesquisa
STÉPHANE RODRIGUES DIAS
Orientador: Prof. Dr. Jorge Campos da Costa
Porto Alegre 2010
1 APRESENTAÇÃO
Tendo em vista o contexto de uma editora universitária como a EDIPUCRS, órgão suplementar vinculado à Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (PRPPG), com interatividade digital autor-editora-leitor e uma média de publicações eletrônicas ascendente, faz-se necessário um mapeamento das relações existentes neste ambiente virtual bem como o mapeamento de possíveis projeções que possibilitem delinear uma proposta mais relevante por parte do trabalho editorial, diretamente relacionado a pesquisas de impacto sobre a realidade. A leitura do discurso digital em paralelo à leitura do discurso tradicional suscita dúvidas relativas ao impacto da mídia sobre o processo em foco, abrindo espaço para propostas de formatações e modos de interação específicos. A presente proposta abarca investigações que coloquem a EDIPUCRS dentro de um contexto de pesquisa teórica e de aplicação de resultados (teórico-aplicada).
2 INTRODUÇÃO
Este projeto de pesquisa insere-se na perspectiva de que o ensino superior deve estar imerso no mundo científico-tecnológico, buscando adequar-se às necessidades de interação propostas pelos avanços das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs). Nesse sentido, ele visa delinear perspectivas teóricas que dêem conta de descrever e explicar os processos em interação nesses novos ambientes que contemplam o discurso digital, paralelamente ao tradicional, e propor novas metodologias de uso. Por esse viés, uma editora universitária, diretamente vinculada à Pró-Reitoria de Pesquisa, e cujo trabalho fundamenta-se na relação pesquisadores/comunidade acadêmica, no trabalho de editar, co-editar ou reeditar obras de relevante interesse científico, cultural ou didático, apresenta vocação especial para a interface pesquisa/divulgação científica. A divulgação dos trabalhos realizados por professores e alunos
pesquisadores é a principal finalidade do trabalho editorial no âmbito universitário, porém a pesquisa sobre o contexto do próprio processo (que contempla edição, publicação, distribuição e divulgação de obras que representem a produção de conhecimento relevante e oportuno para a comunidade acadêmica em que se insere), com vistas a torná-lo mais eficiente, mostra-se incipiente.
A pesquisa insere-se no guarda-chuva de pesquisas desenvolvidas no âmbito da EDIPUCRS – A PUCRS na Cultura Digital: um olhar a partir da editoração –, relacionando-se com as seguintes investigações: Processamento Cognitivo da Leitura em Livros Eletrônicos; Compreensão e Processamento da Leitura de E-book: estratégia, inferência, relevância e satisfação e Construção de e-books com uso de Mapas Conceituais.
A EDIPUCRS está em um contexto de referência no mundo editorial digital em termos de publicações eletrônicas, empregando recursos exclusivos ao médio digital, cuja utilização pela editora data de 2008. Nesse contexto, o acesso aos
livros digitais disponíveis apresenta-se em uma escala ascendente, porém tímida, se comparada ao universo digital circundante. A proposta da Editora é oferecer alternativas de navegação diretamente no texto ou através de esquemas, permitindo uma leitura mais econômica (economia de processamento cognitivo do leitor).
Nessa interação, objetiva-se reunir e analisar dados que possam expressar o comportamento da comunidade universitária perante os processos de feitura (envolvendo escrita e formatação) e leitura de discursos digitais, paralelamente aos realizados no meio tradicional, tendo em vista que a PUCRS possui uma Biblioteca Central expressiva, que também contempla um vasto número de obras digitalizadas.
A partir da reunião de dados pertinentes a análises do contexto digital na qual a EDIPUCRS se insere, objetiva-se desenvolver, dentro de um guarda-chuva de pesquisas sobre produção e leitura na Cultura Digital, um estudo sobre a interpretação semântico-pragmática na interface do discurso digital/discurso tradicional. Essa investigação, cuja concepção epistemo-metodológica fundamenta-se na Metateoria das Interfaces (Campos, 2007), apresenta como interfaces externas a Linguística, a Cognição, e a Computação, e como interfaces internas à Linguística a Semântica e a Pragmática.
3 OBJETIVOS
Mapear relações comunicativo-dialógicas existentes no ambiente virtual; Descrever e analisar propriedades do Virtuálogo;
Reunir e analisar dados que possam expressar o comportamento do
usuário no que se refere aos processos de feitura e leitura de discursos digitais, paralelamente aos realizados no meio impresso.
4 JUSTIFICATIVA
O Conselho de Orientação do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, em publicação centrada na temática Desafios ao Desenvolvimento Brasileiro, traz um artigo de Demo (2009) destacando a necessidade de adequação do sistema educacional do país ao contexto das novas alfabetizações no que tange às habilidades de manipulação das novas linguagens tecnológicas e ao próprio desenvolvimento da criticidade do indivíduo/leitor nessa manipulação.
Uma rápida observação de dados sobre uma realidade contextual do país mostra-nos um contraste: de um lado, um elevado número de cidadãos usuários da internet (66,3 milhões, de acordo com pesquisa do IBOPE no final de 20091, e,
em janeiro de 2011, a estimativa é de que se tenha 42.757 usuários ativos no Brasil – IBOPE; de acordo com o COMSCORE, em maio de 2010, o número de usuários chegava a 73 milhões), entrando em contato com textos de diversas origens e formatos; do outro lado, dados que revelam que o nível pleno de alfabetismo, atingido quando, de acordo com o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf, 2009), não há restrições de compreensão e interpretação de elementos usuais da sociedade letrada, como textos mais longos, realizando comparação e interpretação de informações, distinção entre fato e opinião, inferências e sínteses, há resolução de problemas que exigem maior planejamento e controle, além de interpretação de tabelas de dupla entrada mapas e gráficos2, mantém-se em,
aproximadamente, um quarto do total de brasileiros.
Segundo os últimos dados disponibilizados pelo Inaf, entre 2001-2002 e 2009, o nível Pleno não tem mostrado uma tendência de melhora. Em outra direção, entre 2011-2002 e 2009, o percentual entre os brasileiros de 15-64 anos diminuiu
1http://g1.globo.com/Noticias/Tecnologia/0,,MUL1484777-6174,00.html;
http://g1.globo.com/Noticias/Tecnologia/0,,MUL147588-6174,00.html; http://www.cetic.br/empresas/2007/;
http://g1.globo.com/Noticias/Tecnologia/0,,MUL1308964-6174,00.html;
11 pontos percentuais (INAF BRASIL – 2009). A análise feita em relação ao Analfabetismo Funcional toma por base os anos de estudo da população, sendo relacionado a pessoas que não completaram pelo menos a 4ª série do Ensino Fundamental. Nesse mapeamento, temos que pesar a necessidade de “alfabetização digital” e “letramento digital”, em uma perspectiva de futuro imediato, onde as relações culturais estão cada vez mais dependentes do meio digital3.
Uma editora universitária, nessa perspectiva, não deve apenas estar ciente dessa necessidade, adaptando-se a ela, mas também estar à frente de projetos de investigação que qualifiquem a instituição de ensino em termos de produção e divulgação científica, sobretudo.
Desse modo, as pesquisas desenvolvidas pelas unidades, entre elas a editora universitária, estariam inseridas em uma política educacional macro, onde a universidade potencializa seus setores em termos de ciência e tecnologia. A Cultura Digital pode ser vislumbrada nesse processo como envolvendo objetos de investigação no âmbito do trabalho da editora:
alfabetização digital;
as plataformas digitais com interferência direta no ensino/pesquisa; produção/recepção de material didático/cultural/científico;
infraestrutura tecnológica (ambientes digitais); linguagens digitais;
comunicação em ambiente digital, relação autor-editora-leitor (email,
vídeo, autor/leitor);
“fluência digital”, a tecnologia como linguagem (DEMO, 2009);
a intervenção das obras disponíveis no contexto de “aprendizagem
virtual”;
3 Cf: http://odia.terra.com.br/portal/brasil/html/2010/3/internet_vira_panfleto_em_2010_69206.html,
a manipulação do conceito e dos trâmites relativos à autoria (individual
ou coletiva);
a interface consumidor-leitor-produtor de livros;
a interferência da divulgação científica no impacto sobre a qualidade das
informações, interpretação e manipulação de dados, entre outros;
em última análise, pode-se ter como objeto de investigação o impacto
da própria Cultura Digital acadêmica sobre a produção e manipulação de informação digital gerada pela própria Academia.
Nesse universo cultural, o autor entra em contato com o leitor não somente através do texto escrito, mas quase que concomitantemente à obra.
Para Demo (2009), não é possível imaginar a cidadania fora do mundo das Tecnologias de Informação e Comunicação, sendo que os estilos de formação precisam ser multimodais e cada vez mais inteligentes em termos de qualidade, incluindo-se instituições virtuais, como uma universidade virtual.
Ao se vislumbrar, desse modo, a interface linguagem/tecnologia, a
comunicação mostra-se como um processo central, que envolve a interação homem-máquina em um nível, sendo regida pela produção e interpretação de enunciados em linguagem natural e demais linguagens, em outro. É sobre este outro nível, descrito em interação com o primeiro, que a investigação se dá, tendo como recorte o processamento inferencial na interface Semântica-Pragmática.
5 PESQUISA DE CAMPO
Política editorial para plataforma digital –
Direitos autorais: Uso de imagem/áudio:
Processo de publicação (prazos e recursos): Custo:
Disponibilização para o grande público: Controle de acesso:
Publicações: comportamento de autores –
Curso:
Grupo de pesquisa: Objetivos da publicação: Utilização em sala de aula: Formato da obra:
Motivo da escolha:
Familiaridade com textos em plataformas digitais: Publicações anteriores de e-books (motivação): Experiência com textos que contêm imagem/áudio:
Virtuálogo – Redes Sociais
Forma:
- como funcionam as redes do ponto de vista comunicacional (estruturas envolvidas)?
- que tipos de interação são possíveis e quais são frequentes? - quais estratégias comunicativas são empregadas?
- há um padrão de discurso?
- há regras comunicativas internas à rede?
- há um padrão comunicacional universal, isto é, existente dentro e fora das redes?
Conteúdo:
- há polarização de conteúdos nas redes?
- há informações obtidas somente em certos tipos de rede, isto é, específicas à rede?
- há grupos comunicativos internos às redes? O que os une em termos comunicativos? Há uma retórica comum?
- há discussão (produção e análise de conteúdo de modo interativo) relevante na rede? Em que sentido ela difere da dialética fora das redes (forma-conteúdo)? Instância dialógica:
- a dinâmica das/interna às redes interfere na comunicação fora das redes? - o conteúdo fora das redes interfere nas redes (metaconteúdo)?
- como a recursividade se apresenta nas redes? - há interação de linguagens nas redes?
- como o conhecimento das regras dos jogos de linguagem das redes interfere nos jogos?
- há diferença de discurso entre grupos sociais (gênero, idade, etc.)?
Bibliografia básica
CAMPOS, Jorge. The sciences of language: communication, cognition and computation - Inter/Intradisciplinary Relations. In: Inovação e interdisciplinaridade na universidade. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2007. p. 345-376. FODOR, Jerry A. The Modularity of Mind. 5th ed. The MIT Press, 1987.
______________. A teoria da relevância e as irrelevâncias da vida cotidiana. Linguagem em (Dis)curso, Tubarão, v. 5, n. esp., p. 161-169, 2005. Disponível em: <http://www3.unisul.br/paginas/ensino/pos/linguagem/0503/10%20art %208.pdf>. Acesso em: 04 set. 2007.
DEMO, Pedro. Desafio de gerar oportunidades. In: Desafios ao desenvolvimento brasileiro: contribuições do conselho de orientação do IPEA. Org. José Celso Cardoso Jr. Brasília: IPEA, 2009.
GRICE, Paul. Logic and Conversation. In: Studies in the Way of Words. Harvard University Press, Cambridge (MA), 1989.
LEVINSON, Steve. Presumptive Meanings: the theory of generalized conversational implicature. MIT Press. 2000.
FREITAS, Maria Teresa de A. Linguagem de internet e celular. Veja.com, mar.
<http://veja.abril.com.br/idade/exclusivo/perguntas_respostas/linguagem-internet-celular/idioma-escrita-abreviada-jovens-adolescentes.shtml>. Acesso em: 3 abr. 2010.
MCLUHAN, M. Os meios de comunicação como extensão do homem (understanding media). Tradução de Décio Pignatari. São Paulo, Cultrix, 1969. SPERBER, D.; WILSON, D. Relevance: Communication & cognition. 2nd ed. Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1995.