SILVIO PERSIVO
Jardim Dizpersivo
APRESENTAÇÃO
Apresentar este livro com a publicação das poesias de meu amigo Silvio Persivo é, ao mesmo tempo, um prazer, uma responsabilidade e uma oportunidade de tornar mais conhecida a sua grande obra literária, seja em termos de produção e de qualidade, a maior parte desconhecida do grande público.
Silvio é, sem a menor sombra de dúvida, um intelectual reconhecido na Amazônia e nacionalmente, mas, que não tem merecido como poeta o destaque e a publicidade que deveria ter, apesar de sua intensa atividade com o Blog Viva a Poesia (http://silviopersivo.blogspot.com) onde traduziu, com competência, uma enorme quantidade de poetas hispano-americanos. Além do mais se trata de um escritor e poeta múltiplo e moderno que sempre escreveu com um estilo próprio originalíssimo que revela de forma sinuosa sua multifacetada cultura, visão de longo alcance e, principalmente, de futuro.
Nele, pode-se dizer, que há vários Silvios que aparecem ora ternos, doces, duros, irônicos, debochados e sempre, eternamente humanos. Talvez por ser, na própria vida, um ser que vê as dificuldades com humor e busca a compreensão dos outros, do mundo e de si mesmo, o que, muitas vezes, pode parecer ambíguo, mas, é fruto de sua tendência a ser um sonhador objetivo, um crítico caústico até de si mesmo, porém, sem a pretensão de ser o dono da verdade e aberto ao diálogo e à tolerância.
Por tais razões só mesmo a leitura atenta permite captar os significados e as nuances, nem sempre fáceis, com que usa as palavras como se percebe, mais uma vez, neste “Jardim Dizpersivo”. Silvio, como uma autêntica “antena da raça” trabalha em silêncio plantando suas flores (poesias), cultivando o seu jardim com a paciência de um grande jardineiro que sabe que as flores com o tempo brotarão deixando a beleza e o perfume como fruto de um trabalho que tem sua marca e talento. Termino dando lugar à sua poesia cuja indiscutível grandeza pode ser captada apenas na beleza de um poeminha como nos versos de:
“BALADA PARA YOKO ONO Nada é tão bonito
Quanto o olhar
Da mulher que se ama”.
Sabedoria Ignorante
Acabo aqui: Onde tudo começa. No recomeço de tudo. Há uma suave sensação De sofrimento inútil Em contar estrelas Ou procurar verdades. Toda mentira é confortável E nunca arde.
Vejo a única luz
Da chama acesa do saber Que me persegue Por nada conhecer.
O peso dos sonhos que carrego Envolto no véu da ignorância É o que produz esta bonança De saber apreciar o mar E o luar.
A névoa brinca com a clareza. Pode ser que a vida seja Um caminho de luz. Perdido na noite escura Limito minha procura Ao prazer do instante. Nada de pensar no adiante
Nem antecipar o gozo ou a tristeza. Cada momento tem sua própria beleza.
Estilhaços
O mundo todo é imagem, impressão, tela, momento. Os programas, agora, são passeios virtuais- sentidos e pensamentos- e não interpreto mais
sob o som techno sigo estilhaçado. Nada mais é sólido-
seja, o que passa, posto, pego. Quase tudo vazio,
o que, com imaginação, nego, porém, quanto tempo irei negar? Insisto em caminhar impreciso, errôneo, torto e cego.
Não há porto. Só há mar. E desejo de amar.
Só eu, eu só
Em não olhar nos teus olhos sei que da vida estou fora o vazio no meu peito só vê a passagem das horas o tempo que vai embora via a tristeza segura do olhar que foi embora
Procuro pelo meu centro nos versos, neste poema, tudo, porém, é só cena a vida não tem intento.
Só eu
sei que é muito tarde que a raiz secou lá dentro e a chama que ainda arde será cinza em pouco tempo. E só restará o pó.
Só eu, eu só.
Tempos
Sobre quem fui
não sei dizer nem lembro é como uma folha branca que se sabe apagada. Hoje sou outro que as chuvas molham nos dias que me compõem uma nova história
que ante os meus passos o caminho traçam.
O meu futuro é uma ostra que nunca saiu do mar, embora já façam o leilão da pérola que não sei se há. E, no presente, o destino é esperar.
Oração inútil
Entre as ruas e veículos, Nas praias, parques, elas São, sempre elas, visões, Se vestindo ou se despindo, As tentações que nos cercam. E, com vinho, se completam? Ou permanecerão miragens, Embriagues que são? Protegei-me, Senhor, Protegei-me delas, Tão lindas, tão belas!
Fazei-me sempre casto e santo Livra-me das mulheres, De seus feitiços,
De seus irresistíveis encantos. E, se não puder, trata de me perdoar.
Balada para Yoko Ono
Nada é tão bonito Quanto o olhar Da mulher que se ama.
Lembrança
Há mensagens que nunca chegam ao destinatário
(como os pensamentos meus que rodeiam a tua imagem e voz quase esquecidas) Qual garrafa lançada ao mar
Que afunda num banco de areia. Nosso destino, talvez,
Esteja suspenso assim
Numa mensagem que não chegou ao fim Na notícia de longe que não veio. E tu, que serias o farol, a luz, O guia do ser e do prazer
Permanece como uma estrela do passado Que não voltou a brilhar.
E nesta noite Com esta lua linda
Tua lembrança me faz chorar.
A morte inesperada
Para Edem, que não poderá ler. Na morte não há beleza. Não há beleza na morte. Nem nada que nos conforte. São tristes as flores na morte. Na morte as flores são tristes.
Superação
A diferença entre a alegria e a tristeza É um toque certo, sutil, No momento exato Como a fala final no teatro. O gol-supremo fato- É a beleza do espetáculo E, no futebol, a bola tocando na rede É o matar da sede
Que o grito saciado comemora. Um é pouco.
Um é suficiente. Um é demais. Ganha quem faz E não leva.
Só a vitória enleva, eleva. Feliz é quem vence. A glória é vencer.
Mortes
Adorava insetos. E criava uma aranha Que chamou de Tânia Em homenagem a uma mulher que não esquecia. E derramou mais lágrimas
Quando a aranha morreu Do que pelo amor
Presença
Quanto mais tento me esquecer de ti Mais descubro que não te esqueci Como se o próprio ato de partir Fosse apenas a desculpa de voltar E insisto que este amor há de acabar, Mas é um amor tão forte, resistente Que antes de acabar acaba a gente, Por tristeza, por saudade, pelo bar Se transformar em inevitável lar No qual, inútil, queremos afogar Em álcool o amor que nos embriaga Muito mais que a própria bebida Já que a ressaca vem mesmo da vida, E da chama do amor que não se apaga.
Flor preciosa
A úmida flor
Que minhas mãos desajeitadas colhem Tépida, febril, nervosa
É carne, fios, líquidos, rosa, Porta e poço,
Começo e fim, Jóia esplendorosa,
Realidade de sonho e de loucura No qual espada e língua Se confundem
E fazem ver que nada sei Senão, ò criatura, Que é a mais linda
Versos à-toa
Nas estradas onde andei Me perdi por céus e mares No entanto vi lugares Próximos da fantasia Como os ipês floridos Que se perdiam na tarde De cor enfeitando a vida Sem barulho nem alarde.
Nas estradas onde andei Entre luz, magia e água, perto de abismo e estrelas Nunca perdi a vontade De numa curva revê-la, De revê-la numa curva... E passei por milharais, Imensas parras e uvas Amassadas pelos pés De moças, velhas, viúvas E bebi, amei, fiz versos Sem perder pelo caminho A certeza que seu amor Há de ser bom como o vinho.
Lógica amorosa
O absurdo é que insistem Em que a menor distância Entre dois pontos
É uma linha reta Ignorando a atração De nossos corpos Na razão inversa Da razão e da distância. Beijo teus seios.
Percorro retamente as curvas Que me encaminham ao triângulo Da perdição e do prazer
Para descobrir que ser sábio É nada saber
E sim descobrir a delícia de teu corpo Pelo gosto.
Gemidos, gritinhos E o êxtase inesperado Que nos torna crianças
Lambuzando-se nos mais deliciosos doces, Infantis
Na brincadeira mais feliz.... Inútil explicações...
Sobre a inutilidade da beleza de teus quadris. Tudo em ti foi feito para amar
O mar de amor
Se me lembro De já ter sido poeta Foi em teus braços Soletrando o verbo amar. Bem devagar:
A-mar, am-ar, am-mar, a-mar. Bem depressa:
Amar, amar, amar, amar, amar, ah! E bem me lembro
Das delícias de tal mar.
Apagador
Todo amor que vira água Escrevo o nome na areia Vem a onda leva a mágoa Pra incomodar as sereias.
Santa idade
Não me importam mais As coisas materiais. Se não sou espírito
Da forma que bailo e danço Sou quase....
Me alimento.
Ainda me alimento de luz Se morrer é só uma transição. O real, o real
Quase poema
Era o céu
E parecia ser o céu No brilho dos teus olhos. Era o céu ou era o mar? Era hora de amar. Eram teus seios Caindo em minhas mãos Era o teu ventre
Morno, macio, terno Teu corpo
Com a febre do eterno Que, sem jeito, me queimou Só em tocar Era a beleza Que se apresentava Na mágica do instante Era flor E parecia flor Sendo acima de tudo Desejo, paixão e amor. Era ilusão.
E parecia ilusão ser. Hoje choro.
Nem te vi desaparecer E, no entanto,
Há a desolação e teu perfume Em todo canto
Canção da ausência
O tempo não se mede mais senão pela saudade... Inútil as palavras para preencher
este vazio que se alonga além do mar e do infinito. Claro que ninguém ouve,
mas, meu grito, tem subtons e densidades que os ouvidos não escutam,
silencioso, na sua forma bruta de cortar a carne sem deixar sinais visíveis.
Por um momento a ilusão de que estais aqui
é mais forte que tua ausência,
então, percebo que é fruto exclusivo da demência, deste querer que o tempo,
ou a desesperança, não extingue e transformo em canto
como única forma de mostrar que o meu amor ainda está vivo.
Tu e o trem
Como o moderno e vermelho Expresso Rajdhani, O melhor e mais belo trem-leito da Índia,
És um objeto de desejo. Fecho os olhos e penso que vejo
Que todos os outros trens param à tua passagem Orgulhosamente resplandecente na viagem
Por pontos fundamentais, como Nova Délhi ou Ratnagari,
Importantes capitais de estados Por ti conectados.
Ah! Por mais que tentasse
Jamais consegui sentir das cabines o ar climatizado! Os horários eram poucos,
E, apesar da vontade sem tamanho, Sempre estive adiantado ou atrasado,
De forma que o embarque permaneceu um sonho Como o percurso que não fizemos juntos.