[email protected] 2 OS NÚMEROS PERSONAGENS: GERALDO ANTÔNIA JAMILLE
Tudo escuro. Ouve-se as vozes de Antônia e Geraldo, cantando números na melodia da canção Ponteio de Edu Lobo.
ANTÔNIA: Era um, era dois, era três... GERALDO: Era quatro, era cinco, era seis...
A luz vai iluminando. Percebe-se os dois idosos, um do lado do outro. Cantando e sorrindo.
ANTÔNIA: Era sete, era oito, era nove... GERALDO: Era dez, era onze, era doze...
Ouve-se a campainha. Antônia faz sinal de espere para Geraldo e vai atender a porta. Geraldo continua cantando, baixinho. Entra Jamile, chorosa, segurando uma mala.
JAMILE: Oi, vó!
ANTÔNIA: Oi, Jamile, que surpresa... Que novidade você por aqui?
JAMILLE: Desculpe-me por aparecer assim sem avisar... Tenho tido uma vida tão agitada, uma
porção de coisa acontecendo, que fiquei sem tempo de visitar vocês... A mamãe me falou sobre a doença do vovô... Aí, vim apressada, me despedir da senhora e do vovô.
ANTÔNIA: Despedir-se, para onde você vai?
JAMILE: Sei lá, vó, talvez para a China, qualquer lugar longe daqui.
ANTÔNIA: Nossa, o que deu em você? Cadê o Eduardo, ele vai com você também? JAMILE: Não, vó, (chorosa) eu estou deixando o Eduardo.
ANTÔNIA: Deixando o Eduardo? Ele lhe traiu, filha?
JAMILE: Não é nada disso, vó. Ninguém traiu ninguém. Nós ainda nos amamos muito... ANTÔNIA: Eu não estou entendendo.
JAMILE: Por favor, vó, não procure entender. Ainda está tudo muito confuso na minha
cabeça... Mas o certo é que eu preciso de um tempo... E o vô Geraldo, como está? A mamãe falou que ele piorou.
JAMILE: Acho que já faz dois anos. Na última vez que estive aqui, ele acabara de se aposentar
da universidade, por incapacidade de ensinar e orientar alunos.
ANTÔNIO: Bem, então, é melhor eu lhe apresentar a seu avô JAMILE: Apresentar?
Antônia e Jamile se aproximam de Geraldo, que continua cantando.
GERALDO: Era 301, era 302, era 303. ANTÔNIA: Geraldo, a Jamile está aqui? JAMILE: Oi, vovô!
Geraldo interrompe o seu canto, olha fixamente para Jamile, por alguns instantes. Volta-se o rosto e continua a cantar e a se balançar na cadeira.
GERALDO: Era 304, era 305, era 306... ANTÔNIA: Diga-lhe a data de seu nascimento. JAMILE: Como???
ANTÔNIA: Vá, diga a data do seu nascimento. JAMILE: Vinte e seis de junho de 1985.
Geraldo para o balanço.
GERALDO: Sexta-feira... (sorrindo) Jamile! JAMILE: Sou eu sim, vovô! (ela o abraça) GERALDO: Teresa, 5 de fevereiro de 1970.
JAMILE: Puxa, vó, mas a memória dele está perfeita.
ANTÔNIA: Não é a memória, exatamente. De uma maneira inexplicável, o seu avô é capaz de
dizer qualquer dia da semana de datas futuras ou passadas.
JAMILE: Como não é a memória, se ele lembrou o dia do meu nascimento e a data de
aniversário da mamãe?
ANTÔNIA: Pura associação. Pegue este livro. Ele é uma enciclopédia que contem calendários
de mais de mil anos passados e futuros. Escolha uma data e fale para ele.
GERALDO: Quarta feira. 30 de março, domingo de páscoa, 11 fevereiro, terça de carnaval e
quinta de Corpus Christi, 29 maio de 1687.
ANTÔNIA: Tente o futuro.
Jamile folheia o livro.
JAMILE: Hum... Deixe-me ver... 17 de maio de 12.353.
GERALDO: Domingo. 29 março, domingo de páscoa, 10 fevereiro, terça de carnaval e quinta de
Corpus Christi, 28 maio de 12.353.
JAMILE: Incrível... Ah! Mas para o vovô que sempre foi um matemático brilhante isto não é
proeza nenhuma... É só aplicar a fórmula que ele tem na cabeça.
Antônia pega uma bacia cheia de grão de feijão e derrama uma parte no chão.
GERALDO: 67. ANTÔNIA: Conte você.
Jamile contando os grãos no chão e colocando na bacia.
JAMILE: Um, dois, três... 35, 36... 63, 64, 65, 66,... 67! ANTÔNIA: Agora tente você.
Jamile derrama uma porção ainda maior no colo de seu vestido e mostra para Geraldo.
GERALDO: 142.
JAMILE: (contando rapidamente) 1, 2, 3... 25, 26... 98... 93... 130, 131, 133... 140, 141, 142!
Como ele consegue contar tão rápido?
ANTÔNIA: Ele não conta as quantidades das coisas, ele vê! JAMILE: Ele vê as quantidades?
ANTÔNIA: O seu a avó sempre foi obcecado por números. A vida dele foi dedicada à
matemática. Mas com o tempo, ele foi perdendo a capacidade de realizar as operações numéricas mais elementares. Ele hoje é incapaz de fazer corretamente adições ou subtrações simples, nem sequer consegue compreender ou que é uma multiplicação ou divisão. Ele só consegue relacionar a sua vida aos principais acontecimentos nas datas passadas, relatos de notícias da época, do jornal, mas tudo que tenha a ver com dados numéricos. Embora tenha perdido algumas capacidades das pessoas tidas como normais, ele é capaz de perceber as propriedades das coisas não de maneira conceitual, abstrata, mas como qualidades sensíveis de algum modo imediato e concreto. Assim como percebemos de imediato as qualidades quente e frio, belo e feio, azul e vermelho, ele percebe os números como qualidade. Ele não conta as coisas, apenas vê!
[U1] Comentário: “A VER”
JAMILE: E o que dizem os médicos?
ANTONIA: Ah! Jamile... Os médicos... Os médicos lá sabem de nada... Fizeram milhões de
testes...
GERALDO: 117...
ANTÔNIA: Isto mesmo, meu amor, foram exatamente 117 testes... Para chegarem a conclusão
que o meu Geraldo é um autista ou um sábio idiota... Um sábio idiota, pode uma coisa dessas? (Geraldo sorri) A realidade é muito mais estranha, muito mais complexa, muito menos explicável do que sugere qualquer diagnóstico médico. Embora a medicina tenha o seu lado explicativo, restringe-se a superfície óbvia, não dá margem para o desconhecido, para algo além. Para Geraldo, números não são apenas impressionantes, são também amigos, é o que faz a mediação de seu mundo interior e a realidade exterior. Ele tem uma percepção sintética, não analítica. Vê qualidade. É um reconhecimento que implica afeto, emoção, relação pessoal. Ele parece ver os números no mundo como anjos, isto, embora singular, embora bizarro, proporciona uma singular autossuficiência e serenidade a sua vida. (pausa) Agora, fale-me de você, por que você deixou o seu marido?
JAMILE: Desgaste, vó. Sinto que eu e o Eduardo não temos mais nada a oferecer um ao outro...
Eu sou muito nova, sinto necessidade de experimentar outras coisas.
ANTÔNIA: No início da doença de Geraldo, comecei a pensar a mesma coisa. Fiquei desesperada, pois ele parecia que estava se distanciando. E no mundo que ele fatalmente iria chegar, não haveria espaço para mim. Foi somente com o tempo, dedicação e amor para desejar conhecê-lo novamente que consegui penetrar em seu mundo e interagir com ele na sua maneira singular. Descobri, então, que existe algo extraordinariamente misterioso em ação, poderes e intensidades de um tipo talvez fundamental, em um relacionamento a dois, que só fui capaz de desvendar ao longo desses três anos em que a doença de Geraldo se agravou.
GERALDO: Dois e meio. ANTÔNIA: Verdade, querido.
O celular de Jamile toca.
JAMILE: Um momentinho, vó!
Jamile se afasta um pouco dos dois.
GERALDO: 37.
Antônia olha para Geraldo, os dois sorriem. Ela pega um livro e abre.
ANTÔNIA: 13.
Eles riem. Os dois permanecem falando números primos, um para o outro, enquanto Jamile fala ao celular.
[U2] Comentário: ESTOU SEM
DICIONÁRIO NO MOMENTO, EST PALAVRA É COM “U” MESMO, PENSEI QUE FOSSE COM “L”, ASSIM: ALTISTA
[U3] Comentário: BEM, COM A
NOVA REGRA, SE RETIRA O HÍFEN NESTE CASO E REPETE O “S”
JAMILE: Oi, Eduardo... Estou na casa dos meus avós... Viajo hoje... Por favor, Eduardo, nós já
conversamos tudo que tínhamos para conversar... Não me faça sentir pior do que estou... Eu também te amo muito... Mas não dá mais... Não dá mais... Sem chance... Por favor, para... Eu preciso de um tempo para pensar... Não, não vou lhe ver antes de viajar... Por favor, não insista!... Adeus.
Jamile se aproxima dos avós, enxugando as lágrimas.
ANTÔNIA: 839.
GERALDO: (sorrindo) 967 ANTÔNIA: (sorri) 983.
JAMILE: O que vocês dois estão fazendo?
Antônia entrega o livro a Jamile.
ANTÔNIA: 1009.
JAMILE: São números primos, como ele consegue? GERALDO: 1289.
ANTÔNIA: Experimente você. JAMILE: 33679.
Geraldo olha sério para Jamile.
JAMILE: Eu disse uma besteira?
Antônia pede silencio. Depois de alguns segundos de pausa, Geraldo dá uma gostosa gargalhada.
GERALDO: 100411.
ANTÔNIA: Ele se sentiu desafiado.
Jamile passa a dizer os números mais rapidamente e Geraldo a responder com outros mais rapidamente ainda.
JAMILE: 102653. GERALDO: 102677. JAMILE: 103471. GERALDO: 103723.
JAMILE: 103771.
Geraldo se tranca repentinamente, cruzando os braços, visivelmente aborrecido.
JAMILE: O que foi agora?
ANTÔNIA: (olhando o livro que Jamile tem nas mãos) Você disse um número não primo. JAMILE: Ah! Vovô, perdão, eu me confundi... 104471!
Geraldo não se move.
ANTÔNIA: Não adianta, você quebrou a regra da relação. Você saiu do mundo dele. Você
deverá descobrir algo diferente para recomeçar uma relação com ele.
JAMILE: Sinto muito... Ah! Já sei!
Jamile abre a sua mala, retira um CD e um Microsystem e põe para tocar um bolero.
JAMILE: Vovô, vamos dançar!
ANTÔNIA: Não adianta, Geraldo nunca aprendeu a dançar.
Jamile pega Geraldo pelas mãos, este deixa-se levar.
JAMILE: Vamos lá, vovô! Dois pra lá, dois pra cá... Dois pra lá... Dois pra lá!
Geraldo começa a dançar com ela.
GERALDO: Dois para lá, dois para cá.
Geraldo começa a adicionar novos passos de bolero.
GERALDO: Um passo para direita, outro para esquerda... Dois para frente, um para trás. ANTÔNIA: (batendo palmas) Muito bem!
Geraldo interrompe com Jamile. E puxa Antônia para dançar. Geraldo conduz Antônia maravilhosamente bem, com passos diversos. Jamile os observa, emocionada. Quando a música termina, Antônia o conduz para a cadeira de balanço.
ANTÔNIA: Descanse um pouco, meu querido!
JAMILE: Puxa, vovó, como é lindo ver vocês assim, depois de tanto tempo de casados, se
dando tão bem. Penso que nunca chegarei a este estágio, eu sou muito inconstante.
ANTÔNIA: Escute Jamile, o grande desafio das relações afetivas está menos em procurar o
diferente no diferente, que descobrir a cada instante no mesmo o diferente. É preciso resgatar dentro de nós o olhar do recém-nascido, cuja vida para ele é uma eterna novidade... Certa vez, com pouco tempo de casamento, assim como você, eu pensei em deixar o seu avô. Eu estava
[email protected] 8 entediada... Quando já estava de malas prontas, ele me surpreendeu com uma poesia, feita especialmente para mim...
JAMILE: Eu quero ouvi-la.
ANTÔNIA: Deixe-me ver se ainda consigo lembrar... Chama-se OS NÚMEROS.
Como números Entre dois O igual divide
A sobra, uma incógnita. Infinitas as dúvidas Inteiros e racionais Complexos e radicais Aleatórios e ordinários RELAÇÃO sem SOLUÇÃO.
GERALDO:
Como números Entre dois A diferença soma O resto, não conta Nulas as certezas Fracionários e naturais Divididos e reais Limitados e infinitesimais SOLUÇÃO com RELAÇÃO.
ANTÔNIA: Não é grande coisa. Mas para mim, ela é muito significativa. JAMILE: É linda!... Bem, vó, está na minha hora.
Beija o avô. Antônia a acompanha até a porta
ANTÔNIA: Jamile, Eduardo é bom homem, que te ama, pense nisto. JAMILE: Tá, vovó, vou pensar!
As duas se abraçam. Antônia se afasta. Jamile observa os avós à distância. Antônia põe um cobertor sobre o corpo de Geraldo. Geraldo pega na mão de Antônia.
GERALDO: 43.
ANTÔNIA: Ah! Eu adoro esta canção.
Eles começam contar na melodia da canção. Quando te vi, versão de Beto Guedes.
ANTONIA: 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28,...
Jamile vira-se e fala ao telefone.
JAMILE: Oi, Eduardo, podemos conversar?
Jamile sai. A luz vai diminuindo, enquanto eles continuam cantando.