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Índice
Agradecimentos ... ii
Resumo ... iii
Abstract ... v
Índice de Tabelas ...vi
Lista de Abreviaturas ... vii
Introdução ... 1
Metodologia ... 6
Revisão de Literatura ... 9
Capítulo I ... 16
O Sputnik ... 19
A Crise dos Mísseis de Cuba... 27
A conquista da Lua ... 36
A década de 70 e 80: os Tratados SALT ... 39
A Guerra das Estrelas ... 45
A Guerra do Golfo de 1991 ... 47
Capítulo II ... 51
China no Espaço – as origens ... 51
China no Espaço: o que a motiva? ... 55
Relações Internacionais espaciais da China ... 62
1. China versus Europa... 62
2. China versus EUA ... 64
3. China versus América do Sul ... 67
4. China versus África ... 70
5. China versus Ásia ... 71
Conclusão ... 75
Bibliografia ... 77
Monografias ... 77
ii
Agradecimentos
Estou grata a todos os meus familiares pelo incentivo recebido ao longo destes anos. Em especial aos meus pais: obrigada pelo amor, alegria e atenção sem reservas...
Agradeço à Mestre Margarete Couto pela ajuda, aconselhamento e por ter sempre acreditado que seria possível.
Ao Professor Doutor António Horta Fernandes, orientador da dissertação, agradeço o apoio, a partilha do saber e as valiosas contribuições para o trabalho.
iii
Resumo
O lançamento do Sputnik pela União Soviética deu ao espaço extra-atmosférico uma nova dimensão política e estratégica. Desde então, o espaço tem sido usado de acordo com interesses de poder a curto prazo pelas várias potências espaciais. O desafio colocado ao futuro do espaço centra-se na existência de duas visões que competem entre si: uma promove o uso pacífico do espaço e a cooperação internacional na sua exploração e considera que um regime legal multilateral é a melhor forma de equilibrar os vários interesses em jogo e evitar uma hegemonia que coloque em risco o acesso ao espaço por toda a comunidade internacional. A segunda visão vê o espaço numa lógica de interesse nacional, onde é necessário negar o uso do espaço por adversários.
Contudo, nos últimos anos têm-se assistido a um maior envolvimento de países que até agora não tinham aspirações no espaço, como é o caso da Nigéria, que com o apoio de potências espaciais, neste caso a China, alcançaram o clube espacial.
Os avanços tecnológicos, o crescente interesse na promoção do espaço e os investimentos privados realizados na área espacial, demonstram que o espaço se tornou num dos elementos essenciais para a não dependência de outros quer na política interna quer externa por parte de um Estado além de conferir um respeito acrescido pelas outras nações pelas implicações estratégicas dos sucessos espaciais.
dia-a-iv dia de cada Estado e é um dos pontos mais vulneráveis da segurança económica e militar de um Estado.
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Abstract
The launch of the Sputnik by the Soviet Union gave the outer space a new political and strategic dimension. Since then the space has been used by various spatial powers in accordance with their short term power interests. The challenge for the future of the space is the existence of the two competing visions: one promotes the peaceful use of the space and international cooperation in its exploration and considers that a multilateral legal regime is the best way to balance the various interests in questions and to avoid a hegemony that puts at risk the access to the space by the whole of the international community. The second view sees the space in the national interest where it is necessary to deny the use of space by its opponents.
However, in recent years we have seen a greater involvement of countries that until now did not have spatial aspirations, such as Nigeria, which with the support of other spatial powers, China in this instance, created the spatial club.
The technological advances, the increasing interest in promoting the space and the private investment in this area, demonstrate that the space has become an essential element for the non-dependency on others, both in the domestic policy as well as foreign policy, by a country besides commanding a great respect by other countries for the strategic implementation of the spatial successes.
Therefore, this thesis will focus on what motivates a nation to seek a position in space, even if that means a violation of the existing international regulations regarding the peaceful use of space, as well the consequences it may bring to the international security by the militarization of the space. It is also intended to demonstrate that the space is an important source of soft power for countries such as China. This topic is important and current with regard to the international security, in view of the most recent events: the announcement by North Korea of a launch into space, the end of the NASA space programme, Galileo commencing operations. The international reaction to these events demonstrates that the dependency on space is increasing, not only on a military level but also economic, but it is also a source of concern for everyone dealing with national and international security. The space is part of the daily life of each State and is the most vulnerable aspect of the economic and military security of a Nation.
vi
Índice de Tabelas
Tabela 1: Código dos projetos do programa espacial Chinês... 53
Tabela 2: Rating Nações ... 58
Tabela 3: A China vista por outros países ... 58
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Lista de Abreviaturas
ABM - antimísseis balísticos
ASAT - arma antissatélites
COPUOS - Committee on the Peaceful Uses of Outer Space
CBERS - Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres
CTBT - Comprehensive Nuclear Test Ban Treaty
CE - Comissão Europeia
CNN - Cable News Network
DSP - Defense Support Programm
ESPI - European Space Policy Institute
EUA - Estados Unidos de América
ESA - Agência Espacial Europeia
FRS - Foundation pour la Recherche Stratégique
GPS - Global Positioning System
ICBM - Intercontinental Ballistic Missile
IFRI - Institut Français des Relations Internationales
INPE - Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
ITAR - International Traffic in Arms Regulations
IESD - Identité Européenne de Sécurité et de Défense
KGB - Comité de Segurança do Estado
MRBM - Mísseis Balísticos de Médio Alcance
NASA - National Aeronautics and Space Administration
NATO/OTAN - Organização do Tratado do Atlântico Norte
NSA - National Security Agency
NKVD - Comissariado do Povo para Assuntos Internacionais
viii SIGINT - Signals Intelligence
1
Introdução
A política espacial, ou comummente apelidada de Astropolítica, tem sido uma área de estudo que tem ganho relevo nos últimos anos, destacando-se o seu estudo nos Estados Unidos de América (EUA), mas também a ganhar a alguma relevância na França, Itália, Reino Unido e Alemanha. Trata-se de uma área da ciência política e das relações internacionais que aborda a exploração espacial do ponto de vista político, geopolítico e da estratégica. Nesta área de estudo aparentemente peculiar e particular são debatidas temáticas transversais relacionadas com política internacional, segurança internacional, militarização e estratégia militar.
No auge da exploração espacial, o Presidente norte-americano John F.
Kennedy afirmou que “quem dominar o Espaço dominará a Terra” e, tendo isto em mente, importa analisar as dinâmicas e as alterações da política internacional no caminho para o domínio do e no Espaço. Para além de um interesse sociopolítico, não se pode deixar de verificar a dependência das sociedades atuais dos meios espaciais e das suas aplicações, o que tanto demonstra a sofisticação e modernização desta sociedade como a sua vulnerabilidade. Este constante jogo de equilíbrio entre modernização tecnológica e vulnerabilidade torna a dinâmica da política internacional particularmente interessante de ser estudada e analisada.
Comparado com, por exemplo as ancestrais técnicas de medicina chinesa, a história espacial é bem mais curta. Contudo, a exploração espacial vai já na quarta geração: a primeira começou ainda durante a II Guerra Mundial, a segunda geração é identificada com as missões era Apolo e a chegada do Homem à Lua, a terceira geração é pós-Apolo, e por fim a geração pós-Guerra Fria. Esta última geração, em oposição à primeira e à segunda, não fala sobre o Espaço como sendo um sonho, mas como sendo uma ferramenta.1
1
JONHSON-FREESE, Joan e HANDBERG, Roger, (1997), “Space the dormant frontier – Changing the
2 Quando, em plena Guerra Fria, o Sputnik é lançado pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) estava-se longe de perceber as implicações que este acontecimento traria para a dinâmica mundial, quer a nível civil quer a nível politico e militar. Nesta altura da conquista espacial, a disputa pelo domínio do Espaço centrava-se apenas entre as duas superpotências de cada lado da cortina de ferro, EUA e URSS. Atualmente, a disputa foi consideravelmente alargada a mais intervenientes, sejam eles Estados ou organizações governamentais ou entidades privadas.
Porém, durante a Guerra Fria, EUA e URSS não eram os únicos a desenvolver programas espaciais pois vários países europeus mesmo estando a passar a fase da reconstrução, investiam igualmente no desenvolvimento de futuras capacidades espaciais, tais como: França; Alemanha; Itália e Inglaterra. Estes países europeus no pós-guerra começaram a investir e a desenvolver o seu próprio programa espacial ainda na década de 1950, em simultâneo com os primeiros passos da cooperação europeia. Do outro lado do globo, na Ásia, estados como a China e o Japão começaram igualmente a desenvolver tecnologia espacial, estabelecendo objetivos e prioridades neste campo durante a década de 1960. Em alguns dos casos os projetos destes Estados fizeram-se à custa de uma estreita cooperação com uma das duas superpotências. Isolado, o Brasil foi um pioneiro no investimento tecnológico em meios espaciais e, apesar de tardio, tem neste momento um dos programas espaciais mais desenvolvidos e antigos da América do Sul.
O inigualável crescimento de meios envolvidos e/ou dependentes de tecnologia espacial, que mantêm em equilibro periclitante a (des)confiança entre parceiros e meios económicos consideráveis, levou-nos a debruçar-nos sobre o novo ator de relevo nesta matéria: a China. Procurando perceber não só como surgiu, em que ambiente político-histórico, mas também qual o seu percurso num meio altamente competitivo e qual as suas perspetivas futuras.
3 nem concebe viver sem elas, por exemplo, o uso quotidiano e imprescindível do telemóvel.
Em relações internacionais, quando dois ou mais Estados estão em conflito eminente apesar de nenhum desses Estados realmente desejar o confronto, está-se perante um dilema de segurança. Robert Jervis escreveu sobre este tipo de situações em que um Estado com o receio de ser dominado ou ultrapassado de alguma forma toma decisões que nem sempre são do seu melhor interesse. O que Jervis e outros autores escreveram e estudaram descreve o que se passa na área espacial. As ações dos atores internacionais poderão ser melhor entendidas sob o dilema do prisioneiro2 mesmo quando se trata de formas de adquirir soft power sobre terceiros.
Durante a Guerra Fria a utilização da exploração espacial como fonte de prestígio, poder e supremacia sobre o oponente ficou bem patente. O que se passou, e será sucintamente descrito nesta dissertação mostra, de forma clara, o dilema do prisioneiro ou pelo menos aquilo que o jogador acha que atingirá com a sua decisão de seguir sozinho: “cada jogador, levando unicamente em conta o seu próprio interesse, recebe uma recompensa superior se abandonar a cooperação do que se cooperar”.3 Não obstante a cooperação ser benéfica e trazer vantagens às partes envolvidas, durante a Guerra Fria URSS e EUA optaram por competir. Ainda nos dias de hoje, e apesar das alianças que se formam com outros parceiros na exploração espacial, a nível macro, continua a refletir esta realidade. É o caso da China e dos EUA que é enunciado na segunda parte desta dissertação que evitam cooperar para de certa maneira garantir um nível de supremacia mundial que lhes dê vantagem assimétrica sobre o outro. A nível regional, o caso asiático também enunciado na segunda parte, é demonstrativo da procura de vantagem comparativa em relação aos outros jogadores espaciais.
Não existe nenhuma solução que seja a melhor para todos os intervenientes e por isso o dilema do prisioneiro é uma boa analogia para a política espacial. Isto porque
2 JONHSON-FREESE, Joan, (2007 - 1) “Space as a strategic asset”, Columbia University Press, E-Book,
Kindle version, loc 229
4 neste modelo há tanto de incentivos defensivos como de cooperação. Se um Estado vê outro como sendo um potencial adversário ou mesmo um adversário, isso irá influenciar a sua intenção e até postura.4 Nos últimos 50 anos de exploração espacial encontra-se inúmeros exemplos disto mesmo: durante a Guerra Fria, claramente entre EUA e URSS, nos dias de hoje entre EUA e China, e até entre EUA e União Europeia.
O estudo da política internacional do Espaço permite corrigir a ideia generalizada da opinião pública que a exploração espacial é levada a cabo apenas ou sobretudo para fins científicos, mais do que por políticas realistas de ideologias e nacionalismo, como forma de propaganda e ajuda externa. Não se deverá descurar que o objetivo primário que conduziu ao avanço nesta área centrou-se sobretudo na segurança nacional e a procura dessa segurança através da aquisição de capacidades militares. Mais de 50 anos de exploração espacial demonstram que esta tem sido um espelho da tensão entre os países mais ricos, entre os países mais industrializados e a evolução de perceções de segurança que integram dimensões sociais, ambientais e económicas.5
A nível estratégico, os ativos espaciais são usados para controlo de armamento e sistemas defensivos de aviso prévio. Mas o Espaço oferece também outro tipo de capacidades: recolha de informação, melhorias na área da educação, expansão dos recursos médicos, criação de emprego, gestão e monitorização de recursos naturais entre outros.6 Considerando que a exploração espacial nos traz toda a informação que utilizamos diariamente, conscientemente ou não, assim como formas alternativas de a interpretar através de satélites e da revolução computacional.7
Em 2007, o teste antissatélite da China veio demonstrar o quão vulnerável os sistemas espaciais estão e, consequentemente, a segurança e bem-estar da Humanidade, não só a fatores naturais (como os meteoritos, radiações solares, etc.) mas também a fatores humanos e vontades políticas. O que revela, sem sombra de dúvidas, a importância de conhecer e controlar o Espaço.
4 JONHSON-FREESE, Joan, (2007 -1), ibid, loc 248-264
5SHEEHAN, Michael, (2007), “The international politics of space”, Routledge, New York, p. 1 6 JONHSON-FREESE, Joan, (2007 - 1) ibid, loc 248
5 Ainda há quem negue a existência da militarização do Espaço como sendo o objetivo primário da exploração espacial, desde dos seus primórdios na era moderna. Mas, concordamos com a maioria de que se trata de uma perspetiva enganadora. O Espaço sempre foi, e ainda é, militarizado. As considerações militares estiveram desde o início no cerne dos esforços para a conquista espacial. A tentativa de manter o Espaço desmilitarizado poderá ser desejável, mas não menos utópica. Contudo, se de facto for conseguida, poderá significar um total desinteresse do investimento público nesta área.8
A ambiguidade tecnológica espacial, que tanto pode ser usada para fins civis pacíficos, como fins militares bélicos, levanta questões importantes no âmbito do dilema do prisioneiro: um míssil tanto pode ser usado para destruir outro míssil como um satélite, que poderá ser de comunicações civis como de recolha de informação classificada para uso militar.
A exploração espacial e a política civil e militar andaram sempre de mãos dadas. Para provar essa declaração basta considerar o que fez com que os programas espaciais avançassem foram objetivos políticos e a forma como foram e são implementados revelam as ideologias politicas e nacionais na altura e no momento, quer fosse procura de poder político, internacionalização do comunismo, integração europeia, ou outro ponto qualquer.9
Enquanto a política ajudou a moldar os programas espaciais, também a exploração espacial ajudou a moldar a forma de fazer política. Nas palavras de Henry Lambright: “Policy shapes technology, which in turn influences policy”10. A ligação entre ambos os vectores tornou-se indissociável nos últimos cinquenta anos. Desde o lançamento do Sputnik à realidade de fazer guerras assentes em tecnologia espacial, do Homem na Lua à utilização do Espaço como forma de garantir a satisfação de necessidades de recursos de nações, a exploração espacial e a forma de fazer política
8 SHEEHAN, Michael, (2007), ibid , p. 2 9 SHEEHAN, Michael, (2007), ibid, p. 2
10LAMBRIGHT, W. Henry (ed), (2003), “Space policy in the 21stcentury”, John Hopkins University
6 internacional e até mesmo política nacional (embora esta não seja o foco principal nesta dissertação), ficará demonstrada nos capítulos seguintes.
Durante a Guerra Fria, presidentes norte-americanos como J. F. Kennedy elevaram a exploração espacial ao limite para aumentar o prestígio e credibilidade americana através da suas capacidades tecnológicas, tais como colocar um Homem na Lua, por exemplo. Porém, nessa mesma altura foram tidos em consideração outro tipo de projetos para atingir o mesmo fim, por exemplo a dessalinização dos Oceanos, que foram rejeitados. O Espaço representa a última fronteira, a fronteira que ainda não havia sido transposta, e por esse misticismo inerente ao desconhecido a vontade política optou por mostrar que era capaz de dominá-la.11
Tal como Vasco da Gama e Cristóvão Colombo definiram uma Era com as suas descobertas, a conquista e domínio do Espaço define a Era em que vivemos: a Era Espacial. Com a Era Espacial, a Humanidade conseguiu fontes de poder inigualáveis, mas também experiência e conhecimento e, mesmo que nem sempre esteja completamente ciente disso, uma vulnerabilidade humana, social e política sem precedentes.
Metodologia
Preferindo um esquema que favoreça a clareza de apresentação dos conhecimentos e estabeleça uma linha cronológica que reflita adequadamente o impacto da Astropolítica, optou-se por estruturar esta dissertação em duas partes distintas. Procuramos, assim, garantir uma abordagem mais lata daquilo que foi a evolução da relação entre exploração espacial e política internacional. Acreditamos que esta escolha de metodologia de apresentação permita uma retrospetiva histórica que favoreça uma melhor compreensão do surgimento da influência da exploração espacial na política internacional, ainda durante a Guerra Fria. E, de que forma a política internacional
7 serviu como pedra basilar ao desenvolvimento tecnológico potenciado pela conquista do Espaço.
Assim, e considerando o facto da corrida ao Espaço entre os EUA e a URSS ser a mais emblemática, documentada e exemplificativa desta relação entre Espaço e política, a primeira parte é-lhe dedicada.
Na segunda parte, entramos no que tem acontecido nos anos após a Guerra Fria e focando mais na atualidade, utilizando como referência o caso paradigmático de entrada na corrida a todo gás da China. De facto, com o fim de uma época de relevo político na História mundial recente, a corrida ao Espaço a duas velocidades vivida durante a Guerra Fria também chega ao fim. Em parte porque a URSS deixa de ter condições políticas e económicas para continuar a investir de forma competitiva face aos EUA. Durante algumas décadas, e apesar de haver outros programas espaciais com progressos interessantes, como é o caso europeu, a verdade é que nenhum deles estava tão avançado ou tecnologicamente tão independente como o americano. A China com o seu primeiro voo tripulado em 2003, tornou-se num forte candidato a superpotência dos tempos modernos capaz de igualar e talvez superar os EUA em muitas áreas, incluindo a área espacial. Neste momento, os EUA mantêm a liderança em termos tecnológicos e de know-how na área espacial, mas com os constrangimentos orçamentais e as mudanças de prioridades politicas desde 2001, colocaram-se numa posição mais vulnerável ao, por exemplo, dependerem da Rússia ou, mais recentemente, de privados para realizar lançamentos orbitais.
Em muitas áreas a China tem avançado rapidamente para lugar de pole position nos últimos 10 anos, a conquista das tecnologias espaciais é uma dessas áreas onde o gigante asiático tem primado pela iniciativa e competitividade. Os seus avanços não só tecnológicos, mas também sociológicos, em conjugação com as opções políticas e as limitações orçamentais americanas tornam muito provável que nos próximos 10 anos o mundo assista a uma segunda corrida espacial, desta vez entre a China e os EUA.
8 A exploração espacial que, desde 1957, é utilizada como fonte de poder através do prestígio, do avanço tecnológico, das indústrias que são criadas, da geração de recursos humanos qualificados. A exploração espacial gera tanto admiração como inveja por parte dos restantes Estados e traduz-se, naquilo a que o cientista político norte-americano Joseph Nye Jr apelidou de, soft power.
Ao longo desta dissertação pretende-se demonstrar que o poder político usou a exploração espacial como fonte de soft power, quer para reunir mais aliados ideológicos, como aconteceu na Guerra Fria, quer seja para conseguir os recursos que se necessita na ascensão a superpotência e o reconhecimento nacional num regime ditatorial. A questão central que se pretende responder com este ensaio é: de que forma a exploração espacial influencia e é usada na política internacional?
Para responder a esta questão e às questões subjacentes, recorreu-se à recolha qualitativa de bibliografia, método de investigação em ciências sociais proposto por
Raymond e Quivy em “Manual de Investigação em Ciências Sociais”. O percurso
metodológico utilizado consistiu na pesquisa bibliográfica e documental na área das relações internacionais, mais em concreto da política espacial, geopolítica e estratégias espaciais. Recorreu-se, por isso, a autores de referência nesta área académica específica, sobretudo ingleses, norte-americanos, franceses e chineses. De realçar, que sendo esta área académica pouco ou nada explorada em Portugal, traduz-se na quase inexistência de bibliografia em português que incida especificamente nesta área. Note-se igualmente, que por constrangimentos linguísticos, optou-se por bibliografia em inglês, francês e português, o que significou que mesmo as obras de autores chineses tiveram que ser selecionadas pelo critério de existir tradução de mandarim para uma das três línguas atrás referidas.
9 Após as leituras realizou-se um resumo crítico das ideias chave, analisadas e contextualizada com aquilo que é a história das relações internacionais, da geopolítica e da estratégia.
Revisão de Literatura
As obras literárias de política espacial proliferam a nível internacional há largas décadas, com destaque para os autores norte-americanos que têm produzido incontável doutrina e opiniões valorizando o seu pretenso domínio do espaço desde dos anos 50. Somente alguns dos mais conhecidos e relevantes pensadores e teóricos serão utilizados neste estudo, de forma a estabelecer uma base de conhecimentos que nos permita pôr em perspetiva a entrada crítica ou vantajosa do Oriente nesta competição. Os europeus, num esforço coordenado em parte pela Agência Espacial Europeia, tendo iniciado a corrida mais tardiamente, têm contudo criado algum alvoroço na doutrina político-jurídica do espaço, sobretudo destacando as vantagens empresariais que o tema tem e pode vir a ter. Mais recentemente, esta nova corrida ao espaço tem contado com a participação de novos atores literários e políticos, tais como os brasileiros e os chineses. São estes últimos que têm causado alguma celeuma na repartição arbitrária e política do espaço, pois têm entrado discretamente mas em força neste mundo altamente competitivo. A doutrina internacional tem posto em perspetiva esta entrada face ao crescimento exponencial da economia e da população chinesa, entre o risco e as vantagens de mega Estado que não requer parceiros.
10 Space Power and Policy. As teorias por ele desenvolvidas são inegavelmente a base do conhecimento que iremos desenvolver nesta análise.
Algumas das bases teóricas utilizadas ao longo deste estudo provêm de ideias promovidas pelo conhecido cientista político norte-americano e professor em Harvard Joseph Samuel Nye Jr., co-criador, com Robert Keohane, da teoria da interdependência e da interdependência complexa nas relações internacionais e da teoria do neoliberalismo, desenvolvido em 1977 no seu livro Power and Interdependence. Juntamente com Keohane, desenvolveu os conceitos de assimetria e interdependência complexa, exploraram, igualmente, as relações transnacionais e da política mundial. Mais recentemente, na área das relações internacionais, foi o pioneiro na teoria do soft power, no final dos anos 1980, o seu primeiro registo encontra-se utilizado num artigo da Foreign Policy. Nas palavras de Nye, “o conceito básico de poder é a habilidade de influenciar outros a fazer o que queremos. Há três maneiras de se conseguir isto: uma delas é ameaçá-los com paus; a segunda é comprá-los com cenouras; e a terceira é atrai-los ou cooperar com eles para que queiram o mesmo. Se conseguir atraí-atrai-los a querer o
11 premiado autor tem publicado várias obras nos últimos anos, sendo as mais recentes The Future of Power (2011), Understanding International Conflicts, (2009), The Powers to Lead (2008), The Power Game: A Washington Novel (2004), Soft Power: The Means to Success in World Politics (2004), e The Paradox of American Power (2002). Obras que serão utilizadas como fonte ou inspiração constante ao longo do estudo e análise por serem imprescindível à compreensão da importância da política espacial no desenvolvimento das relações internacionais.
Na colocação de outros atores na conquista espacial surge invariavelmente Brian Harvey, que expõe excelentes estudos sobre a história de diversos programas espaciais. Um dos mais conhecidos é sobre o histórico inimigo dos americanos: a URSS. A obra de Harvey apresenta um bom sumário de todos os aspetos do programa russo para o espaço desde da Guerra Fria. Introduz documentos e histórias que revelam uma investigação rigorosa e interessante do que durante décadas foi segredo, podendo revelar hipoteticamente uma linha de conduta do que a China, atualmente, se prepara para fazer. O autor descreve em Russia in Space: The Failed Frontier? vários programas de colocação de satélites, de instalações, cooperação internacional e de indústria espacial local, que simultaneamente faz a ligação com o passado hegemónico da Rússia e o seu futuro proporcionalmente mais modesto que se quer empresarial e competitivo. As obras de Harvey sobre o programa espacial russo são uma referência para entender os diferentes programas com fins militares e/ou científicos da Rússia, compara-os e coloca-os historicamente. Contudo, a obra bibliográfica de Harvey é bastante abrangente, contemplando também a história de vários programas espaciais: China, Índia, Japão e Europa são apenas exemplos de outras obras que nos permite, no nosso estudo, apresentar uma perspetiva da evolução da conquista espacial face a acontecimentos historicamente relevantes.
Na perspetiva histórica abordada na primeira parte deste estudo, há ainda outros autores que importa referir: William E. Burrows, John Lewis Gaddis e Deborah Cadbury.
12 The New York Times, The Washington Post, The Wall Street Journal e o Richmond Times-Dispatch. Escreveu ainda vários artigos para a The New York Times Magazine, Foreign Affairs, The Sciences e entre outras, e contribui como editor para a Air & Space /Smithosian. É também autor de vários livros: A True History Of The Red Baron (1969); Vigilante (1976); On Reporting The News (1977); Deep Black: Space Espionage And National Security (1987); Exploring Space: Voyages In The Solar System And Beyond (1990); Critical Mass: The Dangerous Race For Superweapons In A Fragmenting World (with Robert Windrem)(1993); Mission To Deep Black: Voyager's Journey Of Discovery (1993); This New Ocean: The Story of the First Space Age (1998); The Infinite Journey: Eyewitness Accounts of NASA and the Age of Space (2000); By Any Means Necessary: America's Secret Air War in the Cold War (2001); The Survival Imperative: Using Space to Protect Earth (2006). Burrows recebeu vários prémios pelo livro “This new ocean – The Story of the first Space Age”: além de ser considerado como referência da história da Era Espacial, foi um dos três finalistas do Prémio Pulitzer em 1998 na área de História e também ganhou o Prémio Eugene M. Emme da Sociedade Americana de Astronáutica para literatura na área de astronáutica.
John Lewis Gaddis, historiador de reputação internacional a quem o The New York Times chamou «o decano dos historiadores da Guerra Fria», é professor de História na Universidade de Yale e tem várias obras publicadas sobre o tema. Pertence ao conselho consultivo do Cold War International History Project e foi consultor no documentário da CNN, Guerra Fria. Entre as suas inúmeras obras publicadas, contam-se: The United States and the Origins of the Cold War, 1941-1947 (1972); Strategies of Containment: A Critical Appraisal of Postwar American National Security (1982); The Long Peace: Inquiries into the History of the Cold War (1987);We Now Know: Rethinking Cold War History (1997); The Landscape of History: How Historians Map the Past (2002);Surprise, Security, and the American Experience (2004); and The Cold War: A New History (2006). Neste estudo, teve-se por base apenas uma das obras We Now Know: Rethinking Cold War History (1997, que foi descrita como sendo “this brilliant study… provides an exhaustive and ever-quizzical approach to the early years of the superpower conflict”, pelo David C. Hendrickson da Foreign Affairs.
13 especializado sobretudo em assuntos relacionados com ciência, história e os seus efeitos na sociedade moderna. Para este estudo, considerou-se a obra “Space Race – The untold story of two rivals & their struggle for the moon”, que deu origem mais tarde a um documentário BBC com o mesmo nome. Neste livro, Cadbury usou fontes que ainda não eram do conhecimento público, descreve a Guerra Fria, a espionagem e ambição, desde o final da II Guerra Mundial até ao final da Guerra Fria.
14 ambiental e de segurança. Quanto à sua investigação relativa ao crescimento do papel da Ásia, verifica-se uma constante comparação entre o individualismo americano, a cooperação pacífica europeia e o carácter altamente competitivo e tenso nos países asiáticos, apontando para um risco de uma corrida com carácter altamente militar. A análise dos 14 programas espaciais asiáticos, com enfoque na China, no Japão, na Índia, na Coreia do Sul leva Moltz a isolar diferentes motivações internas nestes atores espaciais, que iremos considerar no nosso estudo.
Na subida da China ao pináculo da conquista espacial surgem autores como Joan Johnson-Freese, Professora no Naval War College e Harvard de assuntos de segurança nacional e autora de numerosas obras de relevo das quais “Heavenly Ambitions: America's Quest to Dominate Space", conhecida perita nos temas relacionados com a ocupação militar do espaço pelos norte-americanos e pelos chineses, apresenta a convivência destes dois poderes militares como inevitável a curto prazo, adiantando a necessidade imprescindível de estabelecer estratégias com essa consideração.
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Capítulo I
Após a 2ª Guerra Mundial os avanços científicos na área espacial estavam relacionados com as políticas externas das duas superpotências da altura: EUA e a URSS. A necessidade de estar um passo à frente fez com que a tecnologia se aliasse à política e aquela fosse utilizada como um meio para um fim político.
O lançamento do Sputnik, a crise dos mísseis de Cuba e a Guerra do Golfo de 1991 são exemplos claros que a exploração espacial tem mais do que um objetivo meramente científico. Acima de tudo, a exploração espacial é um objetivo estratégico, militar e político.
Deborah Cadbury escreveu: “On 8 September 1944, the V-2 bombardment of London began. The age of the ballistic missile arrived in Chiswick in West London as the first struck at 6.43p.m.”12
Sob o poder de Hitler, Werhner von Braun criou as instalações de investigação para o maior foguetão jamais criado. O foguetão criado por Von Braun – o A-4 –
simbolizava para Hitler a arma que poderia salvar o III Reich e provar a superioridade alemã no mundo. Após a apresentação do foguetão a Hitler, que se havia mostrado incrédulo a que fosse possível construir um foguetão que pudesse alcançar a Inglaterra,
exclamou: “Why could I not believe in the sucess of your work? Europe and the rest of the world will be too small to contain a war with such weapons”.13 Hitler deu então instruções que fosse acoplado uma ogiva de 10 toneladas e que fosse feita a sua produção em massa. O A-4 seria então renomeado para Vergeltungswaffen14(V-2).15
Nos dias finais da II Guerra Mundial, Werhner Von Braun e alguns membros da sua equipa eram os homens mais procurados tanto pela Intelligence americana como soviética. O Major Robert Staver dos Estados Unidos da América (EUA) foi enviado
12Cadbury, Deborah, (2005) “Space Race – The untold story of two rivals & their struggle for the Moon”,
Four Estate, London, p. 13
17 em Fevereiro de 1945 para Londres com a missão de descobrir tudo quanto fosse possível sobre a arma alemã. Por seu turno, a URSS já havia colocado no encalço de Von Braun, desde 1935, o antecessor do Comité de Segurança do Estado (KGB), o Comissariado do Povo para Assuntos Internacionais (NKVD). Em Janeiro de 1945, os Soviéticos estavam a avançar rapidamente sobre a Prússia.16
Após a II Guerra Mundial, o mundo ficou perante um cenário bipolar, em que existiam duas potências mundiais com ideologias diferentes – Capitalismo versus Comunismo, EUA versus URSS, respetivamente. Este fator esteve na origem da Guerra Fria, uma disputa entre sociedades capitalistas e comunistas, entre Este e Oeste. Durante este conflito o Mundo assistiu à busca de poder por ambas as potências na tentativa de se tornarem a verdadeira superpotência e de provarem qual a ideologia que iria sobreviver ao longo do tempo. O período inicial da Guerra Fria pode ser dividido em três fases: 1945 a 1947 (princípio gradual), 1947 a 1949 (declaração de Guerra Fria) e 1950 a 1962 (auge).
As razões que se podem apontar para o exórdio da Guerra Fria prendem-se com a política externa dos Estados Unidos e da União Soviética. Durante a Guerra Fria, EUA e URSS confrontaram-se indiretamente através da política externa que praticavam
e tomando partido por partes em conflito. Nesta época existiam “duas superpotências
que se mantinham mutuamente paralisadas, com a ameaça de utilização dos arsenais
nucleares (…) digladiando-se em todo o planeta através de procuradores seus em conflitos que controlavam, mantendo-os sempre abaixo de um patamar de intensidade que não desembocasse no confronto direto entre as «sedes» imperiais, com o risco de
provocar a escalada ao nível nuclear estratégico”17.
A Polónia e a Europa de Leste foram a primeira questão suscitada para que a Guerra Fria despoletasse. Os americanos consideravam que Estaline quebrara o compromisso de realizar eleições livres na Polónia após a II Guerra Mundial. Contudo, nunca ficou claro que Estaline o acordara. O acordo de Ialta de 1945 continuou bastante
16Idem, ibid. pp-16-19
17SANTOS, Loureiro dos, (2000) “Reflexões sobre Estratégia –Temas de Segurança e Defesa”,
18 ambíguo neste ponto e Estaline aproveitou essa lacuna para instituir um governo-fachada na Polónia após a expulsão dos alemães pelo exército soviético.
Em Maio de 1945, a relação económica entre americanos e soviéticos deteriorou-se devido ao súbito corte do programa de ajuda lend-lease. Embora tenha acontecido por causa de um erro burocrático, a situação na globalidade não melhorou e no ano seguinte os americanos recusaram pedidos de empréstimos soviéticos. Por seu turno, os soviéticos interpretaram estes factos como sendo pressões económicas com intenções hostis.
Na reunião de Ialta, EUA e URSS acordaram que a Alemanha deveria pagar 10 mil milhões de dólares em reparações a cada uma das Nações. Contudo, os pormenores deste pagamento não foram acertados. Em Potsdam, os soviéticos exigiram a sua parte e
que esta fosse paga pelas zonas ocidentais da Alemanha. Harry Truman afirmou que “se
os soviéticos queriam tirar 10 biliões [mil milhões] de dólares à Alemanha deveriam tirá-los da zona oriental que ocupavam”18. Assim começou uma série de divergências entre URSS e EUA, fazendo com que americanos, britânicos e franceses iniciassem o processo de integração da Alemanha Ocidental e os soviéticos apertassem o controlo sobre a zona de Leste da Alemanha.
Também a Ásia Oriental constituía um problema. Os soviéticos mantiveram-se neutrais na guerra do Pacífico até à última semana, quando ocuparam territórios japoneses. Na reunião de Potsdam, os soviéticos solicitaram uma zona de ocupação no Japão semelhante à que os americanos ocupavam na Alemanha. Os EUA recusaram esta pretensão alegando o tardio envolvimento soviético naquela zona do conflito. A URSS considerou a situação do Extremo Oriente análoga à da Europa de Leste onde o seu exército tinha chegado primeiro e os americanos reivindicavam eleições, ficando portanto descontente com a posição americana.
A bomba atómica também foi uma “pedra no sapato” nas relações entre os dois
blocos. Roosevelt decidiu não partilhar o segredo da bomba atómica. Em 1946, os americanos apresentaram nas Nações Unidas o Plano Baruch de controlo de armas
19 nucleares que os soviéticos recusaram porque pretendiam construir a sua própria bomba. Para Estaline seria melhor para a segurança da União Soviética se esta tivesse a sua própria bomba19 e tentou por isso provar que a URSS seria também capaz de a construir.
As questões no Mediterrâneo e Médio Oriente (invasão do Irão e mais tarde pressões sobre a Turquia pela URSS) aumentaram o sentimento no Ocidente de que os soviéticos estavam a expandir a sua zona de influência.20
Este foi o contexto em que a Guerra Fria surgiu e encetou uma competição sem precedentes entre duas nações envolvendo o mundo numa terceira guerra mundial sem confronto direto. No auge da Guerra Fria, os dois principais atores começaram a explorar novos teatros de guerra, nomeadamente o espaço extra-atmosférico como forma de alcançar um maior prestígio internacional mas também com propósitos militares. O paradigma espacial da Guerra Fria é definido pelo emprego de atividades e equipamento espaciais inseridos nos objetivos de uma política nacional e externa. “In this view, space becomes merely another tool by which international power and prestige are pursued by decision makers otherwise largely disinterested in space as a field of human endeavour”21.
O Sputnik
William Burrows afirma “the Cold War would become the engine, the supreme catalyst that sent rockets and their cargoes far above Earth”22. Após o final da II Guerra Mundial desenvolveram-se aviões espiões (os U-2 e os SR-71). Contudo, as potências vencedoras da guerra aperceberam-se que os satélites seriam muito mais eficazes que os aviões porque, tendo em consideração a altitude em que seriam colocados, ofereceriam uma vista mais ampla e vasta que os aviões espiões. Esta visão
19 A URSS detonou a sua bomba atómica em 1949. 20 NYE, Joseph S. Jr, ibid., pp. 142-149.
21 JONHSON-FREESE, Joan e HANDBERG, Roger, (1997) “Space the dormant frontier – changing the paradigm for the 21st century”, Praeger, London, pp. 7
22BURROWS, William E. (1998) “This new ocean –the story of the first space age”, New York,
20 poderia incluir toda a Terra se esta ficasse rodeada por uma cintura de satélites. Um outro fator seria o aumento da margem de segurança que os satélites teriam em relação aos aviões para além de que sobrevoar um Estado no espaço não seria ilegal, pois não violaria o espaço aéreo nem tão pouco violaria as leis internacionais.23
Desde finais da década de 40 que os apoiantes da exploração espacial estavam a preparar o público americano para a conquista do espaço ”with elaborate visions of promise and fear”24. O lançamento dos primeiros satélites combinados com a promoção do voo espacial numa cultura popular subverteu a alternativa de Eisenhower25 e levou a que os líderes políticos perseguissem objetivos mais ambiciosos.26
Durante a Guerra Fria nem todos partilhavam o entusiasmo duma aventura de grandes estações espaciais, bases lunares, naves sofisticadas e viagens até outras órbitas. Por isso, nem todos aceitavam as profecias de Werhner Von Braun e outros pioneiros espaciais. Durante a década de 1950, um grupo de cientistas americanos, que trabalhavam para o governo federal, avançaram com uma visão alternativa embora a imprensa a tenha tratado como dissidente, uma vez que não tinham um porta-voz carismático como Von Braun. Contudo, a alternativa tinha um poderoso apoiante: Dwight Eisenhower, o primeiro presidente americano a formular uma política de exploração espacial. 27
“President Eisenhower, as a military leader of many years standing, was permanently worried in the early 1950s about the possibility of a surprise russian attack on the USA”.28 A administração de Eisenhower considerava por isso a legitimação do reconhecimento espacial como possível complemento e/ou substituto do reconhecimento aéreo. A carta que acompanhou o relatório do Technological Capabilities Panel, “Meeting of Surprise Attack”, para o Departamento de Estado, que
23Idem., ibid., pp. 159
24MCCURDY, Howard E. (1997), “Space and the American Imagination”, Washington, Smithsonian
Institution Press, pp. 54
25 A administração de Eisenhower defendia uma visão mais prática do espaço que diferia em grande
escala dos sonhos mais utópicos para a exploração humana do espaço.
26Idem., Ibid., pp. 53-54 27Idem, ibid., p. 54
21 colocava a liberdade do espaço no topo da agenda, sugeria uma “re-examination of the principles of freedom of space, particularly in connection with the possibility of launching an artificial satellite into an orbit about the earth, in anticipation of use of larger satellites for intelligence purposes”29. Este relatório sugeria ainda que o desenvolvimento de mísseis de longo e médio alcance se tornasse mais rápido e a construção imediata de aviões U-2.30 Estes aviões de reconhecimento e os futuros satélites de observação militar tinham como objetivo dar aos Estados Unidos um aviso no caso de uma preparação de ataque e assegurar que não existiria uma repetição dos eventos de Pearl Harbor. O desenvolvimento de mísseis de longo alcance iria assegurar que os Estados Unidos não necessitariam de bases noutros países para lançar um ataque balístico contra a União Soviética.31
Em 1952, durante o segundo Simpósio sobre Viagens Espaciais do Planetário Hayden, Milton Rosen, um investigador no Naval Research Laboratory na área de
propulsão espacial, afirmou “before we can attempt to transport human beings in a ship that orbits around the earth, we must produce a practical, reliable, unmanned satellite”.32 A visão para o espaço de Eisenhower estava baseada em grande parte na tecnologia de satélites. Para o Presidente e grande parte dos membros da sua Administração, satélites e sondas automatizadas demonstravam grande parte daquilo que pretendiam que fosse o programa espacial americano.33
Do lado soviético, Estaline tornou-se cada vez mais determinado em conseguir a sua própria bomba atómica e em obter capacidade de lançar a grandes distâncias. O desenvolvimento de veículos propulsores soviéticos no pós-guerra teve a mesma origem técnica que o programa americano: os V-2 alemães.34 Alguns especialistas alemães foram colocados nas primeiras instalações soviéticas de pesquisa e desenvolvimento de mísseis. Estes submeteram a Estaline várias propostas para “naves” balísticas e
antibalísticas, tendo sempre como ponto de partida o V-2. O míssil que surgiu destes
29 BURROWS, William E. (1998), Ibid., p. 159 30 LEVERINGTON, David, p. 19
31Idem, ibid., p. 19
32 MCCURDY, Howard E., ibid., p. 56 33Idemibid., p. 60
34 Em 1942 foi lançado com sucesso o V-2, o primeiro míssil balístico, criado pela Alemanha de Hitler e
22 testes e experiências – o R-14 – foi um míssil de cruzeiro capaz de percorrer 3 mil km com uma ogiva de cerca de 3 toneladas.35
Após melhoramentos, testes e experiências, surgiu o R-7 que apenas no quarto lançamento a 9 de Agosto de 1957 conseguiu deixar o solo. O R-7 revelou-se um falhanço como intercontinental ballistic missile (ICBM), mas um excelente veículo de lançamento de satélites e o progenitor de longa série de propulsores.36
Em Outubro de 1957, em plena Guerra Fria, a URSS lançou para órbita terrestre o Sputnik, o primeiro satélite artificial, provando que os Soviéticos não estavam tão atrasados tecnologicamente como os americanos pensavam.37 Khrushchev afirmou a um
jornalista dinamarquês em Janeiro de 1958 que “o lançamento dos Sputniks soviéticos
mostra em primeiro lugar (…) que se deu uma mudança séria no equilíbrio de forças
entre os países socialistas e capitalistas a favor das nações socialistas”38. Num só golpe, a URSS derrotou os EUA não só a nível científico como também a nível militar, principalmente na nova arena potencialmente decisiva: o espaço39. Khrushchev via o programa espacial soviético como oponente ao programa de mísseis e um desperdício de recursos40, apenas mudou de opinião quando se apercebeu da reação internacional ao lançamento do satélite soviético – o Spunitk. No dia seguinte ao lançamento o jornal soviético Pravda apenas publicava uma pequena notícia factual, seguindo o mote de discrição do líder soviético. Contudo, no dia seguinte, o Pravda, apercebendo-se de que o lançamento fora um tremendo êxito de propaganda no Ocidente, publicava cabeçalhos descrevendo o feito.41 A imprensa soviética descrevia a importância dos satélites
artificiais como sendo um meio para “interplanetary travel, and apparently, our contemporaries will witness how the freed and conscientious labor of the people of the new socialist society makes the most daring dreams of mankind a reality”42
.
35 BURROWS, William E., (1998) ibid., p. 162 36Idem, ibid., pp. 165 - 166
37 LEVERINGTON, David, ibid., p. 21
38KISSINGER, Henry, (1996) “Diplomacia”, Gradiva, Lisboa, p. 495
39 TAUBMAN, Philip (2003) “Secret Empire –Eisenhower, the CIA, and the hidden story of America’s Space Espionage”, Simon & Schuster, New York, p. 212
23 Nos EUA as notícias acerca do lançamento foram recebidas pela população com uma mistura de surpresa e pânico, conforme se ia apercebendo de que as cidades americanas estavam agora ao alcance de um ataque nuclear dos mísseis soviéticos.43 Tornou-se claro que a balança do poder havia-se alterado, permitindo ao potencial inimigo largar armas nucleares de órbita sem aviso.
Antes do lançamento do Sputnik I, os Estados Unidos atravessavam um período de crescimento económico e orgulho nacional desde os finais da II Guerra Mundial. A nação estava “buoyed by its resolve, courage, and confidence in its scientists, engineers and technicians ability to create stunning technological advances on short notice”44,45. O lançamento do Sputnik veio alterar tudo isto.
Em Janeiro de 1958, horas depois do Sputnik ter reentrado na atmosfera, Gabriel Heatter, um comentador influente do Mutual Broadcasting System, num editorial de
rádio entitulado “Thank you Mr. Sputnik”, proferia:
“You will never know how big a noise you made. You gave us a shock which hit many people as hard as Pearl Harbor. You hit our pride a frightful blow. You suddenly made us realize that we are not the best in everything. You reminded us of an old-fashioned American word, humility. You woke us up out a long sleep. You made us realize a nation can talk too much, too long, too hard about money. A nation, like a man, can grow soft and complacent. It can fall behind when it thinks it is Number One in everything. Comrade Sputnik, you taught us more about the Russians in one hour than we had learned in forty years.”46
43 LEVERINGTON, David, ibid., p. 17
44 DICKSON, Paul, (2001)“Sputnik –The Shock of the Century”, Walker, New York, p. 223 45 Os Estados Unidos haviam num curto período de tempo desenvolvido tecnologias como o radar, o
sonar, um pesticida – DDT, a produção em larga escala de borracha sintética, a bomba atómica e a energia nuclear.
24 O lançamento do Sputnik foi uma derrota humilhante para os Estados Unidos, mas também um facto que mudou a vida americana. Este evento deu um novo impulso ao programa espacial americano. Três dias após o lançamento o Presidente Eisenhower pressionou o Pentágono para desenvolver um satélite espião.47 O sucesso soviético desenvolveu uma reação mundial que James Killian48 descreveu como sendo
“Confidence in American science, technology, and education suddently evaporated”49.
A United States Information Agency, num relatório elaborado pouco depois da colocação do Sputnik em órbita afirmava que “Soviet claims of scientific and technological superiority over the West and especially the US have won greatly widened acceptance. Public opinion in friendly countries shows concern over the possibility that the balance of military power has shifted or may shift in favour of the USSR”50.
Allen Dulles51 reportou ao National Security Council a 10 de Outubro que a rapidez nos avanços soviéticos que colocaram o Sputnik em órbita estava parcialmente relacionada com o facto de os soviéticos conciliarem o programa ICBM e o programa de satélites.52
No Inverno de 1958, o Congresso criou Comités ad hoc, presididos pelos líderes da maioria, para considerarem as necessidades legislativas de forma a irem de encontro aos novos problemas causados pelo começo da era espacial. No Verão do ano seguinte, foi assinado o National Aeronautics and Space Act.
Com o lançamento do Sputnik e a reação mundial ao mesmo, Khrushchev
começou a ter a sua estratégia delineada: “Of course we tried to derive maximum political advantage from the fact that we were the first to launch our rockets into space.
47 TAUBMAN, Philip (2003) ibid., pp. 212
48 Na década de 1950, James Killian, presidente do MIT, foi Conselheiro Presidencial para a Ciência,
Tecnologia e Intelligence.
49 TAUBMAN, Philip (2003), ibid., pp. 213 50 TAUBMAN, Philip (2003), ibid., pp. 213
51 Allen Welsh Dulles foi o primeiro civil a dirigir a CIA entre 1953 e 1961.
25 We wanted to exert pressure on American militarists – and also influence the minds of more reasonable politicians so that the United States would start treating us better”53.
Apesar da balança militar favorecer o Ocidente, Khrushchev fez questão de
minimizar esse facto afirmando “our missiles were still imperfect in performance and insignificant in number”54mas “we can launch satellites because we have a carrier for them, namely the ballistic rocket”55.
Os EUA consideraram o lançamento do Sputnik como um precedente em matéria de liberdade do Espaço. Donald Quarles56 destacou “that none of the many nations that have been overflown by the Soviet satellite appears to have raised objection on the ground that its territorial rights have been infringed. This seems to establish the validity of the concept that outer space is international in character”57. Dias após a colocação em órbita do Sputnik, o Presidente Eisenhower especificamente questionou a possibilidade de desenvolverem satélites de reconhecimento. Donald Quarles do Pentágono descreveu então o projeto da Air Force WS-117L. 58
Perante a imprensa, Eisenhower tentou disfarçar a preocupação americana com o
sucesso soviético descrevendo a ocorrência como “one small ball in the air”59. No entanto, reconhecia que a URSS tinha desenvolvido um sistema de propulsão poderoso, mas ao mesmo tempo não demonstrava publicamente qualquer intenção de acelerar o programa de mísseis intercontinentais ou de satélites americanos embora nesse campo os EUA não estivessem na vanguarda da produção.60 Apesar de estarem a desenvolver programas tecnológicos espaciais desde 1954, os esforços americanos para colocar um satélite em órbita cresceram em larga escala com o lançamento do Sputnik. Os esforços
53GADDIS, John Lewis, (1997), “We now know –rethinking Cold War History”, Oxford, New York, pp.
239
54Idem, ibid., pp. 239
55 BURROWS, Wiliam E (1998), ibid., pp. 195
56 Donald Quarles foi Secretário Adjunto da Defesa de Eisenhower. 57 TAUBMAN, Phillip,(2003) ibid., pp. 216
26 desenvolvidos durante a década de 1950 estavam voltados para dois objetivos: reconhecimento militar e a participação no Ano Geofísico Internacional (1957).61
Tal como fomentou a corrida espacial, o Sputnik também conduziu ao desenvolvimento e produção de armas tecnológicas. Como George Kennan62 escreveu nas suas memórias:
“It caused Western alarmists ... to demand the immediate subordination of all other national interests to the launching of immensely expensive crash programs to outdo the Russians in this competition. It gave arguments to the various enthusiasts for nuclear armament in the American military – industrial complex. That the dangerousness and expensiveness of this competition should be raised to a new and higher order just at the time when the prospects for negotiation in this field were being worsened by the introduction of nuclear weapons into the armed forces of the Continental NATO powers was a development that brought alarm and dismay to many people besides myself”.63
O lançamento do primeiro satélite americano estava previsto para Dezembro 1957, mas quem conhecia o programa Vanguard sabia que esta era uma previsão extremamente otimista. Entretanto, os soviéticos já haviam lançado o Sputnik II e a cadela Laika já havia iniciado o seu voo espacial. No dia 7 de Novembro, Eisenhower
fez uma comunicação ao povo americano, salientando a força militar da nação: “It’s my conviction, supported by trusted scientific and military advisers, that, although the Soviets are quite likely ahead in some missile and special areas and are obviously ahead of us in satellite development, as of today the over-all military strength of the free
61 JOHNSON-FREESE, Joan, and HANDBERG, Roger, ibid., pp. 74-75
62 George Kennan, cientista político, diplomata e historiador, teve um papel central na Guerra Fria. Ficou
conhecido como pai da política de contenção.
27 world is distinctly greater than that of the Communist countries. We must see to it that whatever advantages they have are temporary only”64.
A Crise dos Mísseis de Cuba
A estratégia da Guerra Fria de Eisenhower passava por covert actions. Durante a II Guerra Mundial, Eisenhower ganhou uma paixão por imagery intelligence que se refletiu na sua presidência.65 Desde o início do seu mandato que Eisenhower tentou desenvolver a intelligence americana e a recolha de imagens. Apesar de reconhecer que o foto-reconhecimento por satélite seria muito mais benéfico, assumiu-se que os problemas tecnológicos, incluindo o desenvolvimento de veículos de lançamento viáveis, iriam adiar o funcionamento do sistema até meados de 1960, na melhor das hipóteses. Por esse motivo, a administração Eisenhower apostou em projetos de aviação avançados, começando pelos U-2 e depois avançando para um avião espião supersónico, quando se aperceberam que os U-2 poderiam ser detetados pelos radares soviéticos.66
Apesar de Eisenhower considerar as missões dos U-2 de extrema importância, estava ansioso por uma solução alternativa de recolha de dados de modo a limitar a provocação ao Kremlin. Por esse motivo, mostrava-se bastante relutante em autorizar tantas missões quanto Richard Bissel67 queria. 68 A principal missão dos U-2 era procurar e monitorizar a produção de ICBM e o desenvolvimento de instalações de energia atómica em território soviético.69
Devido à sua aposta em satélites de reconhecimento, a CIA tornou-se interessada no Vanguard. Em finais de 1956, Bissel apercebeu-se que o esforço americano para
64 TAUBMAN, Phillip (2003), ibid., pp 223
65 ANDREW, Christopher (1996), ibid., pp. 200-201 66 TAUBMAN, Phillip (2003), ibid., pp. 227
67 Richard Bissel foi o Chefe das Covert Operations da CIA na segunda metade da década de 1950. 68 ANDREW, Christopher (1996), ibid., pp 243
28 chegar ao espaço estava aquém das capacidades soviéticas. Eisenhower considerou que um satélite lançado no decorrer do Ano Geofísico Internacional iria fortalecer a liberdade dos céus numa altura em que os Estados Unidos secretamente estavam a desenvolver aviões e satélites espiões para fazerem reconhecimento da URSS.70
Em 1960, as missões do U-2 sobre solo soviético terminaram abruptamente quando um dos aviões foi abatido a 1 de Maio.71 O plano de voo deste U-2 pilotado por Gary Powers dar-lhe-ia a possibilidade de fotografar a nova base de mísseis soviética em Plesetsk, no nordeste do território soviético. Iria também sobrevoar a base nuclear de Tyuratam e o complexo de construção de bombas em Chelyabinsk. O tempo de voo daria imenso tempo para que os soviéticos detetassem o U-272, o que aconteceu quando ainda sobrevoava território afegão. Os soviéticos dispararam três mísseis SA-2 quando o U-2 de Powers sobrevoava a zona perto de Sverdlovsk.73
Eisenhower aprovou, a 3 de Maio, uma história de fachada para encobrir a real missão do U-2 abatido: “A NASA U-2 research plane, being flown in Turkey on a joint NASA – USAF Air Weather Service mission, apparently went down in the Lake Van, Turkey, area at about 9:00 AM, Sunday, May 1”74.
Numa conferência de imprensa a 11 de Maio, Eisenhower abriu um precedente ao explicar publicamente a necessidade de atividades de intelligence em tempo de paz:
“No one wants another Pearl Harbor. This means that we
must have knowledge of military forces and preparations around the world, especially those capable of massive surprise attacks.
Secrecy in the Soviet Union makes this essential. In most of the world no large-scale attack could be prepared in secret, but in the
70 DICKSON, Paul (2001), ibid., pp. 100-101 71ANDREW, Christopher (1996), ibid., pp. 243
72 Este seria o 24º voo em território soviético e o segundo para Powers. Tratava-se da missão 4154, nome
de código Operação Grand Slam. Powers já havia sobrevoado território chinês e pilotado o U-2 ao longo da fronteira soviética 6 vezes. A máquina que Powers pilotou fora reconstruída pela Lockheed após uma queda em 1959. Estava equipada com os mais recentes motores da Pratt & Whitney.
29 Soviet Union there is a fetish of secrecy and concealment. This is a
major cause of international tension and uneasiness today…
…Ever since the beginning of my administration I have issued directives to gather, in every feasible way, the information required to protect the United States and the free world against surprise attack and to enable them to make effective preparations for defense.”75
Khrushchev emitiu um comunicado e sublinhou que “this latest flight, towards Sverdlovsk, was an especially deep penetration into our territory and therefore an especially arrogant violation of our sovereignty. We are sick and tired of these unpleasant surprises, sick and tired of being subject to these indignities. They were making these flights to show up our impotence. Well, we weren’t impotent any longer”.76 Georgi Zhukov, decano dos teoristas espaciais russos, avisou em Outubro de 1960 que desde que a URSS provasse que podia abater aviões espiões americanos, os Estados Unidos iriam apressar o desenvolvimento de novos métodos de colocar satélites em órbita. O tipo de informação fornecida por satélites espiões “can be of importance … solely for a state which contemplates aggression and intends to strike the first blow.”77
Em 1959, Eisenhower sublinhou que “the satellite, since it does not violate the air space,… represents the greatest future in the reconnaissance area”78. A crise do U-2 expôs o comportamento impulsivo e errático que começava a ser característico em Khrushchev. A cimeira marcada em Paris para o mês seguinte manteve-se e apesar do líder soviético dar indicações que pretendia que a mesma se realizasse, reviu a sua
posição: “I became more and more convinced that our pride and dignity would be damaged if we went ahead with the meeting as though nothing had happened”79.
75Idem, ibid., pp. 248
76Idem, ibid., pp. 306.
77 MCDOUGALL, Walter A., (1997), “The Heavens and the Earth – A Political History of the Space Age”, John Hopkins University Press, London, pp. 259
30 Quando a conferência se iniciou, Khrushchev exigiu um pedido de desculpas formal pelo Presidente americano e a garantia de que os voos do U-2 tinham terminado. Contudo, Eisenhower não pediu desculpas, afirmou que os U-2 eram necessários e que iria pedir às Nações Unidas que fossem efetuados voos sobre território americano e soviético.80
A União Soviética ameaçou com ataques de mísseis a países como a Grã-Bretanha e Japão enquanto acolhessem os U-2, caso se verificassem quaisquer novos voos de reconhecimento a território soviético ou a países socialistas81, 82.
A 18 de Agosto desse ano, os Estados Unidos lançaram com sucesso o satélite Discoverer XIV da base da Força Aérea de Vandenberg, começando uma nova era em imagery intelligence. Este satélite mostrou o primeiro de quatro ICBMs soviéticos operacionais.83
Entretanto, em Cuba, Fidel Castro havia chegado ao poder e as informações de intelligence que chegavam a Eisenhower levavam-no a crer que “Communists began permeating Cuba’s life and government”84, pelo que deveriam ser tomadas acções contra Castro. “We could simply not afford to appear the bully”85. Em Dezembro de 1959, J. C. King86, recomendou a Allen Dulles que “thorough consideration be given to the elimination of Fidel Castro”87. Contudo, Dulles mostrou pouco entusiasmo em colocar em prática medidas tão drásticas. Porém foram ordenados vários assassinatos com ou sem o conhecimento de Eisenhower com poucos resultados práticos. Em 18 de Agosto de 1960, Bissel e Allen Dulles apresentaram um plano de operações paramilitar a Eisenhower com o propósito de criar uma oposição cubana unificada. Em Novembro, foi constatado que não existia qualquer tipo de resistência organizada em Cuba.88 Em 17
80ALDRICH, Richard J, (2002), “The hidden hand –Britain, America and Cold War Secret Intelligence”,
John Murray, London, pp. 536
81 Estas ameaças foram efectuadas por Malinovsky a 30 de Maio e reiteradas por Khrushchev a 3 de
Junho numa conferência de imprensa em Moscovo.
82Idem, ibid., pp. 537
83 ANDREW, Christopher, ibid., pp. 249-250 84Idem, ibid., pp. 251
85Idem, ibid., pp 251
86 J. C. King foi Chefe da Divisão do Hemisfério Ocidental do Departamento de Operações da CIA. 87Idem, ibid., pp. 251