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O MUNDO CONTINUARÁ A GIRAR

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Academic year: 2021

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Prémio

Victor de Sá

de História Contemporânea

20 ANOS

(1992-2011)

Organização

Henrique Barreto Nunes

José Viriato Capela

HENRIQUE BARRETO NUNES

Vice-presidente do Conselho Cultural da Universidade do Minho.

Licenciado em História e diplomado com o Curso de Bibliotecário-Arquivista da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Como director da Biblioteca Pública de Braga foi o principal interlocutor do Doutor Victor de Sá no processo de doação da sua documentação pessoal àquela instituição, tendo colaborado no projecto de criação do Prémio de História Contemporânea. Organizou a publicação de 2 livros com textos inéditos e dispersos de Victor de Sá e escreveu uma sua biogra-fia breve.

JOSÉ VIRIATO CAPELA

Professor Catedrático da Universidade do Minho, onde integra o Departamento de História do Instituto de Ciências Sociais. Investigador do CITCEM. Presidente da Comissão Executiva do Prémio Victor de Sá de História Contemporânea desde 2003. Presidiu ao Júri do Prémio em várias das suas edições.

O MUNDO C

ONTINUARÁ A GIRAR

P

mio V ic tor de S á d e H ist ória C on tempor ânea ânea

Portugal e o Plano Marshall Crise Académica

Salazar e Pétain

Luso-Tropicalismo e Ideologia Colonial Crime e Sociedade

Salazarismo e Cultura Popular Aventura Surrealista Salazar e as Forças Armadas Revolução, Cidadania, Guarda Nacional

Portugal e a Santa Sé Jaime Cortesão Assembleia Nacional Leitura Pública Viagens e Exposições Representações Raciais Divórcio Jesuítas Comunismo e Nacionalismo Angola. Os Brancos e a Independência

Pimenta de Castro Maoismo

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ortugal e o Plano Marshall Crise Académica

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FICHA TÉCNICA

Título: O Mundo Continuará a Girar. Prémio Victor de Sá de História Contemporânea, 20 anos (1992-2011)

Organização: Henrique Barreto Nunes, José Viriato Capela Edição: Conselho Cultural da Universidade do Minho,

Centro de Investigação Transdisciplinar «Cultura, Espaço e Memória» Capa: Miguel Rodrigues

Concepção gráica: Sersilito-Empresa Gráica, Lda. ISBN: 978-989-97558-2-6

Depósito Legal: 337493/11/11 Braga, Dezembro 2011

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Prémio

Victor de Sá

de História Contemporânea

20 ANOS

(1992-2011)

Organização Henrique Barreto Nunes José Viriato Capela

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SUMÁRIO

11 APRESENTAÇÃO

Henrique Barreto Nunes, José Viriato Capela 17 MEMÓRIA

Memória sobre o Prémio de História Contemporânea, por Victor de Sá com notas de Henrique Barreto Nunes

27 HISTORIOGRAFIA

Tendências da historiograia portuguesa contemporânea. Breve radiograia a partir dos trabalhos concorrentes ao Prémio Victor de Sá de História Contemporânea (1992-2011), por José Viriato Capela 43 TRABALHOS

Júris, trabalhos concorrentes e resultados do Prémio Victor de Sá de História Contemporânea (1992-2011)

INTERVENÇÕES 85 Victor de Sá

Intervenção na primeira entrega do Prémio 89 Fernanda Rollo

Portugal e o Plano Marshall 95 Álvaro Garrido

O movimento associativo estudantil nos inícios de sessenta - a crise académica de Coimbra de 1962

103 Helena Pinto Janeiro

Salazar e Pétain, contributo para o estudo das relações luso-francesas durante a II Guerra Mundial (1940-1944)

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SUMÁRIO

111 Cláudia Castelo

O modo português de estar no mundo. O luso-tropicalismo e a ideologia colonial portuguesa (1933-1961)

117 Daniel Melo

Salazarismo e cultura popular (1933-58) 127 Maria João Vaz

Crime e sociedade. Portugal na segunda metade do século XIX 137 Adelaide Ginga Tchen

A aventura surrealista. Da explosão à extinção de um movimento (ou não)

145 Telmo Faria

Debaixo de fogo! Salazar e as Forças Armadas (1935-1941) 153 Arnaldo Pata

Revolução e cidadania. Organização, funcionamento e ideologia da Guarda Nacional (1820-39)

159 Bruno Reis

Salazar e o Vaticano, da paz ao conlito? As relações diplomáticas entre Portugal e a Santa Sé, 1928-1968

169 Elisa Travessa

Jaime Cortesão: política, história e cidadania (1884-1940) 177 Rita Carvalho

A Assembleia Nacional no pós-guerra (1945-1949) 179 Daniel Melo

A Leitura Pública no Portugal contemporâneo (1926-1987) 191 Filipa Lowndes Vicente

Viagens e exposições – D. Pedro V na Europa do século XIX 201 Patrícia Matos

As “Côres” do império. Representações raciais no contexto do “Império colonial português” nas primeiras décadas do Estado Novo

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SUMÁRIO

209 Sandra Costa

O divórcio no Porto (1911-1934): “e aos costumes disse nada” 217 José António Ribeiro de Carvalho

Os jesuítas nas vésperas da I República: o “Novo Mensageiro do Coração de Jesus” (1881-1910)

231 José Neves

Comunismo e nacionalismo em Portugal: política, cultura e história no Século XX

239 Fernando Tavares Pimenta

Angola: os brancos e a independência 245 Bruno Marçal

Governo de Pimenta de Castro – um general no labirinto da I República 263 Miguel Cardina

Margem de certa maneira. O maoismo em Portugal: 1964-1974 273 BIOGRAFIA

Victor de Sá: um Homem na História, por Henrique Barreto Nunes 307 BIBLIOGRAFIA

Bibliograia de Victor de Sá, por Manuela Barreto Nunes 333 FUNDO MECENÁTICO

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A AVENTURA SURREALISTA.

DA EXPLOSÃO À EXTINÇÃO DE UM MOVIMENTO

(OU NÃO)

ADELAIDE GINGA TCHEN

Prémio de História Contemporânea – 1999*1

Desejo, antes de mais, agradecer aos membros do júri do Prémio de História Contemporânea da Universidade do Minho do presente ano: Profs. Doutores José Viriato Eiras Capela, António Adriano Pires Ventura e Maria Manuela Tavares Ribeiro, por terem atribu-ído este prémio ao meu trabalho, retribuindo o esforço despendido neste estudo, e, principalmente, por terem valorizado um tema da nossa história cultural.

Ao Prof. Doutor Vítor de Sá, que sei, por motivos de saúde, não tem podido comparecer a estas cerimónias, quero deixar uma sau-dação especial de reconhecimento e homenagem pelo seu percurso cultural e de humanista, verdadeira lição de coragem e sabedoria na defesa de ideais que legaram um importante contributo para a liberdade e digniicação do cidadão pensante.

A sua iniciativa de apoio ao estudo da História Contemporânea, apadrinhada pelo Conselho Cultural da Universidade do Minho, através da instituição de um prémio, traduz-se num precioso incen-tivo para os jovens historiadores que procuram desenvolver o enten-dimento de um passado recente, que é urgente conhecer, com vista a abolir lacunas numa memória em formação.

* O discurso de apresentação da obra premiada foi publicado originalmente em Forum, Braga, 26 (Jul.-Dez. 1999), p. 121-129.

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INTERVENÇÕES

Foi neste sentido que surgiu este trabalho, com o objectivo de aprofundar um tema que, até então, tem sido valorizado no âmbito da história de arte ou da história literária, e não enquanto fenómeno integrante do panorama cultural português, mais especiicamente da história cultural e das mentalidades do período do Estado Novo.

Parece-me cada vez mais importante o estudo das questões cul-turais na historiograia contemporânea, que, tendo em conta a sua interligação com contextos políticos, sociais, mesmo institucionais e económicos, ultrapassem a visão mais especíica e técnica de uma análise tematizada no campo da arte, literatura, etc., avançando para investigações globais e aprofundadas de assuntos que, no seu conjunto de fenómenos históricos, possam dar a conhecer melhor o desenvolvimento e a evolução dos nossos passos e aquisições cultu-rais, da estruturação da nossa mentalidade e do nosso pensamento.

1. APRESENTAÇÃO DO TRABALHO

O trabalho que aqui apresento constitui a dissertação que defendi em Julho deste ano para a obtenção do grau de Mestre em História Contemporânea, na Faculdade de Ciências Sociais e Huma-nas da Universidade Nova de Lisboa, sob orientação do Prof. Doutor Fernando Rosas, e intitula-se A Aventura Surrealista, da explosão à extinção de um movimento (ou não).

O título escolhido procura demarcar o incontestável e genético carácter de aventura do Surrealismo, aplicando-o ao caso português, exaltando e airmando essa mesma qualidade, em conjugação com uma interpretação complementar que assume a relatividade quanto à airmação de um movimento em Portugal e que secundariza a importância conferida à utilização deste termo.

Este estudo sobre Surrealismo em Portugal surgiu do interesse e curiosidade que o mesmo sempre me suscitou, do fascínio face a um tema que, apresentando-se com contornos de aventura numa aparente vivência efémera, assume uma profusão que considero admirável, uma multiformidade situada muitas vezes entre a loucura e a genialidade, que na deinição de André Breton é a «ausência de todo o controlo da razão e de toda a preocupação moral ou estética».

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A recusa em acomodar-se a uma vida quotidiana medíocre, porque limitada em todos os sentidos, em aceitar uma sociedade esclerosada de valores burgueses, levou vários intelectuais a colocar em causa a vivência do dia a dia e a lutar pela aplicação do espírito – que se pretendeu colectiva – a um novo conceito de ser, dizer e fazer.

A valorização do indivíduo e da sua riqueza interior aliou-se a uma concepção revolucionária do homem e do mundo, que se tra-duziu numa autêntica revolução cultural. O Surrealismo permitiu o desenvolvimento dos conhecimentos e das capacidades intelectuais, por um lado, dando a conhecer melhor antepassados culturais até então praticamente ignorados, por outro, ultrapassando barreiras de costumes e regras julgadas intransponíveis e abrindo novos horizon-tes.

Neste sentido, o caso português torna-se ainda mais aliciante, já que se inscreve cronologicamente no período do Estado Novo. Isto porque o Surrealismo, ou o “ismo” surreal, sinónimo de automa-tismo, de aventura e, portanto, de liberdade, de explosão, loresceu e airmou-se no nosso país, e em português, durante o Salazarismo, e como sabemos o “ismo” de Salazar correspondeu a um período de ditadura, de liberdade cerceada, de loucuras interditas, de contenção e de ordem.

Foi precisamente este aspecto, que me despertou para a neces-sidade de um trabalho em que procurei dar conta desta tentativa de surrealizar Portugal, sistematizando o pulsar aventuroso dessa acção, registando e interpretando os momentos que construíram o caminho percorrido. Um caminho de raiz intelectual, traçado no campo cultural e das mentalidades, e entrelaçado com o campo social e político.

2. OBJECTIVOS E METODOLOGIA

O objectivo não foi, por isso, estudar o surrealismo português à luz da produção artística ou literária, nem recensear a produção teórica existente, muito menos, focalizar um dos grupos surgidos. Aquilo a que me propus foi historiografar o movimento surrealista no seu conjunto, desde o seu aparecimento até à sua dissolução

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INTERVENÇÕES

enquanto acção organizada, surpreendendo o diálogo histórico dos momentos mais marcantes. Assumindo a tarefa de auscultar o curso dessa aventura, como é que ela surgiu, por que é que surgiu, que diiculdades encontrou para se airmar, com que contrariedades se debateu e que contributos trouxe ao campo cultural português.

Um estudo com ênfase nos seus protagonistas, no modo como estes se relacionaram entre si e com o exterior, nas suas interpreta-ções individuais e conjuntas do surrealismo, na forma como se mani-festaram, isto é, como se traduziram na prática. Dando igualmente relevo aos palcos de acção, às manifestações mais importantes e às reacções que suscitaram.

A metodologia e o quadro de análise escolhidos assentam num conjunto de fontes originais até agora pouco exploradas, algumas inéditas, com uma riqueza de conteúdo, a meu ver, incontornável, e visam um encadeamento dos factos e a procura de novos dados com vista a anular ou adelgaçar as clareiras temporais existentes e a fazer a ponte entre certos acontecimentos, explicitando os seus antecedentes e as suas consequências.

Uma opção metodológica que utilizou como io condutor da narrativa esse núcleo documental que emanou, em síntese, da aná-lise de panletos, catálogos de exposições, comunicados e outros tex-tos da autoria dos surrealistas, e em particular da correspondência trocada entre estes. Material, sempre que possível, confrontado com a reacção da crítica e cruzado com depoimentos orais.

Sem a estulta pretensão de esgotar o campo interpretativo, (aliás, como todo o labor na história), e evitando o enleio nos diver-sos e sedutores assuntos que a dimensão do tema propõe, a decisão recaiu, portanto, sobre um caminho possível no campo da história, num percurso temporalmente assumido entre 1947 e 1952 – bali-zas que correspondem, respectivamente, à explosão do Surrealismo enquanto potencial movimento assumido de forma colectiva, e à extinção dessa movimentação em grupo e consequente luta pela airmação de uma vivência surrealista, em termos mais individuais.

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3. ESTRUTURA DO TRABALHO

O ensaio estrutura-se em três partes distintas que correspon-dem na apresentação adoptada a três capítulos, cada um com objec-tivos precisos.

No plano preliminar é traçado o quadro internacional da Eclo-são e do Desenvolvimento do Movimento Surrealista que pretende, numa abordagem sumária, dar ao leitor as bases de entendimento do Surrealismo no seu contexto original. Sobretudo porque, se por um lado o Surrealismo em Portugal se airmou como independente, não deixou todavia de assumir uma perilhação francesa decorrente dos manifestos de André Breton e dos vários comunicados que deini-ram a postura do Grupo Surrealista Francês.

Por outro lado, os surrealistas portugueses realizaram viagens ao exterior e estabeleceram contacto com os seus congéneres de outros países, colaborando inclusive em projectos internacionais. Aspectos que se cruzam com o Surrealismo parisiense e internacional e que exigem a sua consideração.

Aliás, desde o primeiro momento, o surrealismo reuniu pessoas de diferentes nacionalidades, e ainda o movimento dava os seus primeiros passos no berço parisiense, já novos focos do espírito surrealista se acendiam para lá das fronteiras francesas. Daí ter-se procedido, também, a uma tentativa exploratória de sistematizar a difusão do Surrealismo em termos internacionais e a extensão que este atingiu no campo geográico, dando a conhecer as diferentes formas de penetração e de manifestação assumidas, mas também a cronologia dessa mesma difusão, permitindo ter a noção do quanto tardia foi a sua entrada em Portugal.

Note-se que em 1924, data da formação do Grupo Surrealista Francês, vivia-se o pós-primeira guerra, e quando se constitui o pri-meiro grupo surrealista português, em 1947, a realidade era já a do pós-segunda guerra e o surrealismo iniciava em termos internacio-nais a sua segunda fase de actividade.

Perante as condicionantes decorrentes desta entrada serôdia, pareceu-nos imprescindível, ao passar para uma segunda parte já dedicada à trajectória do Surrealismo em Portugal, explicitar a

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INTERVENÇÕES

lidade político-cultural que impôs a Portugal esse atraso na partilha da vanguarda que mundialmente se airmava.

Na verdade, desde meados da década de 20 até ao inal da segunda Guerra Mundial que existem em Portugal registos sobre o surrealismo, porém, só na década de 40 se assinalam os esquissos de uma aventura vanguardista que envolveria a maioria dos futuros surrealistas portugueses. Entretanto, sensivelmente entre 1945-1947, chegou a haver, por parte de alguns elementos, uma relação fugaz com o neo-realismo hegemónico, mas esta acabaria em ruptura e consequente ultrapassagem, quer por virtude de uma insatisfação e um desajuste ao nível de atitudes e posturas, quer de nova perspec-tivação face ao rumo ideológico.

A partir de 1947, deu-se então alento a uma viagem que airmou um conturbado e efervescente movimento, protagonizado em dois grupos adversos, cujo aparente carácter efémero empolga o período constituído entre 1947 e 1952, sendo o ano central, 1949, o clímax da actividade.

Até 1947, data da cisão com o Neo-Realismo, as manifestas ai-nidades pictóricas ou literárias com o surrealismo, conscientemente mantidas nessa linha de atracção, apresentam-se como importantes prolegómenos surrealizantes, sendo 1947 o ano do despertar de uma novíssima geração de escritores e artistas que, ultrapassando meras inluências, avançou com o desejo de airmação conjunta e deu expressão ao surrealismo em Portugal.

Entre 47 e 49 dá-se a airmação de uma postura independente no contexto cultural português com o Grupo Surrealista de Lisboa, e, no biénio seguinte, assiste-se ao protagonismo alcançado por Cesariny no palco do Surrealismo nacional com a ruptura criada pelo anti-grupo surgido em seu torno, que, face ao grupo anterior e em jeito de reclamada autenticidade, apelidaram-se simplesmente de Surrealistas.

E se 1949 foi o ano de clímax, isto é, de airmação do surrealismo no contexto nacional, com a apresentação pública dos dois grupos, no ano de 1952 registam-se as tentativas derradeiras e infrutíferas de dar continuidade a um movimento que em termos internos se colo-cava em causa. Momento de relexão e balanço em que a dispersão se efectivou, em certos casos com desalento de um projecto que, a

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partir de então, passava assumidamente da acção no colectivo para uma acção no individual.

Na terceira e última parte do trabalho, optou-se por distinguir três vertentes dessa aventura que a exaltam a nível social, cultural e político.

Destaca-se a Escola de Artes Decorativas António Arroio como espaço social que se projecta na história do surrealismo em Portugal enquanto berço fomentador dessa nova geração, a par do crucial espaço correlativo do Café Hermínius e da cruciante Escola Supe-rior de Belas Artes. Primeiros passos de aventura no colectivo e de ruptura com o meio envolvente.

Abordam-se as várias exposições, num esmiuçar de envolvên-cias e cunhos particulares, aim de dar uma visão conjunta sobre a dimensão e projecção daquelas que foram referências capitais da prática surrealista e que ganharam em Portugal uma dimensão privilegiada face a um movimento que teve curta duração, que se debateu com diiculdades e limitações de expressão e de actividade.

No inexplorado campo da política, a consulta aos processos da PIDE permitiu alorar dados inéditos que desvendaram episódios individuais de uma actividade clandestina, de uma vivência margi-nal, trazendo novos dados na relação dos surrealistas com a oposi-ção política e permitindo perceber que (não sendo todavia inimigos principais do regime, temidos ao ponto de poderem ser aniquilados), estes autores de manifestações subversivas contra a ordem e a segu-rança do Estado, foram também eles considerados como elementos perigosos e inimigos da nação.

Em Anexo, apresenta-se um conjunto de documentos perti-nentes e dois ensaios de estudos sintetizados: um quadro que alora dados biográicos dos Surrealistas numa perspectiva comparativa e uma extensa cronologia, também ela comparativa, do Surrealismo nacional e internacional, a par dos factos políticos mais signiicantes. Empreendimentos que se pretenderam bastante exaustivos, mas que se apresentam com carácter de esboço numa atitude complementar.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em suma, a aventura surrealista agrupou em Portugal, num primeiro impulso, cerca de duas dezenas de intelectuais que, em conjunto, conscientes dos perigos, diiculdades e desaios existentes num regime ditatorial e sem apoio organizado na oposição, deci-diram dar voz a um movimento revolucionário e libertário onde encontraram resposta a necessidades vivenciais. Porém, surgiram rupturas internas, quer no grupo inicial, quer no novo “anti-grupo”, e a desunião dividiu a força.

Embora cerceado no seu campo de acção e defectivo no resul-tado imediato dos seus propósitos, o surrealismo em Portugal teve, entre grupo e anti-grupo, uma actividade que durante cerca de cinco anos, promoveu experiências, permitiu teorias e produziu frutos que, a longo prazo, revelaram a sua força e a eicácia dos resultados, da sua liberdade poética, deixando a cultura portuguesa mais rica, mais profusa, e com uma mentalidade mais aberta, mais acirrada na sua capacidade crítica e criativa.

O Surrealismo é, na verdade, sinónimo de “ruptura”, de “revolta” e de “revolução”.

Neste sentido, a essência da movimentação surrealista emergiu entre nós, por entre uma marginalidade imposta e uma postura marginal desejada, e, embora em 1952 se assista a uma dissolução da acção colectiva, essa dissolução transformou-se numa pulveriza-ção de tal forma incisiva no seu conteúdo e revolucionária na sua mensagem que consolidou historicamente a importância e o valor do surrealismo na cultura portuguesa.

Referências

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