Top PDF Acurar-se da escrita - Maria Gabriela Llansol

Acurar-se da escrita - Maria Gabriela Llansol

Acurar-se da escrita - Maria Gabriela Llansol

“fulgor”, em seu livro Um falcão no punho, no fragmento “Gênese e significado das figuras”: “À medida que ousei sair da escrita representativa em que me sentia tão mal, como me sentia mal na convivência, e em Lisboa, encontrei-me sem normas, sobretudo mentais. Sentia-me infantil em dar vida a personagens da escrita realista porque isso significava que lhes devia igualmente dar a morte. Como acontece. O texto iria fatalmente para o experimentalismo inefável e/ou hermético. Nessas circunstâncias, identifiquei progressivamente <<nós construtivos>> do texto, a que chamo figuras e que, na realidade, não são necessariamente pessoas mas módulos, contornos, delineamentos. Uma pessoa que historicamente existiu pode ser uma figura, ao mesmo título que uma frase (<<este é o jardim que o pensamento permite>>), um animal ou uma quimera. O que mais tarde chamei cenas fulgor. Na verdade, os contornos a que me referi envolvem um núcleo cintilante. O meu texto não avança por desenvolvimentos temáticos, nem por enredo, mas segue o fio que liga as diferentes cenas fulgor. Há assim unidade, mesmo se aparentemente não há lógica, porque eu não sei antecipadamente o que cada cena fulgor contém. O seu núcleo pode ser uma imagem, ou um pensamento, ou um sentimento intensamente afectivo, um diálogo.” (LLANSOL, 1998, p. 130-131.)
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A superfície persistente do começar: escrita-leitura em Maria Gabriela Llansol

A superfície persistente do começar: escrita-leitura em Maria Gabriela Llansol

12. LLANSOL. Parasceve, p. 177. 13. Restante vida, além do título de um livro de Maria Gabriela Llansol, é referida no prefácio de O livro das comunidades: “Todos cremos saber o que é o Tempo, mas suspeitamos, com razão, que só o Poder sabe o que é o Tempo: a Tradição segundo a Trama da Existência. Este livro é a história da Tradição, segundo o espírito da Restante Vida (...) O escrever acompanha a densidade da Restante Vida, da outra Forma de Corpo, que aqui vos deixo qual é: a Paisagem” (LLANSOL. O livro das comunidades, p. 9-10). Assim, em concordância com Erick Gontijo Costa, “[...] utilizaremos o significante llansoliano Restante Vida, que se faz presente em diversos momentos de sua obra, como uma nomeação da vida que se inscreve no texto, da vida que nele resta escrita” (COSTA. Curso de silêncio, p. 12, nota 5).
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Leitura, tradução e escrita em Maria Gabriela Llansol

Leitura, tradução e escrita em Maria Gabriela Llansol

Ainda no prefácio à tradução dos poemas, Maria Gabriela Llansol faz um arranjo, misturando fragmentos esparsos: lembranças cintilantes da sua infância, ao lado da avó Maria, devota de Teresinha do Menino Jesus, leitura do livro História de uma alma, de Thérèse Martin de Lisieux e figuras retiradas da sua obra, como Témia, a rapariga que temia a impostura da língua. Esses fragmentos são reunidos, traçando uma linha que os une, mas, ao mesmo tempo, os mantém distantes, seja em função do espaço e do tempo em que foram vividos, seja em função da impossibilidade de colocá-los num lote comum e, assim, produzir uma semântica compartilhável. Vemos, então, a subtração do tempo linear pelo instante poético, levando a uma certa dispersão do tempo histórico. O que resta da memória é a desmemoria do acontecimento como fato para que ela se torne acontecimento de escrita. O que aproxima esses elementos dispersos é a leitura nesse lugar de “legência”, tal como definida por Llansol. Uma leitura que implica a presença de um corpo de afetos que é tocado pelos textos: o do outro e o próprio. Os poemas e manuscritos de Thérèse Martin encontraram, na legente Gabriela, o “leitor real”: “o texto precisa encontrar, não o leitor abstracto, mas o leitor real, aquele a que, mais tarde, acabei por chamar legente – que não o tome nem por ficção, nem por verdade, mas por caminho transitável” (LLANSOL, 2013).
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A escrita dos dias: a ética da paisagem em Maria Gabriela Llansol

A escrita dos dias: a ética da paisagem em Maria Gabriela Llansol

Esta tese tem por base uma fundamentação teórica advinda, sobretudo, da Teoria Literária e da Psicanálise, mas também da Filosofia e da Antropologia. Dentro dessa multiplicidade de vozes, privilegiamos as de Blanchot − notadamente sobre a literatura, a obra, o desastre e a noite −, Derrida Ŕ a justiça Ŕ, Spinoza Ŕ os Ŗafetosŗ Ŕ, Eduardo Viveiros de Castro Ŕ o perspectivismo Ŕ, Michel Serres Ŕ a noção de biogaia Ŕ, Giogio Agamben Ŕ o homo sacer e a vida nua Ŕ, Emanuelle Coccia Ŕ a vida sensível Ŕ e Lacan Ŕ sobretudo no que se refere às noções de escrita, letra, litoral e real. Nessa direção, a partir de certas figuras da obra de Maria Gabriela Llansol Ŕ Ŗcausa amanteŗ, Ŗsobreimpressãoŗ, Ŗfulgorŗ, Ŗrestante vidaŗ, Ŗleituraŗ e Ŗpaisagemŗ Ŕ, extraímos a noção de Ŗética da paisagemŗ que, articulada com alguns conceitos da Teoria Literária, da Psicanálise, da Filosofia e da Antropologia, permite a leitura não só dessa obra, mas de outros textos literários. Para chegar à noção de Ŗética da paisagemŗ, passamos por questões que atravessam os diversos campos do saber que constituem a base deste trabalho e também o texto llansoliano: o amor, o outro, a justiça, a vida, a leitura e a paisagem. Como tais noções encontram-se dispersas na obra de Maria Gabriela Llansol, não priorizamos nenhum de seus livros, em especial, mas fizemos uma leitura extensiva de sua obra. Porém, tomamos como referência para estruturar este trabalho o último livro escrito pela autora, intitulado Os cantores de leitura, e também uma forma de escrever muito utilizada por Maria Gabriela Llansol, o diário.
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Biografia como método: a escrita da fuga em Maria Gabriela Llansol

Biografia como método: a escrita da fuga em Maria Gabriela Llansol

maneira exata (mas em saltos), o texto. Vejamos alguns saltos entre intensidades que se foram formando na confecção da tese: o salto da vida translúcida de Gabriela que se põe a escrever os tantos livros, os incontáveis cadernos, as inúmeras páginas encontradas em seu espólio, para a vida capturada pelo legente, para a vida que guarda a experiência amorosa do corpo e o lugar inesperado do acaso e do acontecimento do fulgor; o próximo salto, o da captura legente para a vida aberta pelo espaço Llansol: o caminho leve e o abrigo que aproxima a comunidade de sós — os traços de vida e esquecimento das figuras; depois, o salto dessas vidas-escritas-esquecidas, metamorfoseadas e depuradas pela intensidade da biografia de uma imagem (STL, p.13), até o momento de encontrar de volta a matéria-verdade da qual a escrita partiu. “Sem desviar o olhar para os pés, os pés que andam”.(LC, p.33); e, no movimento da marcha, o novo salto entre intensidades, o que retorna, pelo orifício de passagem sem igual, para os braços de Maria Gabriela Llansol, para suas mãos vistas, tanto tempo depois, pela tela em que se projeta o filme Redemoinho-poema, de Lucia Castello Branco e Gabriel Sanna.
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O magma da escrita, nos interstícios do mundo: alguns apontamentos sobre a experiência da escrita em Maria Gabriela Llansol

O magma da escrita, nos interstícios do mundo: alguns apontamentos sobre a experiência da escrita em Maria Gabriela Llansol

As palavras vivem de serem vivas, da decisão que as possui, do arrebatamento interior, de não serem bens, propriedades, objectos que se usam e nos desgastam, mas intensidades, sopros onde os corpos se deslocam e se encontram. Amantes. (Lopes, 2013:9) Enquanto legentes, movidos pela causa amante que é o Texto, recordar a obra da escritora portuguesa Maria Gabriela Llansol (1931-2008) significa estar disponível para auscultar uma poética que, no que diz respeito às condições da sua legibilidade e aos propósitos a que se propõe, se situa nos antípodas dos códigos convencionais da dita literatura clássica ou, se quisermos abrir mão de uma outra formulação (igualmente não isenta de complexidades), do realismo expressivo de recorte humanista.
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Da inesgotável matéria do mundo: uma aproximação pós-humanista à escrita de Maria Gabriela Llansol

Da inesgotável matéria do mundo: uma aproximação pós-humanista à escrita de Maria Gabriela Llansol

Há muitos anos, quando comecei a viver na Bélgica, sem pressentir que seria por tantos, esta nossa longa ausência fez-me uma profunda impressão. Estava eu no béguinage de Bruges, com o sentimento fortíssimo de que já ali teríamos estado. Nós, não era eu. Já ali tínhamos sido alguém, alguém daquele lugar, e agora, inexplicavelmente, não havia ali, excepto na minha impressão, nenhuma memória de nós. Nem sequer o esquecimento. Data de então a presença constante, invasora e quase exclusiva, de certas figuras europeias nos meus livros […]. Fez-se ali o nó de que depois desfiei o texto. Comecei nas beguinas; destas, passei a Hadewijch, a Ruysbroeck. Destes, a João da Cruz e a Ana de Peñalosa. Fui conduzida por todos eles a Müntzer, à batalha de Frankenhausen e à vidade utópica de Münster, na Vestefália. Nos restos fracassados destes homens encontrei Eckhart, Suso, Espinosa, Camões e Isabel de Portugal. E foi por sua mão que fui até Copérnico, Giordano Bruno, Hölderlin, que todos eles anunciavam Bach, Nietzsche, Pessoa, e outros que a nossa memória ora esquece, ora lembra tão intensamente que me parece outra forma de os esquecer. De esquecer tudo isso (LLANSOL, 1994a, p. 88-89).
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ESCREVER, ESCREVER. Diários, Exílio e Escrita em Maria Gabriela Llansol

ESCREVER, ESCREVER. Diários, Exílio e Escrita em Maria Gabriela Llansol

Sobre o título deste diário, ainda uma palavra. Entre tantas leituras que dele se poderia fazer (inclusive aquela que o relaciona a Fernando Pessoa, figura que virá em Lisboaleipzig, justamente, a chocar um ovo de falcão) penso de imediato na força da imagem como cena de escrita. No fragmento de 7 de setembro de 1982, lemos que a escrita nasce no punho como se ele não fosse próprio: «Mas sinto-me também atraída para os diários, não escritos actualmente pelo meu próprio punho mas como se eu já estivesse distante, e fosse suposta a minha vida por fragmentos, e em forma de caminho convertido em livro.» (FP, 81). No título do diário, o falcão pousa no punho, pesa sobre ele, crava as garras no exato lugar onde nasce o movimento de diferenciação, a possibilidade de singularização pela escrita. Esse hóspede alado está sempre à beira de partir, e o gesto de escrever (duração e movimento) é acontecimento, força não domesticável – a escrita talvez seja as marcas deixadas no papel por um animal híbrido (falcão e punho) que passa rápido. 12 Talvez esse título remeta a um corpo inseparável do gesto da escrita como devir outro ou experiência limite, e essa imagem surge, de outros modos, em diversos textos de Llansol: nas primeiras páginas de O Livro das Comunidades, lemos que a terceira coisa que mete medo é um corp ‘a’ screver (LC, 10), corpo que se reinventa capturado pelo gesto de escrita, e que só existe ao destinar-se àquelas páginas, ainda que delas infinitamente se ausente. 13 Alguns anos mais tarde, um livro publicado em 1990 tem por título Um Raio sobre o Lápis, e mais uma vez salta ao primeiro plano um gesto de escrita que é talvez veloz, talvez intermitente, de todo modo imprevisível – faísca, raio, pouso do pássaro. Todavia, nos textos de Llansol não se trata de afirmar a escrita como manifestação espontânea de uma força vinda não se sabe de onde. Nos diários e nos livros, somos confrontados com outras imagens que relacionam a difícil tarefa de escrever ao exercício permanente, à aprendizagem e à tentativa, e os muitos cadernos manuscritos são também testemunho dessa busca incessante. Talvez a escrita de                                                         
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Luz preferida: a pulsão da escrita em Maria Gabriela Llansol e Thérèse de Lisieux

Luz preferida: a pulsão da escrita em Maria Gabriela Llansol e Thérèse de Lisieux

incansáveis dos nadas de San Juan de la Cruz. Mas não há de ser nada a morte do pai, a doença demencial do pai, logo nos primeiros tempos do Carmelo? Mas não há de ser nada a vida encarcerada e rígida em uma pequena comunidade religiosa? Mas não há de ser nada a obediência rigorosa de um escrever sincopado com vômitos de sangue? Sim, senhora, escrever com tintura sangüínea, fruto de uma tuberculose, que a exauria aos vinte e poucos anos de idade e que a entregaria à morte aos vinte e quatro. Manchar a folha branca com sangue e aproveitar apenas a tinta dessa pena para não perder o fluxo irrespirável daquela a quem faltará o ar, não seria nada? Sim, senhora, ela escrevia por obediência. Mas obediência a quê, perguntais. Ao nada, podeis pensar, embora de fato tenha sido a Madre Superiora a solicitar aquilo que poderia ser sua carta de morte. Mas também sua carta ao mundo. Sim, porque Teresa não deixou de ser quixotesca ao desejar correr mundo a espalhar uma boa nova; a converter almas; a entregar-se a aventuras missionárias. Não vos esqueçais que ela figura ao lado de Joana D’Arc, em Notre Dame de Paris, em duas peças conventuais e poemas de sua autoria, enfim. Mas não vos esqueçais, senhora, que a pequena via da infância não tem, nem pode ter qualquer pretensão canônica. E apesar disso, doutora. E apesar de doutora, rosas. E apesar do claustro, missioneira. Sim, ela se quis trancada em uma cela, onde poderia viajar melhor. E escreveu. Escreveu em um fluxo-refluxo de imensas insiginificâncias, que abrem sentidos ínfimos ao todo que não existe. Deixou-se levar pela escrita e apesar de. Seu livro, então, cumpriu e cumpre e cumprirá a missão. Abriu caminho e se lançou ao inesperado. Texto: lugar que viaja. E, no entanto, Teresa, presa na cela a cumprir obediência, escrevendo no
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Há-de vir só: a composição do livro-poema em Maria Gabriela Llansol

Há-de vir só: a composição do livro-poema em Maria Gabriela Llansol

Nessa passagem, Llansol compara seu texto ao estudo dos sonhos, cujas leis de desenvolvimento pressupõem uma con- tinuidade, sendo lógico que o próximo livro da autora se chamasse Os cantores de leitura, que, como veremos adiante, conservou um vestígio estrutural do texto anterior – a nos- talgia de Amigo e Amiga. Além disso, a forma como o livro se constrói – numa sequência de partículas desdobradas em duplos e contextos – aproxima a escrita do mesmo de um aspecto onírico.

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A morte de Maria Gabriela Llansol e José Saramago na Imprensa

A morte de Maria Gabriela Llansol e José Saramago na Imprensa

4 de março de 2008). Gisélle Freund em Fotografia e Sociedade (1989) analisa o retrato fotográfico na sua relação com a tradição aristocrática do retrato pintado e conclui que o burguês da era da fotografia procura aproximar-se do modelo do monarca. Contudo, esta apropriação tem de ser adaptada à sua realidade e daí que a cartola substituísse a coroa, o instrumento do ofício, substituísse a espada. A relação entre o retratado e os instrumentos do seu ofício proliferou como um topos do retrato fotográfico. Desde o renascimento que o filósofo-escritor se fez representar retirado na sua câmara a ler ou a escrever. Estas representações da escrita como retiro e do escritor como hermita ou monge repete-se aqui também, persistindo através dos tempos. Neste caso, a ausência dos autores nos seus lugares de trabalho-escrita-missão (heroica) e meditação, fora do mundo, significam a ausência que a morte simboliza. No contexto da morte, estas imagens adquirem mais uma camada de sentidos: aquela de significar a expressão mesma da ausência. Neste aspeto, o tratamento de ambos os autores aproxima-se. (Fotografias de João Céu Silva e de Duarte Belo, respectivamente).
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(Escre)ver-se: A vida das coisas escritas e UM FALCÃO NO PUNHO, de Maria Gabriela Llansol

(Escre)ver-se: A vida das coisas escritas e UM FALCÃO NO PUNHO, de Maria Gabriela Llansol

O sujeito literário de Llansol pretende habitar entre a “Comunidade” compósita que pulula as páginas de Um falcão no punho e da restante obra, e que inclui, entre outros, a criada Engrácia (em graça, a quem se atribui o dom da narrativa); Augusto, o seu marido; animais que possuem nome próprio; Musil, Emily Dickinson e os irmãos Brontë – cultores de uma bibliomania que neste volume se ‘materializa’ ficcionalmente na fundação de uma gráfica caseira, e criadores reais, históricos, de “Gondal”, um reino de fantasia, um mundo de palavras; Aossê, Fernando Pessoa ao contrário, interlocutor principal, e um seu infeliz heterônimo feminino: Infausta; aos quais se juntam Bach, figura do compositor, e suas filhas – Bach, que vem figurar a música, preocupação constante de quem, no compasso do tempo, mas livremente, pretende registrar a sua versão deste “reino”, que “não tem cadeias, só ritmos e melodias” (p. 80). Desta maneira, a escritora paradoxalmente apreende e fabrica, e oferece-nos a explorar, um mundo novo, construído, no qual “escrever é o duplo de viver” (p. 73). Assim sendo, o seu sujeito literário, eternizado pela renovação locutória, sobre-vive nele, pois que “eu/ ele/ o Diário, é regenerável pela escrita” (p. 81).
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A boa nova anunciada à natureza: o 'drama-poesia' em três discursos de Maria Gabriela Llansol

A boa nova anunciada à natureza: o 'drama-poesia' em três discursos de Maria Gabriela Llansol

A recusa do egocentrismo implica antes de mais a insubstituibilidade dos seres. Ou seja, implica a crença num potencial humano indeterminado, o desejo, capaz de gerar diferenças irredutíveis. Ora, o único não pode ser dito nem convertido em modelo. No humano, ele não corresponde nem ao modelo de um homem com qualidades nem às qualidades sem homem. É o homem sem imagem. Lévinas fala-nos dessa insubstituibilidade quando a identifica com o rosto, que é precisamente aquilo que desfaz a imagem. Penso que se pode dizer das figuras de LC que elas são o desfazer de imagens e ao mesmo tempo a composição de figuras em que o rosto, o humano imortal, se mostra como o ausente do discurso, a presença nele de vazios de significação: nem todo o nosso dizer se converte em dito, nem tudo o que nos rodeia é reconhecível. Esses vazios são independentes da duração e por isso não são assinaláveis em termos de passado, presente e futuro. No entanto, não estão fora da duração (estão nela mas não dependem dela) o que faz com que o quotidiano não seja pleno, cheio, contínuo, mas imperfeito, esburacado, descontínuo. As figuras criadas no LC ajudam-nos a ver o inacabado do mundo, os seus vazios ou presenças sem imagem. (...) São os vazios da figura que lhe conferem um dinamismo infinito, isto é, uma força de metamorfose. O LC não fala de Ana de Peñalosa, de Nietzsche, ou de São João da Cruz, o que há é presenças que nele se ―desenham‖, escrevem, como figura, e para cujo ―desejo‖ (escrita) concorrem aqueles nomes. 43
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Exercícios de aproximação: a experiência literária a partir de Roland Barthes e Maria Gabriela Llansol

Exercícios de aproximação: a experiência literária a partir de Roland Barthes e Maria Gabriela Llansol

habitando-nos por tudo que porta dos efeitos dos afetos. O texto desliza para o escrito e nele as palavras perduram, na melodia que bate em cada uma delas, pronta para se lançar ao alto, em notas breves e sincopadas. É na língua, nas margens de uma língua escrita, que o real se apresenta, pois toda “língua é em si mesmo o termo derradeiro das diferenciações que lhe são possíveis” (MILNER, 2006, p.36). Restam nela, sempre, as palavras estrangeiras, fazendo com que a (dis)conjunção das figuras antinômicas da língua responda ao silêncio das coisas. Resta sempre a vibração da palavra, seu valor físico, sua densidade pulsional, seu corpo escrito em percurso de água, que conta, ali onde não diz, o invisível e a impossibilidade de dizê-lo. Não
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Maria Gabriela Llansol e Maurice Blanchot: a escritura do desastre

Maria Gabriela Llansol e Maurice Blanchot: a escritura do desastre

Nesse aspecto, relembramos a origem do escrever de Llansol (2011c, p. 26), em entrevista, na qual reforça a afirmação de que: “será talvez necessário que a espécie saia de si mesma, da sua monocultura, entre profundamente em contacto com os universos próximos e não falantes – e procure a identidade na errância de uns de outros”. Nesse ponto, acordamos que o enredo de Um beijo dado mais tarde está contaminado por uma relação muito profunda com móveis, objetos de decoração e de uso cotidiano, criando um universo singular de elementos estáticos. Ademais, é preciso ressaltar que a escritora passou vinte anos em exílio na Bélgica e dessa maneira, pôde realocar a língua portuguesa em outra cultura. Essa ressignificação da língua materna em outro país originou uma criação excepcional de “margem da língua” (LLANSOL, 2011b, p. 07) refletida e exercitada com forte ruído escritural. Maria Gabriela Llansol trabalhou como tradutora de grandes poetas franceses e encontrou nesse universo estrangeiro, também, uma experiência com a escrita e a língua únicas. Portanto, essa experiência que chamaremos de errância , torna-se, nas palavras de Llansol, o ponto originário para o desvio decorrente de escrever. Em todo o momento, observamos essa experiência deslizante e desviante do escrever na obra da autora lusitana. Logo, o exílio e a tradução serviram para
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Que sonho vamos nós sonhar que nos sonhe?: O conceito nietzcheano de eterno retorno na poética de Maria Gabriela Llansol

Que sonho vamos nós sonhar que nos sonhe?: O conceito nietzcheano de eterno retorno na poética de Maria Gabriela Llansol

Blanchot distingue assim o livro da obra: enquanto o livro é o produto material da criação do autor, que “escreve a partir de certo estado da linguagem, de certa forma de cultura, de certos livros, a partir também de elementos objetivos, tinta, papel, impressora” 17 , é a coisa escrita, a obra se realiza pelo ato único da leitura. Segundo Blanchot, “o livro que tem sua origem na arte [em contrapartida ao livro não literário] não tem sua garantia no mundo, e quando é lido, nunca foi lido ainda, só chegando à sua presença de obra no espaço aberto por essa leitura única, cada vez a primeira e cada vez a única” 18 . A leitura, embora não seja força produtora, realiza a obra num espaço onde “nada possui ainda sentido”. Enfim, é na obra que a literatura se realiza, e esse movimento implica graus infinitos ou infinitos graus, “infinitas variações do devir”, pois que a obra é inacabada e está sempre por vir. A obra pode ser comparada “a esse evento de imagem” do qual nos falou Blanchot, no qual “o sentido não escapa para um outro sentido, mas no outro de todos os sentidos” 19 , não sendo a presença de uma ausência, mas a ausência materializada. Com isso não se quer dizer que a literatura aponta para o irreal, mas que ela “coloca à nossa disposição toda a realidade” 20 .
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O caminho desviado do comum dos homens : parménides em Maria Gabriela Llansol

O caminho desviado do comum dos homens : parménides em Maria Gabriela Llansol

Questão da identidade, como noutros lugares deste livro: “o segredo estético dessa luz faz-me pensar no elo subtil com que ela se articula ao meu pensamento. Hei-de perguntar-lhe por que me leva assim _________ / e quem é?” (1996: 22). Mesmo a quarta confidência “é sobre o desejo e a repulsa da identidade.” (1996: 48). Desejada e repelida, a identidade nem sempre serve, mas insiste em regressar. Ela serve quando o ouvinte contemporâneo precisa de perceber como era já sobre ele e para ele que Parménides escrevia o Poema. As jovens, por exemplo, não são aqui os sentidos, secundarizados por Platão, mas as personagens de Vergílio: tal como o próprio Inquérito… se encaixa no Poema, assim as personagens – Bárbara, Mónica, Sandra – guiam o criador. O autor escreve, mas para ser conduzido. É a escrita que o inventa como Jovem; o Vergílio Ferreira do Inquérito… não compreende isto, replica: “– Por que haveria de ser eu o Mais Jovem – se é um facto que estou velho?”, e a narradora não pode senão responder: “– Vergílio ________” (1996: 58), num traço que é também uma ausência presente significativa.
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Uma narratividade em mutação: recepção e produção de Causa Amante, de Maria Gabriela Llansol

Uma narratividade em mutação: recepção e produção de Causa Amante, de Maria Gabriela Llansol

O esforço de composição do livro em curso é grande, “obra de esforço largo” (Cad.1.06, p. 211), que por vezes desanima a escrevente que não consegue “articular duradoura e especial- mente a escrita” (Cad.1.06, p. 29), mas que paradoxalmente deixa um PS a revelar sua submissão à corrente do escrever: ”Nunca escrevi um livro assim; nunca assim fui escrita por um livro”. Imediatamente após esta frase, compõe no diário outra cena de Lisboa em que a analfabeta Engrácia pede a Ana de Peñalosa que escreva “uma carta de amor, de seu amante para ela”. (CA, p. 84 e Cad.1.06, p. 219), o que novamente nos remete ao tema dos amores paternos que antecederam o nascimento da autora. Em todo este trecho do Caderno (8 a 21 de fevereiro), a produção do texto se faz por conjugação de elementos vivos, que se conectam dinamicamente por uma lógica não-linear ou vibratogênea (para usar o termo de Augusto Joaquim): há o plano da realidade em que a dificuldade da escrita, ao ser verbalizada, cria a escrita que, por sua vez, produz a própria escriptora; há o plano da fic- cionalidade em que uma carta é escrita por uma mulher culta (Ana) a pedido de outra analfabeta (Engrácia); e há o plano da inter-relação entre o biográfico e o literário quando se pensa na pobre Amélia que teria gostado de ser amada pelo pai de Gabriela, dele merecendo uma carta de amor. Coroando estas penetrações mútuas, Ana de Peñalosa se emociona e conclui que a tal carta tem o mesmo peso afetivo de uma mensagem de Luís M. ou de São João da Cruz, respectivamente, filho adotivo e mestre da beguina.
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Uma abordagem do tempo na ficção contemporânea A Restante Vida, de Maria Gabriela Llansol

Uma abordagem do tempo na ficção contemporânea A Restante Vida, de Maria Gabriela Llansol

A escrita de Llansol nos transmuta para uma metamorfose de fragmentos desconexos, mas coerentes. Um estranho tempo é criado e composto por nomes históricos e místicos, sem passado e sem presente, mas com um devir, que contamina o mundo do texto. Essas figuras advindas da História literária ou filosófica e evocadas pela narrativa llansoliana, como por exemplo: Tomás Müntzer – teólogo alemão da era da Reforma do séc. XVI -, Frederico Nietzsche – filósofo alemão contemporâneo do séc. XIX -, João da Cruz – frade espanhol e poeta místico -, Eckhart – teólogo da Idade Média e grande expoente do misticismo, entre outros, às quais a autora se refere não possuem mais a denominação de indivíduos documentados ao longo do tempo historicizador. Portanto, assumem uma nova identidade ficcionalizada e a-histórica, no universo llansoliano através de um sentimento afetivo, que os ressignificam em seres por vir:
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Um contorno todo aberto – as figuras e o feminino em Maria Gabriela Llansol

Um contorno todo aberto – as figuras e o feminino em Maria Gabriela Llansol

Assim, se o traço marca a união entre todas as coisas, nos recordamos de que, conforme Freud, “o principal objetivo de Eros [é] unir e atar” (1923/ 2007, p. 54), e, além disso, consideramos o traço do “h” como traço do corpo feminino, “dobra” e “baraço”. Letra ausente que se marca por sua presença muda, uma tentativa de que aquilo que não está ligado o seja pela escrita que irrompe como uma linha de fulgor, pulsão “livremente móvel, que pressiona por descarga” (FREUD, 1920/ 2010, p. 198), furo desenhado no real, gozo do que não se inscreve, mas se escreve de modo “irritante” e “contínuo” como possibilidade de silenciar definitivamente. O há, marcado por sua ausência, permanece, como um som-aberto: há, a, ah, verbo ter ou existir, interjeição de sussurro-dor-gemido – orgástico, gozante –, primeira letra do alfabeto, artigo feminino, sempre uma abertura do orifício oral, já que, como “um jarro é formado pelo som do jarro, mas eu vejo a palavra jarro que tem o seu bojo no a”. (LLANSOL, 2011b, p. 123 – destaque da autora). Contudo, o bojo pode romper-se na distensão, por vezes, se houver A demora para o fechamento da boca e permanecer apenas como fuga de ar; tal movimento concreto, concreto como o traço o é, indica a igual concretude do movimento de saída do ar, pois se a boca não torna a se fechar, a expiração é iminente pela cessação de qualquer inspiração e, nesse sentido, a morte marca sua chegada como gozo de aniquilamento. O hḠassim, é a possibilidade de que, escrevendo, se morra, e de que se viva para se “ter um pequeno lugar dentro da morte” (LLANSOL, 1994, p. 51), como afirma o texto de Llansol a respeito do desejo das figuras, pois “o fim do texto é imprevisível – estaca subitamente. Fica dito”. (LLANSOL, 2011c, p. 5).
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