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Duas ou três coisas sobre Antonio Candido

Duas ou três coisas sobre Antonio Candido

tomou como dado primario 0 vinculo placentario de nossa literatura com as iteraturas europeias . Tal fato, antes uma decorrencia natural do nosso processo hist6rico do que fruto de uma OP9ao - expresso na celebre frase "a nossa literatura e galho secundario da portuguesa, por sua vez arbusto de segunda ordem no jardim das Musas . . . " (Can­ dido, 1975, v. l . p.9) -, faz que 0 estudo da literatura brasileira nao possa se eximir da analise de seus caracteres pr6prios, ou melhor, da rela9ao que mantem com outras literaturas. Essa constata9ao conduziu Antonio Candido a ponderar acerca da rela9ao inevitavel entre formas importadas e a escolha de temas novos ou a ado9ao de senti­ mentos diferentes, de tal modo que nao teve como deixar de " estudar a forma9ao da literatura brasileira como sintese de tendencias universalist as e particularistas" (p.23). Esse andamento dual se intensifica pela disposi9aO dos brasileiros de inseir 0 projeto de constitui9ao de uma literatura pr6pria no esfor90 de constru9ao do pais. o programa do "nacionalismo artistico " , 0 compromisso de uma literatura empenha­ da, visa a diferencia9ao e particulariza9ao de temas e modos de exprimi-los. Nesse sentido, num livro que se propoe a ser a "hist6ria dos brasileiros em seu desejo de ter uma literatura" , nada mais natural que 0 "jogo destas for9as, universal e nacional, tecnica e emocional, que plasmaram (nossa literatura) como permanente mistura da tradi9ao europeia e das descobertas do Brasil" (Idem, p.28) ocupe 0 lugar central.
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Antonio Candido na Alemanha

Antonio Candido na Alemanha

Antonio Candido de Mello e Souza, nascido em 1918 no Rio de Janeiro, é considerado um dos pensadores mais importantes do Brasil e da América Latina. Depois de ter estudado Filosofia, em 1942 iniciou a sua carreira acadêmica como professor de Sociologia, assumindo mais tarde várias cátedras de Teoria Literária em universidades paulistas. Já cedo se dedicou também à Crítica Literária, pu- blicando resenhas em jornais e revistas. Nessas duas áreas atuou como mestre de várias gerações de intelectuais e professores. Além disso, participa até hoje ativa- mente em movimentos sociais e políticos; nos anos 40 foi membro fundador do Partido Socialista Brasileiro e em 1980 do Partido dos Trabalhadores (PT). Esta variedade de suas atividades, aqui somente esboçada, mostra que Antonio Can- dido representa um tipo de intelectual bastante raro hoje em dia, que com o seu trabalho se coloca amplamente e com responsabilidade a serviço da sociedade. Enquanto crítico e professor, cultiva um respeito fundamental pelo ser huma- no, e consequentemente o objetivo principal de seu textos é apresentar-se com respeito aos seus leitores, seu público, seus alunos, para dialogar com eles com a maior transparência possível em pensamento e linguagem. Esta pregnância e transparência são a sua ferramenta a caminho de democratizar as artes, para de- fender o acesso às manifestações artísticas como direito humano. A obra com- pleta de Antonio Candido adquiriu dimensões impressionantes, compreendendo estudos sobre literatura, cultura, sociedade e as relações existentes entre estes do- mínios. Destacam-se a já clássica análise da literatura brasileira enquanto sistema na Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos (1959), e além disso uma
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Antonio Candido: crítica, reflexão e memória

Antonio Candido: crítica, reflexão e memória

Não posso deixar de lembrar, com saudade e reconhecimento, o meu velho amigo Pio Lourenço Corrêa, falecido em 1958, admirável tipo de fazendeiro paulista, culto e reto, que me acolheu várias vezes na sua chácara dos arredores de Araraquara, e a quem devo muito do que percebo da cultura rústica. A sua conversa era uma lição constante; a sua experiência, imensa; a sua memória, prodigiosa. Erudito e estudioso da língua e das ciências naturais, caçador e investigador dos costumes; conhecedor minucioso da flora, da fauna e da técnica rural, devo-lhe mais do que poderia registrar, porque são coisas que se incorporam ao modo de ver e de sentir. Quando ele desenterrava das recordações de setuagenário o que contara na infância um velho pai setuagenário, parecia-me tocar no vivo o século XVIII de Araritaguaba, onde sua avó falava língua-geral e cuja tradição ele mantinha, na escarpada austeridade do seu caráter. 252 Certamente, esse trecho é mais que suficiente para desvelar, por trás do distanciamento sobre que se constrói a afetividade do ensaio de 2002, a memória. Isso num texto que ao leitor desavisado se apresentava como de interesse puramente literário, fruto da admiração por um escritor e pesquisador provinciano afetivamente próximo a uma admiração literária e humana. No caso do ensaio dedicado a Vinicius, a re-significação ocorre pela intervenção de um trecho memorialístico no corpo do texto; relativamente a Pio Lourenço, a mudança se dá pela intervenção de outro texto.
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As duas culturas: Antonio Candido e a formação da sociologia e da literatura no Brasil

As duas culturas: Antonio Candido e a formação da sociologia e da literatura no Brasil

organização do trabalho sociológico, por meio de: a) ensino, faculdades e colégios; b) pesquisa: individuais de finalidade acadêmica ou outra qualquer, didáticas visando treinamento de alunos (isoladamente ou em grupos), em equipe com finalidade científica (UNESCO e pesquisa sobre o negro no Brasil), em equipe com finalidade prática, levantamento sócio-cultural do vale do São Francisco, níveis de vida por Governo Federal, atividade do Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais, CBPE, melhorias da instrução e ajuste às necessidades do país; c) divulgação (livros, revistas, vida associativa frágil e intercâmbio em base pessoal, criação da SBS – Sociedade Brasileira de Sociologia). Também, (2) novo espírito que preside o trabalho, havendo a superação mentalidade literária e, (3) várias obras são realizadas, tendo como principais tópicos: a) teoria, b) sociedade primitivas, c) grupos afro-americanos, d) sociedade rústicas, e) aculturação de imigrantes, f) fenômenos de urbanização, g) ‘sociologias especiais’.
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Antonio Candido leitor de Oswald de Andrade

Antonio Candido leitor de Oswald de Andrade

mesmas; translação à volta da poesia, pela solda entre fantasia e realidade, graças a uma sintaxe admiravelmente livre e construtiva” (1995, p. 63). Anos depois retoma o escritor em “Digressão sentimental sobre Oswald de Andrade”, por exame minucioso da produção e da vida do artista. O texto estará na 1ª edição de Vários escritos (1970). Outras leituras encorpam o rol de publicações. Três delas incluídas em Recortes, a saber: “Os dois Oswalds”, texto em que reconhece no escritor seu lado “espontâneo e intui- tivo, mentalmente brilhante, mas pouco ordenado. Por isso nunca procu- rou domar racionalmente o jogo das contradições” (1993, p. 35). Segue-se “Oswaldo, Oswáld, Ôswald”, em que pretende restabelecer a origem francesa do nome do escritor (extraído de um personagem do romance Corinne de Madame de Stäel) e ao mesmo tempo recriminar o equívoco abusado da pronúncia americanizada, disseminada por modismo e por desinformação. Para completar esse conjunto de textos breves, fixados em Recortes, temos “O diário de bordo”, uma sensível rememoração, em que evoca a figura de Oswald pelos caminhos de O perfeito cozinheiro das almas deste mundo (1918), inicialmente motivada pela edição fac-similar (1987) do diário coletivo da garçonnière, que Candido filtra em detalhes na sua precisa descrição, registrando “que é verdadeiro prodígio gráfico, reproduzindo exatamente o amarelado do tempo, as manchas, os recortes colados, os rabiscos soltos, a cor das tintas de escrever: roxo, verde, vermelho” (1993, p. 47). Nesse artigo, percorrendo labirintos da memória, também reavivou um encontro entre os dois amigos no bairro onde morava Antonio Candido. Relata, então, que caminhando ao lado de Oswald pela rua, para ajudá-lo a pegar um táxi, foi tomado por um devaneio momentâneo que o transportou para cenários de Os condenados: “Foi apenas um segundo, durante o qual senti sem poder explicar que estávamos ambos no mundo da sua narrativa” (1993, p. 49).
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Roger Bastide, Antonio Candido e a tese interrompida sobre o cururu

Roger Bastide, Antonio Candido e a tese interrompida sobre o cururu

Na primeira edição do livro (1945), Roger Bastide apresenta, no fim de cada capítulo, uma seção intitulada “assuntos para pesquisa”, suprimida na segunda edição (1971). É pos- sível interpretar tais sugestões como tópicos de um programa de pesquisa em sociologia da arte que o sociólogo francês teria liderado entre as décadas de 1940 e 1950 na FFCL-USP. Esse programa supunha a realização de trabalhos sobre cultura erudita – artes plásticas, lite- ratura, arquitetura, música, teatro – e popular – música, literatura e dança. Nas duas frentes, e também em seus estudos sobre religião, o autor defendia o método sociológico como eixo da análise a respeito desses diversos objetos. A ambição mais ampla desse programa seria perscrutar a sociedade brasileira e o processo de “interpenetração de civilizações” no qual ela havia se formado (Peixoto, 2000). A arte e a cultura seriam, portanto, “porta de acesso” privilegiada para entender esse país de raízes coloniais, escravista e “mestiço”.
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Recortando Antonio Candido

Recortando Antonio Candido

Candido não informa sobre a motivação do seu ensaio, mas acredito que o tenham metido numa calça justa: especulo que, pelo fato de Carneiro de Mendonça ser uma família importante e tradicional no cenário político e cultural brasileiro, à qual pertenceu Bárbara Heliodora (não a musa de Alvarenga Peixoto, mas a erudita crítica de teatro, especialista em Shakespeare), algum de seus membros o procurara para dar uma sentença sobre a autoria. Apesar de ter produzido seu veredito crítico- analítico, o autor acaba por escrever também um “Abecedário” sobre o coronel envolvido na discussão autoral, ao traçar, depois de concluir sua análise, um esboço biográfico dele, em prosa. Caso minha especulação tenha pé e cabeça, estamos diante da inteligência de um crítico literário que fez do encomendante não um buscador de lã que saiu tosquiado, mas que saiu com uma manta para pouco frio. Antes de nos determos na questão, citemos a estrofe da letra V, em ambas as versões, que estão, no livro, em duas colunas. Nossa intenção é apenas introduzir o leitor no clima do poema e suas respectivas versões. Versão de Nuno Marques Pereira:
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Antonio Candido ou direito à poesia

Antonio Candido ou direito à poesia

duas vozes que, por força da interpretação sugerida, convertem- se em duas vozes divergentes de um mesmo “eu” cindido na figuração do sonho que confronta a voz do sujeito sonhador com as sombras de um “recalcado” que ele teima em não trazer à luz. Desse modo, a leitura analítica desse poema reitera algo já dito sobre o mesmo poeta, quando da avaliação de sua obra completa, presente no já referido “Ariel e Caliban”. Da análise crítica de um poema chegamos, novamente, a um conjunto de pressupostos que permitem ler a poesia do poeta, de um modo geral, e além disso traçar um panorama de sua situação histórica nos quadros da Literatura Brasileira. A tensão entre particular/ local e universal, novamente, regula a leitura crítica de um único texto, apresentando a poesia de Álvares de Azevedo como parte integrante de um processo emancipatório que assimila as formas de “fora”, a tradição romântica europeia, conferindo a elas uma feição singular, cada vez mais nossa e cada vez mais “de dentro”. As duas vozes se confrontam no interior do sujeito/poeta, a “binomia” anjo-demônio, grotesco e sublime, constituindo duas faces de um mesmo rosto. Um sujeito cindido, tentando conciliar as vozes internas e externas e conceber de si uma unidade homogênea, mesmo que prenhe de dilemas. Um adolescente e suas sombras noturnas: nada mais local do que isso, nada mais universal do que isso, nada mais impossível de demarcar um lugar e uma temporalidade precisos do que isso.
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Sobre o método crítico de Antonio Candido em Formação da Literatura Brasileira

Sobre o método crítico de Antonio Candido em Formação da Literatura Brasileira

Note-se nas últimas linhas a importância estruturadora que o crítico atribui à forma e veremos que ela delimita as aproximações entre a perspectiva crítica desenvolvida por Candido e a desenvolvida pelos Estudos Culturais, quer dizer, as características acima apontadas aproximam uma tendência crítica da outra, mas a ênfase metodológica as difere e as especifica. Nos escritos de Antonio Candido não aparece o cotejamento texto-contexto, tão comumente encontrado em estudos com a mesma ambição de relacionar arte e sociedade, mas o enfoque efetivo dos elementos que, não sendo estéticos a princípio, tornam-se linguagem, isto é, são estruturados de tal modo que seus componentes internos tornam-se meios expressivos de manifestação coerente cujo efeito se conforma no belo literário. Trata-se aqui de uma questão formal, sendo que a forma possui nesse esquema duas atribuições: ela determina a organização interna de uma obra e ela especifica as linhas de configuração artística da realidade histórico-social. A esse respeito, o próprio crítico chama atenção para o fato de que “a forma, através da qual se manifesta o conteúdo, perfazendo com ele a expressão, é uma tentativa mais ou menos feliz e duradoura de equilíbrio entre os contrastes”, isto é, capaz de captar e tornar estético, “um movimento amplo e constante entre o geral e o particular.” 28 O andamento da análise se desenvolve assim porque
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O momentâneo na ‘Formação’

O momentâneo na ‘Formação’

No entanto, a articulação do enquadramento proposto por Antonio Candido ainda deve ser interrogada a partir de sua relação com o exemplo de Romero, que tocou antes no mesmo “momento decisivo”. No crítico anterior, a expressão ainda está impregnada do determinismo de Hyppolyte Taine, com o qual ele se debatia. Raça, meio e momento, eis a tríade das “forças primordiais” postuladas pelo mestre francês, as “três fontes” que “contribuem para produzir esse estado moral elementar” que constitui as nações e determina as produções do espírito. 28 A parte específica do momento era ela mesma determinada pelas duas outras forças – a de dentro (racial) e a de fora (do meio). Estas “não operam sobre uma tabula rasa, mas numa superfície já marcada pelas pegadas”. 29 O momento é a “velocidade adquirida”, 30 o ritmo das pegadas no chão histórico. Que será então o “momento decisivo”? Uma quebra do andamento? Parada ou disparada? Em Romero como em Antonio Candido, talvez seja uma convergência dos passos que se voltam para a mesma direção. Mas, se na Formação esses passos são retratados em busca de um projeto coletivo, na História eles parecem arrastados pela coletividade latente desde muito antes.
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Antonio Candido e José Mindlin

Antonio Candido e José Mindlin

AC: Eu pensava, não é possível, Oswald de Andrade é um escritor que está sendo menosprezado. Creio que fui a primeira pessoa da minha geração que es- creveu algo longo sobre ele, três rodapés seguidos, fazendo uma série de restri- ções. Ele ficou louco da vida, desceu o pau em mim. O artigo dele está no Ponta de lança. De Mário de Andrade fiz uma interpretação, quando saíram pela primei- ra vez as Poesias completas: escrevi sobre a teoria estética dele dois longos roda- pés; escrevi sobre Drummond, sobre Manuel Bandeira, sobre Murilo Mendes e os jovens que iam aparecendo. Sobre João Cabral de Melo Neto escrevi o primeiro artigo aqui no Sul, onde ninguém sabia quem era. A única informação sobre ele que eu tinha era de um amigo comum que dizia: “Tem um amigo meu no Recife que veio para o Rio agora, não sei se presta, disse a ele que você é crítico e sugeri que me passasse um exemplar do livro que publicou para te dar. Eu sei que ele tem uma dor de cabeça desgraçada.” Eu só sabia isso do João Cabral. Pude escre- ver sobre Clarice Lispector, sobre João Cabral, sobre Guimarães Rosa, as grandes novidades do meu tempo. Tive uma sorte extraordinária. Como crítico valorizei demais o Modernismo e cheguei a adotar maneiras de escrever de Mário de An- drade, até que Lourival Gomes Machado me deu uma gozada, mostrando que eu continuava a escrever de maneira tradicional, apenas semeando de vez em quan- do uns “Me parece” ou “Lhe dizendo” iniciais.
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Questões de romance: notas sobre Antonio Candido e a crítica brasileira

Questões de romance: notas sobre Antonio Candido e a crítica brasileira

O estudo sobre Eça de Queirós, com esse mesmo título, havia sido publicado em livro coletivo organizado por Lúcia Miguel Pereira e Câmara Reys em 1945 e seria depois republicado em Tese e Antítese, de 1964 (CANDIDO, 1971). Ali Candido discute a mudança de perspectiva ao longo da produção de Eça, do olhar citadino aderente ao progresso, que critica o imobilismo da província, à denúncia da superficialidade da civilização burguesa, por meio da valorização da vida rural tradicional. Já os romances de Ignazio Silone haviam sido objeto de comentário extenso de Candido em uma série de três artigos mais um apêndice, publicada em 1946 no Diário de S. Paulo e nunca recolhida em livro. Comentando a questão do romance político, Candido argumenta que Silone, “enquanto artista e revolucionário”, procura “chegar ao conhecimento das molas que impelem a política”, ultrapassando a forma partidária “para ficar com o que existe de mais geral no impulso revolucionário”, que para o crítico seria “coextensivo com o humano” (CANDIDO, 1946b). Por fim, o ensaio previsto sobre Graciliano Ramos faz pensar no conjunto de cinco artigos publicados no Diário de S. Paulo em 1945 e que o crítico refundiria em Ficção e confissão, publicado como opúsculo em 1956 (CANDIDO, 1992b).
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Antonio Candido e a fortuna crítica de Guimarães Rosa: a recepção de grande sertão: veredas

Antonio Candido e a fortuna crítica de Guimarães Rosa: a recepção de grande sertão: veredas

O capítulo intitulado ―Antonio Candido: a dialética entre o local e o universal‖ apresenta três partes. Além da particularidade do julgamento crítico que se projeta em seus escritos sobre a literatura de Guimarães Rosa, Antonio Candido é instaurador de uma tradição metodológica de estudos acadêmicos voltados, sobretudo, para as relações entre literatura e sociedade e dos estudos comparativos, linhagens metodológicas fundamentais nos ensaios tomados como matéria desta pesquisa. Assim, com a finalidade de acompanhar a evolução e o significado da trajetória de Antonio Candido, a primeira parte do capítulo a ele consagrado reconstruiu alguns dos conceitos mais salientes de seu projeto que contribuem para a compreensão do percurso da crítica literária no Brasil a partir de meados do século passado, quando se contextualiza a recepção crítica inaugural da obra de Guimarães Rosa e contempla o processo de transição da prática jornalística da crítica literária para crítica institucionalizada. A segunda parte tratou das leituras seminais de Antonio Candido: as resenhas jornalísticas veiculadas por ocasião do lançamento de Sagarana, em 1946, e de Grande sertão: veredas, em 1956. A terceira parte enfocou o ensaísmo prop riamente dito: ―O homem dos avessos‖, ―Jagunços mineiros de Cláudio a Guimarães Rosa‖ e os dois escritos mais abrangentes publicados nos anos 1970, ―Literatura e subdesenvolvimento‖ e ―A nova narrativa‖.
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Antonio Candido e a Faculdade de Direito

Antonio Candido e a Faculdade de Direito

A primeira foi na votação do Conselho Universitário, na sua sessão 210, de 9/8/1945 que, funcionando como Congregação da Faculdade de Filoso- fia, Ciências e Letras, desempatou, em favor de Mário de Souza Lima (que era o regente interino) e em detrimento de Antonio Candido, o concurso para o provimento da Cadeira de Literatura Brasileira para o qual se inscreveram seis candidatos. Num ensaio de Recortes, Antonio Candido relata as peripécias des- te concurso, que disputou aos 26 anos, e que acabou por dar-lhe, com a tese sobre o método crítico de Sílvio Romero, o título de livre-docente da literatura brasileira que foi, mais adiante, o passaporte de titulação da sua passagem do ensino da Sociologia para o de Letras. Obteve cinco indicações da Banca, mas dois também indicaram Souza Lima e um Oswald de Andrade. Subsequente- mente, os três examinadores que haviam votado nele e também nos dois acima mencionados, desempataram em seu detrimento, ficando, assim, Souza Lima com duas indicações, Oswald com uma e ele com duas. No Conselho Universi- tário Antonio Candido teve cinco votos minoritários respaldando a sua indica- ção. Um deles foi o de Ernesto de Moraes Leme – que tinha sido seu professor de Direito Comercial, que o apreciava como crítico e com o qual manteve, no correr dos tempos, um bom relacionamento.
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Antonio Candido

Antonio Candido

Nos últimos anos da década de 50, quando já ministrava aulas de Sociologia na mesma USP em que se formara, resolveu migrar para a área da Literatura. A transição não se deu sem percalços, mas o que importa é que o saldo resultou amplamente positivo: a área letrada ganhava um professor e orientador habilita- do, que faria uma carreira notável. E publicaria vários livros que de imediato se inscrevem no restrito grupo das obras decisivas para entender o país, em sua li- teratura e em sua sociedade. Devem constar dessa lista pelo menos Brigada ligeira (1945), Ficção e confissão: estudo sobre a obra de Graciliano Ramos (1956), Tese e antítese (1964), Literatura e sociedade (1965), Vários escritos (1970), Teresina etc. (1980), A educação pela noite e outros ensaios (1987) e O discurso e a cidade (1993), entre outros. (Para qualquer orientação, deve-se recorrer à Bibliografia de Antonio Candido (São Paulo: Duas Cidades/Editora 34; 2002), excelente trabalho organi- zado e anotado por Vinicius Dantas.)
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Representações da violência de gênero em "As meninas" de Lygia Fagundes Telles  Elisa Girotti Celmer

Representações da violência de gênero em "As meninas" de Lygia Fagundes Telles Elisa Girotti Celmer

O presente trabalho visa a analisar, sob a perspectiva da sociologia do romance, a obra As meninas de Lygia Fagundes Telles. O romance conta histórias da vida de três jovens mulheres, o tempo cronológico do livro é de apenas um dia durante a conturbada época da ditadura militar brasileira, mas, em tal período, as personagens, por meio do fluxo de consciência, discorrem sobre as suas principais experiências. É no tempo subjetivo que são revelados abuso sexual, discriminação, tortura, abuso de drogas, repressão sexual, suicídio e etc. Conforme Bosi, trata-se de um romance no qual a tensão é interiorizada, as heroínas não enfrentam o mundo pela ação, elas subjetivam o conflito. Assim, pretende-se refletir sobre as representações da violência de gênero na referida obra para realizar uma análise que, segundo Antonio Candido, leve em conta o elemento social como fator da própria construção artística, sem reduzi-lo ao nível meramente ilustrativo.
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A tradição esquecida: estudo sobre a sociologia de Antonio Candido.

A tradição esquecida: estudo sobre a sociologia de Antonio Candido.

Esta “coincidência” sugere uma questão pouco ex- plorada: a relação da sociologia com a crítica lite- rária na obra de Antonio Candido. Aparentemen- te, a produção especificamente sociológica, cujo núcleo é Os parceiros do Rio Bonito, não tem liga- ção estreita com a crítica. Nossa primeira hipóte- se afirma o contrário: apesar da evidente distân- cia temática, as duas obras respondem de forma diferenciada à mesma preocupação, apontando para uma unidade interna à diversidade de sua produção que a vinculam a problemas típicos de uma tradição específica do pensamento brasileiro. A primeira hipótese relaciona-se à segunda: Os parceiros do Rio Bonito não é apenas uma mo- nografia antropológica (ou um estudo de comuni- dade), mas uma interpretação abrangente de nossa formação social. A afirmação deve ser mati- zada, pois o livro descreve a vida de um grupo de parceiros na fazenda Bela Aliança, situada no pe- queno município de Bofete, no interior de São Paulo. É a partir do parceiro de Bofete, entretan- to, que Antonio Candido recupera a formação his- tórica da cultura caipira no Estado de São Paulo, e com ela a tradição esquecida da formação so- cial brasileira.
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Por um esboço de uma poética de Antonio Candido

Por um esboço de uma poética de Antonio Candido

A refl exão a respeito da Literatura implica em um problema de limites e defi nições. Afi nal, para aquele que sobre ela se debruça, a questão da determinação do objeto é uma das mais relevantes, seja para que se estabeleçam recortes e enfoques, seja para que o próprio ato crítico possa confi gurar-se em termos de procedimento e identidade. Frente à considerável difi culdade de defi nição que encontramos neste caso específi co, percebemos que o estabelecimento de uma visão precisa do que possa ser a Crítica Literária – ou, mais especifi camente, “da Literatura” – apresenta- se como atividade tão desafi adora quanto aquela relacionada ao objeto desta Crítica. Assim, tendo sempre em mente o grau de complexidade da tarefa, é possível pensar um exercício refl exivo sobre os limites entre a Literatura e sua Crítica que seja também útil para o pensamento sobre as próprias defi nições das duas ideias.
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Antonio Candido: três textos decisivos

Antonio Candido: três textos decisivos

os outros: direito a casa, comida, instrução e saúde, bens incompressíveis, isto é, os que não podem ser negados a ninguém. “[O] esforço para incluir o semelhante, no mesmo elenco de bens que reivindicamos está na base da reflexão sobre os direitos humanos” (CANDIDO, 2004, p. 172). Continua, agora centralizando a reflexão na literatura, dizendo que o ser humano pode ser definido pela sua capacidade de fabular. A ficção e a poesia, por isso, correspondem a uma necessidade universal e são fatores indispensáveis de humanização, que nos tornam mais compreensivos para a natureza, a sociedade, o semelhante. Acrescenta que a literatura é também fator de desmascaramento da restrição e da exclusão, situações tão presentes em sociedades como a brasileira, em que os direitos humanos são sistematicamente desrespeitados. “Portanto, a luta pelos direitos humanos abrange a luta por um estado de coisas em que todos possam ter acesso aos diferentes níveis da cultura” (CANDIDO, 2004, p. 191).
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Entrevista com Antonio Candido.

Entrevista com Antonio Candido.

Além de Sociologia tínhamos três anos de Economia Política, sendo o terceiro ano dedicado à História das Doutrinas Econômicas. O professor era Paul Hugon, meticuloso e didático, sempre um pouco distante, do tipo que dá aula e vai em- bora sem tomar conhecimento dos alunos. O olhar dele pairava sobre o auditório sem fixar nin- guém. Era muito conservador e não poupava críticas a Marx, sobre quem emitiu certa vez um juízo impressionante: “Eu e os meu colegas das universidades alemãs escarafunchamos O capital durante quatro anos e chegamos à conclusão que esse senhor não tem originalidade, nem profundi- dade, nem força de pensamento”. Segundo ele, os livros fundamentais, de leitura obrigatória, eram: A riqueza das nações, de Adam Smith, Tratado de economia política, de Alfred Marshall e A econo- mia pura, de León Walras. Mas concordou que eu lesse para o trabalho de aproveitamento a primei- ra parte de O capital. Isso se passava em 1941. Hugon nunca perdeu contato com o Brasil, e mes- mo depois de voltar à França continuou vindo aqui com freqüência. Acabamos nos dando muito bem e cheguei a ver a mudança que o tempo efe- tuou nele. Em 1969 eu o reencontrei lá nos barra- cões da Faculdade de Filosofia na Cidade Univer- sitária e ele comentou com simpatia o movimento estudantil francês do ano anterior, lamentou a nossa situação, com os militares perseguindo os estudantes e conclui para a minha surpresa: “Se eu fosse moço hoje, seria comunista com certeza”.
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