Top PDF O nu de Clarice Lispector.

O nu de Clarice Lispector.

O nu de Clarice Lispector.

Há um recorrente motivo messiânico na obra de Clarice, que frequentemente empresta termos da cristologia, sobretudo a partir de sua obra de transição, A maçã no escuro, redigida em Washing- ton, entre 1950 e 1956, publicada apenas em 1961, e que contém em germe toda a sua produção posterior. Judia brasileira não pra- ticante, de uma família de imigrantes que falava iídiche em casa, não especialmente religiosa, interessada em religiosidades hetero- doxas, como a umbanda, frequentadora de sortistas, a mística de Clarice tem algo de bastante brasileiro. Sem pretender esgotar aqui o tema, e sobretudo aberto à sua imensa complexidade, valeria uma olhada sistemática no motivo bíblico em sua obra, onde são ma- ciças as referências tanto ao Velho quanto ao Novo Testamento. É sem dúvida a presença dessas referências que justifica por associa- ção a prevalência do motivo epifânico na crítica, mas não necessa- riamente a sua propriedade ou acerto. Para tirar a teima, leiamos uma de suas mais conhecidas “epifanias”, com óbvias ressonâncias teológicas, “O estado de graça”, publicado como trecho numa crô- nica do Jornal do Brasil, de 6 de abril de 1968, e em Uma aprendi- zagem, ou o livro dos prazeres (1969):
Mostrar mais

29 Ler mais

CLARICE LISPECTOR: LITERATURA, PENSAMENTO, ANIMALIDADE

CLARICE LISPECTOR: LITERATURA, PENSAMENTO, ANIMALIDADE

Para Derrida (2002), um dos modos de nos relacionarmos com esse Outro é estarmos nus diante de seu olhar. Se, conforme o filósofo, o testemunho tem dimensão autobiográfica na medida em que prova a existência do Eu vidente, o animal é instrumentalizado como aquilo que é visto, porém não vê, pois figura tão-somente como instância especular que o humano fita e então ratifica sua identidade: “Vejo, logo existo”. Essa primazia da observação, hipertrofiada nos laboratórios de ciências naturais, proscreve o fato irremediável de que também somos observados pelo animal. Estar nu em face desse ente é a metáfora para nossa fragilidade, nossa exposição diante desse Outro. Essa espécie de cena autobiográfica, a partir da qual o filósofo escreve, aparece de outros modos e atravessa toda a obra de Clarice Lispector. São muitos trechos de romances, crônicas e contos em que o olhar humano se cruza com o olhar animal, tensionando esse jogo entre sujeito e objeto de forma a termos um novo olhar, que já não é humano nem animal, mas – melhor diríamos – humanimal. Veja-se, a propósito, uma passagem de A paixão segundo G.H. bastante sintomática, na qual a barata olha a mulher: “Ali estava boquiaberta e ofendida e recuada – diante do ser empoeirado que me olhava. Toma o que vi: pois o que eu via com constrangimento tão penoso e tão espantado e tão inocente, o que eu via era a vida me olhando” (LISPECTOR, 2009, p. 56).
Mostrar mais

12 Ler mais

Clarice Lispector: escrever para livrar-se de si

Clarice Lispector: escrever para livrar-se de si

No princípio era o sonho. Um sonho nítido de alguém que brinca com o seu reflexo e que, surpreendentemente, não o encontra em um espelho, mas projetado na forma de um outro: “Sonhei que brincava com o meu reflexo. Mas meu reflexo não estava num espelho, mas refletia uma outra pessoa que não eu.” (SV, p. 27). Dessa inexplicável experiência nasce Ângela, personagem desafiadora. Enquanto reflexo, Ângela começa o romance com uma tarja sobre o rosto. Face velada que, por um lado, aponta para algo obscuro e virgem e, por outro, para um movimento vibratório marcado por um caminho ascensional do encobrimento ao des-velamento. Já nas primeiras linhas do texto lemos: “À medida que ela for falando vai tirando a tarja – até o rosto nu.” (SV, p. 27).
Mostrar mais

16 Ler mais

Clarice Lispector e seus tradutores: da fúria à melodia

Clarice Lispector e seus tradutores: da fúria à melodia

Essas notórias credenciais do tradutor podem de certa forma influenciar positivamente o juízo crítico de Clarice que, ao ler seu texto traduzido, The apple in the dark (LISPECTOR, 1967), publicado pela editora Knopf de Nova Iorque, afirma: “o livro saiu fisicamente lindo, bom até de se tocar com as mãos” (LISPECTOR, 2005, p. 117). Esse contexto editorial era amplamente favorável para desarmar a desconfiança de Clarice para com seus tradutores e para permitir-lhe desfrutar da leitura em inglês, língua que dominava. O esforço pessoal para reler sua própria obra, entretanto, não foi suficiente para vencer sua terrível angústia de se ver no belo espelho apresentado por Rabassa: “Chamei- me então severamente à ordem, e comecei a cumprir meu dever de ler a mim mesma. A tradução me parece muito boa. Mas parei, pois o que venceu mesmo foi a náusea de me reler” (LISPECTOR, 2005, p. 117, grifos meus).
Mostrar mais

26 Ler mais

As implicações do corpo na narrativa de Clarice Lispector

As implicações do corpo na narrativa de Clarice Lispector

Nesse conto, fica evidenciada a dupla marginalidade da protagonista, por ser mulher e também idosa. A independência financeira não traz a ela, nem a um grande número das mulheres, a tão desejada independência emocional. Para Bourdieu, devido ao espaço privilegiado, as mulheres da classe burguesa atingem a forma mais extrema de alienação simbólica. A situação de dependência masculina no conto assume a forma mais suprema de dominação simbólica por ser a mais sutil e a mais invisível, que é a relacionada ao amor: “Maria Angélica ficou ali de pé. Doía-lhe o corpo todo. [...] Parecia uma ferida de guerra. Mas não havia Cruz Vermelha que a socorresse” (LISPECTOR, 1998, p. 78-79). Mesmo sendo uma mulher de classe média alta, com certo grau de instrução, Maria Angélica é vítima do preconceito tanto do amante quanto das amigas por buscar a satisfação sexual na terceira idade, o que, para um homem em condição semelhante, não seria nenhum estigma.
Mostrar mais

17 Ler mais

“Uma Galinha”: um conto modelar de Clarice Lispector

“Uma Galinha”: um conto modelar de Clarice Lispector

Todo esse itinerário é primorosamente equacionado no conto de Clarice Lispector. Primei- ramente são levados em conta os principais pontos da ação em função da síntese cognitiva do caso e tema impostos na narrativa. Em claros episódios, em função das fases do desenvol- vimento da ação, pode-se deparar com momentos de alto valor semionarrativo: a galinha vista como alimento, pronta para o abate; a micronarrativa seqüencial finita configurada na fuga, perseguição e captura; o ponto nuclear, episodicamente tenso quanto ao pathos, quando a galinha põe o ovo e choca-o; a compaixão dos membros da família; a provisória salvação da galinha; a vivência da galinha como membro da família; o passar do tempo e o conse- qüente desenlace semantizado na conversão ao estado inicial cíclico, fixado pela abate.
Mostrar mais

6 Ler mais

Cartas em foco: Clarice Lispector e o teatro

Cartas em foco: Clarice Lispector e o teatro

Apesar da distância temporal, A paixão segundo G.H. é o romance escrito após a crítica da peça J.B. Apoiando-nos nas teorias bakhtinianas, podemos identificar e analisar alguns pontos de contato entre o texto dramático e o romance clariciano que demonstram que “todo texto se constrói como mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de um outro texto”, 50 com a intenção de focar algumas possíveis relações que podem ser estabelecidas entre o texto dramático assistido e o romance escrito por Clarice. Coincidência ou não, tal como J.B., a protagonista do romance é chamada “ao jeito moderno, pelas iniciais” e tem, materialmente falando, tudo o que um homem deseja ter. O romance, o primeiro narrado em primeira pessoa, não relata apenas o comportamento de uma mulher burguesa, G.H., que reside em um apartamento e se depara, no quarto vazio da empregada que a deixou, com uma barata, mas vai além, revelando os autoquestionamentos de alguém que está sofrendo uma transformação de seus conceitos à luz de uma experiência transcendental. O texto dramático foi construído dentro “da majestade bíblica”, o título do romance nos remete, na história dos cristãos, ao sofrimento de Jesus Cristo. O termo “paixão”, em grego pathein, significa “ter padecido”, pois se refere ao sofrimento e à morte de Cristo, mas aparece também na bíblia como desejo ou concupiscência. 51 A trajetória de J.B. da luxúria à pobreza pode ser comparada à de G.H., que se desloca dentro de seu apartamento luxuoso para dirigir-se à simplicidade do quarto da empregada Janair e ali se deparar com a barata. Em um deslocamento de perdas, resta para G.H. um quarto que recebe mais a luz solar e uma barata. No quarto humilde da empregada, G.H. sente-se aliviada, “de repente aquele mundo inteiro que eu era crispava-se de cansaço, eu não suportava mais carregar os ombros” e, ao se deparar com a barata, G.H., mergulhada em um mundo de indagações subjetivas, expressa o medo de ver a verdade,
Mostrar mais

28 Ler mais

O duplo percurso da narrativa de Clarice Lispector

O duplo percurso da narrativa de Clarice Lispector

E aqui podemos retornar ao início de sua viagem interior: “ ‘Eu te odeio’, disse ela para um homem cujo único crime era o de não amá-la. ‘Eu te odeio’, disse muito apressada. Como cavar na terra até encontrar a água negra, como abrir passagem na terra dura e chegar jamais a si mesma?” (LISPECTOR, 1982, p.151). Daí a busca do ódio que, na verdade, não conseguia sentir. De fato, seus sentimentos oscilam do amor, que rejeita, à culpa (ou perda da inocência) de que não consegue se livrar: “Pálida, jogada fora de uma igreja, olhou a terra imóvel de onde partira e onde de novo fora entregue. Ajeitou as saias com recato.” (LISPECTOR, 1982, p. 153). A metáfora persiste, o vôo na montanha-russa reproduzindo o “vôo” da libertação possível, “aquela sensação de morte às gargalhadas”:
Mostrar mais

7 Ler mais

Clarice Lispector: criador e criaturas : uma leitura de A hora da estrela

Clarice Lispector: criador e criaturas : uma leitura de A hora da estrela

do enunciado e da enunciação, induzindo leituras biográficas da obra. Isto porque, além de identificar-se com Clarice Lispector, a voz discursiva, após apresentar-se também como Rodrigo S. M., conta detalhes de sua vida (criado no nordeste, escritor, classe média, freqüentava feiras típicas do Nordeste, possui empregada e gosta de cachorro) que podem ser reconhecidos em uma biografia da autora. Todavia, observar esse processo como um reflexo da realidade, um auto-biografismo, como já ressaltamos, é um erro, principalmente em H.E., pois o jogo ficcional que se instaura nessa obra não permite que tomemos por base o que é afirmado de maneira tão direta. Vimos que, se não tomarmos cuidado, no decorrer da narrativa somos constantemente conduzidos por índices que despistam o leitor do que realmente acontece no texto. Como exemplo, destacamos as falas de Rodrigo, nas quais o mesmo, primeiro afirma que ama sua personagem para, logo depois, dizer que não terá piedade dela. O mesmo ocorre quando diz, após Macabéa ser atropelada, que ela não morrerá, para desdizer-se depois, narrando a morte de sua personagem. Como acreditar nas evidências fornecidas por uma entidade discursiva que não merece confiança?
Mostrar mais

129 Ler mais

A linguagem de Clarice Lispector como desautomatização da vida

A linguagem de Clarice Lispector como desautomatização da vida

Quando os indivíduos deixam de ser um clichê social e tornam-se uma unidade diferenciada, com inquieta- ções individuais, que é o que ocorre com as personagens clariceanas, e “tentam sair do inautêntico para iniciar a bus- ca de si mesmos” (Op. cit., p. 131) nesse momento, a língua torna-se uma barreira oposta à comunicação, pois, segundo Benedito Nunes, a língua que falamos é uma herança cultu- ral, socialmente transmitida, portanto nos torna seres inautênticos, despersonalizados. Dessa forma, ele conside- ra que o silêncio surge como uma forma de linguagem no texto de Clarice Lispector, já que os clichês lingüísticos são incapazes de expressar as inquietações que são individuais,
Mostrar mais

4 Ler mais

A contribuição do jornalismo para as crônicas de Clarice Lispector

A contribuição do jornalismo para as crônicas de Clarice Lispector

Retornando à experiência de Clarice no JB e à possível classificação dos textos produzidos neste período, surge a indagação: por que uma escritora como Clarice, considerada por muitos de difícil leitura, hermética, enveredou por textos “quase crônicas”, uma forma mais despretensiosa de atingir o leitor? Talvez, porque o espaço reservado à crônica, com sua informalidade, impregnasse de possível leveza a linguagem densa da autora, que perscrutava o mistério das coisas mais simples. Compartilhando as idéias de Sylvia Paixão, em “Um sopro de vida na hora da estrela: uma leitura das crônicas de Clarice Lispector”, artigo publicado na Revista Tempo Brasileiro, o mistério da escrita que envolve o leitor nos contos e nos romances vai sendo revelado nos textos publicados na imprensa:
Mostrar mais

10 Ler mais

Clarice Lispector: biografemas, o estranho e a letra

Clarice Lispector: biografemas, o estranho e a letra

Tal movimento não é estranho ao movimento da escrita de Clarice. É possível observá-lo em Um sopro de vida . Vejamos: “Eu quero a verdade que só me é dada através do seu oposto, de sua inverdade” (USV, p. 18). E, nas páginas de abertura de Um sopro de vida, lemos: “Já li este livro até o fim e acrescento alguma notícia neste começo. Quer dizer que o fim, que não deve ser lido antes, se emenda num círculo ao começo, cobra que engole o próprio rabo” (USV, p. 21). Nessa citação, o círculo aparece como figura geométrica privilegiada para a composição de seu livro, mas, num movimento de procura e criação, esse círculo acaba sofrendo uma semitorção, sempre em direção a seu oposto, configurando, portanto, não o círculo, mas a banda de Möebius. Nessa banda, passa-se do interior ao exterior, de um oposto ao outro, do dentro ao fora, sem descontinuidade. No entanto, advertimos com Sérgio Antônio Silva, há nesse trajeto “uma verdade em jogo, ainda que dissimulada, desviada – a verdade do sujeito do inconsciente” 176
Mostrar mais

133 Ler mais

O citar no Twitter: o caso de Clarice Lispector

O citar no Twitter: o caso de Clarice Lispector

Vale destacarmos alguns aspectos sobre Clarice Lispector. De origem ucraniana, chega ao Brasil ainda bebê, trazida pela família que, durante a Guerra Civil Russa, de 1918-1921, fugia da perseguição aos judeus. Chegando ao Brasil em 1922, viveu o Estado Novo de Getúlio Vargas, viu a morte de seus pais - a da mãe quando ainda era criança -, casou-se com um diplomata o que permitiu que conhecesse diferentes países, viu e viveu a Segunda Guerra Mundial, dentre outras experiências intrincadas. Clarice Lispector vive durante um período histórico conturbado nas instâncias mundial e nacional, sendo sua história pessoal já desde o nascimento marcada por momentos históricos complexos. Conviveu com as inquietações do século XX, tão mergulhado em diferentes e amplas teorizações filosóficas, sociais, artísticas, literárias, científicas. No país, destacou-se como jornalista e escritora, contribuindo com uma produção literária muito rica e importante à cena das letras em meados do século XX. É conhecida por alguns traços comuns existentes em suas obras, como suas personagens femininas, as epifanias e as reflexões metafísicas.
Mostrar mais

41 Ler mais

Clarice Lispector: um diálogo entre filosofia e literatura

Clarice Lispector: um diálogo entre filosofia e literatura

Ihem-s este tema como objeto de nosso artigo. A produção ficcional clariceana alinha-se ao la­ do de outras, com a de Guimarães Rosa, apenas para citar um exemplo, que como ela apre­ senta em suas obras elementos que permitem tal aproximação. Tanto um como outro revelam um nexo entre criação literária e reflexão filosófica, mostrando assim que pode haver compati­ bilidade - bastante equilibrada no caso de Clarice - entre estas duas direções do esprrito. Mas, diferentemente de Guimarães Rosa cuja obra evoca conteúdo de ordem mais mrtica (6) a fic­ ção de Clarice revela uma temática marcadamente existencial. Nela, o entrelaçamento entre as franjas da criação artrstica e a especulação filosófica se tece, produzindo certos "motivos espedficos" que guardam grande afinidade com alguns temas (a náusea e a angústia; o nada, o fracasso etc.) desenvolvidos pelas filosofias da existência, especialmente a de tipo sartreano
Mostrar mais

8 Ler mais

A criança e a mulher velha em Clarice Lispector

A criança e a mulher velha em Clarice Lispector

No artigo “A escrita de Clarice Lispector gagueja o indizível”, inserido na revista Cerrados (2007, p. 127-8), Maria Helena Falcão Vasconcellos observa que os corpos do mundo estão sempre em situação paradoxal. Se, por um lado, envelopam signiicados já estabelecidos, por ou- tro lado são agitados por forças que os transbordam em sentidos inesperados. O movimento da palavra aprisiona e, ao mesmo tempo, extravasa esses sentidos. É bom dar- -nos conta de que cada encontro é um nó problemático de linhas de força e constitui a condição concreta de produção de linguagem. Signiicados consensuais, estabelecidos, são linhas duras na composição de um encontro. Esgarçando, porém, essas linhas duras e penetrando as entrelinhas, po- demos captar traços luidos de multiplicidades. Elas são vi- brações ainda informes que o escritor fareja e num trabalho árduo de dar forma, as introduz em palavras movediças e nas entrelinhas de um texto.
Mostrar mais

5 Ler mais

Clarice Lispector e a latente escritura do desastre

Clarice Lispector e a latente escritura do desastre

Qual luta é a certa: amar e perdoar, como antes escreveu Clarice na carta de 12 de maio de 1946, ou talvez, pelo contrário, vingar-se? A luta mais sensata durante o afogamento é nadar com a onda, deixando se levar por ela, no entanto, quem se afoga não consegue pensar racionalmente; quem morre das mãos do outro quer a vingança. O criminoso não é, assim, apenas o leitor que termina o livro decretando a morte do narrador. O outro criminoso é aquele que matou Macabéa: um alemão loiro de olhos azuis ou verdes, que a pobre moça nordestina amou desde o momento em que tinha ouvido a sentença que lhe foi decretada. Macabéa não lutou pois tinha sido enganada com um final feliz. Assim como os prisioneiros dos campos nazistas foram reduzidos aos objetos numerados e suas necessidades reduzidas ao básico fisiológico, a Macabéa se lhe retira a humanidade, tornando-a numa “coisa” que incorpora a condição do irrepresentável. Para Gotlib:
Mostrar mais

20 Ler mais

A angústia na literatura: a experiência de Clarice Lispector

A angústia na literatura: a experiência de Clarice Lispector

As proposições de Lacan sobre a prática analítica, nesse pequeno discurso aos psiquiatras, poderiam ser transpostas para a prática literária, ou melhor, para um determinado tipo de literatura: seria esta apenas uma questão de comunicação de sentido, “no sentido em que as coisas fazem sentido”, ou marcaria, diferentemente, pontos de fuga do sentido? A loucura de Macabéa nos angustia, nos soa incompreensível, lança-nos no fora de sentido, e dela o narrador ainda nos traz um ponto a mais, precioso, aliás, um ponto que, se confrontado com o ensino não apenas de Lacan, mas também de Jacques-Alain Miller, ajuda-nos a circunscrever melhor A hora da estrela no movimento do estilo de Clarice Lispector em direção ao Real. Ora, se Macabéa é caracterizada comumente como resto, dejeto, feto jogado na lata de lixo, cabelo na sopa etc., em determinado trecho do relato afirma-se ainda sobre ela: “Pois a vida é assim: aperta- se o botão e a vida acende. Só que ela [Macabéa] não sabia qual era o botão de acender. Nem se dava conta de que vivia numa sociedade técnica onde ela era um parafuso dispensável”. 65 Um parafuso, insisto, que
Mostrar mais

24 Ler mais

UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA INSTITUTO DE LETRAS E LINGUÍSTICA PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS MESTRADO EM ESTUDOS LITERÁRIOS NAYARA MARYLANDY SARAIVA NOVAES

UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA INSTITUTO DE LETRAS E LINGUÍSTICA PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS MESTRADO EM ESTUDOS LITERÁRIOS NAYARA MARYLANDY SARAIVA NOVAES

A imagem da personagem do conto clariceano, dessa forma, ao abrir “o mar pelo meio” (LISPECTOR, 1998a, p. 92), pode ser aproximada às cenas bíblicas e/ou às históricas do povo judeu em erradicação e, biograficamente, à contínua peregrinação da escritora, peregrinação essa abordada na obra de Gotlib (s.d., p. 179) - “Biografar Clarice... é acompanhá-la no seu movimento de constante deslocar- se, desde a aldeia quase perdida no mapa, onde nasceu, na Ucrânia, até o Brasil, em viagem dramática, empreendida pela família judia movida pelo desejo de melhores condições de vida.” - e a própria escritora, em carta às suas irmãs, enviada da cidade de Berna, em 1946 - “É engraçado que pensando bem não há um verdadeiro lugar para se viver. Tudo é terra dos outros onde os outros estão contentes.” (LISPECTOR, 2002, p. 80)14
Mostrar mais

149 Ler mais

Por linhas tortas: o judaísmo em Clarice Lispector

Por linhas tortas: o judaísmo em Clarice Lispector

Enquanto  estudante  da  Faculdade  de  Direito,  por  volta  de  1940,  Lispector  trabalhou  como  redatora  na   Agência  Nacional,  iniciando  uma  atividade  jornalística  que  durará  por  toda  sua  vida.  É  importante   lembrar  que  ela  se  fixa  nesse  emprego  durante  o  Estado  Novo,  tendo  esse  órgão  oficial  de  informação   sido  criado  por  Getíulio  Vargas,  em  1934,  subordinado  ao  Ministério  da  Justiça  e  Negócios  Interiores.   Nesse  período  o  nazi-­‐‑fascismo  recrudescia  na  Europa,  Hitler  já  estava  no  poder,  as  leis  raciais  vigiam,   e  os  campos  de  concentração  logo  seriam  ativados,  motivando  o  deslocamento  geral  de  judeus,  com   seus  passaportes  marcados,  tentando  migrar  para  outros  países.  A  dificuldade  de  receber  o  visto  de   entrada  num  país  e  de  se  apresentar  como  judeu  pode  ser  avaliada  de  forma  indireta  em  1943,  quando   Lasar  Segall  fez  uma  exposição  no  Rio  de  Janeiro  e  sua  pintura  foi  qualificada,  à  maneira  nazista,  de   "ʺarte  degenerada"ʺ,  provocando  uma  onda  antissemita  nos  jornais  da  época.  
Mostrar mais

10 Ler mais

Clarice Lispector: o livro da revelação do prazer

Clarice Lispector: o livro da revelação do prazer

RESUMO: Este artigo analisa as três epígrafes que abrem o ro- mance Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, de Clarice Lispector, como prenúncios do processo formativo que sua pro- tagonista vivenciará. Tratam-se paratextos que se articulam na tessitura de todo o romance, direcionando-o à renovação possi- bilitada pela morte dos estereótipos, conceitos sociais e pessoais de Loreley, personagem principal da narrativa. Percebe-se que o trio de citações (Bíblico, Poético e Dramático) além de possibilitar ao leitor uma observação quanto ao repertório de leitura – cultu- ral e literário – da escritora, evidencia uma perspectiva concisa e, ao mesmo tempo, ampla de significações do romance clariciano. Nota-se ainda que as três epígrafes comungam de um posiciona- mento metafórico/apocalíptico condizente à autoconsciência da protagonista, isto é, confluem à revelação, a tornar claro o que está obscuro no processo de ser e de estar no mundo de Loreley. A fundamentação teórica conflui, sobretudo, à pesquisa do crítico literário Gérard Genette concernente à obra Paratextos editoriais. PALAVRAS-CHAVE: Clarice Lispector; Epígrafes; Paratextos; Revelação.
Mostrar mais

12 Ler mais

Show all 6722 documents...